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Pepetela (O Planalto e a Estepe – resumo da obra)

O livro começa com o narrador, Júlio, descrevendo onde nasceu (Huíla, sul de Angola), sua família e os tempos da escola. Quando menino, brincava com as outras crianças das redondezas, sendo amigo também dos filhos dos servos, que eram negros. Sua irmã, Olga, que declarava não gostar de negros (provavelmente no início por ter ouvido os adultos falando isso), alertou Júlio para não andar com os negros, mas para ele todos eram iguais. Mais tarde, porém, ele vai descobrir que há o racismo.

O pai de Júlio, que não teve como estudar, fazia de tudo para que o filho conseguisse frequentar a escola e se tornar doutor – qualquer tipo de doutor, contanto que seja um. Não poupava esforços para comprar livros e roupas novas para ele frequentar a escola, mas Júlio deveria ter boas notas, o que ele sempre teve. Quando se formou na escola com ótimo rendimento, Júlio conseguiu uma bolsa de estudos e foi estudar para Coimbra, Portugal. 

Em Coimbra, ingressou no curso de Medicina, mas logo percebeu que aquilo não era o que ele queria fazer. Logo Júlio se aproximou dos outros estudantes africanos que pensavam do mesmo modo que ele e foram morar juntos. Após perder a bolsa de estudos por mal rendimento no curso, resolve partir para o Marrocos junto com mais uns amigos para participar da revolução. Lá chegando, o grupo foi dividido: enquanto os mais escuros iam lutar, os mais claros iriam estudar na Europa. Júlio se sente desiludido e humilhado. É mandado, então, para estudar em Moscovo (Moscou, na Rússia) e lá resolve cursar Economia.

Em Moscovo, o grupo dos angolanos era guiado, e também vigiado, por uma mulher chamada Olga. Ela era quase como uma mãe para eles e se entusiasmava com os avanços de Júlio na língua russa. Por ser branco e de olhos azuis, muitos europeus não se aproximavam muito de Júlio e tinham dúvidas quantos às verdadeiras intenções dele. Mais uma vez, logo tornou-se amigo de outros africanos: o congolês Jean-Michel, o senegalês Moussa e o tanzaniano Salim. Os quatro logo fizeram sua primeira revolução no local: insatisfeitos com seus companheiros de quarto, conseguiram convencer o diretor a mudarem de quarto para os quatro ficarem juntos. Como Moussa e Salim eram muçulmanos e rezavam várias vezes ao dia, ficou acertado que eles ficariam em um quarto e Jean-Michel e Júlio em outro.

Após serem aprovados na língua russa, puderam ingressar na universidade: Jean-Michel e Júlio em Economia, Salim em Agronomia e Moussa em Engenharia. Embora estudando em locais diferentes, os quatro continuaram a se encontrar com frequência. Já Júlio e Jean-Michel continuaram a morar juntos e tornaram-se ainda mais amigos.

Os dois tinham as mesmas aulas e discutiam bastante sobre as coisas aprendidas na universidade. Enquanto Jean-Michel parecia aceitar passivamente tudo o que lhe era ensinado, Júlio tinha diversas dúvidas se tudo aquilo era ou não verdade ou válido. Porém, um dia conversando em um parque da cidade, Jean-Michel confessa também ter diversas divergências e críticas sobre o que é ensinado a eles, mas diz fingir que aceita tudo passivamente porque estão sendo vigiados o tempo todo. Além disso, alerta Júlio a tomar mais cuidado com o que fala. Nesse ponto, o narrador conta o que acontece com Jean-Michel no futuro: após terminar o curso, ele retorna a Brassaville e logo arranja emprego no gabinete de um ministro, subindo de cargo rapidamente até se tornar o chefe máximo da Juventude do Partido. 

Porém, ele havia perdido suas convicções no socialismo, pois todos só pensavam em mulheres e carros, “já que enriquecer é difícil em terra tão pobre”. Por fim, ele se mete em uma tentativa de revolução e é morto.

Quando Júlio estava no segundo ano do curso, uma aluna mongol chamada Sarangerel transfere-se para sua sala. Os dois tornam-se amigos e logo acabam começando um relacionamento amoroso. Um dia ela revela ser filha de um ministro da Mongólia, um dos homens mais importantes de seu país, e por isso pede segredo sobre o relacionamento dos dois. No fim desse ano Sarangerel vai passar as férias em sua terra natal e, ao voltar, os dois percebem que não conseguem ficar longe um do outro.

