Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Comédia Teatral – Parte 1

Como era habitual às quintas-feiras, em casa do Sr. Coronel Ramalho (grande herói das campanhas do tempo em que os ventos lutavam contra os moinhos),reunia-se um grupo de amigos para um animado e silencioso serão a jogar às cartas.

O salão onde esses serões se realizavam era amplo, tendo ao centro uma mesa rectangular, e em sua volta, seis cadeiras também do estilo Luís XV, assim como o aparador e a cristaleira que a ladeavam. No tecto, um lustre de metal e vidro, do mesmo modelo dos quatro apliques situados em paredes diferentes, assim como várias molduras com fotografias de familiares, destacando-se entre elas, uma enorme fotografia do austero pai do Sr. Coronel Ramalho, conhecido na época como comerciante de vinhos a granel, com os seus grandes e torcidos bigodes, situada em frente onde habitualmente a Dona Augusta, a esposa do Sr. Coronel Ramalho, fazia a sua renda (ou malha), junto a uma das duas janelas do salão. Ao fundo colocado ao meio da parede, situava-se um enorme e barulhento relógio que marcava até os quartos de hora, ficando por baixo uma vitrina onde o Sr. Coronel conservava orgulhosamente as suas condecorações e algumas armas antigas, algumas das quais das guerra napoleónicas.

Este salão tinha três portas: uma com acesso às escadas que, descendo, davam para a rua; subindo, davam para o sótão onde a criada tinha o seu quarto, junto à sua casa de banho e despensa da casa; outra porta dava para um corredor que ligava à cozinha; e uma terceira para o quarto do casal.

Os convidados para o serão desse dia (que por sinal eram sempre os mesmos), ou seja, o Sr. Capitão Ribeiro, o Sr. Alferes Marques e o Sr. Sargento Humberto, ainda não tinham chegado.

Mais tarde apareceram dois encapuzados, completamente desconhecidos, nem se chegando a saber de onde vieram…

Entretanto, a criada, a Carmo (uma jovem lisboeta que dizia ter vinte cinco anos) aproximou- se da patroa, de nome Augusta…

Carmo: Minha senhora, por favor… Dona Augusta, dá-me licença?

Augusta: Levantando os olhos de um bordado que estava a fazer, por fim, respondeu para a criada: Entra, entra Carmo. Diz lá o que queres?

Carmo: Minha Senhora, tenho de ir ao supermercado fazer umas compras, pois, são quase vinte horas e depois eles fecham. A senhora quer que pague a dinheiro?

Augusta: Ai não!… pois… não tenho dinheiro trocado… Eles que assentem na minha conta, que depois pago. Mas, Carmo, não te demores, e não te esqueças que hoje é quinta-feira, e os convidados não tardam aí a chegar…

Carmo: Eu não vou demorar mesmo nada, Dona Augusta, fique tranquila.

Augusta: Então vai lá, pequena…

Pouco depois da criada ter saído, toca a campainha da porta…

Augusta: Quem será que está a tocar à porta? A Carmo não deve ser. Só se esqueceu alguma coisa…

A campainha volta a tocar, desta vez mais prolongadamente…

Augusta: – Não toque mais, pois eu vou já abrir…

Ao abrir a porta, a Dona Augusta teve uma grande surpresa, pois à sua frente estavam três homens encapuçados.

Augusta: Mas…mas quem são os senhores, o que me querem? Por favor não me empurrem, estou em minha casa. Não me empurrem…!

1º Encapuzado – Mulher, está caladinha, senão… olha esta faca. Deixa-nos passar e senta-te aí nessa cadeira, sossegadinha…

2º Encapuzado – Raio da mulher não está quieta. Rápido, amigo, amarra depressa esta “fera” aí a essa cadeira…

Augusta: Ah, mas quem são os senhores?!…

2º Encapuzado – Está quieta e cala-te! Tem muita calma, pois só queremos falar um pouco contigo. Está sossegada, mulher… Tem juizinho nessa cabeça, senão…

1º Encapuzado – Já te dissemos para estares quieta e deixares de chorar! Nós só queremos falar contigo… Olha que é um assunto que te interessa muito…

Augusta: Eu vou estar quietinha, mas por favor não me empurrem, nem me agarrem… Por favor…

2º Encapuzado – E ela não se cala nem está sossegada, hei… Ó mulher, ainda te mato. Ouviste bem? Ainda te mato!

