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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Yehudi Bezerra

Yehudi Bezerra (1946 – ?) faleceu jovem, tendo deixado impresso apenas um livro de contos, Tocaia (1977). Ficaram inéditos Momentos (poemas de 1964 a 1970), Barriga de Bombo ou As Desventuras de Pedroca Mundo, 1º. lugar no Concurso Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro e, em preparo, A Revolução das Bonecas e o romance Tonante.

As nove histórias de Tocaia se desenvolvem em pequenas cidades do Ceará e os personagens são quase sempre homens e mulheres simples. Mas há também coronéis-fazendeiros (os antigos chefes políticos, herdeiros dos coronéis da Guarda Nacional), padres, autoridades constituídas, em permanentes embates com seus rivais. Cada narrativa é um drama de violência e morte, com desfecho de tragédia. O título do volume expressa bem essa constatação.

Yehudi Bezerra faz uso da narração em primeira pessoa e também em terceira, com raríssimos diálogos e quase nenhuma descrição. Cada personagem-narrador tem características próprias. Na primeira obra, “Tocaia”, Venâncio Lustosa espera, pacientemente, atrás de uma moita, a passagem de Joca Viana, para matá-lo e vingar a morte do coronel Zezinho do Vale, em cujas terras, a fazenda Água-Bela, o matador trabalhava “no cabo da enxada ou da foice”. Venâncio parece falar para si mesmo (monólogo interior), até que na metade da narrativa diz ter conhecido Joca há muitos anos, desde “quando ele andava lá pras bandas de Penedo, nossa terra”. Somente então o leitor percebe que o matador fala para outra pessoa. Pouco mais adiante aparece detalhe do interlocutor: “Você era menino, nesse tempo”. Algumas linhas depois a informação se enriquece: O outro é irmão de Venâncio (“Rosalinda, nossa mãe”). E se reafirma com estas palavras: “você é meu irmão”. Ao final, o leitor compreenderá por que no início da narrativa o narrador parece monologar: “Pena você ser mudo, senão eu ia ouvir o que você tinha pra dizer”. Ou seja, o monólogo se transformaria em diálogo.

Em “Mané Piauí, Colo e o Vigário”, não fosse a única vez em que o “eu” aparece, embora em elipse, o leitor não veria no narrador um personagem: (…) “nunca vi tão leve no carregar uma dama” (…). Isto é, o ponto de vista seria do escritor/narrador onisciente. Trata-se de história do tipo oral, narrada nos pretéritos mais-que-perfeito, perfeito e no imperfeito.

Luiz, engenheiro recém-formado, de “Durante a viagem”, narra no tempo presente (monólogo interior) uma viagem de trem, de Fortaleza para Iguatu. Vez por outra, relembra fatos e faz uso do pretérito: “Um dia, no cabaré, eu estava numa das mesas” (…). Todos os pequenos fatos e incidentes e até um crime de morte vistos pelo protagonista são narrados detalhadamente.

Em “O Prefeito e sua gente”, o contista se vale do discurso indireto livre: o narrador onisciente dá voz ao personagem, sem uso de travessão ou aspas, isto é, na fusão da terceira e da primeira pessoa. Como quando se refere ao negro Mundurí: (…) “o diabo do negro não morreu” (…) “eu tenho corpo fechado” (…) Na verdade, são falas e diálogos no interior da narração.

Por último, o protagonista de “A Vida na Ponta da Língua”. Preso por homicídio, monologa em volteios, ora no passado, ora no presente: “sou um negro que conheço o meu lugar”; “perguntou onde era que eu tinha roubado aqueles couros”.   

Nas composições com ponto de vista onisciente, os personagens interagem, logicamente, e os conflitos se desenrolam aos olhos do leitor. Alzira, João e a filha Vilani, de “Oi, Gostosa!”, vivem típica história de costumes do sertão nordestino. O tempo se dilata a cada segmento da narrativa, passado e presente se confundem. Em “Larí Cabeção” o protagonista sobressai. Alarico se torna apenas Larí.  Filho espúrio, menino humilhado pelos outros, larápio de quinquilharias, Larí é um zé-ninguém. O tempo se arrasta e as ações se sucedem, para alcançar deslinde nada trágico: Larí chega à capital, volta a ser Alarico e se torna bandido de respeito. Típico conto de personagem. Em “Uma questão de honra” a trama gira em torno do tradicional triângulo amoroso, com todos os ingredientes de tragédia: Dorinha, Valdomiro e João. Aqui também os seres fictícios se sobrepõem ao drama, porque de desfecho anunciado, como é de praxe nesse tipo de história. Em “O Prefeito e sua gente”, vê-se mais um conto de personagens, como o próprio título indica. São tipos sertanejos clássicos em ação: um coronel, seus opositores políticos, sua mulher bonita, um padre mulherengo, um guarda-costas fidelíssimo. Em “O Pessoal da Rua 7” alguns seres fictícios se envolvem em diversos episódios entrelaçados.

Os narradores dos contos em primeira pessoa são tipos diferentes entre si e a manipulação da linguagem varia de narração para narração. Venâncio é narrador lento, quase silencioso, porque fala para seu irmão mudo, atrás de uma moita, em tocaia. A linguagem, apesar de coloquial, é correta na construção frasal. Uma ou outra palavra é grafada como no linguajar sertanejo: “peduvido” (pé-do-ouvido); “gavando” (gabando); “mindim” (mindinho). O protagonista de “Durante a viagem” é engenheiro e, portanto, tem um maior domínio da linguagem do que um simples matuto. Sua dicção não chega a ser erudita, mas as frases têm estrutura da língua culta. No entanto, faz uso de termos e expressões populares ou da gíria. O terceiro personagem-narrador está preso, após matar um homem. Como Venâncio, é um pobre serviçal de coronel. Sua fala é de fácil compreensão de leitores ou ouvintes de todos os matizes. Uma ou outra palavra pode parecer estranha a alguns, como “destamainho”.

Já o ponto de vista onisciente nas demais obras apresenta diversas variantes. Assim, em “Oi, Gostosa” as frases são curtas e os diálogos breves se intercalam às narrações. A trama se inicia com alguns retrospectos e tem no desenlace a gravidação de Vilani e sua expulsão de casa, pelo padrasto. Em “Mané Piauí, Coló e o Vigário”, o contista utiliza, aqui e ali, o diálogo indireto no interior da narração, quase toda no pretérito imperfeito. Em “Larí Cabeção” presente e pretérito perfeito se misturam ao longo da narração sem diálogos. “Uma questão de honra” também não apresenta falas. Em “O prefeito e sua gente” o leitor pode perder o fôlego desde o início, com longos períodos apenas virgulados. O primeiro ponto aparece na quarta página. As frases seguintes são um pouco mais curtas, de uma página. Em “O pessoal da rua 7” ocorre um entrelaçamento de histórias. No primeiro momento o protagonista é Chico, depois Chico Beira D’água. A seguir, Vila ou Vilani, “a mais valente rapariga daquelas bandas”. O terceiro personagem aparece logo: Rocildo ou Cidinho. O quarto é Zé Põe no Mato e o quinto, Maria. Algumas falas aparecem entre aspas.

Os dramas de Tocaia têm como raízes o modo de vida, a cultura da violência, os costumes sertanejos. Os enredos de Yehudi Bezerra, de tão fechados, costurados, dão ao leitor a impressão de que os desenlaces não poderão ser outros senão o fim trágico do protagonista ou do seu oponente. E isto não se dá sempre. Pois o contista prega uma peça no leitor a cada obra. Como a dizer, o realismo pode ser muito mais do que óbvio, sem precisar ser fantástico ou mágico.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Francisca Júlia (1871 – 1920)

Francisca Júlia da Silva Munster nasceu em Eldorado Paulista/SP, 31 de agosto de 1871  e faleceu em São Paulo, 1 de novembro de 1920) 
Sua estreia literária deu-se em 1891, nas páginas do jornal O Estado de São Paulo. Colaborou no Correio Paulistano e no Diário Popular, que lhe abriu as portas para trabalhar em O Álbum, de Artur Azevedo, e A Semana, de Valentim Magalhães, no Rio de Janeiro. Foi lá que lhe ocorreu um fato bastante curioso: ninguém acreditava que aqueles versos fossem de mulher e o crítico literário João Ribeiro, acreditando que Raimundo Correia usava um nome falso, passou a “atacá-lo” sob o pseudônimo de Maria Azevedo. No entanto a verdade foi esclarecida após carta de Júlio César da Silva enviada a Max Fleiuss.

A partir daí João Ribeiro empenha-se para que o seu primeiro livro seja publicado e, em 1895, Mármores sai pela editora Horácio Belfort Sabino. Já a essa altura era Francisca Júlia considerada grande poetisa nos círculos literários. Olavo Bilac louvou-lhe o culto da forma, a língua, remoçada “por um banho maravilhoso de novidade e frescura”, sua arte calma e consoladora. Sua consagração se refletiu nas inúmeras revistas que começaram a estampar-lhe o retrato.

Em 1899 publica o Livro da Infância destinado às escolas públicas do estado. Sua intenção era começar no Brasil algum tipo de literatura destinada às crianças, algo que até então praticamente não existia. O livro trazia pequenos contos e versos “simples na forma, fluentes na narrativa e escritos no melhor e mais puro vernáculo”, conforme acentuou Júlio César da Silva ao prefaciar o livro.

A experiência de Francisca Júlia com os versos infantis transferiu-se, em parte, para a sua terceira obra Esfinges, publicada em 1903. A grosso modo Esfinges é uma edição ampliada de Mármores, onde excluiu 07 composições e acrescentou 20 novas, sendo 14 inéditas.

Em 1904, no primeiro dia do ano, Francisca Júlia é proclamada membro efetivo do Comitê Central Brasileiro da Societá Internazionale Elleno-Latina, de Roma.

Embora vivendo um momento de consagração como grande poetisa até aquele instante, contudo, por razões nunca esclarecidas, Francisca Júlia abandona a vida pública em São Paulo e parte para Cabreúva, em 1906, onde sua mãe exercia o magistério. Passa a dedicar-se aos serviços domésticos e torna-se professora particular das crianças da região, dando aulas de piano, inclusive, a Erotides de Campos, que mais tarde viria a se tornar um famoso compositor paulista.

Foi quando conheceu um farmacêutico recém-formado da capital que lá estava de visita aos parentes. Apaixonam-se e fazem planos para o casamento. No entanto, devido a sua fama de doido na cidade, os mais íntimos se opõem ao matrimônio. Recebendo a recusa da poetisa, o jovem parte de Cabreúva com o intuito de voltar, o que não acontece: acaba se casando no Rio e todas as cartas de amor são devolvidas, chocantemente, numa caixa de sapatos.

A poetisa, então, decide voltar para São Paulo e aguarda a possibilidade de transferência da mãe para partir com ela, o que aconteceu em outubro de 1908, quando é removida para a escola de Lajeado. Ainda em Cabreúva, recusa o convite para participar da Academia Paulista de Letras por não querer ingressar sem o irmão. No mesmo ano faz a sua primeira conferência no salão do edifício da Câmara Municipal, em Itu, sobre o tema “A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico”.
Casamento e fim

Casa-se, em 1909, com Filadelfo Edmundo Munster (1865-1920), telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil. Foi padrinho de seu casamento o poeta e amigo Vicente de Carvalho. Nessa época já estava compenetrada em pensamentos místicos. Isola-se e vive para o lar, recebendo visitas esporádicas de jornalistas que publicam ainda poesias suas. Em 1912 sai seu último livro, Alma Infantil, em parceria com o irmão Júlio César da Silva, que alcança notável repercussão nas escolas do Estado quando grande parte da edição é adquirida pelo Secretário do Interior, na época, Altino Arantes.

Passa a explorar temas como a caridade, a fé, vida após a morte, reencarnação e ideologias orientais diversas (budismo). Descobre, em 1916, a doença do marido (tuberculose) e mergulha numa depressão profunda, diz ter visões, que está para morrer e tem alucinações provenientes da intoxicação do ácido úrico. Com o passar dos anos a situação se agrava, suas poesias – as poucas que ainda escreve – retratam a vontade de uma mulher que almeja a paz espiritual fora do plano terrestre. Diz, em entrevista a Correia Junior, que sua “vida encurta-se hora a hora”. Mesmo assim volta a escrever para A Cigarra e promete um livro de poesias chamado Versos Áureos.

Em 1920, Filadelfo, desenganado pelos médicos, vem a falecer no dia 31 de outubro. Horas depois do cortejo, no dia seguinte, Francisca Júlia vai para o quarto repousar e suicida-se ao ingerir excessiva dose de narcóticos, vindo a falecer na manhã de 1 de novembro de 1920.

A crítica tem destacado usualmente, seguindo nisso a primeira recepção da sua obra, as características parnasianas da poesia de Francisca Júlia, deixando em segundo plano aquilo que João Ribeiro notara no prefácio a esse livro de estréia: a presença de significativos elementos simbolistas. A leitura, hoje, da sua obra, confirma a impressão do prefaciador. Embora muitos dos seus sonetos estejam entre os mais bem acabados de sua época e muitos deles se enquadrem nos preceitos da impassibilidade parnasiana (que os melhores parnasianos, como Bilac, sistematicamente infringiram), é igualmente interessante (e talvez até mais, para o gosto de hoje) a parte da sua obra que se aproxima da dicção simbolista.

Alguns fatores, herdados em parte da primeira recepção, tem orientado, nem sempre de modo a produzir justiça ao seu talento e à qualidade da sua obra, a avaliação da sua poesia. Um deles é a insistência na condição feminina.

No seu tempo, causou muita espécie aquilo que a crítica sua contemporânea identificou como dicção máscula, ou, pelo menos, dicção não feminina – entendido, nos moldes do tempo, o feminino como predominantemente sentimental e mesmo inferior, por condição, em termos estéticos.

Recentemente, a valorização do feminino parece operar uma inversão nessa perspectiva, deslocando novamente a avaliação da obra para a questão do gênero.

Outro fator de perturbação decorreu do fato de que a poeta se suicidou no dia do enterro do marido, deixando apenas em projeto um livro que se chamaria Versos áureos.

Logo após a sua morte, organizou-se uma segunda edição de Esfinges (1920) incluindo no conjunto poemas que não fizeram parte da primeira edição, além de uma ampla fortuna crítica, de caráter mais laudatório do que analítico – compreensível naquela circunstância, sob o impacto do gesto extremo.

Como Mármores teve edição restrita e a primeira edição de Esfinges era inacessível – Otto Maria Carpeaux registrava, já em 1949, que desse livro não havia exemplar nem na Biblioteca Nacional, nem na Biblioteca Municipal de São Paulo –, essa segunda edição tornou-se a base das apreciações críticas subsequentes, apagando-se, assim, a estrutura significativa que a autora tinha dado às suas obras em volume – especialmente a Mármores. Basta olhar o índice desse primeiro livro de poesia para perceber que a ordem e posição dos poemas obedecem a um desígnio: o livro abre e fecha com sonetos gêmeos, intitulados “Musa impassível”, e se divide em duas partes de extensão igual, separadas por traduções de Goethe e Schiller. A primeira parte e a última possuem poemas numerados de 1 a 18 e contrastam no tom, sendo a segunda a que traz as marcas decadentistas, apontadas por João Ribeiro.

Da mesma forma, Esfinges é um livro planejado, e não uma recolha. Inclui poemas de Mármores, mas o rearranjo produz novos sentidos para eles. O exemplo mais claro é a junção do primeiro e último soneto de Mármores num único poema, intitulado “Musa impassível”, composto agora dos dois sonetos que tinham esse nome no primeiro livro.

Com a disponibilização das primeiras edições, por certo a poesia de Francisca Júlia ganhará nova recepção, e – agora que o preconceito modernista contra a poesia parnasiana e simbolista começa a perder força como padrão único de avaliação literária no Brasil – os muitos poemas de primeiro nível presentes nos dois volumes, bem como a disposição significativa que permite compreendê-los como parte de um desenho maior, poderão ser devidamente apreciados.

Obras

    1895 – Mármores
    1899 – Livro da Infância
    1903 – Esfinges
    1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)
    1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)
    1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)
    1962 – Poesias (organizadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos)

Estilo literário

Francisca Júlia, segundo o historiador João Pacheco, desde cedo mostrou ortodoxamente timbres parnasianos, mas com influencia do modernismo, que deixou o poeta Olavo Bilac a inveja de ourives. Sua poesia traz a mais estrita impessoalidade, revelando-se puramente objetiva nas peças que mais célebres ficaram – “Dança de Centauras” e “Os Argonautas”, principalmente – em que não palpita nenhum estilo interior, mas em que se modela e se fixa o relevo, a cor, o movimento das formas externas. Em certos momentos, manifesta um raro poder de sonoridade e vigor à língua, imprimindo aos versos uma estrutura que não se apoiava na emoção, mas na própria força e rigor da expressão.

Todavia apresentava uma tendência ao simbolismo já muito antiga, conforme é vista na poesia “De Joelhos”, de 1894, cujo pendor pelo gosto nefelibata refletiu-se em admiráveis efeitos de luz, som e movimento. Tais efeitos repercutiram após a publicação de “Esfinges”, em 1903, até o fim da vida, nos anos em que sofrera com a doença do esposo.

Seu simbolismo, segundo Péricles Eugênio, foi uma das manifestações da moralização de sua arte, que adquiriu um caráter místico e filosófico cada vez mais pronunciado. Pode-se dizer que sua poesia evoluiu de plástica a filosófica, guardando sempre a mesma tranquilidade superior de expressão e revelando o mesmo domínio interior da alma.
       
Foi homenageada com o nome de uma importante rua no alto do bairro de Santana, na cidade de São Paulo. Curiosamente outros autores simbolistas foram homenageados também com ruas do Alto de Santana, existindo os cruzamentos Rua Francisca Júlia x Rua Alphonsus de Guimaraens e Rua Francisca Júlia x Rua Paulo Gonçalves.

Em 1933 o Senado aprovou a implantação da estátua “Musa Impassível” sobre o seu túmulo no Cemitério do Araçá, esculpida em granito carrara por Victor Brecheret. Em dezembro de 2006, após 15 anos de acordo entre a Prefeitura e o Estado para o translado, a estátua foi removida para a Pinacoteca de São Paulo, onde passou por um delicado processo de restauração antes de ser liberada para exposição pública.

Criada com o nome de Clínica de Repouso Francisca Júlia em 1972, em São José dos Campos, SP, a instituição foi idealizada pela Diretoria e de Voluntários do Programa CVV indignados ao tipo de tratamento dispensado aos doentes psiquiátricos àquela época. A ideia se tornou realidade quando se constatou que 10% das pessoas que procuravam ajuda no CVV com tendências suicidas apresentavam transtornos mentais.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisca_J%C3%BAlia_da_Silva
http://www.brasiliana.usp.br/node/373

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Gonçalves Crespo (1846-1883)

António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11 de Março de 1846 — Lisboa, 11 de Junho de 1883) foi um jurista e poeta de influência parnasiana, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do último quartel do século XIX.

Nasceu nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, filho de um comerciante português António José Gonçalves Crespo e de Francisca Rosa da Conceição, uma mestiça escrava à data do seu nascimento. Aos 10 anos de idade mudou-se para Portugal.

Depois de estudos preparatórios em Lisboa, matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde se formou em 1877.

Fixou-se em Lisboa, onde apesar de ter adquirido a nacionalidade portuguesa, ao tempo requisito para o exercício da advocacia, pouco exerceu aquela profissão, optando antes pelo jornalismo. Foi colaborador de diversos periódicos, entre os quais O Ocidente (1877-1915) e a Folha, o jornal de Coimbra em que era diretor João Penha, o poeta que introduziu o parnasianismo em Portugal, e também nas revistas A Mulher (1879), Jornal do domingo (1881-1888), A Leitura (1894-1896), Branco e Negro (1896-1898) e Serões (1901-1911).

Como poeta estreou com a coletânea Miniaturas, publicada em 1870.

Também se dedicou à tradução, publicando versões em português de poemas de Heinrich Heine.

Em 1874, ainda estudante, casou com a poetisa e escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, ingressando, graças a ela e ao seu círculo de amigos, no mundo das tertúlias intelectuais de Lisboa. Nesses círculos a avançou na sua carreira como poeta e publicista, ganhando grande nomeada.

Influenciado pela escola parnasiana, nas suas obras poéticas abandonou a estética romântica, afirmando-se como poeta de grande qualidade, particularmente após a publicação póstuma da sua obra completa (1887).

A sua coletânea Noturnos conheceu várias edições (1882, 1888, 1897, 1923, 1942). Em colaboração com a esposa publicou o livro Contos para os Nossos Filhos (1886).

A presença de Gonçalves Crespo na história da literatura brasileira se deve ao fato de seu primeiro livro, Miniaturas (1870), incluir-se entre nossas primeiras e mais influentes manifestações parnasianas. Nessa obra, certo tom narrativo ampara a emoção poética, objetivando-a através de variados pormenores descritivos.

Crespo enquadra-se na poesia realista exatamente por sua preocupação em retratar aspectos da vida cotidiana e doméstica. Sua obra, contudo, é irregular, manifestando influências nitidamente românticas, inclusive de Casimiro de Abreu.

Em poemas posteriores, Gonçalves Crespo continuará na mesma linha do livro de estreia, permanecendo, assim, como um escritor que apontou rumos e prenunciou a estética parnasiana.

Foi também atraído para o mundo da política e em 1879 foi eleito deputado às Cortes pelo círculo do Estado da Índia. Faleceu em 1883, vítima da tuberculose, com apenas 37 anos de idade.

A sua afirmação como poeta foi reforçada em 1887, quando foram publicadas as suas Obras Completas, com prefácio de Teixeira de Queirós e de Maria Amália Vaz de Carvalho.

Obras publicadas

    Miniaturas (1870)
    Noturnos (1882)
    Contos para os Nossos Filhos (1886, com Maria Amália Vaz de Carvalho)
    Obras Completas (1887)

Fontes:
Wikipedia
Uol Educação

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Batista de Lima

José Batista de Lima (Lavras da Mangabeira, 1949), embora tenha pertencido ao “grupo” da revista O Saco, pois seu primeiro livro, de poemas, é de 1977, passou a divulgar seus contos mais recentemente: O Pescador da Tabocal saiu em 1997 e Janeiro é Um Mês Que Não Sossega (Prêmio Osmundo Pontes, da Academia Cearense de Letras, em 2001), em 2002. Seminarista no Crato, formou-se em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especializou-se em Teoria da Linguagem na Universidade de Fortaleza, onde exerceu a chefia do Departamento de Letras e a diretoria do Centro de Ciências Humanas. Cursou o mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará, com tese sobre a escritura de Moreira Campos. Iniciou-se como professor de Português em colégios de Fortaleza. Professor do curso de Letra da Universidade Estadual do Ceará. Na vida literária deu os primeiros passos no Clube dos Poetas Cearenses. Mais tarde participou ativamente dos grupos Siriará, Arsenal, Catolé e Plural. Publicou ainda vários livros de poesias e ensaios. Membro da Academia Cearense de Letras e Academia de Língua Portuguesa, dentre outras. Sua fortuna crítica está reunida no livro Pele e Abismo na Escritura de Batista de Lima (Fortaleza, Unifor, 2006), organizado por Nilto Maciel.

A presença do poeta é visível em muitas histórias. O ensaísta talvez se mostre quando a narrativa se aproxima da crônica social e política.

Batista de Lima apresenta os contos quase sempre em diversas ações, isto é, em diversos tempos e lugares. Em “Os Cavaleiros da Lua”, que oferece características de lenda, vemos: “Deu-se que Adamastor parou de respirar, porque morrer mesmo ela já havia morrido desde que voltara do seringal.” A linguagem, porém, é sempre poética e muito particular.

Ora em Tabocal, ora em Sipaúbas, é nesses lugarejos do sertão cearense que as personagens se movimentam, nascem, vivem e morrem. O sertão é pintado sem exageros de descrição. Há somente referências a objetos, situações, seres, como parte do cenário ou das vidas dos personagens: tapiocas, esterco de vaca, cuia de leite mungido, pé de muçambê, palhoça à beira do açude, vagens de feijão, queijo de cabras, coité. Nada de descrições inúteis ou excessivas.

Os personagens de Batista são homens e mulheres do sertão ou das cidades pequenas, até mesmo aqueles já desaparecidos, já tornados mitos, como Lampião. Alguns desses personagens, sempre secundários, se repetem em diversas histórias: padre Inácio é “habilidoso” em “A Festa de Janeiro”, aparece “já velho e ocupado com o rebanho em Cristo, de Tabocal”, em “O Pícaro”; Coronel Nicodemos, ou Demo, é o mandão do lugar, Tabocal; Dona Bilinha, mulher do coronel; major Apolônio; padre Otávio, Cabo Zezinho; e outros. Isto dá aos livros de Batista certa unidade, embora os dramas não se misturem, não se confundam.

Muitos dos personagens Batistianos têm características próprias – são caracteres. Como Maria Raimunda, a vendedora de abelhas (“As abelhas”). Ou como os padres, coronéis, doutores, fabricantes de cachaça, valentões, afinadores de violões, coveiros e até animais. A presença de cobras, cachorros e gatos é frequente na obra de Batista de Lima: em “O Lobisomem de Tabocal” o bicho “veio dos lados do cemitério, já trazendo uma porção de cachorros latindo desesperados.” Dona Margarida, na história de título homônimo, herda do terceiro marido alguns cachorros. Em “Bonifácio bom de fala” vê-se “um amontoado de cachorros”. Em “A botija” há também a presença desses animais. Há até um conto de gatos, que passam a dominar a casa de Macário (“Os gatos”).

O universo de Batista de Lima é habitado por criaturas às vezes picarescas, mas sempre muito reais. O narrador-escritor ou o narrador-onisciente atua como um memorialista muito cioso da verdade dos fatos ou um repórter astuto. Em vista disso, aqui e ali o leitor perceberá na narrativa o tom da crônica, como em “O Hospital Fantasma” e “O saque a Sipaúbas”. Neste a problemática da seca é o drama central: “Os sipaubenses comiam calango, miolo de mandacaru, carne de urubu, mas resistiam.” Na mesma linha está “Os sobreviventes”.

Alguns dos personagens de Batista são caricaturas, como Manilton, cheio de manias. Outros, como Macário, têm desenhado o comportamento ou o caráter e não tanto a fisionomia ou a aparência. Em vista disso, muitas histórias são de personagem. Malaquias, de “O póstumo”, por exemplo, “era morto de preguiça.” O conto de personagem é o mais frequente na obra de Batista. Muitos têm por título o nome ou o apelido do protagonista (“Carmina”, “Banana”); outros, a condição física, social (“O velho”, “O delegado”, “O insepulto”).

O tempo em Batista de Lima é dilatado. As ações de um mesmo drama são narradas de forma sucinta, ligadas uma a outra, porém entre uma e outra o tempo é de dias, meses, anos. Em “O Pícaro” no primeiro parágrafo Dona Bilinha “estava sentindo as primeiras dores do primeiro parto”. No segundo parágrafo o rebento, Caetano, “foi dado para criar ao Pe. Inácio”. No outro, o menino já crescido, bebia o vinho, comia as hóstias e roubava o dinheiro da coleta da igreja. Mais adiante, aos doze anos, virou lavador de pratos e limpador de banheiro em um bar. Mais adiante, tornou-se guia de cego. Termina sargento e provável candidato a prefeito. Em “O Afinador de Violões” a vida do protagonista daria um romance, como diz o povo. A história tem começo como muitas narrativas populares: “Naquele tempo”. A seguir o afinador de violões “tornou-se cassaco”. As referências ao passar do tempo são frequentes na narrativa: “Dias depois”, “O afinador começou a afinar-se de carnes”, “voltou para a companhia da mãe”, “Os anos se passaram”, “Foram anos e anos de afinação”, “Certa feita”, “Uma noite de agosto”. Essa variedade de ações/tempos está presente em muitos outros contos, como um recurso de linguagem utilizado com insistência.

Batista não se atém ao instante, ao flash, ao momento de tensão da trama. Importa a ele o ritmo do calendário, o passar do tempo. Em “Julho é um mês que não tem fim” o próprio título é significativo. Todo o passado do lugarejo é “revivido” como num sonho. Os mortos revivem suas façanhas. (…) “a noite continuou por dias e anos transfigurados. Muitas moagens e histórias se repetiram no pequeno espaço de horas.” Em “Dona Margarida” o mesmo processo: “em outros tempos”, “uns foram embora”, “de tempos em tempos”, “já enterrara dois maridos”, “chegou a festa do padroeiro”, “depois de alguns anos”.

Há dois tipos de conto nos dois livros de Batista de Lima: as histórias do sertão e as narrativas poéticas, quase poemas em prosa, como “Vertigem” e “A pedra”. Nestes a ausência de trama e de personagens chama a atenção do leitor. Às vezes há personagens, como em “O eremita”. São personagens-símbolo: Deus e Canlima, o eremita. Em “O capote” a protagonista Marta é uma menina. E tudo gira em torno de sua amizade com um capote, isto é, galinha d’angola. A narrativa se desenrola com suavidade e poesia até o desfecho, quando Marta se sente adolescente, “o capote já velho”: “Certa feita, depois de algum tempo,” o capote “amanheceu morto.” A menina “não derramou sequer uma lágrima. Andava muito entretida em se arrumar, ultimamente.” Vê-se também o fantástico ou o fantasioso em algumas narrativas, como “O encontro” e “Projeção”. Esses contos geralmente não se localizam no campo, no sertão, constituindo, pois, uma minoria no conjunto das histórias.

O conto sem enredo, de personagens sem nome, também compõe a obra de Batista, como “O cordeiro”. Algumas dessas peças podem ser denominadas parábolas, como “A Carta”. E o que dizer de uma história cujo personagem principal é a morte? Em “Lindolhar” o protagonista se vê “perseguido” ou “olhado” pela morte: (…) “ela estava no último galho da árvore”, como se fosse uma coruja. “Ela estava lá, antiga como a noite, afinando as garras para o bote”, como uma cobra.

E como o contista arranja os desenlaces de suas narrativas? Muitas vezes o desfecho é a morte do protagonista, como em “Luizão”, “O Lobisomem de Tabocal”, “O Afinador de Violões”. Em outros contos, no entanto, nada de tragédia no desenlace. Em “Os Enganos das Aparências” o suposto machão soldado Viriato, “só músculos”, o “gigante”, é flagrado em banho com negro Terto no banheiro de Dona Maroca. “Naquela mesma noite” “desapareceu pelos fundos da pensão”, “levando nas costas a mala de roupas e de surpreendentes mistérios.” Esse tipo de humor contido está presente em diversas narrativas, como “O Herói que não Retorna”, “Manilton”, “Os Azares do Aspirante”. Desfecho com humor se vê também em “O falso crime do Padre Arnaldo”. Talvez não tanto com humor é o desenlace de “Os gatos”.

Batista utiliza sempre a narração como forma básica de contar as suas histórias. Não há diálogos explícitos, diretos. E isto se dá tanto do ponto de vista onisciente como da primeira pessoa. As narrativas são constituídas basicamente de narrações, com raríssimas descrições e falas em discurso indireto.

Batista de Lima também cultiva o miniconto, embora os outros não sejam longos. Uns poucos alcançam mais de três páginas de livro, como “Janeiro é um mês que não termina”. Quanto mais reduzido, mais o conto tende a se afastar da forma tradicional. O miniconto às vezes se aproxima do poema. É o que se vê em Batista. É o poeta dando a mão ao narrador ou ao prosador. E ambos caminhando de cabeça erguida, certos de estarem cumprindo suas missões no vasto mundo das letras.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Arquivado em Biografia, Sopa de Letras

Javier Di Mar-y-abá (1955)

Xavier Santos, Marabaense nascido em 3 de dezembro de 1955 numa rua que se chamava Itacayunas em placa de latão esmaltada em azul e letras brancas, e que sabem lá Deus e os conquistadores porque batizaram depois de Benjamin Constant sem placa e sem letreiro.

Filho de canoeiro e chacareiro do Quindangues, terra sagrada de cajus e encantamentos, só podia ter virado poesia e música, coisas que faz como ninguém.

