Cantinho do Prof. Pedro Mello (Como Definir Adequadamente o que é Trova?)

A trova é um poema composto de uma só estrofe de quatro versos de sete sílabas, com rimas em pelo menos dois. Como se trata de um poema condensado em quatro versos, a trova deve ser uma composição autônoma, ou seja, para que a quadra seja considerada uma “trova”, não deve ter interdependência de sentido com outra quadra anterior ou posterior.

Tradicionalmente, seu esquema de rimas é bastante variável. Somente no século XX com o advento do movimento trovista, passou-se a cultivá-la com o rigor das rimas entre o 1º. e o 3º. verso e entre o 2º. e o 4º., como no exemplo que segue, de José Maria Machado de Araújo:

Neste mundo que nos cansa,          -ANSA A
tanta maldade se vê,                          -Ê            B
que a gente tem esperança,            -ANÇA  A
mas já nem sabe de quê!                  -Ê            B

Entretanto, antes do século XX este esquema não era obrigatório, visto que não existia uma “instituição” formalizada que se dedicasse ao seu cultivo. Dessa forma, outros esquemas de rima eram bastante comuns, como o esquema ABCB (rimas apenas nos versos pares), ABBA (o 1º. rima com o 4º. e o 2º. com o 3º.)

No primeiro concurso de trovas promovido pelo movimento trovista (Nova Friburgo, 1960), uma das trovas vencedoras, de autoria de Octávio Babo Filho, não tinha as duas rimas, modelo exigido e consagrado pelos concursos posteriores:

Se todo mundo soubesse           -ESSE   A
quanto custa querer bem,         -EM      B
quanta gente gostaria                  -IA        C
de não gostar de ninguém!        -EM      B

Modernamente, poetas que não pertenceram ao movimento da trova escreveram de maneira mais livre, como Mário Quintana (1906-1994), que compôs algumas trovas e as publicou em alguns de seus livros. As trovas a seguir são de seu livro “A cor do invisível”, de 1989, publicadas com títulos, ao contrário do costume dos concursos de trova, que é a publicação sem título.

A esse respeito, inclusive, cabe um comentário: os livros e manuais publicados com o intuito de ensinar a composição da trova são unânimes em dizer que ela dispensa título. Um grave erro, a nosso ver. Nenhum poema dispensa título. Aliás, nenhum texto dispensa título. A ausência de título deveria ser uma opção, não uma imposição.

O Poeta

Venho do fundo das Eras,
Quando o mundo mal nascia…
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!

Trova

Coração que bate-bate
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão batendo sem sofrer.

Trova

Quem as suas mágoas canta,
Quando acaso as canta bem,
Não canta só suas mágoas
Canta a de todos também.

A Trova

Trova: soneto do povo,
Flor de nostálgico encanto…
Todo o infinito do amor
Numa só gota de pranto.

Em seu livro “Segredos do Bom Trovar” (p. 16), Maria Thereza Cavalheiro cita três exemplos de trovas com outros esquemas de rima. De Lacy José Raimundi, esta com esquema ABBA:

Para aninhar-se em meus braços,
a gata angorá ronrona,
enquanto imagino a dona
saudosa dos meus abraços!…

De Ayrton Christovam dos Santos, esta com rimas emparelhadas (AABB):

Sempre que as cores do sol,
tingem de luz o arrebol,
sinto que ali está presente
a força do Onipotente…

E de Oswaldo Nascimento esta interessante trova monorrima (AAAA):

Densa e leve… Úmida e fina,
no céu bailando, a neblina
lembra a rendada cortina
de um leito de bailarina.

Muitas vezes a tendência humana é confundir causa com efeito, como no célebre chiste da propaganda da bolacha Tostines: “Tostines é fresquinho por que vende mais ou vende mais por que é fresquinho?

No caso da trova, o idealizador de seu movimento, Luiz Otávio, ao publicar seu livro “Meus irmãos os trovadores”, em 1956, lançando as bases do movimento trovista, equivocadamente definiu a trova como sendo “a composição poética de quatro versos setissilábicos, rimando, pelo menos, o segundo com o quarto, e tendo sentido completo”.

Diz um velho ditado que “o uso do cachimbo faz a boca torta” e com referência à trova postulamos que seja verdade. Como a definição formulada por Luiz Otávio só admite a rima entre o 2º. com o 4º. e com o passar dos anos as trovas para concursos devam obrigatoriamente ser compostas com rimas ABAB, muitos acham que outras formas… não são trovas! Ou usam o termo “quadra popular” para desmerecer outras formas de composição da trova. 

A definição de Luiz Otávio está equivocada por pelo menos três razões:

a) a expressão “composição poética” é dúbia de sentido, visto que a palavra “poética” admite mais de um sentido: é poética porque é feita em versos ou é poética porque tem poesia? Não seria melhor “composição versificada” ou, simplesmente, “um poema”?

b) há trovas em que o segundo e o quarto verso não rimam. Quer dizer que não são trovas?

c) é tautológico dizer que tem “sentido completo”, pois todo texto deve ter sentido completo. Dessa forma, a definição proposta por Wanke (A trova, 1974), “composição versificada independente” parece mais completa e abrangente. Mais simples e exata, “um poema composto de uma estrofe de quatro versos de sete sílabas, com rimas em pelo menos dois” seria uma definição suficientemente clara.

A trova, conforme cultivada ao longo das décadas de movimento trovista, ficou engessada. Para alguns, trovas fora da definição de Luiz Otávio não são trovas, são “quadras” e estão erradas. Outros esquemas de rimas ou até mesmo a não-obrigatoriedade das duas rimas (ABCB, ABBC…) poderiam oxigenar a trova, permitindo a seus amantes alçar outros voos.

Já fui pessoalmente criticado por admitir outras formas de trova, como se a definição de Luiz Otávio fosse sagrada e imutável. E se admitíssemos outras possibilidades?

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/4487280

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