Goulart Gomes (Poemas Avulsos)

O ANALFABETO IDEOLÓGICO
ou Carta Aberta a Herr Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto ideológico.
Ele desconhece a importância
do respeito ao ser humano
e é capaz até de destruir tudo à sua volta
pelas suas crenças.
Ele é o pai de todas as guerras.
O analfabeto ideológico é tão burro
que ignora que milhões de pessoas foram mortas
em Auschwitz, em Kronstadt, no Arquipélago Gulag,
em Hanói, em Saigon, em Leningrado, Havana,
Hiroshima e Nagasáki
pela ignorância dos politicamente alfabetizados.

O analfabeto ideológico já não se lembra
do napalm atirado em crianças, no Vietnã
dos tanques esmagando jovens em Beijing
nem da Primavera de Praga.
Ele esqueceu dos desaparecidos
no Araguaia, em Buenos Aires,
em Santiago do Chile.
O analfabeto ideológico
explode bombas contra católicos e protestantes
em Dublin
e contra judeus e muçulmanos
em Jerusalém.

Não sabe o imbecil que da sua ignorância
nasce o mutilado, o órfão,
o neurótico de guerra, a viúva,
las madres de Plaza de Mayo,
as ditaduras.
Tudo isso porque
o analfabeto ideológico tem uma visão estreita,
uma amnésia do passado
e nenhum compromisso com o futuro.

Já leu todas as biografias dos grandes estadistas,
mas nunca a do Mahatma Gandhi,
que foi líder sem ser governante
e por isso desconhece ahimsa:
a lei da não-violência.
Em seu radicalismo
ele não ouve, não respeita, não conhece
(ainda que seja para criticar)
outras ideologias, que não a sua.

Ele está preocupado em promover
a discórdia, o confronto,
e não tem o menor respeito à Vida:
nem à sua, nem à dos outros.

L’ANA

A tarde amorenava o dia
permutando cores onde pousava
o seu toque
Lançava sobretudo sua tez
abria um leque à cara do sol
e tingia de penumbra os espaços
dos olhos dela fugia a claridão
e à volta se tingia
aquela cor de pele
espargindo a noite

A quem contar segredos?
Inútil degredo dentro
de nós mesmos
ânsia de ouvir espelhos
clamor de anos que não vieram

L’Ana e su’alma de caranguejo
subterrânea/submarina
tenazes fortes e cor baiana:
a mais doce mistura destas tendas;
seu corpo espraia-se
num descobrir de terras macias
além do Oceano (rio mais grande,
lágrimas de Orixá)
dança, noturna, feito estrela
lua-mãe cheia nos leitos
de um homem e dos rios
fazendo canastras de tarot
Só L’Ana amortece a dor
no parapeito do riso
e seus lábios rubros e ciganos
traçam caminhos, deixam vestígios
úmidos no meu corpo
e palavras em gemidos

TEMPO FARPADO

Matamos o tempo; o tempo nos enterra
(Machado de Assis)

arame farpado
o Tempo recurva
até os pregos;
nos ferros
depõe suas marcas
amarga as madeiras
descendo as ladeiras
dos dias

A flor impera
promessa da semente
e do húmus da terra
espinhos e farpas
não cortam o vento

(o Tempo se cala)
a pétala fala
também somos eternos

DÁDIVA DA VIDA

a ninguém devia nada
no colo, apaixonada
deu por si

ALUNISSAR
um dia chegarei com passos firmes
sem cavalo
e não direi palavra;
o simples gesto da presença
apaga mágoas
e pressupõe surpresas

será um dia comum
– nenhuma ânsia –
com sol, nuvens e pássaros
no rádio, alguma música romântica
estará tocando
a torneira da pia, como sempre
pingando

um dia chegarei em silêncio
e tudo flutuará
por absoluta falta de gravidade

ISTMO

ela, tão triste
ele, tão ausente
nem a lua se fez presente

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico. 2003.

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