Lourival Açucena (Versos)

A POLÍTICA

I

Você pergunta, Yayá,
Por que deixei a política?
Você quer saber de tudo,
Você é muito analítica.

Pois bem, eu lhe digo:
Ouça o que eu refiro,
Porque nesse jogo
Já fechei o firo…
Mas, olhe, menina,
Que dos meus arcanos
Não quero que saibam
Gregos nem Troianos…
Já ouviu, Yayá?

II

Esses arautos políticos,
Quer de uma, quer doutra grei,
Quando estão de baixo gritam:
“Viva o povo” – “Abaixo o Rei”!

Mas, o sábio Rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idéia
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capadócios…
Já ouviu, Yayá?

III

Prometem ao pobre povo
Um governo angelical,
A terra da promissão,
Um paraíso ideal…

Porém, quando grimpam,
Cessam as cantigas
E tratam somente
De suas barrigas.
E nem mais conhecem
Aquele bom moço
Com quem já viveram
De braço ao pescoço…
Já ouviu, Yayá?

IV

Prometem casas da Índia,
Cabedais, mundos e fundos:
Mas, quando estão no poleiro:
–Viva Dom Pedro segundo!

Seja liberal
Seja puritano,
Traz o povo sempre
Num completo engano.
Gregos e Troianos
Procedem assim…
Eu vou debulhando
Tintim por tintim…
Já ouviu, yayá?

V

Enquanto esperam maré,
Oh! Que afeto! Oh! que doçura!
Mas, quando embarcam na lancha,
Quanto gás!… quanta impostura!

E toda carícia
Veste-se em orgulho,
E a massa fina
Reduz-se a gorgulho.
Eu de rapapés
Estou escarmentado,
E de farrambambas
Muito escabriado…
Já ouviu, Yayá?

VI

Nas vésperas da eleição,
Vão à casa do compadre,
Dão beijos no afilhado,
Rompem sedas à comadre…

E o pobre diabo
Entra na rascada,
Tomando sopapos,
Servindo de escada.

Eles vão p’ra Corte

E o compadre fica
Bebendo jucá,
Ou dose de arnica…
Já ouviu, Yayá?

VII

Propalam grandes idéias,
Proclamam belos princípios,
Arrotam patriotismo,
Por todos os municípios.

Tudo isto é pirraça,
Isto tudo é peta,
É toda a questão
L’argent na gaveta:
Ou, então, galgar-se
O mando, a grandeza,
Para, lá de cima,
Calcar-se à pobreza…
Já ouviu, Yayá?

VIII

Morra Pedro e viva Paulo,
Com muita festa p’ra festa,
Com pouco mais: – Viva Pedro,
Morra Paulo que não presta.

Quanta incoerência
E contradição!…
Oh! Que mastigado
Que especulação!…
Quem isto negar
Terá boa fé?!…
Nega de finório,
Ou de pai-mané…
Já ouviu, Yayá?

IX

Hoje, Sancho é muito bom…
Amanhã, Sancho é ruim…
Já fica sendo um demônio
Quem foi ontem Serafim.

Eu não os entendo,
Eu não os percebo,
E, nesta enredada,
Se os percebo, cebo!…
Por isto, safei-me,
Sem bulha e arenga,
E livre-me Deus
Da tal estrovenga…
Já ouviu, Yayá?

EU NÃO SEI PINTAR AMOR

Amor é brando, é zangado
É faceiro e vive nu,
Tem vistas de cururu,
E vive sempre vendado:
É sincero, é refolhado,
Causa prazer, causa dor,
Tem carinhos, tem rigor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é terno, é cruel,
É rico, é pobre, é mendigo,
É dita, é peste, é castigo,
É mel puro, é agro fel;
Tem cadeias, traz laurel,
É constante, é vil traidor,
É escravo, é grão Senhor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é loquaz, é mudo.
É moderado, é garrido,
É covarde, é destemido,
É galhofeiro, é sisudo.
É vida, é morte de tudo,
É brioso, é sem pudor.
Traz doçura, dá travor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é grave, é truão,
É furacão é galerno,
É paraíso, é inferno,
É cordeirinho, é leão;
É Anjo, é Nume, é Dragão,
Tem asas, tem passador,
Dá esforços, faz tremor.
Enfim, pinte-o quem quiser,
Retrate amor quem quiser,
Eu não sei pintar amor.

DELÍQUIOS

Donzela bela, Eucaris formosa,
Brisa odorosa, que afugenta a calma:
Ah! Foge, foge, dos salões dourados,
Que mil cuidados me despertas n’alma.

Donzela bela, Flor de Lis amada!
Mimosa fada, que de amor me encanta:
Se brinca o zéfiro com o teu cabelo,
Amargo zelo meu prazer quebranta.

Donzela bela, ante quem Aglaia
Cora e desmaia, vendo um teu sorriso;
Do rio à margem, oh! esconde o seio,
Pois me receio do gentil Narciso!

Donzela bela, oh! Não vejo o mundo
Esse jocoso riso encantador.
Não vás ao bosque, que no bosque habitam
Deuses que excitam de volúpia amor.

