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Mauro Modesto (Poemas Avulsos)


DESEJO QUE ME FASCINA
Em homenagem ao centenário de Sena Madureira

Nestes cem anos de existência,
os versos do teu poeta, nesta saudação,
são saídos  da alma, do coração,
de saudade que faz derramar nostalgia,
de novos sentimentos, de inspiração.

Sempre foste
O doce beijo, tantas poesias,
o laço santo que prendeste os teus filhos,
o eco de boas lembranças, belas imagens,
altar e folia, pérola lapidada ,
ferramenta de leveza,
fruto de beleza escancarada.

CONSTERNAÇÃO

Depois
que você me abandonou,
fiquei exatamente
igual àquela árvore,
sozinha, abandonada,
no meio do campo,
em pleno verão,
sem as caricias do vento,
triste sem direção.

De alma cansada, sem copa,
sem sombra
para o viajante repousar,
sem folhagem,
sem flores,
desprezada, sem amores,
sem canto,
sem comemoração,
solitária, aborrecida,
a pedir amor,
a suplicar, guarida!…

Depois
que você se foi.
Tudo virou silencio,
lágrimas, padecimento,
tristezas, renuncia,
oceano de lágrimas
onde o poeta deve se afogar,
noites frigidas, indiferentes,
Saudades incontidas, comoventes.

Depois
que você
sumiu da minha vida,
um pouco de mim morreu,
os sonhos e os desejos,
se perderam nas noites,
nada mais
canta dentro de mim,
tudo acabou, feneceu.

Consternação – Poesia Classificada em 5º lugar no concurso de literatura das Américas- Maceió – 2000.

Fonte:

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Mauro Modesto

Mauro Davila Modesto nasceu em Sena Madureira, Acre. À beira do cafezal, um igarapé sem muita importância de Sena, Estudou no rio de Janeiro e em Minas Gerais. 

Mauro modesto é um apaixonado por Sena Madureira, desde cedo com vocação para  poesias, que encantam e garantem o prazer de uma boa leitura, não poderia deixar de ser o Príncipe dos Poetas Acreanos, titulo este, concedido pela Casa do Poeta Acreano.

O Poeta tem importância fundamental na evolução cultural desta terra, comprometido com educação, com o folclore, com a poesia, com o hino, a Bandeira e com o Patrimônio Histórico e cultural do estado do Acre.

Mauro Modesto possui 10 obras publicadas. Fundou 12 Casas de Cultura e é membro de mais de 60 entidades culturais do país. O acreano é detentor das medalhas Raimundo Correia, Olavo Martins dos Guimarães Bilac, Austregésilo de Athayde, Francisco da Silva Nobre, Castro Alves, acadêmico Giovanni Siqueira, Juscelino Kubitschek e Arthur da Távola, além de três estrangeiras: Mérito Cultural “Museu Maria da Fontinha, do Mérito Elos Club de Leiría e do centenário de Miguel Torga – Portugal.

Poeta, conferencista, economista e jornalista, Mauro consegue representar sua paixão e prender cada leitor de seus livros com charme,  com poesias de saudades que fazem o leitor viajarem ao tempo, com sentimentos puros e ainda consegue resgatar e mostrar o prazer da literatura brasileira.

– Detentor da medalha Olavo Bilac – Rio de janeiro, concedida pela Federação das Academias de Letras do Brasil e Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro.

– Dono do Projeto e criador da fundação municipal de Cultura do Rio Branco, atual Fundação Garibaldi Brasil.

– Fundador da Casa do Poeta de Sena Madureira e da casa do poeta de Tarauacá

Membro Efetivo da Academia Acreana de Letras; 

Membro Fundador das Academias de Letras e Artes de Sena Madureira; de Xapuri, Brasiléia, Quinari, Plácido de Castro e Academia de Jornalistas e de Letras do Estado do Acre; 

Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Acre; 

Membro Honorário da Academia Brasileira do Meio Ambiente; 

Membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais.

