José Feldman (Universo de Versos n. 131)


Uma Trova do Paraná

A. A. DE ASSIS
Maringá


Num momento de euforia,
cedemos-lhe uma costela…
Fomos cedendo, e hoje em dia
quem manda no mundo é ela!
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Uma Trova sobre Ecologia, de Porto Alegre/RS

DORALICE GOMES DA ROSA

Clareiras que vão se abrindo,
motosserras na devassa.
E os homens vão destruindo
o que Deus nos deu de graça.
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Todo “barbeiro” sustenta
que a “batida” foi assim:
-“Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…”
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Natal/RN

JOSÉ LUCAS DE BARROS


Zarpei ao romper do dia,
no meu barco, a velejar,
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.
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Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

RENATA PACCOLA


Casamento traz enganos,
pois seu muso inspirador
pode virar, depois de anos,  
o seu museu roncador!                                                 
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Na vida o que me conforta,
está nesta frase bela:
“Deus jamais fecha uma porta,
sem que abra uma janela”!
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Uma Trova Hispânica, da Argentina

DORA FORLETTI


En noches de luna llena
la ilusión me da esperanza,
para que muera mi pena
tu amor cálido me alcanza.
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O Universo Poético de Francisco Macedo

Francisco Neves de Macedo
Natal/RN (1948 – 2012)

Estações


Nós, duas almas que desabrochavam,
começavam viver os bons momentos,
cheios de grande amor, encantamentos
que em arroubos de ardor se enamoravam.

Braços, que ao sabor, já se entrelaçavam,
seguindo, os corações, os batimentos,
a mesma comunhão de sentimentos,
desnudos, nossos corpos que se amavam.

Primaveras, outonos… Estações,
velhos costumes,, sem as emoções
dia a dia a verdade que me ensina.

Nosso futuro, que nos corações,
se anunciavam, cheios de paixões.
agoniza no chão desta rotina
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Trovadores que deixaram Saudades

JOÃO FREIRE FILHO
Rio de Janeiro/RJ


Em seu engano grosseiro,
vovô, que anda mal da cuca,
diz que, em casa de ferreiro,                            
não mete a mão em cumbuca!                         
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


No céu, a lua a escutar
a noite de serenata,
beijando as ondas do mar
faz surgir rolos de prata…
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Um Haicai de São Paulo/SP

WILLIAM VENÂNCIO DA SILVA


Acordo de manhã
Observo até o horizonte
Campo de geada
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


A modéstia não se ostenta,
se esconde e é pressentida:
a presunção se apresenta
e passa despercebida.
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O Universo Poético de Perneta

Emiliano David Perneta
Curitiba (1866 – 1921)

A Mão…

        Ao Dr. Claudino dos Santos

Tantas vezes, bem sei, e eu ouço, quando cismo,
Meu coração bater depressa, não o nego,
Mão invisível tem-me salvo, a mim, um cego,
Rolando como se rolasse num abismo…

Babilônias de horror, e montanhas de lodo,
E torres de Babel, sangrentas como lava,
Eu mais afoito do que um jovem deus, mais doido,
Eu passei sem saber por onde é que passava…

Sorrindo pelo ar, miraculosa e a esmo,
Tudo pôde abrandar, os ventos, e a mim mesmo,
Por um prodígio enfim que eu não explico, ateus!

…Donde veio essa mão nervosa, que me arranca
Dos abismos do mal, a Mão ideal e branca,
A mim, que nem sequer mais acredito em Deus?…
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando WANDA DE PAULA MOURTHÉ
E é quase dia…


MOTE:
No talvez da quase noite,
quando a espera me angustia,
horas batem feito açoite…
Tu não vens…e é quase dia…

GLOSA:
No talvez da quase noite,
eu me perco em devaneios
e temo que a dor se amoite
e se instale nos meus seios!

O pranto cai devagar
quando a espera me angustia,
sentindo – não vais chegar,
morre em mim toda a alegria!

A tristeza faz pernoite
no meu pobre coração…
horas batem feito açoite…
sem nenhuma compaixão!

