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Gilvan Lemos (Gilvan por Gilvan)

Gilvan (de Souza) Lemos nasceu na cidade de São Bento do Una – PE, no dia 1º de julho de 1928, onde fez os primeiros estudos e residiu até 1949, quando se transferiu para o Recife.

Curso de Francês na Aliança Francesa e de Inglês no Curso Maia.

Escreve desde os 15 anos de idade.

Publicou seu primeiro trabalho literário (um conto escrito em 1945) na revista Alterosa, de Belo Horizonte, em março de 1948.
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Desde criança a leitura tem sido o que existe de mais importante na minha vida. Primeiro me apaixonei pelos gibis. Me interessava também pelos livros infantis de Monteiro Lobato, que os mais velhos indicavam para que eu me instruísse, embora eu não os lesse com esse intuito, e sim por me divertir principalmente com as presepadas da Emília. Depois passei a ler romances. O primeiro que li, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, me conquistou definitivamente. A ficção continua a ser minha leitura predileta. Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura.

Daí nasceu o escritor, modéstia à parte, eu. Como dizia Osman Lins, quem convive com mágicos termina tirando coelhos do bolso. Foi o que aconteceu comigo. Aliás, se não fossem as influências, a arte em geral não teria prosseguido. É nos emocionando por alguém que nos propomos a imitá-lo.

O ato de escrever passou a ser a minha finalidade na vida. Quando estou escrevendo, não me interesso mais por coisa alguma. Me entristeço, me alegro, me emociono… Não sei como há escritores que “sofrem” para escrever. Rachel de Queiróz chegou a dizer que escrever, para ela, era o maior sacrifício. Se era assim, por que escrevia?

Me iniciei na época em que predominavam autores brasileiros como Erico Verissimo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lúcio Cardoso… Amei-os e imitei-os desordenadamente. Claro que hoje faço minhas restrições. De José Lins do Rego, salvo dois ou três romances, de Erico Verissimo, idem. De Lúcio Cardoso, nenhum; de Jorge Amado… restou a saudade. Foi quando “conheci” Graciliano Ramos. Ah, este ainda me agrada. Me identifico com todos os seus livros.

Comecei a escrever de teimoso que era. Em minha cidade – São Bento do Una, agreste meridional de Pernambuco –, não havia a menor possibilidade de prosseguir. Cidade atrasada, sem colégios, sem biblioteca, sem pessoas ligadas à literatura. Contava apenas com minha irmã mais velha, que, sem o curso secundário, como eu, era duma inteligência superior, lia muito e me orientava. Foi com sua ajuda que escrevi meu primeiro conto publicado na revista Alterosa, editada em Belo Horizonte. Quando publiquei o segundo, em 1948, já me considerava um escritor.

Mudei-me para o Recife em 1949. Com 21 anos incompletos, me julgando velho para iniciar o curso ginasial, passei a ler com o interesse de me ilustrar. Em 1951, obtive um prêmio instituído pelo Estado para romances inéditos com meu livro de estréia, Noturno sem música, publicado cinco anos depois em edição particular. Que passou completamente despercebido pela crítica local. Isso me decepcionou sobremaneira. O fato é que eu desejava apenas publicar um romance. Achava que, o publicando, estaria realizado. Mas o diabo é que passei a desejar ser famoso. Apesar de estar convicto de que fracassara, não deixei de escrever. Só para mim. Doze anos mais tarde arrisquei-me a remeter um novo romance à Editora Civilização Brasileira, principal editora de literatura na época. O livro – Emissários do diabo – foi aceito e publicado em 1968. A partir daí, as portas do paraíso se abriram para mim, e meus primeiros romances foram publicados no Rio, em São Paulo e Porto Alegre (no tempo da famosa Editora Globo). O povo da minha terra passou então a me conhecer.

Hoje tenho 21 livros publicados: 11 romances, 3 de novelas e 7 de contos, alguns premiados nacionalmente, outros já na 3ª edição. No momento, estou com dois livros em compasso de espera. Ambos em São Paulo. O primeiro, A era dos besouros, está programado para o fim do ano. Constitui-se de três novelas curtas: Ritual de danação, uma paráfrase de Jó, atual, com final surpreendente; Alugam-se quartos, dramas íntimos de vários moradores dum pardieiro desses “cai-mas-não-cai”; e, finalmente, a que dá título ao livro, história duma família, mulher e filho, que vive os momentos duvidosos da era da ditadura. O segundo, Na rua Padre Silva, é composto de contos “entrelaçados”, quase um romance, sobre pessoas humildes duma rua de pobres.

