Arquivo da categoria: A Poetisa no Papel

Clevane Pessoa (Musicando)

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29 de janeiro de 2013 · 20:57

Beatriz Bastos (O vestido dela era amarelo…)

 O vestido dela era amarelo feito cor de jabuticaba
 feito Manuel Bandeira e sua voz anasalada
ao ler Pasárgada
 e mesmo que fosse bonita, mesmo sendo bonita,
 a leitura em voz alta, o som do poeta, era ainda
 mais bonito quando só palavra impressa preta
 pequena num livro velho folheado guardado
 amarelo esquecido
    a voz do poeta são as letras

Fonte:

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Mara Mellini (Palavra por Palavra)

Gosto de me revelar pelas palavras… de depositar nelas os meus pensamentos mais profundos, mais humanos. Sou tudo o que está contido no que escrevo, ao meu modo, meu estilo. E aqui, no meu espaço, reino soberana… Tenho liberdade para dizer o que penso, sem amarras, sem algemas. Porque não há nada pior, para um escritor, do que viver sob a sombra da censura… Especialmente, quando se usa da palavra para atingir bons fins. Para tocar alguém, resgatar o bem.
     
    A minha palavra não visa outra coisa, senão unir, somar, dedilhar sonhos, semear esperança. Nas minhas reticências, procuro lançar ao vento novos pensamentos, ideais, buscando sopros de valores e de conforto para quem lê ou escuta. Assim, sou inteira. Sou verdadeira. Não preciso de disfarces, minha palavra tem a força da coragem e a leveza da serenidade. Não preciso fazer mea-culpa pelo que digo, tampouco temer o fato de que não fui compreendida… É que eu não procuro intervir, procuro somar. Positivamente. Quem me conhece, sabe.

     Então chega de emprestar minhas palavras a quem faz delas um meio de contramão; a quem malfere uma boa intenção, subvertendo as minhas vírgulas e pontos finais, buscando neles o que não foi dito. A palavra, sim, tem poder. Mas o que tenho em mira é somente o que eu disse no início e o que se apresenta em todo o meu universo real e virtual: o BEM. O que faço com tanto gosto é inspirado em um mundo mais humano. E, permitam-se dizer, mais justo. Longe de ser perfeita, pelo contrário… tendo consciência das minhas ações.

     Minha palavra não mora em gaiola, nem sobrevive de favores. Tem existência própria, respira ar puro. Voa… Às vezes, chora… é melancolia. Em outras, ri… e se mostra larga. Chega em versos, sai em prosa. Mas o mais importante de tudo isso: Procura apaziguar, não desunir; é livre e me pertence. E tenho dito.

Fonte:

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Olga Agulhon (O Dito e o Não Dito)

As palavras são cruéis e desobedientes;
não são humildes servas.
Fazem-nos cócegas
e depois que saem da boca
não tornam a ela,
por mais que imploremos:
mas também não vão embora;
ficam ressoando no ar
e nos perseguem para sempre.
Por isso, busco o silêncio;
só ele nos deixa em paz.
As palavras…
prefiro prendê-las no papel.
Se viro a página
ou fecho o livro,
as silencio.
Vingo-me.
Torno-me rei.
Fonte:
AGULHON, Olga. O Tempo. Maringá: Midiograf, 2003.

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Efigênia Coutinho (Queixumes)

Versos apaixonados ao som duma lira
O amor, com doçura leva meu canto;
Pelos olhos azuis, que te desejam tanto
Derretendo o coração, soluça e suspira.

Audaz sonhadora, essa que aspira
Dos teus mimos, o sonho, a ventura,…
Infundi-me em extremos de ternura,
Sentimentos que ao tempo perdura.

Dizes para não amar! Eu clamo e amo,
Bradando lamentos, lágrimas derramo…
Onde deixaste os sonhos do amor?…

Contudo, em mim, o amor perdura
Ao celeste céu, por benignos lumes,
Amando, com ardor, teus queixumes. 

Fonte:
A Poetisa

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Silviah Carvalho (Seu Amor é Tudo)

Antes que seja aprisionada pelo seu sorriso, 
E sinta que a vida não fará mais sentido sem você 
Antes que tenha certeza que você é tudo que preciso 
Antes que eu perca a razão e no amor volte a crer 

Antes que sua solidão misture com minha carência 
E suas mãos toquem novamente as minhas 
Antes que eu seja vencida por minha impaciência 
E passe a crer que perto de você eu não esteja sozinha 

Eu voarei rumo aos pinheiros, perto da tristeza 
Onde as noites são frias, os dias são longos 
Eu estarei a meditar na sua simplicidade e pureza 

Na paz que emana de você, na sua doçura e nobreza 
Eu irei pensar no silêncio da minha incompreensão 
Não diga nada, talvez eu não resista à dor de um sincero não 

Eu cheguei no tempo que é para ti a alto-reconstrução 
Em que preferes a solidão latente no seu meigo olhar 
Eu irei antes que, seja dominada pelo desejo de ficar 

E quando este papel envelhecer, 
Saiba que esta poetisa que hoje te escreve apesar 
De nada ser, desejou ter tudo, e este tudo é você. 

Fonte:

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Flávia Muniz (O Espelho e a Perua)

Ilustração de Ionit
A confusão começou 
 Certa vez, no galinheiro, 
 Quando as aves encontraram 
 Um espelho no terreiro. 
 Uma galinha vaidosa 
 Logo quis contar vantagem: 
 – Com licença, galináceas, 
 Vim conferir minha imagem! 
 A pata, torcendo o bico, 
 Comentou com a vizinha: 
 – Não vale arrancar as penas 
 Pra parecer mais magrinha! 
 E qual não foi a surpresa 
 Das aves estabanadas: 
 No reflexo do espelho 
 Só tinha coisas erradas! 
 Quem era alta e bela 
 Viu-se feiosa e baixinha. 
 Quem era gorda e forte 
 Ficou magrela e fraquinha. 
 – Credo! – grasnou o marreco. 
 – Cruzes! – o pinto piou. 
 – Incrível! – cantou o galo. 
 E o papagaio berrou. 
 A galinha carijó 
 Foi quem depressa falou: 
 – Este espelho tem feitiço… 
 Foi a bruxa que o mandou! 
 – Mentira! – disse a perua, 
 Balançando as pulseiras. 
 – Li esse conto de fadas, 
 Vocês só dizem besteiras! 
 Estufou-se, bem danada, 
 Mostrando o papo vermelho. 
 E com pose de malvada 
 Fez a pergunta ao espelho: 
 – Espelho, espelho meu! 
 Responda se há no mundo 
 Outra ave mais bonita, 
 Mais charmosa e elegante, 
 Mais esperta e fascinante, 
 Mais incrível e imponente, 
 Mais formosa do que eu? 
 Diga logo, espelho meu!! 
 Os bichos, impressionados, 
 Ouviram com atenção 
 A resposta do espelho 
 A tamanha pretensão: 
 – Se você quer a verdade, 
 Vou dizê-la, nua e crua. 
 E mostrar a realidade 
 Para uma simples perua. 
 Você disse que é esperta, 
 Imponente e charmosa. 
 Mas parece antipática, 
 Falando assim, toda prosa. 
 Desfila o ano inteiro 
 Como se fosse a tal. 
 Mas foge do cozinheiro 
 Quando chega o Natal!

Fonte:
Revista Nova Escola

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Clarisse Barata Sanches (Quero Apertar-te a Mão – Um Soneto para Machado de Assis)

Oh! Flor do Céu! Oh! Flor cândida e pura!
Agora, ao ver -te linda no Senhor,
Tal como estejas viva, meu Amor,
Não sei por quê, mas sinto-te a ternura!

Fecho os meus olhos para ver-te a cor
Da tua face rosa que perdura
Dentro da minha alma, em amargura,
Que não crê que me deixes nesta dor!

Quero apertar-te a mão para aquecê-la,
A minha sei que Deus te deixa vê-la,
Mesmo que esteja erguida uma muralha…

Se a Fé move montanhas, quero crer
Que no País da luz te vou rever:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

———————-

Machado de Assis escreveu o primeiro e último verso.
Soneto inserido no livro “Um Soneto para Machado de Assis, em sua Homenagem. Editado no Brasil em 2008. Concorreram 924 autores e foram recebidos 1.388 sonetos. O livro contém 110 sonetos, estando este no nº 21.

Clarisse Barata Sanches – Góis – Portugal

Fonte:
Soneto enviado pela poetisa

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Domitilla Borges Beltrame (Cristais Poéticos)


ESTAÇÃO DO AMOR

Vens! e quando vens
trazes a PRIMAVERA
no brilho do teu olhar,
na alegria do teu riso
que me levam ao umbral do paraiso…
Vens! e quando vens
trazes a primavera
na concha de tuas mãos
que me cobrem com o pólem do teu carinho
fertilizando o canteiro de meu OUTONO…
Vens! e, quando vens
trazes a primavera
no sol de tuas palavras
enchendo-me de VERÃO
a alma e o coração…
Vens! e quando vens
trazes a primavera
no calor do teu beijo
aquecendo de desejo
o frio INVERNO
da longa espera!