Achou pouco e resolveu chamar-se Javier Di Mar-y-abá.

É formado em Educação Física pela Universidade do Estado do Pará.

Fonte:
BRAZ, Ademir, org.  Antologia Tocantina.   Marabá, TO: Grafecort, 1998.

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Arquivado em Biografia, Tocantins

Clevane Pessoa (1947)

Clevane Pessoa de Araújo Lopes, nasceu em São José do Mipibu, Rio Grande do Norte, em 1947, filha de Lourival Pessoa da Silva e Terezinha do Menino Jesus da Silva.

Trabalhou ativamente na imprensa de Juiz de Fora-Mg, nos Anos de Chumbo, mantendo a página Gente, Letras & Artes e a coluna diária Clevane Comenta, entre outras- na Gazeta Comercial.

Aos dezesseis/dezessete anos, foi a redatora chefe de Voz das Mil, jornal Literário do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Sua  primeira resenha foi publicada na Revista da Presidência, em 1964. Depois, escreveu em jornais por onde passou.

Radicou-se em Belo Horizonte ao se casar com o engenheiro civil Eduardo Lopes da Silva, que então trabalhava na Via Expressa em viadutos e passarelas.

Tendo iniciado Psicologia no CES (Centro de Ensino Superior) de Juiz de Fora, então formou-se na FUMEC desta capital (Belo Horizonte).

Acompanhou o marido a S. Luiz/MA, São Paulo/SP, depois a Belém/PA.

Retornou a Belo Horizonte em 1990.

Foi editora de Literatura e Arte do tablóide de vanguarda Urgente, entre outros, como A Voz de Rio Branco, de Visconde de Rio Branco, MG, onde mantinha “A Voz da Mulher”.

Escreveu na revista “o Lince” e em outras. Atualmente, é psicóloga, ilustradora, palestrista e oficineira de Poesia e Conto.

Até aposentar-se, trabalhou na Casa da Crinaça e do Adolescente do HJK, que fundou e coordenou (SAISCA-Serviço de Atendimento Integral ao Adolescente, seu projeto criado em S.Luiz Maranhão , encampado pelo Ministério da Saúde, tornado OS a posteriori) e levado a Belém , Pará, de 1996 a 1990, quando retornou a BH/MG).Esse projeto, alcança Poesia e Artes, crianças, adolescentes e família, além de atendimento à saúde.

Em 1993, participa intensamente, pelo HJK, com a seção de Psicologia, da organização do Congresso Internacional L’espoir sem Frontiers(Esperança Sem Fronteiras).No evento, desenvolveu uma oficina sobre família e participou de mesas.

Tem livros de poemas publicados:
Sombras Feitas de Luz ;
“Asas de Água”( pela Plurarts),
“A Indiazinha e o Natal”( Edições Haruko) ;
“Partes de Mim”( R & S Gráfica e Editora) ;
“Olhares teares,saberes”,(Edit.Popular, S,Luiz-MA);
Erotíssima (selo Catitu);

Seu livro Mulheres de Sal, Água e Afins, publicado pela Urbana Editora, RJ/Libergráfica BH.), reúne contos com protagonismo feminino.

Seu livro “O Sono das Fadas” (selo Catitu-BH) foi lançado na Bienal do Rio em 2009 e em vários espaços e cidades. Em 2011, foi relançado na Livraria Leitura do BH Shopping. Nesse ano, pela Pragmatha, do RS, publicou CENTAURA-poemas .

É verbete no Dicionário de Afrânio Coutinho e no Dicionário de Mulheres de Hilda Huber Flores(RS)

Possui capítulos em co-autoria (Homossexualidade e sexualidade do Adolescente,no compêndio “Adolescência, Aspectos Clínicos e Psicossociais”, Edit Arte Med(RS).

Em novembro de 2011, nos III Juegos Florales do aBrace, lança “Lírios sem Delírios”, com poemas e desenhos, alguma poesia em espanhol, a maioria em Português, Editora aBrace.

É consultora de teatro, revisora de textos, roteirista de peças teatrais.

No ano de 2007, completou 50 anos de Poesia, pois começou a escrever, publicar e fazer saraus aos dez .

Foi, pela” excelência da obra”, agraciada com o título de” Poeta Honoris Causa”, do Clube Brasileiro de Língua Portuguesa, para oito países lusófonos. O título foi concedido por sua Presidenta, a poeta Silvia de Araújo Motta e entregue por Conceição Piló (curadora do Palácio da Liberdade, nesta capital e diretora, em MG, da IWA), no evento “Poesia é Ouro”, em sua homenagem, que aconteceu no Centro de Cultura Belo Horizonte Março/2007), organizado por Karina Campos.

Em maio de 2009, recebe o título de Doutora Honoris Causa em Filosofia (Ph.I.), em sua posse na ALB/Mariana.

Pertence à REBRA, Rede Brasileira de Escritoras, tendo sido convidada por Joyce Cavalccante, sua presidente, para representar a REBRA em MG.

É patronesa da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores, pertence à Academia Virtual Brasileira de Letras à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN, do virARTE.

Membro da IWA (Estados Unidos) .

Pertence à Rede Catitu de Cultura, é colaboradora da ONG Alô Vida. Por premiações em concursos, pertence ao CLESI(Clube dos escritores de Ipatinga);

Chanceler da Arcádia Litterária de Aracaju. , Membro Honorário de Mulheres Emergentes, Conselheira do Instituto Imersão Latina.

Estudou na SBAAT – Sociedade de Belas Artes Antonio Parreiras, aluna de Clério de Souza, o presidente da entidade. Ilustrava seus textos e de outros autores, em sua página na Gazeta Comercial (Juiz de Fora, MG).

Ilustrou, a bico de pena, “100 Trovas de Juiz de Fora” – Programa Contraponto.

Participou da primeira mostra de arte da FUMEC, quando concluía a faculdade de Psicologia.

Em eventos na Semana da Mulher e da criança, expôs no HJK, em Belo Horizonte, posteres e poemas ilustrados.

Fez 30 capas de pano para a edição artesanal de “Maldita Perfeição”, de Jairo Rodrigues.

Ilustrou, revisou e fez a divulgação de “Estalo, a revista”, onde escrevia .Ilustrou ainda o espetáculo “Completa Ceia”, de poesia erótica, “Brincando de representar’, de Virgilene Araújo e outros.

Fez 25 desenhos para a III Edição do “Original-Livro de Artistas”, no tema “A Forma do Pote vazio, tendo um dos desenhos apresentado no Palácio Galveias, em Lisboa, em maio de 2010.

Ilustrou seus livros “Asas de Água”, Poesias-Edit.Plurart e “Mulheres de Sal, Água e Afins”(contos-Edit.Urbana , Rio de Janeiro/Libergráfica.).

Em 2011, lançou, pela Editora aBrace – da qual é representante em Belo Horioznte-MG- “Lírios sem Delírios, de Poemas, que também traz suas ilustrações.

Desde março de 2009, a mostra Graal Feminino Plural, com seus desenhos e poemas, sobre questões do gênero feminino, circula, a partir da Galeria da Árvore (MUNAP_Parque Municipal Américo Renê Gianetti) , para os Centros Culturais de Belo Horizonte(Pref.Munic.) e Regional Oeste.

A mesma também faz parte, em 2010, do festival Internacional de Cultura e Gastronomia de Tiradentes, no largo das Forras-Espaço Cultural. Banco do Brasil.

Participa de recitais, saraus com leituras e performances de textos.

Humanista, sempre lutou pela criança, família, mulher e adolescentes, sendo pioneira nas ações brasileiras pelo atendimento integral, multidisciplinar à criança e à adolescência (desde os Anos 80).

Pelo Ministério da Saúde, ministrou oficinas em vários Estados brasileiros, quando trabalhava no Hospital Júlia Kubitscheck, no Barreiro de Cima, onde coordenou e criou a Casa da Criança e do Adolescente, com equipe multidisciplinar. A pedido do MS, organizou no HJK, o I Seminário Brasileiro de Saúde Reprodutiva e Sexualidade na Adolescência, no qual foi ainda palestrista, mediadora, debatedora e oficineira de sexualidade humana..

Possui vinte e dois e-books, quatro dos quais infantis, um de memórias, um ensaio, os demais de poesias, gêneros vários ( os e-books podem ser baixados gratuitamente no Recanto das Letras, no site da AVBL e na Vila das Artes, além de Cá estamos Nós e recentemente, no ISSUUM, disponibilizou , pela Catitu, seus livros Erotissima e O sangue das Fadas.

Participa ocasionalmente ou com frequencia dos jornais e revistas virtuais zaP (São Paulo) , DESTAQUE,Revista Nota Independente, Guatá, Gaceta Literália, Isla Negra (Argentina) , aBrace, Varanda das Estrelícias (Portugal) ,Caderno Literário (Pragmatha/RS) ,entre outros.

Possui uma antologia poética em http://www.direitoepoesia.com e participa de várias coletâneas virtuais , inclusive várias de BLOCOS ON LINE, entre as quais, por três vezes, da SACIEDADE DOS POETAS VIVOS.

Seus textos e poesias estão hospedados em revistas e jornais brasileiros e no Exterior. As páginas mais recentes foram o mini-conto “O Gato”, na revista internacional ABRACE (Uruguay- Brasil), artigo sobre Cecília Meirelles ; ensaio A Casta da Dança ,entre outros.

A convite, seu artigo “A Casta da Dança”, foi publicado no no Caderno de Dança 2, da Companhia de Dança Contemporânea de Évora,em Portugal.

Colabora e é colunista virtual , inclusive possui uma escrivaninha em http://www.recantodasletras.com, onde disponibiliza seus textos. Seu site pessoal é http://www.clevanepessoa.net.blog.php

Luta pelos Direitos Autorais, pela propriedade imaterial, pelas minorias carentes, pela ecologia, e, sobretudo, pela PAZ em todos os níveis.

É Dama da Sereníssima Ordem da Lyra de Bronze, delegada de “A palavra do Século XXI, membro da SPVA(Sociedade dos Poetas Vivos e Afins, do RN) , do virArte, acadêmica correspondente de várias academias e outras instituições.

Gravou 48 horas de vídeos para o Projeto Educativo” Saúde, Vida , Alegria, CECIP /Kellog”, sendo responsável por Metodologia Participativa e pelas oficinas com adolescentes de várias classes sociais, institucionalizados, feirantes, mães –meninas, moradores de favelas, classe A etc.

Participa de mais de cem antologias, por mérito em concursos , convite ou por cooperativismo entre escritores e editoras.

No início de 2007, duas mais recentes são Letras de Babel e CuentoGotas, da editora ABRACE, lançadas no VIII ENCONTRO INTERNACIONAL ABRACE (março 2007), em Montevidéu (UY), onde esteve com Ricardo Evangelista e Sueli Silva com o espetáculo “Poetas Quae será Tamen”, no qual apresentou, com os artistas, a performance “Predição”. Depois , em Roda ao Mundo 2007, Poetas do Brasil,– Antologia do Proyecto Sur (RS) – neste ano de 2009,participa das antologias aBrace, inclusive a comemorativa dos dez anos desse Movimento Cultural, tendo recebido o troféu aBrace ( pelo ano de 2008), por sua atuação pela cultura e modus vivendi.

Em 2007, comparece com vinte e cinco desenhos no “Livro dos Artistas”, projeto de Regina Mello, chamado ORIGINAL . Em 2009, realiza a mostra “Graal Feminino Plural”, de desenhos e poemas, atualmente em circuito pelos Centros Culturais de Belo Horizonte.

Em 2011 participa de coletiva do SIAPEMG_Sindicato dos Artistas Plásticos de MG, a convite da organizadora, Iara Abreu, com poemas e desenhos a bico de pena.

Premiada no Brasil e no Exterior em versos e prosa.

Entre os muitos prêmios, destacam-se:
primeiro lugar de Crônica, Troféu Dormevilly Nóbrega ;
Primeiro Lugar de Conto Livre, prêmio Ex-Aeqüo, no ALGARVE, em Portugal, XXIII Jogos Florais.
Recebeu em 2009 o Prêmio mais importante do aBrace, pelo seu trabalho cultural .
Em 2009, teve o poema “O Chão da Nossa terra” classificado em primeiro lugar no FESTINVERNO (Ouro Preto, Mariana).

Em 2010, foi a escritora convidada para o I Encontro de Escritores de Língua Portuguesa em Nartal/RN e recebeu uma placa pela sua contribuição à Língua Portuguesa (UCCLA e Capitania das Artes). A seguir, foi homenageada na Câmara Municipal de São José de Mipibu, sua cidade natal.

Em 2009, tomou posse na ALB, Mariana, na qualidade de acadêmica fundadora, Cadeira 11, Laís Corrêa de Araújo, quando recebeu o título de Filósofa Imortal, Doutora Honoris Causa, PH.I, pela ALB/CONALB. E, no mesmo ano, também tomou posse na cadeira n.5, Cecília Meirelles, na AFEMIL, (Academia Feminina de Letras-Belo Horizonte, MG), para a qual foi votada em novembro de 2008.

Integra a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins, de Natal/RN e tem acervo no Memorial da Mulher, da mesma capital, tendo sido convidada para em breve tomar posse na Academia Feminina de Letras do RN.

Em 2010 tomou posse como Acadêmica Correspondente na ALTO-Teófilo Otoni-MG.

Em 2011, tomou posse nas Academias Menotti del Picchia (membro correspondente), no PEN Clube de Itapira, na academia Pré Andina de Artes, Cultura y Heráldica .

Em novembro, tomou posse na AILA, Academia Itapirense de Letras e Artes, na qualidade de Membro Correspondente Titular, cadeira 05, patronímica de Luiza da Silva Rocha Rafael

Em 2009, lançou Olhares, Teares Saberes, pela Edit.Popular, de S.Luiz, Maranhão, que foi apresentado na Bienal do Livro-Rio de Haneiro/2009.

Também lançou O Sono das Fadas (já em e-book), nesse evento, para crianças de todas as idades e Erotíssima, ambos pelo selo Catitu.

Representa a Rede Catitu, o Alô Vida, Mulheres Emergentes.

Em 2010/abril recebeu placa da UCCLA/Capitania das artes, em Natal, RN, no I Encontro de escritores de Língua Portuguesa, sendo a única mulher dos quatro autores homenageados.

Em junho 2010, foi personalidade do Ano-Taubaté/SP e em novembro, Destaque Brasil 2010.

Em novembro de 2010, recebeu a Medalha Tiradentes/FALASP/JF.

Faz parte dos Poetas pela Paz e Pela Poesia e é Consultora de Arte da AMI (Associação Mineira de Imprensa).

Em 2011, recebe a Medalha de Recompensa à Mulher-GOB-RJ, através da ALB/Mariana;

Vem participando de Poetas do Brasil do Proyecto Sur, nos números pares.Por premiação, seletiva ou cooperativismo, participa de mais de noventa antologias.

Cônsul Poeta Del Mundo,
Embaixadora Universal da Paz (Cercle Univ.de Les Ambassadeurs de la Paix-Genebra, Suiça) ;
Poeta Honoris Causa pelo CBLP,para oito países Lusófonos , Patroness da AVSPE ;
Diretora regional do inBrasCi (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais) em Belo Horizonte ,integra a rede Catitu” na “Núcleo de Entrevistas Clevane Pessoa entre Pessoas,
Representante do Movimento Cultural aBrace (Uruguai Brasil), na capital mineira
Delegada da ALPAS XXI por MG e Bahia.
Presidiu, a convite do fundador da UBT , Luiz Otávio, a seção de Juiz de fora, MG, nos Anos 60, onde também foi empossada no NUME, Núcleo Mineiro de Escritores, após receber seu primeiro prêmio Literário (primeiro lugar de crônica, Troféu Domervilly Nóbrega, )
Pertence à Academia de Trovas do RN desde 1968
e a outras Academias Literárias , na qualidade de Membro Correspondente.

Mantém dez blogs de divulgação culturais, alguns específicos(por ex, para indígenas, para crianças, entrevistas,e tc)

Alguns Livros publicados:

Poesia:
Sombras Feitas de Luz (editora Plurarts);
Asas de Água (Editora Plurarts);
A Indiazinha e o Natal (Ed.Haruko);
Partes de Mim ( RGD Ed.)

Prosa:
Mulheres de sal, Água e Afins – de Contos, em editora do Rio de Janeiro (Urbana) e Libergráfica Editora em Belo Horizonte.
Olhares, Teares, Saberes (selo edit.Popular-S.Luiz-MA)- lançado na Bienal do Livro/Rio
Erotíssima (Selo Catitu) -lançado na Bienal do do Livro /Rio
O Sono das Fadas (Selo Catitu), para crianças até 100 anos-Lançado na Bienal do Livro do Rio.

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Arquivado em Biografia, Minas Gerais

Yara Cecim (1916 – 2009)

Yara de Araújo de Souza Cecim nasceu em Santarém no dia 13 de maio de 1916. Faleceu em Belém do Pará em 26 de outubro de 2009.

Foi poeta, contista, artista plástica e pesquisadora.

Segundo o escritor Nicodemos Sena – também santareno – “através da pena mágica de Yara, o impossível aconteceu, isto é, o portentoso contexto amazônico (com suas vastidões e belezas naturais), que sempre desorientou a quantos se atreveram a desenhar literariamente a vida amazônica, desta vez não invadiu o texto, mas encontrou a sua expressão mais cabal e adequada”.

Falando de uma Amazônia povoada de mitos e seres fantásticos, Yara Cecim também é assim definida pelo falecido escritor Ápio Campos: “(…) seu realismo fantástico tem cheiro de mato e sopra sobre o leitor o hálito das ilhas e dos seres estranhos que as povoam”.

Com seu estilo peculiar de escrita a autora foi distinguida com Menção Honrosa pela Academia Paraense de Letras no concurso Samuel Wallace Mac Dowell de 1987 com o livro “Taú-Taú e Outros Contos Fantásticos da Amazônia”.

Livros:

Prosa
    Taú-Taú e Outros Contos Fantásticos da Amazônia (Cejup, Belém, 1989)
    Histórias Daqui e Dali (Cejup, 1994).
    Lendário – Contos Fantásticos da Amazônia (Cejup, 2004).

Poesia
    Arabescos (Cejup, 1990)
    Folhas de Outono (Alcance, Porto Alegre, 1997).

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Arquivado em Biografia, Pará

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Carlos Emílio Corrêa Lima

Carlos Emílio Barreto Corrêa Lima (Fortaleza, 1956) foi um dos fundadores da revista O Saco Cultural. Publicou os livros de contos Ofos (Fortaleza: Ed. Nação Cariri, 1984) e O Romance que Explodiu (Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2006); os romances A Cachoeira das Eras (São Paulo: Ed. Moderna, 1979), Além, Jericoacoara (Fortaleza: SECULT, 1982) e Pedaços da História mais Longe (Rio de Janeiro: Ed. Impressões do Brasil, 1997); além do livro de ensaio Virgílio Várzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (Fortaleza/Florianópolis: Edições UFC/FCSC, 2003), tese de mestrado em literatura brasileira, na Universidade Federal do Ceará. Participa das antologias: Queda de Braço: uma antologia do conto marginal, org. Glauco Matoso e Nilto Maciel (Rio de Janeiro: Club dos Amigos do Marsaninho, 1977) e Uma Antologia do Conto Fantástico, org. Bráulio Tavares (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003). Criou a revista Arraia Pajeurbe (Fundação Cultural de Fortaleza) e as Rodas de Poesias, recitais no Centro Cultural Dragão do Mar. Tem contos no Almanaque de Contos Cearenses, org. Pedro Salgueiro (Recife: Ed. Bagaço, 1997) e na revista Caos Portátil: um almanaque de contos.

Carlos Emílio é daqueles criadores para quem a folha de papel em branco diante dele deve causar angústia, por ser tão pequena, limitada. Ele precisaria de uma parede, um painel, onde pudesse escrever à vontade, assim como alguns pintores necessitam de murais amplos. Talvez uma parede lhe fosse ainda limitada e o melhor fosse um muro sem limites, onde pudesse escrever ilimitadamente. Seus romances e contos são longas caminhadas não por veredas, mas por largos caminhos. Longos passeios de barco não por igarapés, riachos, mas pelo Amazonas. Carlos Emílio não se contenta com um só drama, uma única célula dramática. O drama de seus contos e romances é cheio de tentáculos ou ramificações. Mas, apesar de à primeira vista pareceram dramas insólitos, são, na verdade, muito reais. Leia-se o conto “Pedrofídio”, no qual o protagonista narra suas dores, as picadas de cobra sofridas, o perambular pelos matos durante anos, a matar cobras, como um alucinado. No entanto, é apenas um miserável, um homem roubado, cuja avó foi enforcada por seu atual patrão, que o escraviza, faz dele “cabide”, onde pendura roupas.

Os personagens vão e vêm, cometem loucuras, se envolvem em conflitos a toda hora, numa sarabanda dos diabos. Apesar disso, há neles, contos e romances, um tal enquadramento, uma tal pintura, mesmo que opulenta, cheia de cores, que mais parece ao leitor estar lendo uma primavera ou a natureza em estado de primavera. Leia-se “Os Idiotas do Sol”, no qual toda a narrativa se localiza num ponto qualquer da África, cercado de “gigantescas florestas”, habitado pelos “mais estranhos e despropositados animais”. As personagens vivem isoladas de tudo, como se cumprindo um destino, embora conduzidas pelo “pai” do narrador, um homem aparentemente normal, eis que ministro em 1872, no Brasil. Portanto, as personagens não são seres incomuns ou de outro mundo, embora pareçam o contrário. São estranhas, sim, porém muito reais. No entanto, a realidade de muitos deles pode ser apenas aparente, e isto o contista se esforça por apresentar. O homem que se afunda na África com a família tinha sido ministro de Estado no Brasil. Pedrofídio, matador de cobras e ele mesmo um homem-cobra, não passa de um lavrador, um homem do campo.

Carlos Emílio foge aos padrões do conto tradicional quando empurra suas personagens para fora dos restritos espaços de uma sala, de uma casa. Ele prefere os quintais, as praias, os desertos, os campos, as montanhas, os pomares, as árvores, que buscam o firmamento, o mais longínquo, o infinito. O espaço geográfico real está pintado em alguns contos, como uma planície africana, na história da família do ministro, ou Gentilândia, em Fortaleza, no conto do pomar. Aliás, a capital do Ceará está presente em algumas narrativas, não exatamente como foi ou é. Nada de ruas, monumentos, prédios históricas. Em outros contos o espaço geográfico é inominado, embora, às vezes, de fácil apreensão (o sertão, na história do homem das cobras, e a praia de “O Barco”). No entanto, onde localizar aquele sertão ou aquela praia? Na verdade, o contista não tem a mínima vontade ou necessidade de geografar as suas narrativas, talvez para não se enquadrar neste ou naquele tipo de prosa de ficção, seja o regionalismo, seja outro qualquer.

As personagens andam, correm, se transformam nisso e naquilo, e até voam, porque em sonho, pesadelo, alucinadas. E se afundam em buracos, poços, se perdem nos matos, em labirintos subterrâneos, feito formigas, seres do imaginário. Morrem de forma misteriosa, como Bertha, a irmã mais nova do narrador de “Os Idiotas do Sol”, de morte prevista, porque relacionada a fenômenos celestes. E, aonde quer que elas vão, carregam seus dramas, a intensidade de seus conflitos. Vão, somem, saem pela última palavra do conto e entram para a eternidade. Ou para a história.

O tempo em Carlos Emílio é imensurável. Mesmo se se deixar de lado o flash-back, como no conto dos idiotas do sol. Por quanto tempo viveram as cinco personagens no interior da África? Dias, meses, anos?

Durante a narrativa o tempo é, em alguns contos, constantemente revolvido. Pedrofídio vai e vem no tempo: conta o seu tempo de assustado, o tempo da primeira picada de cobra, o tempo das andanças pelos matos, a matar cobras, o tempo anterior a tudo isto, o tempo da volta à própria casa, o tempo da última picada, o tempo da escravidão. Há na história dele irrealidade? Será um conto fantástico?

O tempo na ficção de Carlos Emílio é nebuloso. A manhã se confunde com a tarde e a noite. O dia da morte ou do susto se confunde com os dias de outras mortes e outros sustos. Nunca se sabe se a personagem viveu um dia, um ano, um século. Talvez nem haja tempo. Talvez estejam fora do tempo, além delas mesmas, anteriores ao seu nascimento ou posteriores ao seu desaparecimento.

Qual o tom das narrativas curtas de Carlos Emílio? De que ingredientes se serve para compor suas narrativas? Pode-se dizer que o tom é o não-tom. Ou o tom é ambivalente, ambíguo. O menino do pomar que conta seus medos pode até nem ter tido medos e falar deles apenas para deixar no leitor a impressão de que a personagem é o medo ou o contar o medo. O narrador das aventuras africanas, que pode ser um menino, conta a morte da irmã, a fuga do cavalo, a ira do pai – e pode tudo isto ter sido normal para ele. Ao leitor, no entanto, isto é assombroso.

Não há pieguice, saudosismo, melancolia nas personagens emilianas. Elas aparecem, contam episódios, desaparecem, como se o leitor não tivesse o direito de ter a impressão de ter visto um menino com medo do homem que ouvia rádio no fundo de um poço.

A linguagem dos contos (e dos romances) de CE é esparramada, volumosa, como uma corredeira, uma cachoeira. Não há diques para ele. A narração escoa, evolui e, como um rio impetuoso, fura o mar, quebra ondas e se mistura ao oceano. Ele nem precisa de diálogos, quase sempre curtos. O narrador transmite uma ou outra fala de outra personagem e continua a narrar. Ele é o protagonista da narração, embora nem sempre seja da narrativa. As personagens falam, conversam, porém pouco se sabe dessas falas e conversas. Falam, o mais das vezes, para si mesmas, sem que o leitor perceba isto. E, sobretudo, narram. São narradores insaciáveis, incansáveis, mesmo na hora da morte ou do desaparecimento.

O diálogo interior, o fluxo da consciência, todas as modernas linguagens estão presentes nos contos e romances de CE.

O ponto de vista nas obras de CE é o mais das vezes o do observador, mesmo quando a primeira pessoa fala, seja ela protagonista, testemunha ou personagem secundária. Às vezes o narrador fala por ele e por outros, na primeira pessoa do plural (nós) e, aqui e ali, muda para o singular (eu), como em “O pomar”. Os outros, no entanto, são bem mais que secundários, são quase que apêndices, figurantes. Em alguns contos o narrador não é narrador de verdade. Como se a história já estivesse escrita e fosse o leitor, ao ler, o narrador. O leitor seria, assim, co-autor. Pode-se supor também que a história (se é que há história) é narrada pelo escritor, que pode ser um personagem oculto. Como em “O Barco”. Carlos Emílio consegue enganar o leitor com facilidade. Às vezes o narrador parece ser o principal da trama, quando na verdade é apenas um observador, isento quase sempre, imune aos dramas que se apresentam aos seus olhos ou saltam de sua memória. Outras vezes parece ser o protagonista, de tão presente na narração e na narrativa. Mas isto não importa ao leitor. O menino ou rapaz que narra as aventuras dele, de suas irmãs e de seus pais, nos cafundós de uma África mítica, sem a presença de negros, feras, florestas incorrompidas, pode estar contando uma história absurda, misteriosa, fantástica, real ou imaginária. Será um narrador-protagonista, uma testemunha, um narrador secundário?

Há contistas que passam a vida escrevendo esboços de romances. Não é o caso de CE, que escreve contos a seu modo e romances também. Seus contos poderiam ter 500 páginas e, ainda assim, seriam contos. Não quaisquer contos, mas contos dele, com a marca dele. Porque não seriam romances, não teriam dezenas de personagens, não seriam divididos em capítulos, não trariam enredos romanescos. Simples (ou complexa) questão de estilo, modo de elaborar o conto. As personagens de seus contos às vezes viajam pelo mundo, como as dos romances. Como o homem-cobra, o personagem-narrador de “Pedrofídio”, que sai com os filhos pelos matos, a matar cobras e gentes. As personagens não se delineiam como retratos ampliados, permanecem esboçadas nas entrelinhas, pintadas ou rabiscadas como personagens de contos, que sabem até aonde vão. E se conformam com o fim da história, como o menino que não ficou triste nem zangado, quando fecharam o pomar onde brincava (“O Pomar”).

Muito bem apontou Dimas Macedo, em “Os Enigmas de Carlos Emílio” (LC, p. 77), ao se referir ao romance Além, Jericoacoara: (…) “não estamos obrigados a concluir pela existência de um enredo, ainda porque o mesmo não se manifesta de forma literal, embora pareça emergir em diversos momentos do seu entretexto”. E assim também se pode observar da leitura de muitos de seus contos: a ausência de enredo ou a sua manifestação de forma furtiva, como o colear de uma serpente. No conto “O Barco”, por exemplo, um casal, muitos filhos, um barco construído por “gente formada em artes de navegar” e só. Não se vislumbra um enredo. As personagens não atuam, não agem, não se locomovem. Pensam, apenas pensam, sobretudo nos muitos filhos, cada um deles uma letra do alfabeto. Talvez não haja o enredo tradicional ou mais usual. Ocorre que se trata de um enredo esgarçado, sobretudo quando o narrador parece falar para si mesmo. Veja-se a narrativa “Os Idiotas do Sol”, em que o narrador conta parte da história dele e de sua família e se concentra no tempo em que viveram num pedaço de terra africana. Há uma explicação de porque foram as cinco pessoas para a África. O “mistério” estaria no “Livro da Terra”, possivelmente um manuscrito, que um dia o narrador promete publicar.

Entretanto, a urdidura ficcional é tão bem armada ou arrumada, entrelaçada, os fios tão bem amarrados, a formarem um sólido, embora às vezes maleável, plano, como se o leitor se visse num tapete persa de As Mil e Uma Noites, a voar pelo espaço da irrealidade, sem medo de cair em abismos, certo de que o tecido é firme e colorido e de que a aventura será inusitada, que a leitura se dá sem sobressaltos.

Recriando os mitos perdidos e elaborando novos mitos, Carlos Emílio se converte numa espécie de feiticeiro e conclama contra si os catequizadores modernos, como a televisão, a serviço dos novos monarcas. Conclamará ainda aqueles que, de outra forma, falam a mesma língua dos inquisidores e, travestidos de santos missionários, pregam a idolatria a deuses estrangeiros.

Esses e outros mitos estão também presentes em muitos dos contos de Carlos Emílio. Isto é, o mito como elaboração ficcional. Pois, como observa Dimas Macedo, no artigo citado neste capítulo, “a obra de Carlos Emílio é toda ela pura ficção”.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Lourival Açucena (1827 – 1907)

Joaquim Eduvirges de Mello Açucena, ou Lourival Açucena ou Lorênio (Natal, 17 de Outubro de 1827 – Natal, 28 de Março de 1907) foi o primeiro poeta do Rio Grande do Norte.

Sua poesia era ligada ao Romantismo, mas tinha forte relação tardia com o Arcadismo.

Teve uma vida agitada e participava ativamente dos serões boêmios de Natal.

Para visitar sua amada, chegava a atravessar o Rio Potenji a nado e ainda andar algumas léguas até o município de São Gonçalo do Amarante, onde ela morava.

Ficou preso por dois meses no Forte dos Reis Magos, acusado de desfalque.

Figura emblemática em Natal, Lourival Açucena foi funcionário público, juiz de paz, delegado de polícia, oficial de gabinete do Presidente da Província, seresteiro, ator e poeta.

Como cantor, alcançou fama nos festejos religiosos, Diz-se que era cantor de grandes qualidades e que se acompanhava ao violão. Há também notícias de que não teria se limitado a cantar apenas em Natal, chegando a se apresentar em Pernambuco com reconhecimento e aplauso. Tendo sido entre os nosso poetas um dos de mais longa existência (viveu 80 anos incompletos), ele notabilizou-se não apenas pela qualidade da sua poesia e talento de modinheiro, mas pela agitação que lhe marcou a vida, de modo especial no complicado relacionamento coma elite política da Província.

Não teve livro publicado em vida, mas, chegaria a ver poemas seus, impressos em várias publicações

Em 1853, representou o Capitão Lourival na peça O Desertor Francês, e sua performance rendeu-lhe o apelido que carregaria por cinquenta anos.

