Arquivo da categoria: análise de conto

Guimarães Rosa (Corpo Fechado)

(Conto de Sagarana)
–––––––––––––

Análise do Conto

Corpo Fechado é a antepenúltima das nove novelas que compõem Sagarana, romance inaugural da obra ficcional de Guimarães Rosa. Este é um dos contos no qual evidencia-se o universo primitivo e fantástico do autor.

Narrado em primeira pessoa, com o narrador participando da história e tendo visão limitada dos fatos que narra. Quem narra a estória é um médico de um vilarejo do interior. Corpo Fechado começa propriamente no final, com Manuel Fulô contando outros casos para o doutor.

A técnica narrativa do conto é em forma de entrevista. O “doutor”, no decorrer da história, vai entrevistando Manuel Fulô, um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para glória do arraial.

O cenário é Laginha, arraial monótono do interior de Minas Gerais e o espaço do conto é variado, deslocando-se a ação de um lugar para outro.

Corpo Fechado continua a problemática apresentada em São Marcos: mundo de feitiçarias e bruxarias. Um curandeiro fecha o corpo e anulando a fragilidade do protagonista que, imantado pela fé, vence o vilão, brutal e valente, mas sem o amparo do sagrado.

Além dessa temática, sobressai também a saga dos valentões das gerais, principalmente com o temível Targino, e a saga dos ciganos, muito freqüente no interior.

Personagens

Médico – Narrador, mora num arraial do interior de Minas. Fez amizade com Manuel Fulô. Gostava de ouvir-lhe as conversas.

Manuel Fulô – Sujeito pingadinho, quase menino, cara de bobo de fazenda, cabelo preto, corrido. Não trabalhava. Gostava de moça, cachaça e conversa fiada.

Beija-Flor – Besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono, Manuel Fulô.

Das Dor – Noiva de Manuel Fulô; moça pobre, mas muito bonita.

Targino – O valentão mais temido do lugar. Era magro, feio, de cara esverdeada. Dificilmente ria.

Antônio das Pedras-Águas – Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro.

Resumo do conto

A amizade do narrador com Manuel Fulô nasceu do nada. Solidificou-se quando o narrador descobriu que Manuel comia cogumelo com carne. Manuel Fulô gostava de moças, de cachaça e de conversa fiada.

Beija-Flor era o orgulho de Manuel Fulô. Mais que isso: era uma espécie de complemento. Besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono. Quando Manuel Fulô ficava bêbado – e isso acontecia todos os domingos – atracava-se ao pescoço de Beija-Flor, e a mula levava-o com todo o cuidado. Sabia abrir porteiras.

Manuel Fulô conta ao narrador que viveu uns tempos com uns ciganos só para aprender alguns truques. Os ciganos gostavam dele porque pensavam que ele era bobo de verdade. Com os ciganos, Manuel Fulô aprendeu tudo sobre cavalos. Sabia transformar animal ruim em bicho de valor em pouco tempo. Quando deixou os ciganos, passou a ganhar dinheiro negociando com animais.

Manuel Fulô contou ao narrador como conseguiu, certa vez, enganar os ciganos. Arranjou dois cavalos imprestáveis, preparou-os, fez-lhe maquiagens para disfarçar defeitos e trocou-os por dois cavalos bem melhores. Com isso, perdeu a freguesia. Ninguém quis mais negociar com Manuel Fulô porque ele era capaz de enganar até ciganos.

Uma noite, o narrador e Manuel Fulô estavam bebendo cerveja na venda. De repente, entrou Targino e caminhou na direção dos dois amigos. Pediu licença ao doutor: queria falar um particular a Manuel Fulô. Pura formalidade, pois Targino falou bem alto, na porta da venda, a três passos do narrador:

– Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… É um dia só, depois vocês podem se casar… Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… – E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco.

Depois da ameaça, o doutor-narrador levou Manuel para a casa dele (do doutor). Que fazer? O próprio Manuel não via saída. Targino era valentão, ninguém podia com ele. No outro dia, enquanto Manuel ainda se recupera do porre, o doutor saiu à procura de ajuda. Primeiro, foi à casa do Coronel Melguério. O homem deu de ombros: se alguém tivesse coragem de enfrentar o Targino… Depois, foi a vez do vigário: prometeu rezar. De volta, o doutor encontrou a casa cheia: eram os parentes de Manuel Fulô. Pediam ao doutor que não fizesse nada. O correto era entregar para Deus. Maria das Dores estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.

Chamava-se Antonico das Pedras ou Antonico das Águas. Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro. No meio da aflição, foi ter à casa do doutor. Ali, com ar de pressa, trancou-se no quarto com Manuel Fulô. Um tempo depois, a porta abriu-se, e Manuel anunciou com cara de defunto: entreguem a mula Beija-Flor para seu Antônio. O feiticeiro pediu um prato fundo, brasas, linha e cachaça. Os apetrechos apareceram, e os dois se trancaram no quarto.

Enquanto isso, Targino saiu à rua deserta e caminhava em direção à casa onde estava a Maria das Dores, a noiva ameaçada.

Manuel Fulô, depois de algum tempo trancado no quarto com Antônio feiticeiro, saiu teso, cara de mau, olhar fixo. E assim, caminhou para a rua: ia ao encontro de Targino. Todos ficaram assustados. Antônio Feiticeiro explicou: Manuel Fulô estava com o corpo fechado. Arma de fogo não tinha poder sobre ele. A mãe de Manuel pediu que segurassem o filho dela, pois seu Toniquinho pusera-o doido. “Mas ninguém transpôs a porta”. E lá estavam os dois, Targino e Manuel Fulô, frente a frente. Manuel falou primeiro, xingando a mãe do valentão. Mexeu na cintura e tirou dela uma faquinha quase canivete. Cresceu para cima de Targino. Foram cinco tiros, as balas zuniram. Manuel Fulô pulou sobre Targino e aplicou-lhe várias facadas pela altura do peito. O valentão capotou e morreu num átimo. Manuel Fulô ainda lhe deu mais facadas, sujando-se todo de sangue.

Manuel Fulô fez um mês inteiro de festa e até adiou o casamento, pois o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. O narrador foi o padrinho.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/c/corpo_fechado_conto

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Adonias Filho (O Largo da Palma) 4. Um Corpo Sem Nome

Foco narrativo

 Narrativa em primeira pessoa. Narrador não se identifica: “quem sou, isto não importa”. Associação: presente – passado – identificação:

 “Hoje, dois meses após a morte da mulher”…

 “Ontem, quando reencontrei o inspetor na Rua Chile, quase dois meses após o meu depoimento na Delegacia da Polícia…” 

 “Dezoito anos, pois, a minha idade. (…) Loura e bonita, os cabelos corridos, os lábios finos, os seios pequenos e cheios, muito azul nos olhos. Não a vi, nem a ela e nem ao amigo, quando me levantei. E, ao levantar-me, já gritava: 
 – Eu quero esta mulher!”

Crítica social – “A cafetina a expulsa do bordel porque ela “já não dá no couro”, não arranja mais homem”.

 A narrativa do passado, termina quando essa mulher exclama para o narrador que “morte deve ser melhor. Deve ser melhor mesmo porque não tem medo nem fome”.

Espaços – Largo da Palma, bordel (Sobradinho da Ajuda).

Enredo – Mulher que morre nos braços do narrador e o faz lembrar fatos que viveu aos 18 anos.

Hoje, dois meses após a morte da mulher, o Largo da Palma já esqueceu porque, velho como é, não tem memória para todos os acontecimentos. Não deve sequer lembrar-se de quando levantaram as casas mais baixas e estreitas, estas de telhas tão pretas quanto o tempo, com o verde e o azul das tintas fortes ocultando as cicatrizes e rugas, e certamente, não se lembra quando foram plantadas as árvores e chegaram os primeiros pombos. Vendo-os agora, nesta penumbra que sempre avisa a aproximação das noites na Bahia, com a igreja vazia e os sobradinhos em silencio, penso na mulher que morreu em meus braços. Ela, a pobre, pareceu-me que vinha de longa viagem.

RESUMO

O narrador, “eu”, vai andando pelo Largo da Palma e avista uma mulher vindo em sua direção tropeçando muito, talvez bêbada ou uma epilética. Próximo à escadaria da igreja, ela tropeça e cai. Mal o narrador se debruça para acudi-la, já sabe que a mulher está morta ali em seus braços. Ele a coloca de volta no chão com todo o cuidado, quando percebe que do nada toda a multidão que estava dentro da igreja, inclusive o padre, está ali para saber o que aconteceu.

