Arquivo da categoria: Artigos

Nilto Maciel (Valéria Eik e os Atalhos da Narrativa)

Muitos são os contistas e poetas que mantinham engavetados (ou, melhor dizendo, arquivados em computador) seus escritos e, estimulados por leitores de sites e blogs (também escritores em potencial), resolveram publicar o primeiro livro. Alguns não vêm de muitas leituras, de muitos exercícios de escrita, ou leram e leem, apressadamente, tudo o que lhes aparece diante dos olhos, desde piadinhas e os chamados “contos eróticos” até clássicos da literatura universal. Leituras açodadas, sem anotações, sem consulta a dicionários, etc. A maioria desses novos escritores segue uma linha, um roteiro, uma estrada larga e longa, certos de que lhes espera a fama, a glória. Não conhecem as veredas, os atalhos, as pedras no meio do caminho, os córregos escondidos na mata. Muito menos os subterrâneos e os céus. Vão em procissão ou atrás do trio elétrico. Todos juntos, unidos, de mãos dadas. Seguem o padre, o pastor, o caminhão do som. Cantam o mesmo refrão. Estão na folia de reis ou na folia do carnaval. São foliões.

                  Poucos desses contistas e poetas novos vêm da leitura dos contos de fadas, dos poetas românticos, parnasianos e simbolistas, dos romancistas russos e franceses do século XIX, dos rabiscos na adolescência, dos primeiros versos na juventude, dos arremedos de contos e romances ao tempo da escola e da faculdade. Poucos se vão fazendo escritores. Sabem que não nascemos feitos, prontos. Muito menos que esse “estar pronto” (ou quase pronto) não se dá num passe de mágica. Assim parece ser Valéria Eik.

                  Suas narrativas apresentadas neste volume de estreia são de linguagem simples, coloquial, de roupagem comum. Obedecem a estética da história linear, sem volteios, sem malabarismos, sem lacunas. “A grande paixão” é ambientada no campo. Embora não haja referência a nomes de lugares, sabe o leitor que o drama se passa no Sul do país: o frio, o gelo, a geada. Apenas duas pessoas: José e Maria, um casal de velhos. E um drama: a geada, a morte do cafezal, e, por consequência, a morte do homem. “Fogos fátuos” segue a mesma linha, com um quê de romantismo: as perdas, a solidão, a morte. Nele o tempo é dilatado ou se reparte em várias unidades.

                   Há ainda os chamados contos de costumes, como “Se é semente, vai germinar”, em que o tema da violência doméstica é ressaltado. 

 Outras obras se abeiram da crônica ou do poema em prosa. Em “Travessia” o protagonista é um velho cão a atravessar uma rua. Narrativa urbana: avenidas, trânsito de carros, pressa. “Estrelas mortas” é poético em sua trama esgarçada. “Por breves instantes” igualmente se assemelha a poema. “Memórias” mostra o conflito interior da protagonista Ana, a debater-se com as lembranças de uma caçada de gato a passarinho, numa noite remota, talvez da infância. “O nascimento de mais um cronópio” é também diferente, isto é, foge aos modelos do conto tradicional, da história com enredo. Homenagem a Cortázar, numa peça ficcional parabólica, metafórica, de seres fictícios etéreos.

                   Há ainda aqueles constituídos de uma só fala, como se vê em “Afasta de mim este cálice” e “Almas”. Apenas uma lamentação, um monólogo, sem enredo, sem trama.

 Valéria Eik demonstra nítida preocupação com os problemas sociais e, assim, se esmera na elaboração da chamada narrativa de costumes, tão cara aos realistas. “Funeral de primeira” é um retrato dessas cenas domésticas ou de família, como a morte e o enterro do velho patriarca avarento. Em “O fruto indigesto” o tema é o da gravidez indesejada, seguida de aborto. “Prosperidade” narra costumes do interior, das pequenas cidades, com seus personagens típicos: o padre (a hipocrisia), o político, etc. Em “Quebrando a rotina”, outra história de personagem, se revela a avareza de Gastão (nome famoso de programa cômico da televisão) e o sofrimento de Elisa, sua mulher. “Um menino chamado Jesus” trás à tona a questão do machismo. Vida dura de carroceiro, no campo. Diversos segmentos temporais e episódios em cadeia. “Uma versão da verdade” tem por assunto o estupro seguido de morte. A estrutura da narrativa lembra os moldes dos românticos, de um lado, e dos realistas/naturalistas, de outro.

 A solidão, a velhice e a morte são, pois, assuntos caros a Valéria. Em “Sentença irrevogável” a morte é tratada de maneira natural. Assim como a fragilidade humana, a finidade: o paletó elegante do morto, o caixão, o fim. Pode ser lido também como história de horror: ser enterrado vivo. “Aconchego”, constituído de diversas unidades de tempo, conta a vida de um velho. Não apenas a vida, mas a solidão da velhice. O abandono em vida pelos filhos e pela mulher. Essa tendência para dilatar o tempo da ação se mostra ainda em outras peças, como em “Moleca”, desenvolvida em tempo histórico longo. A moleca Antônia, desde menina até a morte, na velhice, e seu marido Justo. Diversos dramas menores, em cadeia, como num romance. Essa semelhança com a estrutura do gênero literário preferido de Balzac aparece ainda em “O pó da terra”.

                   Mas nem só de solidão e morte vivem as pessoas fictícias de Valéria Eik. O amor está presente em muitas de suas narrativas. O singelo “Entardecer” nos remete à vida de pescador. “Notícias” apresenta cena doméstica: mulher sozinha, um carteiro que se anuncia, uma carta, as lembranças de um amor perdido. Trama ingênua, em que o conflito interno se instala de repente. Ao leitor cabe completar o drama: Quem seria o outro? Que história teriam vivido ele e a mulher solitária? Em “O circo” o amor é dos tempos de criança. Um circo se assenta numa cidadezinha. Uma menina se apaixona pelo galã. Como se espera, vem a decepção da garota, ao ver o circo ir embora. E, finalmente, “Por amor”, a melhor peça do volume, pela densidade, pela aspereza do narrador, pela beleza que emana da própria narração. Conto urbano, social – pungente e cruel, como a vida. 

                  Valéria Eik certamente não espera fama e glória. Resta-lhe seguir pelos múltiplos caminhos da literatura, livrando-se da comodidade da reta e buscando os atalhos, que são inúmeros. 

                        Fortaleza, abril de 2007.

Fontes:
Foto: Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Sopa de Letras

Revista Guavira Letras (Recebimento de Artigos e Resenhas)

A Revista Guavira Letras, do Mestrado em Letras da UFMS, está recebendo artigos e resenhas para suas próximas edições.

Regulamento:

As edições de 2013 da Revista GUAVIRA LETRAS, do Mestrado em Letras da UFMS, estão assim programadas:

· ed. 16, área de Estudos Linguísticos, fechamento para colaborações em 6 de maio de 2013

Tema: Sujeito, Identidade e Exclusão

Organizadores:
Profa. Dra. Celina Aparecida Garcia de Souza Nascimento (UFMS)
Profa. Dra. Maria José Coracini (UNICAMP)

· ed. 17, área de Estudos Literários, fechamento para colaborações em 7 de outubro de 2013.
Tema: Acervos Literários e Fortuna Crítica

Organizadores:
Profa. Dra. Clara Ávila Ornellas (UFMS)
Profa. Dra. Vania Pinheiro Chaves (Universidade de Lisboa)

A Guavira Letras publica, além do Dossiê, seção com artigos de tema livre e seção de resenhas de obras lançadas nos últimos três anos.

As ementas dos Dossiês serão divulgadas em breve.

As normas para submissão seguem abaixo.

Solicitamos divulgação.
GUAVIRA LETRAS

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

1 – Arquivo apenas em extensão DOC.

2 – Os artigos deverão ter no mínimo 10 (dez) e no máximo 20 (vinte) páginas e as resenhas no mínimo de 03 (três) e no máximo de 08 (oito) páginas, respeitando-se a seguinte configuração, em papel A4: 1,25cm de margem para parágrafo, com margens esquerda e superior de 3,0cm e direita e inferior de 2,0cm, sem numeração de páginas.

3 – Os trabalhos de pós-graduandos, assim como os de Mestres e Doutores sem vínculo com instituições de ensino e pesquisa, só serão aceitos se apresentados em co-autoria com o Prof. Orientador.

4 – Os artigos, entrevistas ou resenhas devem ser enviados para o e-mail guavira.cptl@ufms.br, com cópia para o e-mail guavira@posgraduacaoletras.com.br, até o dia 15 de outubro de 2012, em programa Word for Windows 6.0 ou compatível, em um arquivo com o título do trabalho e com identificação do proponente e um arquivo com o título do trabalho e sem identificação do proponente.

5 – O Conselho Consultivo, ao qual serão submetidos os textos, poderá sugerir ao autor modificações de estrutura e de conteúdo. Serão devolvidos para correção os trabalhos para as modificações. Nenhuma modificação de conteúdo ou estilo será feita sem o prévio consentimento do autor. É do autor a inteira responsabilidade pelo conteúdo do material enviado.

6 – Os artigos deverão ter a seguinte estrutura:

6.1 – Elementos pré-textuais:

· Título e subtítulo: na primeira linha, centralizados, negrito. Fonte: Times New Roman, corpo 13, somente a primeira letra em maiúscula em ambos.

· Nome do(s) autor(es): duas linhas abaixo do título, alinhado à direita, com o último sobrenome em maiúscula. Chamar para nota de rodapé, onde deve informar: Sigla – Universidade. Faculdade/Instituto – Departamento. Cidade – Estado – País. CEP – e-mail.

· RESUMO: três linhas abaixo do nome do autor; em português. Colocar a palavra RESUMO em caixa alta, alinhado à esquerda, sem adentramento e seguida de dois pontos. Redigir o texto em parágrafo único, espaço simples, justificado, de, no mínimo, 150 palavras e, no máximo, 200. Fonte: Times New Roman, corpo 10, para todo o resumo. O resumo do artigo deve indicar objetivos, referencial teórico utilizado, resultados obtidos e conclusão.