Algumas obras do autor

Desencontro – Poesias e Crônicas – 1983
Por quê? – Poesias e Crônicas – 1985
Toda Saudade tem um nome – Poesias e Crônicas – 1990
Respingo de Paixão e de Saudade – Poesias e Prosas   – 1998
Pedaços de Amor e de Saudade – Poesias – 2000

Fontes:

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J. G. de Araújo Jorge (Cantos de Amor, Esperança e Dor)

CANTO E ELEGIA 

Sejam as palavras a forma da minha dor
ou da minha alegria.

Que este é o destino real dos que trouxeram
a poesia,
existirem apenas no canto,
como a chama no fogo,
como a forma na flor!

Canto e elegia…
aonde eu for.

CANTO OU ELEGIA

Porque não me pertences eu te sinto minha.
Sei que estou no teu sono e nos teus movimentos.
Ah! se já tivesse apertado ao meu peito
talvez me pertencesses, – e não fosses minha.

Quantas, quantas julguei possuir, tive-as na posse
e perdi-as no instante em que a taça se esvaziou.
Ah! morremos de sede ! E é água pura que canta
perto de nós, no abismo, esse amor que não temos.

Morro de sede, e sofro… Ó música tão perto
e tão longe na minha solidão ardente!
– Quanto não a ouvirei porque a terei nos lábios?

Quando a possuirei sem notar-lhe a pureza?
E a beberei sem ver, que a estou, lento, matando,
e estou, lento, morrendo, sem saber que morro?

CANTO DO AMOR SEM TEMPO

“Porque nunca te estreitei contra mim
é que nunca te afastas.”
(Apontamentos de Malte Laurids Brigge.
Rainer Maria Rilke.)

Cresces no pensamento quanto mais te afastas,
nunca te afastas, nunca, se afinal ressurges
em cada vivo instante – ó flor sem estações,
numa árvore que tem mil profundas raízes!

Para mim, és aquela intangível presença
que construí com o meu louco desejo impossível.
Se não posso tocar-te, hás de acenar-me sempre:
loura estrela que a mão não apaga dos olhos.

Mais alem do desejo – essa fera em tocaia -,
da ternura – esse dote veneno que embriaga -,
paira o amor, e eis o amor, longe de nossas forças,
fruto de ouro da lenda que criamos juntos.

Ah! pudesse eu tocar-te e talvez esboroasses
como um gesto de areia ao abraço das vagas…
Ah! pudesses ser minha, e talvez percebesses
que então, já nunca mais poderias ser minha!

Ah! o amor, como nós o afastamos, no instante
em que julgamos, tontos, loucos, celebrá-lo.
Só depois que o possuímos é que compreendemos
que possui-lo é afinal parti-lo e mutila-lo.

Quem diria? A conquista é o “requiem” do amor,
e o que devera ser eterno e indivisível,
vai sendo mutilado toda vez que um golpe
de prazer, fere e atinge a substancia do sonho.

Só – como estas, assim, estou sempre ao teu lado,
sempre comigo estas -, assim só, como estou.
Que faríamos nós para salvar o amor
se eu pudesse planta-lo em teu corpo, a enraizar-me?

Ah! os braços são alças do esquife imprevisto,
colhem flor sem raiz, colhem astros sem céu.
o meu amor, só tu cintilas em meu sonho
porque enquanto me buscas eu jamais to alcanço!

O destino do eterno atraiçoou nossos planos.
Nossa conspiração frustrada nos endeusa.
E esse amor, que eu quisera estrangular de beijos
sobe como uma chama angelizada no ar!

CANTO DE ONTEM

Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.

Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por habito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano…

Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.

CANTO INTEGRAL DO AMOR

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
– e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.

CANTO AO FUTURO

O trabalho não pesará. Será como a tua cabeça
que carregas todos os dias sem sentir.

Os caminhos serão os mesmos – subindo as montanhas –
rasgando as planícies – serão os mesmos –

A inveja não minará a bondade
a bondade não será apenas a face que ri.

