Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas)

MEDITAÇÃO DO SILÊNCIO

Contra a dureza fria das máquinas
Contra o ruído cavo do mundo
Nasci para conquistar aldeias
E reunir as cidades e o campo

Profecia? Não serei profeta
– Grandes rebanhos do mundo moram
Em arranha-céus de arquitetura
E não pisam caminhos de orvalho

As almas ficam assim paradas
Que levantam estátuas de sombra
– Não respiram porque são de cera
– Já não se amam porque são de bronze

O gesto se perdeu no próprio eco
Cravado à fuligem das paredes
– A saliva em sal espuma a boca
E as palavras se petrificaram

Cedo, os corações se endureceram
Com setas de estruturas metálicas
– Só os operários da manhã
Acordam a sirene nas fábricas

O céu é um lacre azul de vidro
Que corrói as ânsias confinadas
– Ora é o tédio, ora é o delírio
Comprimindo o peito e a esperança

Inverterei agora o crepúsculo
Para conquistar a luz do dia
Profecia? Não serei profeta
– Não tenho ferida sob os pés

Sou pregador de antigas parábolas
– Sempre visito a porta dos túmulos
Não professo religiões mágicas
– Sempre aplaquei a ira dos tiranos

Profecia? Não serei profeta
Meu reino é o das estrelas eternas
– Minhas mãos não serão crucificadas
Entre a palavra, o mundo e o tempo

ELEGIA DOS DEUSES
Para Carlos Falck

Agora, as caravelas já partiram
– Neste cais um navio ficou em chamas
As águas negras batem-se contra as quilhas
Ao apito sonoro da distância

O porto está em ruínas. Embora iluminadas
As águas estão paradas e sombrias
– Velas acesas – Círios – Um tinir de cascos
Range de espera pela noite imensa e fria

Os marujos dos deuses ensanguentados
Já dormem num paiol de estrelas fixas
– Não há sorrisos nem flâmulas de prata
Navegando sobre as ondas desse mar infinito

A voz do mar é só um eco de espumas
Que não é brisa nem vento nem flauta
Mas ressoa no espaço cortado em luas
No mapa azul dos reis e argonautas

CANTIGA DE VIAGEM
Para Carlos Anísio Melhor, jogral e poeta agônico

Sei que esta noite ainda é longa
E longa será
Navego na luz deste cerco infinito
– Sigo enquanto espero – e não me finjo
E canto e lento me faço caminhar

Sei que esta noite ainda é longa
– As estrelas dão vertigem no céu
Visto meu casaco azul de malha e saio
– De cavalo de pó e nuvem pelo espaço
À procura da face errante de Deus

PÁSSARO
Para Carlos Pena Filho,
ausente

Eu canto e se cantar por solidão
A rosa em mim floresce no silêncio
Ninguém perturbe a paz deste momento
Em cuja fantasia eu me transvio

Muito menos turve a água desta fonte
Que bebo para o instante inumerável
– Acaso sei de mim que transitório
Sustento um pé na terra outro no espaço

Sou, pássaro de pedra sou. Jamais
Neguei de expor ao sol meu corpo duro
– Tenho postura de animal correto

Falo também a mesma língua escrita
Irmão que sou de tua solidão
Oh navegante além da mesma rota

QUEIXAS PARA ÉOLO

Ilha ou presídio longe um barco acena
Agora navegando em outros mares
Antiga solidão a deste porto
– Isolamento e cais de eternas águas

Ânsias de liberdade mutilada
E larvas de futuro acontecido
– Manhã azul: A quilha sobre as ondas
Risca no mapa um novo itinerário

Navegar, navegar, constante infinda
E sempre navegar por mar e céu
– Outro porto virá além no tempo

Onde a tristeza e a solidão se apaguem
– Atrás, o barco deixa as águas negras
Afastando os perigos dos abrolhos

SONETO DA MORTE FINGIDA

Aqui, perto de mim, na minha vida
Meus olhos ficam cheios de poesia
– A estrela se debruça na janela
E a lua troca a noite pelo dia

Aqui, perto de mim, na minha vida
Corre um vento de mar com melodia
– Risco do mapa antigas caravelas
E a espuma se contorce em fantasia

Aqui, perto de mim, na minha vida
Há um cais. E junto ao cais, há um porto
E no cais e no porto a despedida

Levanto os ferros. A sirene apita
Um corpo bate na água e, então, gravita
Aqui, perto de mim, na minha vida

CONVERSÃO DAS HORAS
(Elegia)
Para Vinicius de Moraes,
Amigo eterno

De repente, a casa virou festa
A maré subiu na praia
– O santo desceu da cruz
Fez um sinal na testa
Olhou de lado – cuspiu no chão
E passou a contar e a repetir
As parábolas e os milagres que tinha feito

De repente, a aurora se repartia
Dando a cada criança um pedaço de suas cores
A outros ofereceu um quinhão de nostalgia
– Um bêbado inerte dormia na calçada
Entre cacos de sonhos de antigos carnavais
– A menina-moça deixou de ser virgem
E constipou o coração com seus primeiros amores

De repente, aquele amor ficou murcho
E o que era azul ficou triste
– O verde perdeu a esperança
– O cristal se fez opaco

De repente, os sinos da cidade dobraram
Nos arredores de velhas catedrais
– O morto não conseguiu chegar ao cemitério
E dispersou a multidão aflita
– As mulheres expulsavam de casa seus maridos
– Os homens pediam perdão às suas mulheres
Mas tudo isto era feito com “inocência e candura”

De repente, os cambueiros de setembro
Estalavam na esquina das montanhas
Relâmpagos, trovões e raios de chuva
Arrancando árvores e telhados de casas
Em redemoinhos de poeira e torrão seco
– As lâmpadas elétricas se apagavam
E todos, desapontados, iam dormir cedo

De repente, “mais que de repente”
Perdi o gosto lírico da tristeza
Mas ganhei a felicidade que invadiu a minha alma
E espancou todos os santos demônios
Que arruinavam o relógio do coração

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987.

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