Quando a solidão aumenta,
a noite perde a magia
e minha alma não aguenta,
tu não vens…e é quase dia…
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Minha viola, meu cavalo,
a lavoura dando flor,
Maria, dentro de casa …
– Louvado seja o Senhor!
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


beijo roubado
é o butim do ladrão
apaixonado
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Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Cintilando ao sol
As bolhas de sabão
Caem na varanda.
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Única


Fruto efêmero e hostil de um efêmero gozo,
Esta vida que arrasto, efêmera e improfícua,
Sinto-a embalde, e, debalde, entre pasmado e ansioso,
Sondo-a, palpo-a, examino-a, estudo-a, verifico-a.

E tudo quanto empreende o espírito curioso,
E tudo quanto apreende a análise perspícua,
É o falso, é o vão, é o nulo, é o mau, é o pernicioso,
Por menos que a razão seja perversa ou iníqua.

Logo, por que pensar? Logo, por que no Sonho
Não havemos deixar correr a vida fátua,
Obrigando o Destino a ser calmo e risonho?

Por que só não amar: É culpa? Eis-me: resgato-a
Agora que a teus pés todo o meu ser deponho,
Como um vil pedestal à tua excelsa estátua!. . .
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Desengano


Numa palestra serena,
Disse-me o sábio Conrado:
“Desengano que mais doi
É o que vem de um ente amado.”
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Berimbau


Ariranha arranha a presa,
Aranha tricota a teia,
Faz charme a moça bonita,
Faz crochê a mulher feia.

Quando o dia se apressa
O homem acende a candeia,
A pecadora confessa,
O padre impõe muita reza:
O fogo dela incendeia.

Araruta faz polvilho
E dele faz-se o mingau,
Vaca dá leite ao novilho
No cocho lambendo o sal.

Surubim sobe a represa
Indo em busca do canal,
Mulher de saia rodada,
Não dança o mineiro-pau.

O coração machucado
Bate em ritmo anormal,
O homem que é afobado
Come cru e passa mal.

Eu fico aqui matutando
Para encontrar um final,
Nesses versos que eu te fiz
Sob o som do berimbau.
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Romance II ou do Ouro Incansável

 –
Mil bateias vão rodando
sobre córregos escuros;
a terra vai sendo aberta
por intermináveis sulcos;
infinitas galerias
penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho . . .
É tão claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos,
sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes,
eleva os homens audazes,
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades.

Pelos córregos, definham
negros a rodar bateias.
Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.

Por ódio, cobiça, inveja,
vai sendo o inferno traçado.
Os reis querem seus tributos,
– mas não se encontram vassalos.
Mil bateias vão rodando,
mil bateias sem cansaço.

Mil galerias desabam;
mil homens ficam sepultos;
mil intrigas, mil enredos
prendem culpados e justos;
já ninguém dorme tranquilo,
que a noite é um mundo de sustos.

Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Na Lagoa


Eu tava meio assim, meio down
Aí fiquei afim, eu fiquei afim
De ver o sol

De ver o sol na lagoa
Andando a toa ou de canoa
Nós dois remando juntos numa boa
A canoa, remando numa boa
Ou andando a toa em volta da lagoa

Em volta da lagoa tudo pode acontecer
Dentro da canoa então, ninguém pode prever
Mas lá pelas bandas do meu coração
Não tem engano, engano, engano
Ele só quer ver o sol

Na lagoa..…
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


escurece a tarde –
entre raios e clarões
os sons da trovoada
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Sonetos como um pássaro


Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.

E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas

A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua

Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal…
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Uma Poesia de São Paulo/SP

PEDRO MELLO

O Bibliotecário bêbado

Parece que
do topo das estantes
vocês ficam olhando para mim…
O que querem que eu faça?
Que abra as mãos
e tente
segurar a Poesia?
Eu a sinto
 invisível pelo ar…

E se eu erguesse as mãos
por um acaso
tentando capturar
toda a Poesia
latente
na atmosfera desta sala
e condensasse
os versos em absinto,
eu viveria embriagado deles?
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Lembro, triste, o amor passado,
vendo a Luz e o velho cais:
– saudade é barco ancorado
no porto do “nunca mais” …
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Constelação Poética de Misciasci