Nem haverá caridade. – só a justiça –
ninguém agradecerá, ninguém se curvará,
a gratidão se purificará.

Todos chegaremos a ser homens
depois de ser crianças,
não virá a ferramenta
sem passar pelo brinquedo,
não chegará a ciência
antes da história de fadas,

A necessidade não atropelará a infância .
Oh! a infância, sagrada infância!
não será privilégio, – estará em todos os passados,
subiremos a serra para encontrá-la .

Sairá das tuas mãos o que nela estiver
teu cérebro trabalhará contigo para melhor ate ofereceres.

Não haverá rumos impostos,
escolheremos a direção.
Nem haverá boléias, – todos conduziremos
os nossos carros, as novas vidas.

CANTO DO POETA MENOR

Sou o poeta menor, o trovador humilde,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
em meio às árvores, aos pássaros, aos rios e jacarés
porque o resto não há.

Não me recebem. Estão sempre em reunião importante.

Estou na rua, com o povo, que “a praça é do povo
como o céu é do condor”,
já cantou o grande Poeta.

Não trago quatrocentos anos na sacola,
não sou de ferro, não sou de bronze,
não desci orgulhoso da alta montanha
falando como Zaratustra,
– sou um poeta, de barro,
como qualquer homem…

Não cheguei de Ita, com alma palaciana,
disposto a conquistar a grande capital,
não invadi os jornais e suplementos
construindo “igrejinhas” sem fieis.

Sou o poeta menor, o poeta humilde, sem história,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
pra lá, muito pra lá…
– a vila de Tarauacá.

Poeta sem brasão, sem orgulhos, sem rodinhas,
apátrida entre irmãos,
poeta nú e sozinho, com sua poesia,
pelos quatro cantos de sua terra
misturado com o povo.

Sou o poeta antigabinete ministerial
sem rondós e sem falsas luxúrias,
não sou amigo dos reis,
sou simplesmente o poeta da rua,
como um violeiro e sua viola,
como um cego e seu realejo…

Quando toca a minha poesia
a criançada vem correndo para ouvir,
os trabalhadores param o serviço
e comentam,
as empregadas e os transeuntes fazem roda.
as moças se debruçam nas janelas
e ficam cantarolando.

Sou o poeta menor. Não me recebem.
Estão sempre em reunião importante.

Não faz mal. De mãos dadas com o povo,
como em noite de lua
faço ciranda na rua.

CANTO SOLITÁRIO E TRISTE
à Memória de Medgar Evers

(Líder negro assassinado traiçoeiramente, em sua luta contra a segregação racial nos Estados Unidos)

A maldade e a covardia caminham de mãos dadas
sobre a tua memória.

Os versos vertebrados de Langsthon Hughes
(Ó soturnas e graves badaladas!)
antecipavam tua sorte
e descreviam tua história.

Colheu-te a morte, megera branca,
– noiva do nada,
sem ter coragem de olhar-te a face
transfigurada.

Nos campos de Springfield os restos de Lincoln,
teu velho Presidente, – o que caiu por teu amor,-
sofreram como as raízes que no âmago da terra
sofrem, quando o tronco recebe os golpes do lenhador.

Tombaste, tal como Lincoln,
o velho Presidente,
e sobre o solo, teu sangue rubro
é essa bandeira, cor da revolta,
que segue à frente!

E agora, feito luz
que se liberta e irradia,
– diáfano, sem cor,
chegaste à verdadeira Democracia
que é o Reino do Senhor!

Irmão negro que caíste à traição
vítima do Caim-branco norte-americano
na mais nefanda guerra,
guarda este canto, – misto de hino e de prece,-
que de meu peito fugiu,

– canto de um poeta nascido em outra terra
feliz e orgulhosa de ser mestiça,
onde os homens brancos, negros, amarelos,
são todos Brasil!

