José Feldman (Universo de Versos n. 133)


Uma Trova de Porto Alegre/RS

DELCY CANALLES


Empilhados na memória,
um a um, mesmo à distância,
escreveram linda história
os meus brinquedos de infância!
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O Universo Poético de Francisco Macedo

FRANCISCO NEVES DE MACEDO
 Natal/RN (1948 – 2012)

Tributo ao Dicionário


O dicionário, qual mulher incrível,
e sempre para nós, indispensável,
numa entrega total, imensurável,
doando para nós, todo o possível.

Se o verso parecer quase impossível
por sua doação, fica viável
e neste conviver terno e saudável
torna a vida mais doce e mais sensível…

É você, meu amigo dicionário,
nosso caso de amor extraordinário
jamais terá divórcio, ele é moderno.

Vamos esparramar nossa poesia
em romântica e doce parceria…
Nosso caso de amor será eterno!
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Um Haicai, de Irati/PR

ELISSON THOMAS SVEREDA


Manhã de geada.
Estarão ainda vivas
As flores de ontem?
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Uma Trova sobre Ecologia, de Pindamonhangaba/SP

JOÃO PAULO OUVERNEY


Somente o júri divino
pode, na força que encerra,
julgar o filho assassino
no matricídio da Terra!
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O Universo Poético de Perneta
 EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba (1866 – 1921)

Damas


Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! …

És a constelação maravilhosa, a minha
Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!

Nunca me hás de querer, batendo-me por ti,
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi…

Mas é por isso que eu, ó desesperação,
Amo-te com furor, com ódio te desejo,
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!
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O Universo da Glosa de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando BENEDITO CAMARGO MADEIRA
Adormecer…


MOTE:
Viajor, na tarde fria,
buscando quentes regaços,
quisera poder, um dia,
adormecer nos teus braços!

GLOSA:
Viajor, na tarde fria,
sozinho, pelos caminhos,
na tarde da nostalgia,
sofre a ausência de carinhos!

Sigo em minha solidão,
buscando quentes regaços,
e um pouquinho de afeição
para amparar os meus passos!

Poder viver a alegria,
antecipar meu depois…
quisera poder, um dia,
num mundo só de nós dois!

Realizando desejos:
ganhar todos teus abraços…
ganhar todos os teus beijos…
adormecer nos teus braços!
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Uma Trova Lírica Filosófica, de Belo Horizonte/MG

WANDA DE PAULA MOURTHÉ


És o Sol de minha vida,
e eu, um planeta menor,
que, à distância, sem guarida,
só gravita ao teu redor…
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


chão de caruma,
crepitar no pinheiral –
passos ou fogo?
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O Universo Poético de Suttana

RENATO SUTTANA
Barroso/MG

O Pássaro


 Sou o pássaro em seu mais alto galho.
Quem tenta comandar meu coração,
estendendo na minha direção
um cantil, uma côdea, um agasalho;

quem se arroja na noite ao (vão) trabalho
de abrir-me em plena chuva o seu portão
e me oferece abrigo e proteção –
não conhece o que quero ou o que valho.

Abre-me, inutilmente, uma passagem
que leva ao centro morno do seu dia
e que entanto não cruzo, pois a imagem

é que me põe em marcha e me desvia:
e desejar um bem que não existe,
e sequer entender em que consiste.
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Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Ao romper da aurora
o sabiá dobra seu canto –
Só isso me basta.    
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito”
tinha uns mil na Academia!…
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


mas que noite curta –
o sonho do fim do mundo
ficou no começo
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

LAGARTO PINTADO

 –
 Lagarto pintado,
quem te pintou?
Foi uma menina
que por aqui passou
 
Lagarto verde,
que te esverdeou?
Foi uma galinha
que aqui passou
 
Lagarto azul,
que te azulou?
Foi a onda do mar
que me molhou
 
Lagarto amarelo,
que te amarelou?
Foi o sol pœnte
que em mim pisou
 
Lagarto encarnado,
que te encarniçou?
Foi uma papoila
que para mim olhou

http://luso-livros.net/
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


É assim a boca do mundo
que vigia nossas portas:
esconde nossos triunfos,
propala nossas derrotas.
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Vinte anos depois…


“Feia – tu me disseste – o teu amor de outrora,
– Resíduo de mulher, arcabouço de um sonho,
Escrava de um burguês presumido e enfadonho,
Feia e velha mal vive a morrer de hora em hora!”

