Arquivo da categoria: Amazonas

Anibal Beça (Livro de Sonetos II)


PRÓLOGO

 Cavo a cova como um cavalo os cascos cava
 se no cavá-lo invoca a fúria de ferir
 E tanto mais se cava que a alma não se lava
 e as águas já me levam léguas a fingir

 Cava costura cavo à cava enviesada
 e o talhe tinge a sombra em descaída pena
 Nessa escritura a sina foge desgarrada
 e o corte torce a mão e a garra do poema

 E dono não sou mais senão o torto artífice
 dessas linhas traçadas a dois e por um
 E assim me assino esse uno e esse outro Majnun
 que por louca paixão da noite é seu partícipe

 mesmo sem Laila veste a dor e se vislumbra
 nos lobos do deserto donos da penumbra

TOADA PARA SOLO DE OCARINA

 Fio tênue do céu em claridade
 tece esse manto gris meu agasalho
 colhido pelos muros da cidade:
 mucosa verde musgo que se espalha

 como tapete denso em chão de jade
 Meus pés de crivo cravam esse atalho
 riscando seu grafite no mar que arde
 o fogo-de-santelmo em céu talhado

 Nesse caminho caio em minha sina
 caio no mar que lava essa lavoura
 num barco ébrio que sempre desafina

 E colho o sal da noite a lua moura
 crescente luz de foice me assassina
 e me morro no haxixe com Rimbaud

SONETO PARA EUGÊNIA

 O tempo que te alonga todo dia
 é duração que colhes na paisagem,
 tão distante e tão perto em ventania,
 sitiando limites na viagem.

 Desse mar que se afasta em maresia
 o vago em teu olhar se faz aragem
 nas vagas que se vão em vaga via
 vigia de teus pés no vão das margens.

 E o fio da teia vai fugindo fosco,
 irreparável névoa pressentida
 nos livros que não leste, nesses poucos

 momentos que sobravam da medida.
 Angústia de ponteiros, sol deposto,
 no tédio das desoras foge a vida.

 Vida que bem mereces por inteiro,
 e é pouca a que te dou de companheiro.

CHUVA DE FOGO

 Meus olhos vão seguindo incendiados
 a chama da leveza nesta dança,
 que mostra velho sonho acalentado
 de ver a bailarina que me alcança

 os sentidos em febre, inebriados,
 cativos do delírio e dessa trança.
 É sonho, eu sei. E chega enevoado
 na mantilha macia da lembrança:

 o palco antigo, as luzes da ribalta,
 renascença da graça do seu corpo,
 balé de sedução, mar que me falta

 para o mergulho calmo de um amante,
 que se sabe maduro de esperar
 essa viva paixão e seu levante.

SONETO DA SENTIDA SOLIDÃO

 A falta é complemento da saudade,
 servida em larga ausência nos ponteiros,
 bandeja dos segundos que se evade,
 em pasto das desoras, sorrateira.

 Estar é seduzir sem muito alarde,
 no avaro aqui agora companheiro,
 o porto da atenção que se me guarde
 o ser presente da sanha viageira.

 Partir é sentimento de voltar,
 liberta, eu sei, no vento e seu afoite,
 navega a sina em rasa preamar;

 ela, essa ausente, é dona e meu açoite,
 no seu impulso presto em navegar,
 vai se enfunando em névoa pela noite.

OLHAR

 As grades que me prendem são teus olhos,
 aquática prisão, cela telúrica,
 liana que me enrosca e me desfolha
 no tronco tosco dessa árvore lúbrica.

 No sol de Gláucia apenas me recolho
 e, sendo assim, o sido se faz público
 num pelourinho aberto com seus folhos
 zurzindo seu chicote em gestos lúdicos.

 Perau de feras, circo de centelha
 regendo as águas tépidas de escamas
 no fogo da (a)ventura da parelha.

 Tudo em suor e sal o amor proclama:
 No mar do teu olhar a onda se espelha
 na chama que me queima e que te inflama.

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Sonetos

Marluce Portugaels (Eu Vou Cantar o Meu Rio)

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de muitas voltas 
 mil meandros tem o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de margens largas 
 como é bonito o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de terras caídas 
 barrancos toldam o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de aves ligeiras 
 garças voam sobre o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio cheio de estórias 
 lendas, causos contam o meu rio 
 O meu rio Juruá 

 Eu vou cantar o meu rio 
 meu rio de tantas lembranças 
 como é bom lembrar o meu rio 
 O meu rio Juruá

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, poema.

Marluce Portugaels

Nasceu em Eirunepé, Rio Juruá, no interior do Amazonas, a centenas de quilômetros de Manaus. Aprendeu a ler e escrever subindo e descendo o Rio Amazonas, nos chamados navios gaiolas, dos quais seu pai era rádio-telegrafista. Passou parte de sua infância no Seringal Bom Jardim, de seus avós maternos, onde, nos serões para a debulhada do milho, ouvia histórias e causos contados pelos mais velhos. As lembranças dessa época talvez tenham deixado marcas em sua vida como contadora de histórias. 

 Estudou Filosofia e Letras na Universidade Federal do Amazonas, onde se tornou professora de língua e literatura inglesa. Fez Mestrado em Linguística Aplicada nos Estados Unidos, e outros cursos de pós-graduação no campo do ensino de línguas, em universidades brasileiras e europeias. É especialista em Metodologia do Ensino de Línguas Estrangeiras, e Leitura em Língua Estrangeira. Habitou em vários países, como, Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França, Bélgica, e, atualmente, mora em São Paulo, passando longas temporadas em Manaus. 

