José Feldman (Universo de Versos n. 127 )

Uma Trova do Paraná

MARIA APARECIDA TABORDA FRANÇA
Curitiba


A Deus levantando os braços,
com elegância e vigor;
pinheiros, sem embaraços,
são beijos de Paz e Amor!
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Uma Trova sobre Ecologia, do Rio de Janeiro

JOÃO FREIRE FILHO


Ah… Quanta gente insensata…
Que não sente, ensandecida,
que, ateando fogo na mata,
mata os princípios da vida!
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Coração não tem idade
quando vive de lembrança;
se a lembrança tem saudade,
faz, da saudade, “esperança”!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Corumbá/MT

LÍCIO GOMES DE SOUZA

Na História o fato maior
está por vir, aliás:
– Vir num mundo melhor,
em pacto eterno de paz.
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Uma Trova Humorística, de Santos/SP

ANTONIO COLAVITE FILHO


 Ao “bebum” que choraminga,
o doutor não mais engana:
-“Se, por lá,cana dá pinga;
por aqui, pinga dá cana!!!”
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Ninguém calcula essa dor
no coração dos mortais…
Quando a saudade é de amor,
a dor é cem vezes mais !
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Uma Trova Hispânica, da Venezuela

LUIS ALFREDO RIVAS MAZZEI


Por la orilla de la acera
un hombre mira y camina
a buscar su compañera
a la vuelta de la esquina.
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Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Cantagalo/RJ

RUTH FARAH N. LUTTERBACK


É crime fazer queimadas
– a Terra corre perigo:
vidas são ameaçadas
de morte ou de desabrigo…
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Trovadores que deixaram Saudades

VIRIATO CORREIA
Pirapema/MA


Se teu nome pronuncio,
eu sinto no coração
toda a frescura de um rio,
todo o calor de um vulcão.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


A minha esposa… o meu Lar…
Os meus livros… meu filhinho…
– Tu jamais hás de encontrar
ventura igual noutro ninho!
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Um Haicai de Santos/SP

RICARDO RUTIGLIANO ROQUE


o vento nas folhas—
um nariz vermelho aponta
geada no caminho
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Chorei na infância insofrida
para na roda ir cantar.
Hoje, na roda da vida,
eu canto pra não chorar.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)


noite sem sono
o cachorro late
um sonho sem dono
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando José Lucas
Entrar no Céu Sonhando


MOTE:
Sei que, deste mundo lindo,
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.

GLOSA:
Sei que, deste mundo lindo,
o meu tempo está escasso,
mas continuo sorrindo…
Sou feliz, por onde passo.

Tenho sim, plena certeza,
vou sair, só não sei quando,
vou deixar esta beleza:
o mundo, que estou amando!

Dias e noites, vão indo,
e a morte ronda por perto…
Mas quero morrer dormindo,
morrerei feliz, por certo!

Vou dormir, tal qual criança,
mil sonhos acalentando,
não perderei a esperança…
Para entrar no céu sonhando.
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Ora a Vida! … Deixa-a andar,
não queiras da vida ter
o que ela não possa dar,
nem tu possas merecer…
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


vela acesa
testemunha olhares
sobre a mesa
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Galáxia de Versos da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


A tosse insistente
que vem do quarto da filha –
Insônia para todos.
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Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Soneto mitológico


Próximo, o lago em que se lança a fonte
Onde Canace a frauta rude escuta,
Que lhe diz que o irmão de meiga fronte
Fauno vencera na porfiada luta. Propícia é a

Noite cujo manto enluta
De Flora o reino todo, o bosque, o monte…
Fora, a campina, o intérmino horizonte…
Dentro, o Mysterio na encantada gruta.

O Segredo a espreitar. A sussurrante
Asa passa de Amor. No pétreo solo,
De musgo o leito e de hera verdejante.

E enquanto fora os ventos solta Eólo
Lá dentro o filho, trêmulo, arquejante,
Beija da irmã o incestuoso colo.
============================
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Candeia Viva


Que não se alegrem os maus
Porque a vida é transitória;
Nós todos estamos presos
Na candeia da memória.
========================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Caminhada


Amuado no meu canto solitário,
Sinto a vida fugir devagarinho
Levando junto a dor desse calvário
Que construí ao longo do caminho.