Elizabeth Misciasci
São Paulo/SP

Não diga nada


Não diga nada
observe meus lábios a atinar
desejos que se perdem
entre um indestrutível querer
Não diga nada
apenas veja meus olhos que
estancam a dor do não ter
chorando em silencio
Não diga nada
sinta a dor que minha alma
em furor transcende
desejando com veemência teu ser
Não diga nada
pense detidamente
que não é insensível o teu saber
nem relegado o meu viver.
Não diga nada
ouça meus murmúrios
palavras mudas transformadas
em vertentes clamando por ti
Não diga nada
sinta o calor
que em delírio se faz passional
preexistente em meu corpo
Não diga nada
perceba que estou presente
como nanquim na supremacia
de uma folha branca
Não diga nada
vem denominar um sentimento
desterrando o viso que insistente
vocifera um coração.
Não diga nada
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

 OLHA ALÉM


 Olha além um rato,
 Um olho aqui outro no mato.
Olha além um gato,
Um olho aqui outro no rato.
Olha além um Papa,
Com uma pedra no sapato.

Salta sapato,
Salta gato,
Salta rato,
Para o meio do mato
Que ninguém o papa.
Pirilipapo, pirilipapa, pirilipapo.

http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Data e dedicatória


Teus poemas, não os dates nunca… Um poema
Não pertence ao Tempo… Em seu país estranho
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível…
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo…
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas,
Não os date, porém:
As almas não entendem disso…
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Álbuns


vida cheia de retratos
gênios, queríamos sê-los
tolos, só figurinhas
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O Universo Poético de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Desalento


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim
Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos
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O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

III


Nos recantos tranquilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos aos meus primeiros cantos.

Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinham as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.

Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.

Em mim – que tanto amei – hoje as palavras
movem-se para ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Na bela dupla de estrelas
Em que o Natal se anuncia,
Precedendo a de Belém,
A primeira foi Maria.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
– Destinação cruel
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Para não perder o clima
peguei o verso de baixo
e rimei com o de cima
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Dois  Ramos


É preciso coragem, meu amor.
para afinal reconhecer que vamos
nos afastar, assim como dois ramos,
que continuam dando a mesma flor…

Que importa a flor, no entanto, se não damos
os mesmos sonhos de antes? Se o sabor
do fruto que ainda agora partilhamos
já se vai transformando em amargor?

É preciso coragem… Mas um dia
será preciso tê-la… Que a tenhamos !
Não vamos prolongar essa agonia

em que nossos desejos se desgastam…
Nosso destino… é o mesmo de dois ramos:
– quanto mais crescem… tanto mais se afastam…
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Quando jovem saudável, minha meta
era a grande aventura das jornadas,
enfrentando descidas e ladeiras,
sem temer o perigo das estradas
nem o peso das duras circunstâncias,
e hoje as pernas, cansadas de distâncias,
só aceitam pequenas caminhadas.
============================
O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Amor em poesia


Sobre a mesa,
livros,canções,
odes e sonetos,
onde me debruço,
aconchegando,
meus sonhos.
Na face da noite,
a voz do poeta,
murmurando sonhos
em meu coração deserto!
Aos seus devaneios,
me entrego invisível,
nua, sem resposta.
Deixa-me amar,
do mundo alheia,
nas frágeis torrentes
da tua poesia.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Remorso


Às vezes uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema que aconteceu


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
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UniVersos Melódicos

Ary Barroso

QUERO DIZER-TE ADEUS

(valsa, 1942)

Quero dizer-te adeus
De forma singular
Cantando a nossa valsa
Sem chorar

Quero dizer-te adeus
Pois vou partir, amor
Sem mágoa e sem rancor
Dos falsos beijos teus

Quero deixar-te assim
Sem atribulações
Pra que longe de mim
Não tenhas ilusões

O nosso amor morreu
E o culpado não fui eu
Foi a sorte
Foi a vida, querida

Sonhei, confesso
Castelos de ouro e luz
Mansão de mil venturas
Para nós dois
Porém, no mundo os namorados
Não contam com as surpresas que vêm depois
Depois, depois, amor
A tempestade veio e tudo carregou
Até a saudade

Quero dizer-te adeus
De forma singular
Cantando a nossa valsa
Sem chorar
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

O CRAVO BRIGOU COM A ROSA 


O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido,
E a rosa,   despedaçada

O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
A rosa pôs-se a chorar
============================
O Universo das Poetisas Paranaenses

Alba Krishna Topan Feldman
Maringá/PR (1969)

Pintura


Na tela da vida, eu vi uma pintura
Em branco e negro;
E haviam gemidos no fundo da tela,
Do fundo da terra.
Eram cores contrastantes
Formando a guerra,
Manchando os lados
De vermelho.