· PALAVRAS-CHAVE: em número de 3 (três) a 5 (cinco), duas linhas abaixo do resumo, alinhado à esquerda, sem adentramento, em itálico e caixa alta. Fonte: Times New Roman, corpo 10. Cada palavra-chave somente com primeira letra maiúscula, separada por ponto. Para maior facilidade de localização do trabalho em consultas bibliográficas, o Conselho Editorial sugere que as palavras-chave correspondam a conceitos mais gerais da área do trabalho.

6.2 – Elementos textuais:

· Texto: O corpo do texto inicia-se duas linhas abaixo das palavras-chave.

· Fonte: Times New Roman, corpo 12, alinhamento justificado ao longo de todo o texto.

· Espaçamento: simples entre linhas e parágrafos, duplo entre partes do texto (tabelas, ilustrações, citações em destaque, etc.).

· Citações: no corpo do texto, serão de até 3 (três) linhas, entre aspas duplas. Fonte: Times New Roman, corpo 12. Quando maiores do que 3 (três) linhas, devem ser destacadas fora do corpo do texto. Fonte: Times New Roman, corpo 10, em espaço simples, com recuo de 4cm à esquerda. Todas as referências das citações ou menções a outros textos deverão ser indicadas, após a citação, com as seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor em caixa alta, vírgula, ano da publicação, abreviatura de página e o número desta. Exemplo: (CANDIDO, 1976, p. 73-88) (NBR 10520/03).

· Evitar a utilização de idem ou ibidem e Cf. Quando utilizar apud, colocar as mesmas informações solicitadas para o autor do texto da qual a citação foi retirada. Exemplo: (BOSI, 2003, p. 1-10 apud SILVA, 1998, p. 23). Informar em rodapé os dados da obra citada de segunda mão e colocar somente as obras consultadas diretamente nas Referências.

· Notas explicativas: se necessárias, devem ser colocadas no rodapé da página de ocorrência, numeradas sequencialmente, com algarismos arábicos, fonte Times New Roman, corpo 10, justificadas, mantendo espaço simples dentro da nota e entre as notas, no decorrer do texto.

· Títulos e subtítulos das seções: Referenciados a critério do autor, devem estar alinhados à esquerda, sem adentramento, em negrito, sem numeração, inclusive Introdução, Conclusão, Referências e elementos pós-textuais, com maiúscula somente para a primeira palavra da seção, fonte: Times New Roman, corpo 12.

· Elementos ilustrativos: tabelas, figuras, fotos, etc., devem ser inseridas no texto, logo após serem citadas, contendo a devida explicação na parte inferior da mesma, numeradas sequencialmente. Serão referidas, no corpo do texto, de forma abreviada. Exemplo: Fig. 1. Fig. 2, etc.

6.3 – Elementos pós-textuais:

Colocados logo após o término do artigo.

· Título: em inglês, centralizado, em itálico e caixa alta. Inserido duas linhas abaixo do final do texto. Recomenda-se procurar revisão por um especialista em língua inglesa.

· ABSTRACT: Duas linhas abaixo do título. Colocar a palavra ABSTRACT, alinhada à esquerda, sem adentramento, em itálico e caixa alta, fonte Times New Roman, corpo 10 para todo o texto, seguida de dois pontos. Texto em parágrafo único, espaço simples e justificado. Recomenda-se procurar revisão por um especialista em língua inglesa.

· KEYWORDS: em número de 3 (três) a 5 (cinco), duas linhas abaixo do abstract, em inglês, alinhado à esquerda, sem adentramento, em itálico e caixa alta. Colocar o termo Keywords em caixa baixa. Fonte: Times New Roman, corpo 10, somente com primeira letra maiúscula, separada por ponto. Recomenda-se procurar revisão por um especialista em língua inglesa.

· Referências: seguir as normas da ABNT em uso (NBR-6023/02). Duas linhas abaixo das palavras-chave em inglês, alinhada à esquerda, sem adentramento, em negrito e caixa alta, corpo 11. Usar espaçamento 1 entre as linhas da referência e uma linha em branco entre uma referência e outra, em ordem alfabética, alinhamento à esquerda, indicando-se as obras de autores citados no corpo do texto.

· Bibliografia: se considerada imprescindível, deve vir duas linhas abaixo das referências, alinhada à esquerda, sem adentramento, em negrito e caixa alta, corpo 11. Podem ser indicadas obras consultadas ou recomendadas, não referenciadas no texto. Usar espaçamento 1 entre as linhas da referência e uma linha em branco entre uma referência e outra, em ordem alfabética, alinhamento justificado.

7 – Exemplos de referências (NBR-6023/02): AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não coincidências do dizer. Tradução de Cláudia Pfeiffer et al. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1998.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Metodologia do trabalho científico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1986.
CORACINI, M. J.; BERTOLDO, E. S. (Orgs.). O desejo da teoria e a contingência da prática. Campinas: Mercado das Letras, 2003.
Capítulo de livro:
PECHEUX, M. Ler o arquivo hoje. In: Orlandi, E. P. (Org). Gestos de leitura: da história no discurso. Tradução de Maria das Graças Lopes Morin do Amaral. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1994. p.15-50.
Artigo em periódico:
SCLIAR-CABRAL, L.; RODRIGUES, B. B. Discrepâncias entre a pontuação e as pausas. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, n.26, p.63-77, 1994.
Artigo em periódico on-line:
SOUZA, F. C. Formação de bibliotecários para uma sociedade livre. Revista de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Florianópolis, n.11, p.1-13, jun. 2001. Disponível em: … . Acesso em: 30 jun. 2001.
Dissertações e teses:
BITENCOURT, C. M. F. Pátria, civilização e trabalho: o ensino nas escolas paulista (1917-1939). 1988. 256 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
Artigo em jornal:
BURKE, Peter. Misturando os idiomas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 abr. 2003. Mais!, p.3.
Documento eletrônico:
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA. Coordenadoria Geral de Bibliotecas. Grupo de Trabalho Normalização Documentária da UNESP. Normalização Documentária para a produção científica da UNESP: normas para apresentação de referências. São Paulo, 2003. Disponível em: … . Acesso em: 15 jul. 2004.
Trabalho de congresso ou similar (publicado):
MARIN, A. J. Educação continuada. In: CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 1., 1990. Anais … . São Paulo: UNESP, 1990. p.114-118.
CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe, 4., 1997, Recife. Anais … . Receife: UFPe, 1997. Disponível em: … . Acesso em: 21 jan. 1997.
CD-ROM:
KOOGAN, A.; HOUAISS, A. (Ed.) Enciclopédia e dicionário digital 98. Direção geral de André Koogan Breikman. São Paulo: Delta; Estadão, 1998. 5 CD-ROM. Produzida por Videolar Multimídia.

GUAVIRA LETRAS
MESTRADO EM LETRAS DA UFMS
Av. Capitão Olinto Mancini, 1662
Campus Universitário 1 – Colinos
79603-011 – Três Lagoas/MS – Brasil
Fone: (67) 3509-3425

E-mail do Mestrado:
secretaria@posgraduacaoletras.com.br

E-mail da GUAVIRA:
guavira.cptl@ufms.br;
guavira@posgraduacaoletras.com.br

GUAVIRA LETRAS: http://www.pgletras.ufms.br/revistaguavira/revista_online.htm

Editor Chefe da Revista Guavira Letras:
Prof. Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS)

Fonte:
Http://concursos-literarios.blogspot.com

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Inscrições Abertas, Resenhas

Marcelino Freire (Rasif: mar que arrebenta)

“Eu quero que o leitor tenha a sensação de que está com o fim do mundo nas mãos”. Quem expressa esse desejo apocalíptico é o escritor Marcelino Freire, radicado em São Paulo desde os anos 90, mas natural de Sertânia, cidade do Sertão distante 316 Km do Recife. Autor de Angu de Sangue, Navio Negreiro e outros sucessos de crítica e público, ele é uma das atrações principais deste final de semana da 6ª Bienal Internacional do Livro, que desde ontem ocupa diversos espaços do Centro de Convenções.

Rasif transforma em realizade um sonho antigo de Marcelino Freire: o de publicar algo acompanhado por ilustrações. “Eu semprei gostei das coisas que Caribé fazia para os livros de Jorge Amado ou dos desenhos de Santa Rosa para Vidas Secas. Aí conheci o trabalho de Manu Maltez no Degrau, um bar da Vila Madalena. Esse cara, além de músico, é um ilustrador portentoso!”. O novo livro traz figuras de urubus, corujas, ossos e outros elementos.
=====================
Para Iemanjá
Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.

Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pingüins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.

Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.

Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.

Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.

Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.
Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.
=========================

Se em Contos negreiros, o escritor Marcelino Freire questionava a noção de igualdade racial no Brasil (a cordialidade como produto de uma síntese feliz e festiva entre índios, negros e brancos estrangeiros), Rasif, mar que arrebenta, sua nova antologia de contos, busca outros territórios. O título rascante do livro carece de alguma explicação.

Recife vem do árabe, Rasif: terreno de lajes, estrada composta de rochedos. Já Pernambuco, origina-se no tupi-guarani, paranã-puca: “onde o mar se arrebenta”. Deste violento embate entre pedra e mar, emerge Rasif, mar que arrebenta.

Dezessete contos, ou melhor, “cirandas, cirandinhas” (assim o autor as nomeou no índice) compõem Rasif, um desnorteio de ritmos bem traduzido na linguagem lírica e ríspida, dura e sutil, bela e grotesca, deste autor que embaralha ainda mais os limites da narração. Cada palavra é ponderada, valendo sílaba a sílaba, aspirando a poemas. Pensemos, por isso, a pertinência da denominação “ciranda” para os contos. Na origem do termo está sarand, palavra hispano-árabe que em sua evolução rumo à forma portuguesa conheceu as formas zaranda e çaranda. Para um livro que mira o oriente, mas que tem Recife, Pernambuco como ponto de partida para pensar o mundo, ciranda aponta para um volteio de temas, escolha, união, dança e embate. Isto porque “ciranda” dá nome a uma peneira grossa, mas também define o canto e a dança de roda adulta ou infantil (e lembremos a profusão de crianças que abarca esta obra).