Os livros, só romances, que eu indico para os leitores do Cultura News, são aqueles de que mais gosto, como, por exemplo, os de Graciliano Ramos; Menino de engenho e Bangüe, de José Lins do Rego; Grande sertão: Veredas e Corpo de baile, de Guimarães Rosa, só para ficar nos do século passado, brasileiros. Não tenho lido autores novos. Estrangeiros, indicaria Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez; A casa verde, de Vargas Llosa; O ajudante, de Bernard Malamud; todos os do Coelho, de John Updike e outros que não me ocorrem no momento.

O “pessoal do Sul” acha que sou “regionalista”. Regionalista parelho aos escritores que se tornaram conhecidos a partir de 1930, sei que não sou. Ocorre que escrevo sobre o meio em que vivo. Retrato as pessoas com que convivo, recordo momentos da minha vida no interior… Em suma, escrevo sobre o que conheço, o que sei, o que me emociona. Para mim, o bom romance é o que nos provoca emoções. Detesto romances experimentais, enredos misteriosos, incompreensíveis, jogos de palavras… Acho que isso é coisa de quem não tem o que dizer. Para mim, romance é romance. Não se restringe a escolas, tempo, época. Quando o romance é bom, não tem idade.
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São mais de 20 livros de ficção publicados, além dos textos em coletâneas e periódicos.

I – Romances:

01. Noturno sem música. Recife: Ed. Nordeste, 1956. Prêmio Vânia Souto Carvalho, da Secretaria de Educação – PE. 2ª ed. Recife: Bagaço, 1996

02. Jutaí menino. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1968. Prêmios: Orlando Dantas, do Diário de Notícias (Rio); Olívio Montenegro, da UBE – PE. 2ª ed. Recife: Bagaço, 1995

03. Emissários do diabo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. Prêmio da APL. 2ª ed. São Paulo: Editora Três, 1974 (Coleção Literatura Brasileira Contemporânea); 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987

04. Os olhos da treva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. Menção Honrosa (Prêmio José Conde/Recife). 2ª ed. S. Paulo: Círculo do Livro,1983

05. O anjo do quarto dia. P. Alegre: Globo, 1981, Prêmio Érico Veríssimo, da mesma editora. 2ª ed. São Paulo: Globo, 1988. 3ª ed. Recife: Bagaço, 2002

06. Os  pardais estão voltando. Recife: Guararapes, 1983

07. Espaço terrestre. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1993

08. Cecília entre os leões. Recife: Bagaço, 1994.  2ª ed. Recife: Bagaço: 2007

09.  A lenda dos cem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. 2ª ed. Recife, Ed. Bagaço, 2005

10.  Morcego cego. Rio de Janeiro: Record, 1998

11.  Vingança de desvalidos. Recife: Nossa Livraria, 2001

II – Contos:
          
01. O defunto aventureiro. Recife: EDUFPE, 1974. Menção Honrosa do Prêmio José Lins do Rego, da Ed. José Olympio (Rio). 2ª ed. Recife: Bagaço, 2001

02. Os que se foram lutando. Rio de Janeiro: Artenova, 1981

03. Morte ao invasor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984

04. A inocente farsa da vingança. São Paulo: Estação Liberdade, 1991

05. Onde dormem os sonhos. Recife: Nossa Livraria, 2003

06. Largo da alegria. Recife: Bagaço, 2003

III – Novelas:

01. A noite dos abraçados. Porto Alegre: Globo, 1975

02. O mar existe. In: A inocente farsa da vingança. São Paulo: Estação Liberdade, 1991

03. Enquanto o rio dorme. Recife: Bagaço, 1993 (uma das novelas de A noite dos abraçados)

04. Neblinas e serenos. Recife: Bagaço, 1994 (duas das novelas de A noite dos abraçados). 2ª ed. Recife: Bagaço, 1995

05. A Era dos Besouros – Editora A Girafa – São Paulo – Maio de 2006

06. Na Rua Padre Silva – Editora Nossa Livraria – Recife – Outubro de 2007

IV. Contos nas coletâneas:

01. O urbanismo na literatura. Rio de Janeiro: Livros do Mundo Inteiro, 1975

02. O novo conto brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985

03. Seleta de autores brasileiros. Rio de Janeiro: Jornal de Letras, 1987

04. Memórias de Hollywood. São Paulo: Nobel, 1988

05. Contos de Pernambuco. Recife: Massangana, 1988

06. Erkundunger 38 Brasilianische Erzahler. Berlim: Verlag Volk und Welt Berlin, 1989

07. Le serpent a plume. Paris, 1994

08. Caravanes. Paris, 1998

09. Antologia do conto nordestino. Recife: Micro, 1998

10. Panorama do Conto em Pernambuco – Fundação Maximiano Campos  – Recife – Outubro de 2007

Fontes:
http://www.livrariacultura.com.br/
http://www.releituras.com

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Ari Bandeira (Autobiografia)

Ari Bandeira, poeta escritor e professor; sou natural da cidade de Barreira – CE.

Sou formado em Ciências pela UECE. Pós-Graduado em e Química e Biologia pela Universidade KURIOS. E sou professor da Escola José Pereira no município de Ocara – CE.

Atualmente sou Presidente da AESCRIBA – Associação dos Escritores da Região do Maciço de Baturité – CE.

Esse é meu 36º trabalho, e foi um imenso prazer escrever esta homenagem ao “Rei do Baião” este patrimônio da cultura e da musica brasileira. espero que vocês leiam, gostem e aguardem o próximo trabalho.

OBRAS

01 – A Historia de Barreira – 1998.
02 – Amor e Poesia – 2000.
03 – Vida de Estudante – 2001.
04 – Chorozinho sua Historia e devoção ao menino Jesus – 2001.
05 – Vida de Cachaceiro- 2002.
06 – Hoje Barreira tem Prefeito-2002.
07 – Mãos ao alto – 2003.
08 – Versos Contra Dengue – 2003.
09 – S.O.S Meio Ambiente – 2004.
10 – Meu Verso Maior – 2004.
11 – A Menina e a Gatinha -2005.
12 – Danisio Correa “21 anos de Historia” – 2005.
13 – Barreira e suas Barreiras – 2005.
14 – AESCRIBA – 2005.
15 – O Liceu do Horizonte – 2005.
16 – A partida – 2005
17 – Deficiência não é falta de Eficiência – 2006.
18 – Vida de Sertanejo – 2006.
19 – Salvem o planeta – 2007.
20 – O analfabeto e o alfabetizado – 2007.
21 – Santa Paulina e o Santuário em Barreira – 2007.
22 – Boca rica, arte e alegria – 2007.
23 – Uma Escola e sua historia – 2007.
24 – Antologia, II poetas do Brasil (participação) – 2007.
25 – Preserve a água – 2008.10
26 – Cidade Sem Prefeito -Abril – 2008.
27 – Cearense Fala é Assim – 2008
28– O mundo é um jardim e mamãe é uma flor – 2008
29 – A gaiola não é morada a gaiola é uma prisão – 2008
30 – Cem Anos de Patativa – 2009
31 – Danisio Correa: Escola Arvore do Saber 2008
32 – ABC da Poesia – 2009
33 – Homenagem a São Pedro Jun 2009
34 – O que é Cultura 2009
35 – O ponto de Cultura Julho de 2009

Fonte:
Autobiografia enviada pelo autor

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Rosângela Trajano (1971) Autobiografia


Nasci aos 18 de junho de 1971, na cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, no Hospital Luis Soares. Fui uma criança pobre e com pouquíssimos brinquedos, embora feliz. Minha vida estudantil iniciou-se na Escola Municipal Chico Santeiro. Fui uma menina mimada por papai e mamãe. Até que um dia meu pai não quis ser mais meu pai, partiu. Ficamos nós cinco: eu, mamãe e meus três irmãozinhos sozinhos nesse Universo enorme. Mamãe foi uma mulher guerreira, venceu todos os obstáculos à sua frente. Ela foi mãe e pai aos mesmo tempo; esteve presente nos momentos de solidão e de multidão; certo dia, ela nos contou que voltaríamos a ter água gelada, televisão e que não seria difícil comer um pão. Eu adorava os dias de chuva e ficava a correr com as panelas e vasilhas pra baixo e pra cima atrás dos pingos d’água que caíam das telhas dentro da nossa casa. Ah! Mamãe, você foi tão grande! Você nos contou, ainda, que seríamos felizes. Uma fada madrinha um dia traria a nossa felicidade, quando esta fada foi, é, e sempre será VOCÊ, MAMÃE!