E olhando, pensei
Que não era assim que havia pensado
O Divino Pintor.
Na harmonia das cores,
Uma vida sem dores,
tormentas ou lutas
Deveria haver.

E, olhando apenas os contrastes,
São tolas cores que escorrem,
Enfraquecem e morrem,
Sem jamais compreender
Que o destino de tudo
E o nada,
É o CINZA!
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Líquido


Sorvido o líquido
resta o copo
vazio
e seco

como restamos
como restam
como secos e vazios
estamos
no final
e no início

quando e onde
nos desencontramos
e o líquido escorre
em nossos olhos
como lágrimas.
=============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Peixinhos Amantes

Acróstico-filosófico nº 4948

P-Por incrível que possa parecer, concordei…
E-Estive escolhendo o peixinho que fui comprar:
I-Imediatamente, uma peixinha o acompanhou
X-X da questão: o AMOR é lindo! Quando
I-Insistia, que só queria UM peixinho… e olhei:
N-Naquele saquinho de plástico, com água…
H-Heroína romântica que começou a nadar…
O-Os dois entraram no plástico de uma só vez:
S-Sem pedir licença, foram amar e brincar…
 –
A-A justificativa do vendedor, desta vez,
M-Mostrou-me a importância de um par…
A-Apaixonados, há algum tempo, juntos,
N-Nadavam sem parar e nem dormiam…
T-Tomei a decisão. Vou pagar pelos dois!
E-E os levei para o aquário do meu lar:
S-Sensibilizada com a união dos amantes!
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Distância


Entre o aqui e o ali há um espaço
E sem a atitude não será galgado
E há cor que não auxilia no passo
O tom cinza deve ser descartado.

Cinzas assopradas desse percurso
A brasa que aborta a oportunidade
Aporta a sociedade o seu discurso
Arranca em vermelho a igualdade.

E o sonho? Esse é de toda a gente
Às vezes é medonho seu caminho
Dificultam-lhe a ler o pergaminho.

Distância se faz assim tão distante
Ambição, propriedade e obstáculo.
Exonera Deus, foge o sustentáculo.
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Ela


Nunca vi, – não sei se existe
Uma deidade tão bela,
Que tenha uns olhos brilhantes
Corno são os olhos dela!
F. G. BRAGA

SEUS OLHOS que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde corri rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com a meiguice e com primor.

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspirada em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meigo e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se realiza

Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
0 Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um – sim –
Pr’a alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento
“Dá-lhe um suspiro de amor!”
==============================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

“Arraiá” de São João


Os fogos anunciavam
a subida dos balões,
que o céu iluminavam
a noite de São João.

Barraquinhas de pipoca,
cachorro quente e quentão,
a moça vendendo “bitoca”
e os moços dizendo:-Que “bão”!…

Com balões e lindas bandeiras,
o “arraia”, estava enfeitado,
para as muitas brincadeiras,
sem poder ficar sentado.

No auge da festa animada,
no quintal entra a quadrilha:
À frente a noiva mimada,
com a barriga na virilha.

O noivo, o bem amado,
tremia sem parar
de medo do sogro armado,
que só fazia gritar.

O padre só gaguejava
em frente a tal situação,
e a mãe da noiva rezava
pra acabar a confusão.

Casamento realizado,
o sogro se acalmou,
o amor estava selado
e a festa continuou.
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Visões


Faço um esforço pra lembrar teu rosto,
mas apenas uma nuvem me aparece,
como se a encobrir todo o desgosto
daquilo que passou e não se esquece.

Ainda há pouco eu conseguia ver-te,
mas os contornos foram se apagando,
junto com a esperança de ainda ter-te,
mesmo que, como antes, eu chorando.

Não sei se agradeço o esquecimento
de como era teu rosto, ou se lamento
pois foi parte importante do passado.

Mas creio que ainda seja bem melhor
outro rosto procurar guardar de cor
do que querer restaurar esse, borrado.
====================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

O Ladrão de Lençóis


Um raio de lua que é pássaro e homem
através do xadrez do vitraux entra,
e de halo, então, passa a corpo denso.