E tu, poeta querido, a cuja alma sonora,
Sempre, em meu culto de arte, as estrofes deponho,
Mergulhaste ao falar-me este meu ser tristonho,
Numa recordação que me embevece agora!

Vejo-lhe a alma infantil de há vinte anos!
Revejo Tudo que houve entre nós nessa manhã de Maio
Que só fez perpetuar o insaciado desejo!

Toda a vida a passar mais rápida que o raio,
Ao néctar virginal do seu primeiro beijo,
Na volúpia imortal do primeiro desmaio!…
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Quo Vadis

(inspirado em Montaigne)

beira de precipício
andar para frente
é dar um passo pra trás
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Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA


O velho rico é moderno
e quer que a garota jure:
-Que nosso amor seja eterno
enquanto o dinheiro dure.
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Brisa


Você é meu sopro de vida,
brisa terna e envolvente –
aragem leve e sentida
roçando no corpo da gente!

É a cascata escondida,
sussurrando bem baixinho,
dando o adeus da despedida
ao correr pelo caminho!
 
É do campo a relva verde
toda coalhada de flor,
que mata a fome e a sede
do tão frágil Beija Flor!
 
É a luz do sol poente
escondendo na montanha…
deixando saudade na gente,
mesmo antes que se ponha!
 
Você é o céu estrelado
em noite de lua cheia…
é o amor mais amado,
é fogo que incendeia!
 
É, então, tudo afinal:
princípio, meio e fim,
o mundo pleno e total
guardado dentro de mim!
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Pescoços de cisne
Transformam em corações
O espaço vazio…
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Uma Trova Hispânica, da Venezuela

ADAMIS BARRIOS


Pasa el amor más querido
como pasan las estrellas
fugaces, dejando huellas
y el corazón afligido.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Jardins de Cor


Quando a sombra se torna clara,
Aonde todo rio é marginal
A calmaria invade as salas
Tornando a nossa vida um pouco mais real…
Mais real

Pelo tempo afora, agora
Ninguém além de nós é tão feliz
A ternura estampada na face
De quem me olha agora e me diz
Pelas ruas carros passam,
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
Fervem rimas, notas primas
Melodias de amor……
Aonde mora o azul da tarde
Também cabem jardins de cor… jardins de cor
Quando a chuva alaga a alma
Eu lavo e limpo a mágoa por você
Mas o carinho vira mero acaso
Se acaso um do outro se perder
Pelas ruas carros passam
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Presença em Pompéia

 –
 Esta conta não pagarás:
– ficará sob uma cinza que não sabes.
 
Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.
 
Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.
 
Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.
 
Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;

os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.
 
As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d’água:
a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.
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Trovadores que deixaram saudades

ZÉLIA SIMEÃO POPLADE
Paranaguá/PR


Jamais negue alguma ajuda
ao pobre, sabe por quê?
Às vezes a sorte muda…
quem vai pedir é você.
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Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto


Compus velhos sonetos como outrora;
não me preocupa em ser original,
quero viver feliz aqui e agora,
pensando só no bem, nunca no mal…

A quem me ler eu peço sem demora
que siga seu caminho etc e tal,
mas como alguém que um dia vai embora,
levando para o Além a alma imortal.

Existe uma certeza: a Evolução,
para nós sermos mais aprimorados
e próximos, enfim, à Perfeição.