Jean-Michel já dá sinais de saber que Júlio tem uma namorada, mas não pergunta nada ao amigo e mantêm discrição. Porém, a companheira de quarto de Sarangerel, Erdene, insiste cada vez mais para saber o porquê dos atrasos da amiga e o que mais está acontecendo. 

Um dia, Sarangerel diz estar grávida e Júlio, sem medir as consequências, fica muito feliz. Os dois não queriam que ela abortasse, e Júlio diz que iriam se casar. Porém, Sarangerel diz que a escolha era dela também e que não era para ser nada imposto por ele assim. Ela conta tudo o que estava acontecendo para Erdene, que fica enlouquecida e revela ser uma guarda-costas de Sarangerel. Erdene conta ainda que o pai dela já está informado que ela tem um namorado não mongol e que ela só voltou das férias porque sua mãe queria que a filha se formasse. Erdene temia ser punida caso o pai de Sarangerel descobrisse que sua filha está grávida, e por isso pressiona a moça por uma solução.

Porém, Júlio e Sarangerel não querem o aborto e empreendem uma luta para se casarem. Ele mobiliza os alunos africanos e diversos outros amigos, que viam a criança como símbolo da união dos povos, um exemplo para o futuro. Pedem ajuda para Olga, mas essa nega, pois não quer fazer nada que possa causar uma crise entre dois governos aliados. Nesse ponto, o pai de Sorangerel já deve estar sabendo de tudo, pois Erdene foi até a embaixada e deve ter contado tudo antes que a KGB o fizesse. Júlio e seu grupo vão até a embaixada da Mongólia tentar achar uma solução, mas nem conseguem entrar. Ninguém queria ajuda-los e arriscar seus empregos ou mesmo causar uma crise internacional por conta disso.

A mãe de Sarangerel vai até Moscovo para tentar convencer a filha a abortar ir para Leningrado terminar seus estudos, mas não obtém sucesso em seu intento. No dia em que ela volta para a Mongólia, Júlio e Sarangerel passam a noite juntos na casa da moça. No outro dia, ela some e Júlio fica sabendo por Nara, uma amiga dela, que Sarangerel havia sido levada à força para a Mongólia. A partir daí, ele tenta de todas as forças entrar em contato com ela, mas não consegue. Depois de um tempo, Nara vai passar as férias na Mongólia e conta que Sarangerel deu luz a uma menina.

Júlio e seus amigos se formam e cada um tem um destino diferente. Júlio é mandando para ajudar na revolução na Argélia. Lá, chega a envolver-se com uma moça, mas a relação não dura muito. Ele aos poucos vai subindo de cargo devido a sua competência e dedicação ao trabalho, chegando a comandar um grupo de homens. Em certo momento, Júlio consegue um passaporte argelino para ir até a Mongólia, mas chegando lá ele é recebido por oficiais que o escoltam até o local onde hospedaria. Crente de que iria conseguir uma reunião com o pai de Sarangerel, ele espera. No dia seguinte, é levado para ver sua filha, mas os oficiais mantém Júlio preso dentro do carro e ele só consegue ver as costas da menina. De lá, é mandado direto para o aeroporto para pegar um avião para a Argélia.

Chega a independência, mas os países caem em guerra civil, uma vez que os colonizadores não queriam abrir mão do poder. Cerca de dez anos após a independência de Angola, Júlio é chamado para Lubango e reencontra sua terra-natal e família. Sua irmã Olga, antes racista, agora era nacionalista e defendia a igualdade entre todos. Júlio, que havia lutado na revolução, tornou-se seu herói e exemplo para os demais.

Em Luanda, Júlio logo tornou-se general e usou de sua posição privilegiada para tentar contato com a Mongólia. Todos prometiam ajuda, mas de nada adiantava. Júlio continuava a trabalhar como economista em Angola e tentava elaborar projetos efetivos de paz e progresso para o país. Sem nunca desistir de Sarangerel, o tempo foi passando. Após se reformar das forças militares, continuou trabalhando em uma empresa criada por um amigo seu. Assim, apesar de não ter ficado rico, tinha suas mordomias.