É chamado pelo dormir das que não sabem
de seus sonhos e, assim, os lençóis
rouba. E quiçá deixe como se um orvalho

que fica no corpo ou como um sabor

de lua nos lábios ou um sonhar que esteve.
================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

Soneto I

     –     
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus versos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

      Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

  Verdades puras são, e não defeitos…
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos!
========================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Belo Belo II


Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.
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Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto III


Mira no espelho e descreve o rosto que vês;
Agora é o tempo em que a face deve mudar,
Cujos reparos não tenhas logo renovado,
Terás enganado o mundo, à revelia de tua mãe.

Onde está a bela, cujo ventre não semeado
Desdenha o cultivo de teus cuidados?
Ou de quem será a tumba de um ser tão cioso
De seu amor-próprio para negar a posteridade?

És o espelho de tua mãe, e tua semelhança
Recorda os adoráveis dias de sua primavera;
Então, pela tua idade, poderás ver,

Apesar das rugas, o teu tempo áureo;
Mas se vives para não seres lembrado,
Jamais te cases, e tua imagem fenecerá contigo.
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Constelação Poética de Celito

CELITO MEDEIROS
Curitiba/PR

Ah, Meus Olhos!


Que felicidade a minha
matando a saudade
que nunca me matou

Que sutileza sinto
vendo tanta beleza
que todavia sobrou.

Estas velhas dúvidas
que tudo se paga

e nada se paga!

Que corpo, ainda tão forte
Que vença a morte
A vida é minha sorte.

Ah, meus olhos!…
com os que tudo vejo
e tudo noto.

Que bom haver sido gente
um pouco mais que apenas prudente
não só um contestador, eu contesto a dor.

Mas a nada detesto,
por ter muito
Amor

(tradução da poesia, do espanhol por José Feldman)
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Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Além da Porta


E, novamente, a rua está deserta,
Outra vez cheguei tarde na janela,
E tudo que passou em frente dela
Não viu que a minha porta estava aberta.

Eu nunca apareci na hora certa…
Mas sei que lá adiante a vida é bela,
Que sempre há uma nova descoberta
Fora do meu pijama de flanela.

E a Voz, que me acompanha e que me fala,
De essa vez não me assusta, só conforta:
“Ânimo José, deixa esta casa! – Anda!”

E eu saio… do meu quarto para a sala,
E decidido vou, além da porta,
Mas volto quando chego na varanda.
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Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto Hendecassílabo


Ouvindo música clássica medito
nas emoções de toda minha existência,
que fui levando como quem cumpre um rito
de passagem, cultivando a paciência…

Se às vezes me senti triste, quase aflito,
tive dentro de mim a voz da consciência
me orientando para seguir expedito,
sempre preservando a boa convivência.

Agora que já vou longe na jornada,
tenho lembranças que não se apagam mais,
que, por certo, não foram feitas do nada…

Tiveram sua origem nos meus amores,
que não foram muitos, mas sentimentais,
próprios de corações simples sonhadores…
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A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

O Retrato


        Teus olhos mudos, no retrato, me acompanham,
        Como a mostrar-me, fogo fátuo, o que morreu.
        Por sob o brilho do papel, teus lábios trancam
        O meu sorriso, refletido sob o teu.

        As mãos imóveis, por tão pouco não me espancam
        De solidão, que o teu abraço não é meu.
        O peito inerte, fria pedra, de onde emanam
        Os evangelhos desse coração ateu.

        Doente máquina que ousou prender teu rosto
        Nessa moldura que me dá tanto desgosto,
        Testemunhando o sofrimento, a fome e a sede.

        Quisera um dia ter poder de destruir
        E finalmente libertar-te p’ra partir,
        Ou pendurar-me, junto a ti, nessa parede.
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Uma Poesia Além Fronteiras

DOMI CHIRONGO
Moçambique (1975)

Meia-Noite


 Era dia
mas nas minhas
mãos claras
esfolhava
meia-noite
quando
de súbito
deparo-me
com uma página
invulgar
quarenta, suponho
era a Ana,
o Lourenço
e o Armando
não o Artur
mas como ele
falavam
literatura…
especificamente
poesia.
Quem diria!

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