Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel) (Sonetos Escolhidos 4)

OCEÂNICA

Na partida, um oceano de revolta
cala meu peito em descontentamento.
– Vais aonde? – eu pergunto – onda tão solta?
E ela me corta o coração por dentro.

Sou areia, sou rocha e, em meu tormento,
choro e declamo, e o fogo me devora;
qual vulcão que nos mostra o epicentro,
outro vulcão me nasce aqui por fora.

Na partida, eu prometo consolar-me
do vácuo que me tolhe. E, sem alarme,
no amor a Deus apenas me concentro.

Meu mundo é solidão, é só saudade
de quem levou minha tranqüilidade,
de quem partiu meu coração por dentro.

SOMBRA

Minha sombra soçobra no que flui,
No horizonte de um deus fendido em dois:
– O futuro, do qual se foge em “ui”!
E o passado das noites e dos sóis.

Aquele vem de pé, mas tão veloz
Quanto o outro não foge – e como influi!
Um é terrível santo e tão sem voz,
O outro, deus e o diabo… E a carne rui.

Já não banco o santinho nem o herói,
Embora herde, dos dois, olhos azuis
E haja chorado à treva e à cor que dói.

Já não tenho esperança numa foz
De doçura e de amor que a amor conduz.
Minha sombra soçobra em caracóis.

SENSITIVA

Nasci para sentir o mundo… E vivo
pelo meu, como as cores que resguardo.
Ai, flor sem nome, que à memória foge!
Tudo o que sinto é pele, estranho agrado.

Quanto mais me retraio mais me ativo,
quanto mais me esconder ou for me embora,
mais eu me amo por tudo o que em mim gosta
de sentir perto-e-longe e ser mais livre.

Sou como a sensitiva na floresta,
não fujo às agressões, me fecho e durmo,
os pirilampos que me façam festa.

Não é que eu sofra o sofrimento em calma,
é que conheço irônicas ternuras
das quais a vida nos consola ou salva.

SINGULAR

É singular criatura. Das pequenas
E grandes porque reina (não são teses),
A conduzir, no bucho, longos meses,
O filho – em seu olhar, carícias plenas.

Mais do que isto: a mãe limpa-lhe as fezes,
Ganha de tudo onde sofrer é estima,
Deusa, abaixo de Deus ela só rima
Na proteção do infante. E morre às vezes.

Pois que ela rege, em templo tão fecundo,
Um musical no ventre, o gineceu,
De onde viemos nós, não me confundo.

Depois de minha mãe, só eu, sou eu…
Mãe, o’ mães, porque há tantas neste mundo
Resiste a humanidade, e não morreu.

TERNURA MIÚDA

Pelas coisas serenas me contenho
se ternamente nasçam da vontade,
do amor e do carinho, da bondade
daquilo que mais prezo e pouco tenho.

Venham doces carícias pelo vento,
beijar-me a sutil nuca que me impele
a estremecer e subir do imo à pele,
e bem voar pelo espaço em movimento.

Os pequeninos vidros mais perfume
têm – que a filosofia não resume,
pois lhe falta ternura e tentação.

Nas invisíveis coisas me retiro,
nelas canto e me encanto e mais suspiro…
Todo o meu corpo é todo um coração.

ÚLTIMO OLHAR

Hora, afinal, de reconciliação
com os inimigos e os perseguidores,
sem alívio nenhum, trespassam dores…
Dos amigos? – O amor e a oração.

Como esquecer os gozos e a canção
da vida, o tempo em que teceu amores?
Vão colegas, vizinhos! Vãos clamores,
diante do horror dessa consternação.

Quero ligar-me a Deus, já na partida,
pra suportar o triste dos presentes,
numa clara humildade aborrecida…

Ah, recebo os divinos, santos óleos
e o pesar da mamãe e dos parentes,
com teu olhar por dentro dos meus olhos.

VELHAS PRAIAS

As velhas praias… Que saudade delas,
Do nosso idílio em dias juvenis:
– Uma moça e um rapaz banhando nelas,
Sem roupas, sem segredos, sem ardis.

Almas voando… Ai, como o tempo voa
Nas palmeiras cantando… Porque o vento
Entre arrepios no horizonte ecoa
Atento ao som, à luz, ao movimento.

Almas e corpos que amam tudo aquece,
São a chama, a pureza, são a prece
Que se eleva do mundo ao Criador.

No sul, no norte, as praias são lembranças
Do tempo em que conosco as esperanças
Eram certezas como o nosso Amor.

O ÚLTIMO BEIJO

Uma deusa te pega pela mão
contra inimigos e perseguidores,
abre o seio do leite dos amores,
e começa a tua fé no coração.

Os olhos dela encantam, na canção
da vida é tempo de tecer as cores,
e os amigos, e os campos e as flores,
diante dum palco de contradição.

O tempo vai passando em grande lida,
te envelheces, te cansas na subida,
e a glória alcançarás entre os escolhos.

A hora, enfim lhe chega, da partida,
banhado em pranto e d’alma recolhida,
um rosto de mulher beija teus olhos.

PERFUME E COR

Subi às ribanceiras desta via
sem nenhum fruto ou flor, uma que fosse,
mas fui andando e meu dia clareou-se,
e então me deslumbrei com o que via.

Era um jardim com flores tantas, belas,
de olores que não pude compreender.
E havia as donas desse alvorecer,
regando as outras flores, quais estrelas.

Cheiro de gente, de suor, de beijos,
das duas moças ouviam-se os solfejos,
e delas vinha um mundo de fragrância.

Ah, como é lindo se subir às ribas!
E é disto que se nutrem os escribas,
e que os poetas cantam sua infância.

MINHA LUZ

Muito gastei chorando… Eu era infante,
mas sorria também na idade mágica;
infância triste, sim, porém não trágica,
que me fazia um forte a cada instante.

Quando acordei do choro ante a verdade
e, enfim, por ver-me amado e não perdido,
risos mil fui construindo… E requerido
a subir, eu subi a tempestade

adolescente!.. E então rindo constante,
mudei de forma, alimentando a mente…
Eis-me, por fim, conquistador e amante.

E agora, bem melhor que antigamente,
sem sorrir nem chorar, vivo contente
a refletir-me em luz como um diamante.

LINGUAGEM VIVA

Tudo neste universo se transforma,
Já dizia Camões, poeta da gente;
O frio se derrete pelo quente,
O calor sobe, esfria e toma forma.

Os homens fazem guerra pela paz
Porque n’alma resfria o sentimento,
Como na dor se aplaca o sofrimento
Pelos remédios que a ciência faz.

O rio seca, a mata é só fumaça,
O verde se reduz à luz do dia,
Eis que assim tudo passa, tudo passa.

Mas não passa o caminho de quem ama
Na lembrança do amado, pois é chama
Como a linguagem viva da poesia.

Fonte:
O Autor

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