Um dia, sua amiga Esmeralda, que o havia ajudado em Moscovo para que ele e Sarangerel ficassem juntos, vai à Cuba e volta dizendo que encontrou Sarangerel lá. Que ela havia se casado e que sua filha, chamada Altan (significa ouro), estava casada e tinha filhos. Júlio fica atônito e resolve ir até Cuba. Consegue entrar para uma comitiva militar que iria à Cuba no mês seguinte.

Chegando em Havana, consegue tempo para visitar Sarangerel e os dois conversam pela primeira vez em 35 anos. Ela conta que teve dois filhos com seu marido e que esse queria conhecer Júlio. É marcado, então, um almoço para o outro dia. Nesse encontro, tudo ocorre amigavelmente e todos apenas conversam sobre política. De volta ao hotel, Júlio é surpreendido por um telefonema de Sarangerel, dizendo para ele arrumar um visto para ela que ela irá para a Angola viver com ele.

De volta a seu país, Júlio prepara sua casa para receber Sarangerel enquanto o visto fica pronto. Durante esse tempo, ela convence o marido a conceder o divórcio amigavelmente e também conta a seus filhos sua decisão. Algum tempo depois de chegar em Angola, Sarangerel diz que Altan quer conhecer Júlio e eles planejam uma viagem para Itália e toda a família se encontra lá. Altan fica feliz pelos dois pais que tem.

O casal volta para Angola e a vida passam a curtir os dias juntos, uma vez que Júlio decide sair do emprego. Algum tempo depois, Altan e seus irmãos vão conhecer a Angola e ficam encantados com as paisagens do lugar, mas também não deixam de mostrar espanto com a miséria da população.

Certo dia, Júlio resolve ir ao médico para descobrir o motivo de suas fortes dores nas costas. Após os exames, o médico o informa de que ele tem um câncer avançado e não dá muitas esperanças de cura. Júlio mantém isso em segredo de todos e Sarangerel só descobre tudo quando ele é levado ao hospital após uma crise. Altan novamente vai a Angola para despedir-se de seu pai. Júlio morre feliz após passar quatro anos ao lado de sua amada. Portanto, descobre-se ao final do livro que trata-se de um relato póstumo do narrador.

Lista de personagens

Júlio: angolano. decide tudo por instinto, sendo muitas vezes irracional e teimoso. 
Sarangerel: é uma mongol socialista que se transfere para a escola de Júlio no 2o ano. É filha do Ministro da Defesa da Mongólia, um dos homens mais importantes de seu país, mas é simples, modesta e meiga.
Jean-Michel: natural da República do Congo, tem grandes ideais fraternos. Para ele, as ideias socialistas não existem. É morto por ser herético.
Erdene: guarda-costas de Sarangerel, informa todos os passos da moça. Tenta encobrir o romance dela, mas fica com medo de ser punida.
Moussa: senegalês muçulmano, é um aristocrata.
Salim: natural da Tanzânia, é mulçumano. 
Olga: irmã de Júlio, inicialmente é racista, mas depois torna-se uma grande líder nacionalista e luta contra o racismo. Espécie de guia e vigia dos estudantes angolanos em Moscovo.

Sobre Pepetela

Artur Carlos Murício Pestana dos Santos, conhecido por Pepetela, nasceu em 29 de outubro de 1941 na cidade de Benguela, Angola. Seus pais eram angolanos de nascimento, mas descendentes de uma família colonial portuguesa. Começa seus estudos em sua terra natal, mas em 1956 muda-se para Lubango e termina seus estudos lá. Posteriormente, vai para Lisboa cursar o Instituto Superior Técnico. Em 1960 ingressa no curso de engenharia, mas muda logo em seguida para Letras, que também abandona para ingressar no Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) em 1963.

Durante sua época de militante político, Pepetela fugiu para Paris e depois se estabeleceu em Argel, capital da Argélia. Lá trabalhou no Centro de Estudos Angolanos com Henrique Abranches fazendo uma documentação da sociedade e cultura angolanas, além de divulgar as atividades da MPLA pelo mundo. Nesse tempo ele escreve seu primeiro romance, “Muana Puó”, obra que só decide publicar em 1978. Depois da mudança do Centro de Estudos Angolanos para a República do Congo em 1969, Pepetela ingressa na luta armada contra os portugueses, experiência que lhe serviu como inspiração para a obra “Mayombe” (1980), que também só foi publicado após a independência de Portugal.