Escreveu para quase todos os jornais da cidade, mas não chegou a publicar livro algum em vida.

Ele teve seus textos publicados pela primeira vez com o surgimento do pioneiro jornalzinho O Recreio, em 1861, pois seu talento e agitada vida pessoal acabaram se tornando objeto de interesse entre os que residiam na capital e arredores.

Lourival casou-se por três vezes e teve 32 filhos.

Trinta dias após a morte de Lourival Açucena os amigos publicaram uma Poliantéia, breve reunião de poemas seus, para homenagear-lhe a memória. O pequeno volume saiu pela Oficina Literária Norte-Rio-Grandense. Coube, porém, a Luiz da Câmara Cascudo, contando coma colaboração do filho do poeta, querida personalidade natalense, Joaquim Lourival (o “professor Panqueca”, proprietário de uma concorrida escola particular), a tarefa de reunir tudo o que pode recolher dos seus poemas, publicando um volume a que chamou de Versos, em 1927.

Em 1987 a Universidade Federal do Rio Grande do Norte voltaria a editar este trabalho.

Coincidindo com a irrequieta personalidade do autor, a sua poesia não revela unidade, um traço comum, capaz de caracterizá-la. Ao contrário, é fácil perceber lendo os seus poemas, que a ele não preocupou filiar-se a qualquer escola, (embora seja forte em sua pequena obra a presença do arcadismo). Tal diversificação encontraria uma possível justificativa em sua condição de modinheiro, pressupondo-se, aí, a obrigação de variar o repertório e o seu estilo, com vistas a atender à solicitação popular. Assim, é possível vê-lo também como romântico e até como poeta clássico. Mas, é justamente quando adota a maneira mais próxima do povo, nas quadras, nos termas satíricos, que se percebe um Lourival Açucena mais autentico. Isto é fácil de comprovar em “A Política” onde ele “filosofa” a respeito desta prática à época do Império.

Em sua homenagem, Ferreira Itajubá escreveu o poema No Campo Santo:

Morreste e não soubeste, ó grande veterano,
Que, quando por Natal, a rosa todo ano
Floresce alegremente, entre as demais roseiras,
O prado embalsamando, ao lado das primeiras,
esta alma não rebenta em rosas de ilusão
Como quando cantaste ao som do violão.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_A%C3%A7ucena
http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090308125215AAmCLnE

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Airton Monte

Antônio Airton Machado Monte (Fortaleza, 1949) é médico-psiquiatra formado pela Universidade Federal do Ceará; cronista do jornal O Povo, mas essencialmente poeta e contista. Iniciou-se na revista O Saco, onde publicou contos. Foi um dos fundadores do Grupo Siriará de Literatura. Estreou, no gênero conto, com O Grande Pânico (1979), seguido de Homem não Chora (1981) e Alba Sanguínea (1983). Tem inédito Os Bailarinos. Participou de algumas antologias: Queda de Braço: uma antologia do conto marginal, Os Novos Poetas do Ceará III, Antologia da Nova Poesia Cearense, Verdeversos e 10 Contistas Cearenses. Publicou também a coletânea de crônicas, selecionadas de sua coluna de jornal, Moça com Flor na Boca (1ª. Edição, Fortaleza: FUNCET, 2004; 2ª. Edição, Editora da UFC/Coleção Literatura no Vestibular, 2005), além do livro de poesia Memórias de Botequim (Fortaleza: edição do autor, 1979), que venceu o Prêmio Governo do Estado do Ceará em 1979.

Em O Grande Pânico são visíveis a olho nu três histórias essencialmente metafóricas. Toda história é uma metáfora. Uma ou mais. Porque toda leitura implica uma interpretação. Ocorre o contrário geralmente com as obras consagradas pelos críticos. Na verdade, uma metáfora pode ser mais ou menos perceptível. Assim, existe em razão da ótica do leitor. Em “A Última Noite” até a personagem principal tem nome simbólico – Cidadão. É o homem diante do medo coletivo de desobedecer a norma ou o costume. Alguém tem de se fazer ovelha negra e pintar a casa de azul, numa sociedade em que o costume impõe o cinzento. Cor de cárcere, de prisão. O azul simboliza o firmamento, a vastidão, a liberdade. A atmosfera é nitidamente kafkiana nesse conto.

O traço marcante do livro, no entanto, é outro: o drama do homem suburbano, do marginal, da “gente chinfrim, ralé miúda”. Na mesma categoria estão os loucos, os alcoólatras, as prostitutas pobres, os pivetes, os fracassados de todo o gênero. Embora pertencendo todos ao mesmo mundo, ao mesmo espaço marginal da sociedade, existe uma espécie de muralha a separá-los. De um lado estão os profundamente angustiados, os candidatos ao suicídio, os identificados como loucos, e são personagens-narradores. Seus discursos não chegam a constituir histórias, embora o contista afirme “que o homem é um ser sedento de ouvir histórias”. Falam sempre de seus medos (“sou somente um amontoado de medos”, em “Os Gritos Circulares”) e de seus desesperos (“O barco vai afundar”, em “Diário de Bordo”).

Quase todos os contos do livro são histórias bem contadas, dessas que o homem sempre gostou de ouvir, sem hermetismos e sem rebuscamentos de linguagem. Não quero dizer histórias pobres, meros “causos”. Pelo contrário, algumas delas chegam a arrepiar, a causar assombro, de tão magníficas. Assim são “Manuel Lombinho”, “Domingo, Futebol e Cachaça” e “Ave Noturna”, sem as quais qualquer antologia brasileira de contos poderá ficar capenga.

A primeira delas, assim como “Mulher Só”, parece capítulo de romance. Os personagens são os mesmos: o mascate Manuel, a puta Laura e Urucungo. Não só isso: a vidinha miúda de um arraial onde prosperam os coronéis e seus lacaios e onde se aviltam na miséria as putas, os corcundas, os deserdados em geral.

Em “Da Angustiante Espera Causada por um Simples Fenômeno Celeste” há uma história subjacente. Ela emerge como música-de-câmera, misturando-se às pequeninas histórias contemporâneas de cada personagem. É a história do eclipse prestes a acontecer. Então a vida gira em torno do fenômeno celeste, como se sem ele nada de novo pudesse acontecer a um e a outro personagem.

Alguns contos poderiam estar fora do livro: “Fábula algo Engraçada”, “Cotidiano” e “Pega o Ladrão”. Os próprios títulos os denunciam. O primeiro é uma historiazinha de pivetes, embora não lhe falte beleza poética. O outro pode ser considerado apenas a reunião de quatro historietas cujo tema é a  morte. O terceiro, embora sátira do sentimento de insegurança individual na cidade grande, não passa de história algo engraçada.

Proposital ou não, Airton Monte cometeu um deslize – o de utilizar duas vezes a mesma ideia poética, a mesma figura, quase a mesma frase. Em “Os Gritos Circulares” escreveu: “dentro da mala o passado dobrado em dois como uma calça velha”, e na última história: “na mala surrada a vida dobrada em dois como uma roupa usada”.

Encerra o volume um conto longo, positivamente fragmentos de um romance: a quarta parte do livro. Vale como história curta, mesmo dentro da concepção do contista.

Apesar de tudo, O Grande Pânico faz de Airton Monte não apenas um criador, mas um escritor que sabe manejar a palavra, até mesmo o adjetivo.

Esse mundo à parte, que habita os diários sensacionalistas, os bares, os cabarés, as ruelas escuras, os subúrbios, os manicômios, é, na verdade, um mundo dividido em si mesmo.

Nenhum ficcionista cria tipos, inventa personagens. Se o fizesse, estaria abstraindo o homem e fracassaria como escritor. O que realiza é, primeiro, uma descoberta, porque o ser humano é sempre terra desconhecida. Descobre o seu semelhante. Crê na sua existência, como os navegadores antigos acreditavam nos mundos novos. E parte no seu rumo. E o explora, sozinho. Penetra-o, confunde-se com ele. Revela-o. O ficcionista é um revelador. De mundos reais e quase sempre ignorados.

Airton Monte aproxima-se mais do ficcionista revelador do que do falso criador. Como Dostoievski. Delineia a psicologia dos tipos descobertos. Como Machado de Assis. Veja-se Felizbelo. E quase todos os personagens de Homem Não Chora. Seres humanos desesperados no amor impossível, em “O Enforcado”. Farrapos humanos que teimam em viver ou perdem toda e qualquer esperança. Cegos, mendigos, prostitutas decaídas, cornos, devoradores de moscas, tarados, velhos, solitários, assassinos arrependidos e idiotizados, loucos, como Berta, todos loucos, pois a loucura não é senão sentir-se sem rumo, sem esperança, sem saída.

Apaixonado pelas pessoas, Airton Monte apaixona-se também pelas suas personagens. A umas dedica a mais mordaz antipatia. E as torna feias, monstruosas, irracionais. De outras, sente a mais santa piedade. Por serem também miseráveis, criaturas sem eira nem beira, catrevages de carne e osso. Mesmo quando o personagem-narrador se identifica com ele, quando narrador e protagonista se confundem, e o texto se transforma num choro de bêbado, num grito de aflito, num discurso de angustiado.

O narrador, como o poeta, é um curioso, um escavador, um repórter. Um vagabundo à cata de aventuras, de pessoas, de fatos. Para disso extrair a matéria-prima de suas “criações” ou “criaturas”. Os outros não percebem nada, porque, no máximo, veem. Ou não veem, porque não buscam ver. Nunca verão Felizbelo. No entanto, Airton Monte o viu, porque o procurou, o descobriu, o revelou. Delineou-o por dentro e por fora, feito um deus.

Não se revela o homem, porém, com a linguagem jornalística, seca, sem vida, sem paixão. Pois a linguagem de Homem Não Chora é poética, ritmada, ondulante, viva, apaixonada. Como no conto “Velho ao Telescópio”, talvez um dos mais poéticos e inventivos contos da literatura brasileira.

É quase certo tenham sido os contos reunidos em Homem Não Chora escritos ao longo de alguns anos. Nuns, o contista parece deixar com que as palavras se esparramem sobre o papel, como numa confissão, numa elegia, num pranto poético. Noutros, se adstringe a um enredo e faz narrativa. É o caso de “Atrás de Cada Porta Tem um Sonho”. Aliás, o mais longo do livro. E, como no primeiro livro de Airton Monte  – O Grande Pânico –, alguns contos são profundamente metafóricos, repletos de simbolismos. Em “Os Mercadores” vislumbra-se a importância da tragédia grega na sua formação. Em “O Sábio Haroldo” os personagens se locomovem num ambiente kafkiano, que tanto pode ser um asilo de loucos como uma micro sociedade totalitária, onde se fabricam loucos, feras ou simplesmente se adaptam indivíduos a uma brutalidade instituída. E desde o lar, passando pela escola e chegando ao local de trabalho, o que tem sido a nossa sociedade?

Um dos contos mais estranhos do livro intitula-se “Pequeno Interlúdio para o Desespero”. E por que estranho, se todo o livro é isso que diz esse título? O tempo parou para Maria. De repente todos os de sua casa viraram estátuas. E também ela. Esse conto vale por todos os protestos e gritos feministas.

Em outras histórias do livro encontramos situações igualmente estranhas, a exigirem do leitor reflexões mais demoradas. Num deles o contista fala mais metafisicamente do homem: “Compreende, afinal, e quase fica louco, que existem vitrines separando as pessoas entre si e somos todos manequins se olhando em silêncio, impassíveis testemunhas e cúmplices.” (“Vitrines”, p. 14). De uma simples atitude, embora própria de um alienado, revela Airton Monte um tipo e, a partir dele, discute a condição humana. Em apenas duas páginas.

Incrédulo diante do homem, o contista vasculha as vísceras de uma sociedade embrutecida e revela criaturas que os mais crédulos pensavam existirem apenas no reino da fantasia. Embora o cachorrinho de madame de um dos contos pareça mais mitológico do que real. Nele Airton Monte se revela um criador. Ou um recriador, porque nem assim se confunde com os falsos criadores, os que nunca viram de perto, de bem perto, o ser humano.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Paolo Ricci (1925 – 2011)

Paolo Ricci nasceu em Lucca, na Itália, em 08 de setembro de 1925 e faleceu em 08 de maio de 2011 em Belém do Pará.

Foi cronista, poeta, romancista e artista plástico de expressão internacional.

Integrou a Academia Paraense de Letras (APL) desde 21 de outubro de 1980, ocupando a cadeira de número 19.

Seus pais vieram da Itália morar em Rio Canaticu, na Ilha do Marajó, ainda na época áurea da borracha.

Graduou-se em Direito, estudando em Belém do Pará, colaborando com jornais paraenses da época como “Folha do Norte” e “A Província do Pará”.

Tendo demonstrado desde a infância forte tendência para o desenho   e desejando, ainda menino, aprender pintura, era desestimulado pelos pais que consideravam as artes como “coisas mortas”, sem utilidade prática. Em novembro de 1950 recebeu sua primeira aula de pintura realizando um “d’aprés” no salão onde expunha, em Belém, o artista    holandês Wín Wan Dijck. Incentivado a continuar, prosseguiu auto didaticamente quando, em 1951. pintando a nave da Catedral de Belém, foi visto pelo grande interiorista Leonidas Monte, cearense radicado e ativo em Belém, daí em diante tornando-se amigo e discípulo desse artista. A partir desse ano também passou a contar com a orientação critica de Frederico Barata, com quem viria a trabalhar em “A Província do Pará”, reinstalada pelos “Diários  Associados”.

Em 1966, a convite do Governo dos E.E.U.U. de setembro a novembro visitou artistas. Academias. Museus, Universidades e Galerias de Arte em Washington. Filadélfia, Nova Iorque, Chicago, Búfalo, Oakland, São Francisco e Los Angeles, polemizando e discutindo problemas da arte contemporânea, confirmando o que escrevera Mário Cravo Jr. a seu respeito: “polêmico, preocupado basicamente com sua arte”.

Integrou vários júris, inclusive o da Pré-Bienal de 1974, de São Paulo: foi membro de banca examinadora na Universidade Federal do Pará. proferiu inúmeras palestras sobre composição e outros temas, destacando-se a realizada em 1978, no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro (uma sinopse sobre a História da  Pintura no Pará), por ocasião da coletiva “Artistas do Pará e Minas Gerais”, na Galeria Rodrigo M.F. de Andrade, da FUNARTE,  da qual participou.

Pesquisador incansável das artes plásticas no Pará, organizou a exposição “Artistas Plásticos Paraenses do Século XIX” e o livro “As Artes Plásticas No Pará”. É citado pelo “Dicionário de Artes Plásticas” do Ministério da Educação como um dos mais importantes artistas plásticos do Brasil.

Publicações
Poesia – Riso dos Insanos, 2001;
Entre o espaço e o tempo, 2003;
Revoada de anseios, 2004;
25 Madrigais de Amor e Dor, 2004.

Fontes:
Projeto Memória da Literatura do Pará
– Antologia da Academia Paraense de Letras. Poesia & Prosa. Belém/PA: Cultural CEJUP, 1987.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Nilto Maciel

Nilto Fernando Maciel (Baturité, 1945) ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77. Regressou a Fortaleza em 2002. Obteve primeiro lugar em alguns concursos literários nacionais e estaduais: “Brasília de Literatura”, 90, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Sousa”, 96, com A Rosa Gótica, todos na categoria romance nacional, além de prêmios no gênero conto. Participa de diversas coletâneas, entre elas Quartas Histórias – Contos Baseados em Narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes, 2006, e 15 Cuentos Brasileros/15 Contos Brasileiros, edición bilíngue español-portugués, org. por Nelson de Oliveira e tradução de Federico Lavezzo. Córdoba, Argentina, Editorial Comunicarte, 2007. Publicou novelas, romances, poesias, ensaios literários, além dos livros de contos Itinerário (1974), Tempos de Mula Preta (1981), Punhalzinho Cravado de Ódio (1986), As Insolentes Patas do Cão (1991), Babel (1997), Vasto Abismo (1998), Pescoço de Girafa na Poeira (1999) e A Leste da Morte (2006).

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Gilmar de Carvalho

Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho (Sobral, 1949) é Professor da Universidade Federal do Ceará. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Autor de Publicidade em Cordel (São Paulo: Maltese, 1994); Madeira Matriz (São Paulo: Annablume, 1999); Patativa do Assaré (Fortaleza: FDR, 2000); Patativa Poeta Pássaro do Assaré (Fortaleza: Omni, 2002), e Desenho Gráfico Popular (São Paulo: IEB/USP, 2000); dentre outros trabalhos acadêmicos. Tem artigos publicados em revistas do Brasil e do exterior. Como ficcionista, publicou Pluralia Tantum (Fortaleza: GRECEL, 1973); Parabelum (Fortaleza: GREEL, 1977); Queima de Arquivo (Fortaleza: SECULT, 1983); Resto de Munição (Fortaleza: SECULT, 1984): Buick Frenesi (Fortaleza: SECULT, 1985); e Pequenas Histórias de Crueldade (Fortaleza: SECULT, 1987).

Entre os que acreditaram ter concluído sua obra de contista está Gilmar de Carvalho. No entanto, pela singularidade de suas narrativas, não pode ser comparado a nenhum prosador de ficção do Ceará. Não somente porque seus contos são fundados na erudição, seja no latim, no inglês, na História, na Filosofia, na mitologia, na Bíblia etc. Também porque ora escreve como poeta, ora como salmista, ora como ninguém. Juarez Barroso, nas dobras de Pluralia Tantum, diz que a literatura de Gilmar é “uma afirmação de liberdade. Mas ele não fica junto à turma do sereno, ao bloco da contracultura. Formalmente, rejeita o marginalismo artístico, os vanguardismos escandalizantes. Seu estilo é clássico, sua narração, fabular, levemente borgiana. A partir daí ele constrói, ou destrói, ri dos deuses, mais perto de Lúcifer que do Arcanjo São Miguel (afinal de contas, uma figura do establishment), simpatizante dos exus, louvador da pomba-gira, Vênus mestiça e mais sensual, naturalmente”. A seguir se nega chamar de contos os textos de Gilmar. Na verdade, não são contos tradicionais. Em comum com estes apenas o terem títulos, alguns personagens, alguma narração. O resto é bem diferente. Afirma Juarez: “Gilmar não escreve contos. O conto, por mais de vanguarda que seja, tem a sua disciplina, sua forma de discurso. Gilmar é um compositor de cantos em prosa, discípulo remoto do Rei Salomão, que tanto trabalho deu ao Senhor com sua rebeldia e sua mania de amor. Amante da vestal romana, consagrada em virgindade ao deus maior, Gilmar, libertário e libertador sofre agora o mesmo castigo de Prometeu. Zeus acorrentou-o ao relógio da Praça do Ferreira, à Coluna da Hora. Que, aliás, não existe mais”.

Publicado em 1973, Pluralia Tantum, de Gilmar de Carvalho, é provavelmente o livro de prosa de ficção mais singular da literatura cearense. Constituída de 41 textos – que poderão ser denominados narrações (e não narrativas), composições, legendas, escrituras, salmos, hinos, estudos, crônicas, crônicas-poemas, verbetes, lendas e até contos – a obra inaugural do romancista de Parabelum pareceria alienígena (lato sensu) se posta ao lado dos livros de contos de outros escritores cearenses. Em “composição”, como o título indica, tudo se volta para o compor: “em off-set os jornais”, “manchetes”, “diagramação”, “letras”, “logotipos genéticos”, “tipos móbiles”, “quatro colunas”, “folhinha”, “papel parede”, “sangue dos crimes” (nos jornais), “classificados dos tabloides”. Um dos textos é intitulado “um conto”, como a deixar bem claro que os outros não são contos. Nele há diálogos (com travessão), narração e personagens, embora não identificados. No entanto, “trajetória” é uma narrativa quase linear. Há um enredo, uma cadeia de pequenos fatos, uma história, que podem ser percebidos claramente nos seguintes trechos de frases: “proferem um palavrão”, “uma freada brusca”, “anúncio de Coca-Cola”, “andou”, “apressou o passo”, “cruzou com um desconhecido”, “um bar”, “um velho desenrolava um embrulho”, “precisava chegar logo”, “viu pessoas”, “subiu o primeiro degrau”.

Busque-se em Pluralia Tantum o drama e o leitor encontrará algo entre o conflito e o não-conflito. O tempo é medido como numa roda-gigante, estonteante. O espaço da ação é poucas vezes mencionado ou não tem nenhuma importância: “Já vi e revi os lugares santos e os comuns” (“hollywood”). E os personagens onde estão, quem são? Em algumas composições apenas um “narrador” se mostra, fala: “O rapaz morto sou eu” (…), como se vê em “laudatio”.

Em alguns “contos” de Gilmar não se percebe um enredo claro, mas somente fiapos (frases) de um enredo esgarçado, de um tecido rasgado, esticado, esfiapado (“memory”). Pode-se falar também em enredo diluído (“hermenêutica”).

O latim e a Bíblia são fontes permanentes de enredo nesta obra de Gilmar. O estudo “plvralia tantvm”, que dá título ao volume (com o “v” latino transformado em “u”), é nada mais do que uma explicação de alguns plurais: exéquias, férias, núpcias, alvíssaras, primícias, anais (subtítulos), e a decodificação de uma oração latina. Na parte intitulada “teodiceia”, composta de sete escrituras, os temas bíblicos estão muito presentes. Em “teodisseia” a eles se juntam os mitos de Ulysses, Penélope, Zeus, Posseidon, isto é, a mitologia grega. Contudo, em “genesis” e “exodos” se podem ler reescrituras desses livros.   Em “o jardineiro cego” se conta a reinvenção do pecado original, sendo o jardineiro personagem simbólico. Embora não ligado diretamente a temas bíblicos, “gaia scientia” também se constrói sobre a ideologia cristã: o tribunal da inquisição.

Crônicas ou crônicas-poemas podem ser vistas na parte intitulada “minas”. A primeira, “entradas e bandeiras”, é crônica histórica; “minas novas”, “minas novas: porões”, “doroteia” e “o inconfidente” são crônicas-poemas. Outras composições podem ser designadas como verbetes, à falta de outro termo, como na parte “orixás do ceará”. Pois não são contos nem crônicas nem poemas. Nelas há como que um misto de alguns gêneros da prosa de ficção. Em “nanã”, por exemplo, leem-se definições como nos verbetes: “Nanã é dama de antigas cortes” (…); “Nanã é senhora de todas as cachoeiras” (…); “Nanã é força a mover antigas moendas” (…) Entretanto, há um personagem, um narrador: “Nanã me contou histórias” (…). Em “oxossi” aparece a figura de Dom Sebastião, o iluminado. Em “omulu” se pode ler uma lenda ou como narrar uma lenda. “yemanjá” seria uma narração (não uma narrativa). Em “iansã” se vê um narrador (“Uma Iansã me saudou: eparrê”) e a protagonista, com tratamento na segunda pessoa.

Os personagens de Gilmar de Carvalho são quase todos distorcidos, como se vistos de um espelho quebrado ou opaco. Além disso, são pequenos, quase microscópicos, sem muita importância no contexto. Um ou outro se sobressai, como Patrícia Chantal. Talvez porque personagem de uma história ou, mais do que isso, protagonista. Em “memory” Luzia é tão pequena que parece personagem secundária de uma historinha. Dividido em três segmentos, o conto teria começo (ludus), meio (parábola) e fim (conclusão), o que não é real. Luzia aparece no segundo segmento e logo desaparece, para dar lugar ao narrador, que não se refere a ela, a não ser no plural: “a gente ouvia sempre”, “ao nosso alcance”, “Nós estamos gastos”, “Somos estátuas”, “Nossa vista”. E esse plural pode até se referir ao todo, à humanidade.

                Na parte intitulada “legendas”, que comporta “gesta”, “legenda”, “hollywood”, “as aventuras de carmem miranda” e “sweet hunters”, Gilmar se volta para a História ou para personagens históricos. Na primeira encontram-se Roland, El Cid, Rei Artur, Charlemagne, Ricardo Coração de Leão, Luís IX, a camponesa de Domrémy e outros. É como se o escritor escrevesse legendas de gravuras clássicas, descrevesse fisionomias, indumentárias, espíritos, cenários e compusesse ou narrasse cada uma das “histórias” à sua maneira. Em “legenda” (“Legenda é substantivo abstrato: a revivificação da fantasia”) não há personagem, a não ser o narrador e o outro, o tu: “A fada bondosa me prometeu te conhecer e seduzir.” Em “hollywood” personagens como Marylin Monroe, Carmem Miranda, Darryl Zanuck, Shirley Temple, Jean Harlow, Teda Bara, Carlitos passeiam pelo tempo e o espaço, como simples imagens de “álbuns de colagens”. A cantora reaparece na legenda seguinte: personagem (“servidor federal lotado na farmácia do INPS”) se fantasia de Carmem Miranda, para logo desaparecer de cena e dar lugar à própria artista, sua trajetória, suas relações com Getúlio Vargas etc. Por último os gentis caçadores de “sweet hunters”, as cenas de caça, a pontaria, “morte é passatempo e ludus”, trombetas, alçapões, e um duelo: “Tu escolheste as armas e este lugar”, a cerimônia, o ideal romântico, o ajuste de antigas contas, os padrinhos que verificam as armas. Descrição de um quadro e narração de outra caçada (“Tento te laçar enquanto te refugias em becos e esquinas”), outra busca de posse ou morte (caçador e caça, fera e presa, homem e mulher): “Imagino te possuir, estupro, em qualquer calçada ou em terrenos baldios de subúrbios.”

Talvez a principal característica de Gilmar seja a própria linguagem ou a sua manipulação. Pode-se falar até num jogo de palavras: “mosteiro da paciência”, “confeitado de glacê e conchas”, “A primeira sexta-feira, o segundo sábado, o terceiro domingo, a quarta-feira têxtil agrícola” (“a vida pregressa de patrícia chantal”). Percebe-se o uso do lugar-comum, porém retorcido, reinventado: “clássico (das multidões) da língua vernácula”, “cotação de ações e omissões”, “poema processo civil”, “cores pastéis e sanduíches”, “amor enfim achado e perdido”, “dentes e presas de guerra” (“monástica”). Às vezes o escritor se vale de expressões tornadas clássicas para lhes dar outro significado: “No princípio era o ponto e a perspectiva de retas”, “a luz negra do quinto dos infernos”, “nexo de causa e efeito” (“laudatio”). Observa-se, ainda, o corte incisivo da frase, da oração, com a supressão de verbos: “As línguas de fogo lançadas pelos dragões incontidos pelos jatos d’água sulfurosa” (idem). Ou “McCartney na sala cortinas fechadas” (“gymnástica”).

                Descrição de personagem se pode ver com frequência em Pluralia Tantum, como em “a vida pregressa de patrícia chantal”: “Loura celebrada, imaculada de homens em todas as portas” (…); “Vamp/vampiresca e suburbana criatura, pontifica nos anais da polícia e nos bastidores dos teatros de revista marrons amenos.”

                Raros são os diálogos neste livro de Gilmar. Mais se assemelham a falas teatrais, como se lê na primeira história (uma das poucas do livro): “Médico – o vento varre as ruas” (…) “Mãe – o rio deve seguir para leste.” Em outro trecho Sogra e Chantal (nora) conversam. As falas são antecedidas de travessões. No entanto, os nomes das personagens só aparecem na primeira fala de cada uma. Os personagens são identificados ou nominados como em peças de teatro.

Muitas vezes o narrador de Gilmar não é propriamente narrador, mas espécie de salmista (“philarmónica”). Outras vezes o narrador fala a outro personagem (oculto), que pode ser visto como protagonista (“termas”). O tratamento dado a este é sempre na segunda pessoa, sem citar nome: “tua virgindade”, “tua solidão”, “teu cansaço”, “tua veste branca”, “tuas formas”, “tua loucura” (idem). O mesmo modo de narrar pode ser encontrado em “dez anos depois”, que tem no desfecho esta fala: “Tu és meu personagem preferido” (…) Em “teodisseia” (teo + odisseia) personagem faz perguntas curtas a um deus ou a uma pitonisa. As respostas soam como narrações, com alguns jogos de palavras e expressões: “O peso argentino líquido e certo”, “rendas per capita tecidas por bilros e fusos horários”.

                Como observou Juarez Barroso, nas abas do livro, “Gilmar não escreve contos. O conto, por mais vanguarda que seja, tem a sua disciplina, sua forma de discurso. Gilmar é um compositor de cantos em prosa, discípulo remoto do Rei Salomão” (…). Pois fiquemos com esta definição: Gilmar de Carvalho é um compositor de cantos em prosa, de narrações (e não narrativas), composições, legendas, escrituras, salmos, hinos, estudos, crônicas, crônicas-poemas, verbetes, lendas e até contos. Um escritor singularíssimo.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Marina Bruna (1935 – 2013)

Marina Bruna nasceu em Franca, SP, filha de Diva Luz Paiva Bruna, diretora de escola e Jaime Bruna, doutor em Latim pela USP e tradutor de grego e latim, além de professor de Latim no curso de Letras da universidade.

Marina Bruna, graduada em Matemática pela PUC/SP; em Pedagogia pela “Carlos Pasquale” e em Jornalismo pela “Cásper Líbero”, exerceu o Magistério como professora concursada em Escolas Estaduais e Municipais de São Paulo.

Lecionou, também, em Escolas particulares. Aposentada dessas funções.

Uniu conceitos de áreas supostamente opostas, mas que resultaram em sua formação poética.

Descobriu o mundo mágico do movimento trovista na década de 90 por meio de Mário Graciotti, da Casa do Poeta de São Paulo. Poetisa desde a adolescência, distinguiu-se como Trovadora, com mais de 500 trovas classificadas em concursos de âmbito nacional e internacional, entre as quais se incluem premiações em Portugal, Argentina e República Dominicana.

Somente em 1988 passou a frequentar a Casa do Poeta Lampião de Gás, de São Paulo.

Fez parte da União Brasileira de Trovadores, onde foi agraciada com os troféus “Revelação” (1989); “Destaque” (1994) e os de Trovador mais premiado do ano (1999; 2001; 2004; 2005; 2007 e 2009).
Recebeu em 2007 o troféu “Lilinha Fernandes”, que a União Brasileira de Trovadores de Porto Alegre atribui ao Trovador mais premiado nacionalmente nos concursos de Trovas do ano.

Publicou os livros: “Transparências” (poemas e trovas); “Cintilações” (trovas), Cantares (trovas) e trabalhos em Jornais Literários, Antologias e Coletâneas poéticas.

Proferiu várias palestras sobre Trovas em diversos espaços culturais de São Paulo, Santos, Niterói e outros, entre as quais “A Esperança nas Trovas” (1993), “Cantigas do Paranaso” (1998), “Pegando Carona na Trova” (1999), entre outras.

Foi colaboradora da revista “Litteratrova”, de Taubaté, na qual mantinha uma coluna mensal intitulada “Redondilhas”.

Além da Academia de Letras, Ciências e Artes da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo, onde ocupou a cadeira de n. 13, cujo patrono é Paulo Setubal, pertenceu às seguintes entidades culturais:
Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo;
Movimento Poético Nacional;
União Brasileira de Escritores; e
“União Brasileira de Trovadores, seção São Paulo.

Fontes:
http://www.recantodasletras.com.br/biografias/3167512
http://blogdopedromello.blogspot.com.br/2013/01/trova-do-dia-25012012-marina-bruna.html
BRUNA, Marina. Cantares: trovas. São Paulo: Ar-Wak, 2010.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Francisco Sobreira

Francisco de Paula Sobreira Bezerra (Canindé, 1942) fez o antigo Ginasial e o Científico, incompleto, em Fortaleza. Concursado no Banco do Brasil, foi trabalhar no interior do Estado, depois fixou residência em Natal, Rio Grande do Norte. Publicou os livros de histórias curtas A Morte Trágica de Alain Delon (1972), A Noite Mágica (1979), Não Enterrarei os Meus Mortos (1980), Um Dia… os Mesmos Dias (1983), O Tempo Está Dentro de Nós (1989), Clarita (1993), Grandes Amizades (1995) e Crônica do Amor e do Ódio (1997); os romances Palavras Manchadas de Sangue (1991), A Venda Retirada (1999) e Infância do Coração (2002). Cinéfilo, foi presidente do Cineclube Tirol, de Natal, e do Clube de Cinema, de Fortaleza. Ganhador de vários prêmios literários, como o da Fundação José Augusto de Ficção, de 1879 e 1981. Também venceu o Prêmio Aurélio Pinheiro de Ficção, de 1985, e o Concurso Literário “5 Contistas Potiguares”; além do Concurso Literário Câmara Cascudo, de 1987, dentre outros. Participa de várias antologias.