 Aprender e ensinar línguas são algumas de suas grandes paixões, o que a levou a tornar-se fluente em inglês, francês e espanhol. Sua vida acadêmica tem sido bastante produtiva, dentro e fora da sala de aula, pois, além de dar aulas, escreve trabalhos e promove seminários sobre ensino-aprendizagem de línguas, com apresentações no Brasil e no Exterior. Também escreve textos de ficção, como poemas, trovas, crônicas, contos, já tendo recebido alguns prêmios, e publicado alguns trabalhos em antologias. Colabora com o Jornal do Comércio do Amazonas, em Manaus, escrevendo crônicas.

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Biografia

Natália Lima (Poesias Avulsas)

FELICIDADE
E quando chegar amanhã
Eu vou estar do teu lado
E no depois de amanhã
Estaremos  contando histórias
de tudo o que vivemos

E por amá-lo hoje
Me honra a certeza desse amor
que  ainda ontem  desconhecia

Felicidade  é  teu amor
Por toda a eternidade
Felicidade é ser amor
Para minha felicidade

SE NÃO EXISTISSE HORA
Se não existisse hora
O tempo não acabava
Se não existisse hora
A vida não passava
Há  horas percebo o tempo
E o que ele leva consigo
O tempo acelera os segundos
E  os primeiros que passam voando
Já os últimos estão mais perto
Mas não muito longe do fim

Se não existisse hora
Também não existiria
Nem o nascer, nem o pôr
E nem o crescer da flor
Nem muitas belezas
E nem muita dor
Daquilo que parte por ora
Sem controlar o passar
O desejo do inerte impossível
Desejo de ter e ficar
Desejo do desequilíbrio

Se não existisse hora
Todo tempo seria agora
Sem pressa  e sem demora
O tempo faria  greve
E  a hora faria graça
Sem culpa ou explicações
Se não existisse hora
Estaria agora em outro lugar .…

PRECISO ESCREVER
Preciso escrever com a força daquele
que um dia conseguiu ser lido e admirado

Foi lido, admirado e cantado…

Aquele mesmo que versejava nas madrugadas

Um tal que parava no tempo e se perguntava:
-Serei lido amanhã ?

E se respondia feliz:
-Percebo que sim…

O mesmo que se questionava
quanto a riqueza de seus versos

Lia-se   e não acreditava

Mas aquela mesma força, a mesma força conseguiu ser lida
conseguiu ser admirada

Ao menos a minha própria visão leu o fundo
o profundo do meu eu
Com tanta força
Que mal espera para escrever
O que já está em mente
Antes mesmo que estes versos acabem…

PERCEPÇÃO
Você pode fazer da sua vida, o céu
Basta ter a percepção
Da simplicidade das coisas
Do valor do pouco
E de que o muito nem sempre  é tanto
De não parar no tempo
Mas ter paciência
Do significado do amor
De exercer a paz
Da importância de um sorriso
E da intensidade dos gestos
De que não somos perfeitos
Mas podemos ser o  ídolo de alguém
De que nem todo dia estaremos felizes
Mas que alguém é feliz porque existimos
Procurar algo para achar
Seja feito por você , ou por outrém
Mas que seja feito de coração
Com a pureza divina
De quem tem a percepção
De que a vida pode ser o céu

DESABAFO
Há algo que me sufoca
Que me inquieta
Não sem bem o quê
Algo que mexe com tudo
Tira-me o sossego
Tem a ver com o que sinto
Com o que quero ser
Tem a ver com o que conto
Com o quero dizer
Sem saber ao certo o quê
Vou-me esvaziando do sufoco
E preenchendo lacunas com palavras
No papel antes branco
Agora pleno de sentimento
Apenas sentimentos
Sem que eu ainda saiba qual
Sentimento que me alivia a alma
Sentimento relaxante
Desabafo talvez
Daquilo que precisava ser dito
Mesmo que sem sentido

CENAS DE AMOR
Escrevo que te amo
Com a felicidade pulsante
Que me percorre as veias

Escrevo no teu corpo
Sobre o doce amor
Que me entorpece

Escrevo versos nossos
Únicos e cúmplices
Que traçam o gosto
Da boca
Do beijo

De todas as partes
Que compõem
Nossas Lindas
Simples,
Mas Intensas,
Porém Incomparáveis,
Cenas de amor .…

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=56322

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Manaus, Poesias Avulsas

Moura Tukano (Não somos donos da teia da vida, mas um de seus fios)


O Mundo foi tecido por um Criador. Sem limites e sem fronteiras. Nossos atos têm conseqüências imediatas por sermos fios dessa teia. Ele deu-nos a cada um a porção de responsabilidade própria de conduzir o seu fio de modo a garantir a sintonia com os demais, proporcionando todo o possível para a Teia se manter sólida, aconchegante, prazerosa. Bem tecida com amor, fartura e musicalidade ela foi deixada começada no Plano Original para Mãe Terra.