O livro vai além dos limites de Recife e Pernambuco, já que as fronteiras dos contos se distendem para novos territórios. Partindo da etimologia de Recife, surgem contos que tematizam conflitos e põem em pauta uma Arábia sem mistificação, sem orientalismo. Aqui e lá vivem amores, desejos, estilhaços, guerras, explosões. As Arábias são mais um motivo para olhar o mundo que se vê invadido, que se sente deslocado num mundo cada vez mais vertiginoso. Os árabes invadem Rasif até mesmo na dedicatória (“para Asfora, Benuthe, Hatoum, Nassar, Nazarian, Salomão e Snege”), mas alarga-se em contos como “O meu homem-bomba”, “We speak English”, e está implícita no desejo assassino de menino de “Maracabul”, cujo sonho maior é possuir uma arma. Os estilhaços ferozes e infelizes da violência e da guerra estão também em “Amor cristão” e “Da paz”.

Do mesmo modo que o árabe, a “língua indígena” vai dar no intérprete que traduz, no conto “Tupi-guarani”, as reivindicações dos índios que, furiosos, invadem o teatro Amazonas. As palavras ameríndias guiam o autor, com sua sonoridade, e vão dar numa proliferação de toponímia, nomes de bichos, lugares, costumes e sons, num livro entranhado em contos que dialogam e distendem-se como no conto que abre o livro, “Para Iemanjá”. Nele, o mar (e as águas) é leitmotiv de Rasif e além de ser um canto de louvação à orixá-senhora das águas, denuncia a dessacralização da natureza, o desrespeito e a ação assassina do homem. O lirismo de “Para Iemanjá” é dos mais imensos: “Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha (…) Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha. /Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo” (…) (p.21).

Muitos reconhecerão no livro a dicção coloquial e urbana dos narradores; o tema da violência; a obsessão pelo solilóquio repleto de ambigüidades. Trata-se de uma linguagem que busca aproximar-se da letra de canção; canção que, na modernidade, vai se irmanar ao sample e ao canto-desafio do rap: “O medo, aqui, não é brinquedo, pode crer. / Pá-pá-pá. / Gostoso roubar e sumir pelos buracos do barraco. Pelo rio e pela lama. Gritar um assalto, um assalto, um assalto. Cercado de PM por todos os lados. Ilhado na Ilha do Maruim. Na boca do guaiamum. /Papai Noel vai entender o meu pedido. Quero um revólver comprido, de cano longo. /Socorro! /Socorro!” (“Maracabul”, p.41).

Marcelino Freire trabalha com uma frase quebrada, que em estilhaços se faz quase versejada, já que se encontra posta no martelo do cordel, sincopada na récita do repente: “Saudades da bernúncia. Saudades da zabumba. Do Zé do Vale e Zé Pereira. Do Zé Limeira. Saudades do violão e da viola. Saudades da graviola. Pitanga, umbu. Cajá, maracujá. /Saudades da Lia. Da lua de Itamaracá. Saudades do Cariri, Sertão do Pajeú. (…)” (“O futuro que me espera”, p. 122).

Em Rasif estão presentes as personagens que se constroem ao narrarem-se. São travestis, pedófilos, miseráveis indignados, assassinos militantes, gays passionais, pais indignados, crianças cruéis, todos unidos (ao lado de outros) para novos cantares. Afasta-se do clichê, da pobreza sofrida e explorada, seus personagens não revidam o que enfrentam, revelam suas carências, são impiedosos e cínicos. Marcelino Freire os constrói por meio da ironia (figura central em sua “poética” do desmascaro), por isso podem ser lidos de formas distintas.

Para traduzir estas personagens, o autor faz uso das “falas-drama” que mimetizam tanto o universo interior quanto o exterior pelo “modo” que elas (aparentemente) diriam-se, conquistado o direito à voz. São “personalidades” que se convertem em trama ao executar o enredo de si mesmas. “Enredar-se”, neste sentido, adquire também o significado de “logro”. Não bastasse isto, o autor – cuja literatura se constrói à revelia do bom gosto e do politicamente correto – elege personagens marginais, seres de exceção, figuras cujo olhar viciado (da sociedade contemporânea) as converteu em “tipos”, “estereótipos”. Marcelino Freire assume o risco de traduzi-las de uma perspectiva interna, modus operandi experimentado (não sem algum constrangimento) por escritores de peso como Graciliano Ramos. A adesão de Marcelino Freire é, contudo, desapaixonada, oposta à perspectiva empática efetuada por João Guimarães Rosa. Adotando a ironia, a contradição, o paradoxo, ele desestabiliza as certezas, inserem singularidade para destroçar a visão pré-concebida. Estigmatizadas pela ordem social, suas personagens humanizam-se pela complexidade de sua paisagem interior. Sua estratégia é o foco narrativo em primeira pessoa, diálogos mais próximos de solilóquios, de monólogos interiores que se alteram para um fluxo de consciência no qual sobressai, pelo não-dito, “personalidades” que ao se contradizerem, revelam-se.

O que poderia resultar numa estratégia narrativa de curto alcance, pelo risco de esgotar-se pela repetição (neste sentido, “Maracabul” é dentre todas a mais fraca, pelo curto alcance da configuração psicológica de menino; o mesmo podendo se dizer do discurso de “We speak English”, reduzido à sátira estilisticamente bem construída), resulta, por vezes, em excelentes contos. “I-no-cen-te”, talvez a narrativa mais arriscada do livro, é exemplo da força desta técnica. Sua trama constrói-se sub-repticiamente, por meio de um depoimento no qual o não-dito configura o crime, um discurso que pretensamente busca a conversão do réu em vítima. “I-no-cen-te”, em sua ambígua, irônica, e amoral tecitura, busca a afirmação e comprovação da inocência do criminoso diante da perversidade de sua vítima: “Aí o povo vai comentar: que é coisa pura. Uma nudez de candura. A maldade está no meu olhar. Eu é que não enxergo. Vejo além. Vejo desonesto. Vejo o que não está. Tenho um coração feio, que não se contém. Algo em mim precisa se exorcizar. Miolo mole, que não bate bem” (p.89).

Rasif possui um tom mais melancólico e satírico do que as obras anteriores; em parte, por trazer personagens ainda mais isolados, desconfortáveis no lugar onde estão. Trata, igualmente, da perda de um olhar ingênuo sobre o mundo, e de falas soltas, incompreendidas, uma algaravia não-comunicativa. O melhor exemplo é “Chá”, sátira corrosiva que põe à roda da mesa, os imortais da academia de Letras cada vez mais surdos e senis. Entre xícaras de chá e torradinhas, eles discutem o destino da cadeira recentemente vaga de um “imortal” gagá: “(…) Deu derrame. A bolacha. Passa. Ficou caduquinho. Tira a roupa. O quê? Não estou ouvindo. Dizem que fica nuzinho. Nu? Nuzinho. Hum, hum. Deve ficar uma graça. Nuzinho. Só tem osso. De quê? Camomila. Hã? Não ouço. Ca-mo-mi-la. Obrigado. É a vida. (…)” (p. 81).

Mesmo abrindo-se ao humor e ao nonsense, Marcelino Freire não arrefece em explicitar, com a ferocidade denunciadora das obras precedentes, que vivemos num mundo mal, atolado em injustiças das mais diversas esferas. Rasif é tudo isso, mas é também um livro de amor, um amor particularíssimo, selvagem, como explicitado no conto-vinheta “Amor cristão”: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca. (…)” (p. 77).

O nonsense em Rasif comparece em contos como “Junior”, que traz um bebê que surpreende fascinado o pai com um travesti na cozinha de casa; em “Meu último natal”, apresenta-se apenas no insólito desfecho da narrativa sobre um menino, cujo propósito feroz é assassinar e roubar o Papai Noel. Este nonsense pode chegar a extremos de melancolia, como no beckettiano “Ponto.com.ponto”, que traz um sujeito num banco de praça, à espera (cega e interminável) de um possível amor agendado pela internet. As frases curtas, picotadas (ponto a ponto), procuram traduzir ao leitor esperança, impotência e crescente frustração do protagonista: “(…) O meu peito ziguezagueia. Cada passo da cidade de São Paulo. Sinto. Ela não vem. Depois de tanto tempo. Um, dois, três. Marcamos o encontro. Dentro da tarde, neste terceiro banco. A gente vai ser feliz. Depois de tanto tempo, meu amor. No computador. Marcamos. Este encontro real. (…)” (p. 116).

Marcelino Freire esmera-se em tornar mais complexos os enredos de alguns contos de Rasif. “Os atores”, trama que mistura melodrama, suspense e tragédia, ilustra o tema da representação. No conto, um velho ator encena um crime passional. Protagonizando a peça ao lado de seu jovem amante, ele decide substituir a pistola falsa por outra verdadeira, tudo para que o rapaz, o mate diante da platéia. A narrativa inicia com a descrição da cena clímax da peça, seguindo em marcações, rubricas, pontuando intenções: “A última cena é assim: ele tira o revólver da gaveta, dispara à queima-roupa. E eu caio. Como um rei cairia. Ou a Petra. Ou a Phedra. Depois, Leocádio sopra um monólogo sem fim. E chora e ri. As cortinas fecham o espetáculo. E voltamos abraçados para os aplausos” (p. 67).

Amalgamando lirismo e crueza (a exemplo do trecho anterior), Marcelino Freire dá vazão em Rasif a um estranho saudosismo da ingenuidade perdida, da infância, de uma natureza não-corrompida, de uma modernidade sem a vertigem do consumo. É o que se lê no diálogo indignado do motorista de “Sinal fechado”: “- A Guerra na Arábia Saudita, na Conchinchina, sei lá. A culpa é do carro. Do combustível. Do petróleo. Do gás. Da gasolina. (…) – Da guerra. Sim, da guerra. Da carnificina. Por que é que eles brigam, meu caro? Por causa do carro. Entendeu? A roda nos fodeu. Antes a gente vivesse no tempo do jumento. Até o jumento virou moto. Não viu? Um dia saiu na televisão” (p. 109).