Preciso me encontrar nesta saudade
que sinto vir dos meus antepassados,
quando procuro ter felicidade…
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Nas entrelinhas
destas linhas
só há estrelinhas
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Grande dia, este meu dia,
dado por Nosso Senhor.
– De manhã, escrevi versos
De noite, vi meu amor.
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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

De Repente


Olho-te espantado:
Tu és uma Estrela do mar.
Um mistério estranho.
Não sei…

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão.
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão…

Mas agora enchem-se de sombra os cântaros.

E só o meu cavalo pasta na solidão.
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Constelação Poética de Misciasci

ELIZABETH MISCIASCI
São Paulo/SP

Não quero morrer assim


Ah! Chuva fria…
Agora Me faz pensar em você.
Quisera pudesse falar contigo…
Dizer tudo que sinto seria presente de valor sem igual.

Estou rodeada de gente, mas me sinto só,
Pensamento vagando, rumo ao desconhecido.
Uma música suave toca, mas é sua voz que ouço.
Sussurrando ao meu ouvido palavras que me enlouquece de paixão.

Será que está beijando outra boca,
se despindo, tirando a roupa, mesmo em pensamento…
Entregando seu corpo que já meu?
Penso e viajo anos luz em você.

Sinto dores jamais sentidas…

Olho sua foto perco o chão, levito,
molho sua face com minhas lágrimas de saudades.
Eu sei o que é desejo,
já vivi muitas paixões.
Não ouse me ensinar o que é amor.

Não me prenda, não me solte…
Não me chame, não me deixe só.
É o lamento do meu coração.

Rogo as forças ocultas que me revele seu olhar.
Clamo ao mares que sufoque minha voz no momento
Em que eu gritar meu amor por você.

Que os céus não ouçam, que os anjos não desçam
Não quero morrer assim;

desejando um beijo seu
para selar nos lábios meus
a vontade que hoje senti de te amar.
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Esqueçamos


Lendo livros ou jornais
Guarda no bem a cabeça,
Esqueçamos qualquer mal
Para que o mal nos esqueça.
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Titã


Creio o homem ser maravilhoso
Em seu funcionamento tão complexo.
Nem me refiro só ao amor e o sexo
Mas ao nosso cérebro espantoso.

Não me venha então com a coisa vã
De visões negativas, derrisórias;
O homem em si mesmo é um Titã,
Só civilizações são provisórias.

Afinal somos feitos das estrelas,
A ciência o provou e é verdade,
E até nos caberá também fazê-las.

E me espanta que o Bardo já sabia
Quando o colocou na Tempestade,
Como no próprio cerne da Poesia…
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Uma Poesia de Santos/SP

CARLOS ALBERTO OMENA

Pinceladas


 Pinceladas de tinta eu dou
 em tela pelo tempo amarelada.
 Faço riscos e manchas sem tino
 dando forma sequer imaginada.

Sem quadro nenhum aplaudido
 digo-me pintor renomado
 pois pinto a essência da alma,
 qual um poeta apaixonado.

Pinto o mar, a lua ,as estrelas,
 dou sentido também … saudade e o amor.
 Retrato tudo em simples tela,
 usando apenas meu guache multicor.

Em doces e suaves pinceladas
 eu plasmo meus pensamentos.
 E ‚ através do colorido das aquarelas,
 que eu registro meus sentimentos.
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O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Nos momentos mais tristonhos
chega a musa da poesia,
torna reais os meus sonhos
num mundo de fantasia.
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O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

V


Ou nunca o alcançaremos. O silêncio
aguarda as mãos – peixes enfim cansados
de se esbaterem aos sinais da aurora,
imóveis junto ao mar, na areia podre.

Meu sonho entre fronteiras nada vale.
Não cessaram os gestos de cimento
a esmigalharem pétalas de músicas.
A noite esconde a praia dos iguais.

Mas transitórios anjos me acenaram.
Meu coração é pêndulo entre os pólos.
Radiogramas do azul captei no cais.

