Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas) III

ESTRELA DE NATAL

Quero ficar em silêncio
Na correnteza da tarde
Vendo a lágrima do tempo
Vertendo na minha face

– É um rio escuro e miúdo
Que em mim profundo deságua
Só meu lábio seco e mudo
Ouve o gemido que passa

Passa. E cada gota líquida
Em cristal se petrifica
Transparente como a vida
Que na morte se eterniza

Mas, dentro do lago, o poço
Dentro do céu, a medida
Espalha tições de fogo
Em teias de fantasia

Veste seu manto de chamas
– De penas bem coloridas
Faz de seu brilho esperança
De um pouco de cada dia

Põe labaredas nos olhos
Sai pelo mundo e caminha
E longe, já sol posto
Desaparece sozinha

MEU NATAL DE SEMPRE

Ficou na sombra a casa onde morei
As árvores do quintal, a ventania
E eu, pequeno ainda, me recordo
Quanto chorei, quando cantar devia.

Ficou no céu o tempo que sonhei:
Sapato de verniz dependurado
Num saco bem vazio de esperanças
Qual pacote amarrado pelo vento.

Não finjo o sonho em que me sustentei
No portal da janela de meu quarto:
As bolas de borracha coloridas
(Revólver de brincar de detetive).

Meus irmãos já tiveram as mesmas coisas,
Meus amigos, também, o que não tive.
A vida dá presente todo dia:
A dor que sinto agora, não sentia.

Ficou no rosto o traço que não tinha:
A solidão que sopra lá de fora.
Multiplico os minutos pelas horas
E tenho as mesmas horas repartidas.

Ganho, então, meu presente de lembranças:
Uma flor na lapela e meu cansaço.
Costuro mágoas e as transformo em ânsias
E corto a fantasia em mil pedaços.

O MENINO E OS PÁSSAROS
Para Tude Celestino

Certo que eu fosse menino
Vinha no sopro do vento
Pegar esses passarinhos
Nos quintais desse convento

Pulava o muro do canto
Pé descalço de mansinho
– Atrás do tamarindeiro
Vinha de corpo escondido

Pisava na grama verde
E olhava os galhos e os ninhos
– O coração sacudia
No céu que a tarde continha

Nunca vi tanto assanhaço
Bem-te-vi papo amarelo
Rolinhas gordas de pena
E os canarinhos da terra

(Minha capanga de balas
Meu bodogue de borracha
Meus olhos cheios de sonho
Minha alma cheia de nada)

Certo que eu fosse menino
Certo a saudade matava
Numa cova tão profunda
Pra não me banhar de lágrimas

POEMA ANTIGO

A lua no meu quarto invade
Branca, molhada de sereno
Entra na memória um caminho
Que termina onde fui pequeno

Vaga, de luz opala verde
Entra devagar pela rua
Do menino de calça curta
– Que idade eternamente nua

A vida, a vida passa mesmo
Nem sei quando isto aconteceu
Só sei que a lua vem bonita
Dizer que a infância já morreu

SEGUNDA CANÇÃO DA BEIRA D’ÁGUA

Cada poema tem seu dia
Na claridade da manhã
Na face lírica das águas
Na casca loura da maçã

Cada poema tem seu dia
No prisma, no sinal da cruz
Na estrela do mistério vago
Na vida das cores azuis

FRAGMENTOS DE UM SONHO

Sou itinerante
Não vou de encontro às distâncias
Minha alma é um vestir-se de quatro paredes

Se mudo de roupa todo dia
Ela se renova
Todas às vezes que miro o espelho

Sou um rio caminhando dentro de mim
Varado de peixe e moluscos
Líquido: olho-me de cima para baixo
Parado: beijo as flores do lago
Corrente: pinto as cores da manhã

TRAVESSIA

A tarde cai sobre as águas do Paraguaçu
– Meu amor descansa sobre os ombros
– A montanha descansa sobre os vales
A própria natureza se imagina
Uma visita na véspera da primavera

O campo aberto não esconde as amapolas
E ninguém espia o vigia na estrada
– O rio manso é uma longa espada de sol

(Não compro ilusões
Nem vendo alegrias
Não piso em flores
Nem espalho fantasias
Geradas pela máquina do tempo)

A tarde cai sobre as águas do Paraguaçu
– A noite chega na arquitetura das serras
E desenha potros de asa e cavalos de sombra

Dentro da noite
A madrugada espera
Dentro da madrugada
Os frisos vermelhos da aurora

CONFISSÃO

Tua palavra é um código
Que sai
de tua boca
E queima os meus ouvidos

Teu gesto é um crucifixo de sinais
Que me converte
A uma seita antiga
Para o culto de deuses invisíveis

Não me toques
Te peço
Não me toques

Meu violino está surdo
E nada do que há em suas cordas
Poderá ser para sempre revelado

Vês? (Não te espantes)
Meus olhos estão secos
De tanto navegar
Por lugares desconhecidos

Minhas mãos estão crespas
e apalpam
Os muros de silêncio
Que me perseguem
Com inscrições hierográficas

E eu te digo
O raio
que tanto fere
me ilumina

Até a flor
que não tem espinho
me crucifixa

Mas teu corpo é uma ânfora dourada
Que não se parte
E brilha nos arabescos
De ritmos orientais

Aproxima-te
Mas não me toques
Deixa que eu me vingue de olhar para o infinito

VARIAÇÕES DO DIA

Antes de dormir, eu sonho
Antes de acordar, eu rio
Antes de dançar, eu tombo
Antes de fingir, eu crio

Antes de esperar, avanço
Antes de correr, tropeço
Antes de morrer, descanso
Antes de passar, trafego

Antes de partir, não fico
Antes de chorar, não quero
Antes de pensar, não minto
Mas, depois de amar, desperto

AMARALINA

Venho cortando o vento da avenida
A estrela assim não veio e a ventania
Sacode as ondas contra o rosto e a fria
Madrugada se esconde indefinida

Neste mar não existe maresia
Neste mar não há mito nem segredo
Não era a aurora a luz que pressentia
Entre as dobras da espuma no rochedo

Era a face que via contra o espelho
Era o perfil azul dos teus cabelos
Gravados na memória da retina

Venho cortando o vento da avenida
No silêncio dos passos e da vida
– A flor que fui buscar na Amaralina

A FLOR, A FLAUTA E O BANDOLIM
Para Raimundo Barros e Pedro Figueroa, Filhos de Orfeu
Saio com uma flor pela varanda
E digo num sorriso de criança
– Se finjo num suspiro de alma pura
Que sou feito de corpo e de esperança

Se eu sinto, digo ao sol e digo à lua
E digo ao mar que azula este verão
Mas logo a melodia se desata
E solta ao vento as letras da canção

A flor, ora crisântemo, ora lírio
É flauta. É margarida do delírio
Ou ciúme das cordas da paixão

Esta czarda é louca e enluarada
Pinta com um bandolim a madrugada
– O amor de mais eterna perfeição

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987. http://br.geocities.com/rsuttana/adelmo_cantico.pdf

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