Enquanto esperam a polícia, ao olhar aquela pobre moça, magra, com a roupa tão suja que mal dá para distinguir a cor e com sinais de quem passou por muita fome e dor, o narrador se lembra de quando foi levado a um bordel por uns amigos para ele perder a virgindade. Quando eles estavam na mesa acompanhados por belas moças, chega uma mulher velha e feia, pobre como aquela outra mulher que se encontrava morta ali no chão do Largo da Palma. 

A cafetã grita para a pobre mulher que se ela não conseguir nenhum homem para dormir, era para ela ir embora que ali não ficaria mais. A cafetã segue a gritar ofensas e ameaças para a mulher e pergunta aos homens do local se existe alguém que deseja aquela pobre criatura. Ao que o narrador, nesse momento com apenas dezoito anos, se levanta e diz, para o espanto de todos, que a quer. Então, ele sai de lá com a mulher não em direção ao quarto, mas ao Terreiro de Jesus. Lá, a mulher diz que seria melhor morrer, pois morta não passaria fome e nem medo. 

A polícia já chegara e estava levando o corpo da mulher para o necrotério e o narrador se apresenta como testemunha. O policial pede para que o narrador o acompanhe até a delegacia e ao necrotério, mas desiste ao saber quem era o narrador. Porém, este insiste dizendo que viu a mulher morrendo ali na frente e agora estava curioso para saber o que havia acontecido e quem era essa mulher. 

No necrotério o médico faz a autópsia e decreta se tratar de uso de tóxico. Ao revistar a bolsa da mulher, o policial encontra apenas alguns objetos pessoais, uma caixinha de fósforos contendo cocaína e uma saboneteira de plásticos com alguns dentes humanos dentro. Não havia nenhum documento que pudesse identificar a mulher, que permaneceu no necrotério para o reconhecimento dentro dos prazos da lei.

Dois meses após a morte da mulher, o Largo da Palma já havia se esquecido do fato, pois já era muito velho e não tinha memória para todos os acontecimentos. O narrador sente o cheiro do trigo vindo de “A Casa dos Pãezinhos de Queijo” misturado com o do incenso da igreja e cogita se não foi isso o que atraiu aquela mulher para morrer ali no Largo da Palma. 

Então, o narrador encontra o inspetor de polícia na Rua Chile e esse informa que a morte da mulher havia sido realmente causada por tóxico. Além disso, o inspetor diz que os dentes dentro da saboneteira eram da própria mulher, mas não se sabe porque ela os carregava consigo. Ao caminhar pelo Largo da Palma, o narrador pensa que a mulher não havia morrido ali, mas sim que ela morreu em delírio, fora do corpo em um mundo que não o nosso.

Fontes

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros, Resumo.

Mário de Andrade (Tempo da Camisolinha)

Mário de Andrade, no conto “Tempo da Camisolinha “, da obra Contos Novos, assume um foco narrativo em primeira pessoa, com narrador participante, que, simultaneamente, é o protagonista da narrativa. A narrativa, por sua vez, é posterior aos fatos: o narrador adulto conta sua experiência infantil. Apesar de os fatos estarem distantes no tempo, estão próximos emocionalmente. Para contá-los, o narrador envolve-se tanto, que assume a linguagem da criança e expressa suas emoções e interrupções por meio de sinais de pontuação subjetivos, como reticências e exclamações: “(…) davam nela, machucavam muito ela, isto é … muito eu não queria não, só um bocadinho, que machucassem um pouco, sem estragar a cara tão linda da pintura, só pra minha madrinha saber que agora que eu tinha a boa sorte, estava protegido e nem precisava mais dela, tó! ai que saudades das minhas estrelas-do-mar! (…)” “(…) eu bem não queria pensar, mas pensava sem querer, deslumbrado, mas a boa mesmo era a grandona perfeita, que havia de dar mais boa sorte pra aquele malvado de operário que viera, cachorro! dizer que estava com má sorte! Agora eu tinha que dar pra ele a minha grande, a minha sublime estrelona-do-mar!…” A apresentação do conflito não é a tradicional, já que, inicialmente, o narrador não parece ter a preocupação de situar o leitor no tempo e no espaço; não se preocupa em conduzir o texto para que o leitor o assimile de forma segura.

“A feiúra dos cabelos cortados me fez mal.”: tal colocação não conduz o leitor ao assunto diretamente. Posteriormente, saberemos que os “cabelos cortados” foram os dele. O narrador parte de suas próprias experiências; o corte dos cabelos trouxe-lhe uma “noção prematura de sordidez dos nossos atos” ou “da vida”. A criança não queria seus cabelos cortados; isso lhe trouxe sofrimento, mas a justificativa recebida foi que deveria ficar homem. Isso, em vez de animá-lo, apavorava-o, pois uma criança de três anos não queria ser homem; queria ser apenas criança. É o iníicio, assim, de uma das abordagens contidas no texto: o pré-estabelecido, o convencional, as regras fundamentais, que devem ser sempre seguidas por alguém que deseja fazer, coerentemente, parte da estrutura social. É “sórdido”, como nos coloca o narrador, um menino ter cabelos “dum negro quente, acastanhados nos reflexos”, principalmente se “caíam pelos ombros em cachos gordos, com ritmos pesados de molas de espiral”. A reflexão que nos fica é se o que é sórdido é a imposição, ou a delicadeza dos cachos… Tal fato se torna tão marcante, que, já homem, os cachos tornaram-se a lembrança de um “engano grave”, que o fizeram destruir o quadro que ainda continha essa lembrança. No corte dos cabelos, não são apenas eles que são destruídos, mas o “olhar manso, um rosto sem marcas, franco, promessa de alma sem maldade”. O que fica é o homem que acha “besta” a camisolinha conservada pela mãe para que economizasse.

O adulto, que agora é, tenta-se justificar pelo que ele foi (“Guardo esta fotografia porque si ela não me perdoa do que tenho sido ao menos explica”). A criança, forçada a virar homem aos três anos, passa a ter um “quê repulsivo de anão”. É nítida a comparação que faz entre ele e o irmão, Totó. O irmão mantém o ar sem malícia e infantil; parece não ter sofrido a repressão vivida pela personagem protagonista. Ao caracterizá-lo como “criança integral”, reforça as perdas sofridas pelo narrador; nesse momento, a idéia dos cachos retorna à mente do leitor: o problema reforça-se como moral, não como físico; com os cabelos, perdeu-se a pureza. O personagem narrador – a “montruosidade insubordinada”, revelada pelos “olhos que espreitam” – contrapõe-se ao irmão, “a própria imagem da infância”. Num momento de “flash-back”, o narrador reflete sobre o valor dos signos do passado (“não sei por que não destruí em tempo também essa fotografia”): é a forma de buscar-se e encontrar-se nas reminiscências. É como se fosse capaz de perceber que a foto era a comprovação da repressão e seus resultados: o que fazer diante disso? … a sensação da incapacidade de reagir… Quando o leitor entra em contato com tudo isso, sente que os cachos cortados são ponto de partida do enredo. O fluxo de consciência vai tomando maior espaço à medida que incomoda o narrador. “Voltemos ao caso que é melhor”: prefere interromper as reflexões a deparar-se, possivelmente, com o que não quer ver… Nessa repressão tão sofrida, o pai é elemento desencadeador de todo o processo: “meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis”.

A antítese marca a introdução do pai no enredo – suave e irrevogável; nesse caso, a suavidade não se liga à delicadeza, mas ao fato de não haver discussão nas decisões por ele tomadas. A maior revolta do menino é não ter nenhuma participação nisso: “Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas (…)”. A reação do narrador é de “monstruosidade insubordinada”, voltando-se contra o cabeleireiro; a dificuldade de lembrar é grande, já que a resistência a tudo isso se mantém até hoje (“Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis (…)”). A seleção de vocabulário é pesada porque a dor também é: “cadáveres de meus cabelos”, “um não-conformismo navalhante”… e a reação do menino é de pranto. Nota-se que o que dói mais é a troca proposta pelos adultos: presentes, gozações, espelhos. Ninguém tenta entender a dor do garoto. Na relação indivíduo/mundo, a reação do indivíduo é a revolta: nasce o homem – como queriam os “outros” – mas é alguém “cheio de desilusões, de revoltas, fácil para todas as ruindades”, com lembranças infantis desagradáveis, cujo único elemento restante foram “as camisolinhas”, tão detestáveis quanto todo o resto. A figura paterna não afeta apenas o menino, mas também a mãe: depois de um parto desastroso, movia-se “premiada pelas obrigações da casa e dos filhos”. A idéia de “obrigação” intensifica-se ao longo das ações dela (“menos tratava da casa que se iludia, consolada por cumprir a obrigação de tratar da casa.”).