Em Rasif estão ainda presentes as zonas de conflitos dos afetos, os campos minados dos desejos; mas há, pela primeira vez nos enredos, finais felizes, saídas para o amor como se os personagens já pudessem aspirar a um futuro possível, menos torpe. É o caso de “Roupa suja”, em que uma empregada de lavanderia narra a uma amiga suas idas e vindas num terreiro feitas para conquistar o cliente executivo pelo qual se apaixonou. Num tom entre o obsceno e humorístico, a narrativa excede em referências ao universo do trabalho da narradora: “(…) Cheiroso, nem olhou para o meu alvoroço. Nem sequer um pensamento. Leve. Ele, dentro de uma bolha. Eu, tão rastejante. Nada, a partir daquela manhã, foi a mesma coisa. (…) Amor, Maria, amor./Sabe o que é isso?/Fragrância de flor. (…)” (p.57).

Apaixonado pela sonoridade das palavras, o autor joga com som e sentido para enredar significados e efeitos novos na expressão. Isto faz com que por vezes, a trama seja o próprio discurso, tornando ainda mais difícil a classificação “contos” para textos como “Para Iemanjá”, “We speak English”, “Amor cristão” e “O futuro que me espera”. Estes funcionariam, à maneira de um álbum musical, como vinhetas para introdução de novos temas, outros andamentos. Isto por que Marcelino Freire deixa circular (cirandar) com rigor, elementos que unificam tematicamente Rasif e fazem ressoar um conto no outro: “Mamãe, este ano eu fui um bom menino, mas ano que vem eu quero ficar rico. Ter um carro-forte, um carro do ano. /Juro que não estou brincando”. (“Maracabul”, p. 43), “Aí o Leco resolveu matar o Papai Noel. De verdade. Dar uma pedrada na cabeça dele assim que ele chegasse. Não pela chaminé, que não havia. Pela janela do barraco.(…)” (“Meu último Natal”, p. 45).

Contraditoriamente, faz uso do “lugar-comum”, de personagens estigmatizados, marginais que põe em primeiro plano e que, ao se expressarem, singularizam-se, ganhando em complexidade psicológica. Humaniza-os, assim, sem escamotear suas falhas de caráter, seus desvios morais, suas obsessões sexuais. Sua perspectiva é interna (daí o uso freqüente da primeira-pessoa), não-distanciada. Não se trata, porém, de uma adesão amorosa (à maneira de um Guimarães Rosa), tampouco amoral (sem julgamento explícito, como num Rubem Fonseca). Eles expressam e em seu próprio discurso explicitam ambiguamente suas contradições.

Como o desfecho em que paisagens, nomes, paladares (termos predominantemente indígenas) fecham o livro com uma declaração de amor a Pernambuco, ao sertão, ao Brasil sem dor. Neste desfecho, há ecos de poemas do poeta Manuel Bandeira (cujos versos fecham o livro), textualmente citado no conto “Amigo do rei”, narrativa de um garoto cuja amor pela poesia faz aflorar o horror homofóbico do pai: “(…)Um pesadelo! Eu mato esse menino. Ah! Se mato. Que desgraça! Ele e esse tal de Manuel Bandeira. Suados e abraçados, em campo. (…)”(p. 98)

Rasif retoma o tom poético em seu desfecho com “O futuro que me espera”, aspiração que soçobra os desencantos com a cidade grande, dissolve angústias, acena para uma felicidade futura resgatada do passado (interiorano?) quando a paz não se fazia reles discurso: “Saudades de tantas coisas. Que eu costurei a mala, levantei as paredes da caixa. Disse olhando os prédios de São Paulo. E a fumaça. Vou-me embora agora mesmo, de hoje não passa. Aqui nunca foi a minha terra”. (p. 123)

Completando este salto, estão as ilustrações de Manu Maltez, gravuras em água forte que não ilustram os contos, mas que traduzem a fluidez do traçado desconcertante do artista, com figuras que oscilam num premente movimento, alterando-se de figuras humanas clássicas a animais e formas grotescas: impuros seres convertidos em mãos, feras míticas, aves que se convertem em onda, como a que ilustra a capa. Fortes águas, vozes de arrebentação. Rasif traz narrativas e formas que não se contém quietas, que precisam saltar, ganhar espaço no mundo.

Rudes e acérrimos, subversivos, bailarinos, radicalmente negros (na contra-corrente da literatura noir), os contos de Marcelino Freire em Rasif, mar que arrebenta não se prestam ao limite do papel. Assentam mal, parecem não pertencer à classe da literatura que se imprime impunemente em nossos dias. Inquietantes, vertem sangue, dançam, batucam, aspiram o trânsito, o salto para fora do objeto-livro que os contêm. Por isso mesmo, faz-se válida a afirmação do autor de que seus contos são para serem lidos em voz alta.

Acatemos essa voz, cantemos e cirandemos, sem pudor, nas águas fortes de Rasif.
===================
Amor cristão

Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.

Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.

Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai. Lá no cativeiro. Por mim ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.

Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.

Amor que liberta. Meu irmão. Amor que sobe. Desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que de repente nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.

(Extraído do livro “RASIF – Mar que Arrebenta”, de MARCELINO FREIRE, Editora Record, 2008)

Fontes:
http://www.bienalpernambuco.com/
http://www.cronopios.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Estante de Livros e Revistas

Artur Eduardo Benevides (Dois contistas cearenses)

Entre os cearenses que triunfaram lá fora, em decorrência do seu merecimento literário, dois, por coincidência residindo em Brasília, mereceram sempre minha maior atenção e acompanhei, por isso mesmo, com grande interesse o seu êxito, na Poesia e no Conto. Refiro-me a José Hélder de Sousa, cujos poemas estão atingindo um alto clima de despojamento formal, em favor da essencialidade, e a Nilto Maciel, que lançou, não faz muito, nova coleção de contos – As Insolentes Patas do Cão – deixando-me a impressão de que se acha no melhor momento de uma criação, no gênero.

José Hélder, que hoje integra a Academia Brasiliense de Letras, tendo como patrono o admirável Raul de Leoni, uma de minhas devoções literárias mais intensas, é autor de belos poemas interpretativos do ser e do mundo, com alguns versos isolados da maior grandeza, dignos de um Jorge de Lima, de um Augusto Frederico Schmidt, de um Vinícius de Moraes. Isso, a contar de sua estréia, com A Musa e o Homem, aos poemas que se acham em As relvas do Planalto, com uma visão madura das cousas reais e irreais.

Agora, surpreende-me com a beleza desse Rio dos Ventos, volume de contos e novelas, numa demonstração de que nasceu vocacionado também para a ficção. E o livro é excelente, deixando no leitor a impressão de haver sido escrito por quem tem o segredo do fazer literário e se aprimora cada vez mais em seu ofício, graças ao talento que trouxe do berço, como uma predestinação.

Destaco a sugestiva peça inaugural que dá título ao livro. Um título, diga-se de passagem, muito poético. E a narrativa surge, maiúscula, pungente, sofrida e humana. O autor conta uma saga do Brasil antigo, nas ribeiras do Acaraú, em que aparecem Profiqua Mendes Carneiro, do casamento à morte; Chico Pachola, o senhor de terras e seu marido; o vigário apaixonado; as “noivas do rei”; a casa cheia de roseiras, jasmins e manacás; as tricas e futricas de campanário; a vila humilde e nascente. Uma história densa, romântica em alguns lances e trágica no desfecho. Realíssima e de certa forma lírica. Ou pastoral.

Considerei muito bom o casamento da ficção e da História. José Hélder, que usa também o recurso em “Senhorão”, tem ótimo desempenho como narrador, cousa que aprendeu, sem dúvida, nos longes da infância, em Massapê e Sobral, ouvindo os Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, do português Gonçalo Fernandes Trancoso.

Rio dos Ventos, no meu entender e julgar, merece leitura e releitura. O autor atinge, nesse livro, um dos momentos mais significativos de sua arte, com a mesma força que já nos acostumáramos a ver no poeta que ele é.

O outro escritor a que me referi de início é Nilto Maciel, que se iniciou na década de 70 com os promissores contos de Itinerário, publicando depois, no mesmo gênero, Tempos de Mula Preta, A Guerra da Donzela e Punhalzinho Cravado de Ódio, este considerado por Sânzio de Azevedo um excelente livro.

Dele, leio agora, com certo encanto pelo poder das imagens e de síntese, As Insolentes Patas do Cão, em que trabalha com elementos oníricos e mágicos, poéticos e míticos, combinando universalismo e regionalismo, lembranças, vivências fundas, lendas e realidade. E se sai muito bem dessa tarefa, com alguns contos admiráveis, em conteúdo e estrutura, ou fundo e forma.

A partir de “Ícaro”, com que abre o livro, trabalha os seus contos de forma moderna, evitando o descritivismo exagerado da era Maupassant, e se atendo ao essencial, em breves (mas profundas, às vezes) registros de um momento, que caracterizam a short-story. Mesmo o erotismo, como em “Incubação”, é comedido. E há traços machadianos na “Teoria do Amor Socrático”, em “Os Belos Olhos de Sônia” e “O Inseto”. Já o inesperado surge em “A Voz Indecorosa”, em “Mon Amour” e “O Confessor Lascivo”. E o fantástico lá está, muito bem lançado, em “O Vencedor” e “A Última Festa de um Homem Só”.

Nilto Maciel, com muito talento, combina, para meu agrado, como seu leitor, o real e o fantástico, cousa rara na Literatura Cearense, se bem que tenhamos exemplos em Emília Freitas, no século passado, em Moacir Lopes (“O Passageiro da Nau Catarineta”) e José Alcides Pinto. Ele não teme trabalhar com elementos assim, desafiadores, chegando a resultados excelentes.

