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João Batista Xavier Oliveira (Poesias Escolhidas)

João Batista Xavier Oliveira nasceu em Presidente Alves/SP, em 16 de junho de 1947. Reside em Bauru/SP, desde 1975.
Blog http://jobaxaol.blogspot.com
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ISOLADO ENCANTO

Salão repleto, nobre de artes belas,
murmúrios, gestos, ares estilistas.
O afago forte nos pincéis de artistas
moldura abraços, traços, luz nas telas.

A flor disposta à porta em todas vistas
exala as auras plácidas, singelas.
Porém as vistas todas são aquelas
voltadas às paredes tão benquistas.

Se os quadros levam ao encantamento
no brilho mais audaz de um só momento…
o vaso à entrada ampara, preterida,

a forma que transforma a transparência:
– a tela estampa a vida, é conseqüência;
a flor no entanto é causa, pois tem vida!

JOIO

Por que nós complicamos singelezas
pelo simples sabor de afirmação;
por que não escutar o coração
que pulsa as vibrações das incertezas…

se temos ao alcance o corrimão;
degraus que facilitam mãos coesas;
o dom de emocionarmos às belezas…
Por que só ver a luz na escuridão?

Estamos de passagem simplesmente.
Abrindo com desvelo nossa mente
o mundo é bem maior em nosso espaço.

Por que nós complicamos as passagens
seguindo a realidade das miragens?
A vida é bela e o tempo é bem escasso!

L I B E R D A D E

À pequenina flor pedem passagem
as liras das libertas redondilhas
que fazem amplidões das suas ilhas
e os versos se esvoaçam na miragem.

E quantos que desejam maravilhas
largando as mãos que prendem a coragem
nas ilusões que agitam mas não agem,
levando os sonhos às tribos das trilhas…

Desejam ares nos mares sem costas,
os abandonos das peias supostas,
para os grilhões dos fugazes delírios.

Neste meu mundo deveras pequeno
ao horizonte dos olhos aceno
vôo nas asas das vestes dos lírios!

HARMONIA DO OLHAR

Um mavioso som esparziu-me à mente
de repente, alucinadamente,
ao deparar-me no alarme do olhar
do teu mundo de olhar.

No ínfimo espaço do nosso íntimo
apenas o som das veias
que incendeias nas entranhas.
Uma canção acaricia
Os nossos tatos dos olhos.

Latente harmonia
explode em êxtases…
E deparamo-nos no santuário
onde a pauta é infinita.

É o coral do suprassumo!
Ali mesmo se chega às estrelas!
Nossos corpos são nossos olhos!
Adentramos nas almas
e purificamos a eternidade!!

M A L G R A D O

O tempo está perdendo consistência;
pessoas mal conseguem meditar;
o frenesi, filhote da ciência,
lugar-comum, qualquer seja o lugar.

É a nova era, a febre da existência,
vendendo tudo, até a luz do luar!
E mais distante a luz da Providência
ao livre-arbítrio brilha sem parar.

Como é pequena a vida que se encerra
na plenitude fria da alquimia;
na inexorável sina de uma guerra…

E mesmo assim, malgrado a algaravia,
os nortes fazem parte desta terra;
auroras prenunciam outro dia…!

INSPIRAÇÃO

Ao longe o casarão adormecido,
 refúgio de sonoras nostalgias,
 ecoa, num lampejo, melodias
 que pairam, esparzidas, sem sentido.

 O som das uniões de algaravias,
 buscando modelar no meu ouvido,
 parece desenhar quadro esquecido
 nas pautas de diletas sinfonias.

 Na sintonia fina então repouso
 e o pranto sincopado é o refrigério.
 O enlevo de voar se faz presente.

 Cantar a realidade jamais ouso.
 Ao longe o casarão é meu mistério;
 é a inspiração que pulsa tão fremente!

V I A G E M

 Ganho momentos da vida
 para recordar momentos
 que minha infância querida
 legou aos meus pensamentos.

 Infância da ingenuidade,
 dos planos mirabolantes
 de conquistar a cidade
 e mudar o que era antes.

 Infância bola-de-gude
 entre os dedos tão certeiros;
 o êxtase da virtude
 atravessando os bueiros.

 O taco no pega-pega,
 balança-caixão e pique,
 passa-anel e cabra-cega,
 estilingue e piquenique.

 Matinê e amarelinha,
 lobisomem e sacis,
 roubar manga da vizinha,
 sempre escapar por um triz.

 Mocinho e vilão, ciranda,
 jogar pedras no telhado,
 caminhar atrás da banda,
 fincar os pés no molhado.

 Esconder a nota baixa,
 brigar por qualquer motivo,
 fazer brinquedo de caixa,
 se esbaldar no morto-vivo.

Sujar a roupa sem dó,
 escalar o jatobá,
 encher a casa de pó,
 confessar o que não há.

 No carnaval bater lata,
 soltar pipa no campinho.
 O resmungão que maltrata;
 carrapicho, prego e espinho.

 Perna-de-pau no palhaço
 anunciando na rua…
 quem tiver nervos de aço
 vai ver homem que flutua.

 Nas férias, o carrossel,
 e as arapucas no mato.
 No natal, papai-noel;
 o presente no sapato.

As trancinhas da menina,
 calças curtas do menino,
 olhares soltos na esquina,
 o sorriso pequenino.

 Ser craque de futebol,
 vingar-se do grandalhão:
 __conquistar lugar ao sol
 e a força do medalhão.

 Aquele dente-de-leite
 a chuva tirou do teto,
 boneca virou enfeite,
 espinha no rosto é afeto.

 O pensamento maduro
 põe os pés no chão agora;
 pela porta do futuro
 linda infância foi embora.

 Oh! infância viajante
 onde o céu era o limite,
 hoje é um mundo tão distante…
 não há fase que a imite.

 Oh! infância da pureza
 angelical, saudosista
 de sonhar sua beleza
 que minha alma não desista!

 Quem viveu a plena infância
 sabe do que estou falando.
 Lembrá-la encurta a distância
 e esquece o mundo nefando!!
(Da antologia “Quando vierem as rosas” 2009 UBT Seção de Bauru.)

Fonte:
Facebook do autor

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