A atitude do pai diante do sofrimento materno é exposta de forma irônica: “Diante da iminência de um desastre maior, papai fizera um esforço espantoso, o seu ser que só imaginava a existência no trabalho sem recreio, todo assombrado com os progressos financeiros que fazia e a subida de classe.” Observa-se o antagonismo de interesses entre esses elementos do mesmo ciclo familiar: a criança, preocupada apenas com a própria dor (tal egocentrismo reflete-se, inclusive, nas reminiscências do narrador, que não consegue lembrar-se, exatamente, do que ocorria com sua mãe – “(…) não sei direito…” -; a mãe, preocupada com suas obrigações para com a família; o pai, preocupado com os “progressos financeiros e a subida de classe”. O que vemos, portanto, é a família conservadora burguesa. Para melhorar o estado de saúde de sua mãe, vão para a praia. A mudança de espaço não mudará esse quadro familiar. Observa-se isso, por exemplo, no quadro de Nossa Senhora do Carmo (trazido da cidade para a praia), utilizado para ameaçar e amedrontar o menino (“Meu filho, não mostra isso, que feio! repare: sua madrinha está te olhando na parede!”). Diante disso, o menino não se submete, pois desafia a “madrinha santa”, quando a mãe não está olhando (“Tó! que eu dizia, olhe! Olhe bem! Tó! olhe bastante mesmo!”). Nessa mudança de espaço, as poucas mudanças de atitudes são apenas aparentes: a mãe “sentia um prazer perdoável de representar naquelas férias o papel largado de convalescente”; o pai “deixara menos pai, um ótimo camarada com muita fome e condescendência”. O que se nota é que pai e mãe precisam de motivos, “desculpas”, para se comportarem de modo diferente, enquanto que o filho mantém sua personalidade rebelde, avessa ao formal.

Os operários trabalhadores do canal reforçam a hierarquia que a criança já observava na família, já que tratavam melhor a ele, “filhinho de ‘seu dotô’, do que aos próprios filhos”: como diz o próprio narrador, agiam “proletariamente”… Tudo isso se segue de um fato novo que modifica o ritmo do enredo: o garoto é presenteado com três estrelas-do-mar por um operário, que lhe diz que as mesmas dão boa sorte. A posse das estrelas-do-mar tornou-se algo fundamental para a criança: constituíam-se num segredo. Não sendo necessário dividi-las ou partilhá-las com alguém, tornam-se algo só seu, capaz de dar a boa sorte prometida e protegê-lo de qualquer infortúnio: “Comer? pra que comer? elas me davam tudo, me alimentavam, me davam licença para brincar no barro, e si Nossa Senhora, minha madrinha, quisesse se vingar daquilo que eu fizera pra ela, as estrelas me salvavam, davam nela (…)” Porém, a posse das estrelas é momentânea; a felicidade é momentânea. Ao ver, na praia, um operário triste, queixando-se da sua má sorte, a criança sente-se na obrigação de ceder-lhe sua estrela-do-mar (de início, a pequena, mas, depois, sabia que devia ceder a maior: “(…) aquele homem com tantos filhinhos pequenos e aquela mulher paralítica na cama!… e no entanto eu era feliz, feliz e com três estrelinhas-do-mar pra me darem sorte…”). Se, no início do conto, o embate da criança era com o mundo, agora, é consigo mesma, quando descobre que até dentro de si as coisas não são harmoniosas: ao mesmo tempo que deseja as estrelas, que quer as três – que, para ele, representam a suprema felicidade -, incomoda-se com o sofrimento do operário. Dolorosamente, acaba deixando sua vontade de lado e entrega-lhe a estrela: “Tome! Eu soluçava gritado, tome a minha… tome a minha estrela-do-mar! dá… dá, sim, boa sorte!…”. Tal atitude não deixa – ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa moralista tradicional – o garoto satisfeito consigo mesmo, já que foi tão altruísta. O que ocorre, na verdade, é um imenso sofrimento, arrependimento (“eu sofria arrependido”), que ele não consegue conter: “Eu corri pra chorar à larga, chorar na cama, abafando os soluços no travesseiro sozinho.”. À sua maneira, a narrativa torna-se cíclica: o sofrimento vivido com a perda dos cachos castanhos retorna na perda da estrela-do-mar… é o homem que se forma através de perdas sucessivas, de sofrimentos contínuos, “no infinito dos sofrimentos humanos”.

Fonte:
Sos Estudante

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Adonias Filho (O Largo da Palma) 3. Um Avô Muito Velho

 Tema central: eutanásia. Abordagem lírica de um tema polêmico: amor extremado x sofrimento da amada. Morte Provocada

Foco narrativo

 Narração em terceira pessoa, centrada no personagem Negro Loio.

 O presente narrativo é o momento posterior a todos os fatos narrados:

O velho, quando aquilo aconteceu, trancou-se em si mesmo. (…) Sempre calado em seu canto… No quarto e no quintal, a tocar sua sanfona, como a esperar a morte e que todos o esquecessem.

 O narrador desenvolve dois núcleos narrativos:

 1- Núcleo Central: O Negro Loio e sua neta Pintinha.

 2- Núcleo secundário: A vida do negro Loio.

Espaços – Largo da Palma (visão animista = tratado como ser vivo); a casa do Gravatá e Mercado Modelo.

Linguagem

 Linguagem bem trabalhada, concisa, períodos curtos, incisivos. Tratamento lírico dado à narrativa e aos conflitos humanos abordados. Inversão como forma de enfatizar sentido do termo invertido “Companhias, se teve, foram duas: a sanfona e a saudade de Aparecida”. Observe a junção do concreto (sanfona) com o abstrato (saudade de Aparecida).

RESUMO


O velho negro Loio sempre viveu em volta do Largo da Palma. Seu pai tinha uma venda no Mercado Modelo e tinha total confiança no filho. Tanto que ele não ligou quando Loio começou a ter um caso com uma prostituta chamada Aparecida. Ela era uma moça linda, que trabalhava como prostituta apenas aos sábados e nos demais dias tocava sanfona ou tirava a sorte de quem passava pela rua. Aliás, foi a sanfona que os ligou. Loio aprendera desde criança a tocar o instrumento.

Um certo dia, Loio pediu que Aparecida tirasse sua sorte. Ela, com o rosto sério de sempre, disse que ele “tinha uma morte em suas mãos”. Aparecida não conseguia viver sem os bares, a noite, as festas, e acabou voltando a se prostituir e se afastar de Loio. Até que um dia acharam seu corpo esfaqueado numa rua. Loio acabou se fechando em seu mundo, sempre a trabalhar na venda do pai e a tocar sanfona. Até que um dia seu pai morreu e deixou, junto com um dinheiro e um terreno, a venda como herança. Com o dinheiro ele comprou a loja ao lado da sua e conseguiu fazer com que a venda prosperasse, um dos únicos no Mercado Modelo a conseguir isso.

Algum tempo depois, Loio conheceu Verinha em um espetáculo de circo. Não demorou muito para que casassem e ele fosse morar com ela. Pouco tempo depois tiveram uma filha, Maria Eponina, e viveram todos juntos uns dez anos ali. Até que um dia Verinha acabou falecendo devido ao tifo. Algum tempo depois, sem que Loio nem reparasse, a mãe de Verinha faleceu e Maria Eponina já era uma moça e uma grande dona-de-casa.

Sem conseguir levar a venda sozinho, Loio contratou um ajudante. Chico Timóteo era um rapaz e tanto, que em pouco tempo já cuidava de tudo como se fosse sócio. Quando a mãe do moço faleceu, ele passou a comer na casa de Loio e, como era de se esperar, em pouco tempo já estava casado com Maria Eponina. Os dois tiveram uma filha, Pintinha, que se tornou o segundo amor do velho Loio. O outro era a sanfona.

Pintinha e Loio estavam sempre juntos a conversar e a tocar sanfona. Ele a levava e a buscava da escola. Mesmo quando Pintinha passou a ir com as amigas para a escola, quando ela voltava para a casa era com o avô que ficava. E quando o avô adoecia, ela era que cuidava dele. Loio fazia o mesmo se o contrário ocorresse. E assim Pintinha foi crescendo até que se tornou professora.

Sendo professora nova, colocaram-na para trabalhar em uma escola bem afastada. Pintinha nascera para a profissão e logo havia conquistado todos os alunos e professores, voltando para casa tarde da noite muitas vezes com presentes que ganhava deles. Porém, um dia ao invés de Pintinha veio um policial informando que a moça tinha sido violentada e espancada, por um milagre não morreu. Após duas cirurgias e algum tempo no hospital, Pintinha voltou para casa. Mas ela já não reconhecia ninguém e passava o dia sofrendo de dores.

Loio resolveu ir ter uma conversa franca com o médico, que lhe contou que Pintinha não tinha como se salvar. As cirurgias apenas prolongaram sua vida, mas ela estaria condenada a passar os dias sofrendo com dor até morrer. Então, ele resolve ir até a venda de um farmacêutico amigo seu no Mercado Modelo e lhe pede o veneno mais forte que tiver, dizendo que era para seu cachorro doente. Como ninguém ousaria duvidar de Loio, ele lhe entregou o veneno e lhe explicou como usar.