Em cada passo vejo o meu passado
Na estrada que parece não ter fim
E fito o tempo quase desbotado
Na pouca luz que ainda brilha em mim…

 E assim vai rompendo a desesperança,
Deixando a dor sofrida para trás
Na imagem fosca de terna lembrança!

 Bate a saudade, como por vingança,
Do meu passado que não volta mais
Do doce tempo quando fui criança.
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Marinha


 O barco é negro sobre o azul.
Sobre o azul os peixes são negros.
Desenham malhas negras as redes, sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.

Negras são as vozes dos pescadores,
atirando-se palavras no azul.
É o último azul do mar e do céu.

A noite já vem, dos lados de Burma,
toda negra,
molhada de azul:

– a noite que chega também do mar.
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Coração Deserto


quanto mais os dias passam
mais me sinto tão sozinho
coração deserto e sonhador
a procura do caminho certo

muitas vezes as recordações
de um amor que ficou para trás
de repente nos tira do chão
são coisas que o amor nos faz

pra acabar com esse vazio
pra que eu possa te encontrar
aqui meu bem faz tanto frio
e só me resta então cantar

no deserto do meu coração
ainda há uma porta aberta
o vento corta a minha solidão
e eu canto essa canção romântica
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


dessa cerração
só me lembro do apitar
do trem indo longe
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

A Assombrada


Alma viva assombrada pela morte,
Com ela tive grande intimidade
Que mudou-me o tom da realidade
E fez a minha vida bem mais forte.

Alto preço a pagar pela Poesia,
Acordar na alta noite em pleno frio
A apertar o peito em agonia
De onde brotam versos como um rio…

Ou então correr para o espelho
Para reintegrar-me em minha imagem
Que quer dissolver-se no vermelho

Do sangue desta vida, ou cabeleira
Que coroa a forma branca de miragem
Que anseia já perder-se na poeira…
============================
Uma Poesia de São Paulo/SP

ELIZABETH MISCIASCI

Olho no olho…


Dos meus medos faço canção
embalando meus sonhos em desatino.
Desvairada num anseio turbulento
de quem se despede da razão

Envolta persisto e desisto
insegura me entrego aos desvios
do vazio que minh’ alma teme
meus dias são passados distantes
Versos sem rimas que se apagam
Folhas secas caindo a fremir
Atroz aparente disfarçada audaz
arsenal revestida conclamo concisa

Mar a ser atravessado
sem barco nem remo
Necessidade de transpor
lanço-me neste fluxo

Incerteza é direção
niilismo insistente
desordenada renego
este meu perecimento

Canção que me decompõe
harmonia espacejada sem ritmo
procriada dos meus medos
transformados mau grado e solidão.

Olho no olho
encaro meu ego sem receio
sou de mim mesma esteio
Dos meus medos, faço canção.
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


A sorte foi bem marota
para o pobre do Aristeu,
fazendo morrer de “gota”
quem só da “pinga” viveu.
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Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Quero


Quero um dia inteiro de sol.
Quero toda a força da chuva
caindo no coração.

Quero saciar meu corpo e esgotar minha alma,
para depois
esgotar meu corpo e saciar minh’alma.

Quero saciar o insaciável,
esgotar o inesgotável,
atingir o inatingível.

Quero esconder minha face,
e revelar ao mundo meus segredos.

Quero o êxtase poético,
livrando-me das correntes
que prendem meu pensamento.

Quero aquele resto de gim
que deixei no copo por cautela.

Quero a paz,
eterna esperança
que a chuva traz.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

LENGALENGA DOS ANIMAIS

 –
 Tenho um cãozinho
Chamado Totó
Que me varre a casa
 E limpa o pó.

Tenho um gatinho
Chamado Fumaça
Que me lê histórias
E come na taça.

Tenho uma vaquinha
Chamada Milu
Que me limpa os móveis
E cuida do peru.

Tenho um periquito
Chamado Piolho
Que me limpa a chaminé
E coze o repolho.

Tenho um peixinho
Chamado Palhaço
Quando vai às compras
Usa sempre um laço.

Tenho uma porquinha
Chamado Joana
Que lava a loiça
E me faz a cama.