A maioria das peças ficcionais de Sobreira se situa na estante das chamadas narrativas lineares, com um episódio central, poucos personagens, desfecho, narração, diálogos e alguma descrição. Em “Operação coroada de êxito”, do primeiro volume, o narrador, internado num hospital, monologa por alguns minutos, no presente, e vez ou outra “repete” falas, de pouco interesse, de seres fictícios insignificantes, ao seu redor. No entanto, a obra de título igual ao da coleção tem arquitetura mais moderna: uma notícia de jornal (a morte do cachorrinho Alain Delon), uma crônica, outras notícias menores relativas ao cão, duas entrevistas e, finalmente, a notícia do julgamento do assassino.

Seu segundo livro, A Noite Mágica, nada tem de revolucionário, de vanguardista, de inovador. Muito pelo contrário, é tecnicamente conservador. Francisco Sobreira não faz nenhuma alquimia de estilo, não cria nenhuma nova linguagem. No entanto, esta aparente acomodação não indica seja ele um simples contador de histórias.

Sendo conservador na forma, o livro de Sobreira segue a trilha da prosa de ficção de pós-1964. Perpassa por quase todas as composições um vento forte de paranoia, caudaloso na literatura urbana brasileira dos últimos anos do século XX. Histórias de medo, terror, alucinação. Medo de ser preso, de perder o emprego, de morrer de fome, medo disso e daquilo. As pessoas se sentem caçadas como bichos, ameaçadas, perseguidas. Os amigos e os parentes são delatores ou espiões a serviço do Poder. A própria sombra de cada ser humano é um dedo-duro em potencial. Esse horror kafkiano é notório em contos como “O Caçado”, “Enquanto o Diabo Esfrega o Olho”, “O Falso Álibi”, “A Promissória” e “O Caçador de Nostálgicos”. O narrador, sempre perseguido, sempre paranoico, torna-se perseguidor, delator, comparsa da polícia (representação do direito de perseguir), como em “A Voz do Vizinho”. O protagonista, sem nome explícito (“o homem que vinha denunciar”, “senhor” ou “denunciante”), comparece a uma delegacia para denunciar o seu vizinho, pelo crime de não falar, embora não seja mudo. Os outros seres fictícios são “o soldado” e “o Delegado”. Constituído basicamente de diálogos, a história tem um quê de non-sens ou, se quiserem, de parábola. E isto é visto em outras peças, como “A Fábrica”, a lembrar José J. Veiga, especialmente “A Usina Atrás do Morro”. Entretanto, a notícia da fábrica, da sua inauguração perde importância logo, para dar lugar à presença de “estranhos”, isto é, os construtores ou trabalhadores da fábrica, na cidade. E somente um personagem adquire significância: o palhaço Arrelia. Por que este e não o professor, o padeiro, o padre? Perfeito desvario, o que não deixa de ser valioso.

O absurdo é, assim, o ingrediente principal da iguaria narrada. Às vezes um absurdo que, de tão cotidiano, perde o sabor de coisa literária. Em “A Lâmina”, por exemplo. Porque ninguém é mais dono de nada. Outras vezes, a situação anormal se apresenta como se o ser fictício fosse apenas um deficiente mental, incapaz de perceber a vida e a morte ao seu redor, manejado por tentáculos tão torturantes quanto os fantasmas dos pesadelos. A realidade narrada aproxima-se, então, do sonho. Os protagonistas e os espectadores são meros joguetes nas malhas de seres todo-poderosos que inventam a vida ou o fato. Por isto, em alguns contos a presença do elemento onírico é perfeitamente perceptível ou mesmo preponderante. Os atos e as imagens se sucedem de forma incoerente, deixando o personagem simplesmente perplexo, espantado diante da estranha realidade de que tenta desesperadamente fugir. Assim, reduz à condição de ficção, de brincadeira de mau gosto, de encenação, quando muito de logro, a peça que lhe pregam. Não acredita ser possível tão absurda realidade. Por fim se convence e tenta fugir. Porém, já é tarde demais.

Essa cosmovisão, esse sentimento de inferioridade, de pequenez, essa crença nos super-homens, nos homens de milhões de dólares, nos seres biônicos, nos deuses e entes mitológicos do mundo moderno, possibilitaram a ascensão do nazi-fascismo e possibilitam, ainda, um mundo de tantos disparates.

“A Pedra” é belíssima composição e tem dimensão diferente das demais. No entanto, o mesmo clima de perseguição, de repressão, na pessoa de um pobre sertanejo virado pagador de promessas.

A linguagem nas narrativas de Sobreira é coloquial, popular, recheada de gírias e modismos (“meu chapa”, “abonado”), expressões de uso comum (“era a última coisa que faria naquele momento”; “ajuda de que tanto necessitava”; “tocava na sua ferida”; “pele de uma alvura imaculada”), observações desnecessárias (“Lá bem distante o mar glaucíssimo oferecia-se à admiração das pessoas”; “Mas os jornalistas parecem sofrer do mesmo tipo de amnésia que afeta os eleitores e os torcedores”; “É preciso que se diga que”). O narrador de “Aquele casal” (pode ser o próprio autor também) observa: “A rotina, seria dispensável dizê-lo, gruda-se na vida de todos nós de uma tal maneira…” Apesar disso, esta peça é magnífica até no desenlace. Sobreira inverteu os papéis dos personagens: o narrador, Ernani, é mero espectador, e é o único com nome explícito. Os protagonistas são “o homem” ou “o gigante” e “a mulher” ou “a mulherzinha”, ou, como se fossem um só, “o casal”. O narrador e os seres fictícios que gravitam ao seu redor falam, gritam, ouvem, veem, discutem, se relacionam. Exercem seus papéis no palco da rua. Por outro lado, os protagonistas simplesmente passam diante deles, em permanente discussão, como se o mundo além deles não existisse.

Em Sobreira a narração é minuciosa, o narrador se perde em detalhes. Há explicações em demasia: “A submissão aos maridos, naquela época, era como que uma cláusula no contrato de casamento, que as esposas tinham que cumprir, e ainda vigora na maioria das uniões existentes no Nordeste do Brasil”. A linguagem da crônica, do ensaio, da matéria jornalística não pode ser a do conto, salvo se o propósito do contista for o de imitar ou parodiar uma ou outra.

Personagens sem nenhuma influência na trama surgem de repente e logo desaparecem, como em “Lastênia”. Algumas obras parecem capítulos de romance, com vários episódios e personagens secundários que poderiam se apresentar sem nomes, como Jofre Colares, Celso Meireles, Benito, Policarpo, Hermógenes, Zeca Marcolino, de “Soldadinhos de chumbo”.

O Francisco Sobreira das histórias insólitas, das parábolas, dos contos fantásticos é, sem dúvida, muito superior ao narrador das pequenas cenas domésticas, das narrativas do cotidiano das pessoas. Entretanto, se depurasse a linguagem, se transgredisse as normas do conto, mesmo os episódios ordinários poderiam alcançar degraus mais altos da arte literária. E, ainda, se buscasse sobrepor ao objetivo um pouco de sugestivo, ou seja, se transitasse da movimentação episódica externa para a ação interior.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Cláudio de Cápua

O dia oito de março marca a data do nascimento de Cláudio de Cápua, que é natural de São Paulo, e que em 1960 mudou-se para Araraquara, tendo mais tarde ingressado na Escola Superior de Agrimensura. Paralelamente aos estudos, Cláudio começou a colaborar no jornal semanário “A Cidade” onde respondia pela edição da “Coluna do Estudante”. A partir deste momento, Cláudio não parou mais de escrever. Escrever tornou-se a forma de comunicação marcante em sua existência. Foi escrevendo que Cláudio de Cápua passou a escrever em jornais paulistanos como a antiga “A Gazeta”, “Diário da Noite”, “A Tribuna Italiana”, “Diário Popular”; colaborou também na revista “Destaque”, de Santos, além de outras assim como ainda em cerca de 30 jornais de bairro, do interior de São Paulo e até de outros estados.

Em sua volta a São Paulo, Cláudio de Cápua teve de abandonar em definitivo os estudos de Agrimensura, uma vez que não existia este curso em nível superior na Capital. Foi nesta época que começou a conviver com poetas como Guilherme de Almeida, Paulo Bomfim, Judas Isgorogota. Bernardo Pedroso, Orlando Brito, Oswaldo de Barros, Antônio Lafayette, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Laurindo de Brito, Ibrahim Nobre, só para mencionar os mais conhecidos. Para aperfeiçoar sua vocação natural e satisfazer seu desejo de ampliar os conhecimentos e adquirir um maior lastro profissional, Cláudio ingressou num curso de jornalismo. A partir daí, o jornalismo constituiu-se a base de todas as variadas atividades nas quais Cláudio de Cápua se envolveu e nas quais deixou sempre a marca de sua integridade e força de trabalho. Ainda no jornalismo, tornou-se professor de jornalismo eletrônico, na Universidade Mackenzie, na década de 80.

Cláudio de Cápua fez ainda algumas incursões pelas artes dramáticas, tendo participado como ator no filme “A Marcha” baseado no romance de Afonso Schmidt. Na televisão, foi ator coadjuvante na telenovela “Hospital” da extinta TV Tupi, isso em 1971, e na TV record trabalhou como assistente de produção de externas na telenovela “O Leopardo”.

Cláudio de Cápua atuou sempre de forma marcante na vida literária paulista, tendo participado ativamente de diversas eleições da União Brasileira de Escritores. Nesta entidade deixou marcas de sua defesa intransigente dos direitos do escritor, e tem lutado pela divulgação de suas obras e do pensamento do escritor paulista. Nenhum movimento sugnificativo que tivesse por objetivo a valorização e a divulgação dos escritores e suas obras deixou de contar com o apoio e iniciativa decisiva de Cláudio de Cápua. Da mesma forma teve ainda atuação destacada junto ao Sindicato dos Escritores do Estado De São Paulo e Centro de estudos Euclides da Cunha de São Paulo.

Como escritor, Cláudio de Cápua publicou livros que não foram brindados com edições fantásticas, mas que foram procurados avidamente pelos conhecedores das obras de qualidade, esgotando rapidamente suas edições. Estão nessa categoria, a começar por 1980, a biografia do escritor e político Plínio Salgado, livro que alcançou 4 edições e vendeu 11 mil exemplares mantendo-se durante 9 semanas entre os livros mais vendidos. (…) Em 1981, Cláudio de Cápua lançou o livro “Meu Caderno de Trovas”, editado por Mestre das Artes; anos depois publicou em co-autoria com sua esposa, Carolina Ramos, o livro “Paulo Setúbal – Uma Vida – Uma Obra”, que teve sua primeira edição esgotada em apenas 90 dias. Entre os projetos de Cláudio de Cápua está a publicação de um ensaio sobre a revolução de 1924, obra que demandou muita pesquisa e anos de trabalho.

Nas palavras de Carolina Ramos, “Ninguém passa pela Trova saindo impune. Rendido aos seus encantos, sempre deixa com ela um pedaço do coração, quando não o coração inteiro. No passado, grandes poetas como Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Bilac, Colombina e outros, passaram por ela, ainda que de raspão. Naquele tempo, a Trova não tinha a força nem o prestígio que hoje tem. Mas, convém lembrar que o santista Ribeiro Couto conquistou Prêmio Internacional com o livro “Jeux de l’apprenti animalier”, com suas fábulas consideradas superiores às de La Fontaine pela concisão com que eram apresentadas, ou seja, sob o formato de Trovas.”

Cláudio de Cápua não seria uma exceção.

Biógrafo, prosador e poeta, esbarrou na Trova e deixou-se cativar por ela. Em 1969, foi um dos fundadores da “União Brasileira de Trovadores”, Seção de São Paulo e, desde 1980, faz parte do quadro associativo da Seção de Santos.

Embora concorrente bissexto, Cláudio de Cápua conquistou vários prêmios em Concursos de Trovas realizados em território nacional.

Seu trabalho em prol da Trova, sincero e despretensioso, merece o respeito daqueles que cultuam o gênero e fazem do Movimento Trovadoresco Nacional, uma das mais ativas e populares facções da literatura do nosso país.”

Fontes:
Trechos extraídos do Discurso de Saudação de Henrique Novak em recepção a Cláudio de Cápua. 31 de outubro de 1998 . Disponível em http://www.de-capua.com/biografia.html
Excerto da Introdução por Carolina Ramos ao livro “Canto que eu Canto”, de Cápua.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Anos 1970/1980 – Barros Pinho

Seguindo informações de alguns historiadores ou cronistas da Literatura Brasileira, 1975 é o marco de uma nova era. No Ceará, entretanto, e em outros Estados talvez, esse marco não é bem nítido, eis que bem antes daquele ano se publicaram importantes livros de contos de escritores cearenses.

A revista O Saco começou a nascer em 1975 e foi em volta dela que, no Ceará, os novos contistas se tornaram mais ou menos conhecidos no resto do Brasil, iniciando-se um período de edição de seus livros no Rio de Janeiro e em São Paulo e de contos esparsos em jornais e revistas de todo o país. O nº 1 saiu em abril de 1976 e o sétimo em fevereiro do ano seguinte.

O Saco se constituía de quatro cadernos: “Prosa” (leia-se conto), “Verso”, “Imagem” e “Anexo” (artigos, ensaios, entrevistas, etc). Publicaram contos nos sete números os cearenses Airton Monte, Antonio Girão Barroso, Antonio Papi Júnior (ou Papi Júnior, nascido no Rio de Janeiro, em 1854, escreveu toda a sua obra no Ceará, onde faleceu em 1934), Araripe Júnior, Barros Pinho, Carlos Emílio Barreto Corrêa Lima, Fernanda Gurgel do Amaral, Fran Martins, Francisco Sobreira (assinado como Sobreira Bezerra), Gilmar de Carvalho, Heloneida Studart, Hugo Barros, João Teixeira, José Alcides Pinto, José Jackson Coelho Sampaio, José Domingos Alcântara, José Hélder de Souza, Joyce Cavalcante, Manuel de Oliveira Paiva, Marcondes Rosa, Moreira Campos, Nilto Maciel, Paulo Veras, Renato Saldanha, Roberto Aurélio e Yehudi Bezerra. Ou seja, gente do passado e do presente. Destes, poucos tinham livro editado.

Em 1976 Glauco Mattoso e Nilto Maciel organizaram uma antologia de contos dos novos escritores brasileiros, intitulada Queda de Braço – Uma Antologia do Conto Marginal, publicada no ano seguinte.

A seguir viria o Grupo Siriará de Literatura, que continuaria, de certa forma, o trabalho desenvolvido pelo pessoal de O Saco, aglutinando os escritores cearenses em torno de um programa e de uma revista.

Surgiram diversos grupos, com jornais e revistas, como é o caso de Seara – Revista de Literatura, criada em 1986, como órgão do Grupo Seara. Porém, nem todos os contistas desse período estiveram filiados a grupos. Alguns já tiveram livros publicados, quer no gênero conto, quer em outros. A maioria, no entanto, tem editadas peças de ficção apenas em coletâneas e revistas, sobretudo em Seara e Espiral. O mais veterano deles foi Alberto Santiago Galeno, nascido em 1917.

Alguns desses contistas só viriam a publicar livro de contos muito depois. Outros desapareceram do cenário das letras impressas.

Os escritores que se dedicaram ao conto nesse período, alguns com livros publicados, foram Audifax Rios, Cláudio Aguiar, Eugênio Leandro, Fernanda Teixeira Gurgel do Amaral, Fernando Câncio de Araújo, Gerardo Cristiano de Sousa, Glória Martins, Holdemar Menezes (que se radicou no Paraná), Hugo Barros da Costa, João Bosco Sobreira Bezerra, João Teixeira, Joaquim José da Silva Neto, José Jackson Coelho Sampaio, José Mapurunga, Joyce Cavalcante, Marcondes Rosa, Marly Vasconcelos, Mino (Hermínio Macedo Castelo Branco), Nilze Costa e Silva (nascida em Natal, RN), Nirton Venâncio, Nonato Lima, Renato Saldanha, Roberto Aurélio Lustosa da Costa, Rosemberg Cariry e Victor Cintra.               

Àquele grupo de contistas surgidos ao redor da revista O Saco e do Grupo Siriará vieram se unir Aíla Sampaio, Ângela Barros Leal, Antonio Mourão Cavalcante, Antônio Weimar, Beth Moreira Lima, Christina Cabral, Durval Aires Filho, Erika Ommundsen-Pessoa, Eurico Bivar, Fernanda Luz Benevides, Fernanda Quinderé, Francisco Carlos Bezerra e Silva, Francisco Nóbrega Teixeira, Francisco Paceli Vasconcelos, Francisco Roberto Bezerra Leite, Furtado Neto, Glícia Rodrigues, Heloísa Barros Leal, Inez Figueredo, Isa Magalhães (Leonisa Maria Magalhães), José de Anchieta França Mendes, José Leite de Oliveira Júnior, José Maria Leitão (pouco conhecido no Ceará, por ter se radicado em Brasília desde cedo), José Ribamar Leite Miranda, Lena Ommundsen, Luiz Gonzaga de Medeiros Nóbrega, Lydia Maria Brito Teles (nascida no Rio de Janeiro), Manoel César, Maria Cristina de Castro Martins, Maria Elizabeth de Oliveira, Maria Ilma de Lira, Maria Tereza Barros, Marisa Biasoli, Mary Ann Leitão Karan, Nathanael da Silveira Britto Neto, Ocilma Ribeiro Lima, Odélio Alves Lima, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Paurilo Barroso Júnior, Pedro Wilson Rocha, Pery Augusto Bezerra, Raimundo Batista Aragão, Raimundo Nonato de Lima, Reginaldo Dutra, Regine Limaverde, Ribamar Lopes (ou José de Ribamar Lopes), Rosa Maria Matos Nogueira, Rosa Virgínia Carneiro de Oliveira, Simone Gadelha, Teoberto Landim, Valdemir de Castro Pacheco e Waldy Sombra.

Alguns escritores deste período são nascidos cerca de dez anos antes da maioria, o que cronologicamente os juntaria aos do capítulo anterior, como é o caso de José Costa Matos (1927), Geraldo Markan (1929), José Hélder de Souza (1931), Mario Pontes (1932), Natércia Campos (1938), Barros Pinho (1939), poeta com livro editado desde 1969 e que somente em 2002 apresentou um conjunto de histórias curtas, A Viúva do Vestido Encarnado. entretanto, já em 1971 seu nome aparecia na Antologia de Contistas Novos, organizada por Moacir C. Lopes.

Entretanto, editaram seus primeiros livros, participaram de antologias ou publicaram em jornais e revistas somente depois de 1970. Outros, porém, não poderiam estar aqui estudados por este mesmo motivo, como é o caso de Gerardo Mello Mourão, José Alcides Pinto e Moacir C. Lopes, porque, embora tenham estreado com livro de contos depois de 1970 (ou mesmo no século XXI), publicaram livros antes dessa data. Seria uma mistura inaceitável para o leitor e o pesquisador.  Ora, escritores nascidos nos anos 1920/30 e que escrevem e publicam desde os anos 1960 não podem ser considerados novos, embora tenham editado livros de contos depois de 1990. Assim, como pôr lado a lado, neste livro, Gerardo Melo Mourão (nascido em 1917, tendo publicado o primeiro livro em 1938) e Carlos Emílio Corrêa Lima (nascido em 1955), somente pelo fato de ambos terem editado coleções de contos depois de 1970?            

Tudo isso, porém, não tem muita importância, a não ser para tornar este livro mais didático.

Entretanto, a apresentação desses contistas não obedecerá a ordem cronológica de nascimento, mas a de publicação em antologias, revistas, livros, etc.
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Barros Pinho

José Maria Barros Pinho (Teresina, Piauí, 1939) poderia ser incluído no período iniciado nos anos 1970. Mas antes disso já participava de movimentos literários e publicava livros. Poderia também ser arrolado entre os novos, eis que seu primeiro livro de contos é de 2002. Mas muitos outros nascidos nos anos 1920 e 1930 também publicaram livro de contos nos anos 1990.

Cedo se mudou para Fortaleza, onde se formou, foi vereador, deputado estadual (três legislaturas) e prefeito de capital (1985); também exerceu a presidência do Instituto de Previdência do Município e da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo desta mesma cidade. Professor, poeta e contista. Participou da Antologia de contistas novos (1971), organizada por Moacir C. Lopes. Membro da Academia Cearense de Letras, da Academia Cearense de Retórica e da Academia Fortalezense de Letras. Publicou os livros de poesia Planisfério (1ª. Edição, Fortaleza: Imprensa Universitária, 1969. 2ª. edição, Teresina: Corisco Editora, 2001); Natal de Barro Lunar e Quatro Figuras no Céu (Fortaleza: Edições Projeto, 1970); Circo encantado (Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1980); Natal do castelo azul, 1986; e Pedras do arco-íris ou a invenção do azul no edital do Rio (Fortaleza: Programa Editorial Casa de José de Alencar/UFC, 1998); além do livro de contos A Viúva do Vestido Encarnado (Rio de Janeiro: Ed. Record, 2002).

O título é muito sugestivo. Encarnado é o mesmo que vermelho, vermelho da cor da carne. Seguindo a tradição da literatura brasileira, Barros deveria ter escrito “vestido vermelho” e não “vestido encarnado”. No entanto, ele faz questão de se apresentar como representante de um neo-regionalismo, de resgate do linguajar nordestino, dos costumes e das tradições. A par disso, as viúvas vestem vestidos pretos, sobretudo nos primeiros tempos de luto. Ao usar um vestido encarnado, a viúva do conto que dá título ao livro cumpriu a promessa feita ao marido, manchando de vermelho o negro do luto.

                Os dramas vividos pelos personagens de A Viúva do Vestido Encarnado são dramas universais, embora localizados no sertão do Nordeste brasileiro ou, mais precisamente, às margens do rio Parnaíba, no Piauí. O tempo histórico desses dramas poderia ser o do início da segunda metade do século XX, quando da substituição das moendas de madeira pelos engenhos de ferro, na fabricação de rapadura e outros produtos derivados da cana de açúcar. Tempo dos alambiques, dos coronéis donos de tudo, dos cambiteiros, dos vaqueiros, dos currais. No entanto, como está no conto da viúva, “O tempo, como lagarta, vai comendo o destino das pessoas”.

“Araçás do Mestre Rosa” é um drama de amor e morte, como tantos e tantos outros da literatura. O triângulo amoroso é formado por Eugênio, mestre Rosa e Amália. O primeiro vive a viajar, “a trato de negócio de arroz e babaçu”. E aí está dado sinal para o início do conflito: o dono da casa vive viajando, enquanto sua mulher observa outro homem, dentro de casa “na caiação da casa e no preparo da capela branca-azul ao lado”. Em a “Faceirice da Burra Sabiá nos Alegres do Zeca do Bonário” a desilusão amorosa do homem se dá logo nos primeiros dias do casamento. E aí se inicia o conflito. Conviver ou não conviver com a mulher desvirginada por outro?

Os contos de Barros Pinho têm uma estrutura definida: primeiro ele pinta o espaço em que se desenrolará o drama, em seguida desenha o protagonista e logo o leitor se percebe no meio do redemoinho do conflito. Como bem vislumbrou José Alcides Pinto, em “Barros Pinho: as teias da escritura” (Diário do Nordeste, Fortaleza, CE, 27/10/2002), “A paisagem geográfica vai se delineando como na montagem de um filme” (…).

Em “Araçás do Mestre Rosa” a ação se dá num sítio localizado na ribanceira do Parnaíba. Como em muitos outros contos do livro, Barros Pinho localiza suas histórias às margens do grande rio do Piauí. No entanto, no conto de Zeca do Bonário o espaço, ou a geografia, cede lugar aos personagens, à história propriamente dita. Em “Mundica, Mulata do Cais” é mais acentuada a presença do rio Parnaíba na prosa de ficção de Barros Pinho: “o paredão chamado cais”, as balsas, as águas. Mas há também o sertão com suas palmeiras de babaçu, seus brejos.

No conto dos araçás apenas três personagens participam diretamente do conflito, o que é óbvio, por se tratar de um triângulo amoroso. Amália, a filha do coronel Gaspar, “espiadeira dos viajantes das lanchas que subiam as águas do rio”, seu marido Eugênio e o mestre Rosa, que tenta fugir da tentação de trair o amigo.

Na história de Zeca do Bonário são também apenas três os personagens principais: Maria, no dia do casamento, se apresenta triste, acabrunhada, porque já não seria virgem. Leia-se esta frase: “Ela vem com o olhar fixo na perna da mesa”. E esta: (…) “Maria esconde afogado de tristeza no canto dos olhos” (…) Zeca é o marido “traído” antes do tempo: “Se bem contado, quase um ano e um dia esperando sangue de virgem pra molhar minha macheza de homem”. Até decidir levar a esposa de volta à casa dos pais: “Aqui tá Maria, do jeitinho que me entregaram”. O pai, Vicente, “Apanhou o mal dos tristes”.

No entanto, nem só de homens enganados são construídas as histórias de Barros Pinho. Há também os heróis, os valentes, como Zeca Gois, com suas constantes aventuras. “O Zeca, se rezava, rezava com o punhal na mão”. Ou como Bené Gavião (“Os 10 Limites de Bené Gavião”), virado herói depois de levar nove surras. Ao receber umas relhadas do soldado Beradão, aplica-lhe algumas facadas, matando-o. “Sou mais do que homem, sou gavião que não tem medo de voar”. Outros, como Abdon (“Josefa da Neblina na Roça de Abdon”), viviam em razão das mulheres: “Quem tiver mulher esconda dele”.

Quando quer fazer galhofa, o contista utiliza a caricatura, a lembrar Rabelais. Aliás, há também muito de Molière e Cervantes nas “novelas” de Barros Pinho. Sim, porque os contos de A Viúva do Vestido Encarnado têm muito das novelas daqueles gênios, pelo pitoresco, pelo fescenino, pelo humour, pelo caricaturesco. Veja-se o retrato da senhora Tranquilina Pereira, cujo corpo “parecia um saco cheio de carnaúba; o rosto com as pontas dos ossos salientes; os olhos trocados num caraolho esquisito; a boca agamelada com uma dentadura a se mexer e a estalar, ver guaxinim chupando cana; os peitos tais jenipapos maduros à procura dos joelhos; as pernas, cambitos secos, carga de bagaço; as orelhas, cego passava chuva embaixo delas esperando o sol; os cabelos duros como de porco-espinho; e os braços compridos lembrando vereda de peba; e as mãos grandes como o abano do diabo chegando no inferno. (…) Não era gente, era bicho com parecença de mulher”.

Em todo o livro observa-se o emprego de frases curtas e enxutas, inclusive com a supressão de artigos e verbos. A par disso, a linguagem poética é uma constante. Metáforas e mais metáforas são encontradas no decorrer das narrações e nas falas dos personagens, tal como em José de Alencar. “Espanto de Zeferino no Dilúvio de Santa Bárbara” tem por desfecho este belo verso: “A Terra é uma asa de anum escuro voando pro céu!” Em “O Zeca do Tiro no Bode da Nazária” encontra-se esta outra preciosidade: “Viver pelo absurdo no buraco dos abismos até alcançar as linhas da aurora”. Às vezes, as frases são construídas com a mesma poesia do sertanejo: “Homem e mulher foram feitos para o mesmo caçuá da vida”. Dimas Macedo, no artigo “Recriação da linguagem” (Diário do Nordeste, Fortaleza, CE, 27/10/2002), já se referia a este aspecto na obra de Barros Pinho: “Mas poesia, na sua ficção, como no poema, se infiltra, às vezes, quase absoluta, e reina, absoluta, de maneira quase provocante, desafiando jargões, anunciando formas, propondo universos linguísticos, restabelecendo vernizes populares e códigos de unidade semântica”.

Barros Pinho não se vale das técnicas tradicionais, em especial no caso do foco narrativo. Em “Araçás do Mestre Rosa” faz uso frequente do monólogo interior e do diálogo interno. O narrador, no caso em foco, não pode ser confundido com o escritor nem com o clássico narrador onisciente. Veja-se este trecho: “Seu Eugênio da Varginha era conhecido como folha de pau-das-extremas, homem de comércio sem fazer mistério. No vai-vém da troca, nada escapava que não fosse objeto de mimo e mulher, semente da família. Opa, seu Eugênio, não segure em rabo de cotia. Era a vez do Tonho do Sérgio, juiz de paz dos araçás: meça as palavras debaixo do céu”.

Com A Viúva do Vestido Encarnado Barros Pinho se afirma como uma das revelações da ficção curta não somente no Ceará, mas no Nordeste brasileiro, empunhando a bandeira de um novo regionalismo – poético nas frases e nas falas dos personagens, de elaborada feitura e sem os cacoetes do velho regionalismo.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Juarez Barroso

Juarez Távora Barroso de Albuquerque Ferreira (Pernambuquinho, Serra de Baturité, 1934 – Rio de Janeiro, 1976), apesar de se ter formado em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou no radialismo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou jornalismo e publicidade. Premiado num concurso permanente do antigo Boletim Bibliográfico Brasileiro, em 1958, foi incluído no Panorama do Novo Conto Brasileiro (Editora Júpiter, 1964), organizado por Esdras do Nascimento, e em Uma Antologia do Conto Cearense (Imprensa Universitária do Ceará, 1965). Deixou as narrativas de Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal (1969), ganhador do Prêmio José Lins do Rêgo, do ano anterior, e Joaquinho Gato (1976). Tem também um romance, Doutora Isa (Editora Civilização Brasileira, 1978), publicação póstuma.

Os contos de Juarez Barroso são quase todos longos, alguns com feição de novela. Neles, assim como no romance Doutora Isa, predomina a linguagem oral do campo e, em menor escala, dos subúrbios. Em consequência, a maioria dos dramas se localiza no meio rural (Serra de Baturité). Em uns poucos (naqueles situados em Fortaleza, ou seja, nos contos da segunda parte – “Os Hereges” – do primeiro volume) o ambiente é urbano. Os personagens são sempre tipos, quase todos serranos: pequenos proprietários rurais, mulheres fortes, homens valentes e vingativos. Também os tipos suburbanos, como as prostitutas, os operários, os cachaceiros, carecem de profundidade. As histórias apresentam dramas pessoais e familiares quase sempre trágicos, mesmo quando o humor se faz presente.

A linguagem oral do campo irá se manifestar em maior escala no segundo livro, cujos narradores são protagonistas ou testemunhas. No primeiro livro predomina o ponto de vista de narrador em terceira pessoa. Em “Estória de Seu Armando e de Seu Amor” a oralidade da linguagem matuta se revela apenas nos diálogos. Na novela “Estória de D. Nazinha e de Seu Cavalo Encantado” também nas falas dos personagens a linguagem oral do campo é visível: “Taí” (Está aí), “Dextá” (Deixa estar), “Jouviu?” (Já ouviu?). Em “Um Tal de Pedro Amorim”, do segundo volume, a oralidade é mais evidente. O narrador onisciente narra e “deixa” os personagens falarem ou dá voz a eles. As falas se superpõem, como no trecho seguinte: “Quantas vezes, caboclo, quantas vezes?” (Fala de Seu Aprígio) (…). O narrador retoma a palavra: “A ponta da faca à procura da goela, acelerando os soluços, ai, ai, ai, que a confissão aí vem, pelo amor de Deus, Seu Aprígio, foi só uma vez” (…), e sua fala se confunde com a do outro personagem.  