Chegando em casa, Loio foi deixado sozinho com a neta Pintinha, pois Maria Eponina iria sair. Sem hesitar, Loio mistura veneno com água em um copo e dá para neta beber. Ficou sentado na sala esperando a filha chegar e que viessem os gritos desesperados dela. Porém, Maria Eponina ao ver a filha morta apenas pediu que o pai trouxesse uma vela, sem nenhuma lágrima e quase sem voz.

Fontes:

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Adonias Filho (O Largo da Palma) 2. O Largo de Branco

––––––––––––––-
 As personagens desse conto são Eliane, Odilon e Geraldo.
Espaços
 Externo – Largo e Igreja da Palma (como já vimos, presente em todas as novelas e tratado como ser vivo), e Rua do Bângala.
 Interno – Quarto em que mora Alice e que Eliane subloca. Casas em que Eliane morou na infância (Itapagipe), quando casada com Odilon e quando viveu com Geraldo (Campo Grande, Barris e Rio Vermelho).
Linguagem
 Concisa, períodos curtos, incisivos. O narrador explora os aspectos lírico-poéticos da linguagem. Percebe-se o uso de metonímias: “Você, Eliane, casou com um hospital”.
 O autor usa os mesmos recursos poéticos presentes nas outras novelas: metáforas, comparações, inversões, frases nominais e enumerações, assíndetos etc.
Foco narrativo e Tempo
 A narrativa é em terceira pessoa, embora centrada no personagem Eliane. Está muito presente o estilo indireto livre. É como se Eliane estivesse fazendo uma revisão de suas vivências: a vida com Geraldo e a vida com Odilon.
 Coloca-se como tempo presente narrativo aquela “manhã de junho”, em que, “gasto o vestido que usa, fora de moda, o melhor de todos os que restaram”, Eliane espera reencontrar-se com Odilon no Largo da Palma.
 Inclusive, neste início, as formas verbais estão no indicativo presente; ressaltam a idéia dos fatos que estão em curso.
 Não raras vezes se fundem presente – fatos que estão sendo vividos, e passado – fatos recordados, pois vividos no passado.
 Mudam, então, os tempos verbais (imperfeito, perfeito, mais que perfeito, ressaltando a idéia de fatos já ocorridos.) Inclusive, em longos trechos, utilizam-se as aspas, para indicar que esses trechos são “narrados” pela memória da própria Eliane, como em um longo discurso indireto livre, dentro do qual aparecem formas do discurso direto.
 O narrador, além de marcar o tempo, usando verbos no presente e no passado, usa os advérbios “agora” e “lá” que ressaltam o tempo presente e o lugar. Eliane no Largo da Palma, à espera de Odilon.
 Lê-se e percebe-se a passagem do passado, visto através da lembrança de Eliane, para o presente:
Essa lembrança a perseguiu durante bastante tempo, era como uma idéia fixa, hora a hora a rever as notas sobre a cama. Parecia-lhe uma coisa tão venenosa e viva quanto uma víbora ou um escorpião. O dinheiro na cama, sobre o lençol, nele refletido o desprezo do homem. E como se aquele dinheiro pudesse compensar a ingratidão e resgatar a mocidade e a vida que a ele dera em troca de alguma coisa. Tudo, dera tudo mesmo em troca de nada.
O sol, agora, invade o Largo da Palma e parece que vem mostrá-lo como uma das coisas mais preciosas da Bahia . Habituara-se aos poucos com ele, o Largo da Palma… Eliane, detendo-se para aquecer-se, esmorece os passos. Lá, no quartinho onde mora, o sol não entra.
 Pelo exposto, percebe-se que o tempo da narrativa é basicamente psicológico.
O mundo interior – mundo invisível
Gasto é o vestido que usa, fora da moda, o melhor dos que restaram. Os cabelos agora brancos, sempre sedosos, não melhoram o rosto cansado. Olhos sem brilho, boca um pouco murcha, as rugas. Este é o lado, o lado de fora, que Odilon verá. Sabe que o Odilon – e se não mudou inteiramente – examinar-lhe-á o rosto com atenção a observar todos os detalhes. Não poderá ver, porém, o lado de dentro, precisamente o lado da consciência e do coração.
 O mundo interior traz uma percepção subjetiva do mundo exterior: (…) a rua não era a mesma e certamente não era a mesma por causa dela própria. 
Apesar de menos de sete meses, ah, quanto tempo.
A tensão nervosa expulsando-a do quarto, empurrando-a para a rua. A tensão nervosa e os olhos de Alice sempre cheios de curiosidade.
 (ver mundo interior = tensão nervosa; mundo exterior = olhos de Alice = expressão mundo interior = curiosidade)
Desfecho: E, como se nada houvesse acontecido naqueles trinta anos, desde que se separaram, ele apenas diz:
 – Vamos, Eliane, vamos para casa.
 (…) Ela se lembra das manhãs de chuva que sempre escurecem o Largo da Palma. Agora, como a vingar-se daquelas manhãs, o sol ajuda o céu tão azul. E Eliane, ainda com o coração a bater muito forte, não tem dúvida de que o seu velho largo, como num dia de festa, está vestido de branco.
Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Lygia Fagundes Telles (A Noite Escura e Mais Eu)

“Ela ficou mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo” – assim começa a coletânea de nove contos, A Noite Escura e Mais Eu, de Lygia Fagundes Telles, na primeira frase de “Dolly”. E termina, na última frase de “Anão de Jardim”, história que encerra o livro: “Seja feita a Vossa vontade e (…) então aceito também ser a estrela menor da grande cauda levantada no infinito no infinito deste céu de outubro”. Como dentro de um parêntese, todo o universo de Lygia concentra-se entre essas duas frases, o sangue inevitável das dores da condição humana e a talvez redentora aceitação não só do Divino, mas também da insignificância e humildade que essa condição impõe. A repetição da palavra “infinito” acentua a idéia de eterno retorno, e a referência ao “céu de outubro” remete à primavera e ao renascimento de tudo. Ou seja: o sangue pode ser transmutado, alquimicamente, em luz. Ou pelo menos em ótima literatura.

A Noite Escura e Mais Eu, entre todos os livros de contos de Lygia, talvez seja a sua obra-prima. Pela unidade, pela densidade, pela extraordinária dignidade que confere à língua portuguesa, mesmo quando trata de temas ou situações sórdidas, perversas, violentas.

Lygia volta a temas recorrentes de sua obra, como a morte, a solidão, o amor, a velhice, envolvendo-nos em um mundo riquíssimo em experiências humanas, povoado por anjos e demônios, angústias e alegrias, medos, ilusões e desilusões. A autora está de volta ao seu leque de perplexidades, e suas personagens, aqui, são garotinhas, cachorros, anões, que espiam os homens e suas extravagâncias.

Esse universo misterioso das histórias de Lygia pode ser observado e sentido logo no primeiro conto, “Dolly”, ambientado nos anos 20. A personagem é uma moça na faixa dos vinte anos que queria ser artista de cinema mudo. O conto é narrado por Adelaide, da mesma idade, mas de personalidade ingênua e conservadora, com quem Dolly quer dividir a moradia enquanto não alcançava as luzes da ribalta. Adelaide encontra o cadáver de Dolly violentada depois de uma noite de farra e suja suas luvas de sangue ficando, aparentemente, apavorada.

Personagens em crise diante da velhice são apresentados no conto “Boa noite, Maria”, que enfoca o amor de uma mulher de sessenta e cinco anos por um homem de cinqüenta. É um conto sobre um possível direito à eutanásia, sobre o horror da decomposição e a fuga da morte como aviltamento. A solidão é o pano de fundo dessa história, a mesma solidão que permeia quase todas as personagens deste livro que, a exemplo dos anteriores da autora, traz enredos ambíguos que às vezes se aproximam do realismo fantástico.

Em “Anões de jardim”, um dos melhores da coletânea, o narrador é um ser de pedra que tem alma e quer sobreviver à demolição da casa cujo jardim habita. Fala de uma perseguição à imortalidade, de uma continuação da vida em qualquer forma, mesmo a mais vil. Neste conto, Lygia Fagundes Telles rompe com a linearidade do tempo, calça a sua escritura com “botas de nuvens” e revela a vida como um pesadelo envolvido pela crueldade do homem de todos os tempos a contrastar (fantástico paradoxo!) com a ‘humanidade’ de uma estátua de pedra que pensa e sofre, como testemunha muda e memória dos dramas vividos em uma casa.