Guarda este canto em tua memória
de um poeta teu irmão que hoje queria apenas
a glória
de poder ser negro como tu,
ao menos um minuto,
para, por tua morte e pela espécie humana,
pôr-se também de luto!

CANTO DE ÓDIO E AMOR

I
Sempre nos encontraremos
não adianta fugir, nos encontraremos .

Meu passo estará adiante, minha mão estará à frente
aguçada coma uma lâmina.

Sim, sou cristão . Sei amar a odiar com justiça .
Não darei a outra face à bofetada
nem terás tempo .

Só que não merecias a terra, a doce terra democrática,
onde te dissolverás com antecedência
para que o ódio termine.

Meu irmão, ire buscar-te, no fundo do abismo de mil degraus
nos feriremos juntos, as mãos, o coração,
dividirei o meu gole dágua
entregarei meu pão, cederei minha cama .

Oh! o amor, sim amarei! – Mais que meu braço, secarei meu corpo
me dispersarei na total doação, terei mil corações,
descansarei no grande berço, na doce terra democrática,
para que haja amor.

CANTO DO COLONO

Há quatrocentos anos te disseram que estes campos
e estas montanhas tinham dono,
deram-te uma enxada, só a primeira,
eras teu avô.

Houve festas, império, casa-grande e senzala,
corpetes, cartolas, mulatos, padrinhos,
culote, carruagem, charutos, escravos.

Sempre escravos, – ontem, – hoje.

Agora te dizem que estas terras têm donos
teus filhos morreram, teus frutos levaram,
compraste uma enxada e te pões a cavar.

Só falta uma cruz.

CANTO IMPASSÍVEL À SOLIDÃO

Hoje estou só,
perfeitamente só.

No vazio apartamento, nada desejo senão esta solidão
receio mesmo encontrar-me e surpreender-me com os
[restos de algum naufrágio cotidiano.

Não serviria vinho ao amigo que nesta hora fosse
[apenas um intruso
não sorriria ao amor, cujo carinho seria apenas um
[irritante contacto,
fechei todos os livros, silenciei-os como túmulos
nem desejo ressuscitar fantasmas em meu branco
[pensamento.
Hoje estou só,
deixei que o tempo passasse para que pudesse
[encontrar-me
sem perturbação,
preparei-me para abrir a janela sobre abismos sem
[perturbar-me a vertigem
das alturas.

Nem mesmo a música, essa alma da criação, esse halo
[das coisas
poderia chegar aos meus ouvidos, sem bater como uma
[estranha.

Hoje estou só, perfeitamente só, conscientemente só
como um rochedo no alto mar
orgulhoso do meu egoísmo e da minha força, satisfeito
[como um deus,

criando a minha música e me divertindo.

E percebo deslumbrado
que nunca estarei só
nem nunca temerei a solidão
como o resto dos homens.

CANTO INICIAL

Hoje sou puro, nada me perturba
nenhuma mancha me atingirá.

Nada desejo, além das coisas que me cercam
as ruas, as casas, as árvores, a amanhã.

Ouço pássaros com suas claras vozes na minha alegria,
vejo a terra úmida com suas águas que passam
[escachoantes
e as verdes folhas que nascem na sombra com a forma
[de coração
e que tomam a voz dos córregos para cantar.

Não quero ler, não quero contágios, não quero poluir-me,
encontrei-me numa remota infância, sem futuro, sem passado,
sem vida,
e tenho nu o corpo, sinto o sol na epiderme.

Hoje quero olhar o céu, as nuvens itinerantes
desmanchando símbolos ao vento,
quero molhar os pés no mar, no vazio mar, na vazia praia
mesmo cheio de barcos, mesmo cheia de gente.

Hoje quero surpreender-me nas origens
descobrir-me, como a um córrego entre pedras verdes
na mata fechada onde a luz é um bailado de frestas inquietas.

Quero surpreender-me nas origens, e vou escalar-me,
[vou descobrir-me
nas coisas que me cercam,
no canto dos pássaros, no movimento das folhas, na
[alegria do mar,
na música do espaço.