Outro aspecto a destacar, na ficção de Nilto Maciel: a fascinante presença da fábula, como em “A Fala dos Cães” e outros momentos do livro. Esse é um legítimo conto medieval. Ou uma quase parábola, em que, desmentindo um pouco o Professor Massaud Moisés, de vasto saber, para quem “animais não podem ser personagens” (in Dicionário de Termos Literários) ele prova o contrário. E traz, como figurantes de outras histórias, serpentes, gatos e ratos, da mesma forma que o velho Calderón de la Barca transformara a fé, a esperança, a água e o fogo em personagens. Mas, esse é outro problema, muito interessante, por sinal.

Em resumo: As Insolentes Patas do Cão (que título expressivo!) são contos que se acham na categoria de muito bons e de excelentes. Contos com a marca registrada de Nilto Maciel, expressa através do binômio – talento e autenticidade. E já é muito, hoje em dia, com tantos naufrágios por aí, nesse importante gênero.

Fonte:
Jornal de Poesia
http://www.secrel.com.br/jpoesia/artur5.html

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos

Adriana Maria Toniolo Jacon (As várias faces da escritura lessiana)

Em um de seus artigos, Josué Montello, falando de Orígenes Lessa em virtude de seu octogésimo aniversário, pergunta-se:

“Que fez Orígenes Lessa para as nossas palmas em redor de sua mesa, e para a festa da Casa de Rui Barbosa? Fez livros. Ou melhor, romances, contos, novelas, livros para crianças, artigos de jornal…”

Porém, mais do que palmas, talvez falte ao escritor Orígenes Lessa ter suas obras conhecidas e estudadas de maneira mais aprofundada, pois como se lê no artigo de Josué Montello, foi significativa a contribuição de seu trabalho para a cultura e para a literatura brasileira. O autor que nasceu em Lençóis Paulista em doze de julho de 1903 e faleceu em treze de julho de 1986, aos oitenta e três anos ainda se encontrava em plena atividade profissional. Sua obra chama a atenção pela variedade e qualidade de material. Tanto nas narrativas curtas, quanto nos romances, o autor elabora o enredo de forma a obter um resultado que revela expressão e estilo singulares, ou seja, uma linguagem do cotidiano, bem próxima do leitor, o que permitiu que suas obras fossem bem recebidas pela crítica e pelo público que com elas tiveram contato.

Henrique L. Alves, em texto escrito para a revista da Academia Brasileira de Letras, reproduziu uma opinião de Genolino Amado sobre o estilo de Orígenes Lessa, afirmando:

Orígenes Lessa – segundo Genolino Amado – é um desses olhares excepcionais que sabem surpreender a novidade das coisas ou dos homens vulgares e o humanismo oculto nos temas aparentemente mais sisudos.

Ao desenvolver esse aspecto da obra lessiana, Henrique L. Alves, acrescenta uma pista de leitura sobre a linguagem de Orígenes Lessa:

Escritor que sabe manejar situações irônicas com verve descontraída. Procura flagrantizar o cotidiano, diversificando temas, catalisando frases fáceis, sem preciosismos ou busca de palavras inacessíveis ao leitor.

Pedro Bloch, leitor, amigo e estudioso das obras de Orígenes Lessa, ressaltou a importância da escritura de Lessa pelo fato de ser constituída pela observação de acontecimentos triviais que acabam por encontrar ressonância em quem a lê. Afirma o crítico: “Orígenes Lessa conduz sua narrativa com aquela fluidez, segurança e originalidade que lhe são próprias.” E, completando, ressalta as características da escritura de Orígenes Lessa:

…quando, ao voltar do México, alguém lhe perguntou se tinha falado com Cantinflas ou Diego Rivera, ouviu: ‘Não, mas falei com mendigos, gente de rua, prostitutas.’ Seus episódios de viagem estão repletos de seres humildes, de vida colorida. É por isso que seus contos traduzem tanta humanidade, pulso tomado na alma de cada um.

Dr. Marcos Almir Madeira, em uma homenagem póstuma a Orígenes Lessa, ratificou todas as opiniões anteriores sobre o estilo de Orígenes Lessa, ao afirmar:

…escritor em cuja obra personalíssima o contista, o romancista, o novelista puseram singularidades de temática e de forma, de conteúdo e expressão – um estilo de narrador diferente.

No entanto, o fato de as obras de Orígenes Lessa serem fruto de uma observação do cotidiano não quer dizer que sejam desprovidas de talento artístico. Muito pelo contrário, as obras lessianas demonstram a capacidade do autor em criar histórias que sejam compreendidas pelo público, o que não significa pobreza de linguagem. O feijão e o sonho, por exemplo, foi reelaborado em várias edições.

Quanto à capacidade artística de Orígenes Lessa, Olney Borges Pinto de Souza do Jornal Correio da Manhã, afirmou:

… o notável contista logrou compor toda uma série de narrações, em que seu talento, jogando com uma riqueza extraordinária de cenário, esparzindo humor ou colhendo uma funda movimentação anímica, lança toda uma galeria de tipos humanos a realizar-se plenamente no centro de cada história, com todos os atributos de legitimidade artística.

A primeira obra, editada em 1929, o livro de contos O escritor proibido , foi muito bem recebida por Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Menotti del Picchia e Jorge Amado, este último, admirador do trabalho de Lessa, como fica claro na reportagem de Bella Jozef publicada no Jornal O Estado de São Paulo , em 31 de julho de 1983 ao reproduzir as palavras do autor de Os Velhos Marinheiros:”Sempre fui de opinião que Orígenes Lessa é um dos maiores contistas de toda a nossa história.”

No entanto, confirmando a afirmação de Peri Augusto sobre Orígenes Lessa:”Difícil asseverar, entre o romancista e o contista, qual o melhor.”, torna-se difícil dizer em qual gênero literário Lessa se sobressai, pois tanto nos contos quanto nos romances, sabe tecer seus textos que estabelecem um diálogo com o leitor, favorecendo a recepção e a apreciação de suas obras, sejam elas histórias curtas ou não.

Dos trabalhos realizados por Orígenes Lessa e citados por Josué Montello no Jornal do Brasil, como vimos na citação do início deste capítulo, não foi mencionado o trabalho como publicitário, iniciado em 1928. A essa faceta desconhecida, acrescenta-se a de tradutor, no período em que trabalhou na General Motors (1931). Outro trabalho realizado por Lessa foi o de padrinho da Biblioteca Municipal de Lençóis Paulista, que leva o seu nome, para a qual solicitou a doação de obras de escritores renomados, com autógrafos e dedicatórias. O acervo dessas obras chega, atualmente, a oitenta e quatro mil volumes, sendo que a cidade possui por volta de sessenta mil habitantes, ou seja, mais de um livro per capita, o que fez com que Arnaldo Niskier em discurso na Academia Brasileira de Letras afirmasse:

Qual é a singularidade de Lençóis Paulista? É a cidade que tem mais livros do que habitantes. Seguramente dos quatro mil e duzentos municípios brasileiros, Lençóis Paulista deve ser exemplo único da cidade pequena, no interior paulista, em que os livros são mais numerosos do que os habitantes. Isso revela o interesse cultural que transbordou da simples presença de Orígenes Lessa para ser uma preocupação dominante em toda sua população.

Orígenes Lessa também obteve consagração como escritor de literatura infantil e infanto-juvenil, tendo-se iniciado nesta vertente quando solicitado para palestrar sobre O feijão e o sonho em uma escola para crianças. Acabrunhou-se com isso, pois, para ele, este romance era uma leitura para adultos como fica claro na reportagem do Jornal Correio do Povo:

Orígenes Lessa confessou que sempre escreveu para as crianças com extremo temor e mesmo pavor, pois sente imensa responsabilidade, tendo fugido muito a um encontro cara a cara com elas desde que soube que elas liam seu livro O feijão e o sonho.

Assim escreveu, em menos de quinze dias, Memórias de um cabo de vassoura , editado em 1971 e, a partir daí, devido ao sucesso com o público infantil, não parou mais de escrever para crianças, sem deixar, porém, de escrever para adultos.

Em entrevista concedida a Edilberto Coutinho, Orígenes Lessa, questionado quanto ao seu relacionamento com as crianças, declarou sentir-se mais jovem, depois de ter-se dedicado à literatura infantil e juvenil.

Fantástico. Incrível…Quando cheguei aos 60 anos, pensei que estava velho. Aos 70, me sentia mais jovem. Acho que devo isto, em parte, aos meus livros infantis e juvenis. Com eles, parece que liberto o menino que há em mim.

Contudo, sua maior preocupação foi com o leitor. Nos textos de literatura infanto-juvenil Lessa demonstrou para com o leitor a mesma preocupação já existente na sua literatura para adultos, pois tinha consciência da estreita relação entre autor, obra e leitor, o que pode ser lido nas declarações feitas ao Jornal Estado de Minas:

Escrever para crianças é muito gostoso se a gente acerta o gosto delas, mas é uma barra muito pesada, pois seremos os responsáveis pelas suas futuras preferências. Daqui a algum tempo seremos os culpados ou não pela receptividade da leitura pelos adolescentes.

O sucesso com o público infanto-juvenil fez com que Maria Antonieta Antunes Cunha estabelecesse uma comparação entre Orígenes Lessa e Monteiro Lobato, ressaltando as características que os aproximam, como a comicidade e o humor, elementos que prendem a atenção das crianças, além de certo olhar crítico diante da vida. Essa criticidade se apresenta de forma lúdica e atinge um alto nível de comunicação com o público infantil. Tanto Lobato quanto Lessa tinham a qualidade de exímios contadores de histórias, porém cada um possuía, apesar das semelhanças, as suas peculiaridades estilísticas, ainda que ambos produzissem obras voltadas para a esperança, revelando fé em um mundo melhor. Maria Antonieta Antunes Cunha observou em seu estudo semelhanças entre os dois autores, o que a levou a tecer o seguinte comentário: “Na literatura infantil é legítimo sucessor de Monteiro Lobato. As mesmas emoções a criança experimenta na leitura de um e de outro.”