Com a independência de Angola conquistada em 1975, Pepetela retorna para seu país de origem e torna-se Vice-Ministro da Educação no governo do Presidente Agostinho Neto. O escritor fica no cargo até 1982, quando abandona a carreira política para se dedicar à literatura. Durante essa época, ele encontra apoio do presidente para lançar seus livros.

Em 1984, Pepetela lança um de seus romances mais prestigiados, “Yaka”, romance histórico que trata da vida dos membros de uma família de colonizadores portugueses que vão para Benguela no século XIX. Durante as décadas de 1980 e 1990, continua a publicar diversas outras obras onde Angola é o centro de suas atenções. Em 1997, recebe o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário de língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra.

Durante os anos 2000 o escritor continua com uma intensa carreira literária, publicando livros que tratam da influência norte-americana em Angola, terrorismo e outros temais atuais. 

Suas principais obras são: “Muana puó” (1978), “As aventuras de Ngunga” (1979), “Mayombe” (1980), “Yaka” (1985), “A geração da utopia” (1992), “Parábola do cágado velho” (1996), “A gloriosa família” (1997), “Jaime Bunda, Agente Secreto” (2001) e “Jaime Bunda e a Morte do Americano” (2003)

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Saudade em Trovas – Ana Rolão Preto (Angola)

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23 de janeiro de 2013 · 23:46

Amélia Dalomba (Poesia Sem Fronteiras)


A CANÇÃO DO SILÊNCIO

A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo

O olhar de uma santa de barro

A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel

A canção do silêncio
NA MILÉSIMA DE TEMPO

A inversão do mundo nos cabelos do infinito
Uma lua apagada de prazer
A razão é um jardim florido pela ilusão
Na milésima de tempo de uma entrega

FRASES FEITAS

Difícil é cantar comum pensamento
Sombras em frases feitas onde nada é tão antigo
Como chegar e partir

HERANÇA DE MORTE

Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança

MÃOS 

Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero

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Amélia Dalomba (1961)

Poetisa e jornalista angolana, Amélia Dalomba, nome literário de Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral (Tichinha), nasceu no dia 23 de Novembro de 1961, no enclave de Cabinda, no Norte de Angola. 

Formou-se em Psicologia em Moscou. De volta à terra natal, trabalhou como jornalista, atuando na Emissora Provincial de Cabinda, na Rádio Nacional de Angola e nos jornais A Célula Jornal de Angola, em Luanda.

Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.

Foi também secretária da Missão Internacionalista Angolana em São Tomé e Príncipe.

É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.

Membro da União de Escritores Angolanos (UEA), tendo já ocupado diversos cargos diretivos.

Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a “Geração das Incertezas”, ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Tal tendência ou corrente manifesta-se através de um ostensivo tratamento estético da relação que se estebelece entre o homem e a mulher. Nota-se o recurso a um despojamento vocabular denso do ponto de vista semântico, resultando daí aquilo a que poderia denominar uma poética corporal.

Como a obra dos restantes poetas desta geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no “panfletarismo ideológico” que, muitas vezes, nega a qualidade estética.

Com uma presença recorrente ao longo da sua obra poética, o Mar surge como um espelho que recebe e devolve as críticas amarguradas dum sujeito poético revoltado, assumindo-se, assim, como uma testemunha que, incapaz de calar a verdade, também se revolta, ativamente contra o contexto sócio-político do seu país. 

Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um “eu lírico” desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à raiva, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.

A poesia de Dalomba, angustiada e melancólica, expressa desilusão diante do cenário político e social angolano.

Obras publicadas
– Ânsia, Poesia (1995, editora da UEA)
– Sacrossanto Refúgio (1996, editora Edipress)
– Espigas do Sahel (2004, editora Kilomlombe)
– Noites Ditas à Chuva (2005, editora da UEA)
– Sinal de Mãe nas Estrelas (2007, Zian Editora)
– Aos Teus Pés Quanto Baloiça o Vento (2008, Zian Editora)
– Cacimbo 2000 (2000, editora Patrick Houdin-Alliance Française de Luanda)
– Nsinga – O Mar no Signo do Laço (2012, Mayamba)
– Uma mulher ao relento (2011, Nandyala Editora)

CD
– Verso Prece e Canto (2008, editora N’Gola Música)

Participações em antologias
– Antologia da Poesia Feminina dos Palop (1998, org. Xosé Lois Garcia)
– Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX Angola (2000, org. Cármen Lúcia Tindó)
– O Amor tem Asas de Ouro (2006, UEA).
– Antologia da Moderna Poesia Angolana (2006, UEA, org. Botelho de Vasconcelos)
– Meu Céu, Céu de todos, Céu de Cada Um (2006, Editora Zian, org. Renan Medeiros

Fontes:
– Amélia Dalomba. In Infopédia.  Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-12-20]. Disponível em < http://www.infopedia.pt/$amelia-dalomba&gt;.