ESTRANHA LOUCURA

Que estranha loucura é esta
que faz de minha vida uma festa,
um mundo de cores,
canto de passarinho
e perfume de flores?

Que estranha loucura é esta
que me faz, tão consciente,
perder a razão e o juizo,
desejar o paraíso
a qualquer preço e de qualquer jeito?!

Que estranha loucura faz o meu peito
bater tão descompassadamente,
verter tanta ternura?!

É a paixão pela vida
que me torna atrevida,
descobrindo-me poeta,
fascinada pelo verso,
apaixonada pelo AMOR!

LIBERTAÇÃO

Cortei as amarras,
soltei o meu barco,
tracei nova rota…
Disse adeus ao velho cais
e, qual errante arrais,
navego outros mares…
Quero ancorar em ignoradas margens,
desbravar uma diferente terra,
encontrar novas paisagens,
descobrir o segredo do outro lado da serra…
Correr leve e solta
pelas brancas areias de novo sonho
já não mais tristonho,
e, quem sabe, olhos nos olhos,
mãos nas mãos,
viver um amor inesperado,
entregar os beijos que não dei,
escrever os versos que guardei!…

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Efigênia Coutinho/SC (Imortalidade)


Nutrindo suspeitas que turvam a mente
Exibes essa fúria que cevas corroendo
Por essas atitudes que tens assumido…
Por que?Triste de mim! Por que não te risco?

Na santa redenção, almejo dia e hora
Nesta parte do Universo que desmaia.
Oh! que venha minha redenção declinar,
Opressão desumana que me devora!…

Acorde Cristal; que, ao frio e mudo,
Contra vontade, os sonhos ocultando.
Onde encontrar socorro para o Amor!?
Numa ardente estação de fino clamor.

Solta-te dos grilhões para benevolência,
Ao longo do tempo a gemer clemência
Rompendo Futurecendo, vossa Imortalidade,
Aos sons prazenteiros da doce liberdade!…

Fonte:
Poema enviado pela autora

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Clevane Pessoa (Consumidores do Medo)

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17 de fevereiro de 2012 · 22:22

Clarice Lispector (Meu Deus, Me Dê Coragem…)


Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da tua presença
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude

Faça com que eu seja a tua amante humilde
entrelaçada a ti em êxtase
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala
Faça com que eu tenha a coragem de te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo
Faça com que a solidão não me destrua
Faça com que minha solidão
me sirva de companhia

Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir como se estivesse
plena de tudo
Receba em teus braços o meu pecado de pensar

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Efigênia Couitinho (Namorada)

Fonte:
Texto e imagem enviados pela autora. Montagem por José Feldman.

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Adélia Prado/MG (Nuvens Poéticas II)


A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa me casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza
e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

DONA DOIDA

Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

CORRIDINHO

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

DOLORES

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:

“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

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Adélia Prado/MG (Nuvens Poéticas)


IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou acasa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe ospeixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar,abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado,até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

DIA

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral-
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

PARÂMETRO

Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

POEMA COMEÇADO NO FIM

Um corpo quero utro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.

Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

EXAUSTO

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

(in Bagagem)

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Lola Prata/SP (Terragua)


Na dança galáctica, eis o planeta,
em parte prateado sob lua-cheia
ou dourado ao sol… O fogo o recheia,
grafitado em névoa, pura naveta.

Revelou Betânia numa retreta:
todo azul ao longeda astral aldeia
vem da santa Virgem que a galanteia
sob o manto anilado da paleta…

Há sonho branco de anseio de paz,
de verde vivo… ou de sangue vermelho
da insensatez carrasca que se alastra…

Tal lar esférico sera capaz
de reversão… ou de se por de joelho
contra a teimosia que a vida castra?

Fonte:
Jacqueline Aisenman. Revista Varal do Brasil: Literário, sem frescuras. Edição Especial:Nosso Planeta Terra. Genebra: abril de 2011

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Zélia Guardiano (Dia Irremediavelmente Triste)

Triste como um tigre
Cativo
Atrás de grades

Triste como a naja
Contida
Na vitrina
Do serpentário

Como o visionário
Mal vestido
Numa camisa
De força
Como o condenado
Rumo à forca

Como a transitoriedade
Da beleza
Como a falta de pão
Na mesa

Como a queda suicida
Do almiscareiro
Do Himalaia

Como o cardo
Em guerra
Contra o trigo

Como a partida
De um amigo
No domingo

Assim amanheceu
Meu dia

Como o lírio espetado
Na ikebana
Como a carta agourenta
Da cigana

Como o colibri
Ao ver seu ninho
Colhido pelo vendaval

Como o efeito
De um tsunami
Como o juízo final

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Isabel Cristina Silva Vargas (Mãe Natureza)


Da a vida, desabrocha
Acolhe,
Promove esplendores
Belezas sem par.
Dela tiramos sustento
Alegrias para os olhos
Espaço para viver
Locais para lazer,
Descanso , meditação
Reencontro da harmonia
Nela constroem-se moradas
Arranha-céus, imponência
Para iludir o espirito
E ter a falsa ideia de solidez
Perpetuidade, poder
Pensando que aqui ficaremos
Que a vida e amontoado de bens
Utilitários, adereços.
Vã ilusão
Viver e ser transitório
Despir-se das cangas
Que aprisionam o essencial
Ofuscam a luz
Distanciam do DIVINO.
Mãe Natureza
Insultada, ofendida, degradada
Nos mostra dolorosamente
Que a vida e troca de ações
Pensamentos, energia
Que construímos paredes em excesso
Ao invés de preservar florestas
Cultivar flores
Atrair beija-flores e borboletas,
Dar liberdade aos animais.
A natureza se liberta
Liberta as almas
Provoca sofrimento
Por desconhecermos
A real essência de viver.
Fonte:
Revista Varal do Brasil: Literário, sem frescuras. Edição Especial: Nosso Planeta Terra. Genebra: abril de 2011.

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Lilian Maial (Re-Volver)


No peito-humus,
um músculo ávido de palavras.
Revolver a terra,
adubo em gotas,
versos irrigados.

O verbo cala,
o solo seca,
racha-se a crianca –
migalha de pão dormido.

Fome e chão,
pisa descalça
em brasas da indiferença.
Pele e sangue ressequidos,
aridez de lágrima,
espinho e barro
a maquiar a pele,
manchas de verde e amarelo.

Chora a pátria,
pétrea de matas pálidas,
alopecia de cores,
extensas clareiras.

Terra vermelha
coberta do pó,
rugas no mapa,
pistas de pouso –
Clan-destinos.

Onde o branco,
a pureza,
a promessa?

Traida a terra,
ouro de tolo,
sorriso de icterícia,
parcos dentes
de mastigar solidão.

Céu de anil,
nuvens sanitárias,
homem esquálido
a plantar pesticida.

Traida a terra,
clamor rouco e abafado,
fumaça dos charutos cubanos,
pendurados nas bocas patronais,
sem lei e sem letra.

Traida,
a terra lamenta por seus filhos,
amamentados de esmola,
de enteados cuspindo confeitos,
mordendo,
com presas de ouro,
o amanhã e a decência.

Traida a terra.
Punhal enterrado no seio,
mãe órfã de rebento raquítico.
Abre-se a fenda,
engole o que resta:
homem e praga,
riso e lágrima,
orgulho e carbono.

Num futuro fóssil,
tropical tupiniquim,
semear e colher…
Milagre!

Fonte:
Revista Varal do Brasil: Literário, sem frescuras. Edição Especial: Nosso Planeta Terra. Genebra: abril de 2011.

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Evelyn Heine (Poesias Divertidas para Crianças )

DOENCITE

Às vezes a gente acorda
Achando tudo errado:
Nariz tapado,
Olho embaçado,
Braço cruzado.

Tontura, enxaqueca…
Tem nhaca de todo lado.
Quem será que me botou
Todo esse mau-olhado?
Dorzinha esquisita,
Será que é sério?
Ai, corpo humano…
Quanto mistério!
Depois, tudo passa!
Vai como veio!
E até acho graça
De tanto receio!

ÁGUA DOCE, DOCE ÁGUA

De mar é feita a terra,
De água é feita a gente.
Abaixo o desperdício!
Poupar água: coisa urgente!

Clara, doce ou gelada,
Verde, azul ou transparente,
Sem a água não há nada.
Nem floresta, nem semente.

Água doce mata a sede,
Água doce é a que lava.
Cachoeira, rio ou fonte…
Só não pode ser salgada.

Tanto bate até que fura,
Diz ditado popular…
Cuida dela! Você jura?
Vamos economizar!

BI, BI, FON, FON!