O primeiro livro é dividido em duas partes: “A Sagrada Família”, composta de três histórias ou estórias, e “Os Hereges”, de seis. Naquelas, o ambiente rural; nestas, o urbano (Fortaleza). Em “Estória de Seu Armando e de Seu Amor” o primeiro ato se atém ao velório do protagonista, em sua casa, num sítio. No segundo, em flashback, são narrados momentos da vida de Armando: na cadeira de balanço no alpendre olha para o baixio, o açude, a torre da igreja, os telhados da cidade, a fábrica de cachaça, as moendas etc. Referências a cidades do Ceará são frequentes: Guiúba, Pacatuba, Redenção. Em “Estória de D. Nazinha e de Seu Cavalo Encantado” também: Palmeira, Pacoti, Cruz do Lajedo, Quixadá, “em baixo ou em cima da serra”. E toda a trama envolve um cavalo de montaria em sua vida no campo. Em “O Trato” vê-se um jumento pastando na praça de uma cidadezinha. Um sapateiro bate sola. Homens jogam bilhar. Antes “tudo era o sítio do Coronel Tomé, um mangueiral só, cortado pelo riacho.”

A parte denominada “Os Hereges” traz a informação: (Sitiados na cidade de Fortaleza). Veem-se “ônibus lerdos”, um automóvel bonito, fala-se em chatôs. Bairros da capital cearense são mencionados: Benfica, Pan-Americano, Campo do Pio, Aldeota, Jardim América, Montese, assim como logradouros: Rua Júlio César, onde vivia Mundinha Panchico e o resto do pessoal, isto é, as meninas do chatô. Clubes de futebol também: Ceará e Ferroviário. Nenhuma menção ao Fortaleza.

   Os personagens de Juarez Barroso são tipos comuns ao espaço rural cearense e suburbano. Há também caricaturas ou tipos deformados. O velho Armando Chaves, dono de fábrica de cachaça, em atrito com a família, em razão de um relacionamento amoroso com uma cabocla (“Estória de Seu Armando e de Seu Amor”). Dona Nazinha, seu cavalo encantado e o marido humilhado, que se rebela e se vinga, maltratando o animal durante uma noite inteira. Duda e Geraldo, matadores de Pedro Lopes, em vingança pela morte do pai. Expedito (“O Ex-Operário Expedito em Sua Maior Felicidade”) é talvez um dos personagens mais bem pintados da obra de Juarez. Desde sua chegada ao bairro onde morava, num belo automóvel de praça (antecessor do táxi). O início da farra: “Bote toda a cerveja que você tiver aí pra gelar e traga logo uma pra mim.” A chegada dos amigos e conhecidos. O convite à bebedeira. A mão aleijada (“o corrupio da serraria lhe cortara dois dedos”) sobre a mesa, aquela “joia cara” que lhe rendera uma fortuna (o seguro). Sim, ele, ex-operário, um homem anormal, com apenas três dedos na mão, sentia piedade dos outros, dos normais, dos não-mutilados, uns pobres-diabos: “O cabo era como os demais, cinco dedos em cada mão, coitado.” A noite passa, os convidados cochilam, vão embora, e ele, sozinho de novo, volta para a casa pobre, a mulher preocupada com o aluguel atrasado, a conta da bodega, as roupas dos meninos.

Um dos personagens mais estranhos de Juarez é Japi, de “Isaura, Japi e o Marido”. Japi é criatura humana ou canina? “E sai Isaura com o filho no colo, sentado em seu braço, menino, mas um menino desajeitado, gordo, mole, espinha curva.” Para o narrador Japi é humano. Batista, personagem secundário, o chama de cachorro, o que irrita Japi: “Aquele bicho feio me chamou de cachorro, mamãe! Cachorro pode ser o pai dele.” Japi tanto não se sente cachorro que chama o outro de bicho. A fala de Japi pode ser uma voz representada por Isaura, como o fazem adultos com crianças ainda sem fala e animais. No entanto, a mulher é impedida de subir a um ônibus com Japi: “Disseram que não conduziam cachorro.” Ou Japi é realmente um cachorro ou se assemelha àquele animal. Entretanto, o “pai” parece estar “ficando doido”, segundo a “mãe”. Ou é ela, Isaura, a louca?

Alguns personagens aparecem em mais de uma história. Mundinha Panchico, dona de chatô em Fortaleza, é protagonista em “Cantar de Amigo de Mundinha Panchico”. Em “Incursão na Vida Sentimental de Alzira Ferreira Lima, Boneca na Intimidade”, apenas personagem secundária ou mencionada. Dona Nazinha e seu marido, Capitão Teófilo, são protagonistas em “Estória de D. Nazinha e de Seu Cavalo Encantado”. Reaparecem, secundariamente, em “Joaquim Bralhador”. Joaquinho Gato talvez seja o mais importante desses personagens, ora como narrador, ora como testemunha.

Muitos são os tipos deformados na obra de Juarez Barroso, como o já mencionado Japi. Merece destaque Joaquim Bralhador, protagonista do conto homônimo. O narrador não identificado se dirige a um ouvinte também oculto, chamado ora de senhor, ora de doutor. Depois de muito falar da serra, do sertão, de sua bicicleta, de burras, em quase três páginas, dá início à narrativa do homem-cavalo: “E por falar em cavalo, só houve um vivente, neste mundo, que misturou as duas naturezas, foi homem e cavalo a um tempo só” (…). A descrição do personagem, ao longo na narração, é perfeita, precisa. O narrador não se mostra apavorado ou não infunde pavor, talvez porque se refira a fatos há muito ocorridos. A misteriosa vida de Joaquim não é, na verdade, um fenômeno sobrenatural. A história não tem, pois, ingredientes do fantástico. A deformação mental do personagem é oriunda de uma doença infantil, “doença-de-menino”, razão pela qual a narrativa não pode ser vista como uma fantasia, mas como uma “realidade” natural, embora anormal.

Pequenos dramas pessoais e familiares, às vezes com pitadas de humor, são a tônica dos contos de Juarez. Esse humor se manifesta mesmo nas histórias em que a violência humana se apresenta em toda a sua plenitude.  Em “Riqueza” Artur lava a honra dos varões de Baturité, ao provar a uma prostituta vinda de outras terras que ali havia, sim, homem que desse em sua medida. O humor se confunde com o anedótico.

Chegado à velhice, Seu Armando se revolta com os filhos que não admitem a sua paixão pela negra Assum-Preto. Um desrespeito à mãe deles. Não se iniciasse a narrativa com o velório do velho, o leitor se deleitaria o tempo todo com as esquisitices do protagonista.  Dona Nazinha, o Capitão Teófilo e um cavalo pedrês, adquirido a peso de ouro, vivem uma estranha história de orgulho, com final trágico. A longa cena da humilhação imposta pelo homem ao animal é das mais pungentes.  Em “O Trato” dois irmãos vingam a morte do pai. Nada de mistério, tudo muito real.

Em alguns contos situados no campo, o real social pode ser visto pelo leitor metropolitano como extravagância do escritor ou simples recriação de anedota folclorizada. O real natural, no entanto, pode espantar esse leitor, pela crueldade de alguns personagens, como o já mencionado Teófilo, Seu Aprígio e familiares (no ato de castração de um homem) ou Seu Zezé, o matador de cururus.

Nas narrativas urbanas, localizadas em Fortaleza, os personagens vivem dramas de amor, de desavença familiar e pobreza. Em “Seu Mozart e o Povo da Rua” se narram conflitos de uma família pobre, seu cotidiano de discussões e bebedeiras. Na história do ex-operário Expedito mais uma vez a pobreza, o alcoolismo, o dia-a-dia no subúrbio. O humor permeia as páginas de “Primeira Comunhão de Filha de Pobre”. Mais brigas, mais bebedeiras, mais confusão, a presença da polícia. Em “Cantar de Amigo de Mundinha Pachico” o conflito vai além da família: a protagonista é acusada de abrigar em seu chatô “uma menor”: “Há tempos que um freguês levava uma menor para lá quase todos os dias. Mas ninguém sabia que o diabo da menina era menor, não.” Conduzida numa rádio-patrulha, a caftina é presa, para alvoroço do povo da Rua Júlio César. Era no tempo em que nas ruas ainda não se via asfalto: “Lá fora, a areia da rua pegava fogo.” Personagens do submundo da prostituição também compõem o conto de Alzira Ferreira Lima.

No segundo livro novos conflitos familiares, talvez mais pungentes do que os do primeiro. Em “Um Tal de Pedro Amorim (Cantiga de Joaquinho Gato)” quatro homens se reúnem para supliciar e castrar um amante de Zila, mulher de Seu Aprígio. O narrador se esmera nos mínimos detalhes das ações. Aliás, são diversos os narradores, que se sucedem ao longo da narrativa. Qual o conflito de “Cururu”, história essencialmente naturalista? No saco da Serra do Rato, homens capturam sapos, conduzem-nos em caçuás e os vendem a Seu Zezé. Outros homens se encarregam de extirpar-lhes o couro. É um primor a narração do ato de crucificar o animal e, em seguida, ainda vivo, retirar-lhe, a canivete, o couro. No entanto, a simples narração da morte dos cururus não constituiria um conto. Juarez Barroso consegue, porém, fazer do narrador um personagem mais humano, ao pôr um sapo em sua rede.

A presença de animais é fundamental nas histórias em análise. Além dos sapos de “Cururu”, os cavalos são “personagens” de maior relevância, como o pedrês de Dona Nazinha. Há, porém, um personagem muito mais significativo: Joaquim Bralhador, o homem-cavalo. Ainda menino, após um “febrão”, passou a ficar “feito abestado diante dos burros e dos cavalos”. Passava horas “numa carreira pulada, trocando as passadas, de dois em dois, a moda de um galope, pototoco, pototoco, pototoco.” Sentia-se animal e ao mesmo tempo homem. Com o tempo, porém, “as duas naturezas começaram a se estranhar, a se cansar uma da outra”. Até morrer tragicamente, feito “cavalo de lote que morre estrepado”, “espetado pela barriga, a ponta (de uma estaca) quase lhe saindo pelas costas.”

Essa não-idealização da realidade, essa fidelidade ao real e ao natural faz de Juarez Barroso um autêntico neonaturalista, apesar de alguns traços de humor e até de fantástico em sua obra. Não somente o real social, mas, sobretudo o real natural, especialmente o do ser humano.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.


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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Caio Porfírio Carneiro

Caio Porfírio de Castro Carneiro (Fortaleza, 1928) bacharelou-se em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Transferiu-se para São Paulo em 1955. Secretário administrativo da União Brasileira de Escritores de São Paulo desde 1963. Ganhou vários prêmios literários, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o Pen Clube de São Paulo. Contos seus estão incluídos em duas dezenas de antologias do gênero e traduzidos para o espanhol, italiano, alemão e inglês. Publicou os livros de contos Trapiá (1961); O Menino e o Agreste (1969); O Casarão (1975); Chuva – Os dez cavaleiros (1977); O Contra-Espelho (1981); 10 Contos Escolhidos (1983); Viagem sem Volta (1985); Os Dedos e os Dados (1989); Maiores e Menores (2003). Escreveu também romances, como O Sal da Terra (1965), que foi traduzido para o italiano, árabe e francês e adaptado para o cinema, e Uma Luz no Sertão (1973), também as novelas Bala de Rifle (1963), A Oportunidade (1986), Três Caminhos (1988) e Dias sem Sol (1988), além de literatura juvenil, poesia, reminiscências, perfis e memórias.

Caio Porfírio Carneiro é um dos mais fecundos cultores do conto no Ceará. Sua obra de contista e romancista tem sido objeto de estudo de diversos críticos. Alguns o consideram um dos mais importantes contistas brasileiros do século XX.

As primeiras narrativas curtas de Caio têm como palco o sertão, o campo, os vilarejos, as pequenas cidades. Em “Milho empendoado”, de Trapiá, os personagens circulam pela caatinga, pelo mata-pasto, pelo roçado. Do campo para a cidade pequena é um passo. A vida rural é retratada nesses contos com fidelidade. Em “O pato do Lilico” também se vê toda aquela paisagem sertaneja, quer no campo propriamente dito, quer no interior das casas, bem como os costumes (cavalo de talo de carnaúba), os objetos (bilros de almofada, cabresto, cangalha, grajaú), a linguagem (bichinho, socar-se, rachar de peia). Em “Come gato” o contista entrança duas histórias aparentemente díspares – a disputa política entre coronéis e a humilhação diária do pobre Olavo, apelidado pela meninada de Come Gato – para pintar um quadro de agudo realismo. Esses primeiros contos são relativamente longos, se os compararmos aos de alguns livros posteriores. Neles os diálogos se alongam, entrecortados por breves narrações.

A estrutura das narrativas de Caio foi se transformando lentamente de livro para livro. A linearidade de Trapiá desaparece a partir de Os Meninos e o Agreste. “O bilhete” é composto de diversas ações, ao longo dos dias. O espaço é o de uma cidade pequena, porém não mais Trapiá. O enigmático – um dos esteios da obra de Caio – prende o leitor desde o primeiro diálogo. Novas estruturas de conto aparecem aqui e ali. Em “O pecado” exibe elementos do teatro: como se fossem subtítulos, os atos são encimados por anotações como “Voltando da missa”, “Em casa”, “À tarde, no campo de futebol” etc.

Os contos de O Casarão também se afastam do discursivo linear. Veja-se a espinha dorsal de “A herança”: o narrador descreve um morto (“mãos cruzadas ao peito”), sem se apresentar. Passa a narrar uma reunião familiar, em volta do defunto. Somente na segunda página o narrador se mostra como personagem. E mais adiante como menino, na ordem recebida “– Vá deitar-se.” A narração se faz lenta, detalhada. Na terceira página um flashback curto, e logo o passado se funde ao presente de forma sutil.

O elemento tempo é regido com diversas técnicas, como em “A volta”, no qual os tempos se confundem. Já em “A viga” as ações se dão em sequência e também em círculo.

Observa-se em Caio também a ausência de descrições. Assim, a referência a casco de animal, novilho, ingazeira sugere o espaço rural. No terceiro volume ainda são longas as narrativas, sempre repletas de diálogos. Há, porém, narrativas em outro formato, como “A busca”, sem diálogos e num só parágrafo. O espaço das ações é um casarão. Em “A herança” há certo mistério no desenvolver-se da trama, com desfecho inesperado ou enigmático. A intriga é muitas vezes recheada de mistério, como em “A busca”.

Chuva (Os Dez Cavaleiros) é quase um romance, se é possível isto. A chave para esta observação se encontra na última narrativa, quando o décimo cavaleiro, dirigindo-se ao seu interlocutor, fala: “Olhe aqui, homem: de toda a multidão que conheci, correndo a planície, a serra do Catolé e todos os lugares que cercam a Lagoa Grande, nove ficaram na minha cabeça. Nove. Todos cavaleiros como eu”. Como se dissesse ter conhecido as outras nove histórias do livro. Nos dez contos há sempre um cavaleiro vestido de capote e coberto de chapéu, e outra personagem, ambos sem nome explícito. A paisagem é composta de chuva, um ambiente de campo, com um casebre ou choupana, com chão de barro batido, às vezes uma vila, com uma pracinha, uma igreja abandonada e gente desvalida, sofrida, com medo. De comum também o espaço apenas referido da serra do Catolé e da Lagoa Grande, sempre muito distantes. Quase uma miragem. Para completar a narrativa, um drama e um desenlace enigmático, de parábola. Os desfechos muitas vezes estão nos títulos das histórias.  O fantástico se desenha em quase todos os contos, quer no desenrolar da trama, quer no epílogo. Seria, porém, um fantástico mais próximo da parábola, do simbólico, do enigmático. Outras vezes é apenas uma sugestão. Esse enigmático é como que o sangue do corpo das narrativas de Caio, presente desde os seus primeiros livros. Alguns personagens chegam a parecer anormais, por conta do enigma que conduzem. Em “O olhar”, de Maiores e Menores, o narrador é tratado como louco, “vigiado por pessoas de branco, dopado de tantas agulhadas”. Em “Antanho”, do mesmo volume, o leitor não sabe se o tempo existe ou não existe, se a história é real ou irreal. O protagonista volta à vila de sua infância muitos anos depois. Está tudo igual a antes, à exceção de uma motoca que “entrou como um raio na rua, aos papoucos” (…). No final, o motoqueiro esclarece tudo: “– O que foi fazer naquela vila morta? Lá não mora mais ninguém.” Afinal, quem é o homem que volta à vila sem vida, à procura de uma tal Maria Cristina (que já devia ter morrido há muito), conversa (ou imagina conversar) com “fantasmas”?

Em todos os contos de Chuva a narração se dá na terceira pessoa, mais para observador do que para narrador onisciente. Talvez apenas em um trecho de um dos contos o narrador se faz onisciente. A narração é quebrada, aqui e ali, por breves e ásperos diálogos, em linguagem culta ou literária. Caio manipula a linguagem com sabedoria, valendo-se de muita imaginação e do conhecimento das melhores ferramentas da arte de narrar.

Em Os Dedos e os Dados, o contista parte por caminhos menos espinhosos, lamacentos, embora retrate também graves conflitos humanos. E se serve de formas variadas para compor as histórias. “A Promessa” é quase todo um só diálogo, de frases curtas. “A Confissão”, como o título sugere, é um diálogo. Em “A Missão” não ocorre uma só fala e a narração é composta de um longo parágrafo e uma frase curta: “A outro qualquer caberia terminar a tarefa”. É a busca da crucificação, novo Cristo sem algozes. Alguns contos tratam do relacionamento amoroso e podem ser tidos como eróticos.

Caio é um especialista da história curta, breve. No entanto, é capaz de se alongar, como em “Um Segundo”. E aí mora o mistério. Em um segundo ele consegue ser mais expansivo do que em histórias que duram horas.

A Partida e a Chegada é outro livro de construção inusitada, a lembrar uma casa composta de fachada rococó, paredes barrocas, colunatas romanas. Como Chuva, deve ser lido como um todo, conto a conto. Leiam-se os diálogos de abertura do volume, como se fosse um prólogo ou, em termos de arquitetura, o átrio de uma casa romana ou o alpendre de antigas casas sertanejas. Duas personagens, sem nome explícito, conversam, como se resumissem as histórias seguintes. A descrição do ambiente é mínima: a lua, as nuvens, as estrelas, o céu. São como cenário singelo de um palco pequeno, onde dois personagens encenassem cinco brevíssimas peças. Tudo muito contido.

Ao contrário de Chuva, todo ambientado no campo, as narrativas deste são, na maioria, de inspiração urbana. No primeiro conto, “A Carícia”, é narrado  assalto a um banco. O contista utiliza alguns procedimentos formais mais ousados, embora não mais de vanguarda (hoje), como o cruzamento de narrações na terceira e na primeira pessoa, além do diálogo indireto e da linguagem oral. As narrativas “Saparanga” e “Zecapinto” ocorrem num lapso de tempo bem mais longo do que na maioria das histórias curtas de Caio.  A contrastar com a tensão do primeiro conto, nestes perpassa um humor circense. Os protagonistas são um tanto picarescos. Há, no entanto, uma variedade de enfoques no livro. Assim, “O Crime” é quase a reconstituição de um fato histórico, em Caucaia, Ceará.          

Os livros de Caio têm a marca de Caio, até pela estrutura dos contos. Em Maiores e Menores o contista mostra narrativas escritas entre 1995 e 2002. Umas mais longas, outras mais curtas. Em “Cantiga de ninar” os personagens não têm nomes explícitos, o que ocorre em muitas outras narrativas. A história é narrada quase toda num longo diálogo conduzido por narrador onisciente. No entanto, isento de opinião. O diálogo é interrompido aqui e ali pelo narrador, para indicar ao leitor o lugar onde um homem conversa com outro mais velho e para mostrar os movimentos dos personagens: “Olhou o carro que ia em disparada na estrada asfaltada, do outro lado da porteira” (…). Sabe-se, então, que os personagens se encontram numa casa de campo. Caio, porém, não se atém a esse tipo de narrativa. Em “Ele”, por exemplo, o leitor não sabe quem é o narrador até as proximidades do final da história. Percebe que o ponto de vista é da primeira pessoa quando lê: “Ele me olhava com olhar neutro.” Além disso, o conto é narrado no pretérito imperfeito (“Ele sempre se sentava na mesma cadeira”) até o desfecho, quando o narrador substitui aquele tempo verbal pelo perfeito (“Ele ficou assim depois que a esposa se foi”…) e pelo presente (“Ele me assusta quando olho para a criadinha”).

Quase todos os livros de narrativas curtas de Caio apresentam características de romance. Veja-se Trapiá. As histórias se desenrolam na pequena cidade de Trapiá e em seus arredores. Não há um conto intitulado “Trapiá”. Em Casarão ocorre o mesmo processo: as narrativas têm como palco um casarão, embora em tempos diferentes.

Embora também romancista, e dos bons, Caio Porfírio Carneiro é contista com pleno domínio das técnicas da história curta. Seus contos não são esboços de novelas ou romances. São contos de alta linhagem, merecedores de leituras, releituras, estudos.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Moacir Costa Lopes

Moacir Costa Lopes (Quixadá, 1927 – Rio de Janeiro, 2010) ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1942. Viajou, em vários navios, por toda a costa brasileira, em patrulhamentos de guerra. Deixou a Marinha em 1950, fixando-se no Rio de Janeiro. Estreou em 1959, com o romance Maria de Cada Porto. Seguiram-se diversos romances, traduzidos para idiomas como russo, checo, inglês. Em 1969 fundou a Editora Cátedra. Em 1971 organizou e editou a Antologia de Contistas Novos. Seu primeiro livro de histórias curtas é O Navio Morto e Outras Tentações do Mar, de 1995. Moacir C. Lopes não costuma ser mencionado em livros de história e crítica literária cearenses. Também de geração muito anterior à daqueles que estrearam nos anos 1970.

Compõem O Navio Morto e Outras Tentações do Mar nove peças longas, quase novelas, nas quais é o mar, se não o tema, o ambiente das tramas. Em “O mar devolverá o corpo de Clarissa”, narrado ora na primeira pessoa do feminino, ora na terceira pessoa, a poesia impregna todas as páginas. Clarissa é poeta e elabora a narração com metáforas: “Saía pela noite a engravidar-me de estrelas, meus poros transpirando vaga-lumes”. No desenlace da narrativa, confessa: “Sinto que me engravidei. Dentro de alguns meses nascerá um poema”.

                Os mistérios do mar e das pessoas que vivem dele – os pescadores, suas mulheres e filhas, a urbana Clarissa – são o principal ingrediente desse conto. E, sobretudo, o estranho homem que aparece de repente, não se sabe de onde, ergue um casebre e passa a viver na colônia de pescadores.

                Os temas do mar estão presentes em muitas outras narrativas, como indica o próprio título do livro. E isso se explica pela vivência de Moacir no mar, marinheiro que foi por alguns anos.

                Em outra inusitada composição, “Do corpo de Marisa brotarão orquídeas”, o ambiente é o de uma chácara. No entanto, o mistério também envolve os personagens. E mais uma vez uma mulher assume papel de protagonista. História em que o incesto é visto por outro ângulo, porque arquitetado pela filha, com objetivos puramente materiais. As cenas de lubricidade explícita dão um toque de realismo à peça. No entanto, no desfecho “poético” pode-se vislumbrar um quê de fantástico: “Cuidado, maninho, ao se mexer, para não esmagar os botões de rosas e orquídeas que brotarão de nossos corpos enquanto dormimos. E o pólen que brotará dos meus seios”.

                Em “A alma e a aura da corveta Jaceguai” a ação se transporta da praia para uma embarcação misteriosa e sua proprietária, a bela Rosana. Em “O navio morto” se narra outra lenda do mar. Belona, a nau fantasma, carrega a morte, mortos que ressuscitam, para, no final, inexplicavelmente, atravessar outro navio e nada acontecer. Narrativa de aparente realismo (uma epidemia ou peste, uma poeira desconhecida, a fuga das pessoas da cidade para o navio), que, aos poucos, vai tomando ares de história de suspense e horror, para, no final, se mostrar como exemplo de composição fantástica.

                Moacir conhece os meandros das técnicas de narrar e, por isso, compõe suas histórias – sempre entremeadas de mistério – de diversas maneiras, sem se deixar levar pelo encanto do malabarismo verbal. Simplesmente muda de ponto de vista de uma frase para outra. No conto de Clarissa, não usa travessões nos diálogos. Aspas aparecem somente nas falas dos personagens secundários. Entretanto, a diversidade de ações o leva a se estender na narração e a segmentar o tempo. Por outro lado, há no contista, ainda, uma preocupação desnecessária com a informação histórica, misturada à memória.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) José Alcides Pinto

José Alcides Pinto (São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, 1923 – Fortaleza/CE, 2008) foi poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário. Como poeta, é considerado um dos melhores do Ceará, ou, por que não dizer, do Brasil. Seus romances são excelentes. Alguns críticos o aproximam de Sartre, Camus, Rimbaud, Baudelaire (que é até personagem de um de seus contos), Augusto dos Anjos e outros monstros sagrados da literatura universal.  O conto não é o gênero de sua maior predileção, pelo menos enquanto escritor. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”.

Algumas narrativas de José Alcides Pinto são maravilhosas, como “Domingão”, “Animal” e “Avelino”. JAP é tão meticuloso, reescreve tanto as suas obras, que há neste livro dois contos quase totalmente iguais: “Isabel” e “Como evitar o monstro”.

 Uma curiosidade: no “livro primeiro”, intitulado “Editor de Insônia”, os títulos de todos os contos têm apenas um vocábulo. O que não significa falta de imaginação. Machado de Assis deixou diversos contos com títulos muito simples, como “D. Benedita”, “O Empréstimo”, “Fulano”, “Uma Senhora”, “Mariana”, “D. Paula”, “Viver!” e outros.

Outra curiosidade: teria o contista escrito uma narrativa intitulada “Editor de Insônia” e resolvido excluí-la do livro? Teria mudado aquele título, reescrevendo o conto? Nesses casos, deveria ter dado outro título ao volume.  Ou o título teria sido criado apenas para dar título ao livro? Nesse caso, somente numa análise mais profunda seria possível ao leitor descobrir alguma relação entre o título geral e os contos.

A presença de Edgar Allan Poe é visível em alguns contos: a maldade, a obsessão pelo mau, a impiedade de algumas personagens. E também o mistério, o terror, como nos contos já mencionados e em outros. “Ando ultimamente cheio de terror. Imagino-me, à noite, possuído pelo animal, comendo-me as vísceras, dominando-me com seu olhar surdo.” (“Animal”). Todo o conto “Avelino” é de pleno terror. A personagem, logo após morrer, é devorada por piolhos, bichos-tapurus, bichos-vermes, estranhos parasitas. Uma orgia sem tamanho. “O que não ficou bem claro – isso sim – é como sendo tão asseado, Avelino dos Santos, e tendo morrido de repente, e principalmente em se tratando de um homem dado à religião, fosse seu corpo repositório de tantos bichos.”

Merece também destaque a narrativa “O Fogo das Paixões”. As cenas de sangue, assassinato, esquartejamento, motivadas por ciúmes e paixões, são de um naturalismo radical.

Algumas narrativas são sonhos ou alucinações das personagens. O narrador às vezes faz questão de informar ao leitor tratar-se de fato real aquilo que vai narrar: “Se assemelha mais a um sonho o que vos vou contar, mas tal se passou de verdade, sem nada ter de fantasioso.” (“Irmãs Gêmeas”). Outras vezes o próprio contista se antecipa ao narrador, intitulando os contos: “O Sonho”, “Outro Sonho” e “Os Sonhos”. Em “O Corpo e a Alma” o narrador afirma: “Como os sonhos são poderosos e como as ilusões são belas.” No entanto, a narradora de “Restaurante Comunitário” conclui sua pequena “história” assim: “Eu nunca sonho.”

 Casas antigas, casarões mal-assombrados são ambientes de algumas histórias. E também casas de prostituição, fazendas abandonadas, manicômios, conventos de freiras. Em “Domingão” há dois lugares, um no passado da personagem principal – “Criado na caatinga.”- e outro no presente – “o povoado”. Do povoado são mencionados o cemitério e a casa, construída por Domingão “num cotovelo de rua”.

As personagens são sempre muito sofridas, mesmo as crianças. Porque envelhecem logo, às vezes na segunda página da narrativa. Como em “Composição Escolar”. Em “Animal”, o narrador – o suposto ser humano – inicia assim a sua história: “De repente minha empregada começou a andar de gatinhas.” A empregada é o animal, segundo o narrador. Nem sequer tem nome. Tem somente atitudes de bicho. Por isso, “no dia em que abocanhar-me o calcanhar, atiro-a pela janela do apartamento”, conclui o narrador. Não quer dizer que não existam personagens mais comuns no livro. Há-os, sim, como os filhos desnaturados diante da mãe moribunda; Pereirão e sua jovem mulher, quase menina; o casal de velhos; a adolescente sedenta de sexo ou dinheiro e o turista nigeriano; e outros.

Em que cidade vivem as personagens de José Alcides Pinto? Nenhuma cidade é citada nos contos. Não há qualquer referência a nomes de logradouros públicos. Aqui e ali aparecem nomes de cidades, porém não como palco das cenas narradas. “No fim da semana chegaram, do Rio de Janeiro, Frederico e Ducas.” (“Inspetor”). Os nomes das ruas não aparecem, como neste trecho: “É forçoso tornar público o que testemunhei da janela de meu apartamento, no oitavo andar do edifício onde moro, aqui na artéria principal da cidade.” (“O Fogo das Paixões”). Em “Apontamentos Importantes” há uma referência à Ribeira do Acaraú, com nota de pé-de-página.

O “livro segundo” é constituído de contos e peças literárias de gêneros variados ou indefinidos. Daí a impropriedade do título geral do livro, assim como do próprio “livro segundo”. “A Lição” é a narração de um episódio vivido pelo escritor. Pelo menos assim entenderá o leitor que o conhece de perto e sabe de sua decisão de abandonar a Universidade e se dedicar exclusivamente à literatura e à fazenda que adquiriu. “Apontamentos Importantes” também fogem à estrutura do conto.

No geral, os contos de José Alcides Pinto se afastam das principais características do conto tradicional ou clássico. Assim, ao lado de peças sem qualquer diálogo, apresenta até dois contos em forma de teatro – “Caducos” e “Granjeiros”. Em “Domingão” há apenas dois diálogos. Porém, não se libertou das formas tradicionais nos diálogos: “disse”, “exclamou”, “comentou”, “gritou” etc.

No conto tradicional as personagens são sempre poucas. E JAP não foge a esta regra. “Domingão”, que não é um conto realista, tem seis personagens: Domingão (protagonista), sua mãe Bela, seu pai Diogo, Joaquim, sua mulher e a moça. Aparentemente são dois os conflitos. Joaquim se apaixona por Bela, que é casada. Enciumada, a mulher de Joaquim jura matar a outra. E o faz. No mesmo dia Joaquim morre. Daí em diante a vida de Domingão se transformou. “Corriam histórias. Domingão, o diabo. Guarda-chuva fechado. Levando chuva nos campos. Pijamas de grossas listas colado ao corpo. Contavam histórias. Das narinas afrontadas de Domingão se levantava a tempestade que rachava o telhado das casas. Escarvava a terra. Esbagaçava árvores.” Ao ver Domingão pela primeira vez, uma moça por ele se apaixonou. Por seus cabelos trançados. Inicia-se o “segundo” conflito, o “segundo” drama. Ao se encontrarem, ocorre pequeno diálogo: “- Cortei.”, “- Onde os guardou?”, “- No cemitério. No caixão da mãe.” A moça vai ao cemitério. Súbito reaparece Domingão. E dá-se o desfecho: as tranças sufocam a moça. E Domingão a sepulta. “Exausto, deitou-se ao pé da cova para morrer.” Este desenlace lembra os dos contos de Edgar Allan Poe.

José Alcides Pinto é um escritor singular na Literatura Brasileira. Não pode ser visto como um adepto do realismo fantástico ou posto ao lado de contistas como Murilo Rubião e José J. Veiga. Seus contos também não são regionalistas, assim como não o são os de Moreira Campos. Há mistérios nos contos de ambos, embora entre eles não se possa vislumbrar qualquer semelhança. Mesmo quando os conflitos são do tipo policial, como em “O Fogo das Paixões”, não se trata de conto policial ou realista, como os de Rubem Fonseca. JAP está mais para Poe.