Uma Teia bem tecida, com a beleza da matéria-prima que inclui as cores, os rumores, os aromas, os sabores e as notas musicais e todos os elementos proporcionados pela Mãe-Terra com as garantias do seu Fundador, depende muito da solidez e da responsabilidade própria de cada fio que fará a segurança, a proteção e a manutenção da vida num eterno movimento comemorado em cada fase da Lua. Em cada plantio, cada colheita, cada dança, cada noite de luar. Nos acasalamentos e nos nascimentos. Nas festas da despedida e na grandeza da continuidade em todas as estações do tempo e do espaço.

Quando um fio irresponsável se rompe, certamente enfraquecerá ou afetará outros sensivelmente ao redor. Cada abandono é um fio rompido. Cabe ao homem manter limpo e fortalecido este elo inato. Isto se chama dignidade, integridade. Isto também se chama: alimentar o espírito. Urge de cada um a conservação fundamental da Teia, matriz que os ancestrais passaram de geração a geração.

São fios que ligam o passado ao futuro e que estão nas mãos do presente. Eles não podem se romper. São permanentes. São guardados na área sagrada da memória e no porta-jóias do coração. São sementes escolhidas bem embaladas no cantinho sagrado aguardando o êxtase da fecundação. Fio que começa como cordão umbilical oxigenando a vida. Guardá-los, é responsabilidade de cada um. A história não pode ser interrompida tragicamente por causa do rompimento de qualquer fio. O tênue fio de uma teia possui a força do Grande Tecelão, o Grande Espírito. Cabe a nós, que viemos como sementes guardadas e amadas, a responsabilidade de produzir sementes puras para o equilíbrio, paz, alegria desta teia formada por três inesquecíveis tempos da eternidade: o passado, o presente e o futuro. Não saia da Teia. E ajude a tecê-la cada vez que um fio pueril, doente ou enfraquecido precisar de você.

Fonte:
Mundurukando. http://danielmunduruku.blogspot.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, O Escritor com a Palavra

Anibal Beça / AM (Livro de Sonetos I)

SIMPLES SONETO

Desejado soneto este que é escrito
sem as firulas graves do solene,
que leva na palavra o simples rito
da fala cotidiana. Não condene

no entanto, a falta de um estro especioso,
nem de brega rotule esse meu vezo.
Apenas sinta o som oco e poroso
do fundo mar de anêmonas, o peso

rarefeito das algas nos peraus.
Essa cantiga filtra nossos medos,
as culpas e os tabus, e dá-me o aval

para buscar o simples e em querê-lo
ornamento de estética espartana
na faxina ao supérfluo que se espana

PROFISSÃO DE FÉ

Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.

PARA QUE SERVE A POESIA?

De servir-se utensílio dia a dia
utilidade prática aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.

O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camelôs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.

De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.

Serena sentença em sina servida,
seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.

SONETO QUEBRADIÇO

Mão minha com maminha movediça
traçando vai na limpa areia branca
versos cambaios, frouxos, na liça
língua caçanje, claudicante, manca.

No pé quebrado o ritmo se atiça
para dançar com rimas pobres, franca
trança de cambalhota tão cediça,
que me corrompe o salto e que me estanca.

Queda de braço nas quebradas quebras
vou me quebrando como um bardo gauche:
pelas savanas sou mais uma zebra.

Mas consciente desse torto approuch
já me socorre a gíria de alma treta
para solar meu solo nos ouvidos moucos.

NOSSA LÍNGUA

para o poeta Antoniel Campos*

O doce som de mel que sai da boca
na língua da saudade e do crepúsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiúsculos.

É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu músculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opúsculo.

Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Camões, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga

na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que não se cala.

* “filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra língua a minha língua cale.”

ARS POÉTICA

Nesse afago do meu fado afogado
as águas já me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto cáustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.

SONETO DE ANIVERSÁRIO

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfundível som do último acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bashô sonhara, é despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.

ÚLTIMO ROUND

O vento que de verde tudo varre
não varre esta floresta onde eu habito.
Espana roxas nódoas de um espárringue
que sou eu mesmo a rir por esses ringues.

Porradas que me dou? Mero detalhe,
de quem passou a vida sem ter sido
sendo, o sabido súdito do anárquico.
Não fui, não sou, não quero ser doído.

O menestrel choroso? Este não vale,
perdeu-se pelos socos de outras divas
em noites desbotadas na paisagem.

Mas então, o que fica dessa trilha?
ora, amigo, nocautes dessa aragem
varrida nos cruzados descaminhos.

MALA COM ALÇA

É da lama essa mala que retiro
para subir a encosta (como a pedra
que Sisifo ainda empurra todo dia)
numa viagem cheia de seqüelas.

Não há como negar tantos espinhos
na travessia turva de mistérios
que vão-se descobrindo nos caminhos:
a mão negada, a fome, o vitupério,

o rito solidário que esquecemos
em troca a vaidade transitória.
Somos do barro e ao barro voltaremos.

A verdade do Homem e de sua Hora
vem com mala e alça, disto sabemos,
mais o peso do corpo e sua história.

SONETO COM ESTRAMBOTE ENVIESADO

Alfaiate de mim costuro a roupa
que cabe ao figurino que me coube.

Só meu verso protege essa amargura
desfiada de dia ao sol veloz,
para à noite tecer nova textura,
novelo de silêncio ao rés da voz.

Enxoval construído nessa usura
solitária de andaimes, num retrós
de linha vertical, que se pendura
na pênsil teia atada, fio em foz

desse rio agulha que me costura
ao rendilhado de águas tropicais,
que sabe de saudades no meu cais.