O bairro onde nasci e moro até hoje é pequeno, chama-se Bairro Nordeste. Aqui, é o lugar onde encontro inspiração para escrever minhas poesias, histórias, contos, cartas, crônicas e romances. Na nossa casa tinha um cajueiro que nós adorávamos, mas um dia o cupim derrubou a nossa árvore. Dias depois, acordamos com o telhado da casa indo abaixo, o cupim estava destruindo tudo. Os cupins viviam a nos perseguir, eram os nossos piores inimigos depois da fome. Porém, os nossos vizinhos sempre nos ajudaram. Naquela noite cada um dormiu na casa de um parente próximo.

Perto da minha casa tem um grande manguezal. Foi de lá que tiramos a nossa alimentação para sobrevivermos quando papai nos abandonou e o dinheiro da mamãe acabou. Meu irmão, Robério, que hoje, graças a Deus, veste-se de paletó e gravata, voltava da maré todo sujo de lama e com um balde cheio de caranguejos para serem vendidos. Roberto e Rogério vendiam os caranguejos para comprar farinha, café, feijão etc. E mamãe, mesmo com problemas na coluna fazia de tudo um pouco pela nossa sobrevivência: costurava, vendia dindin, cocada, tapioca, etc. O sofrimento era grande, mas nós nunca deixamos de acreditar no futuro. Íamos à escola todos os dias.

Hoje, mais de vinte anos, olhamos para o passado e sorrimos dele. Somos vitoriosos. Nossa casa continua simples, mas já não falta comida. Todos conquistaram seus sonhos. Mamãe é feliz, para mim, isso é muito importante! Ela merece esse sorriso nos lábios até os últimos dias da sua vida.

Eu sou uma curiosa, metida a besta e inteligente. Fiz alguns vestibulares, fui reprovada em alguns e aprovada em outros. Devia ter concluído o curso de Sistemas de Informação, mas abandonei. Larguei esse curso para fazer Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Publiquei meu primeiro livro intitulado Carrossel de Poesias (Poesias para crianças), no dia 01 de dezembro de 1999. Numa noite belíssima, na Capitania das Artes, rodeada de crianças, amigos e familiares. Um coquetel maravilhoso, meus olhos brilhavam mais que todas as estrelas no céu e as pernas tremiam. Esse livro foi um presente às crianças do meu Brasil, porque foi através delas que encontrei a esperança para lutar pela realização dos meus sonhos.

Meu segundo livro intitulado Giges e o anel, também foi publicado no mês de dezembro no ano de 2003, na Bueno Livraria, localizada no Natal Shopping, em Natal-RN.

De lá para cá não parei mais de publicar livros. Acho que já são uns trinta e poucos.

Escrevo para alguns periódicos locais, sou licenciada em filosofia, mestra em literatura comparada, professora de filosofia, inglês e produção textual além de pesquisadora na área de filosofia para crianças e contação de histórias. Gosto de programação de computadores e matemática. Além do mais adoro viver!

Não bebo e não fumo. Adoro nadar! Curto caminhar, também. Algumas pessoas me perguntam porque não me casei ainda, digo-lhes que sou casada com os meus poemas e tenho um grande amor na minha vida: o céu com as suas estrelas.

Quando quero um refúgio vou à praia de Jacumã, lugar de uma rara tranquilidade. Eis-me, um ser humano como outro qualquer, entre qualidades e defeitos, sonhos e realidade.