Carro cachorro louco
Late, buzina, avança!
Um rosnando para o outro
Feito briga de criança.
Pra que isso, minha gente?
Paz é mais inteligente!

Na estrada ou na rua 
O caminho vai e volta. 
Passa a vida das pessoas, 
Passa o sol, passa a paisagem. 
Passam carros coloridos, 
O destino na bagagem. 
“Quem fica parado é poste”, 
Como diz José Simão. 
Para o trânsito dar certo, 
Tem a sinalização. 

Eu vou, tu vais, ele vai.
Nós vamos, vós ides, eles vão.
Cada um tem seu caminho,
Mas não vale contramão!

Se eu pego a contramão,
Passo no sinal fechado,
Está feita a confusão.
É encrenca pro meu lado.

Vai falar no celular, 
Ou mudar de estação? 
Então é melhor parar! 
Dirigir pede atenção. 

Pra que serve tanta placa?
Tem até uma com vaca.
Menino, montanha, “E” com “X”…
Tem flechinha pra cá e pra lá…
Eu pergunto e meu pai diz:
“Serve para organizar”.

MÃE… A MINHA É DIFERENTE!

Dizem que mãe é tudo igual.
Só muda o endereço.
Mas a minha é mais legal,
A melhor que eu conheço.

Minha mãe é diferente,
Com sotaque engraçado.
Ela faz tudo ao mesmo tempo,
Deixa o tempo até cansado.

Conversa com todo mundo de uma vez,
Faz pergunta e nem ouve a resposta.
Você fala, ela já está longe,
Mas é assim que a gente gosta.

Do seu jeitinho, nos conquistou
A todos os filhos, genros e netos.
Um favor nunca negou.
Dá conselhos sempre espertos.

Sua mãe também deve ser única, sem igual.
Aposto que é especial!
Porque mãe é feita de encomenda pra gente,
Só o amor é que é igual.

OLHA A CARETA!

Amanda era uma menina bonitinha.
Cheia de sardinha. Cabelo de trancinha.
Tão engraçadinha!
Mas foto dela, não tinha.
Na hora de tirar fotografia, só fazia estripulia.
Não ria.
Nem sorria.
Sabe o que é que aparecia?
Só careta! De todo jeito… Nariz torto, boca torta, só folia.
A cara mesmo, ninguém via.
O pai pedia:
– Risadinha, minha filha!
Aí ela estufava as bochechas o mais que podia. Ficava com cara de melancia.
A mãe dizia:
– Faz “X”, filhinha!
Mas não fazia. Nem pra vovó, nem pra titia.
“Ninguém me manda”, sacudia Amanda.
Mas um dia, um belo dia, a danadinha arranjou um namorado. E ele pediu uma foto. Pra guardar na carteira, com os adesivos de estimação, um chiclete e duas moedas.
– Xi… não tenho. – disse Amanda, desenxabida.
– Ora, então tira. – pediu o namorado.
– Não posso. – tristinha, disse ela…
– …Agora estou banguela!

QUER BRINCAR?

Alegria de criança
É tão fácil, tão gostosa!
Qualquer sonho se alcança.
E a vida é cor-de-rosa.

O brinquedo ou a caixa,
Tudo serve pra brincar.
Tudo sempre se encaixa
Nesta fase de inventar.

Pega-pega, esconde-esconde, mau-mau…
Gato mia, polícia e ladrão…
Brincadeira mais legal
Vem da imaginação.

Você brinca o dia todo
E com tudo que aparece.
Se adulto é quem brinca,
Dizem dele: “Este não cresce!”

Mas criança se diverte
De um jeito diferente.
Ela leva mais a sério
A missão de ser contente.

Qualquer coisa nessa vida
Pode virar brincadeira.
Chuva, rio, nuvem surgida…
Qualquer coisa que se queira.

Quando você for grande
Continue a diversão.
Com bola, pintura ou casinha…
Existe uma profissão!

Até mesmo com palavras
A gente pode brincar.
Está vendo esta poesia?
                     Eu brinco é de rimar!

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Carolina Ramos (Parceria)

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27 de dezembro de 2011 · 22:56

Efigênia Coutinho (Flor do Pecado)

Nesta dança ardente em chamas alma desperta
E serpenteia todo o meu corpo em sedução,
Como num jogo, incendeia a pele em descoberta
Propenso a exalar o incenso da louca paixão…

O ardor em mim instalado vira um braseiro
De rubro sentir, que toda pele se inflama
E a entranha ardente, deste fogo é o picadeiro,
De onde se devora ao leito desejos,de toda trama.

E em cada beijo sedutor todo o nosso sonho,
Acalenta audaz o desejo dessa entrega total…
E na vontade de ser possuída componho,
Ao corpo a chama deste sentir seqüencial.

Agiganta-se dentro de mim o teu ser agrilhoado,
E no meu íntimo a chama ardente em sinfonia,
Exala de todo o ser o aroma da flor do pecado,
Em desejos ardentes numa eloqüente sincronia!

Fonte:
Poema enviado pela autora

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Adélia Prado (Poesias Avulsas)

IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
(in Bagagem)

A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa me casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza
e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

DONA DOIDA

Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

CORRIDINHO

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

DOLORES

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

MOÇA NA SUA CAMA

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

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Larissa Fadel (Cristais Poéticos)


VALSA DO DESENCANTO

Meu querer passeia distraído em minh’ alma
A felicidade espia
vai embora
A tristeza chega
Impiedosamente demora

A madrugada me instiga a esquecer
me chama
na chama
do meu ser

Chove em meus olhos
Anoitece todas as luas
Espero a estrela no mar entornar

Navego em refrões que um dia cantaste
Lembro que outrora meu riso roubaste

Hoje me aqueço
nos tons da lembrança
Coleciono saudades pra vingar da esperança

Recordo que em mim já sentiu poesia
Lamento que hoje não quer mais saber

Saio às pressas com os olhos de chuva
O vento que vem é o mesmo que vai
Balanço no tempo impávido e cruel
Seria mais doce provar outro fel

Fito teus olhos
hoje como vidro
Mas um dia espelho meu

Acordo e persigo meus anos e planos
Estanco em meu medo
Estraçalho meus sonhos

Desencanto traduz
Valsa que conduz
A chuva dos olhos vai demorar
Sozinha em mim é melhor ficar…

RESSURREIÇÃO

Longe do chão navego sem rumo
Sossego segredos em céus e planetas
Sinto asas brancas em suspiro flutuar
Fascinante perigo que ouso alcançar

Inspiro magia de raio e cor
Me visto de estrela em calendário lunar
Ascendo sorrisos para cura e dor
Eterna renúncia que se faz por amor

Delírio de alma, raio , explosão
Entrega de sonhos em tom de emoção
Fogo feroz que não quer machucar
Perfeita beleza que quer delirar

Outro caminho a sorte perfuma
Olhos chorando sem pra trás olhar
Abraço perdido na vida errada
Luz de velas no encontro da madrugada

Lembrança de chuva que molha o sorriso
Silêncio de rua onde sonhos se vão
Viajante de cosmos, visão do paraíso
Mudança de rota no vôo do coração

Pedaço de mim que se foi mais uma vez
Chama que ascende saudade e intuição
Vida minha que amanheceu por dentro
Ternura em acordes de antiga canção

Sabor de sereno desabrochando a flor
Encontro marcado de rio e mar
Olhos chorando o impacto da colisão
Conjugando o fascínio de nova paixão!

VIM TE BUSCAR

Hoje vim te buscar no meu pensamento
Quem me trouxe até aqui soprou forte
Foi o vento

Na viagem colhi fruta madura
Flores do campo pra te aliviar
Vi pássaros, ouvi trovões
A chuva veio pra me molhar

Não resistindo ao encanto da chuva
Deixei a agua cair sobre o meu corpo
Lavei a alma e coração
Senti leveza
Quis voar

Meu vôo foi intenso
Comecei tirando devagarinho os pés do chão
Aprendi a flutuar
Uma andorinha que andava apressada parou para olhar
Me convidou para com ela ver o verão chegar

Assim fomos juntas
E como mágica comecei a voar
Voava leve e solta
Vi terras, cachoeiras e florestas
Num instante já estava no mar

Nadei com baleias e golfinhos
Conheci a estrela do mar
Mergulhei nas profundezas do oceano
Vi corais e navios perdidos
Vi a vida atë então desconhecida
Vi a luz da lua a jorrar na ägua o encanto do luar

De volta estava com os pés na terra
Já estava quase lá
De tão lindo que foi caminho
Jurei um dia voltar

Te encontrei sozinho, sentado num canto a chorar
Me aproximei de mansinho sem saber o que falar
Não sabia o que houvera
Nem tampouco como parar
De repente a primavera
Veio com as flores perfumar

O perfume exalou
De novo quis voar
Desta vez minha companhia
O vento ajudou a carregar

E Entre terras tão distantes
Não mais quis te deixar
Vem comigo meu amor
Este mundo desbravar!