Nos outros contos, a autora desliza em verdadeiros instantâneos das relações humanas, como o da mãe à beira do túmulo da filha tentando compreender como ela foi capaz de ter como amante uma outra mulher. Ou a história de Kori, mulher rica e infeliz no casamento, que vai para a cama com o homem que ela sabe que é apaixonado pelo seu marido.

Lygia aposta no absurdo, mantém seu estilo intimista em suas reflexões sobre as fraquezas humanas nesses nove contos de mistério e paixão de A noite escura e mais eu, cujo título nasceu de um poema de Cecília Meirelles: “Ninguém abra a sua porta / pra ver o que aconteceu: / saímos de braço dado / a noite escura e mais eu.”

As histórias não se esgotam no enredo. Terminadas de ler pela primeira vez, deixam a vontade de reler uma segunda ou terceira, por suas inúmeras camadas de significados e pela carga de mistério sempre deixada no ar. Às vezes, todo um conflito revela-se numa frase aparentemente perdida no meio do texto, num detalhe. Assim é, por exemplo, em “Dolly”; na perfeição de “Você não Acha que Esfriou?” ou na ousadia do tema lésbico de “Uma Branca Sombra Pálida”.

Títulos como “Você não Acha que Esfriou?” e “Papoulas em Feltro Negro” têm um adensamento do ceticismo das mulheres maduras e de sua capacidade de reação. Em “Papoulas em Feltro Negro”, por exemplo, uma professora de piano coloca em dúvida o passado de criança perseguida que construíra para si ao reencontrar uma mestra megera, ainda destrutiva, que acusa a ex-aluna de mentirosa e gaga, as falhas da comunicação tornando ambígua a própria memória, roubando-lhe as certezas, ocultando-as sob trevas espessas. Na cama fria do amante improvisado, uma mãe de 45 anos ergue-se para a vingança verbal que derrubará a pose do amigo do marido. Neste conto admiração e respeito à sensibilidade do outro são confundidos com ódio e desprezo. No final, a velha professora Elzira evita de todas as maneiras o olhar da ex-aluna.

Fonte:
Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Guimarães Rosa (Conto de Sagarana: Minha gente)

Análise da obra

Narrado em primeira pessoa, tendo um narrador que participa da história com visão limitada dos fatos que narra, Minha gente é um dos contos mais bem tramados do livro, com a história principal emendada, alterada, recontada por pequenos detalhes e elementos dados pouco a pouco ao leitor.

O foco narrativo ilumina os passos do protagonista, mas também revela certas sutilezas que servem para esclarecer o sentido mais profundo da história. Há uma partida de xadrez, narrada no início, que mostra como se deve entender o enredo em si: um xeque, dado pelo protagonista, acaba se virando contra ele próprio. Assim, a narração insinua ao leitor que as aparências dos fatos escondem, mais que revelam, sua verdadeira intenção.

É um conto que fala mais do apego à vida, fauna, flora e costumes de Minas Gerais que de uma história plana com princípios, meio e fim. Os “causos” que se entrelaçam para compor a trama narrativa são meros pretextos para dar corpo a um sentimento de integração e encantamento com a terra natal. O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Minha gente.

O autor utiliza uma linguagem mais formal, sem grandes concessões aos coloquialismos e onomatopéias sertanejas. Alguns neologismos aparecem: suaviloqüência, filiforme, sossegovitch, sapatogorof – mas longe da melopéia vaqueira tão ao gosto do autor. A novidade do foco narrativo em primeira pessoa faz desaperecer o narrador onisciente clássico, entretanto quando a ação é centrada em personagens secundárias – Nicanor, por exemplo – a oniscência fica transparente.

Muitas temáticas são desenvolvidas no conto, por exemplo: a saga da política no interior (tio Emilio); a honra sertaneja (morte do Bento Porfírio); os caprichos do Destino (casamento de Armanda com o narrador).

Aliás, esse último aspecto é desenvolvido também num conhecido poema de Drummond, Quadrilha:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

O cenário é a Fazenda Saco-do-Sumidouro (interior de Minas Gerais), do Tio Emílio, pai de Maria Irma.

Personagens

Narrador – Homem da cidade que estava a passeio pelas fazendas dos tios, no interior de Minas Gerais. Chamavam-no “Doutor”, gostava da prima Maria Irma, mas casou-se com Armanda, filha de uma fazendeira. É o protagonista do conto. Só sabemos que é um “Doutor” por intermédio da fala de José Malvino, logo no início da narrativa: “Se o senhor doutor está achando alguma boniteza…”, fora isso, nem mesmo seu nome é mencionado.

Santana – Inspetor escolar intinerante. Bonachão e culto. Tem memória prodigiosa. É um tipo de servidor público facilmente encontrável. Companheiro nas andanças do narrador, tem mania de jogar xadrez, mesmo quando estão andando a cavalo.

José Malvino – Roceiro que acompanha o protagonista na viagem para a fazenda do Tio Emílio. Conhece os caminhos e sabe interpretar os sinais que neles encontra. Atencioso, desconfiado, prestitavo e supersticioso.

Tio Emílio – Fazendeiro e chefe político, para ele é uma forma de afirmação pessoal. É a satisfação de vencer o jogo para tripudiar sobre o adversário. Tio do narrador; sofreu mudança radical depois que se meteu na política.

Maria Irma – Prima do protagonista e primeiro objeto de seu amor. É inteligente, determinada, sibilina. Elabora um plano de ação e não se afasta dele até atingir seus objetivos. Não abre seu coração para ninguém, mas sabe e faz o que quer. Uma das filhas de Tio Emílio; no passado, o narrador e ela foram namorados de brincadeira. Tem cintura fina, olhos grandes, pretíssimos. Passou alguns anos no internato.

Armanda – Filha de fazendeiros; estudou no Rio de Janeiro. Terminou casada com o narrador.

Bento Porfírio – Empregado da fazenda de Tio Emílio. Vaqueiro; gostava de pescar. Envolveu-se com uma prima casada (de-Loudes) e terminou assassinado a foice pelo marido enciumado (Alexandre). É companheiro de pescaria do protagonista.

Resumo do conto

Caminham juntos, pelo sertão de Minas, a cavalo, o narrador, Santana e José Malvino. O narrador é um observador apaixonado das coisas do sertão: a paisagem, o céu, os pássaros, as árvores… Tudo para ele merece elogios e observações. A viagem chega ao fim: estão agora numa fazenda.

Dois dias na fazenda, e o narrador achava tudo mudado. Mas mudança de verdade notara no Tio Emílio: rejuvenescido, transfigurado. Logo, o narrador descobriu o porquê da mudança: Tio Emílio estava metido na política. Sempre atendendo aos pedidos do povo, a qualquer hora, mesmo à noite.

A prima Maria Irma, em conversa com o narrador, fez questão de informar que estava quase noiva. O narrador quis saber de quem, mas ela fez mistério.

Bento Porfírio, enquanto pesca com o narrador, vai-lhe contando uma história. Agripino, bom parente, convidou Bento para ir ao arraial. Queria apresentá-lo à sua filha de-Lourdes: quem sabe os dois podiam casar. Mas Bento não foi. Preferiu uma pescaria misturada com farra, com mulher-da-vida e sanfona pelo meio. Tempos depois, “quando Bento Porfírio veio a conhecer a prima de-Lourdes, ela já estava casada com o Alexandre”. Os primos foram-se vendo e gostando um do outro. Por pirraça e por falta do que fazer, Bento casou-se com Bilica.

O narrador ficou na varanda até anoitecer. A prima Irma mudou de modos e, na hora do jantar, sorriu diferente para o narrador. Ele ficou desconfiado. “Mulher bonita, mesmo sendo prima, é uma ameaça”. E o narrador lembra bem o conselho de Tertuliano Tropeiro: “Seu doutor, a gente não deve de ficar adiante de boi, nem atrás de burro, nem perto de mulher! Nunca que dá certo…” Noite sem estrelas, noite de roça. O narrador foi dormir.

O narrador foi novamente pescar no poço com Bento Porfírio. Depois de algum tempo, a história do adultério continuou. O marido da prima, o Alexandre, não sabe que está sendo enganado. De repente, o marido traíd????È?o surgiu de trás de uma moita, foice na mão, e matou Bento com um só golpe. O corpo caiu no poço, e o narrador, apavorado, não sabia o que fazer. O assassino foi embora, o narrador correu para casa e contou ao Tio Emílio o ocorrido. As ordens foram dadas: tirar o morto do poço, avisar o subdelegado e ir atrás do assassino. Não para matá-lo, mas para protegê-lo das autoridades.

Os dias vão passando, e o narrador começa a gostar da prima Maria Irma. Por que não namorá-la? Um rapaz da cidade veio visitá-la e trazer-lhe livros. Ela se enfeitou toda para o receber. Por que não estava toda enfeitada na chegada do primo? À noite, o narrador fica sabendo que o rapaz se chama Ramiro e que é namorado da Armanda, uma amiga de Maria Irma, filha da fazendeira do Cedro.

