Aluízio Azevedo (Vida Literária) II – Colaboração

 Há uma cousa verdadeiramente horrorosa para todo o desgraçado em cujos dedos a triste sorte enfiou uma pena, ainda mesmo quando essa pena seja tão desatilada e tão romba como a minha – é a obrigação de concorrer com algum produto de sua lavra sempre que os amigos se lembram de realizar qualquer empresa ou empreender qualquer negócio.

Essa pequenina obrigação, que vista isoladamente não tem o mínimo valor, transforma-se todavia em um compromisso grave, em um martírio implacável, desde que ela representa a promessa de vinte, trinta, cem, mil artigos, destinados aos fins mais diversos e mais desencontrados.

E a graça é que não se pode a gente recusar a nenhum dos amigos, porque todos eles querem muito pouco: “Duas palavrinhas! Apenas duas palavrinhas, com o nosso nome por baixo!…” Ou então querem uma simples carta, uma simples notícia, um ligeiro pensamento, uma frase, um verso, uma palavra.

Este deseja que lhe escrevamos um anúncio de gosto, com que ele possa chamar a atenção do público sobre os seus queijos ou sobre os seus chapéus de pêlo: aquele quer apenas que lhe façamos uma boa resposta a uma certa carta que lhe enviou certa e determinada pessoa; estoutro não exige de nós senão uma página no seu álbum; aqueloutro contenta-se com um discurso que ele tem de pronunciar por ocasião do aniversário natalício de seu sócio; aqui é uma reclamaçãozinha pela imprensa a respeito dos escândalos que se dão em tal rua; ali uma introdução para o livro de um amigo e colega que vai estrear; mais adiante um artiguinho para encher o número do jornal, que nesse dia está fraco. Hoje – a poliantéia do senhor fulano; amanhã – o número especial da folha do Dr. Beltrano; depois – folhetim sobre os trabalhos de cicrano, rodapé pr’a cá, artigo de fundo p’ra lá, crônica para acolá.

Uf! É um nunca terminar de pequeninas maçadas que, reunidas são o bastante para nos amargurar a existência.

Chega-se a perder o gosto de sair de casa, de procurar os amigos de fazer a sua palestra; porque a cada passo surge-nos um dos tais credores de artiguinhos e pensamentos filosóficos.

“Então, fulano, aquilo!…”

“Aposto que ainda não fizeste o que te pedi!…”

“Trouxeste o artigo que prometeste?… “

“Quando estarás disposto a dar um passeio pelas nossas colunas?…”

“Queres ou não queres aprontar a correspondência?…”

E cada um, por que pede muito pouco, entende que não merecemos ser desculpados pela demora.

– Oh! Duas linhas! Duas linhas escrevem-se em três minutos!

– Mas filho! é que me falta a ideia! Estou seco, não sei o que te escreva!

– Qualquer cousa, homem!

– Enche aí duas tiras. Seja o que for.

– Seja o que for?… Pois bem, ora espera! Vais ver como te ensino!

Rio, 24 de dezembro de 1883

Fontes:
Biblioteca Virtual de Literatura

Ilustração por Domingos Medeiros
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