SONHO MORTO

Fala as horas nesse imenso céu
Canto estrelas sem existir
Distancio as rimas desse dia
Sei que é hora de partir

O mundo que não veio
Tinha o cheiro de jasmim
risos, lagos, outras cores
doces versos e mar sem fim

Mas o tempo trouxe o lamento
e todos os dias eu recordava
presente imperfeito da solidão
soneto de amor numa canção

Debrucei na janela da alma
lá derramei todo meu ser
vazio de coração que ama
grito de sofrido querer

Desejei todas as dores
caminhei na noite fria
deixei sonhos e amores
em troca de flores e calmaria

Hoje escrevo sem a lágrima
sem amor, sem ilusão
letra fria de uma história
que arrebentou um coração.

SONHO QUE NÃO VEIO

Atravesso a madrugada
Me falta o sonhar que queria
Os versos que me acompanham
Não querem a aurora do dia

Viajo pra dentro de mim
Ânsia louca do meu ser
Vibro como cordas de uma lira
Canto uma história sem fim

Doce é o manto da ilusão
Aconchego de novo ninho
Tantas são as cores da emoção
vaga noite, lume, passarinho

Fonte são teus olhos
Cais do porto de solidão
diamante desse amar
Ondas que teu nome levou
das areias daquele mar

Lembrança que partiu
Saudade que ficou
Sereno de silêncio
amor que navegou

Palavras que soam o instante
Gotas de ternos orvalhos

Que doce poesia eu poderia compor
se teus dedos tocassem meu amor

Que doce poesia eu poderia ser
Se tuas mãos abraçassem minha saudade

Que doce poema poderia dizer
se me desse a flor do teu querer

Mas fico na madrugada
e perco agora a palavra
não sei o que dizer

Ajoelho pra esperança
Colho eu a desejada flor
Enquanto o dia não vem
Fico eu com a calada dor

NOVO RETRATO

Não tenho mais promessas de ficar só
Tenho as tenras andanças
Areia, sal, terra e pó
Tenho solitárias lembranças
Contidos pecados
E na garganta um nó

Tenho saudade de coisas
Que ainda não sei
Fiquei sem tempo pra isso
Nem sei se terei

Tenho uma rota definida
Em constante mutação
Se é contraditório
Eu sou a mutação

Sou mais feliz agora
Do que antes fui
Mas tenho uma lágrima aqui
Que ainda insiste em cair

Lágrima de vontade
De saudade
De paixão
Mistura de quem ama
No cantinho de ilusão

Me abriga o sol lá fora
Olho o tempo, passam as horas
Queria eu tudo poder dizer
Aqui tudo transcrever
Mas a mente vai mais longe
E nos dedos sangra esse querer

Abstraio as largas emoções
Deixo a paisagem na memória
Fotografo a história
Que no futuro chegará

Me interpreto no acústico desse lugar
Sem rimas ou versos
Na ânsia de chegar

Na tempestade das palavras
Concebo o que de mais belo há
Posso até ver anjos
Posso ser
Posso crer
Posso amar

Posso amar o beijo lento
Me entregar nas altas ondas
Posso no fogo me deitar

Posso ser mulher
Ser criança
E nessa ampulheta
Brincar com o tempo que me balança

Por fim posso ser
Essa pele branca
Esse jardim
Posso ser tudo
Com um toque suave e profundo
Do seu eterno ser em mim.

NOVA ESTAÇÃO

Para colorir a estação
a primavera despertou
vieram estrelas
oásis
o sonho dos meus dias
a chuva regando a flor!

Melodia
já era dia
clareou!

Surgiu o meu compasso
nas mãos de outro sonhador
cor verde
que a chuva molhou!

Minha alma adormecida
meus quereres inesquecíveis
a porta aberta
minha música
minha dança
emoção!

Ao som de muitos tempos
não teve recordação
fui errante e saudade
o presente se manifestou!

E eu que tanto esperava a primavera
coroei minha jornada
floreei minha estrada
fiz belo meus dias

E vc que tanto esperou estações
atiçou sentidos
acordou adormecidos
fez o dia nascer!

E eu de novo
uma vez criança
outra mulher que dança
outra vez
e vou!

Não por onde pisei
não por ali, nem por aqui
somente vou
somente sou
somente viva

Sou êxtase
esse êxtase que se extrai
das mais belas notas da lira
que se entrega ao som do vento

que volta como onda
que pisa na areia
que desenha estrela
que não olha pra trás
estou!

Estou como quem pode estar
talvez um acorde
que no tempo andou
somente estou
me basta
o ontem…já passou
um pouco serena, ainda pequena
mas estou!

Sigo adiante
para uma terra nem tão distante
com o coração pulsante
com vontade de futuro
mas sem medo do escuro
com desejo no pulsar

Componho as notas da vida
curo minha ferida
faço minha própria canção
já aprendi a dançar

E na primavera que brota
minha primeira rima
é composição de cores
é ter de volta amores
é poder voar!

Quem me rodopiou foi o tempo
com ele senti medo do vento
mas com ele sei que vou chegar
e vou!

Vou novamente andando
me domando
navegando nesse imenso mar

Não vou por ali
não!
Não vim para seguir caminhos traçados
planos cansados
trajetórias impostas

Vim para desbravar o tempo
devastar o vento
e seguir minha brisa

Vim para ser sonora
como nos tempos de outrora
enfim me encontrar

Então vou!
Por aqui, por ali, por lá!

Não tenho uma nota só
tenho a partitura
mas por terminar

O fim sou eu que faço
porque meu caminho hoje eu traço
seja no deserto, nas estrelas, no mar

Não possuo a música inteira
mas tenho vontade de cantar

Audácia
Caminhos
Trilhas
Pedras
e flor

É primavera meu amor!

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Amélia Luz (Cristais Poéticos)

FEIRA DE IDEIAS

Mude de compasso
saia do laço, conquiste o espaço.
Entre na dança volte à infância
vire criança, espalhe esperança!
Coloque uma roupa engraçada
ponha um nariz de bola vermelha
saia no bloco dos sujos,
faça palhaçada, sinta-se alforriada…
Compre uma prancha
pegue uma onda
vá surfar na vida
tire o peso dos ombros
desentorte, troque de avenida…
Compre um anzol
vá pescar novos pensamentos
mude o seu momento!
Saia do enlatado seja ousada!
Jogue botão, figurinhas, futebol,
tome bastante sol
cante em soprano ou em bemol…
Não durma como um caracol
espalhe-se enquanto é tempo
caminhe na contramão
estimule a sua criação
monte na asa da ficção
atire-se do viaduto
saia voando impoluto
troque de rótulo
seja outro produto!
Fotografe um amanhã risonho
enfim onde tu estarás???
Aprenda a ser,
assuma-se como um irreal
resolva todos os teus conflitos
no tapa, na carícia ou no grito…
Batize-se com um outro nome
troque o teu figurino
aprenda a fazer arte,
a tristeza descarte…
A vida é uma proposta…
Coloque nela uma palavra mágica:
FELICIDADE!!!

LÍNGUA LUSA
Pseudônimo: Amapola

Minha língua lusa é um laço,
É um traço, é o meu espaço!
Esdrúxula, confusa, pessoal,
Abusa das palavras
Num mesmo ritual
Lambendo a poesia
No sabor sublime do ofício,
Dia após dia!…
Minha sina, minha musa,
Herança do meu Portugal,
Ortográfica ou gramatical…
Erudita, culta, acadêmica,
Polêmica ou irreverente,
Luz que brota livre na nossa boca
Sedenta de versos…
Popular, simples, corriqueira,
Língua de muitos “falares”,
Língua dos sete mares,
Atravessando os oceanos
Na força dos ventos,
Seguindo o caminho mágico
Das ousadas caravelas portuguesas…
Identidade cultural do baú de Camões,
Com heranças ibéricas próprias e definidas,
Trânsito poético da linguagem que liberta.
Temos nossas raízes próprias
Ao partilhar a palavra viva
Saída do ovário da “última flor do Lácio”,
Brotada em terras brasileiras…
Resmungo o âmago da minha latinidade,
Afinal, quem sou, quem somos?
Eu sou, nós somos: cidadãos Portugueses,
Brasileiros, Angolanos, Moçambicanos
Caboverdianos, Guineeenses, Goeses,
Macaenses, Sãotomenses ou Timorenses…
NÓS SOMOS SOBRETUDO
A LÍNGUA PORTUGUESA!!!

Fonte:
Poesias enviadas pela autora

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Cecília Meirelles (Livro de Poemas)

CANÇÃO

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

CANÇÃO I

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só que aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…

DESTINO

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.
(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.
(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.
(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o início da sombra que foge…
Eu, não.)

Pastora de nuvens, não paro nem durmo
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.
(Pastores da terra, debaixo de folhas
que entornam frescura num plácido chão,
Sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.
(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não.)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.
(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

A DOCE CANÇÃO

A Christina Christie

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
– todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o ausente,
para trazer o Universo
de pólo a pólo contente!

BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

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Carolina Ramos (Asas do Brasil)

Ser pássaro… Voar… ser a lufada
de brisa que circula sem caminhos…
Ser Ícaro sem quedas! Ver nos ninhos
o condor, rei da altura! Ter a alada

sorte de um Pégaso! Na cavalgada,
meio às nuvens de um céu feito de arminhos,
levar Perseu, fugido aos pergaminhos,
aos pés de Andrômeda, infeliz amada!

Santos Dumont contempla o espaço e sonha:
– Nessas nuvens, distantes caravelas,
dormem promessas em macia fronha:

” – O homem voa!” – Aspirando o azul profundo,
arroja-se! … E asas verdes e amarelas,
põe nas espáduas de um surpreso mundo!

Fontes:
Carolina Ramos. Destino: poesias. São Paulo: EditorAção, 2011.
Imagem = http://www.culturabrasil.pro.br/

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Dagmar Braga (Poesias Avulsas)

CONSTRUÇÃO

Lanhada a pedra,
faço-me fio,
partilho, rasgo
entranha e estranho.

Quebrado o leme,
desoriento,
acolho vento,
maré e abismo.

Cavado o poço,
torno-me água,
mão retorcida,
lisura e barro.

Feito o silêncio,
lasso a palavra –
gume sequioso
de outra navalha.

PAISAGEM URBANA

no farol
estilhaço de vidro
fragmento de prisma
cinabre viscosidade

e um sonho coagulado em nossa retina

INFINITUDE

Ao derredor do tempo
(sorvo de luz e sombra)
o labirinto assoma

Não há porta que se abra
nem sina que nos sustente

O desafio
é a tessitura e o fio

Não há rastro ou memória
na solidão do exílio

Tudo — a um só tempo —
é pressentimento /
origem
tédio / espelho

Secreto e imenso — sempre —
o meu e o teu delírio.

PROSCRITOS

no exílio da manhã
o desamparo
a dois

quando cruzamos
olhares
urbanos desvalidos

forçado o esquecimento
banido o verbo

embora o corpo
estirado
de prazer e fúria

MADRUGADA

quando em silêncio arde o desespero
teu rosto assoma

tua mão acolhe o fogo e me desata
o descompasso

o dia serpenteia na garganta
um poema grita
germinando luz

Fonte:
Antonio Miranda

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Efigênia Coutinho (Fidalgo semblante…)

De teu fidalgo semblante,
Emana suave doçura.
Do teu tranqüilo olhar,
Repousa em mim a carícia
De um sonho apaixonante.

Tem sonho em mim constante,
Leva-me a sentir na brandura,
Toda realeza do teu versejar,
Desabrochando infinda alegria
Desejo de um beijo flamejante.

Meu coração bate palpitante,
Deste sonho feito de candura,
Sinto desejos de te abraçar
E do teu gozo, sentir a delícia,
Tu em mim e eu esvoaçante.

Novembro 2011

Fonte:
Poesia e imagem enviadas pela poetisa

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Dulce Auriemo (Poesia Mágica)


Castelinho Mágico de Trovas

Esse é o nosso Castelinho
Feito só para sonhar…
Eu lhe mostro seu caminho
Lhe convido para entrar

Boas-vindas… amiguinho
A portinha é um coração
Vem brincar no Castelinho
Vem cantar uma canção

Quando alguém está chegando
E ele quer nos avisar
Lá na torre vai tocando
Um sininho sem parar…

Foi Dudu da bandeirinha
Quem criou sua canção
E escreveu cada notinha
Com amor no coração…

CASTELINHO MÁGICO

Castelinho Mágico da Vovó Dudu, um lugar mágico, muito especial, que representa o coração das vovós que adoram seus netinhos. Fica situado num local imaginário onde só acontecem coisas boas.

Tem a porta e as janelinhas em forma de coração, que simboliza o amor.

Na torre mais alta, existe um sininho que toca para dar as boas vindas a todos.

Está cercado por um enorme lago azul, onde moram muitos patinhos. Possui uma grande horta, um pomar e um lindo jardim, com laguinho, fonte e passagens secretas!

CASTELINHO

Existe um lugar…você vai conhecer
E quando chegar… pode entrar sem bater…
A porta aberta vai sempre encontrar
No alto da torre um sininho a tocar…

No meu coração… bem guardado em mim…
Aonde o amor… não tem fim, não tem fim…
Tem um Castelinho pra gente brincar
Já fiz seu cantinho você vai gostar…

Tem água de coco, pãozinho de mel
Pipoca, paçoca, sorvete e pastel…
Brinquedo, livrinho, fantoche, massinha
Balão colorido… herói de estorinha…

Tem fonte, laguinho, jardim pra correr
Passagem secreta pra gente esconder
Tem ponte, riozinho, patinho a nadar…
Até carruagem… que vai passear…

As sete notinhas eu vou ensinar
E tantas canções vamos juntos cantar…
As sete notinhas eu vou ensinar
E tantas canções vamos juntos cantar…

SORVETEIRO GELADINHO

Sorveteiro esperto e animado. É o visitante mais esperado por todos.

Chega sempre com seu carrinho colorido repleto de sorvetes deliciosos de vários sabores.

Toca uma buzina para chamar a atenção quando está chegando. É alegre e gosta de carnaval.

Adora dançar o frevo e fazer passos de samba. É amigo da abelhinha Zagzu e enche seu baldinho de sorvete.

SORVETEIRO

Sou o sorveteiro…
Tenho fama de esperto
Se vejo tanta criança
Vou trazendo o meu carrinho
E vou parando aqui por perto

Quem quiser comprar sorvete
Não precisa empurrar
Tem que entrar na fila
Esperar só um pouquinho
Sua vez já vai chegar

Só… que manga não tem mais
Cho-colate também não…
Pra matar a sua sede
Pra matar a sua sede
Vou te dar um de limão

Esse sol tá esquentando
Derretendo sem parar
Vem aqui pra minha sombra
Vem aqui pra minha sombra
No cantinho tem lugar

Não fique aí chorando
Pra chamar minha atenção
Já tomou muito sorvete
Já tomou muito sorvete
Mas não posso dizer não…
Não… não… não…

LEOPOLDINA

Fiel e inseparável cachorrinha da princesinha Bibi. É vaidosa e usa dois lacinhos coloridos na cabeça. Gosta de tomar banho e ficar bem branquinha.

Está sempre seguindo a princesinha Bibi e o Ursinho Azul nas brincadeiras.

Gosta de comer biscoitinhos e beber água na torneira do jardim. É muito carinhosa, falante e divertida. Adora pular, correr e brincar!

AU AU AU

AU… AU… AU…
AU… AU… AU…
A Leopoldina está latindo no quintal

A Leopoldina é uma cachorrinha
Bem branquinha uma bolinha de algodão
No pescoço ela usa coleirinha
Tem focinho que parece de sabão

Pula… pula… pula…
Corre sem parar…
A Leopoldina está chamando pra brincar

E na cabeça ela usa dois lacinhos
Coloridos com fitinhas de cetim
Ela gosta de comer os biscoitinhos
Beber água na torneira do jardim…

Pula… pula… pula…
Corre atrás de mim
A Leopoldina está latindo no jardim.

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Neiva Fernandes (Primavera Colorida)

Primavera vem chegando,
com ela novos amores;
as rosas desabrochando
no jardim cheio de flores.

Quando chega a primavera,
o jardim fica florido;
encanto de uma quimera
deixa tudo colorido.

Primavera é estação
de temperatura amena;
enriquece o coração
com inspiração serena.

Primavera dos amores,
das poesias e do canto;
recanto dos trovadores
que fazem da vida o encanto.

Primavera sempre amiga
antes do verão chegar;
com ternura e com cantiga,
nos convida a passear.

Fonte:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poesias em Quatro Estações III)
http://www.sardenbergpoesias.com.br/aniversario_2008/primavera/primavera.htm

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Clarice Pacheco (Os Professores da Minha Escola)

A professora de Matemática,
com suas contas complicadas,
falando em equações,
no Teorema de Pitágoras.

A professora de Português,
com seu modo indicativo,
falando em advérbios,
interjeições, substantivos.

A professora de Geografia,
com seus complexos regionais,
falando em sítios urbanos,
em pontos cardeais.

A professora de Ciências,
com seus ensinamentos ecológicos,
falando em evolução,
em estudos biológicos.

A professora de História,
com seus povos bizantinos,
falando na Idade Média,
no Imperador Constantino.

A professora de Inglês,
com seus don’t, do e does,
falando em personal pronouns,
na diferença entre go e goes.

A professora de Artes,
com suas obras e seus artistas,
falando em artes ópticas,
em pintores surrealistas.

O professor de Educação Física,
com suas regras de voleibol,
falando sobre basquete,
em times de futebol.