O narrador não se conteve e fez uma declaração de amor à prima. Ela ouviu e, depois, disse que não acreditava. Ele tentou convencê-la usando argumentos infantis. Em vão.

Depois de uma conversa séria com a prima e de obter dele somente negativas, o narrador ameaçou ir embora. Ela insistiu que ele ficasse: queria apresentar-lhe Armanda, a namorada de Ramiro. Ele, teimoso, partiu no outro dia. Iria para Três Barras, onde mora o seu tio Luduvico.

Em Três Barras, o narrador não conseguia esquecer Maria Irma. Depois das eleições, com vitória do partido de Tio Emílio, o narrador recebeu carta: ele, o tio, queria-o de volta. O narrador ficou muito alegre e nem esperou o outro dia para voltar.

De volta, o narrador foi apresentado a Armanda. Foram passear a pé pelos pastos. Dali, do primeiro passeio, já nasceu o namoro. Em pouco tempo, o noivado e, no mês de maio, o casamento, ainda antes do matrimônio da prima Maria Irma com Ramiro Gouveia.

Fonte:
Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Guimarães Rosa (Conto de Sagarana: A Volta do Marido Pródigo)


Conto narrado em 3ª pessoa, sendo pois o narrador onisciente, não participa da história. Neste conto, farto em citações de lugares e personagens da região de Itaguara, assim como em Conversa de bois, os animais se transformam em heróis, questionando o saber dos homens com o seu suposto não saber.

Em A volta do marido pródigo, o autor descreve um ladino que vende a mulher para dedicar-se a aventuras na cidade grande, mas depois se arrepende, volta para sua região e, malandramente, reconquista sua posição e sua mulher.

O conto é uma paródia da “parábola do filho pródigo”, e apresenta traços de humor, presentes, principalmente, na maneira pela qual a personagem protagonista é caracterizada como malandro folclórico. Essa questão também é amparada na concepção de mundo às avessas presente na narrativa.

O que se percebe é que, no conto, não existe julgamento moral a respeito de nenhuma das atitudes de Lalino, que poderiam, segundo o senso comum, ser consideradas “más”. Também, as personagens do texto ditas respeitáveis são descritas como “não tão respeitáveis assim”. No entanto, em qualquer caso, a leveza e a ironia com que tais situações de desregramento moral são apresentadas amenizam a seriedade que o tratamento desses assuntos poderia assumir.

Na releitura de Guimarães Rosa há uma visão bem diferente daquela encontrada no ensinamento moral que a parábola pretendeu passar. No conto, o que importa é retratar a personagem do malandro, do típico brasileiro que, para tudo, dá um “jeitinho”.

Personagens

Lalino Salãthiel – todos o chamam de Laio. Mulato vivo, malandro, contador de histórias. Garante que conhece a capital, Rio de Janeiro, mas nunca foi lá. Certa vez, foi realmente conhecê-la.
Maria Rita – mulher de Lalino; trata-o com especial carinho.
Marra – encarregado dos serviços; depois que a obra acabou, mudou-se do arraial.
Ramiro – espanhol que ficou com Ritinha, a mulher de Lalino.
Waldemar – Chefe da Companhia.
Major Anacleto – chefe político do distrito, homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar.
Tio Laudônio – irmão do Major Anacleto. Esteve no seminário, vivia isolado na beira do rio. Poucas vezes vinha ao povoado. Chorou na barriga da mãe, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva e escuta o capim crescer. Era conselheiro do Major.
Benigno – inimigo político do Major Anacleto.
Estêvão – capanga respeitado do Major Anacleto. Jamais ria. Tinha pontaria invejável: atirava no umbigo para que a bala varasse cinco vezes o intestino e seccionasse a medula, lá atrás.

Lalino é um sujeito simpático, espertalhão e falante, avesso ao trabalho, sabe como poucos contar uma estória. A chave para entendê-lo melhor está em suas contínuas alusões a peças de teatro, quase sem ter visto nenhuma. Ele parece constantemente representar, em tudo o que faz ou fala. Assim, sai-se bem em tudo o que faz.

Assemelha-se a Leonardo, de Memórias de um sargento de milícias, e a Macunaíma: os três heróis sem nenhum caráter.

Essas são as aventuras de um herói picaresco, Eulálio Salãthiel (Lalino), que abandona a mulher após seis meses de casado e vai conquistar o mundo. Antes de viajar, consegue extorquir algum dinheiro de um espanhol interessado nela e que dela iria tomar conta. Sua esposa, Maria Rita, abandonada por ele, passa a morar com o espanhol Ramiro.

Ao vender Ritinha, o protagonista abre mão do que lhe é mais caro, mas que ele ainda não é, naquele momento, capaz de perceber.

Desiludido com o Rio de Janeiro retorna à sua terra e urde um plano para recuperar a mulher – Maria Rita – e o prestígio junto ao povo do lugar. Com paciência e astúcia, vence todos os obstáculos, recupera a mulher, expulsa os espanhóis do lugarejo e reconquista o prestígio junto ao coronel para cuja vitória nas eleições contribui.

Após ter passado por tudo o que passou, o Lalino do final não é mais a mesma pessoa, que se engana no que decide fazer e apressa-se a reparar o erro, nem tampouco se utiliza de todos os seus atributos de astúcia e malandragem para recuperar o que havia perdido, mas sim, aprende a dar importância às coisas que realmente devem ter importância atribuída.

Ele agora tem plena consciência de que deve cuidar de seu tesouro mais precioso, pois, do contrário, corre o risco de entregá-lo, mais uma vez, de mãos beijadas, a quem o estiver cobiçando.

Através de ironia claramente perceptível, o autor mostra lendas populares da região dos Campos Gerais de Minas, assim como ditados que louvam a esperteza e a paciência.

Resumo do conto

Na introdução do conto o cenário é apresentado: homens trabalham duro escavando o solo para dele retirar minério. Seu Marra é o encarregado, de olho em todos para que o trabalhe ande a contento. Lalino Salãthiel é um mulato vivo, malandro, que chega tarde ao trabalho e inventa desculpas. Em vez de trabalhar duro, como os outros, inventa histórias, conta causos. A maioria admira-o. Mas há quem enxergue nele apenas um aproveitador. Generoso acha que Ramiro, um espanhol, anda rondando a mulher de Lalino.

Laio, naquela noite, não comparece à casa de Waldemar para a aula de violão. No outro dia, fica em casa vendo umas revistas com fotografias de mulheres. À tarde, vai à empresa e acerta as contas com Marra. Está disposto a ir embora. Na volta para casa, encontra Ramiro, o espanhol que lhe anda cercando Maria Rita. Nasce, imediatamente, um plano: tomar um dinheiro emprestado do espanhol. O argumento é convincente: quer ir embora sem a mulher, mas falta-lhe dinheiro para viajar. Ramiro empresta-lhe um conto de réis. Com o dinheiro no bolso, Laio pegou o trem na estação rumo à capital do País. Seu Miranda, que foi levá-lo, ainda tentou dissuadi-lo. Não conseguiu.

Um mês depois, Maria Rita ainda vivia chorando, em casa. Três meses passados, Maria Rita estava morando com o espanhol. Todos diziam que Laio era um canalha, que vendera a mulher para Ramiro. E assim, passou-se mais de meio ano.

As aventuras de Lalino Salãthiel no Rio de Janeiro excederam à expectativa. Seis meses depois, Laio estava quase sem dinheiro e começou a sentir saudades. Tomou a decisão: ia voltar. Separou o dinheiro da passagem e programou uma semana de despedida: “uma semaninha inteira de esbórnia e fuzuê”. Acabada a semana, Laio pegou o trem: queria só ver a cara daquela gente quando o visse chegar!

Enquanto atravessava o arraial, Laio teve que ir respondendo às chufas dos moradores. Finalmente, chegou à casa de Ramiro, o espanhol que se apossou de Ritinha. Laio informou-lhe que estava de volta para devolver o dinheiro do empréstimo. Ramiro, querendo evitar que Laio visse Ritinha, perdoou o empréstimo: a dívida já estava quitada. Mas Laio insistiu: “eu quero-porque-quero conversar com a Ritinha”! E disse isso com a mão perto do revólver. O espanhol concordou, desde que não fosse em particular. De repente, Laio esmoreceu: não queria mais ver a Ritinha. Queria só pegar o violão. Depois, quis saber se o espanhol estava tratando bem a Ritinha. E despediu-se. Primeiro pensou em ir à casa de seu Marra. Depois, dirigiu-se para a beira do igarapé: era tempo de melancia. Depois de apreciar a paisagem, Laio deu de cara com seu Oscar. Trocaram idéias, e Oscar prometeu que ia falar com o velho (Major Anacleto) e tentar arranjar um trabalho para Laio na política.