Um dia escorregou
E caiu no chão
Oinc… oinc… oinc…
Que grande trambolhão!

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Canção do Amor Imprevisto


Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos…
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita…
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Felicidade Possível


o peixe em seu aquário
o pássaro em sua gaiola
a bailarina em sua caixinha
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O Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Uma maior solidão

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim…
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

A Casa


Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.
============================
Uma Poesia de Portugal

ALEXANDRE O’NEILL

(Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill de Bulhões)
Lisboa/ 1924 – 1986
 –
Minuciosa formiga


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Embora desiludida,
alma cansada e sincera,
por muito te doa a vida,
não desanimes!… Espera!
============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Reflexo de prata:
Luar despeja-se no mar
— Espelho do céu
================================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Pode ver a métrica
Para moldar estes versos
só com serra elétrica
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

 De Passagem …


Você passou por mim, imprevistamente,
nesse perfume …

Nesta manhã de sol
será que eu também passarei por você
num vulto anônimo qualquer,
numa fala? num gesto?
ou na própria manhã, que imprevistamente desenterra
estátuas de lembranças, incólumes…

Ou você me esqueceu no passado,
na sombra, onde não há sol, não há talvez,
… e nem uma flor nascerá em sua lembrança
de quando em vez?
============================
Um Soneto

MARCOS MELO

Meiga Dormia


 Enquanto aqui eu escrevia
 Minha bela tão linda sonhava.
 O meu olhar a procurava
 Numa lembrança que já não havia.

 Minha bela tão meiga dormia
 Enquanto seu leito eu velava.
 Sob meus olhos respirava,
 Seu coração ao bater eu sentia.

 Assim pelo escuro eu fiquei
 Até que o sol veio a surgir.
 Uma luz em seus olhos: o refletir.

 Ali em silêncio eu fiquei
 O cansaço pude resistir
 Pra simplesmente vê-la dormir.
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Dessas coisas que a vida leva e traz,
lembro um fato do meu interior:
o rapaz era louco pela moça
que a má sorte feriu com grande dor
e levou-a pra longe, sem alarde.
Quando trouxe de volta foi tão tarde,
que não houve mais chances para o amor!
============================
O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Rosas Brancas


Rosas brancas do santuário,
são como cristais em manhã de inverno.
Refletem o encanto dos campanários,
e têm um rosto de sonho eterno.

Dou-te um bouquê de brancas rosas
para que te adornem por toda a vida.
No teu puro linho, em verso e prosa,
borde-as sempre, pela alma florescidas.

Que pelos mares da vida, em sábio norte
naveguem teus poemas a mágicos horizontes
encantando ondinas, estrelas…imensidão.

São rosas brancas que o universo doa
esses teus versos em cujas asas voam
os mais belos sonhos do coração.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras

EMILY DICKINSON
Estados Unidos (1830 – 1886)

Morri pela Beleza


Morri pela Beleza – mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado –

Perguntou baixinho “Por que morreste?”
“Pela Beleza”, respondi –
“E eu – pela Verdade – Ambas são iguais –
E nós também, somos Irmãos”, disse Ele –

E assim, como parentes próximos, uma Noite –
Falámos de uma Casa para outra –
Até que o Musgo nos chegou aos lábios –
E cobriu – os nossos nomes –

(Tradução de Nuno Júdice)
============================
O Universo de Adélia

ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

O Vestido


No armário do meu quarto
escondo de tempo e traça meu vestido
estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas
vermelhas à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Ouvir Estrelas


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
============================
O Universo de Drummond 


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema da Purificação


Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
============================
UniVersos Melodicos

David Nasser e Rubens Soares

NEGA DO CABELO DURO

(batucada/carnaval, 1942)

Apresentando semelhanças com a melodia do velho samba de Sinhô, “Não Quero Saber Mais Dela”, a batucada “Nega do Cabelo Duro” foi um dos destaques do carnaval de 42, nas vozes dos Anjos do Inferno.