Os professores da minha escola,
com suas matérias que às vezes não entendemos,
falando em todas as coisas,
que aos poucos vamos aprendendo.

Fonte:
O Pensador
Imagem = Portal Carangola

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Elaine Bueno (Amigo)

Fonte:
Poema e imagem enviadas pela poetisa

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) Parte final

FRÊMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas…

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…

DIZE-ME, AMOR, COMO TE SOU QUERIDA

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS

Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma…
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias…

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas…
Sobre o meu coração pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas mãos vazias…

O TEU OLHAR

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

O MAIOR BEM

Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.

Mesmo a beijar-me a tua boca mente…
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!…

Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo,

Do teu frio desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?

OS MEUS VERSOS

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

O MEU SONETO

Em atitudes e em ritmos fleugmáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos…

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastros…

E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) V


NOSTALGIA

Nesse país de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p´las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi…
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim… Ah!
Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

CRUCIFICADA

Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
– Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de pousar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois… Ah, depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra mãe!

ESPERA…

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou dona de místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera…espera…ó minha sombra amada…
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontrarás neste mundo!

INTERROGAÇÃO

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

A VOZ DA TÍLIA

Diz-me a tília a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera…

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de ouro que me enlaça…
Trago nas mãos as mãos da primavera…
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine…”

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
“Já fui um dia poeta como tu…
Ainda hás de ser tília como eu sou…”

NÃO SER

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
– Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! Arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência! Ah!
Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de ouro de uma flor aberta!…

?

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Tereza em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros?
– Sem nos dar braços para os alcançar?

IN MEMORIAM

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, il Poverello
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o Sol, a Terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! – E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…
Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
-Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas… Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota d´água!

QUEM SABE?…

Ao Ângelo

Queria tanto saber porque sou eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber porque seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!

Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!

Quem sabe se este anseio de eternidade,
A tropeçar na sombra, é a verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?
—-

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) IV

RÚSTICA

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

CONTO DE FADAS

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras duma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d´ouro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: “Era uma vez…”

EU

Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim…

E não me via!
Andava a procurar-me – pobre louca!
– E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

PASSEIO NO CAMPO

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina…
Pele dourada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo!

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoulas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

MENDIGA

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas…
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol… quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de ouro espedaçou?

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando…

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!…

SUPREMO ENLEIO

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda…

TOLEDO

Diluído numa taça de ouro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir…Viv´alma…Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer…

As tuas mãos tateiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
– Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…
Uma torre ergue ao céu um grito agudo…
Tua boca desfolha-me num beijo…

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

ALVORECER

A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d´alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe…um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silêncio em volta a q´rer falar…

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Silvia Araújo Motta (Envelhecer sem Notar)

Poema Nº 1582

Vejo nas folhas que caem
que o inverno vai chegar,
Nas estrelas que se apagam,
meu tempo de descansar.
Relógio? Desnecessário.
Valorizo minha hora,
no segundo extraordinário,
vivo pensando no “agora”.
Meio século de vida
e os sete cumpro a somar…
na música, amor, poesia,
Trago a missão bem cumprida
com metas, planos de um dia…
Nos sonhos e fantasias,
um trabalho útil, honroso
de incontáveis alegrias,
fez-me o mundo prazeroso.
Valores transcendentais
aos minutos cultivados
a buscar cada vez mais
espíritos elevados…
Ficarei “sex”? Pois sim!
Com perfeita lucidez?
SEXagenária? Ah! Sim…
Daqui a pouco é minha vez!
SEXOxigenada nos cabelos…
Mais adolescente, talvez…
A história de cada saudade
dos momentos e pessoas…
Olhos miúdos!!!!!Verdade!
Muito para recordar!
Tantos fatos! Coisas boas!
Na infância e maturidade!
Meus quinze ou vinte anos!
Milagres! Maturidade!
Recebi e dei nos carinhos,
amor, atenção, compreensão!
Trabalhei com inteligência,
pra gostar do que fazia!
Filhos amados!…Meus amores!
Até netos… quem diria!
Lutei pra ter paciência!
Enfrentei tantos problemas!
Alguns consegui vencer
pela Fé que me carrega.
Meu espelho interior
Diz-me até…que já cresci!
Da gravidez… na balança,
faço o parto da alegria…
Agradeço todo dia
a Deus, pelo meu talento,
pelo amor, pela alegria
e pelo conhecimento.
O sol nasce acima das nuvens
e a lua inteira brilha no lago
porque alta vive, a cada dia!
Envelheci e não vi…por isso,
começaria tudo outra vez.

Fonte:
Poesia enviada pela autora

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) III


VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim: “Já ela é velha!
Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de ouro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos…

IMPOSSÍVEL

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-feira da Paixão.
Sempre a cismar, cismar, d´olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe…

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por ´star contente! Pois então?!…”
Quando se sofre, o que se diz é vão…
Meu coração, tudo, calado ouviste…

Os meus males ninguém mos adivinha…
A minha dor não fala, anda sozinha…
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!…

Os males d´Anto toda a gente os sabe!
Os meus…ninguém… A minha dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!…

QUEM?…

Não sei quem és. Já não te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– Não sei se tu, amor, assim me vês!…
Nossos olhos não são nossos, talvez…
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!…

És tudo e não és nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; és um que passa…
És sorriso de Deus que não mereço…

És aquele que vive e que morreu…
És aquele que é quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…

SEM PALAVRAS

Brancas, suaves mãos de irmã
Que são mais doces que as das rainhas,
Hão de pousar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há de pousar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!…

QUE IMPORTA?…

Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão,
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas louras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso, e é frescura e graça!

Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

O MEU ORGULHO

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas… Quem soubera
Por que tudo passou e foi quimera,
E por que os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem…
Mas digo para mim: “Não me merecem…”
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha
E também é nobreza não ter nada!

INCONSTÂNCIA

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

O NOSSO MUNDO

Eu bebo a vida, a vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, amor! … As nossas bocas juntas!…

ANOITECER

A luz desmaia num fulgor d’aurora,
Diz-nos adeus religiosamente…
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui… outrora…

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora!

Horas tristes que vão ao meu rosário…
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho…
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…

CREPÚSCULO

Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoadas,
Pousam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes…

E os lírios fecham… Meu amor não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E a minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes…

O silêncio abre as mãos… entorna rosas…
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando…

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha.
Um coração ardente palpitando…

EXALTAÇÃO

Viver!… Beber o vento e o sol!…
Erguer Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A glória!… A fama!… O orgulho de criar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!…

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas:
– Como eu sou vossa irmã, ó meus irmãos!…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) II

JUNQUILHOS…

Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas folhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que é minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paixão que deixou e qu’inda existe…

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!

MENTIRAS

Ai quem me dera uma feliz mentira

que fosse uma verdade para mim!

J. Dantas

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

AOS OLHOS DELE

Não acredito em nada.
As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar.

E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:

Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,

Duma luz suavíssima de dor… E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

DOCE CERTEZA

Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer…

Hás de tecer uns sonhos delicados…
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!…

VERSOS

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma…

Versos!… Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês…

À TUA PORTA HÁ UM PINHEIRO MANSO

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti atiro e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as louras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra…

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
É o soluço da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!

A TUA VOZ DE PRIMAVERA

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

TRAZES-ME EM TUAS MÃOS DE VITORIOSO

Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso
Que a solitária estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O silêncio, ao redor, é uma asa quieta…
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de tulipa entreaberta…

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo…
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo…

EU…

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber por quê…

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

TORTURA

Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento! –
E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso d´alto pensamento,
E puro como um ritmo d´oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

A MINHA DOR

A você

A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres d´agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

A FLOR DO SONHO

A flor do sonho, alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina….

Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh´alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

NOITE DE SAUDADE

A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite a soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom!
Seja o que for Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!…

PARA QUÊ?!

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que nosso peito ri `a gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d´amor? Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d´amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Florbela Espanca (A Mensageira das Violetas) I


CRISÂNTEMOS

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais…
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

NO HOSPITAL

À Théa

Na vasta enfermaria ela repousa
Tão branca como a orla do lençol
Gorjeia a sua voz ternos perfumes
Como no bosque à noite o rouxinol.
É delicada e triste. O seu corpito
Tem o perfume casto da verbena.
Não são mais brancas as magnólias brancas
Que a sua boca tão branca e pequena.
Ouço dizer: – Seu rosto faz sonhar!
Serão pétalas de rosa ou de luar?
Talvez a neve que chorou o inverno…
Mas vendo-a assim tão branca, penso eu:
É um astro cansado, que do céu
Veio repousar nas trevas dum inferno!

VULCÕES

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.
No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

O MEU ALENTEJO

Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…
Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

PAISAGEM

Uns bezerritos bebem lentamente
Na tranqüila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!
Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d´amor…e docemente
Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!
Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d´amor e de ventura,
Ó meu amado e lindo Portugal!