Mortas manhãs renascem de elementos
geradores do canto que em mim vive.
Morto o sonho não morrem suas luzes.
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O Universo Trovadoresco  de Auta

AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

 –
Ofensa, pedrada, espinho,
injúria, maldade ou lama…
Tudo vence, no caminho,
o coração de quem ama.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Acabam-se os meus cansaços
e os dias são mais vividos,
se a música dos teus passos
vem tocar nos meus ouvidos.
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

O bom pastor


Amo andar pelas tardes sem som,
brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma…

Amo andar nessas tardes…
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agitando
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma…E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi…
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras…
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva…
E pelos caminhos já percorridos,
voltando com a noite
Amo sonhar…
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

E De Repente, Te Conheço


 E de repente, te conheço, tanto tempo depois…

Agora que não sou teu, que não és minha,
que não somos dois,
que nada mais interessa,
percebo que eu apenas vivi o que vivemos…

Tu te deixavas levar…

E eu.. te levei a extremos…
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Manhã… Ao passar das horas,
incendeia-se o horizonte…
E o Sol – pastor das auroras,
varre as neblinas do monte.
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Sertanejo sem terra, meu irmão,
cedo, acorda pra ver o sol raiar,
toma um simples café com tapioca,
beija alegre a rainha do seu lar,
que na cama singela tem um trono,
e pergunta: – quando é que vou ser dono
de um pedaço de chão para plantar?
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O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Delicados sonhos


Abriu-se a janela dos sonhos
E de repente, tudo fluiu
Que eu naturalmente me dei
Com toda loucura que juntei
E que tive naquele instante.
Senti que a boca que beijei,
Tinha sabor de cumplicidade
Posso agora ao beijo ganho
Saber o que esperei.
Depois quando a realidade

Me fez, mais uma vez, acordar
E sentir que o torpor é sonhar
Com uma cotidiana saudade.
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O Universo de Bilac

OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Sonata ao Crepúsculo


Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, e emudecei… Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.

Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmeo…
Cala-se o vento… Expira a surdina das aves…

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Política Literária

A Manuel Bandeira

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal.
tira ouro do nariz.
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UniVersos Melodicos

Alcebíades Barcelos e Armando Marçal

VIOLÃO AMIGO

(samba, 1942)

Violão amigo ouve os meus ais
Ouve os meus segredos
Não suporto mais

Talvez tu compreendas meu sentir
Quero exprimir nesse samba
Tudo que sofri

Quem de mim sorriu
Por certo há de chorar
Quando ouvir alguém cantar

Poeta eu fui
Embora sem querer
Cantei em versos o meu sofrer

Violão amigo
Eu canto por consolação
Trago esta mágoa sentida
No meu coração, violão

Fonte:
http://cifrantiga3.blogspot.com.br

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Uma Cantiga Infantil de Roda

PEZINHO

do Folclore Brasileiro

Ai bota aqui
ai bota ali
o teu pezinho
O teu pezinho
bem juntinho
com o meu

Ai bota aqui ai bota ali
o teu pezinho
O teu pezinho o teu pezinho
ao pé do meu

E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
E depois não vá dizer
que você já me esqueceu

E no chegar deste teu corpo,
uma abraço quero eu
E no chegar deste teu corpo,
uma abraço quero eu

Agora que estamos juntinhos,
da cá um abraço e um beijinho
Agora que estamos juntinhos,
da cá um abraço e um beijinho

E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
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O Universo das Poetisas Paranaenses

ANA GUADALUPE
Londrina

Mapa de Tesouro


menino vestido de pirata
eu sei que os carnavais
têm sua graça

por isso eu respiro
engraçado

quanto te vejo
sinto meus braços

acenando para
navios parados
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Sonhos


Por que não escrevo sobre sonhos
sofro tormentosos instantes
em que a cena desnuda desenredos
de náufragos sentimentos
na busca de longos desencontros

ávidas águas serpenteiam pecados
não acontecidos na comunhão do corpo
no esgarçar dos tecidos
no semi-brilho das alturas
e no não chegar

sou sombra sobra sobrado encantado
da esquina no caminhar retilíneo pela calçada

descoradas paredes liberam o corpo
de meu futuro passado e presente
momento na mumificação do corpo
em sorrisos e esgares

movimento protelatórios
em que o acordar se manifesta
                                     e cessa.
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Peixinho Solitário