Além de chefe político do distrito, Major Anacleto era homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar. Quando Oscar lhe falou de Laio, ele foi categórico: aquilo é um grandessíssimo cachorro, desbriado, sem moral e sem temor a Deus… Vendeu a família, o desgraçado.

Tio Laudônio era irmão do Major Anacleto. Esteve no seminário, vivia isolado na beira do rio. Poucas vezes vinha ao povoado. Chorou na barriga da mãe, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva e escuta o capim crescer. Pois foi Tio Laudônio que intercedeu a favor de Laio. O Major concordou. Era mandar chamar o mulato no dia seguinte.

Mas Laio não apareceu no dia seguinte. Só apareceu na fazenda na quarta-feira de tarde. E topou logo com o Major Anacleto. Quando o Major tentou expulsá-lo da fazenda, Laio deu-lhe notícias de todas as manobras políticas da região, quem estava com o Major e quem o estava traindo. Já descobrira a estratégia do Benigno para derrotar o Major na próxima eleição. Em troca de tanta informação, pediu a proteção do Estêvão, o capanga mais temido do Major. Assim, o povo do arraial ficou sabendo que Laio era o cabo eleitoral do Major Anacleto e, como tal, merecia respeito.

Major Anacleto, depois do relatório de Laio, mandou selar a mula e bateu para a casa do vigário. O padre teve de aceitar leitoa, visita, dinheiro, confissão e o cargo de inspetor escolar. Antes de o Major sair, o padre contou-lhe que Laio estivera na igreja. Também se confessara e comungara e ainda trocara duas velas para o altar de Nossa Senhora da Glória.

Quando o Major e Tio Laudônio passaram em frente à casa de Ramiro, o espanhol aproveitou para denunciar Lalino: o mulato estava de amizade com Nico, o filho do Benigno. Foram juntos à Boa Vista, com violões, aguardente, e levando também o Estêvão. O Major ficou danado de zangado. Não via a hora de encontrar o Laio.

Depois de peregrinar por todas as bandas, o Major voltou para a fazenda, onde Laio já o esperava. Primeiro o Major xingou o mulato de muitos nomes feios, depois Laio teve tempo de explicar: era tudo estratégia política para saber das coisas. Passara, sim, em frente à casa de Ramiro, mas não o insultara. Dera vivas ao Brasil porque não gostava de espanhóis. E tinha mais (coisa que o Major não sabia): espanhol não vota porque é estrangeiro.

Houve um período de calmaria política em que Laio ficou tocando viola e fazendo versos no meio da jagunçada do Major. Um dia, pediu um favor a seu Oscar, filho do Major: que ele fosse ter com Ritinha e conversasse com ela, mas sem dizer que era da parte do Laio. Oscar foi e fez o contrário: falou mal do mulato, disse a Ritinha que o marido andava fazendo serenata para outras mulheres. Aproveitou a proximidade e pediu-lhe um beijo. Ritinha expulsou-o, não sem antes confessar que gostava mesmo era do Laio, que ia morrer gostando dele. De volta, seu Oscar contou o contrário: que Ritinha não gostava mais do marido, gostava de verdade era do espanhol.

Certa tarde, depois de dormir um pouco na cadeira de lona, o Major foi acordado com uma barulheira dos diabos. O mulherio no meio da casa, os capangas lá fora, empunhando os cacetes, farejando barulho grosso. Ritinha jogou-se aos pés do Major e suplicou-lhe proteção. Que não deixasse os espanhóis levá-la à força dali. O Ramiro, com ciúmes, queria matá-la, matar o Laio e, depois, suicidar-se. Disse tudo isso chorando e falando na Virgem Santíssima.

O Major mandou chamar o Eulálio e foi informado de que o mulato estava bebendo juntamente com uns homens que chegaram de automóvel. Foi a conta: o Major pensou que eram da oposição e começou a xingar o Laio. Cabra safado, traidor. Ia levar uma surra, pelo menos isso. Tio Laudônio procurava acalmá-lo. De repente, lá vem o Laio dentro de um automóvel. E a surpresa foi geral. Era gente do governo, Sua Excelência o Senhor Secretário do Interior. Aí o Major desmanchou-se em sorrisos e gentilezas. E a autoridade satisfeita, elogiando muito o Laio, pedindo ao Major que, indo à capital, levasse o mulato junto.

O Major, contentíssimo, mandou trazer Maria Rita para as pazes com Laio. Convocou a jagunçada e ordenou: “mandem os espanhóis tomarem rumo”! Se miar, mete a lenha! Se resistir, berrem fogo!

Fonte:
Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Osman Lins (Conto: Os gestos)


O conto Os gestos, de Osman Lins, pode ser classificado como uma narrativa lírica, ou seja, em uma primeira acepção ou significado substantivo dos gêneros, o conto configura-se parte da Épica, obra – poema ou não – de extensão maior, em que um narrador apresenta personagens envolvidos em situações e eventos. Em uma segunda acepção ou significado adjetivo dos gêneros, o conto configura-se parte da Lírica, que é todo poema de extensão menor, na medida em que nele não se cristalizam personagens nítidos e em que, ao contrário, uma voz central, quase sempre um “Eu”, nele exprime seu próprio estado de alma.

O caráter lírico do conto é demonstrado, não somente nas sentimentais, profundas e angustiadas reflexões da personagem central, André, mas também na pouca cristalização de todas as personagens, a começar pelo próprio protagonista. Sabe-se que já é velho, e tem sua vida restrita ao quarto. Perdera sua voz, e a partir daí, passou a comunicar-se apenas pelos gestos, tentando esquecer-se do uso das palavras, e resignando-se ao silêncio. A comunicação com seus familiares dá-se de forma fria e distante. Sua mudez, e conseqüente impossibilidade de expressão, desencadeia a série de reflexões que constitui a maior parte da narrativa.

As características das demais personagens são definidas apenas com a intenção de se configurar os elementos coadjuvantes para a exposição do tema central, a interioridade de André. Sua esposa, chamada apenas por “mulher”, caracterizada pela frieza e indiferença, e por uma postura pragmática, não compreende nem sente o que se passa pelo espírito do marido. Rodolfo, o amigo, representa características inversas às da esposa. Sua presença provoca efusões de contentamento em André, trazendo-lhe alívio e alegria, talvez pela vitalidade ou pela roupa clara de marinheiro que lhe sugere a liberdade das viagens. Lise, a filha mais velha, apesar dos traços alongados definidos pelos anos, possui ainda a infância em sua boca e olhos. Com o olhar pálido e frágil e um ar de mistério, é a mais bondosa da casa. Trata o pai com carinho, tentando amenizar sua angustiosa situação. Nos atos dessa filha, André encontra ternura e alento: “Lise é um anjo”. Mariana, a filha mais nova, está entre menina e moça, com seu “cinto justo, queixo para cima, alteando os seios novos”. Tudo para ela gira em torno de sua recém-chegada adolescência, e sua suposta beleza.

Essas personagens coadjuvantes podem ser classificadas como personagens planas: ser íntegro e simples, marcada por uma ou poucas características. Já André, apesar de sua pouca cristalização ou definição, pode ser classificado como personagem esférica: ser complexo, com vários traços característicos, e pontos profundos que podem constituir momentos de mistério e desconhecimento, que podem vir a tornarem-se grandes revelações. Por outro lado, parte dessa pouca cristalização ou definição da personalidade das personagens, constitui parte da coerência interna do conto, limitando ou convencionalizando a caracterização da personagem de acordo com a proposta do conto, no caso, a impotência do ser humano, e sua incapacidade de expressar sua interioridade.

A construção da ambientação em Os gestos, constitui também importante participação na concepção do conto. Sobretudo no parágrafo inicial, com a descrição da paisagem que a personagem vê da janela de seu quarto, imagem descrita dentro do início da primeira cena do conto, ocorrida no inicio da manhã. Unidade essa que inclusive marca o tempo da história da narrativa: uma manhã. “Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem”. Osman Lins denota nessa passagem o ambiente básico da vida de André na ocasião: o leito, a janela, o céu e a mangueira. E demonstra a já aguçada sensibilidade do protagonista, que percebe detalhes minuciosos daquela singela paisagem. Esse pode ser considerado o espaço real da narrativa. No decorrer do conto, há passagem em que o espaço amplia-se, mas no âmbito imaginário: aos demais cômodos da casa e ao quintal, onde “grandes panos brancos soprados pelo vento – numa fila interminável de lençóis…”, e a lugares amenos, lacustres e marítimos, ligados à sua juventude.