Augusta: – Mas quem são vocês? Por favor, digam-me… O que é vocês querem de mim?!…

1º Encapuzado – Assim está bem. Continua calminha, pois, só queremos mostrar-te umas fotografiazinhas que temos aqui…

2º Encapuzado – E são fotografias de uma pessoa que tu deves conhecer muito bem… Vá lá, não vires a cara para o lado… Não te armes em pudica! Olha! Olha!…

1º Encapuzado – Abre, abre, não feches os olhinhos… Vê, vê… Por acaso, não conheces esta mulher que está toda nua… Deitada na cama com este homem?!… Não me digas que a não conheces? Vá lá, faz um esforçozinho de memória!…

Augusta: Mas… Mas eu não conheço essa mulher… juro por tudo que não a conheço ! Juro que a não conheço, mas larguem-me, larguem-me…

2º Encapuzado – Não nos tentes enganar, pois esta mulher é mesmo tu – tu, ouviste bem? Ou será que não te conheces a ti própria?!…

1º Encapuzado – Não te faças de tolinha, pois connosco, isso não pega – espertinha!

2º Encapuzado – Ó mulher, deixa-te de tretas, pois é melhor entrares em acordo connosco. Pensa bem e rapidamente, e não queiras fazer nenhuma asneira…

Augusta: Mas eu já vos disse que esta mulher que está nesta fotografia toda nua, não sou eu!… Volto a jurar por tudo, que não sou eu que, está aí toda nua!

2º Encapuzado – Ah, ah… És tu, és, não me consegues enganar, e por favor não me faças perder a paciência. Senão, daqui a pouco corto-te o pescoço… Assim…!!!

1º Encapuzado – Tem calma, amigo, pois deves ter uma certa paciência com esta mulher… E tu aí, mulher, para não ficares com o teu pescocinho cortado, é melhor resolveres entrares em acordo connosco. Senão, como deves calcular, o teu maridinho, o Sr. Coronel, vai saber tudo, tim-tim por tim-tim!!!…

2º Encapuzado – Como já deves calcular, a nós, não nos custa nada… Mas mesmo nada, fazer isso! Amigo, talvez seja melhor mostrar-lhe novamente as fotografias…

Augusta: Eu não sei como é que vos hei-de fazer crer que esta mulher que está aqui, nesta fotografia, não sou eu!!! Juro que não sou eu! Só se for… Só se for… A minha irmã – gémea, que se chama Liza. Já há muitos anos que a não vejo. Só se for ela.

2º Encapuzado – Já te disse que não venhas com essa mentira! És tu, tu, e só tu – e está tudo dito !!! Percebeste?

Augusta: Ai que vida a minha! Já vi que não adianta discutir com vocês… Mas, finalmente, o que é que vocês querem de mim? Mais uma vez vos digo que não sou eu…

1º Encapuzado – Já te disse para estares quieta e cala-te… Como já vimos que és boa mulher, vamos fazer umas continhas, e assim, por estas fotografias… sim, por estas fotografias só te vamos levar…

2º Encapuzado – Digamos… Dez mil e quinhentos euros!

1º Encapuzado – Como vês, é uma verdadeira pechincha: só dez mil e quinhentos euros. Até devia ser mais qualquer coisinha…

Augusta: Mas o que é que vocês estão p’ra aí a dizer? Dez mil e quinhentos euros, é pouco dinheiro? Olhem que eu nunca tive tanto dinheiro junto e em meu poder! Vocês são uns escroques, uns chantagistas…

2º Encapuzado – Toma mas é cuidadinho com essa língua, pois senão já sabes que te corto o teu lindo pescoço.