Numa época em que ninguém se preocupava em ser ou não ser politicamente correto, a composição satirizava o cabelo da personagem (“Nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia?…”) e a moda feminina, então no auge, de frisar os cabelos (“Misampli a ferro e fogo / não desmancha nem na areia…”), a chamada ondulação permanente. Aliás, os temas capilares predominaram no carnaval de 42, pois, além de “Nega do Cabelo Duro”, fizeram sucesso as marchinhas “Nós, os carecas” e “Nós os Cabeleiras”.

-Nega do cabelo duro
-Qual é o pente que te penteia ?
-Qual é o pente que te penteia ?
-Qual é o pente que te penteia ?

-Quando tu entras na roda
-O teu corpo serpenteia
-Teu cabelo está na moda:
-Qual é o pente que te penteia ?

-Misampli a ferro e fogo
-Não desmancha nem na areia
-Tomas banho em Botafogo
-Qual é o pente que penteia ?

(Fonte: http://cifrantiga6.blogspot.com.br/2006/05/1942.html)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

Festa dos insetos


A pulga e o percevejo
Fizeram combinação.
Fizeram serenata
Debaixo do meu colchão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga toca flauta,
O Percevejo violão;
E o danado do Piolho
Também toca rabecão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga mora em cima,
O Percevejo mora ao lado.
O danado do Piolho
Também tem o seu sobrado.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

Lá vem dona pulga,
Vestidinha de balão,
Dando o braço ao piolho
Na entrada do salão.

Fonte: http://cifrantiga7.blogspot.com.br/2010/10/festa-dos-insetos.html

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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

A lágrima súbita


Porque o medo não é outra coisa
senão o desamparo da reflexão.
(Livro da Sabedoria, 17,12)

Nenhuma grande chuva
jamais encheu
o mar;
nenhuma seca do Ceará conseguiu baixar
o nível das águas
deste mar-oceano;
logo,
esta lágrima súbita,
neste mar salgado, é inútil
como volume.

– De que medos tenho coisa?
Transito eu – ela disse – entre o abismo
e a lembrança;
que agora,
neste borrifo de espuma e brisa,
os escorridos da minha face me confundem:
– serão de mim,
serão do mar? –
– De que medos tenho eu?
Por que agora uma lágrima,
nascida num canto de minha face,
quando lágrimas
só as conheço de alegre?
Seria este azul de mar
profundo, fundo,
cheio, soturno,
a fonte obscura do meu terror? Se eu chamar a reflexão,
aplacadas serão minhas aflições?
Ou, mais prudente clamar pelo sonho,
que prefiro imaginar, agora: (optei pelo sonho,
claro que é sonho) esta vontade de fugir
e cavalgar horizonte e brisa,
tanger os ventos no corcel dos meus cabelos,
navegar os azuis e céus na esquina de minha face
e quando gritar por lágrima,
venha, senhora lágrima,
eu quero
eu preciso chorar,

e de surpresa,
quando olhar de lado,
é sonho, claro que é,
reencontrar,
no vento ligeiro,
a fuga dos teus olhos!?
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Movimentos


a textura do linho
amassado no uso
em voltas
volteios
e faz de conta
 
o algodão trabalhado
na textura
e cor
       do branco horizonte
       sobre a seca terra
       vista ao longe
 
a roupa engomada
que veste
e sai

o homem e sua roupa
no (mesmo) movimento.
=============================
O Universo Poético de Estrela

ESTRELA RUIZ LEMINSKY
Curitiba/PR (1981)

Fazer o Quê

 –
Fazer o quê se sou assim
Se em cada coisa que eu toco
fica o jasmim

Fazer o quê se estou aqui
metade em você
metade em mim

Você está em tudo o que eu gosto
O que quer quando me olho?
Se em tudo que eu pulso
você vibra
Se em tudo que é certo
está teu projeto

com 3 letras teu nome
Meu sobrenome incompleto
Agora não quero
menos que tudo
E um pouco mais
não acerto
================================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Amor Tem Lugar Certo

(Acróstico-Poético nº 5071)

A-Amor verdadeiro, quando é descoberto,
M-Mostra logo, para o mundo inteiro
O-O que não consegue mais esconder:
R-Revelação incontida de peito aberto
 –
T-Traduz a chama em lugar certo, ao primeiro
E-E inesquecível gesto que consegue prender
M-Muitos planos, contos em sonho faceiro!
 –
L-Luz que faz o olhar brilhar mais e melhor!
U-Uma pulsação acelerada vê produzir
G-Grande quantidade de serotonina ou
A-Abraços, beijos, carinhos, carícias, dor,
R-Recordações que um dia farão sofrer;
 –
C-Com a ausência ou incerta despedida
E-Entristecido quando o amor não acontece
R-Resolve partir! O que fica triste, sem sorrir,
T-Terá nas lembranças eternas do passado
O-O fantasma, companheiro do presente.