O tempo manifesta-se no conto de forma similar ao da ambientação. O tempo da história é de uma manhã, mas as incursões do protagonista por suas reflexões, por seus fluxos de consciência, remontam a um tempo e espaço psicológicos, tornando essa manhã um período mais rico e preenchido, o que pode causar ao leitor a impressão de um tempo decorrido maior que o tempo da história, ou seja, de uma manhã.

Dentre os demais elementos utilizados usualmente para a análise de narrativas, o foco narrativo é um dos mais explorados pelo autor no conto. A narração é feita em 3ª pessoa, por um narrador onisciente seletivo, em razão do uso da exposição direta ou simultânea da análise do pensamento de uma personagem central, sem indícios da presença de um narrador (discurso indireto livre), e da larga utilização da cena. A utilização deste tipo de narrador possibilitou ao autor atingir o lirismo encontrado em toda a obra. A análise dos fluxos de consciência e dos pensamentos da personagem central permitiram a realização de uma dicção intimista, sensível e verossímil, e um grande aprofundamento psíquico na construção da personagem.

Por esse foco narrativo – narrador onisciente seletivo, em detrimento ao onisciente múltiplo seletivo –, tudo o que é transmitido ao leitor é feito através das sensações, pensamentos e sentimentos da personagem central. A caracterização das demais personagens é concebida através do olhar do protagonista, ou seja, um enfoque parcial.

O conteúdo e o enredo formam também elementos fundamentais para o conto Os gestos. Osman Lins utilizou neste a mudez – uma impotência humana frente à rudez da vida, assim como outras incapacidades humanas são utilizadas nos demais contos da obra: a impossibilidade do amor, a psicose, a morte etc. –, como elemento desencadeador de novas percepções e novos sentidos, que possibilitam à personagem vislumbrar novos sentimentos – em relação à vida e a seus parentes próximos –, novas imagens e sons, e memórias antes escondidas.

A incapacidade humana explicita-se nos momentos em que André é incapaz de exprimir-se, como na cena em que contempla a paisagem pela janela no início da manhã, ou na passagem em que rasga o papel oferecido pela filha para escrever o que tencionava dizer num momento em que gesticulava freneticamente, ou na cena em que percebe a transformação da filha de menina para adolescente. Fatos que levam André a um sentimento de indignação em relação à sua condição, ou talvez em relação à condição humana em geral – a incapacidade de expressão dos sentimentos – concluindo tristemente: “‘Isso é inexprimível’, pensou. ‘E que não é? Meus gestos de hoje talvez não sejam menos expressivos que minhas palavras de antes’”. Osman Lins deixa claro que a interioridade do ser humano é quase inexprimível. Pode-se fazer algum esboço, nada mais. Isso em razão da disparidade da interioridade dos seres humanos. Seria possível essa troca de impressões somente se houvesse uma grande afinidade entre os seres, como explicitado em uma passagem de Elegíada, conto da mesma obra: “Isso eles não saberão. É íntimo demais, exige um nível de compreensão mútua demasiado grande para ser revelado. Não lhes contarei”. Ou seja, não é possível expressar um sentimento interior, mas é possível falar sobre ele, trocar-se impressões, desde que seja um sentimento comum, presente em ambos os interlocutores.

Essa impossibilidade de expressão culmina em uma situação de incompreensibilidade e isolamento entre as personagens, presente em quase todo o enredo do conto. André é despertado de sua reflexão descrita no início do conto – fluxo de consciência – com a chegada de Rodolfo, pessoa por quem André tem afeição, por sentir nele uma compreensão de sua situação interior, e por sentir nele características que se afinam com as suas, como sensibilidade, gosto pela alegria e pela liberdade. Em contrapartida, os amigos são observados pela esposa, inquieta com a presença da visita, não percebendo a simpatia entre os dois, nem a alegria do marido. Com a saída de Rodolfo inicia-se o fato mais central e desencadeador do enredo: a chuva apanha Rodolfo de surpresa na rua, e André torna-se frenético, buscando alguma forma de ajudar o amigo, e toca a sineta chamando todos da casa, que ao chegarem não compreendem suas intenções. André tem uma reação colérica ante essa incompreensão dos familiares, e as três mulheres saem do quarto confusas. André volta à reflexão, e só é despertado com a chegada de Lise para servir-lhe um lanche. A atitude carinhosa da filha o faz arrepender-se de sua anterior reação colérica, e angustiar-se por não poder pedir-lhe desculpas. Mariana entra no quarto, demonstrando suas características de distância em relação ao pai, egoísmo e vaidade – “Papai agora virou menino”, “abriu e fechou as gavetas, sem procurar coisa alguma, escrutando disfarçadamente o espelho com enlevo”. As filhas saem do quarto, e André retorna aos fluxos de consciência e fecha os olhos. Ao abri-los, depara-se com Mariana em sua frente, de costas para a janela. André inicia a contemplação do que ele chama de um momento único: “ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos”.

No parágrafo final do conto, André parece querer concluir a lição que aprendera naquela manhã. Conclui explicitamente que as sensações, impressões, sentimentos, enfim, a interioridade de cada um, não é exprimível em palavras, mas talvez em gestos. Talvez os gestos transmitam mais significado que as palavras. E por isso devam ser guardados, na memória, no coração, na alma, “Fechou os olhos, para conservar durante o maior tempo possível aquela visão”.

Fonte:
Paulo Antonio F. Gonçalves, Escritor e Pesquisador em Ciências Humanas, em Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros

Lygia Fagundes Telles (Antes do Baile Verde)


Em Antes do baile verde, conto de Lygia Fagundes Telles, uma jovem se prepara animada para o grande baile a fantasia de sua cidade, em que todos devem comparecer vestidos com roupas verdes. No quarto ao lado, seu pai doente agoniza em seus últimos minutos de vida. A jovem, movida pela vontade egoísta de se divertir num simples baile ao invés de assumir a responsabilidade inconveniente de cuidar do pai, inventa a todo momento as maiores desculpas para si mesma.

A protagonista se divide entre o dever e a culpa para com ao pai moribundo e o desejo de se divertir livremente, até sua fuga desabalada rumo ao sonhado baile de carnaval.

Personagens:

Talisa – a patroa.

Lu – a empregada.

Raimundo – namorado de Talisa.

O pai da protagonista.

Tempo / Espaço

O tempo é cronológico, a ação se passa durante um dia de carnaval. O espaço é um apartamento.

Foco narrativo

Em terceira pessoa, narrador observador.

Traços estilísticos e temáticos

Lygia Fagundes Telles faz uma radiografia moral do egoísmo e da mesquinharia humana. De um lado, o pai enfermo, do outro, a filha que só pensa em si. Na incapacidade de assumir suas falhas, ela transfere a culpa a outros fatores. Percebe-se uma nítida preocupação em tentar se justificar de tudo não só para a empregada como também para si.

À proporção que a conversa entre as duas vai se desenvolvendo, dois sentimentos tomam conta de Tatisa: a angústia com o sentimento de culpa (relacionada ao pai) e o medo (voltado para a reação do namorado caso ela se atrasasse). Nota-se que a personagem prioriza o namorado ao pai.

De estilo simples e direto, com poucas descrições, no texto predominantemente o discurso direto, com predomínio do diálogo dos personagens diante do narrador (dos 128 parágrafos que compõem o conto, 92 são falas de personagens). O papel do narrador limita-se a guiar o andamento da cena. Não entrando em detalhes acerca dos fatos ocorridos. É um flash da vida humana retirado em um de seus momentos mais angustiantes. Esta angústia é passada ao leitor ao final do conto, quando este é deixado em aberto. Isto busca uma maior interatividade com o leitor, fazendo com que ele crie várias possibilidades de finais para a estória.

Enredo

Tudo acontece no apartamento de Tatisa, que juntamente com sua empregada, Lu, preparam-se para um Baile Verde de carnaval. Ambas estão apressadas, em especial Tatisa, preocupada em chegar atrasada ao encontro de seu namorado, Raimundo. Lu vai ajudando Tatisa a terminar sua fantasia.

É nessa situação que a empregada chama a atenção da jovem para a saúde de seu pai. Disse que esteve lá (no mesmo prédio); que o pai de Tatisa estava morrendo e que seria bom que ela fosse vê-lo. No decorrer da conversa, a garota deixa transparecer seu egoísmo em total indiferença ao pai. Transfere não só a culpa disso, mas também a responsabilidade para outrem (o médico e a própria empregada).

Depois, tenta convencer a empregada de ficar com o pai naquela noite. Esta reluta a idéia alegando que não perderá o desfile de carnaval por nada. Tatisa tenta se convencer de que está tudo bem, até escutarem um gemido agonizante próximo de quando saíam do apartamento. Dirigem-se para o apartamento de seu pai , primeiro a empregada, depois ela.

Fonte:
Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em análise de conto, Estante de Livros