Fonte:

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Rudinei Borges (Auto-Retrato)

Dados Biográficos
Rudinei Borges nasceu em Itaituba/PA, cidade localizada às margens do Rio Tapajós, afluente do Amazonas, onde todos os dias chegam inúmeras embarcações. Viveu parte da infância em sítios e chácaras da Rodovia Transamazônica e Santarém-Cuiabá. A outra parte num bairro itaitubense chamado Liberdade. Estudou nas escolas Raimundo Pereira Brasil e Isaac Newton. Morou em Santarém/PA e em 2003 mudou-se para São Paulo. Formou-se em Filosofia. Atualmente é Professor Titular de Filosofia na Rede Pública do estado de São Paulo. Educador Social com experiências realizadas no Terceiro Setor, onde busca favorecer o desenvolvimento de pessoas de diversas faixas etárias, através do estímulo à reflexão filosófica e à criação literária. Seus estudos e pesquisas situam-se no âmbito da filosofia, filosofia da educação, literatura e teatro.
É co-autor dos livros Educar e Aprender e Bate-papo no gramado, ambos pela editora In House. (2009)
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Auto-Retrato

Sou um poeta, um escritor do mato, mesmo amando a inteireza e a loucura das grandes metrópoles. Mesmo que eu tenha armado a minha oca em São Paulo. Eu nasci em Itaituba, no interior do Pará. É uma cidade localizada às margens do Rio Tapajós, afluente do Amazonas. Talvez o mais bonito. Sou filho de migrantes que mudaram para as terras paraenses na década de 1970, com a abertura da Rodovia Transamazônica e Santarém-Cuiabá. Vivi parte de minha infância em chácaras e sítios nessas rodovias. Por isso, as imagens antigas que povoam a minha memória são uma aglomeração de vacas, poeira, lama, estradas, caminhões, barcos, barro, casas de chão de terra batida, rios, igarapés, árvores, rezas, capelinhas, quintais e rostos suados.

Com seis anos, quase completando sete, fui morar na cidade e só nessa época comecei a estudar num colégio público, Coronel Raimundo Pereira Brasil. Era uma escola pequena de nome grande, nome de coronel do tempo em que borracha e seringueira valiam ouro. A escola foi o desvendar de um mistério. Lembro as primeiras letras ensinadas pela mãe. A professora contava e recontava contos de fada. E hoje ouço gente que fala mal de Cinderela e Patinho feio. Eu gostava de ouvir tudo aquilo. Foi essencial para a minha formação. Como foi essencial o medo que eu tinha de ir até o matagal atrás da sala de aula, onde diziam que morava a Matinta Perera.

Anos depois recebi uma bolsa do Colégio Isaac Newton. Lá concluí o Ensino Médio e fiz peripécias como performances com poemas, teatro e exposição de poesias.

Comecei a inventar de escrever aos treze anos, com a crença de que tudo o que eu escrevia era bárbaro e empolgante. Sempre um pouco de prosa e poesia. A minha mãe trouxe os poetas românticos, os professores os modernos. Foram vários instantes de deslumbramento e as influências estão em meus escritos: Mário e Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira e Ferreira Gullar. A leitura de Chove nos campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir talvez tenha sido um dos maiores acontecimentos em minha jovem vida literária. Foi com Dalcídio que descobri um amor, até então não muito claro, pela Amazônia, pela gente amazônica. Este olhar para o espelho, o reconhecimento das próprias raízes, foi imprescindível. Eu tenho uma aldeia. E mesmo distante, é de lá que vem esta força que me sustenta (força pouca, força grande).

Morei um ano em Santarém e depois mudei para São Paulo, capital, onde me formei em Filosofia. Hoje estou no mestrado em Educação na Universidade de São Paulo – USP. Vivo entregue a vários projetos literários e escrevo e escrevo. Crio personagens e heterônimos. Pouco foi publicado. Sou co-autor de dois livros pela editora In House: Educar e aprender e Bate-papo no gramado.

A minha literatura habita entre o abrupto e o singelo – pelo menos é essa a crítica que posso fazer agora. De um lado há a ternura do cotidiano, a sagacidade do homem e sua terra. De outro a angústia, a revolta, a pesquisa em torno da existência e da solidão humana. É quase como se morassem em mim dois escritores. De um lado uma procura pela filosofia do encontro de Martin Buber e a obra de Adélia Prado, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Manoel de Barros. De outro Sartre, Beckett, Camus, Kafka, Hilda Hilst, Bergman e Milton Hatoum me atormentam.

Sou um escritor em construção.

Fontes:
Jornal de Poesia.
Curriculo Lattes

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Anderson Braga Horta (1934)

O Autor por Ele Mesmo

Nasci na cidade mineira de Carangola, em 17 de novembro de 1934. Meu pai, o advogado Anderson de Araújo Horta, e minha mãe, Maria Braga Horta, eram professores e poetas. Assim, criado num ambiente de respeito à cultura e amor aos livros, posso dizer que recebi em casa mesmo os primeiros estímulos literários.

