Nilto Maciel (Contistas do Ceará) José Alcides Pinto

José Alcides Pinto (São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, 1923 – Fortaleza/CE, 2008) foi poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário. Como poeta, é considerado um dos melhores do Ceará, ou, por que não dizer, do Brasil. Seus romances são excelentes. Alguns críticos o aproximam de Sartre, Camus, Rimbaud, Baudelaire (que é até personagem de um de seus contos), Augusto dos Anjos e outros monstros sagrados da literatura universal.  O conto não é o gênero de sua maior predileção, pelo menos enquanto escritor. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”.

Algumas narrativas de José Alcides Pinto são maravilhosas, como “Domingão”, “Animal” e “Avelino”. JAP é tão meticuloso, reescreve tanto as suas obras, que há neste livro dois contos quase totalmente iguais: “Isabel” e “Como evitar o monstro”.

 Uma curiosidade: no “livro primeiro”, intitulado “Editor de Insônia”, os títulos de todos os contos têm apenas um vocábulo. O que não significa falta de imaginação. Machado de Assis deixou diversos contos com títulos muito simples, como “D. Benedita”, “O Empréstimo”, “Fulano”, “Uma Senhora”, “Mariana”, “D. Paula”, “Viver!” e outros.

Outra curiosidade: teria o contista escrito uma narrativa intitulada “Editor de Insônia” e resolvido excluí-la do livro? Teria mudado aquele título, reescrevendo o conto? Nesses casos, deveria ter dado outro título ao volume.  Ou o título teria sido criado apenas para dar título ao livro? Nesse caso, somente numa análise mais profunda seria possível ao leitor descobrir alguma relação entre o título geral e os contos.

A presença de Edgar Allan Poe é visível em alguns contos: a maldade, a obsessão pelo mau, a impiedade de algumas personagens. E também o mistério, o terror, como nos contos já mencionados e em outros. “Ando ultimamente cheio de terror. Imagino-me, à noite, possuído pelo animal, comendo-me as vísceras, dominando-me com seu olhar surdo.” (“Animal”). Todo o conto “Avelino” é de pleno terror. A personagem, logo após morrer, é devorada por piolhos, bichos-tapurus, bichos-vermes, estranhos parasitas. Uma orgia sem tamanho. “O que não ficou bem claro – isso sim – é como sendo tão asseado, Avelino dos Santos, e tendo morrido de repente, e principalmente em se tratando de um homem dado à religião, fosse seu corpo repositório de tantos bichos.”

Merece também destaque a narrativa “O Fogo das Paixões”. As cenas de sangue, assassinato, esquartejamento, motivadas por ciúmes e paixões, são de um naturalismo radical.

Algumas narrativas são sonhos ou alucinações das personagens. O narrador às vezes faz questão de informar ao leitor tratar-se de fato real aquilo que vai narrar: “Se assemelha mais a um sonho o que vos vou contar, mas tal se passou de verdade, sem nada ter de fantasioso.” (“Irmãs Gêmeas”). Outras vezes o próprio contista se antecipa ao narrador, intitulando os contos: “O Sonho”, “Outro Sonho” e “Os Sonhos”. Em “O Corpo e a Alma” o narrador afirma: “Como os sonhos são poderosos e como as ilusões são belas.” No entanto, a narradora de “Restaurante Comunitário” conclui sua pequena “história” assim: “Eu nunca sonho.”

 Casas antigas, casarões mal-assombrados são ambientes de algumas histórias. E também casas de prostituição, fazendas abandonadas, manicômios, conventos de freiras. Em “Domingão” há dois lugares, um no passado da personagem principal – “Criado na caatinga.”- e outro no presente – “o povoado”. Do povoado são mencionados o cemitério e a casa, construída por Domingão “num cotovelo de rua”.

As personagens são sempre muito sofridas, mesmo as crianças. Porque envelhecem logo, às vezes na segunda página da narrativa. Como em “Composição Escolar”. Em “Animal”, o narrador – o suposto ser humano – inicia assim a sua história: “De repente minha empregada começou a andar de gatinhas.” A empregada é o animal, segundo o narrador. Nem sequer tem nome. Tem somente atitudes de bicho. Por isso, “no dia em que abocanhar-me o calcanhar, atiro-a pela janela do apartamento”, conclui o narrador. Não quer dizer que não existam personagens mais comuns no livro. Há-os, sim, como os filhos desnaturados diante da mãe moribunda; Pereirão e sua jovem mulher, quase menina; o casal de velhos; a adolescente sedenta de sexo ou dinheiro e o turista nigeriano; e outros.