Como escreveu Francisco Carvalho, na ficção de José Alcides Pinto “não há lugar para os devaneios da retórica nem para as quimeras do lirismo cordial.”

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008. atualizado por José Feldman

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Luís Renato Pedroso (1928)

Nasceu em Foz do Iguaçu, 18 de fevereiro de 1928, emérito jurista brasileiro, tendo atuado na Magistratura, no Ministério Público e na Advocacia.

Filho de Accácio Pedroso , comerciante, autodidata, ex-prefeito do então Território Federal do Iguaçu e Inspetor Geral de Ensino, e de Sara Sottomaior Pedroso. Foi casado com Úrsula Lange Pedroso e, em segunda núpcias, com Maria Alice Nogueira Pedroso.

Após ter concluído o ensino ginasial no Liceu Rio Branco , em Curitiba, Bacharelou-se em Direito na Universidade Federal do Paraná – UFPR, em 1950, mesmo ano de sua federalização, tendo recebido o prêmio Carlos Renaux como melhor aluno em Econômica Política e Ciência das Finanças, sendo discípulo de renomados juristas como Manoel de Oliveira Franco, Ernani Guarita Cartaxo e Altino Portugal Soares Pereira, entre outros.

Iniciou suas atividades profissionais no ano de 1951 como Promotor Público Interino nas Comarcas de Mandaguari, Campo Mourão e São José dos Pinhas.

Entre 1951 e 1955, foi advogado público do Departamento de Estradas de Rodagem e do Departamento de Geografia, Terras e Colonização do Estado do Paraná, tendo sido chefe de gabinete deste último.

Em 1955 foi nomeado juiz substituto para a Seção Judiciária de Londrina, abrangendo as Comarcas de Cambé e Rolândia.

Após ter sido aprovado em primeiro lugar no concurso público para magistratura do Estado do Paraná, passou exercer o cargo de Juiz de Direito nas Comarcas de Araruva, hoje Marilândia do Sul, Astorga, Londrina e Curitiba, quando, em 1970, passou a compor o recém criado Tribunal de Alçada do Paraná.

No Tribunal de Alçada do Paraná, exerceu os cargos de Vice-presidente e de Presidente daquela corte (1977/1978), quando, então, foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná.

No Tribunal de Justiça do Paraná, exerceu os cargos de Corregedor da Justiça (1983/1984) e Presidente da Corte (1991/1992) , quando presidiu as Comemorações do Centenário do Tribunal de Justiça e o I Congresso de Presidentes de Tribunais de Justiça.

A efeméride das comemorações do Centenário do Tribunal de Justiça do Paraná, incorporou-se a história do Estado como episódio de realce e destaque.

Conforme a palavras da historiadora Chloris Elaine Justen de Oliveira: “o desembargador Luís Renato Pedroso, homem culto e prestigiado pelos juízes, reconhecido pelos dotes de oratória, com habilidade e competência administrativa teve marcante presença na história da magistratura paranaense” .

Dentre as inúmeras demonstrações e afeto e amizade, vale ressaltar parte da carta endereçada pelo desembargador jubilado José Wanderlei Resende, ocupante da cadeira n. 32, da Academia Paranaense de Letras , publicada na Revista do Centro de Letras do Paraná, n. 53: “digo-lhe que sou muito grato por usufruir de sua convivência, nesses longos anos de magistratura, e que são inúmeras as boas lembranças que guardo da sua pessoa, das lições que me ensinou, das demonstrações de apreço e, sobretudo, do que você representou de maior para o Poder Judiciário do Paraná e, agora, servindo com tanta maestria, a vida literária”.

No magistério, na década de 60, lecionou na escola normal Monsenhor Celso e no no Colégio Comercial de Astorga. Em 1964, foi professor de direito Civil na Faculdade de Direito de Londrina, hoje Universidade Estadual de Londrina, tendo sido paraninfo da turma de 1966.

Foi professor de direito Civil e Processo Civil na então Faculdade Católica de Direito, hoje, Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR, tendo sido paraninfo da turma de 1955, bem como, na Fundação de Estudos Sociais do Paraná, nas disciplinas de direito Administrativo e Comercial, afastando-se do magistério, em face da eleição para Corregedor Geral da Justiça em 1983.

Em 1975, foi eleito vice-presidente da Associação dos Magistrados do Paraná – AMAPAR, em chapa encabeçada pelo então desembargador Aurélio Feijó, quando, devido a uma fatalidade, teve que concluir o mandato na condição de Presidente. Após este fato, durante sete anos, e, em períodos diferentes, ocupou a presidência da referida entidade, sendo ainda, o magistrado que ocupou tal cargo pelo maior período (1975/1980 – 1985/1987) .

Sempre com brilhantismo, promoveu a frente a Amapar catorze seminários estaduais atingindo todas as regiões do Estado e, em 1978, realizou o O Congresso Estadual da Magistratura, obtendo referências elogiosas dos participantes pela dedicação e empenho dos associados .

Ainda, em 1986 e 1987, foi primeiro vice-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros – AMB .

Em 1996, foi um dos idealizadores e primeiro presidente da Câmara de Mediação e Arbitragem da Associação Comercial do Paraná – Arbitac, sendo que, os esforços para a materialização do projeto, iniciaram antes mesmo do advento da Lei Brasileira sobre a Arbitragem (Lei 9.307/96).

Presidiu a Arbitac de 1996 à 2001, passando a integrar, seu Conselho Superior .

De 1995 à 2003, foi membro do Conselho Estadual do Fundo Penitenciário do Paraná – FUNPEN, órgão criado Lei 4.955, de 13 de novembro de 1964 e regulamentado pelo Decreto 6420 de 11 de outubro de 2002, vinculado a Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, o qual se destina a prover recursos ao Departamento Penitenciário do Estado do Paraná, para a melhoria das condições da vida carcerária nos estabelecimentos penais e atendimento aos programas de assistência aos egressos do Sistema Penitenciário do Estado .

Pertenceu ao Rotary Clube de Astorga, onde iniciou suas atividades rotarias na década de 60, integrando depois o Rotary Club Londrina Norte e atualmente, o Rotary Clube Curitiba Norte, do qual foi presidente em 1971/1972.

Em 1996 e 1997, foi presidente da Fundação da Unidade Rotária – FUR, sempre tendo atuação relevante .

Algumas Entidades a que pertence:

Conselheiro do Paraná Clube

Academia Paranaense de Letras Jurídicas – Membro Benemérito

Academia de Cultura de Curitiba ACCUR – Membro Benemérito, tendo sido seu Presidente por seis anos consecutivos .

Academia Sul-Brasileira de Letras – Membro

Academia Literária José de Alencar – Membro

Academia Paranaense da Poesia – Membro Honorário e Assessor Jurídico

Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Sobrames – Membro Honorário

Associação dos Serventuários da Justiça do Estado do Paraná Assejepar – Membro Honorário

Soberana Ordem do Sapo
Centro de Letras do Paraná

Presidiu o Centro de Letras do Paraná, entidade cultural fundada em 19 de dezembro de 1912, tendo por patronos os literatos Euclides Bandeira e Emiliano Perneta. Como um verdadeiro paladino da cultura, sempre procurou fomentar do desenvolvimento cultural do Estado por meio de encontros líteros-musicas realizados sempre as terças-feiras na sede da entidade, de modo que, homenageando-o, o centrista Joel Pugsley assim se manifestou na Revista do Centro de Letras n. 51: “em nossa jornada terrena, temos pessoas especiais que vêm ao nosso encontro para soluções, tornando o caminho mais aplanado. Elas deixam marcas indeléveis, motivo pelo qual lhes devemos reconhecimento e gratidão. Tenho uma dessas pessoas em nosso dileto amigo e presidente Luís Renato Pedroso” .

Algumas Publicações

A importância do perito e assistente técnico engenheiro na solução das lides judiciais .

O tribunal de alçada e o nascente direito agrário .

PEDROSO, Luís Renato. Um pouco de mim. 2006.

Co-autor da letra do Hino do Município de Astorga/PR2.

Títulos

    Cidadão Benemérito do Município de Faxinal/PR
    Cidadão Benemérito do Município de Foz do Iguaçú/PR
    Cidadão Benemérito do Estado do Paraná
    Cidadão Honorário do Município de Astorga/PR
    Cidadão Honorário do Município de Jaguapitã/PR
    Cidadão Honorário do Município de Londrina/PR
    Cidadão Honorário do Município de Colombo/PR
    Cidadão Honorário do Município de Piraquara/PR
    Cidadão Honorário do Município de Colorado/PR
    Cidadão Honorário do Município de Cantagalo/PR
    Cidadão Honorário do Município de Marechal Cândido Rondon/PR
    Cidadão Honorário do Município de Campina da Lagoa/PR
    Cidadão Honorário do Município de Fênix/PR
    Cidadão Honorário do Município de Jaguariaiva/PR
    Cidadão Honorário do Município de Paraíso do Norte/PR
    Cidadão Honorário do Município de Iretama/PR
    Cidadão Honorário do Município de Ibaiti/PR
    Cidadão Honorário do Município de Curitiba/PR
    Cidadão Honorário do Município de Wenceslau Braz/PR
    Cidadão Honorário do Município de Campo Mourão/PR
    Cidadão Honorário do Município de Medianeira/PR
    Cidadão Honorário do Município de Cruzeiro do Oeste/PR

Medalhas, diplomas e condecorações

Medalha do Mérito Judiciário – concedida pela Associação dos Magistrados Brasileiros AMB.
    Medalha Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho: Grau de Grande Oficial – concedida pelo Tribunal Superior do Trabalho TST
 Medalha Ordem do Mérito Militar – Grau de Oficial – concedida pelas Forças Armadas Brasileiras. É a mais elevada distinção honorífica do Exército Brasileiro 24 .
    Medalha Francisco Xavier dos Reis Lisboa – concedida pelo Tribunal de Justiça do Maranhão TJ-MA
    Medalha Tenente Max Wolff Filho – concedida pela Legião Paranaense do Expedicionário.
    Prêmio Pablo Neruda de Direitos Humanos – Câmara Municipal de Curitiba .
    Diploma de Mérito Judiciário Conselheiro Coelho Rodrigues – concedido pela Associação dos Magistrados Piauienses – AMAPI .
    Diploma Pergaminho de Ouro – concedido pelo Jornal do Estado.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Renato_Pedroso

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Contemporâneos do Clã – Geraldo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão (Ipueiras, 1917 – Rio de Janeiro, 2007), romancista, poeta, contista, ensaísta, tradutor e jornalista, estreou em livro com Poesia do homem só, 1938. Seu primeiro romance foi O Valete de Espadas, 1960. No gênero conto publicou, em 1979, Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas, constituído de 19 narrativas. Recebeu o Prêmio Mário de Andrade, da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1972. É tido como um dos principais poetas brasileiros

Não há nele nenhuma semelhança com outros contistas cearenses, quer pela estrutura de suas peças, quer pelo espaço geográfico dos enredos. Excetuando os transgressores do gênero (os que aboliram episódio ou enredo), a maioria dos cultores da história curta no Ceará dá ênfase à movimentação episódica e situa as histórias nos sertões, nas serras, no litoral, em pequenas cidades e em Fortaleza, embora nem sempre de forma explícita. Mourão prefere o relato em primeira pessoa, com certo sabor de crônica. O narrador, em algumas composições, é apenas testemunha, embora não se desvie do ponto de vista onisciente, isto é, mesmo não tendo presenciado determinados atos (de alcova, por exemplo), manipula a narração como se protagonista fora. Por outro lado, o contista foi buscar em países da América espanhola os seres fictícios para compor algumas narrativas. Mas há também, mesmo em pequena escala, o ambiente e personagens nordestinos, como em “O Herege”. Em “Réquiem por um testa de ferro” o narrador se refere, em diversos trechos, ao Estado de Alagoas. Entretanto, os protagonistas são Mr. Lademakers, holandês, e Mariano Figueroa, colombiano.

Uma das composições mais enigmáticas nada tem de nordestino ou hispano-americano: Winston Spencer Churchill, o narrador de “English Réquiem”, moribundo (“Venho agonizando lentamente há vários dias”…), faz confidências sobre certo momento da História mundial e seus personagens principais. Trata-se do último e único escrito do fictício Churchill.

Mourão dá preferência ao conto em primeira pessoa, parente próximo da crônica. Mas nem só de relatos à maneira de Jorge Luis Borges é composto Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas. Em “Procusto” o mito grego é recriado, de forma concisa. “A Ponte” é uma parábola, sem seres fictícios. Também o leitor pode ver na ponte o protagonista ou o próprio núcleo da história. Em “A Regra do Jogo” o personagem central é um jogador de baralho e xadrez. Durante quase toda a narração, que é curta, o narrador é somente testemunha. As ações são do jogador, sem nome explícito. No desfecho, o narrador se transforma em ser de ficção, embora sem importância: “Atualmente, frequenta comigo um professor italiano de espada, florete e sabre”. O narrador de “A Caminho de Susana” é um escritor. Susana (o ser fictício imaginário) é uma metáfora (o ser buscado, o outro, “a mais bela das mulheres”). Em “O Tédio Celestial” a estrutura é de crônica-crítica. Não há propriamente um protagonista, embora o astronauta em viagem pelo espaço seja o único ser em ação: “Comprou um pequeno livro e o escondeu ali (numa pequena bolsa)”; “Começou a ler”. Com feição de alegoria ou de ficção científica é “O Plano Quinquenal”: isolamento e transplante de uma enzima. Quanto mais biocromos tivesse uma pessoa, mais anos de vida teria. Como complemento deste é “O Falanstério”, narrado em primeira pessoa, embora não se saiba de quem se trata. Nele também não há protagonista. Os personagens se mostram imprecisos, opacos. São apenas “os rapazes de Buenos Aires” ou o Falanstério. Sátira da sociedade de consumo, do capitalismo. A science-fiction é mero pretexto para satirizar os ricos ou o capitalismo. Oferecem dinheiro aos rapazes em troca de seus biocromos. Semelhante a este é “A Empresa”.

Peça singular do livro é “Com uma carta na mão”. Narrado, em forma de diário, por uma adolescente, o conto se afasta da forma do relato-crônica e apresenta um enfoque individual e não mais social e político. Dividido em três partes, o diário vai, aos poucos, conduzindo o leitor para um desenlace inesperado. A primeira data de 1935. A jovem Rita se lastima da solidão em que vive e dos reclamos da tia Lola: “– Menina, sai da janela!” Seu maior “desejo é apenas receber um dia uma carta”. Como isto não acontecia, passou a ler romances. A segunda parte do diário tem início em março de 1945. Rita, então com trinta e dois anos, continua à janela do velho casarão amarelo e a sonhar com uma carta. Como isto não acontecia, decidiu escrever cartas. A última parte do manuscrito é de 1947 e Lola trabalha nos Correios. Um dia abre um envelope: trata-se de carta de um homem, Emílio, para sua mulher, Abigail. Fala da ideia de suicídio dela e marca encontro, na esquina do Municipal, para reconciliação. O desfecho é patético: “… fiquei parada na esquina, olhando para todos, pálida, pálida, com uma carta na mão”.

O primeiro dos relatos hispano-americanos é “O Ópio do Povo”. A feição dele é de crônica de um episódio. O narrador fala de si, muito vagamente, por ser o cronista e não o personagem central, que é o padre Camilo Torres, revolucionário colombiano. Em “A Morte do Prefeito Boliviano” o narrador pode ser confundido com o próprio escritor: “Chegado do Nordeste do Brasil, criado na palha de cana dos engenhos em que os Mourões fabricavam a rapadura serrana (…)” O protagonista, no entanto, é o menino Juan, depois Juan Martinez Barceló, político boliviano. Em “Bodas de Eyquem” o espaço é chileno. Em “As Quatro ou Cinco Mortes de D. Nicanor” mais uma vez o narrador não revela o nome e deixa no leitor a hipótese de ser o próprio Gerardo: (…) “meu parente José Mourão, bandoleiro famanaz e capitão da Renascença em pleno sertão do Ceará”. Conjetura logo anulada, com a narração da última morte de Nicanor, o personagem principal, o boliviano Nicanor Bernal Gómez. O Nordeste reaparece em “Não Há Deus”, na figura do coronel Salustiano, natural de Palmares, Pernambuco, e do caboclo Amarolino. Como em outras composições, o protagonista é latino-americano: Pepe Vial, chileno, possuidor de vasta cultura teológica. “O Coronel Paraguaio” é relato de feição heroica.

O conto que dá título à coleção pode ser visto como peça antológica. Deixando de lado a faceta heroica dos protagonistas, neste o contista se volta para o erotismo. O narrador onisciente é apenas testemunha de certo momento na vida de Raimundo Pessoa, deputado federal nos idos de 1964, em refúgio no Chile. Poderia não ser testemunha, não fossem duas ou três frases: “Não cheguei a conhecer a mulher do corneado, nem tenho qualquer elemento para julgar de sua reputação” (…) Todo o enredo gira em torno da figura de Rosa Maria Bandera, uma das vizinhas de Pessoa, até o desfecho.

A linguagem de Gerardo Mello Mourão em Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas se calca, sobretudo, na narração de fatos, com alguma ênfase na observação de determinados períodos da História do Brasil e da América Latina. As descrições são mínimas, mesmo quando o relato se foca no estrangeiro. Se há alguma prolixidade, deve-se ela à necessidade da narrativa ou à maneira de ser dos hispano-americanos. O narrador de “Réquiem por um testa de ferro” chega a afirmar: “Prolixos na guerra, os colombianos também o são em suas narrativas, como meu amigo Gabriel Garcia Márquez e o pessoal de Macondo, em geral”. Diríamos: os narradores de Mourão são prolixos porque conviveram com colombianos e seus vizinhos. Os diálogos (as falas) são mínimos, dando lugar, às vezes, ao discurso indireto: “Falou-lhe longamente do amor”. Não se veem aqueles infindáveis e monótonos diálogos artificiais. Vê-se, pelo contrário, a frase bem elaborada, mas sem floreios, capaz de dar ao leitor o prazer de ler palavra por palavra, frase por frase: “Rolaram na calçada fria, ao clamor dolorido, à delícia cruel das garras curvas, à faísca dos olhos coruscantes. Era o amor”. É a arte literária de Gerardo Mello Mourão em relatos de muita sedução.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Contemporâneos do Clã – Rachel de Queiróz

Além dos grandes nomes do conto cearense surgidos com o Grupo Clã, se destacaram no cultivo da narrativa curta no Ceará outros escritores nascidos nos primeiros anos do século XX ou que despontaram durante o período de ouro daquela “agremiação”, sem a ela pertencerem.

Em 1965 se editou Uma Antologia do Conto Cearense, precedido do famoso ensaio de Braga Montenegro “Evolução e natureza do conto cearense”, publicado na revista Clã nº 12 de fevereiro de 1952. Não se sabe quem organizou a antologia, se o próprio Braga, se Artur Eduardo Benevcides, se ambos, se outro. O certo é que fazem parte dela quatro novos contistas (José Maia, Juarez Barroso, Margarida Saboia de Carvalho e Sinval Sá), ao lado dos mais importantes nomes do Clã, como os mencionados Artur e Braga, Eduardo Campos, Fran Martins, João Clímaco Bezerra, Lúcia Fernandes Martins, Milton Dias e Moreira Campos. José Maia teria um conjunto de narrativas curtas intitulado A Noite a Nudez. De Juarez Barroso é dito que figurou no Panorama do Novo Conto Brasileiro, 1964, organizado por Esdras do Nascimento, e “tem pronto o livro Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal”, publicado anos depois. De Margarida Saboia se diz que publicou crônicas, contos e artigos no jornal Diário do Povo, que circulou de 1947 a 1961. Estreou em 1964 com um livro de crônicas. Preparava o segundo volume de contos. De Sinval Sá (paraibano) é dito que em 1959 “reuniu em livro alguns contos publicados em Clã e na imprensa.”

Longe do Ceará, alguns escritores cearenses conseguiram projeção nacional, não como contistas, mas como romancistas, poetas e cronistas. É o caso de Rachel de Queiroz (1910), um dos nomes mais conhecidos da Literatura Brasileira. Seu livro O Brasileiro Perplexo (1962) aparece na análise de Braga Montenegro no ensaio muitas vezes aqui mencionado. Entretanto, seus contos se misturam às crônicas e não sobrepujam os romances.

Um que se dedicou mais ao conto é Caio Porfírio Carneiro (1928), talvez o escritor mais vocacionado para a composição ficcional curta no Ceará, depois de Moreira Campos. Sua estreia em livro de contos é de 1961, com Trapiá.

Juarez Barroso (1934), falecido muito cedo, deixou dois volumes de contos e um romance. A publicação do primeiro livro de contos ocorreu somente em 1969.

Outros escritores importantes desse período que também se dedicaram à narrativa breve são Gerardo Mello Mourão (1917), que se dedidou ao poema e ao romance e somente em 1979 apresentou o livro de contos Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas; José Alcides Pinto (1923), que estreou no gênero conto, em livro, em 1965, com Editor de Insônia; e Moacir C. Lopes (1927) – outro que, embora veterano das letras, apareceu como contista muito tarde, em 1995, com O Navio Morto e Outras Tentações do Mar.
 

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz (Fortaleza, 1910 – Rio de Janeiro, 2003) estreou em 1930, com o romance O Quinze (“Prêmio Graça Aranha”). Em 1932 publicou João Miguel. Seguiram-se, em 1937, Caminho de Pedra; em 1939, Três Marias (“Prêmio Felipe d´Oliveira”); em 1950, O Galo de Ouro; e em 1975, Dora, Doralina. Colaborou por muito tempo no Diário de Notícias, nas revistas O Cruzeiro e Manchete e outros órgãos. Publicou várias coletâneas de crônicas e escreveu peças de teatro. Em 1992 editou o último romance, Memorial de Maria Moura. De sua vasta obra se destacam dois livros que contém contos mesclados com crônicas: O Brasileiro Perplexo (Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963) e A Casa do Moro Branco (São Paulo: Ed. Siciliano, 1999). Publicou mais os seguintes volumes de crônicas e, em meio a elas, alguns contos: A donzela e a moura torta (1948); 100 Crônicas escolhidas (1958); O caçador de tatu (1967); As menininhas e outras crônicas (1976); O jogador de sinuca e mais historinhas (1980); Mapinguari (1964); As terras ásperas (1993); O homem e o tempo (74 crônicas escolhidas); A longa vida que já vivemos; Um alpendre, uma rede, um açude: 100 crônicas escolhidas; Cenas brasileiras. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Traduziu mais de quarenta obras. Traduções para o alemão, o francês, o inglês, o japonês. Diversos prêmios, condecorações e títulos.

Quando publicou, em 1965, o famoso ensaio “Evolução e Natureza do Conto Cearense”, Braga Montenegro fez a seguinte observação: “‘Monólogo’, ‘Romance’, ‘Luisinha, a Manicura’ e mais um punhado de contos a ser retirado em meio a uma avalanche de crônicas, notadamente em O Brasileiro Perplexo (1963), constituem a limitada bagagem de Rachel de Queiroz. Entretanto, a escassez não insinua a inaptidão. Rachel de Queiroz, se quisesse, seria contista na mesma altura por que é romancista, e até não há exagero em afirmar-se que poucas de suas páginas superam a humanidade, a contagiante ternura, a discreta beleza de ‘Monólogo’”.

No volume A Casa do Morro Branco, catalogado como crônicas, observa-se com nitidez a presença da contista.

Na verdade, o livro é composto de 13 contos ou narrativas curtas e um ensaio sobre a Soberba ou o Leviatã. Nas 13 histórias o espaço geográfico da ação quase nunca se repete. Em “Ma-Hôre” o drama se inicia no mar de um planeta desconhecido e, em seguida, no interior de um navio espacial. Em “Natal no Paraguai”, como o título indica, a ação se desenrola naquele país. “O mato era ralo; mas visto do chão parecia fechado” (…). O protagonista, um soldado brasileiro, se achava caído no chão, em algum lugar do Paraguai. “Não sabia onde estava. Paraguai, era. Léguas e léguas, Paraguai adentro.”

Em “A Casa do Morro Branco” os episódios ocorrem numa casa (e seus arredores) situada num morro “num desses ricos estados do Brasil adentro”, possivelmente São Paulo: “A casa caiada, cercada de alpendres, é tão antiga que certa gente pretende que ela vem dos tempos do Anhanguera.” O primeiro protagonista é fugido de Pernambuco, por crime político, ao tempo da Confederação do Equador. Em “Os dois bonitos e os dois feios” a ação se desenvolve no sertão. Não há nenhuma referência a localidades apontadas em mapas. Sabe-se apenas que os dois heróis da história “eram vaqueiros”, “campeiros da mesma fazenda”. É o sertão nordestino: novilhas, bois, cavalos, mulungus, cumarus, imburanas, veredas. Em “Isabel” as ações se dão no Ceará, “numa capoeira deserta, na seca ribeira do Sitiá”, proximidades de Quixadá. Os personagens vivem numa terra pedregosa. Isabel e o marido viviam de um “roçado pequeno, quase no quintal da casa”. Ela criava galinhas, ele “ganhava uns vinténs no corte de lenha”. Outro conto ambientado no sertão do  Ceará é “Cabeça-Rosilha”, nas fazendas Junco e Califórnia. História de touros bons de briga. E ainda no Ceará, na cidade de Aroeiras, se desenrola a narrativa intitulada “O telefone”. Um dos personagens tem casa na praça da Matriz, “com dezoito portas e janelas de frente, oito para a praça e dez no oitão”, típica casa dos ricos nas pequenas cidades do interior nordestino nos séculos XIX e XX.

Em “O vendedor de ovos” o episódio é narrado numa delegacia de polícia de cidade pequena. A trama, porém, ocorre nas ruas. O personagem Anjinho vive “pelos trens, comprando ovo aqui, vendendo ovo na cidade.” Os personagens de “O jogador de sinuca” participam de drama na cidade mineira de Lafaiete, mais precisamente no salão do Bar Campestre, onde disputam uma partida de sinuca.

Em “Vozes d’África” os personagens vivem “isolados, como num sertão longínquo”, no Estado do Rio de Janeiro. Moram numa casa de taipa com telhado de sapé. Uma comunidade de negros. Em “Cremilda e o fantasma” o drama se desenrola numa cidade grande (Rio de Janeiro?) ou, mais especificamente, numa mansão, “trabalho de mestre-de-obras português, portais de cantaria, varandim, sacadas de ferro batido, soalho de acapu e amarelo e até vitrais de cores nos janelões”. Também no Rio de Janeiro se desenvolvem as ações de “O homem que plantava maconha ou Exu Tranca-Rua”. O protagonista morava no Morro do Bugue-Iúgue e vendia diamba a um motorista de caminhão que tinha ponto no Campo de São Cristóvão.

Em “Tangerine-Girl” não há referência a nenhuma localidade específica. A narradora menciona a casa da protagonista, localizada “a algumas centenas de metros” da “base aérea dos soldados americanos”. A garota é brasileira, posto que “pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa”, a fim de poder entender as mensagens dos marinheiros estrangeiros.

Os dramas dos contos de A Casa do Morro Branco abordam os mais variados temas. Ma-Hôre, o homúnculo da raça dos Zira-Nura, “dois palmos de estatura”, se vê diante de quatro gigantes humanos, numa nave espacial avariada. A história pode ser lida como ficção científica, mas também como mensagem aos exploradores do espaço sideral, sempre certos de que são seres superiores. Ma-Hôre é visto como “anão intruso”, “pequeno humanoide”. No entanto, acaba matando os astronautas e tripulando a nave, “na marcha de regresso à terra dos Zira-Nura”. Os heróis humanos são vítimas de um minúsculo ser de outro planeta.

A morte também está presente em “Natal no Paraguai”. E também a “vingança” do inimigo do suposto herói, no caso o soldado brasileiro. O tempo histórico aqui é o da Guerra do Paraguai, a do “tirano López” e de Pedro II, “imperador brasileiro”. Rachel utiliza na narração a mistura de falas: ora do narrador onisciente, ora do protagonista, em monólogo interior. A cena final (o surgimento de dois meninos paraguaios), até o desfecho (a morte do soldado brasileiro), é magnífica enquanto narração. Outra vingança é de Isabel, no conto que leva o seu nome. O marido vivia bêbado, a roncar na cama feita de “quatro forquilhas de palmo e meio de altura, dois caibros fazendo as barras e a estiva de varas servindo de enxerga”. Isabel vivia de “costas magoadas”, de tanto apanhar do marido: (…) “enrolou a mulher com o relho, que sibilou no ar, com um silvo de cobra”. A cena da morte do homem é de um realismo alucinante. São quase três páginas de narração: “Esteve algum tempo a olhar a criatura.” Segue-se a cena em que ela ajeita na rede o corpo dormido do homem. “Isabel tirou a agulha que enfiara no peito do casaco. E rapidamente costurou uma contra a outra, as duas beiradas da rede” (…). Finalmente “malhou a cabeça que a rede envolvia e o pilão amparava por baixo.” Dá-se a primeira pancada. O corpo se imobiliza. Mesmo assim “Isabel continuou batendo, batendo ritmicamente, até perder a força no braço.”

Em alguns contos a escritora se serve da sua vocação de cronista e vez por outra se imiscui na história. Em “A Casa do Morro Branco” é assim: “Só conheço o lugar de vista.” Ou ao dizer “nós do Nordeste”. A cronista também se mostra em “Os dois bonitos e os dois feios”. A narrativa se inicia com uma longa digressão sobre o amor: “Nunca se sabe direito a razão de um amor.” No segundo parágrafo anuncia: “O caso que vou contar” (…). E mais ainda aqui: “nós mulheres estamos habituadas” (…). Em “Cremilda e o fantasma” a narradora-escritora não se contém: “sei que pela manhã viu-se” (…). Ou: “se me permitem dizer.” E ainda: “esqueci de contar que em vida o moço” (…). Em “O jogador de sinuca” a cronista reaparece logo no início da narrativa, a tecer loas às cidades históricas de Minas Gerais. E no meio da narração: “nunca vi ninguém produzir tal impressão” (…). Em “Tangerine Girl” a narradora põe a língua de fora no meio da narração: “Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a ideia de atirar um bilhete.” E em “O homem que plantava maconha ou Exu Tranca-Rua”, na primeira frase: “Esta história é um pouco comprida e complicada.” No início da segunda parte do conto pergunta ao leitor: “Já falei que o nosso amigo se chamava Henrique?” Em “Cabeça-Rosilha” a narradora escreve: “ainda me lembro”. Mais adiante esclarece ao leitor que a fazenda Califórnia “era de minha avó”. Nada disso, porém, impede que denominemos de contos as histórias deste livro, exceção feita ao “ensaio” intitulado “A presença de Leviatã”.

O tempo se dilata por anos e anos em “A Casa do Morro Branco”, dividida em três partes e três tempos. Na primeira, “O avô”, é mencionado o ano de 1825, data da chegada de Chico Aruéte ao Morro Branco. Na segunda, “O filho”, “o vigário se saiu com um relaxo em latim”. Na terceira, “O neto”, apareceu “um bando de cavaleiros desconhecidos, que se diziam revoltosos da Coluna Prestes.” No mais das vezes, no entanto, o episódio ou os episódios decorrem num restrito lapso de tempo, como em “O vendedor de ovos” – apenas o tempo de um curto interrogatório numa delegacia de polícia. Em “Cremilda e o fantasma” o episódio central é narrado após uma série de delongas, até que “alguns anos atrás” “dera-se um crime impressionante.” Narrados o crime (a morte de Armando, “um moço solteiro, herdeiro universal da avó”) e suas consequências, são “passados tempos”, o personagem chamado de “o velho” ou “o apóstolo” ou “o pai de Cremilda” passa a habitar a casa onde ocorrera a morte do rapaz. “Passados os primeiros dias” (…), “em certa manhã da segunda semana”, “Armando aparecera”. Inicia-se o episódio principal, que decorre em dias e dias, depois em meses e meses, até o desfecho, com o parto de Cremilda: o menino “nasceu morto”, porque filho do fantasma de Armando.