A afirmação de Maria Antonieta Antunes Cunha leva-nos à questão das leituras de Orígenes Lessa e da presença lobatiana em suas obras. E, assim como ela, outros estudiosos também viram nas obras de Orígenes Lessa certa similaridade com as de Lobato. Francisco de Assis Barbosa afirmou:

Seguis a mesma trilha, senhor Orígenes Lessa, sem pretender o lugar deixado por Lobato. Vossa mensagem é bem diferente, sem agressividade, espírito polêmico ou depreciativo.

Ainda sobre a comparação de Lessa com Lobato, a reportagem do jornal Tudo é Diálogo de Porto Alegre, também apontou semelhanças entre os dois autores, no que diz respeito ao interesse do leitor pela obra.

Como autor de obras destinadas ao público infanto-juvenil, Orígenes Lessa talvez só possa ser nivelado em nosso país, com seu co-estaduano, o genial Monteiro Lobato. De fato, cada um com suas características fundamentais no modo de realizar a narrativa, ambos conseguiram que suas criações, suas histórias e suas personagens prendessem a atenção dos leitores não só dos jovens, mas igualmente dos adultos.

O interesse do público permitiu que se comparasse Orígenes Lessa a Monteiro Lobato. Porém, em entrevista cedida a Jorge de Aquino Filho para o especial da Revista Manchete o autor de O feijão e o sonho afirmou ser apenas um admirador de Monteiro Lobato, não tendo a pretensão de substituí-lo:

-É possível observar na sua obra características que o aproximam de Monteiro Lobato, como a presença da fantasia, da aventura, do humor e da comicidade, além da preocupação em não dissociar no seu texto o entretenimento da reflexão sobre a vida humana. Você se considera o legítimo sucessor de Monteiro Lobato?

– Nunca tive essa pretensão. Admirei Monteiro Lobato a vida inteira. Foi o autor da minha adolescência. Foi um escritor extraordinário. Não tenho capacidade para substituí-lo(…) Monteiro Lobato tem o lugar dele, que é dele. Há em mim uma grande admiração destituída de qualquer pretensão em substituí-lo.

Outra face de Orígenes Lessa revela o estudioso da Literatura de Cordel, pois chegou a publicar estudos sobre o assunto, e obteve, com essas publicações, repercussão internacional.

Depois de ter participado da Revolução de 1932, e ter sido preso, experiência que resgata em Não há de ser nada em 1932 e Ilha Grande em 1933, foi para os Estados Unidos, onde morou, no início da década de quarenta. Lá trabalhou, em 1942, como coordenador de assuntos internacionais e foi repórter e entrevistador de Charles Chaplin, Sinclair Lewis, Langston Hughes, John Steinbeck, figuras que colaboraram para a formação de sua bagagem intelectual.

Toda essa vivência com escritores estrangeiros, o aprendizado e o contato com outras leituras foram importantes. Ainda nos Estados Unidos, escreveu reportagens sobre brasileiros que lá viviam, surgindo então OK América em 1945, obra jornalística que revela em sua escritura, o autor de literatura. Na biografia de Noel Nutels, trabalho jornalístico e crítico sobre a vida deste médico nascido em Odessa na Rússia e que se preocupava com a saúde dos índios, intitulada O índio cor-de-rosa e editada em 1978,Orígenes Lessa pôde revelar sua habilidade artística .

Os primeiros exercícios de linguagem têm origem na infância, pois ainda criança tentava desvendar o mundo através da linguagem, queria aprender a ler para escrever com carvão nos muros e calçadas, como faziam as outras crianças. Quando, enfim, começou a aprender a ler, isso aos seis anos, ensaiou escrever alguns textos, parte deles copiados, mesmo sem entendê-los, do livro de grego do pai que era professor e pastor protestante. Depois disso, escreveu o que para ele foi o primeiro livro, conforme se lê na entrevista concedida a Cláudia Miranda e Luiz Raul Machado: “Foi em São Luís que escrevi meu primeiro ‘livro’, aos seis anos: A bola.”

Após ser alfabetizado, tido como mau aluno, era, no entanto, um leitor ávido. Lia tudo. Na adolescência, leu mais de duzentos livros e foi nesta época que, na escola, por volta dos seus treze e quatorze anos, tendo aguçada a sua criticidade por meio de tantas leituras, fundou o jornal escolar O beija-flor , que se tornou o primeiro degrau na sua escalada como jornalista, chegando a trabalhar, mais tarde, no Jornal Folha da Manhã em 1931.

Fica, então, a questão: quem nasceu primeiro, o escritor de literatura ou o jornalista?

Se respondermos a esta pergunta, tendo como ponto de vista o profissional, responderemos que foi o jornalista. Mas, se analisarmos do ponto de vista da linguagem de seus textos e das conclusões a que chegamos após ler as entrevistas, diremos que foi o escritor que, desde criança, já ensaiava as primeiras letras.

Em estudo sobre o autor, Reynaldo Valinho Alvarez chega a sugerir que o tripé jornalista-publicitário-escritor forma o eixo da obra de Orígenes Lessa:

Como jornalista e publicitário, Orígenes Lessa tinha o sentido da comunicação objetiva, direta, imediata, precisa bastante para a clareza da mensagem, mas ambígua na isca dos subentendidos com que a publicidade atrai e fisga o consumidor.

Nas entrevistas concedidas por Orígenes Lessa, pode-se observar o desejo inato de ser escritor, ainda que para isso tivesse que fazer o percurso do jornalismo e da publicidade.

– Sempre fui muito vadio, mas sempre quis ser escritor. No começo creio não ter manifestado a menor vocação. Meu irmão Vicente, sim (somos seis irmãos). Mais de um deles tinha muito mais jeito para as letras do que eu. Mas, mesmo pequeno, eu tinha a mania da coisa. Queria aquilo e sabia que queria.

Desenvolvendo suas habilidades escriturais enquanto jornalista e publicitário, Orígenes Lessa ia em busca do sonho: tornar-se escritor. Não chegou a formar-se em curso superior, mas pode ser chamado, como o foi Machado de Assis, de autodidata, pois desde muito jovem, a exemplo do pai, cultivava o hábito da leitura de clássicos da literatura, da filosofia e , embora se tivesse afastado da religião na década de vinte, era um estudioso da Bíblia.

Os temas abordados na obra lessiana contemplam os dramas humanos vividos no cotidiano, com ênfase ao drama do homem como vítima do contexto social e econômico que aniquila o sentimento e a sensibilidade. Orígenes Lessa trabalha esses dramas num misto de tristeza e alegria, uma sátira dos sofrimentos beirando a ironia. Fantasia, humor, amor, misturados ao cômico e à tristeza, tudo que compõe o vasto universo interior do homem está presente na obra de Orígenes Lessa, levando-nos a refletir criticamente sobre situações diversas: tudo pode ser pensado e repensado pelo leitor que encontra nos textos a constância dos erros e acertos do homem, vítima das paixões individuais e dos problemas existentes na sociedade, levando-nos a reflexões sobre questões universais, filosóficas, sobre o ser e o estar no mundo. Esse enfoque foi analisado por Mário da Silva Brito em um de seus textos sobre Orígenes Lessa:

Às pesquisas formais, Orígenes Lessa tem preferido, ao longo de sua carreira de narrador, a preocupação do conteúdo ficcional. Em vez da aparência pretende a essência. Daí interessá-lo, na prática literária, o drama humano, pequeno ou grande, profundo ou intenso, extenso ou raso.
Homero Senna, ao tecer comentários sobre os contos de Orígenes Lessa, compara-o a Wilde e Maupassant, afirmando:

Como são os contos de Orígenes Lessa? São maliciosos, irônicos, mordazes, não raro pungentes. Sabendo, como leitor de Wilde, que a vida, freqüentemente, é mais inverossímil do que a arte, inspira-se em fatos e figuras do viver cotidiano, procurando fazer de suas histórias, como queria o mestre Maupassant, uma fatia da vida.

Embora, segundo Mário da Silva Brito, Lessa tenha-se utilizado, também, do aprendizado de técnicas narrativas de autores como Luigi Pirandello, Franz Kafka, Gilbert Keith Chesterton e James Joyce, no entanto, aproveitou-se dessas “raízes inspiradoras” para compor “a seiva de sua própria e pessoal dicção literária.”

Orígenes Lessa foi criador de seu próprio estilo e, embora não tenha desprezado todas as propostas literárias surgidas entre os idealizadores da Semana de Arte Moderna, como o uso de uma linguagem extremamente brasileira, sem resquícios e ornamentos eruditos, manteve-se fiel às suas próprias tendências. A escritura de Orígenes Lessa conduz o leitor mansamente como as águas calmas de um rio conduzem seu fluxo à grandiosidade do mar.

Artur Eduardo Benavides, em artigo publicado na Revista Leitura, refere-se ao defeito da imitação, isentando Orígenes Lessa de tal defeito. Segundo seu ponto de vista, o autor é:

…simples e liberto de qualquer defeito de imitação de mestres ou de escolas, qualidades essas que se manifestam em todas as suas páginas, algumas das quais podem ser consideradas verdadeiramente antológicas.

A dramaticidade da vida humana proposta nas obras de Lessa, assim como de obras de autores do seu repertório de leitura tem, como pano de fundo, a realidade urbana, com personagens e ambientes bem próximos da vida real, figuras do dia-a-dia, quase sempre de uma vida moderna que são flagrados e trabalhados pelo autor. Orígenes Lessa retirava do mundo as mais diversas situações e transformava-as em arte, algo que só alguém que viveu às voltas com a escritura, num trabalho de dedicação para com as letras, e tem uma base intelectual como a sua, pode fazer.