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Ana Paula Lavado (Poemas Avulsos)

VOZES DO VENTO

Quando te disse
Que era da terra selvagem
Do vento azul
E das praias morenas…
Do arco-íris das mil cores
Do Sol com fruta madura
E das madrugadas serenas….

Das cubatas e musseques
Das palmeiras com dendém
Das picadas com poeira
Da mandioca e fuba também…

Das mangas e fruta pinha
Do vermelho do café
Dos maboques e tamarindos
Dos cocos, do ai u’é…

Das praças no chão estendidas
Com missangas de mil cores
Os panos do Congo e os kimonos
Os aromas, os odores…

Dos chinelos no chão quente
Do andar descontraído
Da cerveja ao fim da tarde
Com o Sol adormecido…

Dos merenges e do batuque
Dos muquixes e dos mupungos
Dos imbondeiros e das gajajas
Da macanha e dos maiungos.

Da cana doce e do mamão
Da papaia e do caju…

Tu sorriste e sussurraste
“Sou da mesma terra que tu!”

“NENHUM VERSO…”

Nenhum verso fala de mim
 nem do que eu penso
 nem do que eu sinto
 nem do que eu sou.

Na realidade,
 as palavras são apenas
 um jogo de letras
 mais ou menos cinzelado
 ao gosto de cada um.
 E poucos, muito poucos
 fazem delas seres vivos e humanos.

Eu não lhes dou vida.
 Trabalho-as com mais ou menos nexo
 ou talvez sem nexo,
 porque dele não sinto falta
 nem faz falta o que sou!

“CÁLICE DE PORTO”

Hoje já não pergunto porque não voltas.
 Apresso-me apenas para chegar a destino nenhum
 e apagar as luzes que te vestiram.
 Depois permaneço deste lado do palco. Este lado
 que se mantém inalterável e escuro, onde a vida
 não é mais que um reflexo isento de espelhos.
 Quisera ter-te… mas não passei de um adereço
 dispensável na representação.
 Resta-me apenas o cenário onde ainda te revejo
 e vou confundindo a realidade para que o sonho
 não se suicide.
 De alma nua, amo apenas o mar que nos uniu
 e odeio a mar que nos afastou.

Havíamos ficado, noites inteiras depois de um brinde
 onde juramos eternidade. Perdidos no riso
 ou exaustos na paixão, deixamos vazios, todos os cálices
 daquele Porto que escolhias por amor.
 As horas morriam no silêncio dos nossos corpos
 emudecidos de prazer, numa cama
 que ficou gravada pelas nossas mãos.

Se a morte chegasse, pediria apenas um cálice
 de Porto dourado. E morreria bebendo cada beijo teu!

À NOITE…PARA TI

Rendi-me ao encanto da noite e olhei-te.
Como se olha uma aguarela pintada nas cores do oceano,
deixei que a minha vontade se pintasse na mesma cor.
Esqueci os segredos,
troquei as memórias por um pedaço de mar
e sonhei-te. Sonhei-te nas palavras
de um sonho ainda por escrever,
e deixei que a dança me levasse, esquecendo
que quando a lua adormece
todos os sonhos podem acabar.
Desprendi os gestos, soltei a atitude
e reinventei cada pedaço de mim
para que as palavras não se esgotassem no tempo .
E aos primeiros raios de sol, fechei os olhos
e prolonguei o sonho,
sucumbindo a cada lembrança de um beijo teu.

MOMENTO

A cada momento a vida surpreende-me
e atraiçoa-me as forças.
Não é justo.
Até as palavras deixam de ter atitude
e o sentido passa a ser por conta de outrem.
Acendi a luz do candeeiro de pé
mas as paredes continuaram vazias.
Um silêncio ensurdecedor, arrepiante.
Quisera ouvir a tua voz…
mas até a memória me atraiçoa!