VOZES DO MAR

Quando o sol vai caindo sob as águas
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

CRAVOS VERMELHOS

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!
…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…”

ANSEIOS

À minha Júlia

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!…
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!
Não ´stendas tuas asas para o longe…
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!…

A ANTO!

Poeta da saudade, ó meu poeta qu´rido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o Só pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,
Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bíblia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!
Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu coração…
Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe
Beijando-te já frio no fundo do caixão!

NOITE TRÁGICA

O pavor e a angústia andam dançando…
Um sino grita endechas de poentes…
Na meia-noite d´hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!…
Tenho medo da noite!… Padre nosso
Que estais no céu… O que minh´alma teme!
Tenho medo da noite!… Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria dor parece…
Ó noite imensa, ó noite do Calvário,
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ´squece!

ERRANTE

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…
Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…
Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

CEGUEIRA BENDITA

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…
Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Gena Maria (Divagações Poéticas)

O POETA QUANDO CHORA

Suas palavras são coloridas
como as cores do arco-íris
O poeta quando chora
Deixa a emoção falar mais alto
e transporta para o papel
toda a sua dor contida

O poeta quando chora
escreve seus lindos versos
deixando o coração falar
sobre a dor que tem no peito
falando do amor, da saudade
da tristeza, sem maldade

O poeta quando chora
dizendo tudo que sente
leva consigo outros amores
outros corações também
machucados pela
mesma dor do amor

O poeta quando chora
leva a todos os cantos seus versos
emocionando sempre com suas
líricas palavras de amor e dor

O poeta quando chora
faz chorar também, quem ama
quem sente saudade de um amor,
que se foi deixando em seu lugar,
alegria, tristeza e a dor!
FALANDO DE AMOR…

Como é bom falar de amor!
Sentir o coração bater forte
Saltitante, como se fosse pular
Do nosso peito em chamas!

Como é bom amar e sentir-se amado
Saber que mesmo estando longe
Tem alguém pensando em você…
Com a mesma saudade e a mesma saudade…
É uma vontade de estar junto, de se abraçar
Como se aquele momento fosse o último!

Como é bom beijar e sentir que
O mesmo desejo está nos lábios
De quem nos beija, com o mesmo ímpeto
Da paixão adolescente, ofegante e desejoso
De que esta emoção nunca se acabe!

Como é bom amar e ouvir
A voz do seu amado dizendo…
Muitas vezes, bobagens… Outras vezes,
Palavras profundas e sinceras!

Como é bom amar e poder dizer:
“Eu amo você meu amor e,
vou amá-lo eternamente!”

PROCURO UM AMOR

Procuro um amor
Que me faça sonhar… realizar fantasias…
Esquecer o ontem… viver o hoje
sem pensar no amanhã…

Procuro um amor
Que me veja linda por dentro e bela por fora
Ouvindo-me com atenção e me fazendo carinhos

Procuro um amor
Que ao findar do dia chegue saudoso de meus beijos
Abraçando-me com saudade, dizendo palavras de amor

Procuro um amor
Que não me troque por amigos ao entardecer
E ao chegar me procure com muito ardor

Procuro um amor
Que me ame acima de tudo e de todos
Que me faça sentir o quão importante sou

Procuro um amor
Que ao anoitecer me beije com carinho
Que tire minha roupa, me ame inteira…
Que me faça ir aos céus pedindo mais e mais…
Que me faça sentir, que sou a mulher de sua vida

Procuro um amor
Maior que eu, maior que nós, único e grandioso
Para que eu esqueça que nesta vida conheci
Alguém como você…
DE TOMBOS EM TOMBOS

Tanto fiz, tanto fiz que acabei assim
Sem você e muito machucada!
Ontem, seu amor era só meu…
Hoje, ele é de quem estiver por perto…
Amanhã sei lá, de quem será!
Nesta vida, o amor é assim
sempre nos pregando peças!
Quando pensamos que amamos,
de repente, descobrimos que não!
Quando pensamos ser amados,
de repente, somos abandonados!
E assim vamos levando a vida
de tombos em tombos…
E cada vez que nos levantamos
duma queda, esquecemos
rapidinho da dor…
Levamos outra rasteira e para
o chão novamente somos lançados…
E, lá ficamos inconformados
prometendo não mais
cair em ciladas…
Até que nosso sensível coração
sobreponha a nossa razão…
E de novo somos lançados
a uma nova chama da paixão!
Será que não existe um amor
total, completo, eterno entre
um homem e uma mulher?
Será que temos sempre
que amar sem ser amado
E ser amado sem amar?
Isto me lembra aquela música antiga…
“Quem eu quero não me quer…
Quem me quer mandei embora…
E por isso já não sei o que
será de mim agora…”
Mas, desta vez eu juro, eu prometo não
mais cair e, também não mais derrubar…
Assim quem sabe, serei feliz…
Bem mais feliz!

CADERNINHO DE MUSICAS

Meu caderninho de músicas
Só letras de amor escrevi
Cantei a paixão e a dor
E de amor quase morri

Nas letras e nas canções
Muita tristeza e algumas alegrias
Um amor mal resolvido
Uma traição, um reencontro…
E muitos beijos!

Uma despedida sem volta
Um encontro, um recomeço.
Um amor á primeira vista
Beijos ardentes
Promessas não cumpridas
E abraços “calientes!”.

Um coração “espinhado”
E um adeus para finalizar!
Ás vezes uma vida é rompida
Mas há os reencontros
Para não mais separar!

Ficaria horas
Lendo as músicas e ouvindo
Os famosos a cantar
Como é bom a adolescência
E voltar a amar!

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Ângela Togeiro (Momento Poético)


JUNTANDO AS METADES

Sou mulher,

por mais que evitemos

ser o que somos,

por mais que nos cubram de panos

para nos esconder,

ou que nos dispam para nos admirar,

por mais que nos mutilem o físico,

ou a alma, para nos anular,

por mais que nos espanquem

para mostrar

a força bruta da inferioridade,

por mais que nos desvalorizem

em piadas grosseiras,

será apenas

quando nos respeitarmos,

como seres que se completam,

que evoluiremos.

Homem e Mulher, Mulher e Homem,

Nosso destino é um só.

Fora isso,

fingimos evolução,

reconhecimento de direitos

criando mais desigualdade,

na falsa igualdade.

Somos mulheres perdidas

nos descaminhos da humanidade

mas sempre

Mulheres.

MULHER

Sou mulher,

sou todas as mulheres:

sou Afrodite, Amélia, Angela, Eva, Diana, Joana,

Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,

Salomé, Tereza, Vênus, Zênite…

Tenho na genética

a herança dos tempos,

que me dá todos os nomes,

que me tira todos os nomes,

quando me desdobro em outra mulher.

Nasci em todas as raças,

tenho todas as cores puras e miscigenadas.

Pratico todos os credos.

Nasci em todos os cantos deste planeta.

Vivi em todas as eras.

Registrei meus gritos em todos os rincões,

mesmo se expulsos da alma

no mais profundo silêncio.

Vim de todos os lugares,

nasci em berço de ouro, em choupana,

na rua, nas matas, hospitais, templos…

Fui vestida, fui enrolada,

despida, jogada.

Gerada num útero que me amou,

ou num que me recusou.

Pouco importa, se rica ou pobre,

se esculpida no Belo ou no Feio,

preciso cumprir meu destino,

meu destino de Mulher.

Fonte:

Boletim Guatá

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Efigenia Coutinho (Janela da Vida)


Da janela do quarto avisto um morro…

Ele é um corpo de pedra assoberbado;

Desafia a terra e o céu e tem um gorro

no seu perfil gigante e endeusado.

Observo o seu porte alheio ao mundo

tão distante das guerras e dos combates,

invisível no tempo, doendo-me fundo

na falta de esperança do seu resgate!

Não sofre esta montanha… é sobranceira,

sem rosto nem idade, inerte, augusta!

Quem me dera que fosses à sua beira!

Porque teu talhe heróico muito custa…

É o sofrimento duma vida inteira

que dobra o dorso teu nessa canseira.

Fontes

Soneto enviado pela autora


Imagem = Era uma vez…Link

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Roza de Oliveira (Relâmpagos Divinos)


Relâmpagos luzindo em noite escura

em seus corcéis de luz aurifulgente,

anunciais de forma rica e pura

um mágico saber – clarividente!

Telegramas de luz cuja linguagem

computador nenhum pode gravar

e, presciente dessa luz-imagem,

só o poeta a sabe decifrar.

Bendito seja tal conhecimento

que em seus raios de luz, força e verdade

emerge dos arcanos de uma alma.

E, assim sendo, relâmpagos divinos,

trazeis da criação a tempestade

que me compensará com paz e calma.

Fonte:

Simultaneidades

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Isabel Sprenger Ribas (Teia de Poesias)


Dedos, Inverno, Outono, Primavera,Verão e Vida!…

Faz o frio mais barulho em mim

do que faria o vento

nas copas das velhas árvores frondosas…

É o Inverno…

Debandam folhas,

deixando nus troncos assexuados e encabulados.