Augusta: Ai credo, homem!… Que aflição… Tire-me essa faca daqui do meu pescoço!… Ai o meu coração…

1º Encapuzado – Não te enerves, mulher, olha o teu coração… Nós não desejamos que você morra, antes de nos dar o dinheiro…

Augusta: Ai, o meu pobre coração até parece que vai rebentar!… Ai…

1º Encapuzado – Deixa lá o coração e vamos lá ao que mais interessa: tens ou não os dez mil e quinhentos euros? Se não tens, vai ao cofre do teu marido, o Sr. Coronel, pois ele deve ter lá muito dinheiro…

Augusta: Mas não é possível, pois eu nunca roubei nada a ninguém, e muito menos ao meu marido. Vocês estão doidos…

2º Encapuzado – Não me venhas cá com esses argumentos, pois para nós não pega. Vai depressa ao cofre e traz rapidamente o dinheiro. Vá lá, rápido!…

1º Encapuzado – E para tua orientação, enquanto não nos entregares o dinheiro, ficaremos cá em casa a fazer distúrbios. E tu nem calculas os distúrbios que somos capazes de fazer…

Augusta: O que vocês estão p’ra aí a dizer? Que ficam cá em casa? Mas onde?…

1º Encapuzado – Onde não interessa. Mas podes ter a certeza que ficaremos cá até recebermos a massinha toda. Não faças essa cara de espantada e nem tentes brincar connosco…

2º Encapuzado – E toma bem atenção: se por acaso tentares denunciar-nos, já sabes o que te vai acontecer: pescoço fora!

Neste momento toca novamente a campainha da porta …

1º Encapuzado – Amigo, espreita aí pelo óculo da porta… O que é que vês?

2º Encapuzado – É a criada. Olha que a «mamífera» tem cá um “cabedal” de género avião… Ai que bom… bonzinho… Ai… Que gatinha! Estou a ficar cheio de comichões…

1º Encapuzado – Deixa-te de parvoíces. Vamos esconder-nos atrás daquele sofá… Rápido e sem barulho. Cuidado não tropeces nesse fio… Esconde-te… Rapidamente…

2º Encapuzado – E tu aí “menina”… Olha para aqui para mim… Assim… Se não colaborares connosco, já sabes o que te acontece aos teu lindo pescoço… Olha que não somos para brincadeiras…

1º Encapuzado – E toma atenção: diz à criada que faça qualquer coisa que se coma, pois estamos esfomeados! Ela que faça um bom petisco para nós… Não te esqueças!

2º Encapuzado – Agora “menina”, vai lá abrir a porta, mas com juizinho…
Augusta: É inacreditável o que me está a acontecer… Eu nem quero acreditar!… Deve ser um sonho mau…

Falando um pouco mais alto, prepara-se para abrir a porta…

Augusta: Quem é?… Quem é que está aí a bater à portaaa?…

Carmo: Sou eu, minha senhora, a Carmo.

Augusta: Até que enfim que chegaste! Sempre que vais fazer compras, até parece que levas uma cadeirinha atras de ti… Deves dar um grande desgaste à tua língua ao falares tanto com as vizinhas…

Carmo: Mas, a senhora deve de estar enganada, pois desta vez quase que não me demorei nada. Fui num pé e vim noutro.

Augusta: Olha que não me parece. A mim, pareceu que demoraste quase uma eternidade. Olha, vai para a cozinha e prepara… Deixa cá ver…talvez uns pastelitos de bacalhau e, bem fritinhos…

Carmo: Pastéis de bacalhau a esta hora?…

Augusta: Não compreendo a tua observação, pois, a qualquer hora, podemos ter vontade de comer pastéis de bacalhau!

Carmo: A senhora é que manda. Vou já preparar meia dúzia de pastéis…

Augusta: Só meia dúzia?! São poucos! Nem calculas a fome que eu tenho. Prepara pelo menos uma dúzia e meia ou mesmo duas dúzias, de pastelinhos e bem fritinhos, não te esqueças.

Carmo: Não sabia que a senhora tinha deixado de fazer dieta para o tal regime de emagrecimento, que tanto falava! Isto de ser criada, tem muito que se lhe diga!

Quando a criada já se encontrava na cozinha, toca novamente a campainha da porta.

Augusta: Carmo, vai abrir a porta; ainda não ouviste a campainha?
====================
continua…

Fonte:
O Autor

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