Hoje, sou puro, os animais não se espantam à minha
[passagem, os peixes conversarão comigo,
os pássaros responderão ao meu canto,
as crianças me estenderão as mãos para fazer roda,
e inutilizarei todas as palavras, e em silêncio, no
[profundo e luminoso silêncio
cantarei

Hoje sinto-me puro, – o instinto como um cristal
[trespassado de luz.

CANTO EFÊMERO

Feliz no mundo eu só!… Ninguém mais é feliz!
Ninguém mais é feliz!… Eu só, sorrio e canto!
Enfim o teu amor!… Quanta coisa! Quem diz,
– quem poderia crer que eu merecesse tanto!

Esplendor! a paisagem mudou por encanto!
No negro da minha alma há rabiscos de giz
traçando ante meus olhos trêmulos de espanto.
– “Feliz no mundo, eu só !… Ninguém mais é feliz!”

Certo do teu amor, tudo ao redor se anima,
em ouro se transforma a fuligem do pó
e a minha alma, a beleza das coisas sublima!

Enfim o teu amor!… E o teu amor primeiro!
Meu Deus! eu sou feliz!… Feliz no mundo eu só!
Ninguém mais é feliz, ninguém!… no mundo inteiro!

CANTO PRETENSIOSO

Exilado num tempo de perfídias,
de misérias, de lutas, de torpezas,
– pergunto em vão, nesse clamor de insídias
onde vivem as almas e as belezas?

Trago as asas e as ânsias sempre presas
se o mundo é um choque eterno de dissídias…
– onde andarão aquelas naturezas
do século de Péricles e Fídias ?

No meu destino singular de eleito
subo à procura do alto da montanha,
onde o ar é mais puro e o céu perfeito!

– Que as montanhas, as eras não consomem,
e nessa ânsia em que avanço, sinto a estranha
vocação de ser deus dentro de um homem !

CANTO PERDULÁRIO

Hei de gastar minha alma – a alma dos poetas
é como a luz do Sol ou como o luar,
deve espalhar-se, para embelezar
e iluminar as sombras mais discretas…

Como as águas que cantam, irrequietas,
deve o silêncio, um pouco, musicar,
ou como a onda que se ergue, – a alma dos poetas
deve de espumas enfeitar o mar!

Cumpro assim o meu destino, e neste bando
de versos, perdulário a vou gastando,
e quanto tenho de alma já nem sei…

E hei de esbanjá-la mais, de instante a instante,
e morto – hão ede encontrá-la ainda estuante
nos versos onde a vida a desperdicei !

CANTO PURO

Como se fosse uma árvore me sinto
a bracejar a luz desta manhã:
do azul dos céus, azul puro e retinto,
embebedo a minha alma livre e sã.

Há uma alegria esplêndida e pagã!
Cheiro de terra a provocar o instinto!
O dia, é um bago rubro de romã
e o Sol renasce de um incêndio extinto

Que gosto bom esse de andar no chão
de pés descalços, tal como as raízes,
a ouvir cantar no peito o coração

Como as aves nas ramas enfloradas
ou como as águas claras e felizes
que cantam pelo chão, despreocupadas…

Fonte:
http://www.jgaraujo.com.br/biblioteca/biblioteca.htm

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J. G. de Araujo Jorge (Arco-Íris)


Hoje
estou chovendo
Mas não é o meu pranto
que molha meus olhos.

É uma doce paz, intocada
e feliz
e me deito na chuva, olhos abertos,
como menino que fui,
leve e puro,
tão longe.

Hoje
estou chovendo,
e a visão
de tua lembrança, como um raio de sol
lança uma serpentina de arco-íres
no coração.

Fonte:
J G de Araujo Jorge. “O Poder da Flor” . 1a ed.1969.