Francisco de Assis Barbosa, escritor e membro da Academia, no discurso de posse de Orígenes Lessa na Academia Brasileira de Letras, parece ter fechado a questão em relação ao trabalho do jornalista que teria contribuído para a produção literária de Orígenes Lessa, ao afirmar: “Viestes do jornal, uma universidade.”

Sem dúvida, o estilo literário de Orígenes Lessa tem muita relação com o estilo jornalístico e publicitário de que herdou a construção instantânea de frases de impacto, juntamente com a experiência na escolha e uso de determinadas palavras, adquirindo versatilidade e agilidade.

Orígenes Lessa aprendeu no jornalismo e na publicidade a ser conciso, sem por isso dizer pouco. Exercitou o trabalho de lapidador, retirando o excesso que pode sobrepujar em textos de autores inexperientes, conferindo à sua literatura características difíceis de serem alcançadas: precisão e arte, com o emprego certo das palavras certas, um trabalho de artesão da escrita, o que fica patente na reelaboração de seus textos. As peculiaridades inerentes à profissão de jornalista e propagandista, Lessa conseguiu transportar para a de ficcionista. O compromisso de escrever por encomenda, como escrever para uma determinada campanha, para uma data também determinada, foi mantido na construção da ficção, como Lessa mesmo ressaltou: “…eu gosto mais daquilo que estou fazendo naquele momento. Ou então, escrever por encomenda…”

Escrever por encomenda não desmerece quem domina a técnica da linguagem. Nos textos jornalísticos, publicitários e literários, a linguagem se faz de maneira natural, consolidando beleza e utilidade, aumentando o poder de comunicação.

Mas Orígenes Lessa sabia que, assim como na publicidade, na ficção, apenas o uso da palavra não garante público. Na propaganda, ele dizia ser necessário não só argumentar, mas criar no anúncio a necessidade no comprador pelo produto anunciado.

Na literatura, o processo de cativar o leitor não se dá de forma diferente. Suas obras vão ao encontro dos anseios e necessidades de cada leitor, possibilitando a fruição da obra, num jogo de perguntas e respostas que envolvem o escritor e o leitor na dialética do texto. A literatura de Lessa é, para usar um termo de Mário da Silva Brito, escritor e amigo pessoal de Orígenes Lessa, “de comunhão” e, porque não dizer, de diálogo com seu leitor que se vê envolvido pela ficção. Um diálogo velado, de forma indireta, que ocorre por meio do diálogo das próprias personagens do qual o leitor participa vivendo, encarnando seus problemas, tomando partido, envolvendo-se e opinando.

O diálogo, uma constante nas obras de Lessa, que fez render-lhe o título de “mestre do entrecho e do diálogo”, embora usado demasiadamente, não afeta a qualidade dos textos, pois o autor sabe dosá-lo com equilíbrio às situações, às tramas e às personagens, tornando favorável a adaptação de seus textos para o teatro, cinema e novelas de rádio e T.V. como aconteceu com Noite sem homem em 1968, O feijão e o sonho em 1976, e Juca Jaboti, Dona Leôncia e a super-onça em 1976 e fez render a Orígenes Lessa uma crítica favorável, quanto ao enredo de suas obras, pelo crítico Hugo Barcellos:”Machado de Assis, Orígenes Lessa e outros contistas brasileiros forneceram, afinal, aquilo que estava faltando ao cinema pátrio – enredo.”

O uso do diálogo confere às personagens lessianas uma vivacidade, dá alma aos seres ficcionais e constitui um elemento importante para o entendimento do processo criador de Orígenes Lessa e da recepção de sua obra pelo leitor.

Os artifícios utilizados por Lessa na criação de suas obras sempre foram frutos de sua preocupação com o leitor, seja ele adulto, infantil ou juvenil.

Orígenes Lessa merece toda a atenção dos educadores e dos pais com toda a segurança da maior seriedade e do maior carinho para com a formação conveniente de seus pequenos patrícios.

Daí a busca de uma perfeição, almejada por ele, quando fez mais de quinhentas alterações da quarta para a quinta edição de O feijão e o sonho e a humildade em dizer que não seria leitor de suas próprias obras. Isso faz parte de um comprometimento com o leitor e de uma visão perfeccionista de quem é capaz de afirmar:

Não gostei de nenhuma de minhas obras, não gostei porque sempre procuro escrever outras em busca da perfeição.

E ainda:

Gostaria de encontrar tempo para fazer uma grande varredura em tudo que escrevi.

O feijão e o sonho conta com mais de sessenta edições e teve repercussão nacional e internacional e, mesmo assim, Orígenes Lessa foi capaz de dizer que com esse romance teve sorte. Segundo Orígenes Lessa, O feijão e o sonho foi escrito em três semanas num escritório de propaganda, o que fez sofrer, nas novas edições, cortes e correções: “Cortar é mais importante e difícil do que acrescentar. Da quarta para quinta edição fiz mais de 500 modificações.”

As vendas do romance aumentaram muito após a apresentação da novela pela T.V. Rede Globo, conforme a comprovação pelo bilhete enviado em dez de outubro de 1976 por Orígenes Lessa ao amigo Clóvis Pacheco que o publicou, mais tarde, no jornal de São Carlos de nome A Tribuna: “Clóvis, com a novela na T.V. Globo, saíram cinco edições sucessivas num total de 88.000 exemplares. Valeu o risco… Um abraço do Orígenes.”

Contudo, a obra já havia sido lida por muitas pessoas e editadas várias vezes, antes mesmo do sucesso na televisão, o que mostra que não foi a obra televisiva que favoreceu a literatura, uma vez que esta já havia conquistado seu espaço por si própria, pois uma obra sem sucesso não seria adaptada para a televisão. Ao ser adaptado, o romance sofreu muitas alterações e Lessa nem quis ler o script antes de ir ao ar. Apenas acompanhou a reação do público que consumiu, só das Edições de Ouro, mais de 80 mil exemplares.

No ano de 1988, O feijão e o sonho foi traduzido para o Braille. Porém, com tanto sucesso obtido pelo romance, Orígenes Lessa se viu descontente com sua repercussão no meio infanto-juvenil com o qual, talvez, o enredo se identificasse, o que favoreceu a leitura, mas a contragosto de Lessa que via no romance uma leitura destinada a um público mais amadurecido, fugindo por muito tempo de um encontro direto com as crianças e adolescentes, quando convidado para dar palestras nas escolas.

Lessa afirmava não ser O feijão e o sonho sua obra preferida, embora fosse a do público. Dizia gostar mais de Rua do Sol editado em 1955,que trazia lembranças de sua infância e de Evangelho de Lázaro editado em 1972,que tinha muita relação com suas crises existenciais. Mas, sendo este o primeiro romance do autor, ficou evidente, seguindo o sucesso com seus livros de contos O escritor proibido editado em 1929 e Passa-três editado em 1935, a qualidade de romancista e “senhor da carpintaria do romance”, devido à habilidade no trato com as palavras e na construção de textos, o que lhe conferiu valor como escritor de literatura.

Por todo este vasto trabalho no campo da escrita, Orígenes Lessa foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no dia nove de julho de 1981 e, para encerrarmos estes apontamentos, voltemos às palavras de Josué Montello que termina seu artigo sobre Orígenes Lessa dizendo:

Todos nós temos duas datas para o ponto de partida de nossa biografia: a do dia em que nos puseram no berço, aos gritos, e a do dia em que tomamos conhecimento da vida e do mundo. A primeira é a que efetivamente conta para a banalidade usual de nossa cronologia; a segunda, mais importante para o ser humano, é aquela em que nos inserimos na vida consciente, começando a recolher as impressões lúcidas e indeléveis que nos acompanharão por toda a existência e com as quais criamos o nosso próprio mundo.

A data de partida da biografia de Orígenes Lessa, além da primeira, a de seu nascimento, aquela que os anos se encarregaram de levar, é, também, a de sua primeira escrita, que começou aos seis anos com o seu provável primeiro livro, A bola, momento a partir do qual Lessa foi despertado para a arte literária e não parou mais, despertando em nós, seus leitores, o prazer pela literatura, pela arte e a consciência da vida.

Fonte:
Adriana Maria Toniolo Jacon. trecho de Dissertação de Mestrado apresentada à Unesp-Assis, em julho de 1999, ORÍGENES LESSA: A LETRA E O SONHO. Disponível em
http://www.lencoispaulista.sp.gov.br/bmol/CURIOSIDADES/_AS_VARIAS_FACES_DA_ESCRITURA_/_as_varias_faces_da_escritura_.html

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Dissertação de Mestrado

Isaac Asimov (As Leis da Robótica)

As Leis da Robótica foram criadas por Isaac Asimov, e primeiramente existiam apenas 3Leis, mas depois elas foram ampliadas para 4. As Leis da Robótica são:

Lei Zero (criada posteriormente, por um robô que a intuiu no romance “Os Robôs e o Império”): Um robô não pode causar mal a humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal, nem permitir que ela própria o faça.

Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

Segunda Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos que em tais ordens contrariem a Primeira Lei.

Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Lei.

Curiosidades

A expressão robô não é de Asimov. Apareceu em 1920, na obra de teatro de Karel Capek R.U.R. Robôs Universais de Rossum, ainda que a palavra em si se deve ao seu irmão Joseph, já que “robô é trabalhador”. Apesar de tudo que se acreditava, na obra de teatro não é um robô, e sim um andróide. Em troca, inventou-se a expressão robótica, ou seja, a ciência que estuda os robôs.

Apesar de ser um autor de muito êxito, Isaac Asimov também teve fracassos; talvez o maior deles fosse a revista Asimov’s SF Adventure Magazine, que iniciou sua publicação no ano de 1978, e terminou-a no mês seguinte, ou seja, publicou só um número.

Asimov sempre demonstrou preocupação com o dinheiro. A obra pela qual recebeu menos foi “O sentido secreto”, pela qual lhe pagaram pouco, mas também foi a qual pagaram mais por palavra: 2,50 $, já que o editor afirmava que só havia comprado-a pelo seu nome: Isaac Asimov.