Viageiro de uma sanha que me traz
sempre de volta ao tear do meu destino
na seda depressiva me assassino.

JOROPO PARA TIMPLES E HARPA

Em duas asas prontas para o vôo
assim se foi em par a minha vida
e com rilhar de dentes me perdôo
trilhando as horas nuas na medida

Bilros tecendo rendas amarelas
bordando em vão um tempo já remoto
no sol dos girassóis da cidadela
canto um recanto que me faz devoto

A dor que existe em mim raiz que medra
no rastro mais sombrio as minhas luas
talvez não fora Sísifo ou a pedra

que encontro todo dia pelas ruas
ao revirar as heras nessa redra
trilhando na medida as horas nuas

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/biografia.php?a=64

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Sonetos

Bienal do Livro da Amazônia.


Pela primeira vez Manaus vai sediar a Bienal do Livro Amazonas de 27 de abril a 7 de maio.

A 1ª edição da Bienal do Livro Amazonas acontecerá no Centro de Convenções Estúdio 5.

O evento reunirá autores de expressão nacionais e internacionais em um pavilhão de 6 mil m².

A Fagga e GL exhibitions irão organizar a feira, com o apoio da Secretaria estadual de Cultura, o evento literário pretende distribuir R$ 1.000.000 em vales livros para estudantes da rede pública.

Fonte:
Câmara Brasileira do Livro

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Bienal do Livro, Notícias Em Tempo

Anibal Beça (Antologia Poética)


O GATO (Ária para tenorino e flautim)
Para Carô Murgel

O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas
O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.

Sonata para ir à Lua

Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta

A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta

Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência

Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer

MANEJO ANAGRAMÁTICO
Para Carlos Nejar

Fausto fizeste o pacto na palavra
e vens cumprindo pálpebra do chão
teu sono pedra sonho que resvala
pestanejando a canga dessa mão.
Essa pedra tinhosa que tu lavras
sai do teu manejar de mansidão.
Desse trote tropeiro que se alastra
fogoso de garupa em danação.

E por que tudo em ti poreja vida
as éguas da memória te celebram
nessas chuvas de fogo da invenção.

Teus sons voltam e vão sem despedida
nos cravos dos meus cascos que penetram
furtivos teus fonemas da paixão.

II

Fausto fizeste o pacto que te ferve
na palavra de pálpebra que invade
teu sono pedra sonho em semibreves
pestanejando o canto sem alarde.

Essa pedra tinhosa que vai leve
sai do teu manejar de claridade
galope de cavalo das estepes
que vem cobrir a vida pelas tardes.

E por que tudo em ti parteja vida
aquelas águas grávidas celebram
essas chuvas de fogo da invenção.

Teus sons voltam e vão sem despedida
lambendo os mesmos versos que penetram
meu canto que se banha na canção.

POEMA CÍCLICO

A trave dos meus olhos
é pólen de crisântemos:
farpas cronológicas
Metro a metro a seta ideográfica
abre aspas ao vento:
mandala vertical

Quem me confere
estas asas nubladas
de arcanjo do limbo?

Ah tempo adiposo
a marca do teu risco
esferográfico
abre mais mais uma estrada
(sem acostamentos)
paralela às estrias do sono.

Eis que a pálpebra de palha
se apresenta:
dos meus olhos saltam
pássaros ariscos

prontos a deflorar begônias
em setembro
e 38 ponteiros
(rubis ciclotímicos do silêncio)
acupunturam poros fóbicos:

Calendas
a fala do espelho
(espectador anônimo)
mostra-me por inteiro:
Vital conselho
entre o sudário que me hospeda
e a angústia que me habita.

A miração flutua narcisicamente
o rasto da sílaba
o grão onomástico sussurra:
Anibal.

Quão particular este silêncio
(viés oculto)
que me sabe desnudo
despudoramente nu
encalhado num atol:
leito circunscrito

às algas do meu avesso.

Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo de estrelas:
sei-me estivador
desse caisa agônico
atarefado Sísifo

A PALAVRA NOTURNA

Canto 1. Parto da Palavra

Tudo é manto negro
neste meu começo.
Tudo ainda é noite
nesta luz diáfana:
calor dessa ausência
no seu firmamento.
A saliva muda
na insolvência vaga
desarticulada.

Os músculos flácidos
como mamulengos
procuram cordões
para a dança clara
da cifra da fala.

O que nomear
se desse silêncio
apenas os olhos
alcançam o giro
em dois movimentos?

Abrir e fechar
o lapso da luz
vão desse vazio
no dizer do nada.

Vastidão de coisas
que avançam rondando
prontas para o salto.

A vespa da véspera
de facho fogoso
no baile da língua
soprando veneno
em fundos ouvidos
para o precipício
do não dito mudo
medo do maldito .

Quer dizer das coisas
cantá-las uma a uma
raiz de crepúsculo
impulso bendito
o primeiro beijo
a sair da boca:

faça-se a palavra
da doce colmeia
do mel dessas vespas
molhadas de orvalho.

O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.

Chuvas da ventura
regai esse chão
de pegadas leves
vôo de viagem
vento inaugurando
sílaba de nuvens
desnuda no abismo
de águas invertidas.

Vertical/idade

o encanto da música
no ritmo de asas
solo de condor
Fênix rediviva.