ALI O VERDE É MAIS VERDE

Ali o verde cheira a verde
Ali tudo é verde
O ar cheira a verde
O Arco-íris é verde
Em tantos tons de verde
Que até o Sol seria verde

Fontes:
http://www.minhaangola.org/#/ana-paula-lavado/4538290896
http://www.estudioraposa.com/index.php/category/poetas/ana-paula-lavado/
http://ferrao.org/2008/04/ana-paula-lavado-vozes-ao-vento.html

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Ana Paula Lavado (1960)

Ana Paula Lavado Pereira, nasceu em Angola a 19 de Julho de 1960.

1979 – 1980  – Pelo Instituto Superior do Serviço Social do Porto, Porto fez formação com a
 designação da qualificação atribuída ao Ano Propedêutico (12º ano).

1979 -1981 – Formação no Instituto Britânico do Porto – Delegação de Barcelos, com a qualificação de frequência do 1º ano

1982 – Formação no IEFP (Biblioteca Municipal de Barcelos), concluindo o 3º ano. 

1982 – 1992 – “Sócia Gerente de Empresa Têxtil” na empresa Ana Paula & Lopes, Lda, Barcelos

De 1993 -1995 – Cargo de “Diretora Técnica”, com responsabilidade pelo setor produtivo e qualidade, na área de alojamento e restauração, empresa Anjal Lda, Mangualde

1995 – 1998 – Área da Restauração, desempenhando o cargo de “Gerente de Restauração” com responsabilidade por todo o funcionamento da unidade empregadora de Cardosos Lda, Esposende.

1998 –2000 – Estágio profissional na Biblioteca do Porto na área de “Técnica de Restauro e encadernação, nível 3”.

05/2004 –  07/2004 fez formação na IEFP, Viana do Castelo, tendo sido conferida a qualificação pedagógica para dar formação.

2007 – 2009 – Restauro e Encadernação de livros e documentos, exercendo o cargo de “ Técnica de Restauro” na empresa Ana Paula Lavado Pereira, Esposende.

Publicação de dois livros de Poesia:
– «Vozes do Vento» em 2007
– «Um Beijo… Sem Nome» em 2008

NOTA BIOGRÁFICA DA POETA

Arredondou a barriga da mãe no ano de 1960.
O sol de Angola brilhou à sua chegada.
Já roida pela saudade veio para Portugal.
Como muitos… como muitos…
Deambulou, buscando poiso.
Encontrou-o no local onde o Cávado enche a barriga do mar.
Em Esposende amou, teve 4 filhos e maturou as palavras.
Perdeu… cresceu… chegou à idade da madureza.
Em 2007 lançou “Vozes do Vento”.
Talvez atordoada com as rajadas do vento norte,
Encantada pela suave modorra das águas prateadas do rio,
Dois mil e oito aparece-nos com as palavras aguareladas pelo Henrique do Vale
em “Um Beijo… Sem Nome”.
Esta Mulher,
Mãe,
Amante,
Poeta,
é
Ana Paula Lavado

Fonte:

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Pombal Maria (Poemas)

TELEFONEMA DAS ESTRELAS

uma árvore telefonou
para as águas da minha faminta poesia
os ramos falaram do círculo d’água
de uma gota de orvalho onde vivem elefantes

uma árvore telefonou
para o rio da minha mal/ aventurada poesia
 as paredes ouviram o cicio
do mar que se escondia na linha do vento lavrado

os espelhos viram os peixes famintos
das águas da minha enferma poesia
i o vidro do dia tossia no nariz das colmeias
aue ferem as vitrinas do céu rasteiro

era o véu visceral da copa
das árvores que constroem verbos estranhos
na janela da minha cega poesia
era o voo suicida das andorinhas sem asas

SONHO FERIDO

 trago as asas
da ave do sonho ferido

arrastando-se
a noite pelo coração do silêncio

onde caem
palavras engripadas/frescas
ceifadas

pêlos lenhadores da ave
do sonho ferido

PALAVRAS ENGRIPADAS

pinto
as janelas da noite
com palavras constipadas
que vou tossindo

no Cancro do dia
cimento
que pisa i alisa

as minhas raízes em todo subsolo aéreo

Fonte:
Pombal Maria. Asas do Sonho Ferido. (Poemas). Luanda, Angola: União dos Escritores Angolanos, s.d.

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