A família morou, sucessivamente, em Carangola, Manhumirim, Belo Horizonte, novamente em Manhumirim, depois em Resplendor, Mutum, outra vez em Carangola. Já então acrescida dos manos Arlyson, Augusto Flávio e Maria da Glória. Em 1942 fomos para Goiás, passando três anos na antiga e dois na nova capital do Estado. Em Goiás Velho nasceu o caçula, Goiano.

De volta a Minas, novo périplo em redor de Manhumirim, onde residiam meus avós maternos: Aimorés, Mantena, Lajinha, cidades que eu visitava nas férias, pois, tendo começado o ginásio em Goiânia, fiz, nesse período (de 1947 a 1953, para ser exato), as três últimas séries em Manhumirim e o clássico em Leopoldina. Já me encontrava no Rio de Janeiro, cursando Direito, quando para lá se mudou a família, em 1956.

Transferi-me para Brasília em julho de 1960, como redator da Câmara dos Deputados, a cujo serviço fora admitido em 1957 como datilógrafo. Os irmãos foram também atraídos pelo Planalto Central, a que finalmente aportaram os pais, em 15 de novembro de 1964.

Exerci ainda o jornalismo e o magistério, tanto no Rio quanto em Brasília. Meu primeiro trabalho, contudo, foi como securitário, na Velha Capital, a não ser pelos meses em que lecionei no Seminário de Leopoldina, cidade em que prestei, após o curso clássico, o serviço militar (tiro-de-guerra).

Já radicado em Brasília, casei-me no Rio, em 1962, com a capixaba (de Cachoeiro de Itapemirim) Célia Santos. No ano seguinte nasceram os gêmeos, brasilienses, Anderson e Marília.

Meus pais aqui faleceram, mamãe em 1980, papai cinco anos depois.

As primeiras impressões literárias que retenho datam da cidade de Goiás: uma página de Humberto de Campos em que o autor, na primeira pessoa, confessava um furto de menino —o que me deixou consternado—; e o “Pequenino Morto”, de Vicente de Carvalho, cujos melodiosos hendecassílabos encheram minha alma infantil de tristeza. Em Goiânia me tornei leitor voraz de histórias em quadrinhos e de todos os livros que havia em casa — Gato Preto em Campo de Neve e Clarissa, Ecce Homo e Assim Falava Zaratustra, Meu Destino É Pecar (isso mesmo, o livro proibido de Nélson Rodrigues) e o mais em que pude pôr a mão e os olhos. A impossibilidade de compreender tudo não era obstáculo ao entusiasmo do jovem devorador de letras.

Por essa época, apesar da força atrativa dos quadrinhos, que me guiou a mão numa série de rabiscos, até mesmo numa historieta de texto e desenhos típicos, o autor mais amado foi, sem dúvida, Monteiro Lobato, por sua obra infanto-juvenil, que reputo ainda hoje incomparável.

Mas quem me levou a escrever poesia, conforme tenho repetido em páginas de depoimento literário, foi mesmo Castro Alves. As primeiras tentativas, frustradas, resultantes em prosa ritmada, datam de Manhumirim, ao tempo em que freqüentava o Colégio Pio XI. As primeiras realizações, de Leopoldina, em 1950.

A outra grande influência de então foi Bilac. E, depois, tantos poetas que nem convém enumerar! Dos clássicos aos românticos, dos parnasianos aos simbolistas, desses aos modernos, que me ensinaram a quebrar o verso, sem descartar a tradição.

Penso que o poeta não pode deixar de se assenhorear das técnicas do verso, embora a técnica, obviamente, não seja tudo. Que ao escritor compete extrair do potencial de sua língua toda a cintilação que possa, dignificando-a sempre. Que escrever é atividade intelectual, sim, mas não se esgota no âmbito do intelecto; que o poeta há de comover-se e comover, sim, mas não se há de entregar, ingenuamente, à emoção desassistida da inteligência, porque a emoção, por si só, não é ainda arte, não é ainda poesia. Que a esse amálgama de pensamento, emoção, sentimento que é o poema não se deve tolher o voltar-se para a sorte do homem no espaço e no tempo, seja do ponto de vista filosófico, seja do social; pois à poesia, arte da palavra, interessa necessariamente tudo o que de humano se possa representar nela. E que, portanto, a arte do poeta há de ser mais complexa, mais completa, mais abrangente e mais profunda do que tendem a fazê-la os jogos —algumas vezes brilhantes— a que pretendem reduzi-la correntes revolucionárias.