Alteie, se alteie
no teto bem alto
asas da distância
ruflando afastadas
nesse ritmo longe
para melhor ver
e dizer dos sonhos
das tramas pequenas
e suas nervuras.

O sol da goela
na luz da garganta
vibrando seus raios
de setas vocálicas
trazendo essa música
lá do fundo da alma
no desvão escuro.

Ó raiz tão clara
meu fogo das cinzas
nomeia teu sopro
na lavra de brasas
e acorda esses sons
que são desse mundo
silêncio das coisas.

Falante palavra
fala para as mãos
decifrarem códigos
acordarem músculos
na gesta dos gestos.

A escrita se evola
na nódoa do tempo
e o turno noturno
vaza a claridade
alteando as estrelas

Eis o meu início:
a luz do meu verso
a escrita vivida
lâmina cravada
nos dedos ariscos
tangida na voz
de mãos caminhantes
na colheita branca
de folhas sedentas.

Eis o desafio :
história remota
fincando no fim
seu próprio começo:
a História da vida.

Canto 2. A Palavra Compartilhada

E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.
Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.

E dessa partilha
verbo de parelha
se multiplicando
na conjugação
da fala e de corpos
os iguais chegaram.

E tudo era claro
não havia a noite
mas havia a fala
e o falo dos outros.

E entre outros havia
os que não falavam
eram os do vôo
de alada alegria
os de quatro patas
os de escamas vivas
os de sangue quente
e os de sangue frio
os lisos de pele
e os que rastejavam
de língua fendida.

Vicejavam campos
na brota dos lírios
na festa dos olhos
alçada de cores
subindo colinas
tocadas de azul
do céu do telhado.

A vista vazava
os vales os bosques
regatos dormindo
na calma tranqüila
do leito das águas
lambendo as raízes
de doces begônias
no beijo sereno.

E para alargar
o chão da morada
para contentar
impulsos dos pés
vontade liberta
de ter aonde ir
nos sonhos mais soltos
espanando o igual
nas favas do tédio
havia o impossível
do mar dos mistérios
mar das descobertas

Thálassa, ó Thálassa

mar da poesia
o mar do possível
mar de outras terras.

Esse o paraíso
assim nominado
pelas maravilhas.

A calma morada
dos dois que se canta.

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Antologia Poética

Anibal Beça (1946 – 2009)


Aníbal Beça era amazonense de Manaus, onde nasceu a 13 de setembro de 1946 e faleceu hoje, 25 de agosto de 2009. Era poeta, compositor e jornalista. Desde muito cedo colabora em suplementos literários e em publicações similares nacionais e internacionais.

Dividiu seus primeiros estudos entre colégios de Manaus (Aparecida, Dom Bosco e Brasileiro) e em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul (Colégio São Jacó). Durante sua permanência no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre, travou conhecimento com o poeta Mario Quintana, quem lhe deu os primeiros ensinamentos e o estímulo para caminhar pelas veredas da poesia.

Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social (UFRJ), Teve passagens, como repórter, redator, colunista, copy-desk e editor, em todas as redações dos jornais de Manaus, do ínicio da década de 60 até final da década de 80; foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas – TVE. Atualmente é consultor da Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas. Idealizador e Editor-geral do suplemento literário “O Muhra”, de circulação bi-mestral, editado pela referida secretaria.

Envolvido com teatro, artes plásticas, é na música popular que a sua contribuição se faz mais efetiva como compositor, letrista e produtor de espetáculos e de discos. Desde 1968, quando venceu o I Festival da Canção do Amazonas, Aníbal foi colecionando prêmios com mais de 18 primeiros lugares em festivais em sua terra, no Brasil e no exterior. Representou o Brasil no VIII Festival de Joropo de Villa Vicencio, Colômbia (1969);

Foi o único artista amazonense a se classificar e se apresentar no Festival Internacional da Canção FIC, em 1970, com a música “Lundu do Terreiro de Fogo”, defendida pela cantora Ângela Maria.

Tem músicas gravadas por vários artistas brasileiros como: As Gatas, Coral JOAB, Felicidade Suzy, Nilson Chaves, Eudes Fraga, Lucinha Cabral, Dominguinhos do Estácio; Bira Hawaí, Aroldo Melodia, Jander, Raízes Caboclas, Mureru, Roberto Dibo, Célio Cruz, Torrinho, Arlindo Junior, Paulo Onça, Paulo André Barata, Almino Henrique, Pedrinho Cavalero, Pedro Callado, Delço Taynara, Grupo Tynbre e outros.

Aníbal Beça, além da sua condição artística é produtor e animador cultural nato. É profissional que, nos tempos atuais, se encaixa no rótulo de multimídia, tal a sua abrangência na área artística.

Sua participação política tem-se plasmado no âmbito de entidades de classe, como diretor do Sindicato dos Escritores, presidente da ACLIA Associação de Compositores, Letristas e Intérpretes do Amazonas, Presidente do Coletivo Gens da Selva (ONG), Vice-Presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, seção Amazonas

Seu trânsito amplo, por diversos setores artísticos, que se estende até à manifestação da arte mais popular brasileira, o carnaval, fez com que fosse lembrado, e merecidamente homenageado, este ano de 99, como tema de enredo “Aníbal Bom à Beça” da Escola de Samba “Sem Compromisso”.