Emigra a beleza. Tomba no chão.

Transformada, é tapete gratuito,

Macio, amarelado,

por poucos, os sensíveis, notado.

É o Outono…

Meus dedos… São eles velhos dedos sem medos!

Mas suas juntas nodosas,

não suportam os invernos.

E nem os outonos, na ausência dos vales e campos floridos…

Meus dedos e minha alma,

clamam por ipês amarelados,

por ondas de mar,

montanhas rochosas,

vagalhões nas pedras, espatifados…

Meus dedos enrijecidos

querem tocar margaridas, colibris,

alguma flor colorida, muito colorida.

Meus dedos desejam com urgência,

de novo, tocar a Primavera, o Verão e a Vida,.

02/11/07. Curitiba

Urbanas Cerejeiras

Ao fundo um som de gente.

E nos olhos uma visão

que domina a alma .

Baila em mim,

saltimbanco e acrobático, um sorriso.

Com calma,

mas cheia de magia, gingado e extraordinária estripulia

nos meus olhos,

uma dança ocorre.

Em algum canto, no cérebro, se agita um guizo…

Sem senões nem agonias,

baila meu coração

nesta dança de euforia.

Unânimes, em ciranda, entrelaçadas,

a alegria

e, do meu viver,

esta momentânea magia olham.

Tanta beleza…

Dizem: Deus, só Ele! Só.

Terá criado tais flores, as da cerejeira,

obra prima eterna da natureza!

Criatividade do Recriar.

Criar…Verbo digno de imitação.

Quase semelhante a editar…

Trás ao Homem a lembrança,

sublime e absoluta, da divina criação.

Certa forma de legado. Uma herança…

Seis dias de labor, um de descanso e oração.

E nestes sete, em exercício permanente,

a todo instante, subjetiva mas premente,

no ser humano,

a necessidade de recriar.

O que Deus, com sua majestosa obra

já nos legou como lição!

Fonte:

Textos enviados pela autora

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Lino Mendes (Maria Albertina Dordio: "Os Galegos")


O Correio trouxe-nos mais uma preciosidade literária, aliás, pela maneira compreensível como escreve, a mensagem da poesia e não só de Maria Albertina Dordio entra facilmente no nosso coração.

Este seu novo livro, um espaço de afectos e de memórias de infância, tem sem favor lugar em toda a boa Biblioteca.

Deste livro intitulado “Lembras-Te Mãe ?”,um poema;

Os Galegos

O jantar terminou e, na travessa,

Há ainda comida a gritar

Pelas bocas famintas que, à pressa,

Acorrem quando as vou chamar.

São muitos e não têm que comer!

São muitos e nãpo têm que vestir!

Andam magros, descalços, a sofrer,

São tristes,nem sequer sabem sorrir.

Lá vêm com o prato aceitar,

Num alvoroço grande,com esperança

De poderem na sopa saciar

Aquela fole adulta de criança.

A boca pouco afeita ao sorriso,

Abre-se sem sorrir, num feio esgar…

O olhar, sem estrelas, com preciso

Apenas de alimento, pra brilhar.

A sopa cobre todo o barranhão

Que dois ou três agarram, com cuidado,

Não vá algum deixá-lo ir ao chão…

Nem lembram de dizer, –“muito obrigado”.

Recolhendo a casa, em algazarra,

Na ânsia impaciente de comer,

Deixam-me a mim, ficar na triste amarra

Da injusta razão de tal sofrer.

Maria Albertina Dordio no livro “Lembras-Te,Mãe?”

Fonte:

Texto enviado pelo autor

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Lúcia Constantino (Quem Te Olhou nos Olhos)

Quem Te olhou nos Olhos,
ouviu a canção das nuvens,
executada nas cordas solares.
E viu os lírios do coração se abrirem.
E naquele momento, sentiu
os justos se perderem de suas angústias
e as astúcias dos pensamentos
se converterem em serenos faróis.

Decifrou ele, em Teu Olhar,
os veios profundos
que no infinito desenham as estrelas,
teto de um mundo
que ainda vale a pena,
quando há no Ser o sonho
de reencontrar o verdadeiro lar.

Quem Te olhou nos Olhos,
sabia que estava diante do manancial solar,
maestro da lua, do mar
e de todos os vales profundos
onde ainda respiram os náufragos
e os insensatos passos dos absurdos.

Ao fitar Teus Olhos,
com certeza alimentou-se dessa aurora
e vestiu-se de gente pela primeira vez,
estreando a vida,
sentindo-se sagrada e ascendida criatura,
seiva da terra remida.

Aquele que Te fitou os Olhos
fez de si mesmo uma candeia eterna,
consciente de que ao olhar o próprio céu,
humanamente auto-gerou luz à sua hora
e enfim, se reconheceu.

Quem Te olhou nos Olhos
recebeu asas para a caminhada
ao longo dos séculos.

Nasceu.

Fontes:
http://asasonoras.blogspot.com/2011/06/quem-te-olhou-nos-olhos.html
Imagem = http://nitidaneblina.blogspot.com/

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Efigênia Coutinho (Êxtase)

Qual uma aquarela o êxtase se colore,
Para enfeitar o umbral da emoção.
Que em beijos, minha boca te devore,
E do ato de amar, sentimos a explosão.

Comungando da volúpia festejamos,
A nossa entrega num beijo sensual.
E o êxtase percorre o que fadamos
Para o desejo cobiçado torne-se real.

Por um latejar que enrubesceste,
Nossos corpos explodem de paixão.
O sangue umedece calorosamente
A nossa carne sedenta em fusão.

É o desejo que brota envolvendo,
Selando em beijos este momento.
Do amor, a magia transcendendo
Nossas almas em puro encantamento.

Fonte:
Texto e imagem enviados pela autora

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Tânia Tomé (Livro de Poesias)


MOÇAMBIQUE

Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim

SONS EM UNÍSSONO

A mão que me lê
ganha no espelho
a pupila
de uma luz imensa
no fundo da concha.

É o que se me vê(m) além
da cotilédone da pele:
sons ruidosos
em uníssono.

SERMENTE

E se Paul Celan
me entrasse
aqui, no futuro verso
eu seria a flor
tu serias a morte
e não te escreveria
neste desejo
incerto
de morrer-te
como murcha a flor
para ser semente

SE O MEU PESCADOR PESCASSE

Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar…

Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?

E sei que hei de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda forca dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há de nascer
E há de pescar-me no alto
o pescador
Espero

ENCANTOEMA

Pois ha urna verdade,
é a verdade do poema.
Urna verdade que não existe
e que não importa.
O que importa és tu
e és tu que existes
no peixe que sonhas.

ENCANTAMENTE

Uma confusão de dedos
procurando as mãos
da menina
— Onde estão, mãe,
as minhas asinhas da loucura?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

SONHO

Inspirada num poema que de igual forma me caracteriza de poeta amigo CAVALAIRE (Adilson Pinto).
Não tenho medo de assumir quem sou, uma eterna sonhadora que luta por aquilo em que acredita. (Tânia Tomé)

Eu tenho um sonho,
e dentro dele milhares
de sonhos possiveis…
em que acredito,
quase sempre
na plenitude
como na forma
em que respiro.

AMOR

Meu poema infinito
Tu escreves-me tão bem
esse amor todo nos teus dedos
escrevives-me exactamente
como me sonhei

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Cecília Meirelles (Antologia Poética II)


RUA DOS ROSTOS PERDIDOS

Este vento não leva apenas os chapéus,
estas plumas, estas sedas:
este vento leva todos os rostos,
muito mais depressa.

Nossas vozes já estao longe,
e como se pode conversar,
como podem conversar estes passantes
decapitados pelo vento?

Não, não podemos segurar o nosso rosto:
as mãos encontram o ar,
a sucessão das datas,
a sombra das fugas, impalpável.

Quando voltares por aqui,
saberás que teus olhos
não se fundiram em lagrimas, não,
mas em tempo.

De muito longe avisto a nossa passagem
nesta rua, nesta tarde, neste outono,
nesta cidade, neste mundo, neste dia.
(Não leias o nome da rua, – não leias!)

Conta as tuas historias de amor
como quem estivesse gravando,
vagaroso, um fiel diamante.
E tudo fosse eterno e imóvel.

CANÇÃO A CAMINHO DO CÉU

Foram montanhas? foram mares?
foram os números…? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
– e o encantamento arrependido
do meu amor.

OS GATOS DA TINTURARIA

Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranqüilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria

O CANTEIRO ESTÁ MOLHADO

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças…”

DEPOIS DO SOL

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

O MENINO AZUL

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

SONHOS DA MENINA

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

O CAVALINHO BRANCO

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

LAMENTO DO OFICIAL POR SEU CAVALO MORTO

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado – melhor que nós todos!
– que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam…

Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos…

Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!

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