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J. G. de Araújo Jorge (Começo de História)

Era uma vez, há muito… uma vila bisonha,
nada mais que um humilde e pequeno povoado
na longínqua fazenda de “Morro Queimado”…
– Umas casas na encosta da montanha,
e à frente a floresta, e a descer tal como uma serpente
pelo fundo do vale: a corrente do rio
com seu dorso de prata arrepiado de frio…

Foi no ano e mil oitocentos e dezoito,
(e era um plano talvez aventureiro e afoito)
– que D. João… (há de a História fazer-lhe Justiça!)
trouxe das altas serras dos cantões da Suíça
para colonizar a terra brasileira
100 famílias de gente pacífica e ordeira.

Ampliou-se depois… E as casas de madeira,
– como um trecho da Suíça em terra brasileira –
foram crescendo ao léu, pelo fundo do vale,
aconchegando aos ombros o vermelho xale
dos telhados, – tremendo ao frio e à geada,
sem ter uma lareira na sala apropriada…

Casas avarandadas, rústicas e belas,
com gerânios no friso alegre das janelas,
olhando o panorama claro e matinal
e a pensar que ainda estavam na terra natal!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo, 1961.

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J. G. de Araújo Jorge (Catedral de Eucaliptos)

(À Praça 15, hoje Praça Getúlio Vargas)

I
Coração de Friburgo a pulsar cada dia
desde que o céu se tinge ao rubor matinal,
para mim, não és a praça somente, eu diria
que és, a um só tempo, praça, e imensa catedral.

Catedral de eucaliptos… Verde catedral
cuja cúpula é a densa e inquieta ramaria
que tem em cada copa um rendado vitral
tecido pela luz do luar na noite fria!

Templo leigo do povo aberto a toda gente:
– aos da terra e aos de longe, ao sadio e ao doente,
aos que crêem no belo, mesmo sendo ateus.

Com seu domo de ogivas vegetais, frondosas,
ampla, imensa, soberba, esplêndida, radiosa,
és, – na altura da serra, – a morada de Deus!

II
Catedral de eucaliptos, verdes, farfalhantes,
onde se esgueira o sol pelas manhãs douradas
em mil jatos de luz, nos mais belos cambiantes,
descendo entre os vitrais das mais altas ramadas!

Brincam a sua sombra as crianças confiantes,
e ao seu canto infantil – como em contos de fadas, –
os verdes tinhorões, em gestos cativantes
namoram, lado a lado, as rosas encarnadas…

Imensa catedral de belezas pagãs!
O sol, vem, como um Deus, em seu fulvo esplendor
rezar nos teus altares todas as manhãs…

E eu também, como o sol, ergo um canto feliz,
e rezo ao céu e à terra uma oração de amor
igual a que rezou São Francisco de Assis!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo,1961.

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J. G. de Araújo Jorge (Montanhas de Friburgo)


I
Gosto destas montanhas verdes, revestidas
com o tapete felpudo das matas fechadas,
estampadas no roxo e amarelo, estampadas
de acácias e quaresmas, em buquês, floridas.

Gosto destas montanhas azuis, musicadas
pelas águas que rolam frias, esquecidas,
sussurrando cantigas infantis, perdidas
por entre os tinhorões e as sombras das ramadas.

Montanhas que parecem grandes ametistas
ou ondas gigantescas de um estranho oceano
espumantes e mais puro… e mais perto dos céus!

II
Diante destas montanhas, fiel, eu me prosterno,
sacerdote que sou da “Ordem da Natureza”,
deslumbrado e submisso ante tanta beleza
na humildade do efêmero aos pés do que é eterno.

Diante delas me sinto insignificante e pequeno
como o córrego humilde a sangrar nas encostas
e a minha alma, impregnada de poeira e veneno
leve e pura se ajoelha, a rezar, de mãos postas.

São meu altar de fé, de amor, de sonho e paz,
modelando no espaço órgãos e castiçais
nos seus gestos de pedra e nas altas arestas

e sobre elas, o céu azul, descomunal,
é a cúpula sem fim de imensa catedral
onde Deus pontifica em luz e canta em festas!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge.”Canto à Friburgo”, 1961.

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