Faz parte da Ala dos Compositores das Escolas de Samba Reino Unido da Liberdade e Sem Compromisso, dando a esta última, seu único título pela autoria do enredo e do samba de enredo “Joana Galante – Axé dos Orixás”, e classificou a referida escola entre as três primeiras colocações com os samba de enredo: “Hotel Cassina – Apoteose Boêmia”, “Hoje tem Guarany”, “Vento e sol, passa cerol – A Arte de empinar papagaios” ; “Sol de Feira – O pregão da Alegria”.

Seu primeiro livro Convite Frugal, data de 1966 (este ano, comemora 33 anos de atividade literária e 35 de produção musical).

A propósito de sua poesia, o poeta Carlos Drummond de Andrade, teceu, em 31 de julho de 1987 – pouco antes de morrer – o comentário: “Li Filhos da Várzea, os poemas-pôster e os haicais afetuosamente a mim dedicados. Obrigado por tudo, meu caro poeta. É de coração aberto que lhe desejo a maior receptividade pública e compreensão para a bela poesia que está elaborando e que, espero, marcará seu nome como um dos que engrandeceram o cultivo artístico do verso.” Em 1994, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite, sagrou-se vencedor, dentre 7.038 livros de todo o país, do 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira – categoria poesia. O livro, lançado sob o selo da editora Paz e Terra, saiu em 1995.

Outros livros: Filhos da Várzea, ed. Madrugada, 1984, abrigando o livro Hora Nua; Marupiara – Antologia de Novos Poetas do Amazonas, (organizador) Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1985; Quem foi ao vento, perdeu o assento (Teatro) Ed. SEMEC, 1986; Itinerário poético da Noite Desmedida à Mínima Fratura, Ed. Madrugada, 1987; Banda de Asa – poesia reunida – Ed. Sette Letras, 1998; contendo o livro inédito Ter/na colheita.

É Membro da UBE , União Brasileira de Escritores, do Coletivo Gens da Selva (ONG) e do Clube da Madrugada, entidade instauradora dos movimentos renovadores no campo literário e artístico do Amazonas.

Recentemente, em junho de 99, Representou o Brasil no VIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, e em agosto/99 no Encontro Internacional de Escritores da Associação Americana para o desenvolvimento cultural, em Bogotá.

Tem participação em diversas antologias: A Nova Poesia Brasileira de Olga Savary; A Poesia do sec. XX – Amazonas de Assis Brasil; Poesia Sempre da Fund. Biblioteca Nacional.; Antologia FUI EU de Eunice Arruda; Saciedade de Poetas Vivos: erótica e de haicais, de Leila Miccollis e Urhacy Faustino.

Bibliografia

Convite Frugal, Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1966
Filhos da Várzea e outros poemas(abrigando o livro Hora Nua),
Casa Madrugada Editora, Manaus,1984.

Itinerário da Noite Desmedida à Mínima Fratura, Casa Editora Madrugada, Manaus, 1987.

Quem foi ao vento, perdeu o assento, (Teatro) Edições SEMEC, Manaus, 1987.

Marupiara – Antologia de Novos Poetas do Amazonas, (organizador) Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1989.

Suíte para os Habitantes da Noite, Editora Paz e Terra, São Paulo (Vencedor do VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira), 1995.

Banda da Asa – poemas reunidos – Editora Sette Letras, Rio de Janeiro, 1998.

PARTICIPAÇÃO EM ANTOLOGIAS

Antologia da Cultura Amazônica, Carlos Rocque, Belém, 1968

Antologia UBE – Alcides Werk, Manaus, 1987

Saciedade dos Poetas Vivos – Haicais – Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1993

Saciedade dos Poetas Vivos – Erótica – Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1993

Antologia da Nova Poesia Brasileira, Olga Savary, Rio, 1990

Fontes:
Jornal de Poesia
Foto = Portal Amazonia

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Biografia

Astrid Cabral (Antologia Poética)

NO COLO DO ANJO

Empoleirado
na torre do meu sonho
um anjo resplandece.
Cílios cintilantes
estrelas nos olhos
ele me acena com plumas
e me abraça com asas.
Juntos vagamos
entre rastros de astros
a cavalgar nuvens
por planícies etéreas
até que me sinto serena.
É como se mudo dissera
não temas véus ou névoas
qualquer neblina passa.
Mas eis que então fala:
Não sejas cega, menina.
O olhar de Deus tudo abarca.
Só os homens têm pálpebras.

DESASTRES DE AMOR

Mulher bule de louça
deixa-se pegar pela alça
e verte suor e sangue
em quantia exata.
Dei com o nariz
na porta do teu coração.
Foi sangria desatada
e a porta do pronto-socorro
também encontrei fechada.

Eu disse a meu coração:
Sossega pois tudo passa.
O nada não é perdição
mas estado de graça.

Desde que o mundo é mundo
a sina:
o amor, centelha
que faz o incêndio
e a cinza.

BUSCA

Minha infância é hoje
aquele peixe de prata
que me escorregou da mão
como se fosse sabão.
Mergulho no antigo rio
atrás do peixe vadio
— Quem viu? Quem viu?
Minha infância é hoje
aquele papagaio fujão
No ar, sua muda canção
Subo nos galhos da goiabeira
atrás do falaz papagaio
— Me segura, me segura
senão eu caio.