Isso posto, confessadas, via de conseqüência, as minhas próprias limitações, passo, com a possível humildade, ao balanço de quatro décadas de produção poética —omitida, quase totalmente, a inicial—, balanço em que, de algum modo, se traduz a seleção de poemas que ofereço ao leitor.

Brasília, 31 de maio de 1999

Fonte:
Academia Brasileira de Poesia da Casa de Raul de Leoni

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Graciliano Ramos (Auto-Retrato)

Retrato de Graciliano, por
Cândido Portinari

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu “Caetés” com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia. Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros “Selma” (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-Ihe indiferente estar preso ou solto.
Escreve à mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.

Fonte:
http://www.graciliano.com.br/

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Luís da Câmara Cascudo (Um provinciano incurável)

Nasci na Rua das Virgens e o Padre João Maria batizou-me no Bom Jesus das Dôres, Campina da Ribeira, capela sem tôrre mas o sino tocava as Trindades ao anoitecer. Criei-me olhando o Potengi, o Monte, os mangues da Aldeia Velha onde vivera, menino como eu, Felipe Camarão. Havia corujas de papel no céu da tarde e passarinhos nas árvores adultas, plantadas por Herculano Ramos. Natal de noventa e seis lampiões de querosene. Santos Reis da Limpa em janeiro. Santa Cruz da Bica em maio. Senhora d’Apresentação em novembro. Farinha de castanhas e carrossel. Xarias e Canguleiros. Natal que se apavorou com o holofote, enchendo as igrejas de bramidos e arrependimentos. Auta de Souza embalou-me o sono. Pedro Velho pôs-me na perna. Vi Segundo Wanderley declamar. Ferreira Itajubá cantando. Alberto Maranhão passeando a cavalo, manhã do domingo. Tinha treze anos quando veio a luz elétrica. Festas no Tirol. Violão de Heronides França. Livros. Cursos. Viagens. Sertão de pedra e Europa.

Nunca pensei em deixar minha terra.

Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivências dos humildes, sábios, analfabetos , sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade. Nossa casa no Tirol hospedou a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo. Intimidade com a velha Silvana, Cebola quente, alforriada na Abolição. Filho único de chefe político, ninguém acreditava no meu desinteresse eleitoral. Impossível para mim dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com sua gente. Foram os motivos de minha vida expostos em todos os livros. Em outubro de 1968 terei meio século nessa obstinação sentimental. Devoção aos mesmos santos tradicionais.

Meu povo tem a mesma idade para o interesse e a valorização afetuosa.

Dois homens quiseram fixar-me fora de Natal:- Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e Agamenon Magalhães no Recife. Jamais os esquecerei, porque nada pedira. Alguém deveria ficar estudando o material economicamente inútil. Poder informar dos fatos distantes na hora sugestiva da necessidade.

Fiquei com essa missão. Andei e li o possível no espaço e no tempo. Lembro conversas com os velhos que sabiam iluminar a saudade. Não há um recanto sem evocar-me um episódio, um acontecimento, o perfume duma velhice. Tudo tem uma história digna de ressurreição e de simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória.

Em 1946 fiz parte de uma comissão enviada pelo Ministério das Relações Exteriores ao Uruguai. Éramos três: Aloísio de Castro, Angione Costa e eu, único sobrevivente.

Voltando, contou-me Aloísio de Castro que Afrânio Peixoto, sabendo da expedição cultural, dissera num leve riso – “E ele deixou o Rio Grande do Norte? Câmara Cascudo é um provinciano incurável!”

Encontrara meu título justo, real, legítimo.
PROVINCIANO INCURÁVEL !

Nada mais.

(Este texto, escrito pelo próprio Cascudo, foi publicado pela primeira vez no livro Província, editado pela Fundação José Augusto, em 1969. Desde então, tem sido presença obrigatória em qualquer obra sobre Cascudo).

Fonte:
http://memoriaviva.digi.com.br/cascudo/vida5.html

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