Além desta história de espiritismo, Rachel de Queiroz dedica outro conto à religião, o de Exu. O aparecimento de “um homem morto na esquina do Tenaro” atrai curiosos e a polícia. A narradora conta fases da vida do morto, o Henrique, ou o Rico, desde quando cultivava um roçadinho de diamba em Alagoas, ao tempo do governo de Arnon de Melo. De plantador passa a consumidor ou usuário. Além disso, adota a magia negra e se transforma em cavalo de Exu. Ao mexer num despacho de outro Exu: “Baixou a mão, revolveu a farofa com o dedo, atirou longe uma moeda, sonâmbulo, sonâmbulo de todo. Apanhou o charuto, que chegou aos lábios, mas soltou antes de morder. Por fim pegou na garrafa, tirou a chapinha nos dentes – imagine que força de transe – e foi tacando o marafo na boca.” E a seguir principia a morrer, até “cair de borco por cima do despacho. Morto.”

Tirante o extraterrestre Ma-Hôre, os personagens de Rachel de Queiroz são tipos sertanejos, urbanos, metropolitanos de um Brasil atrasado (em oposição a globalizado), mas culturalmente rico, mesmo quando essa riqueza se manifesta em ardis espiritistas (fantasmáticos) ou quimbandistas. Esses tipos comuns da gente brasileira nada têm de caricatural, mesmo em contos em que a sátira ou o cômico se manifestam. Enfim, são personagens cujos nomes podem figurar nas galerias mais requintadas da arte de contar.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Ialmar Pio Schneider (1942)

Entrevista realizada virtualmente por José Feldman (PR) com o poeta e trovador Ialmar Pio Schneider (RS), para o blog Pavilhão Literário Singrando Horizontes.
JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou, sua trajetória literária.

Nasci no município de Sertão/RS em 26-08-1942. Filho de Henrique Schneider Filho e dona Amábile Tressino  Schneider, ambos falecidos.

Cursei o primário em minha terra natal na Escola Pio XII das Irmãs Franciscanas onde diplomei-me inclusive em datilografia com 13 anos de idade. Ingressei no Ginásio Cristo Rei dos Irmãos Maristas em Getúlio Vargas/RS que conclui após 4 anos, em 1959, período em que iniciei a compor poesias. Daí transferi-me para Passo Fundo/RS onde ingressei no Colégio N. Sra. da Conceição dos Irmãos Maristas cursando então simultaneamente o Curso Científico e a Escola Técnica de Contabilidade por um ano e meio, continuando a escrever poesias inclusive gauchescas, algumas das quais foram publicadas no Jornal do Dia, de Porto Alegre, até que um concurso público para o Banco do Brasil S.A. me levou a Cruz Alta/RS, onde assumi em 1961, poucos dias antes de completar 19 anos de idade.

Posteriormente integrei o corpo de funcionários da agência de Soledade/RS, que estava em Instalação, o que ocorreu em 1962. Completei o curso em Técnico de Contabilidade em 1962, permanecendo por 5 anos na cidade, onde exerci o cargo de Fiscal da Carteira Agrícola do Banco até ser transferido para a Metr. Tiradentes do Rio onde não cheguei a tomar posse, tendo feito uma permuta tríplice com outros dois colegas, vindo a assumir em Canoas/RS, em 1967, para logo após um ano se transferir para São Leopoldo/RS em nova permuta com outro colega, onde tencionava tirar o Curso de Direito da Unissinos, o que não se concretizou.

Casei-me em 1968 com Helena Dias Hilário, de Soledade/RS e transferi-me para a Agência Centro do Banco do Brasil S.A de Porto Alegre, em 1969. Residindo em Canoas, nasceu minha filha Ana Cristina Hilário Schneider. Permaneceu por 3 ou 4 anos compondo poesias diversas inclusive a maior parte de seus poemas gauchescos ainda inéditos bem como muitos sonetos então com 30 anos de idade. Resolvi novamente transferir-me de cidade a fim de ficar mais próximo dos meus parentes e os de minha esposa e pleiteei uma permuta, que consegui para a cidade de Passo Fundo, tendo lá permanecido por cerca de 3 anos, ocasião na qual requeri e fui transferido para a agência do Banco em Palmas/ PR, onde residiam minha mãe e irmãos, de cuja remoção desisti pelo motivo de minha esposa ser professora estadual e não ter conseguido aproveitamento naquela cidade. Com dificuldade em adquirir casa de moradia retornei a Canoas voltando a residir e a trabalhar no Banco até que em uma concorrência nacional para fiscal da Carteira Agrícola do Banco fui nomeado para a cidade de Antônio Prado/RS, onde permaneci por 2 anos e meio aproximadamente.

Em 1980, regressei a Canoas onde adquiri um apartamento em que resido até hoje, na rua que leva o nome do grande pintor Pedro Weingartner tendo feito vestibular para a Faculdade de Direito do Instituto Ritter dos Reis, classificado em segundo lugar de que também participou o ilustre jogador de futebol do Internacional Paulo Roberto Falcão, que logo depois transferiu-se para a Itália.

Trabalhando no Banco do Brasil- agência de Canoas e estudando, só consegui formar-me em Direito nas Faculdades Integradas do Instituto Ritter dos Reis em 1990, após 10 anos de curso superior. Enfim, antes tarde do que nunca.

Transferi-me para o CESEC do Banco do Brasil Sete de Setembro em Porto Alegre, onde trabalhei até 1991, tendo completado 30 anos e alguns dias de serviço no Banco quando me aposentei por tempo de serviço.

Por enquanto, resido na cidade de Porto Alegre/RS, no Bairro Tristeza, com uma vista maravilhosa para o Rio Guaíba, em uma janela do qual até um joão-de-barro já fez um ninho há uns dois anos. Como diz o inigualável poeta gauchesco saudoso Jayme Caetano Braun: “Eu até fiquei contente/ Dizem que dás muita sorte !”em seu poema “João Barreiro”.

Atualmente minha filha é casada, ambos advogados, com escritório.

Durante os meses de verão, dezembro até fevereiro, permaneço em Capão da Canoa/ RS, cidade praiana, onde produzo diversas poesias: poemas, sonetos e trovas. Nos últimos dois anos desloquei-me com a família por uns dez dias em final de temporada para a praia de Canavieiras, precisamente Cachoeira do Bom Jesus, em Florianópolis/SC.

Eis em rápidas pinceladas a sucinta biografia rotineira de um poeta menor.

JF: Ialmar, se é poeta menor, então eu nem existo, precisaria um ultra microscópio para me encontrar (risos). Recebeu estímulo na casa da sua infância?

Total estímulo e incentivo inclusive éramos 6 filhos, 4 irmãos e 2 irmãs e nossos pais só tinham como meta o nosso estudo.

JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Muitos livros de poesias: Fagundes Varela, Casemiro de Abreu, romances de Paulo Setúbal, os grandes romances do Cristianismo, trovas de Adelmar Tavares e diversos outros. Mas o romancista que mais me agradou foi Lima Barreto, antes Dostoiewsky, Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Cronin, uma infinidade de autores, enfim. Desculpe se não cito todos, nem um por cento talvez.

JF: Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Foi naturalmente através das leituras escolares.

JF: Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

Tenho diversos blogs que podem ser encontrados procurando por IALMAR PIO SCHNEIDER no Google, como http://ialmar.pio.schneider.zip.net/; http://ialmarpioschneider.blogspot.com http://ial123.blog.terra.com.br

JF: Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Nunca pensei nisto. No Brasil acho que só meia dúzia o consegue.

JF: Como começou a tomar gosto pela escrita?

Para conhecer e aprender, pois acho que todo o livro é de auto-ajuda.

JF: Você possui livros?

Fiz a estréia editorial na obra TROVADORES DO RIO GRANDE DO SUL, org. por Nelson Fachinelli, em 1982. Publiquei a obra poética SONETOS E CÂNTICOS DISPERSOS, em 1987. Figuro em outras coletâneas. A última obra, POESIAS ESPARSAS DIVERSAS, de 2000.

JF: Como definiria seu estilo literário?

Eclético para poesia e crônicas também.

JF: Que acha de seus textos: O que representam para si? E para os leitores?

Acho que são a expressão do meu pensamento. A maioria dos leitores dizem gostar.

JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? Tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

Tem contribuído muito e eu considero o mais valioso meio de publicação atual, ainda mais para quem não tem a grande mídia ao seu dispor.

JF: Tem prêmios literários?
Alguns.

JF: Participa de Concursos Literários? Qual sua visão sobre eles? Acha que eles tem “marmelada”?
Participo às vezes. Tenho visto trovas sem nenhum fundamento serem premiadas.

JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente precisa de algum ambiente especial ?
Surge de repente, não sei de onde nem quando.

JF: Você acredita que para ser poeta ou trovador basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Tudo é essencial, principalmente muita leitura.

JF: No processo de formação do escritor é preciso que ele leia livros de baixa qualidade?

É preciso distinguir.

JF: Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós chega apenas o que a mídia divulga. Na sua opinião que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

Os clássicos: Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Rui Barbosa. Paulo Setúbal, Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Lya Luft e outros. Os bons escritores. A lista é infindável. Poesias de Vinicius de Moraes, Guilherme de Almeida e os clássicos também Castro Alves, Fagundes Varela, Alvares de Azevedo, Olavo Bilac, tantos e tantos.

JF: Qual o papel do escritor na sociedade?

Ensinar e divertir também.

JF: Há lugar para a poesia em nossos tempos?

Há sim. Aqui no sul principalmente a poesia gauchesca, os sonetos românticos. Basta declamar uma poesia atraente todos gostam.

JF: A pessoa por trás do escritor

Um bancário aposentado, um advogado não militante e um diletante em literatura.

JF: O que o choca hoje em dia?

A violência e a falta de saúde pública.

JF: O que lê hoje?

Romances e poesias. Estou curtindo um ócio criativo. Nada de muito profundo.

JF: Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Continuar escrevendo nos blogs e talvez preparar um livro de poemas e poesias gauchescas.

JF: De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

Vai andando aos trancos e barrancos, mas com o andar da carroça as abóboras se ajeitam na caixa.

JF: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Ler bastante e escrever mesmo errando.

JF: O que é preciso para ser um bom poeta ou/e trovador?

Muita leitura e perspicácia.

JF: Trovas de sua autoria.

Cada paixão que me invade
surge do amor que não tive;
e representa a saudade
de quem neste mundo vive.

Eu não sou navegador,
mas enfrento o mar da vida,
por causa do nosso amor
que não teve despedida.

Foste a morena brejeira
que surgiu em meu amor
como o botão da roseira
que agora não dá mais flor.

Não foram horas perdidas
as que passei junto a ti;
são lembranças bem vividas
que nunca mais esqueci…

Perambulando sozinho
pelas ruas da cidade,
procuro achar o caminho
que leva à felicidade.

JF: Finalmente, se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos quais seriam?

Boa saúde, meios para continuar vivendo e a felicidade da Humanidade inteira.

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Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides (Pacatuba, 1923) cedo se mudou para Fortaleza, onde militou no jornalismo e se diplomou em Direito. Ocupou diversos cargos administrativos. Licenciou-se em Letras. Professor da Faculdade Católica de Filosofia do Ceará, da qual foi também Diretor. Professor Titular do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, tendo sido ainda Diretor do Centro de Humanidades da mesma universidade. Exerceu o cargo de Diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Rosário, Argentina. Portador de várias medalhas, vencedor de inúmeros prêmios literários, como o prestigiado Prêmio Nestlé de Literatura. Eleito por diversas entidades culturais do Ceará o Príncipe dos Poetas Cearenses. Membro fundador do Grupo Clã. Sua bibliografia é vasta, principalmente no campo da poesia, sendo autor de 46 títulos, entre os quais dois de contos: Caminho sem horizonte (1958) e A revolta do computador e outros contos de mistério (2001). Da Academia Cearense de Letras e Academia Cearense da Língua Portuguesa, dentre outras. Está também presente na Antologia do Conto Cearense (1990), organizada por Mary Ann Leitão Karam, com “Depoimento Sigiloso”, premiado em 1984 no Concurso Nacional de Contos promovido pela Editora Abril Cultural.

Nas dobras da capa do segundo volume, Révia Herculano assim se manifesta: “Esta é uma coleção de contos de suspense, ou mistério, descendentes, em linha reta, dos contos góticos dos ingleses do século XVIII”.

Tido como um dos maiores poetas cearenses de seu tempo, Artur Eduardo Benevides pratica o conto também desde longas datas. Braga Montenegro, o mais completo estudioso da história curta no Ceará, no ensaio “Evolução e natureza do conto cearense”, lembra do poeta “um conto muito bom, premiado num concurso, demonstrando ali acentuadas inclinações para o gênero, sobretudo a facilidade de realçar a justa gradação trágica, contudo numa forma nem de todo isenta do transbordamento vocabular”. Lembra também o livro Caminho Sem Horizonte, “em que reúne nove estórias, todas acomodadas numa estreita faixa de temas, sem maior esforço experimentalista e sem penetração no espaço da literatura, isto é, no espaço dos mitos e dos símbolos poéticos”. Com a publicação do volume A Revolta do Computador e Outros Contos de Mistério, Artur demonstrou ser contista não somente inclinado para o gênero, mas capaz de compor um conjunto de peças insólitas em dialeto irrepreensível e, ao mesmo tempo, de agradável leitura. A coleção abarca 17 narrativas curtas, em linguagem concisa, enxuta, límpida e livre de transbordamentos vocabulares.

                Há, pelo menos, três tipos de história no livro: os realistas, os neogóticos, como quer Révia Herculano, e os de ficção científica. Nos dramas vividos pelos personagens dos dois primeiros grupos a realidade cede lugar à fantasia, ao mistério, ao inusitado, ao extraordinário, ao inesperado. Podem ser vistos como realistas aqueles em que pouco de mistério se pode vislumbrar em suas tramas, embora nos desfechos se encontrem laivos de obscuridade dos fatos. Em “O Grito Final”, o narrador Nimrod, domador de serpentes, fala para gravador portátil, momentos antes de sua morte. Picado pela serpente Peralta, ao se distrair com a presença de Moya, sua “pequena” de anos atrás, espera a morte. Em “A Sede”, o narrador é “doido varrido”, em cidade pequena, fustigado por alucinações e, ao mesmo tempo, alucinado por mulheres. Estranhamente, essas mulheres vão morrendo, sem que se saiba se ele as matou ou não. Primeiro a tia Ana, encontrada no chão sem vida, “depois de uma trovoada sem fim”. Depois Lindalva, que trabalhou em sua casa algumas semanas. Logo em seguida, Tiana. “E outras mais”. História realista, mas ao mesmo tempo de cunho misterioso. De feitio semelhante a este é “Pesadelo”. O narrador conta episódios de sua infância nas matas de Marajó. Como em outras narrativas, a selva amazônica é o palco desta trama. O protagonista tem pesadelos e em sua mente se embaralham as figuras do avô, do pai desconhecido, da mãe prisioneira em casa, de índio xapacura que guardava a mãe do narrador e um dia o empurrou e pôs o pé enorme no seu peito, da professora morta e, finalmente, da filha manca, Aglaê. A selva é misteriosa, a vida na selva é misteriosa, o narrador é misterioso e mais misterioso é o desfecho, no qual pode ser entrevisto relacionamento incestuoso: “Chamo-a docemente, (…) Ela vem devagar e sinto suas pisadas como se fossem o pé enorme do xapacura sobre o meu peito, nas noites de longos pesadelos e relâmpagos clareando o pantanal (…)”.

Em “A Serpente Enciumada”, uma das mais belas peças da coleção, outra cobra é fundamental no enredo. O narrador é herdeiro de fortuna deixada por tio exótico, colecionador de “cousas e bichos”. Diferente do morto, o homem se livra, aos poucos, de quase todas as coleções, menos de uma serpente, Dafne. Em dado momento planta no leitor uma dúvida: “Não sei se Dafne é mulher. Para mim, é apenas uma serpente”. Ora, no imaginário popular (em lendas e mitologias) a mulher é serpente. “Tia Heliodora ou o Clarão da Súbita Bondade” (título inadequado para a beleza da peça) é tipicamente realista. Narrado por menino, os personagens principais são a solteirona Heliodora e um leproso. A trama se desenrola num tempo em que os hansenianos eram recolhidos em asilos e, quando saíam às ruas, tocavam sineta, para avisar os cidadãos de sua presença. O pânico se instalava nas pessoas, que corriam e se trancavam nas casas. No final, a mulher abre a porta e dá água ao doente, em gesto considerado imperdoável pelos demais cidadãos.

                A presença de cobras nas narrativas de Artur é relevante. Nuns, como ente simbólico; noutro, “O Encantado”, como ser lendário. O protagonista é o homem encantado pela serpente que vive nas águas amazônicas. O drama se inicia quando se perde na selva e “senti qualquer coisa extraordinária à minha volta”. Socorrido por bolivianos, é avisado de que “está encantado”. E conduzido para o seringal: “Aqui, nas proximidades, deve haver uma grande jiboia, com olhos na sua nuca”. Passa a ter pesadelos. Certa vez sonha com imensa cobra e acorda “com o corpo moído, como se algo incomum me houvesse apertado durante a noite”.

Em “Trevas”, o protagonista sem nome explícito (como muitos outros) fala ou pensa (monólogo ou solilóquio), enquanto assiste sozinho a filmes na televisão. E ora se comunica, pela visão e pela audição, com os personagens dos filmes (Conde Drácula, Tom Mix, Flash Gordon) e até com a atriz Catherine Deneuve, como se também fizesse parte da história; ora com os próprios fantasmas, como a sua irmã paralítica já morta, o menino morto na lagoa, aranhas gigantescas. Na realidade, está só, mas “percebe” que há outra pessoa na sala, “invisível e presente”. O tema da narrativa é a solidão: “Sou um lobo solitário. Um homem sozinho. Com medo”. Em “O Último Rosto” também o realismo cede lugar ao mistério. O narrador, ex-funcionário da Sinfônica Municipal, vê desaparecem um a um os rostos de seus companheiros da foto do grupo de sete pessoas, à medida que iam morrendo.

Em mais de uma obra, protagonistas veem e se comunicam com pessoas mortas. Um deles, o de “Trevas”, chega a falar em mediunidade ou hipersensibilidade. Outro, em “A Boa Velhinha”, imagina-se louco, após ter estado com uma senhora, em visita oficial aos moradores de rua cujas casas seriam demolidas para dar lugar à “grande maternidade municipal”. Dias depois, volta ao local e é informado de que a tal mulher “morreu há uns vinte anos” e “nessa casa não mora ninguém desde então…” O mesmo fenômeno se verifica em “O Retrato Pendurado no Tempo”. O narrador é cavaleiro de sociedade hípica. Na primeira cena, nas proximidades do Convento do Carmo, se depara com dois anõezinhos malucos que “estavam a rasgar, aos gritos, as roupas do frade”. Indignado, expulsa a chicotadas os agressores. Dias depois, visita o convento e procura Frei Vitalino, o personagem do primeiro momento da trama. Surpreende-se ao ouvir do zelador a frase: “Frei Vitalino não existe, meu caro. É uma lenda”. Mais adiante o funcionário avisa: “Cuidado! Por aqui aparece visagem. É mal-assombrado. Aqui e na sala dos retratos”. E no final a confirmação de que havia estado com um morto: em placa de prata abaixo do retrato do frade viam-se duas datas: 1820-1896. Em “A Senhora de Azul, com Cabelos Grisalhos”, o narrador conhece estranha personagem, “jovem senhora, vestida de azul”, cuja presença é garantia de tragédia ou acontecimento funesto. Seria a própria morte, ser fictício simbólico.

Os contos de fundo científico (science-fiction) de Artur envolvem seres humanos, extraterrestres e máquinas, alguns destes alcançando a posição de protagonistas. O mistério neles é de outra natureza, menos psicológica e mais ontológica. Em “Depoimento Sigiloso” o narrador é homem afeiçoado aos objetos voadores não identificados que nega conhecer os estranhos acontecimentos relacionados a Ovnis. Aliás, toda a narrativa é composta de negativas. A história que dá título ao volume se enquadra perfeitamente no subgênero ficção científica. Narrado também por ser humano, o protagonista é, no entanto, um computador superinteligente, de nome Stanley, um semideus, no ano de 2106. Em “Zyw” o ser fictício principal é alienígena, vindo de satélite de Júpiter, “um garotão de quase três metros de altura”, criado em fazenda experimental no Araguaia. O narrador é também extraterrestre, nascido em Tritão.

O poeta está presente nas narrações e descrições de quase todas as peças. “A Sede” é obra poética, sem deixar de ser narrativa. Há frases em que a poesia se mostra em sua plenitude: “Estava a chover nos telhados da infância” (p. 61). A última peça, “As Carruagens do Sem-Fim” é composição de fino lavor, talvez o mais misterioso dos contos do livro. É poesia pura. Os personagens, que não são poucos, vêm dos confins das lendas e dos mitos e viajam na grande nave interestelar, até que o círculo se feche. E Artur Eduardo Benevides fecha o seu livro com chave de ouro, como só os narradores criativos, os poetas, os iluminados sabem e podem fazê-lo: envolto em mistérios.

Fonte:MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Prof. Garcia (1946)

Francisco Garcia de Araujo (Prof. Garcia), nasceu na fazenda Acari, Município de Malta-PB, em 27 de novembro de 1946. Em 1959, foi para Caicó-RN, na companhia do tio, poeta e amigo José Lucas de Barros, com quem morou vários anos, e vive até hoje.

    Licenciado em Letras (Português e Inglês), Bacharel em Direito pela UFPB e Pós-graduado em Teologia e Éticas Especiais.

    Poeta, trovador, escritor e compositor.

    Publicou em 1974 o livro TROVAS QUE SONHEI CANTAR.

    Foi bancário, vereador e secretário municipal em Caicó-RN.     

    Lecionou Português, Francês, Inglês e Espanhol.

    Casado com Anunciada Laura de Araujo Garcia, com quem tem três filhas: Mara Melinni de Araujo Garcia (Advogada, Pós-graduada e poetisa), Ava Murielli de Araujo Garcia (Pedagoga e Pós-graduada) e Eva Yanni de Araujo  Garcia (Formanda em Pedagogia e poetisa).

    Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS),

    Delegado da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Caicó-RN,

    Delegado do Portal Cen para o RN.

    Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte e da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal-RN.

    Detentor de várias premiações em concursos de trovas e outras modalidades poéticas no Brasil e em Portugal.

    Radio Amador com prefixo PS7-ACK, e em 26 anos de radioamadorismo já fez mais de 53 mil contatos internacionais, tendo colaborado em situações extremas para salvar vidas humanas.

    Atualmente, é pequeno empresário no ramo de atacado, em Caicó-RN.

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro – Portal CEN – http://www.caestamosnos.org/autores/autores_p/Professor_Garcia.htm

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Arquivado em Biografia, Rio Grande do Norte

Oswaldo Abritta (1908-1947)

Nasceu no distrito de Cataguarino, município de Cataguases, filho de Boaventura José Abritta e Ana Lopes do Nascimento.

Fez o curso médio no Ginásio Municipal de Cataguases, hoje Escola Manuel Inácio, onde teve intensa atividade literária no Grêmio Literário Machado de Assis e publicou poemas em vários jornais da cidade.

Participou em 1927 da criação da Revista Verde, como poeta. Formou-se em Direito, exerceu a advocacia e foi juiz de direito em Guarani e Carandaí (MG).

Obra póstuma: Versos de ontem e de hoje (editado por seu filho Luiz Carlos em 2000) escrito em 1931.

Fonte:

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Arquivado em Biografia, Minas Gerais

Luiz Carlos Abritta

  

 Nasceu em Cataguases, Minas Gerais, a 24 de janeiro, filho do poeta e magistrado Oswaldo Abritta e de Yolanda Nery Abritta.
    
Procurador de Justiça aposentado.

    Foi presidente da Associação Mineira do Ministério Público. Eleito Conselheiro da OAB/MG onde permaneceu por seis anos e exerceu as funções de Presidente do Tribunal de Ética daquela entidade.

    Foi presidente e Conselheiro Nato do Instituo de Ciências Penais, membro do Conselho Penitenciário de Minas Gerais.
      
      No dia 09 de junho de 2006, o Presidente da República escolheu-o em lista tríplice e o nomeou para o cargo de Juiz do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, categoria de jurista.
      
      Foi presidente da UBT de Belo Horizonte, e Presidente da UBT/Minas Gerais.
    
Exerceu a presidência da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais por oito anos, onde ocupa a cadeira n.150, tendo por patrono Oswaldo José Abritta.

    Abritta foi eleito o 5º Presidente Nacional da União Brasileira de Trovadores, para o biênio 2012 / 2013.

    É membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, cadeira n. 82 e seu patrono é o Senador Levindo Coelho.

    Tem dez livros publicados. Entre eles, “Críticas criticáveis”, “Entre Montanhas e Trovas”, “Tata, Tati e Tininha”, “Um Homem Plural – A vida de Oswaldo Abritta” e “Aurora Plena”.

    Participação na Antologia poética bilíngue (francês/português) de 33 escritores mineiros, lançado no Salão do Livro, em Paris, em 2012, sendo condecorado pela Academia Francesa em reconhecimento ao trabalho pela literatura.
      
      Medalhas: da Inconfidência; Santos Dumont; do Ministério Público de Minas Gerais; da Justiça Federal; do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, e da Societé Académique des Arts, Sciences et Lettres – Paris – França.
    
Casado com a escritora Conceição Parreiras Abritta, tem dois filhos: Sérgio, Procurador de Justiça e Dramaturgo, e Luís Carlos Parrreiras Abritta, Advogado e Presidente do Instituto de Ciências Penais do Estado de Minas Gerais.

Fontes:
http://www.ubtnacional.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=39
Jus Brasil. http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/3017814/luiz-carlos-abritta-participa-de-antologia-da-academia-de-paris
http://www.ihgmg.art.br/quadrosocial.htm
http://www.jornalaldrava.com.br/pag_sbpa_abritta.htm
http://www.newtonpaiva.br/acontecenanewton/Evento.aspx?id=224592

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Arquivado em Biografia, Minas Gerais

Marcia Maranhão De Conti (1957)

Marcia Maranhão De Conti, filha de Antonio do Rêgo Maranhão Neto e Zelair Mendes Maranhão (in memoriam), nasceu em São Luis (MA) em 1957 e mudou-se para Goiânia, onde reside.

Morou em São Paulo, época em que nasceram os filhos mais velhos.

Formada em Nutrição pela UFG e em Direito pela UNIVERSO. Especializou-se em Nutrição Clínica na UFRJ e em Direito Processual na LFG.

Trabalha no Ministério da Saúde e é membro da OAB-GO.

Sua paixão é a poesia. Participou de antologias, de concursos regionais e nacionais, sendo várias vezes premiada, inclusive no 5° Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga com o 2° lugar (2007).

Teve três poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus e no Trem, promovido pela prefeitura de Porto Alegre: “Flor” (2007), “Um Poema no Ônibus” (2009) e “Embalagem” (2011).

“Flor” esta em camisetas de catadores de papel de Porto Alegre a pedido do professor universitário, canadense, Denis Beauchamp, que preside uma associação voltada para esses trabalhadores.

Luar nos Porões (piano mudo) é seu livro de estreia.

Fonte:

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Carolina Ramos (1929)

Nasceu em Santos, em 1929. Estudou no Colégio São José, onde, além do curso primário e ginasial, fez, também, Secretariado e a Escola Normal. Completou seus estudos formando-se em música e enfermagem.

Trovadora, contista, poeta, santista ilustre, foi Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos por oito anos (2001 a 2007) e é a atual Presidente da União Brasileira de Trovadores – Seção de Santos.

Carolina pertence a diversas entidades culturais, como

Academia Santista de Letras,
Academia Feminina de Letras
Centro de Expansão Cultural.

Foi agraciada com diversas medalhas de mérito cultural, entre as quais a de “Magnífica Trovadora”, em 1973, em Nova Friburgo-RJ, e em Santos, com a Medalha do Sesquicentenário e a Medalha dos Andradas.

Também recebeu diversos títulos, homenagens e prêmios em Portugal e Angola.

Um dos mais importantes foi o Prêmio Rui Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores de São Paulo.

Bibliografia:
“Sempre” (poesias, 1968);
“Cantigas feitas de sonhos” (trovas, 1969);
“Espanha” (poema épico, 1970);
“Rui Ribeiro Couto – Vida e Obra” (bibliografia, 1989);
“Trovas que cantam por mim” (trovas, 1989);
“Espanha” e outros poemas (1992);
“Interlúdio” (contos, 1993);
“Paulo Setúbal – Uma vida/Uma obra” (1994, em co-autoria com Cláudio de Cápua),
Evocação (História da Associação das Ex-Alunas do Colégio São José) em co-autoria com Maria Edith Prata Real;
Feliz Natal (Contos natalinos);
Principe da Trova (biografia);
Saga de uma vida (biografia) e
Um amigo Especial (Conto-ficção), 2003.

Obras inéditas:
“Rosas de sangue” (sonetos);
“Trovas de amor e ternura”;
“Canta Sabiá” (poesias sobre o Brasil, lendas e temas do folclore);
“Júlia Lopes de Almeida” (biografia);
“Contos”;
“Contos Infantis” e
“Trovas”.
–––––––––––––––-

Entrevista de Carolina concedida a José Feldman, em janeiro de 2011 para o Blog http://singrandohorizontes.blogspot.com.br, em A Escritora Atrás da Mulher, A Mulher Atrás da Escritora.

1 – Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

CR – Nasci em Santos, SP Brasil, no dia 19 de março, dia de São José no ano… que importa o ano?! Importante mesmo é o dia que vivemos. Depois dos sessenta, cada um deles é um troféu. Nasci, cresci e vivo, até hoje, em Santos, onde espero morrer num dia escolhido por Deus. Fiz meus estudos no Colégio “São José”, do “Jardim da Infância”, ginásio de cinco anos, Secretariado, e Escola Normal.

Não podendo cursar Medicina, porque Santos ainda não possuía Faculdade, contentei-me em seguir o Magistério. Por sinal, o curso de normalista, embora hoje abolido, era da maior significado para a formação da mulher, abraçando, para tanto, matérias de essencial importância, como: Psicologia, Puericultura, Pedagogia, Fisiologia, Sociologia, Trabalhos manuais, Desenho pedagógico etc. Os conhecimentos adquiridos nesse curso, embora me dedicasse ao magistério por pouco tempo, muito me ajudaram na criação de meus filhos.

Fiz ainda o curso completo de Música, nove anos de piano e matérias concomitantes, Teoria Musical, Harmonia, Pedagogia, História da Música etc.

Vários cursos de Literatura, de Folclore, Linguas e um pequeno Curso de Enfermagem, para compensar a minha frustração de não ter podido seguir Medicina.

2 – Como era a formação de uma jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

CR – Bem poucas jovens, residentes em cidades não dotadas de Faculdades, conseguiam, chegar a elas, naquele tempo. A disciplina era muito mais rígida e os pais, com raríssimas exceções, não abriam mão da autoridade. Meu pai, não era uma dessas exceções. A Serra do Mar era gigantesco obstáculo, erguido entre Santos e São Paulo, que me impediu, definitivamente, de concretizar o sonho de ser médica.

Mesmo depois de Secretária bilíngue, boa datilógrafa e estenógrafa, portanto, com ótimas chances de conseguir um bom emprego, o pulso de meu pai, não me liberou: “Minha filha não vai ser Secretária de ninguém!” “Punto e basta!”, diria ele se fosse italiano. Mas, o seu NÃO, espanhol, não demonstrou menor força! Esquecia-me de dizer que sou filha única. Talvez isso explique os excessos de zelo. Nunca, entretanto, me prevaleci dessa situação. Nunca fui mimada! E, absurdamente, era incapaz de pedir algo a meus pais. Claro, que tinha tudo o que precisava, mas, mesmo assim, sempre havia algo a desejar e mesmo sabendo que me seria dado com gosto, eu não pedia! Detesto pedir algo até hoje! Falta de humildade? Claro que não, o oposto, talvez. Respeitava meus pais e não me insurgia contra a severidade que me reprimia – possível semente da timidez que dificultou muito meus passos, ao correr dos tempos. Timidez contra qual luto, quem sabe, até hoje. Só ao escrever, não sou tímida, porque escrevo para mim mesma.