MODO DE AMAR

Amor com tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpago e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais e tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.

AMOR NO PÍER

Confesso: o amor por ti
não atravessou o mar.
Só molhou as pernas na espuma
e temendo vagas, dunas
não quis cavalgar o vento.

Confesso: o amor por ti
deixou-se ficar no píer
sem percorrer ponte alguma.
Acenavas terra ao longe
a ventura de outra margem.

Meu amor ficou no meio
refém do medo de risco.
Queria apenas passeio
a bordo escuna sem lastro.
Nunca a viagem de fato

CREPÚSCULO

Por que esta ânsia de sobreviver
assim se amoita no âmago de mim
sempre que as lerdas pálpebras da noite
baixam nas altas ramas com os morcegos?
Por que o poente assim me abala o eixo
e de fúnebre pompa alma me embrulha
tal qual mortalha um pouco prematura?
Por que me pesa suportar as trevas
que o implacável fim do dia instaura
quando já estagiei em precipícios
saltando trampolins perto de abismos?
Por que morrer me assusta e paralisa
se o que temo perder, de longe sei
nada tem de Eldorado ou paraíso?

CANÇÃO TRÔPEGA

A vida não tem volta.
Sobra o séquito de sombras
e uma canção trôpega
atravessada no peito:
espada, rubra espada
cravada de mau jeito.
Aqueles rapazes esbeltos
ai, estrangularam-se
nas gravatas da rotina.
Ai, crucificaram-se
no lenho das doenças.
Aqueles rapazes tão belos
não fazem mais acrobacias
nem discursos inflamados
Arrastam chinelos e redes
ruminam silêncio amargo.
Um dia fui bela, filha,
digo a surpreendê-la.
Devo provar com retratos
o que tem ar de mentira.

ÁUREOS TEMPOS

Áureos tempos aqueles
quando na manhãzinha goiaba
colhíamos no cerrado gabirobas
ainda vestidas de orvalho.
Pés e patas competiam no capim
pródigo de carrapichos.
Gestos elásticos ultra-rápidos
assustávamos insetos e aves.
Um séquito de suaves súditos
nos seguia em semi-adoração
nós, os príncipes daquele feudo.
Depois, o asfalto rasgou o campo.
Cogumelos de concreto brotaram.
Cresceram as crianças e a cidade.
Anãs ficaram as árvores aos pés
de edifícios colossais. Sumiram
pássaros gabirobas araçás.
Fim de passeios e piqueniques.
Só ficou a fome funda das frutas
no vão sem remissão das bocas .

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, Amazonas, Antologia Poética, Poesias

Astrid Cabral (1936)

Astrid Cabral Félix De Sousa nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada.

Adolescente ainda transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 em conseqüência do golpe militar.

Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago.

Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB.

Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural.

Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior.

Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos.

Obra poética:
Ponto de cruz. Cátedra, Rio de Janeiro, 1979.
Torna-viagem. Pirata, Recife, 1981.
Lição de Alice. Philobiblion, Rio de Janeiro, 1986.
Visgo da terra. Edição Puxirum, Manaus, 1986.
Rês desgarrada. Thesaurus, Brasília, 1994.
De déu em déu. Sette Letras/Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1998.
Intramuros. Secretaria de Cultura do Paraná, Curitiba, 1998
Rasos d’água. Secretaria de Cultura do Amazonas/Valer, Manaus, 2003.

Fonte:
Jornal de Poesia

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Biografia

Benjamin Sanches (o tartaruga)

É de se registrar que, nessa obra, o autor escreveu exclusivamente com minúsculas (inclusive o título) e alinhou os parágrafos pela direita.

depois de entregar-se por muito tempo à água, voltou a terra onde com a matemática dos olhos procurava descobrir os lugares onde os tracajás haviam enterrado os seus ovos e, isto, os homens da ciência sabiam menos que ele. a prática fizera-o mestre no buscar os ninhos camuflados no igual do branco da areia.

a praia, descendo da densa mata devoluta, serpenteava no rumo do rio onde um enorme jacaré, num peso de montanha, dilatou o vazio para dar duas rabanadas, e, em vôo submerso atingiu o mo-lhado da margem e ficou olhando-o com um olhar famélico. era um inimigo que não ficara de vir, embora ter, ele, admitido, sempre, a possibilidade daquela indesejável presença. via o espírito da fome rondando as suas carnes. sentiu-se quase prisioneiro. na posição em que ficara, a fera, dominava, realmente, a única saída. o seu casco, que havia deixado na beira, estava a dois passos do anfíbio, cujas patas velozes arranhavam o chão num chi-chi manhoso, preparando-se para a furiosa investida.

as suas pernas que nunca dançaram de alegria, bailavam, agora, dentro da calça no assombro de ser estraçalhado pelo chocalhar daquelas mandíbulas maiores que o seu corpo descascado pelo quente da tarde. ele já havia vivido toda a idade do crescimento e não conseguira ir além dos cinco palmos. parecia que os ventos sopraram, sempre, a sua vida de cima para baixo. tinha isto, como uma pobreza envergonhada, da sua condição de homem. a natureza
havia-o prejudicado na distribuição dos tamanhos.