Acróstico-filosófico nº 4951

P-Peixinho solitário, no aquário da vizinha,
E-Estava fazendo greve de fome…Regime?
I-Impossível. Ele não queria mais comidinha!
X-X da observação: – Pedia uma companhia!
I-Inspirada pelo meu casal de peixinhos,
N-Na verdade, tive a simples conversinha,
H-Habitual, sobre aquela situação desigual!
O-Os meus peixinhos vivem felizes a brincar!
 –
S-Seguindo a sugestão, fomos ao Mercado Central.
O-O vendedor mineiro, logo sorriu aos nos receber…
L-Levou-nos aos seus lindos aquários expostos!
I-Inacreditável! Em um aquário sem luz, isolado…
T-Também vimos um peixinho sozinho, tristinho…!
Á-A nossa intuição cresceu, então ele foi comprado!
R-Rimos muito ao chegar à casa da vizinha! No aquário,
I-Imediatamente, os dois peixinhos foram brincar!
O-O lanche fizeram e agora, estão felizes juntinhos.

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O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Abra a janela


Já é outro dia, olha só!
E a semente já nasceu
Em instantes será flor
E nem isso você notou!

Abra a janela do seu ser
Aceite que a brisa entre
E assopre a sua poeira
Mundifique a sua alma!

Há cores além do preto
Há essência estampada
Há calores nos abraços

Há claridade em chama
Destranque seu coração
Acolha os raios do viver!
====================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Minha Musa


A MUSA, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.
Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos
Que as dores que oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.
Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor

A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante – meu berço infantil,
De afetos um nome na idéia me traça,
Que o eco no peito repete: – Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: – Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende,
É ela que aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!
================================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Brincando de ser mulher


Brincando de ser mulher,
aquela mulher-menina
sem saber bem o que quer,
segue a sua triste sina…

Á quem pagar o seu preço,
ela cede os seus favores.
Pobre mulher-menina,
desgraçados os senhores.

De shortinho bem curtinho
na esquina a caminhar,
acena a pobre menina
para quem de carro parar.

Mal sabe a pobre menina
que o tempo vai passar,
e um dia, sem que perceba,
se a doença não lhe pegar,
nas mãos de algum cretino,
a morte vai encontrar.
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Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Versos no Ar


Já que não posso chegar aonde estás,
mando-te estas palavras pelo vento
como as notícias voam, boas, más,
ao sabor da direção do pensamento.

Estas rimas levam o peso da saudade,
e de um tempo que nos foi interrompido
por outros ventos, outra tempestade
que deixou o nosso sonho adormecido.

Estes versos, levados pela brisa,
irão pousar de forma bem precisa
ao lado de quem meu coração amou.

E estas folhas, girando em torvelinho,
se espalharão como um livro no caminho,
livro que o vento leu, depois fechou.
============================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)


Nosso amor é o rio
cujas águas eludem
abrolhos e declínios:

os medos do passado
e do tempo presente
e do futuro vago,

o que nos bate e tenta

e dentro e fora fere.
===================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

III


            Com grandes esperanças já cantei,
            Com que os deuses no Olimpo conquistara;
            Depois vim a chorar porque cantara,
            E agora choro já porque chorei.
           
Se cuido nas passadas que já dei,
Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho por a mor mágoa que passei.

            Pois logo, se está claro que um tormento
Dá causa que outro na alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?
=======================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Canção da Parada do Lucas


Parada do Lucas
– O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Minha alma incendiada
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas
– O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas
– O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.
==============================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 5


As horas que suavemente emolduraram
O olhar amoroso onde repousam os olhos
Serão eles o seu próprio tirano,
E com a injustiça que justamente se excede;

Pois o Tempo incansável arrasta o verão
Ao terrível inverno, e ali o detém,
Congelando a seiva, banindo as folhas verdes,
Ocultando a beleza, desolada, sob a neve.