   —SAUDADE DEMARCADA!—

Belo Horizonte, 21 de abril de 2013.
Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/acrosticos/4251622
==========================
O Universo Poético de Celito

CELITO MEDEIROS
Curitiba/PR

Um Soneto para Machado de Assis


Machado de Assis deixou duas frases para serem usadas por poetas para um SONETO (a primeira e a última) e assim fiz:

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura
Onde está a sua origem e fonte de vida?
Não vejo solução nesta minha amargura
Nenhum remédio para curar esta ferida

Tenho lutado para obter minhas vitórias
Sair do lamaçal que prende os humanos
Entender a filosofia perpetuando glórias
Com a liberdade do saber destes fulanos

É como o caranguejo fora do mangue
Não acreditar viver além desta malha
Onde é formada a verdadeira falange

Manter minha honra não é uma falha
Sair do jogo, esvaindo-se em sangue
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Minha Mãe

(Imitação de COWPER)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera
Viver feliz com minha mãe também!
C. A. De Sá

QUEM Foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: – é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor – anjo do bem
Minha fronte infantil – encheu de rosas
De mimosos sorrisos? – Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.
Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? – Minha mãe’
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: – minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma
Para ter minha mãe!
==========================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Amor impróprio


Quando enfrento com coragem,
esse labirinto de emoções perturbadoras,
dou de cara com esse amor obsessivo
e impróprio, que devasta meu coração.
Confesso, com vergonha, que te quero
mas, sei que você, não poderá jamais,
ser o amor que quero para mim.

Você já tem seu amor e
faz dele sua bandeira de vida.
Vou à sua casa todos os dias,
e chorando, confesso, não o meu amor
mas, outra coisa qualquer,
somente para ter o prazer,
mesmo que por alguns minutos,
de ficar perto de você.

E até nesse momento, meu amor,
ficamos separados por uma janelinha,
na qual, mal posso ver o seu rosto.
Veja só, a que destino estou fadada:
Você escolheu a batina,
e eu, escolhi você!…
=======================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Só Lembranças


Quero apenas guardadas na memória
as alegrias que a vida me ofertou
e passaram a fazer parte de uma história
que sobrevive ao tempo que passou.
Não quero que elas sejam registradas
ou que delas se guarde imagem ou som
para que um dia as mentes já cansadas
tenham que relembrar como era bom.
Vamos viver portanto esses momentos,
desfrutando-os nos minutos e segundos,
e então, quem sabe, os nossos sentimentos
guardados nos mais negros e profundos
vazios que se abrirem em nossa mente
dirão que já vivemos no melhor dos mundos
e que tudo podia ter sido diferente.
=============================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Cantiga do Viajante sem Sono


Não podem dormir os meus olhos,
não podem dormir,
porque a serrana diz

que quisera ver-me amanhã.
Não podem dormir os meus olhos,
não podem dormir,

porque a verei no prado,

porque a verei amanhã.
==============================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.
=========================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Arte de Amar


Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma. Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Consolo na praia …
========================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

SONETO 13


Ah, se pudesses ser quem és! Mas, amado,
Tens a vida apenas enquanto ela pertence a ti.
Deverias te preparar para um fim tão próximo,
E a outro emprestar o teu doce semblante.

Assim, se a beleza que deténs em vida
Não tiver um fim, então, viverias
Novamente após a tua morte,
Quando a tua doce prole ostentasse a tua doce forma.

Quem poderia ruir uma casa assim tão bela,
Cuja economia em honra se poderia prevenir
Contra o vento impiedoso dos dias frios,

E a estéril fúria do eterno estupor da morte?
Ó, quanto desperdício! Meu caro, sabes
Que tiveste um pai: deixa o teu filho dizer o mesmo.

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