quando conseguiu sair daquelas circunvoluções do susto e voltar ao estado de medo consciente, não quis dar tudo como perdido, embora tivesse que passar por um fininho tubo da vida. segurou-se a ele como quem agarrasse um objeto que ia perder para sempre, e, no esforço de renascer daquela quase morte intempestiva, enfiou a cabeça em desabalada carreira, internando-se no grosso da mata. uma chuva, cujo turbilhão de água mais parecia ser de cimento e ferro, desabava retorcida com a noite, tornando-a intensamente escura. os filtros da sua carne começaram, lentamente, a dar passagem ao frio a caminho dos seus ossos. numa noite clara, poderia varar o longe e alcançar a vila em três horas de regular caminhada, mas, o escuro tomara altura e não deixava à amostra, nem um astro que o orientasse. para caminhar seria imprescindível algum rastro de luz

desembocando das trevas.

astro
rastro
vasto

o pio dos pássaros e o barulhar da chuva fundiam-se com os esturros das feras e num só grito, cortava o vasto verde, que não
se apagava da sua memória.

verde vasto verde
dia verde
noite verde
grito verde
pio verde
verdeverdeverde

sentiu necessidade de resguardar-se e tateando com os pés na terra encharcada caminhou alguns passos entre a tiririca que lhe cortava a pele, até conseguir abraçar-se à perna de uma árvore e subiu até a primeira forquilha. ali, poderia passar a noite, incomodamente, é verdade, mas suspenso do perigo que rastejava no escuro. as suas carnes mergulhadas no grosso da chuva viviam minutos de horror, em meio àquela combinação de sons perversos e imprevistos, que iam despojando-o, aos poucos, de sua coragem. de quando em quando abandonava a cabeça num cochilo e acordava descendo no espanto. precavendo-se de uma queda desastrada, desafivelou o cinturão e com ele, procurou envolver barriga e forquilha. não conseguiu

nesta, subiu para outra mais fina e amarrou-se.

aforquilhado dentro do molhado da noite, ouvindo, medrosamente, os berros dos afiados dentes e o cochichar das raízes, não obstante, acontecia de longe em longe, lembrar-se do seu casco, na preocupação que a água da chuva empurrasse praia afora, levando a farinha e a rapadura que na manhã próxima, roeriam a fome
que já roía o seu estômago.

o tempo espichando-se demorava a soltar a sua condição de noite e, ele, esperando resignadamente que a manhã viesse libertá-lo, rosnou um sono de chumbo e sonhou que passeava elegantemente pela praça da igreja, onde aos domingos à tarde, as mocinhas mais gostosas da vila desfilavam exibindo apuro e beleza. embalando-se na miragem, via que todas o olhavam com olhos gulosos, e uma delas, não suportando refrear a gulodice, aproximou-se e beija-lhe os lábios com seriedade e paixão. ele não sabia o porquê e preferiu não fazer perguntas. era um novo amanhecer no seu mundo. a sua alegria refletia-se nas paredes e até no chão enxuto. de mãos dadas, saíram caminhando sob as vistas de centenas de pupilas espantadas. espantadas porque todos sabiam que jurara nunca amar, quando na seresta para a primeira conquista,
deram-lhe um banho de bacio.

agora, estava suadinho de fé, e procurava com os dedos arrumar os cabelos, quando de súbito, num estrondo metálico que varreu o ar, o apelido, impiedosamente abalroou o seu ouvido: – tartarUUUUga! – todo o ódio do mundo apareceu na sua cara. naquele momento odiou até as rosas. sentiu vontade de fazer mil coisas de uma vez. queria morder. queria rasgar. queria matar. sim. sentiu desejo quase irresistível de matar. a sua alma ficou, por muito tempo, galopando na mais brutal raiva do mundo. pensou que seria melhor desmanchar com a vida, o único meio para se livrar daquela alcunha. não mais poderia engolir aquele epíteto humorístico que o havia enchido até por fora da roupa. todos, desapiedadamente, o chamavam de tartaruga. nunca presumira que o seu nome de cartório desaparecesse tão completamente. nunca mais ouvira pronunciá-lo. todos o chamavam de tartaruga.
diziam-lhe até com os olhos: tartaruga, somente tartaruga.

era o ridículo do apelido, que o obrigava a embarcar naquele pequeno casco de itaúba preta e isolar-se o dia todo, depois de remar para as praias distantes e desertas, cuja beleza mansa e
perigosa ainda não aprendera a dominar.

agora, mais enfurecido que nunca, tomou posição para desaparecer de uma vez por todas, quando sentiu o braço da moça doce e gentil cingir-lhe a barriga, não o deixando se afastar e sussurrando o seu nome, com os lábios quentes roçando a sua orelha – jorgitinho. foi assim que a ouviu chamar, amorosamente, o diminutivo do seu nome. estremeceu dentro da cadeia do abraço e tudo se fez claro quando acordou preso à forquilha. mas, mesmo assim, sentiu-se feliz por se encontrar entre feras e bem longe dos
humanos. humanos? não! jorgito nunca os considerou como tais.
=======================

Sobre o autor
Nasceu em Manaus, no dia 21 de abril de 1915, o poeta e contista Benjamin Sanches de Oliveira. Faleceu na mesma cidade no ano de 1978. Obra de ficção: o outro e outros contos, 1963.
————
Fonte:
SANCHES, Benjamin. O outro e outros contos. Manaus: Ed. S. Cardoso, 1963.

Deixe um comentário

Arquivado em Amazonas, Contos, notas biográficas, O Escritor com a Palavra