Então, os fluidos do estio não restaram
Retidos nas paredes de vidro,
O belo rosto de sua beleza roubada,

Sem deixar resquícios nem lembranças do que fora;
Mas as flores destilaram, sobreviveram ao inverno,
Ressurgindo, renovadas, com o frescor de sua seiva.
==============================
O Universo Poético de Vinheiro

PAULO VINHEIRO
Monteiro Lobato/SP

Clear


Muito além da razão de quem não tem
Por mais buscar a sinceridade onde não há
Um sentido sem sentido que desmaia
Desilude e se cala, assim como se deve calar
Um pensar matemático é de admirar
Assim como se admira um bobo e seu discurso
Um por ser incompreensível e o outro também
Firme como uma corda solta sem o que amarrar
Seguindo por uma tal escuridão que só dá desencanto
Sobrou um não sei quê que se aninha e mofa
Metamorfose do mofo e do abandono, desrazão
Pra que? Por que? Por quem? O que se dirá?
=================================
Galáxia Poética de Jacob

JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Almas Raras


As almas simples são as almas raras
De luz intensa e a projeção pequena,
Que nos circundam de maneira amena:
Como são nobres essas almas caras!

São os espíritos das outras searas,
Que pela vida passam numa plena
E esplêndida energização serena
De um vento pastoreando as nuvens claras.

O tempo passa, o tempo que não dorme,
E a vida andando, tarde sobre tarde,
Sem demover essa humildade enorme.

Gosto demais dessas criaturas boas
Que passam pela vida sem alarde:
Como nos fazem bem essas pessoas!
========================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Por Entre Os Dedos


    O mal que nos fizemos não foi tanto,
    que um peito, de paixão, não se definha.
    Tua voz de rouxinol, um acalanto…
    pras noites sem o olhar que me adivinha.

    Não me causaste medo, só o espanto,
    de um arrepio intenso pela espinha.
    O amor, que revelavas com teu canto,
    se fez na tua mão por sobre a minha.

    Por que levaste a voz e o doce olhar,
    restando a melodia, em coro triste,
    num eco me deixando quase louca?

    Por que titubeaste em me tocar?
    Talvez temendo que eu não resistisse?
    Por que não exploraste a minha boca?
=====================
O Universo Poético de Açucena

LOURIVAL ACUÇENA
(Joaquim Eduvirges de Mello Açucena)
Natal/RN 1827 – 1907

Eu Não Sei Pintar Amor


Amor é brando, é zangado
É faceiro e vive nu,
Tem vistas de cururu,
E vive sempre vendado:
É sincero, é refolhado,
Causa prazer, causa dor,
Tem carinhos, tem rigor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é terno, é cruel,
É rico, é pobre, é mendigo,
É dita, é peste, é castigo,
É mel puro, é agro fel;
Tem cadeias, traz laurel,
É constante, é vil traidor,
É escravo, é grão Senhor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é loquaz, é mudo.
É moderado, é garrido,
É covarde, é destemido,
É galhofeiro, é sisudo.
É vida, é morte de tudo,
É brioso, é sem pudor.
Traz doçura, dá travor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é grave, é truão,
É furacão é galerno,
É paraíso, é inferno,
É cordeirinho, é leão;
É Anjo, é Nume, é Dragão,
Tem asas, tem passador,
Dá esforços, faz tremor.
Enfim, pinte-o quem quiser,
Retrate amor quem quiser,
Eu não sei pintar amor.
(1887)

Fonte:
CASCUDO, Luís da Câmara. Lourival Açucena – Lorenio .2.ed. Natal/RN:
UFRN, 1986.

=====================================
Universo Poético Além Fronteiras

ROBERT FROST
(Robert Lee Frost)
São Francisco/EUA 1874 – 1963 Boston/EUA

A Estrada Não Trilhada


Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

 E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

(Tradução: Renato Suttana)

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