Outra de suas manias era não desperdiçar nada. Se um relato era desprezado por um editor, Asimov o apresentava a outro. Em uma edição do ano de 1955, “O Plano dos 1000 anos” foi renomeado para “Fundação”.

Apesar da crença de algumas pessoas, Asimov não foi o escritor mais produtivo da história. Quem tem o recorde é Josef Ignacy Kraszewski, um escritor do século XIX, que escreveu mais de 600 livros.

Entre outros cargos, Asimov foi vice-presidente do Club Mensa, uma associação cujos sócios tem que superar certas provas de inteligência para serem admitidos.

Asimov sofria de acrofobia, medo de altura. Só voou em dois aviões em toda a sua vida, e as viagens de barco também não eram seu forte, ele enjoava com muita facilidade. Nesta acrofobia muitos viram certo paralelismo com a agorofobia, que faz sofrer os habitantes da Terra nas novelas iniciais do Ciclo de Trantor.

Asimov odiava ver seu nome escrito errado. Esse foi um dos seus motivos para escrever, em 1957, o relato: “Meu nome se escreve com S”. Os erros mais notáveis foram produzidos nas etapas da revista Galáxia, de Novembro de 1952; e no Prêmio Nebula, outorgado por O homem bicentenário, em 1976.

Mesmo tendo nascido no seio de uma família judia, e conhecendo bem a Bíblia, Asimov escreveu “Guia de Asimov sobre a Bíblia”, e “A história de Ruth”. Asimov era ateu; se considerava um humanista, ou seja, acreditava que os avanços da Humanidade eram responsabilidade dos humanos, e não de seres sobrenaturais.

A idéia da novela Viagem Fantástica não é original de Asimov. Foi escrita baseada em um guia cinematográfico escrito por Otto Klement e Jay L. Biby, e Asimov escreveu tão rápido que o livro apareceu seis meses antes da estréia do filme. Asimov nunca esteve contente com este trabalho. Na dedicatória do livro, ele colocou: “a Mark e Márcia, que me ‘obrigaram’ a escrever este livro”. Asimov tentou corrigir algumas falhas do guia original, mas apesar da oportunidade de escrever sobre anatomia e fisiologia, motivo que no começo o atraiu, ele nunca considerou essa obra um trabalho próprio.

A Companhia de Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos, mais conhecida como U.S. Robôs implanta a todos os robôs positrônicos as Três Leis da Robótica, que regem seu comportamento.”

Quando Asimov desenhou os robôs positrônicos criou três leis para proteger o homem, e permitir sua aceitação, salvando-os do chamado Complexo de Frankenstein. Diversos especialistas opinam que se algum dia chegarem a criar seres metálicos desta complexidade, sem dúvida eles levarão implícitas essas normas ou algumas regras de comportamento equivalentes, a fim de superar o medo que podem gerar os robôs. A intuição de Asimov sobre o futuro pode ir desde buscar água no espaço até a cirurgia microcelular.

Os Robôs

Os robôs têm estrutura cerebral positrônica, formada por circuitos semicondutores, que transmitem as informações processadas na placa mãe, feita de silício, aos equipamentos responsáveis pelas funções do robô. Sua estrutura é atômica, de ferro, e não molecular como as estruturas orgânicas. Os robôs não morrem, simplesmente podem ser destruídos por um ser humano sem relutarem. A maioria dos robôs são feitos para uma função específica, mas existe uma minoria que é composta de um cérebro positrônico mais bem elaborado, podendo desenvolver várias atividades, inclusive apresentando criatividade nessas atividades.

O papel social dos Robôs

O robô foi desenvolvido para servir e proteger o homem. Todo robô é por natureza escravo. Se o robô for versátil, apresentando uma logística menos automática, ele tem condições de se tornar livre. Porém, mesmo livre, o robô está sujeito a obedecer aos 3 mandamentos da robótica, tendo sido essa a sua condição inicial de existência e a primeira informação armazenada em sua memória. Se o robô não cumpre com competência os deveres para os quais foi designado, ele deve ser substituído.

Vantagens dos robôs
– O robô apresenta uma inteligência superior a de qualquer ser humano.
– O robô pode executar qualquer tarefa que lhe for dada, e dependendo de sua placa positrônica, pode executar apenas uma tarefa com perfeição incontestável.
– O robô não morre naturalmente, somente nas mãos do homem.
– Um robô de cérebro positrônico complexo e em boas condições pode mudar de corpo mecânico, quando o seu estiver em mau estado.
– O robô, além de extremamente inteligente também é muito forte, podendo essa força durar intacta até 25 anos em uma mesma estrutura mecânica.

Desvantagens dos robôs
– Os robôs são eternos escravos do homem.
– Mesmo os robôs mais complexos têm de cumprir os 3 mandamentos, pois foram programados para isso.
– A vida do robô está na mão do ser humano, de preferência o seu proprietário.
– Os robôs não têm sentimentos e a maioria não apresenta pensamento criativo.
– Os robôs são discriminados em razão do medo que a raça humana tem deles.
– Um robô pode ser facilmente reconhecido e vítima de preconceito em razão da sua estrutura de ferro.
– Mesmo quando é livre, e seu corpo apresenta estrutura biológica, o robô não pode ser considerado um homem, e sim um andróide, por causa de seu cérebro positrônico.
– Se o robô modificar a estrutura do seu cérebro positrônico para a estrutura de um cérebro biológico, ele fica vulnerável e morre facilmente.

Utilidades dos robôs
– Tarefas domésticas simples.
– Indústrias.
– Pesquisas científicas.
– Exploração espacial.
– Testes nucleares.

Tipos de robôs

Comuns – são aqueles que realizam uma tarefa específica com perfeição.
Versáteis – são aqueles que têm uma estrutura cerebral positrônica complexa, podendo fazer diversas tarefas com perfeição, chegando até a apresentar alguma criatividade.
Andróides – são os robôs versáteis em uma estrutura biológica comum.

Isaac Asimov é conhecido por suas histórias de robôs, seres dotados com cérebros positrônicos, que os conduzem a situações inesperadas e surpreendentes.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Asimov
Império de Isaac Asimov. Disponível em
http://anglopor8a09.vilabol.uol. com.br/index.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Ficção Cientifica

Semana do Escritor

Não resta dúvida de que a internet pode auxiliar a literatura, principalmente com relação à divulgação dos trabalhos de autores, lançamentos, dicas de leitura, discussões a respeito de obras…

Ela também te ajuda a encontrar aquele poema do qual você só se lembra um verso: basta uma pesquisa Google e você o terá inteiro. Contos, crônicas, todas as formas curtas encontram impulso na rede, além dos blogs de criações literárias. A Internet é ágil, não possui as tradicionais limitações de espaço ou de horário, e é ainda poderosa ferramenta de pesquisa cruzada. A internet também oferece obras.

Mas livros longos são difíceis de ler, mesmo com o e-reading e o e-book (espécie de programa de leitura e livro eletrônico portátil), então, a modalidade impressa ainda se faz mais eficaz. Livros eletrônico não têm cheiro, nem textura; não amarelecem com o tempo. Os livros são de papel: folheiam-se, dobram-se nos cantos, oferecem-se aos amigos com uma dedicatória manuscrita – afirmação do próprio Bill Gates, fundador da Microsoft, maior rede de software do mundo, em defesa de que o computador nunca irá substituir o livro. Assim, convém evitar algumas falsas questões, a começar pela idéia de que a impressão em papel é uma tecnologia condenada à obsolescência.

Como um dia se acreditou que o livro traria a libertação do ser humano e a possibilidade do conhecimento pleno, é importante não se render às promessas semi-religiosas da rede mundial para a comunhão dos povos e a distribuição do saber. A crença nos poderes virtuais, às vezes, parece ter gerado uma nova ideologia, um novo ismo, que se poderia batizar de virtualismo, tão nocivo quanto qualquer utopia.

Entretanto, acho que o maior aspecto negativo da internet em relação ao livro comum, é que a rede é uma teia dispersiva. Com tanta informação, creio ser missão impossível parar e ficar horas degustando uma história. Principalmente porque quando estamos em frente a um computador, mesmo que seja por lazer, o estado de espírito é outro: a curiosidade nos faz buscar outras coisas, diferente do momento de descontração em que você se deita em baixo de uma árvore, ou em sua cama antes de dormir, para deixar que o livro te leve a uma viagem de imaginação. Assim, essa pressa, agitação que temos em frente ao computador, atinge diretamente o prazer de ler, que é complexo e duradouro.

Quando perguntam às pessoas por que lêem tão poucos livros, elas dizem que é por falta de tempo. Mas todas têm algumas horas diárias, em média, para ficar entre o computador e a TV. Assim, a internet não é inimiga dos livros, mas adversária do tempo para os livros. Mas você ainda pode argumentar: pela internet você também pode acessar livrarias, sebos e receber seus exemplares em casa…e aí eu te digo, está aí um prazer que lhe é roubado: o de buscar as prateleiras, procurar uma obra e encontrar outra, de tocar, folhear, como que as mulheres quando estão em sua loja preferida, frente a enormes promoções e levam diversas peças consigo ao provador.
Assim, leia, aventure-se no mundo da imaginação e arrisque-se também a escrever. Por que não?

Todos temos experiências de vida, muitas estórias para contar. Sentimos o mundo cada um através de uma experiência sensorial diferente: divida a sua com os outros. A escrita pode também ser um exercício de auto-conhecimento, no qual você passa a se perceber melhor e a refletir sobre sua vivência.

Ótima oportunidade de se iniciar neste processo, é através da Semana do Escritor. O contato com escritores permite a troca de experiências, de dicas sobre o mundo literário, sobre o prazer de se ler e de também oferecer sua contribuição ao mundo, escrevendo…

A 4a. semana do escritor de Sorocaba ocorrerá de 22 a 27 de julho de 2008 na Fundec.

Fonte
Colaboração de DOUGLAS LARA

(Publicado na edição de 18/03/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A)
http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=47&id=72040

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Congressos - Eventos, Sorocaba