Em que cidade vivem as personagens de José Alcides Pinto? Nenhuma cidade é citada nos contos. Não há qualquer referência a nomes de logradouros públicos. Aqui e ali aparecem nomes de cidades, porém não como palco das cenas narradas. “No fim da semana chegaram, do Rio de Janeiro, Frederico e Ducas.” (“Inspetor”). Os nomes das ruas não aparecem, como neste trecho: “É forçoso tornar público o que testemunhei da janela de meu apartamento, no oitavo andar do edifício onde moro, aqui na artéria principal da cidade.” (“O Fogo das Paixões”). Em “Apontamentos Importantes” há uma referência à Ribeira do Acaraú, com nota de pé-de-página.

O “livro segundo” é constituído de contos e peças literárias de gêneros variados ou indefinidos. Daí a impropriedade do título geral do livro, assim como do próprio “livro segundo”. “A Lição” é a narração de um episódio vivido pelo escritor. Pelo menos assim entenderá o leitor que o conhece de perto e sabe de sua decisão de abandonar a Universidade e se dedicar exclusivamente à literatura e à fazenda que adquiriu. “Apontamentos Importantes” também fogem à estrutura do conto.

No geral, os contos de José Alcides Pinto se afastam das principais características do conto tradicional ou clássico. Assim, ao lado de peças sem qualquer diálogo, apresenta até dois contos em forma de teatro – “Caducos” e “Granjeiros”. Em “Domingão” há apenas dois diálogos. Porém, não se libertou das formas tradicionais nos diálogos: “disse”, “exclamou”, “comentou”, “gritou” etc.

No conto tradicional as personagens são sempre poucas. E JAP não foge a esta regra. “Domingão”, que não é um conto realista, tem seis personagens: Domingão (protagonista), sua mãe Bela, seu pai Diogo, Joaquim, sua mulher e a moça. Aparentemente são dois os conflitos. Joaquim se apaixona por Bela, que é casada. Enciumada, a mulher de Joaquim jura matar a outra. E o faz. No mesmo dia Joaquim morre. Daí em diante a vida de Domingão se transformou. “Corriam histórias. Domingão, o diabo. Guarda-chuva fechado. Levando chuva nos campos. Pijamas de grossas listas colado ao corpo. Contavam histórias. Das narinas afrontadas de Domingão se levantava a tempestade que rachava o telhado das casas. Escarvava a terra. Esbagaçava árvores.” Ao ver Domingão pela primeira vez, uma moça por ele se apaixonou. Por seus cabelos trançados. Inicia-se o “segundo” conflito, o “segundo” drama. Ao se encontrarem, ocorre pequeno diálogo: “- Cortei.”, “- Onde os guardou?”, “- No cemitério. No caixão da mãe.” A moça vai ao cemitério. Súbito reaparece Domingão. E dá-se o desfecho: as tranças sufocam a moça. E Domingão a sepulta. “Exausto, deitou-se ao pé da cova para morrer.” Este desenlace lembra os dos contos de Edgar Allan Poe.

José Alcides Pinto é um escritor singular na Literatura Brasileira. Não pode ser visto como um adepto do realismo fantástico ou posto ao lado de contistas como Murilo Rubião e José J. Veiga. Seus contos também não são regionalistas, assim como não o são os de Moreira Campos. Há mistérios nos contos de ambos, embora entre eles não se possa vislumbrar qualquer semelhança. Mesmo quando os conflitos são do tipo policial, como em “O Fogo das Paixões”, não se trata de conto policial ou realista, como os de Rubem Fonseca. JAP está mais para Poe.

Como escreveu Francisco Carvalho, na ficção de José Alcides Pinto “não há lugar para os devaneios da retórica nem para as quimeras do lirismo cordial.”

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008. atualizado por José Feldman

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