Donzela bela! Não me dês ciúmes,
Brandos queixumes, compassiva, atende,
Ouve: não queiras de Silvano a flauta,
Que a virg’incauta sedutora prende.

Donzela bela! prazenteira palma,
Vida dest’alma, que só quer amar-te;
Da trácia lira ternos sons desejo,
Em doce arpejo para consagrar-te.

Donzela bela! Vênus coruscante!
Em seu levante pela madrugada,
Sob os influxos dessa luz benina
A minha sina já se vê mudada.

Donzela bela! nenúfar mimoso,
Vergel umbroso, onde Amor descansa,
Dá-me um abrigo nos teus lindos braços,
Preso nos laços da sedosa trança.

A PORANGABA

Minha gentil Porangaba,
Imagem, visão querida,
Só teu amor me conforta,
Nos agros transes da vida.

Quando ouço a juriti
Soltar saudosa um gemido,
Saudoso, pensando em ti,
Respondo com um ai! dorido…

Se, na campina deserta,
Terno sabiá gorjeia,
Deste amor, que me inspiraste,
Voraz a chama se ateia.

Quer procure o povoado,
Quer divague na espessura,
Mostra-me a mente abrasada
Tua elegante figura.

Estando de ti ausente,
Da saudade eu sinto a dor;
Serão teus os meus suspiros,
Minha afeição, meu amor.

Da vida o doce prazer
Em mim fenece e acaba;
Só este amor não falece,
Minha gentil Porangaba!

SABIÁ
(LUNDU)

Eu fui pegar passarinho,
Na matinha de Yayá?
Engendrei o meu lacinho
E peguei um sabiá.

Sabiá, eu bem sabia,
Sabia que tu caías.
Sabiá, fica sabendo
Que tu cais todos os dias.

Sabiá ressabiado
Na matinha arrepiou-se,
Eu toquei chama de baixo
Sabiá veio, entregou-se.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

Saiba todo sabiá
De mata, gangorra ou praia
Que não armo a gangolina
Em que sabiá não caia…

Sabiá, eu bem sabia, etc.

E Yayá já sabe hoje
Que eu sei pegar passarinho,
E que sabiá sabido
Não me come o melãozinho.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

PIRRAÇAS DE AMOR

Ante os citérios altares,
Respeitoso apresentei-me,
E das pirraças de Amor
A Vênus assim queixei-me:
– “Ó deusa da formosura,
Se fazes justiça pura,
Castiga Cupido ingrato
Que, com juras e promessas,
Pregando: mocas e peças,
Fez de mim gato sapato”.

Respondeu-me Vênus,
De bom parecer:
“Quem se dispõe a amar,
Dispõe-se a sofrer;
Gracinha de amor
Amor quer dizer…”

– “Ouve, atende, ó linda deusa:
Asseverou-me Cupido
Que da formosa Tircea
Eu era amado e querido;
E, quando eu já muito crente,
Saltitando de contente,
Ia explicar-me com ela,
Rompe ele a pateada,
Solta a bela uma risada,
E zás… me bate a janela!”

Respondeu-me Vênus,
Com riso maligno:
–“É muito garoto
Aquele menino!
Mas não se despeite
Com o pequenino”.

Assegurou-me que Eulina,
Em delíquios amorosos,
Delirava por me ver
Entre os seus braços formosos:
Para a escada de um sobrado,
Onde habita o bem-amado
Funesta paixão me arrasta;
Ele, porém, de antemão,
Nos degraus unta sabão:
Virei de bumba canastra.

Respondeu-me Vênus,
Com ar zombeteiro:
“Aquele meu filho
É muito brejeiro!
Sempre foi assim
Vivo e galhofeiro”.

Fez-me crer também que eu era
Os sonhos de um serafim,
Pois que Jonia encantadora
Morria de amor por mim!
Não sei como tal notícia
Não me matou de delícia!
Mas era uma nova entrega…
Pois Jonia com o filho teu
Encapelou-me o chapéu
E fez de mim cabra-cega.

Respondeu-me Vênus,
Meneando a trança:
– “É muito traquinas
Aquela criança.
Só com paciência
Afetos se alcança.”

Jurou-me, enfim, por teus mimos
E pelas águas do Estige,
Que por mim terna paixão
De Clorinda o peito aflige;
Fui bem ancho ter com a bela,
Mas, teu filho unido a ela
Apresta p’ra caçoada
Uma chusma de vadios,
Que entre gritos e assobios,
Fez-me chispar na palmada.

Vênus, a bom rir,
Com as faces vermelhas,
Me disse franzindo
Lindas sobrancelhas:
“Quando ele chegar
Puxo-lhe as orelhas”.

De Vulcano a esposa pérfida
Inda a frase não findava,
Quando o filho adulterino
Neste comenos entrava.
A mãe, com ledo festejo
Para dar-lhe um terno beijo,
Da ara desce um degrau…
E ele dizendo xetas,
Saudou-me com três caretas,
E por fim deu-me um gagau…

Sempre os filhos seguem
De seus pais o trilho…
Se Vênus é pérfida,
É pérfido o filho.
E o jogo de Amor
É só de codilho!…

Fonte:
AÇUCENA, Lourival. Lorenio (Joaquim Eduvirges de Mello Açucena). Versos
reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1986.

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