João Simões Lopes Neto (Casos do Romualdo) 3 – O Papagaio

O reverendo Padre Bento de S. Bento – que o Senhor talvez conhecesse, não? – era um santo homem paciente – paciente! paciente! – como naquela época outro não houve.

Nos circos de burlantins muita cousa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarmos e burros que a dente pegam o palhaço pelo… atrás das pantalonas; mas a paciência para esse ensino não pode comparar-se, não pode-se, com a do reverendíssimo.

O Padre Bento, farto de aturar sacristães e não querendo estragar a sua paciência, que estava-lhe na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas… sozinho. Preparava as galhetas, o missal, etc.; depois pachotrentameflte paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar; chegada, encaminhava-se para o altar, e começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem. Mas o filé, o bem bom era quando entrava a ladainha: ele cantava o nome do soneto e uma vozinha esquisita, porém, muito clara respondia logo:

— O-o-a por nob-s!

E os fiéis, em seguida, pela pequena nave afora, acudiam ao estribilho:

— Ora pro nobis!

Dessas ladainhas assisti eu a muitas, na capelinha de S. Romualdo, que era próxima a nossa casa, na Vila de…

Agora sabem quem cantava as ladainhas do Padre Bento?

Era o Lorota, um pagagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante…

Com ele diverti-me muitas vezes:

— Lorota, dá cá o pé!

E ele, ensinado pelo padre, respondia, amável!

Coitado! …     O padre morreu e o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu.

Passaram-se os anos.

Uma vez, estava eu na Serra, numa espera de onça, quando senti – confesso não medo mas um arrepio de… frio – quando ouvi, nas profundezas do mato virgem, uma ladainha religiosa!

E pausada, afinada, bem puxada em suma!

Seria um sonho? …     Estaria eu errado na tocaia das onças, e em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança de algum convento, de alguma capela, de alguma romaria?

E a ladainha, compassada e cheia, vinha se aproximando:

— Bento S. Bento!

— Ora pro nobis!

— Santo Atanásio!

— Ora pro nobis!

— S. Romualdo!

— Ora pro nobis!

Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente; nada!

Nisto, a ladainha pousou nas árvores, por cima de mim. Pousou, sim, é o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do Padre Bento, era o Lorota!

A paciência do bicho! …     Ensinar, direitinho, aos outros, a cantoria toda! … Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real, e perguntei para cima:

— Lorota? Dá cá o pé!

Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou-me com a antiga resposta que ele sempre dava:

— Romualdo é bonito! Bonito!

E como para obsequiar-me fez um – crrr! – como aviso de comando e recomeçou a ladainha:

— Bento S. Bento!

— Ora pro nobis!

— Santo…

Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso… o Lorota e seu bando bateu asas… e eu olhei em frente: a sete passas de distância estava agachada, de bocarra aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva, uma onça de braça e meia de comprido!

E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante:

— Or…a pro no.. .bis!
S… Ro…mual…do!
Ora… pro… nobis!…
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continua mais casos

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