Foram as circunstâncias, citadas, que fizeram com que me tornasse professora, dedicada, a ponto de, pós-aulas, levar para casa os alunos mais fracos, para ajudá-los na recuperação. Embora não fosse essa nobre profissão a minha eleita. Era querida por meus alunos e, de um deles, tive a surpresa de ouvir emocionada: “Quando eu crescer, vou me casar com a senhora!” Onde estará aquele pequenino José, que me fez a primeira declaração de amor?!

3 – Recebeu estímulo na casa da sua infância?

CR – Na casa onde nasci, na Vila dos Andradas, onde se ergue, hoje, a Rodoviária de Santos, morei apenas 5 anos. Na primeira casa dessa vila, morava dona Rosinha grande paixão de Martins Fontes. Assim, volta e meia, as crianças corriam, eu entre elas, para saudar a chegada daquele homem bom, que abria os braços para recebê-las. Lembro-me um a um, dos nomes dessas crianças, que perdi de vista. Muitas vezes, esse “Homem Bom” (tenho um soneto com esse título) pegava-me ao colo e beijava meu rosto. Soube, mais tarde, por minha mãe, que aquela pessoa que eu conhecia apenas como “o homem bom” era o queridíssimo vate santista, José Martins Fontes! O que muito me emocionou!

Numa dessas casas, morava uma garota de nome Odila, uns sete anos mais velha que eu. Odila era filha de um livreiro. E tinha em sua casa, um gavetão que, para mim, era uma rica e misteriosa arca de tesouro! O conteúdo… livros, só livros! Um tesouro de livros infantis! Lembro-me ainda do encantamento que eu sentia, sentada no chão, com o gavetão aberto, dadivosamente colocando à minha disposição, aqueles preciosos livros que eu folheava, ainda sem saber ler, maravilhada com as ilustrações! Mesmo quando minha amiga não estava em casa, sua mãe, dona Caridade, carinhosamente, me conduzia até o tal gavetão, e me esquecia por lá. (e era tudo o que eu queria!)

Foi essa “arca do tesouro” que, nos meus deslumbrados cinco anos, me apresentou Narizinho, Pedrinho, Anastácia, Emília, Visconde de Sabugosa ou seja, aquelas personagens que passei a amar, e que, mais tarde, me fizeram devorar toda a obra de Monteiro Lobato – hoje, lamentavelmente expulsa das escolas, sem que as alegações me convençam!

4 – Quais os livros foram marcantes antes de começar a escrever?

CR – Aprendi muito com os livros de Lobato. Desde respeitar a natureza, conversar com as bonecas, subir em árvores e amar a vida do campo, através do Sítio do Picapau Amarelo. Aprendi muito, ainda, de modo deliciosamente lúdico, sobre Gramática, Aritmética, Geografia, História, Astronomia, Folclore e tanta coisa mais que era absorvido pelos meus sentidos, com espontaneidade e verdadeiro interesse, sem agruras das imposições curriculares. E acho inconcebível que tudo isto seja negado agora, a troco de más interpretações e possíveis influências malignas, às nossas crianças! Lobato sofreu por ousar dizer que “O petróleo era nosso”! Deveria, hoje, ser louvado e, no entanto, sofre através de sua opulenta obra, mais uma nova injustiça! Não só defendo o escritor, mas parte da minha infância que ele tanto enriqueceu!

Depois de Lobato, e de toda a literatura clássica infantil universal, a partir dos Contos da Carochinha, de fadas, de príncipes e princesas etc, li, na minha adolescência, tudo o que me caiu nas mãos! Li quase toda a obra de Machado de Assis, José de Alencar, e outros escritores nacionais. Li muita poesia de Bilac, no mesmo livro que vi nas mãos de meu pai, algumas vezes, quando lia, à meia voz, poemas, passeando pela casa. Li, poetas clássicos e românticos e particularmente, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, para citar os mais próximos, e com os quais minha alma se identificava bem mais do que com os modernistas, embora, Guilherme, tivesse integrado a Semana de 22. Enfim, li de tudo, sem esquema, autores nacionais e estrangeiros. Cheguei a ler

“ Os Miseráveis, de Victor Hugo e começava a ler O Corcunda de Notre Dame, quando levei um “puxão de orelhas”, no confessionário. Outra obra importantíssima, que comecei a ler cedo demais, e talvez por isso não fui até o final, foi “Os Sertões” , de Euclides da Cunha. Mais madura, tentei novamente, e, envergonho-me de dizer, que também não cheguei até o fim. Talvez hoje, com outros valores, eu conseguisse ir adiante, mas, e o tempo?! E o fôlego?! Que Euclides me perdoe, perdi no tempo a chance de conhecê-lo melhor. “O Pequeno Príncipe” também li com muito gosto. De Cronin, praticamente li, a obra inteira, com raras exceções.

Agora, o livro que me influenciou, mais objetivamente a escrever poesia, foi sem dúvida, “Cartas a um jovem Poeta” de Rilke. Escrevi um artigo a respeito desse livro e nele afirmo o que digo acima. Li-o, como se Rilke o tivesse escrito especialmente para mim!

5 – Fale um pouco sobre a sua trajetória literária. Como começou a sua vida de escritora?

CR – Sempre me senti atraída pelas artes em geral. Desde pequenina, vivia desenhando tudo o que via, até retratos de artistas de cinema, famosos. Vivia moldando bichinhos de barro, e sempre cercada de música! O que, às vezes desgostava minha mãe, que me via estudar com o rádio ligado e não se conformava com isso! A poesia veio mais tarde. Ainda no ginásio, costumava fazer algumas quadrinhas de pé quebrado, sem saber que me iniciava na trova. Fiz meu primeiro poema quando minha filha, Márcia, nasceu. A menina tinha intolerância láctea e, nos cinco primeiros meses, não me deixava dormir direito, nem durante o dia e muito menos à noite.Tive medo de perde-la! Com vinte dias, eu era um perfeito zumbi! Numa das inúmeras idas e vindas, da minha cama ao berço e vice-versa, dormi andando e fui de encontro à parede. Conto isto, porque em virtude desta insônia forçada, é que o meu primeiro poema nasceu. Chamei-o, “Se eu soubesse esquecer”. Bem… o que eu queria esquecer, esqueci! Porque não sei do que se tratava! E perdi também o poema, que justificava o nome. Talvez intimamente o condenasse, julgando-o fruto de um resquício de saudade do primeiro namoradinho – só seis meses de namoro, num tempo em que nem de mãos dadas se andava! Mas… fora o primeiro! Com o segundo, casei-me (união desastrosa que durou 21 anos!)

Minha primeira aparição pública, que marcou o início de minha carreira poética, se é que assim posso dizer, aconteceu em 1961. A Comissão Municipal de Cultura lançara um Concurso de Poesias, tendo como tema, SANTOS. Como quem não quer nada, resolvi abraçar o tema, compondo um poema a que dei o nome de “Gosto de ti, minha terra”. Fechando os olhos e procurando vencer a timidez, mandei-o. Dias depois de expirado o prazo, recebi um telefonema de alguém que não se identificava. Queria falar com Carolina, dizendo que tomara conhecimento de que eu compusera uns versos muito bonitos para Santos. Insisti para que se identificasse. Dizia-se “um poeta do outro mundo”. Achando que tudo não passava de um trote, desculpando-me, desliguei o telefone. Dias depois, vim a saber pelos jornais que o meu poema conquistara o 3º lugar no referido Concurso, e que o grande poeta, Cesídio Ambrogi, de Taubaté, era o 2º colocado. O conhecido Poeta e Jornalista, Corrêa Junior, de São Paulo, conquistara o 1º lugar. Uma surpresa enorme! E uma emoção sem tamanho!Eu começava a sair da gaveta! Só vinte e tantos anos mais tarde, vim a saber, por ele mesmo, que o tal “poeta do outro mundo”, do telefonema anônimo, era, simplesmente, dr Archimedes Bava, um dos mestres do Direito, em Santos e Presidente do IHGS, instituição que eu, bem mais adiante, viria a presidir, por sete anos consecutivos, de 2000 a 2007. Aturdida, desculpei-me perante ele, já então velho amigo, censurando-o por não ter se identificado me forçando à indelicadeza, de desligar o telefone! Fora a surpresa, explicou-me ele, que o fizera ligar para mim, para sondar quem seria aquela Carolina, que ninguém conhecia, e que conseguira abocanhar um 3º lugar, situando-se ao lado de dois poetas consagrados vindos e fora!

Daí para frente, comecei a publicar versos num Suplemento de Arte, do Jornal local, A Tribuna, o que estimulou muito minha produção. Ainda em 61, concorri a um Concurso de Trovas do Centro Português de Santos. Tema: A Amizade entre Brasil e Portugal. Compus um pequeno poema com versos de sete sílabas e não cheguei a mandá-lo, porque alguém teve a caridade de me avisar que aquilo não era uma trova! Melhor informada, retirei do poema uma das estrofes com sentido completo e rima simples e encaminhei-a para o Concurso. Conquistei, mais um terceiro lugar. Na noite da premiação, conheci o caro e grande poeta Orlando Brito (recém falecido) também classificado, que me falou de Nova Friburgo e do Movimento Trovadoresco que alvorecia, induzindo-me a participar. Foi o gancho! Aos poucos, deixei-me levar por essa enxurrada maravilhosa de talentos, que me arrastou por este Brasil afora, mediante classificações em Concursos e Jogos Florais.

Em 1964, alcancei meu primeiro prêmio de relevância na Trova. Foi em Petrópolis. Na ocasião, tive a feliz oportunidade de conhecer a nata dos trovadores. Chefiados por Luiz Otávio, eles aguardavam, na Rodoviária do Rio de Janeiro, o ônibus que os levaria a Petrópolis. Sem conhecê-lo pessoalmente, dirigi-me a quem supunha ser Luiz Otávio. Quando me identifiquei, o Príncipe, dirigindo-se ao grupo, indagou: “Pessoal, qual foi a trova que eu disse, ainda há pouco, que era a melhor do Concurso?” A resposta veio em coro: “ A segunda colocada”. E Luiz Otávio, indicando-me, completou: -“Eis a autora!” Foi assim, que me integrei ao Movimento Trovadoresco e comecei a colecionar prêmios. O tema daquele Concurso era Vitória. E minhas vitórias, na área literária, começavam a intensificar-se.

6- Como foi dar esse salto de leitora para escritora?

CR – Aconteceu normalmente, sem um momento que eu possa determinar. Esta frase escrevi na noite de ontem. Um dia depois, reconsidero-a. Acho, sim, que sei exatamente o instante em que me senti “escritora”. E então terei de contar um caso. Eu tinha precisamente 11 anos e acabara de entrar no ginásio. Pré-adolescente, era aquela menina muito sensível e tímida ao extremo! A professora, única, que nos ensinava tudo nas aulas do ensino básico, fora substituída por vários professores que ministravam, cada um deles, uma única matéria.

A professora de português, das mais competentes de Santos, tinha fama de severa, de brava, mesmo! Uma das primeiras tarefas que nos passou como dever de casa, foi a narração “A morte do sabiá”, que ainda guardo com carinho, até hoje, porque me marcou muito e, pensando bem, foi minha primeira demonstração de que tinha alguma tendência para escrever. E foi com muito carinho que derramei toda a minha sensibilidade, sempre contida, na descrição da morte daquele sabiá! Entreguei a narração, confiante de que mereceria boa nota! Alguns dias depois, recebíamos de volta nossos trabalhos, com as correções necessárias e a nota. – A máxima era o ambicionado 100. Quando ouvi meu nome, fui até a mesa da mestra, acalentando a esperança de ter conseguido boa nota. Decepção absoluta!

A mestra entregou-me o trabalho. A nota 60, em vermelho, feriu-me os olhos e as palavras ríspidas da professora: “Isto foi feito com a mão do gato!” atingiram em cheio meu coração e acabaram com minhas primeiras e ainda inconscientes pretensões literárias.

Dali em diante, numa reação puramente infantil, ao escrever meus trabalhos, eu economizava palavras, na tentativa de que os textos não deixassem dúvidas de terem sido feitos por mim, uma criança ainda! Isto, de certa forma, prejudicou bastante essa minha fase estudantil. Nunca fui reprovada, mas não fui boa aluna, pois, a mesma coisa veio a acontecer com o Desenho, outra de minhas atividades preferidas. Descobri que não ganhava boa nota, porque meu professor pensava que eu “colava” meus desenhos. Esse dois casos me desestruturaram, bastante, embora, no segundo, a minha reação já se mostrasse mais madura. Eu teria então uns 14 anos. Quando notei a desconfiança do professor, passei a entregar meus desenhos no tamanho exigido, segundo o modelo (caderno Fachini) e, por minha conta, fazia outro, ampliado. Comprei outros cadernos Fachini com modelos de mãos e rosto, que não faziam parte do currículo, por serem mais difíceis. E, mostrando-os ao mestre, consegui que o meu querido professor, enfim, valorizasse a sua aluna! Esses dois episódios, entretanto, influenciaram negativamente na minha auto-estima. Fui uma aluna sem brilho no meu tempo de ginásio.

A professora brava, que não acreditara em mim, tornou-se, posteriormente, muito minha amiga e grande incentivadora de minha poesia. Devo a ela, indiscutivelmente, o que sei da língua portuguesa. E o fato de ter julgado que aquela narração não poderia ter sido feita por uma criança da minha idade, pensando bem, foi um elogio e tanto!

Hoje, considero esse incidente, como o primeiro prêmio literário que, nos meus tenros onze anos, conquistei, embora, na época, muito me fizesse sofrer! Já no Secretariado, sem censuras, passei a escrever com muito mais desenvoltura, conquistando sempre as melhores notas, o mesmo acontecendo na Escola Normal, o que desenvolveu em definitivo, meu gosto pela linguagem escrita.

7 – Teve a influência de alguém, para começar a escrever?

CR – Acredito que, na adolescência, meu primeiro e único namoradinho, que gostava muito de poesia e, de vez em quando, enquanto passeávamos pelos jardins da praia, declamava versos de Bilac, Menotti, e outros, com certeza, deve ter despertado meu interesse pelas rimas. Daí em diante, foi por minha conta.

8 – Tem Home Page própria? ( não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)

CR – Já tive Home Page, com foto, poesias, um conto premiado em Portugal, Trovas etc. Mas, como dependia de outros para alimentá-la, acabei por perdê-la.

9 – Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura , em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

CR – Bem, não encontro essa dificuldade, porque nunca pensei em “viver de literatura”.

Creio que a habilidade para escrever, prosa ou poesia, é quase um dom. Um dom que Deus oferece gratuitamente e que pode permanecer enrustido e morrer embrionário, ou sendo cultivado, vir a florescer em qualquer fase da vida. Poesia pode ser fuga, sublimação, passatempo, mas nunca profissão. Claro, que em tudo há exceções, neste caso, raríssimas! O poeta, simplesmente, nasce Poeta! O instante em que a Poesia passa a ser o seu meio de expressão, exigindo constante aprimoramento, pode acontecer em qualquer tempo. O mesmo se dá com o escritor e os artistas em geral. Entretanto, viver de literatura é muito difícil. Mas há uma “remuneração”, polpuda, que o artista aspira e, quando chega, o gratifica plenamente! È quando sente que a sua mensagem foi entendida e encontrou ressonância na sensibilidade de alguém. Uma glória!

SEUS TEXTOS E PRÊMIOS

10 – Como começou a tomar gosto pela escrita?

CR – Sempre lutando contra meu natural retraimento, que me levava mais a ouvir do que falar, fui me abrindo para a poesia e acumulando versos em cadernos, fechados em gavetas. O primeiro prêmio conquistado me obrigou a dar um passo a frente. Ao ver meu primeiro poema publicado na imprensa, enviado, sem que eu soubesse, por um amigo que me pedira um poema para suas filhas, quase morri de vergonha, pois me senti como que se minha alma fora desnudada em público! Mas essa primeira reação foi sendo substituída pela sensação gostosa de saber que meus versos eram bem acolhidos por gente que eu nem conhecia e ganhavam elogios que me surpreendiam! Em consequência, fui saindo aos poucos do casulo. Quando me voltei para os Concursos, foi como que um desafio à minha insegurança. Mais uma tentativa de auto-afirmação! As vitórias, de certa forma, provavam-me que eu realmente estava apta a fazer o que fazia! Então, promovi um encontro comigo mesma e decidi: Se este é o caminho que eu quero seguir, só há uma solução – ou me venço, ou serei vencida! E foi assim que, aos poucos, deixei de corar como uma adolescente, cada vez que via uma poesia minha publicada num jornal ou revista. E, o que era melhor, agora enviada por mim! Tomei gosto!

11 – Você possui livros? Se sim, em que você se inspirou em seus livros?

CR – Publiquei meus primeiros livros em 1969. “ Sempre”, chamou-se o primeiro e reunia as poesias feitas até ali. ( antes de vir a público, foi agraciado com o “Prêmio de Melhor Obra Inédita”, outorgado pela UBE.) “Espanha”, foi o segundo. Uma verdadeira ousadia, pois escrevi um poema épico em que viajei pela terra de meu pai, descrevendo muito de sua história e geografia, de ponta a ponta, sem ter saído de minha casa e sem conhecer o país de Cervantes. Fui convidada a ler meu Poema no Instituto de Estudos Hispânicos e, como de início eu me desculpara, pedindo que me perdoassem erros e omissões, já que eu não conhecia a Espanha, ao final da minha leitura, um senhor veio cumprimentar-me dizendo: “Não acredito que a senhora não tenha estado na Espanha! Eu cheguei de lá agora, e descreveu minha viagem inteirinha!”

Este livro, escrito apenas com estudo e coração, foi um presente a meu pai, que de lá veio com nove anos de idade e morreu sem lá voltar, apesar de minha insistência. Anos depois do falecimento dele, estive na Espanha, quase que com remorsos, por estar vendo o que ele nunca vira. O livro já está com a 2ª edição esgotada, se tiver tempo, tentarei uma 3ª.

O terceiro livro, foi de trovas, “Cantigas feitas de Sonho”.

Vieram a seguir, algumas Biografias. Falarei sobre elas quando der resposta à pergunta de nº 14. “Trovas que Cantam por Mim” foi lançado em 1968. Pretendo fazer um livro de trovas juntando este dois primeiros livros e anexando mais umas 300. Não é muito, devo ter em estoque pelo menos umas três mil trovas que poderiam ser aproveitáveis! É a minha contribuição ao Movimento.

“Interlúdio”, meu primeiro livro de contos. Gosto de escrever contos. Dá asas à imaginação e não atrapalha minhas tarefas domésticas. Planejo-os, trabalhando. Depois é só correr para o computador deixar que fluam sem rascunhos. Tenho material para mais uns dois livros de contos. Assim aconteceu com “Feliz Natal”. Escrevi, por algum tempo um ou dois contos natalinos, a cada fim de ano. O livro está esgotado, como os demais, e, se partir para uma segunda edição, será ela acrescida de, pelo menos, oito contos inéditos.

“Evocação”- livro escrito de parceria com Maria Edith Prata Real. É o levantamento histórico da “Associação das Ex-Alunas do Colégio “São José”. O meu querido Colégio São José!

“Um Amigo Especial” é livro de ficção. Era para ser leitura para crianças, tanto que, nele, passo alguns conceitos de maneira bem accessível ao alcance da gente miúda. Mas, o livro evoluiu em conteúdo, na linguagem também, e os adultos é que mais o aplaudem. Assim, achei melhor endereça-lo com as palavras que deixei na primeira página: …” para jovens de qualquer idade.”

Neste findo 2010, veio à luz “Liberdade…Sonho de Todos!”, que nasceu da necessidade, urgente, de conquistar um pouco mais de tempo e liberdade para fazer, dentro da morosidade desejada, a revisão do meu próximo, e, quem sabe, derradeiro livro, “Destino”. Separei tudo o que tinha à mão e que falasse de liberdade, em prosa, verso ou trova e disse ao meu editor, (marido): – “ Pronto! Edita este. Mas, agora, quero liberdade para cuidar do meu “Destino”! (que até hoje, por conta da tal reforma ortográfica, ainda não saiu de minha mão!!)

12 – Como definiria seu estilo literário?

CR – Na poesia, meu estilo é, preferencialmente, acadêmico. Faço, com menos frequência, poesia sem métrica e rima. Evito dizer poesia livre, porque me sinto perfeitamente liberta, dentro dos cânones acadêmicos, tradicionais, ou clássicos. A rima e a métrica, longe de me prenderem, me ajudam a voar.

Na prosa, procuro escrever certo o que quero dizer. E ser clara. E ser simples. Será isto um estilo?

13 – Dentre os livros escritos por você, qual lhe chamou mais atenção? E por quê?

CR – Aquele que mais me preocupou, digamos assim, foi, sem dúvida, “Príncipe da Trova”. Levei quase vinte anos para terminá-lo! Comecei-o e parei por circunstâncias que explico nas primeiras páginas. Foi um livro difícil de ser escrito, em tudo e por tudo, mas era um livro que precisava ser escrito.

14 – Você publicou algumas biografias. Separadamente, como pessoa e como poeta, qual a importância para si de Ribeiro Couto? E Paulo Setúbal? E Luiz Otávio?

CR – Rui Ribeiro Couto, é nome internacional, consagrado, de poeta, escritor, embaixador etc e que, além de tudo, de um santista. Como se não bastasse, Ribeiro Couto é o Patrono da Cadeira nº 30, que tenho a honra de ocupar na Academia Santista de Letras. Logo, biografá-lo era para mim um dever, por sinal, agradabilíssimo!

“Paulo Setúbal – Uma Vida –Uma Obra” – co-autoria de Cláudio de Cápua e Carolina Ramos, aconteceu em virtude de um Concurso. O tempo era escasso. O livro ficou pronto em praticamente quinze dias. Faço questão de dizer que o mérito da pesquisa deve-se inteiramente a meu marido. Havia um prêmio polpudo em dinheiro, e também a promessa de publicação da obra vencedora. Conquistamos o 2º lugar e fomos cumprimentados pelo primeiro colocado. Editamos o livro por nossa conta.

Escrevi mais duas biografias.”Saga de uma Vida” – biografia de um médico amigo, Presidente de Honra do IHGS, dr. Raul Ribeiro Flórido, que, depois de lê-la, me disse: “Obrigado, Carolina, agora posso morrer tranquilo.”

Esta é a tal “remuneração” que tanto gratifica a quem escreve!

Dr. Florido faleceu um ano depois, aos 91 anos de idade. Foi ele que, quando presidente, cedeu uma sala no IHGS, para instalação da sede da UBT/Santos.

Quanto à pergunta sobre nosso saudoso Luiz Otávio, que mais poderei dizer? Não fujo à pergunta: Qual a importância de Luiz Otávio para mim? Mesmo porque, todos os interessados no assunto, conhecem a resposta. E ela está inteira e detalhada no meu livro “Príncipe da Trova”, que precisava ser escrito, porque a verdade estava sendo maldosamente explorada e deturpada.

Respondo à pergunta com outra, embora não seja isto elegante.

Quem poderá avaliar que importância poderá ter para alguém, um outro alguém que, na última década de sua vida, lhe ensinou o que é viver, o que é ternura e com quem descobriu o grande e verdadeiro Amor?! Ninguém! A menos que tenha vivido uma situação semelhante!

Digo isto, sem constrangimentos, porque, hoje, tenho ao meu lado, alguém, também muito amado e com compreensão suficiente para não coibir a minha sinceridade. Mesmo porque, foi ele, Cláudio, hoje meu marido, quem, com aquela magnanimidade que talvez eu não tivesse, me incentivou a levar a cabo a biografia de Luiz Otávio, que, após o nosso casamento, por respeito a ele, eu interrompera. E foi ele, também, quem me estimulou e não embargou minha decisão de só recomeçar a escrever, se pudesse ignorar a sua presença em minha vida, para poder escrever com transparência e absoluta sinceridade o que tinha a dizer. Não fosse assim, eu estaria completamente tolhida e não poderia ter escrito com a abertura de alma, com que escrevi aquela biografia do nosso Príncipe, da qual sempre me orgulharei de ter participado.

15 – Que acha dos seus textos: O que representam para si? E para os seus leitores?

CR – Pergunta difícil! Meus textos… são meus textos! Gosto deles, ou os rasgaria! Sou exigente. Leio, releio, corrijo e, não raro, volto atrás. Faço por eles, tudo o que se faz para tentar educar um filho. Toda mãe quer chegar à perfeição. Busca mas, nem sempre consegue. Afinal, perfeito, só Deus! O que posso dizer, é que as opiniões dos meus leitores e amigos têm sido sempre bastante magnânimas e estimulantes. Creio na sinceridade deles, tanto como gosto que creiam na minha. E entre essas avaliações tenho palavras preciosas e bastante alentadoras de vozes muito importantes para nossas letras, como: Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Câmara Cascudo, Fernando Jorge, Menotti Del Picchia, Moacyr Scliar, Salomão Jorge, Paulo Bomfim, e muitos outros. Palavras que me dão confiança e me incitam a continuar.

16 – Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

CR – A Internet é um meio fantástico de comunicação quase que instantânea! A troca de pps fascina! Mas, apesar do seu poder encantador de fazer novos amigos, ela também nos coloca frente a um sério problema!

Se não nos disciplinarmos (o que ainda não consegui), ela nos engole! Engole o nosso tempo, compete com os nossos horários, interfere nos compromissos, furta horas de sono e também os momentos reservados à leitura. E chega a perturbar nossas atividades literárias! Enfim, separa interesses e até casais! Estou chegando ao limite, preciso me reorganizar.

A Internet poderia me ajudar muito na divulgação de meus trabalhos, mas ainda sou bastante inábil e, às vezes, preguiçosa.

17 – Tem prêmios literários?

CR – Dessa pergunta me esquivo sempre. Mas, como esta entrevista já virou autobiografia não posso deixar de ser sincera, embora possa parecer vaidosa, o que realmente não sou. Tenho prêmios, vários prêmios, no Brasil e alguns no Exterior, de Contos, Poesias, Trovas e Crônicas. Não digo quantos, porque é mais fácil ver um prêmio valorizado do que um número maior deles. Não posso deixar de dizer que, neste ano, por meu poema, Paz, fui agraciada com Diploma e Medalha de Mérito Internacional, em Nocera – Salerno, Itália. E em dezembro, deveria estar em Mérida, já que estou entre os Vencedores dos Jogos Florais da Venezuela, mas, infelizmente, não pude ir.

18 – Participa de Concursos Literários? Qual sua visão sobre eles? Acha que eles têm “marmelada”?

CR – Concorrer é, para mim, um verdadeiro vício! Concorro como um desafio a mim mesma. Seria hipocrisia dizer que não gosto de ganhar, mas, ganho e perco, sem questionamentos. Festejo uma vitória como se fora a primeira e a última! E consigo alegrar-me com a vitória dos meus irmãos! Não gosto é de preparar tudo e, afinal, deixar passar o prazo, sem postar o envelope. E como isso acontece!

Quanto à pergunta se há “marmelada” em Concursos, digo, e espero estar certa, que não há! O que se ouve com relação a Concursos em que nomes dos Vencedores são repetidos, seria tão fácil de entender e aceitar quando não predominam despeitos nem vaidades feridas! Comparemos: Num campo de futebol, quem são os que marcam mais gols? O mesmo desempenho repete-se nos mais diferentes jogos. Logo, é de se esperar que os nomes de tais campeões estejam mais em evidência que os demais! Qual a solução para virar o jogo? Só há uma: – Jogar com mais eficiência para suplantar os demais concorrentes! Enquanto isto não for conseguido, o certo é aplaudir, fraternalmente, a vitória dos ganhadores, sem críticas mesquinhas! Aí está o verdadeiro prazer de concorrer! É preciso querer ganhar, quando se pode! Não apenas, quando se quer.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

19 – Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa/ou muso pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial?

CR – É muito bom que haja uma situação psicologicamente definida quando alguém se decida a escrever. Então, é só derramar a alma sobre a folha de papel, ou tela de computador, sem comprometimento algum. É fazer um “clic” e deixar que os dedos captem o que o cérebro, a alma e o coração transmitem, numa espécie de coral afinado. Depois, é só burilar. Contudo, há os momentos de escrita, exigida, menos intimista sujeita a cargos ou Concursos, que pedem maior concentração.

Quando escrevo por diletantismo, não preciso, não, de um ambiente especial para escrever. Sempre desejei um cantinho todo meu, privativo, mas nunca consegui tê-lo! Habituei-me a “escrever” em ônibus, na direção de um carro, ou com crianças correndo em volta de mim, quando meus filhos eram ainda pequeninos. Escrevi sempre com a televisão ao meu lado, seguindo novela, e até só mentalmente, durante as tarefas domésticas. E, se não tenho papel para anotar, acabo perdendo muita coisa que poderia aproveitar. Esta é a sina da mulher! Mulher tem que criar tempo para tudo! Porque, antes de ser escritora, artista ou lá o que for, é apenas mulher e esse termo tem subdivisões prioritárias infinitas! Gosto de escrever com música! Ela nunca me perturba, até me ajuda! Não sei viver distante dela!

20 – Você projeta os seus textos? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os textos?

CR – O único livro que projetei foi o Príncipe da Trova. Fui coletando dados, agregando-os cronologicamente e desenvolvendo-os. Aliás, corrijo, as demais biografias também passaram por esse mesmo sistema. Quanto aos contos, poesias e trovas, obras de ficção, simplesmente acontecem. Já fiz um conto a partir de uma frase, a maioria dos sonetos, baseados num fecho, e a maioria das trovas, sob temas dados, ou seja, estipulados por Concursos.

21 – Você acredita que para ser poeta ou trovadora basta somente exercitar a escrita ou vocação? Isto é essencial?

CR – Tudo na vida precisa ser exercitado. Poesia é o que se pode chamar de dom, acho que já me referi a isto, mas a predisposição, para qualquer coisa, não é o bastante. Quem pretenda escrever e ser bem sucedido, precisa conhecer muito bem a língua que vai usar. E aprimora-la sempre! È o seu instrumento de trabalho. É preciso saber manipulá-la bem, estuda-la sempre, para que a inspiração possa ganhar asas e voar alto! Mas é preciso que se diga, que o poeta é poeta nato! Ao nascer, sua alma já vem carimbada! Se será bom ou mau poeta, é o que se saberá depois. Independe de cultura. Ser poeta é um estado de alma, é um dom! Vemos coisas lindas, cheias de conteúdo poético, expressas em linguagem precária, por artistas praticamente sem estudo, mas que têm a poesia dentro da alma e são poetas de fato! Como vemos, também, poesias elaboradas por gente que notoriamente esbanja cultura e que gostaria de ser poeta mas, infelizmente, não o é!

22 – No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

CR – Porcaria nunca fez bem a ninguém! Mas, eu, quando jovem, lia tudo o que me caia nas mãos, menos coisas pornográficas que, automaticamente meu íntimo repelia. Acho que é por isso que até hoje não gosto das trovas licenciosas, que andam por aí. E que sempre repudiei, em particular, as “escabrosas”, que nunca cheguei a ler e com as quais tentaram macular o Movimento Trovadoresco Brasileiro, canalizando um rio de águas turvas para que desaguasse no nosso meio. O bom, mesmo, é ler boa literatura, vinda de onde vier, o que sempre ajuda a evoluir.

O ESCRITOR E A LITERATURA

23 – Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

CR – Não gosto de citar nomes. Digo apenas que os autores que deveriam ser descobertos são aqueles que escrevem porque sentem prazer de escrever, sabendo dizer o que pretendem dizer. Esse ato de enxugar a alma numa folha de papel, realiza o anseio, incontido, de comunicação que nasceu com eles e que com eles morrerá, quer lhes dê, ou não, notoriedade ou sequer acolhimento público. Infelizmente, estes poetas ou escritores, são os que mais dificuldade têm de sair da gaveta, das rodinhas de amigos, das tertúlias íntimas e nem sempre chegam à mídia! O que lhes importa, mesmo, é exteriorizar as coisas que a alma dita e que morreriam sem vez, se a palavra escrita não lhes servisse de veículo para trazê-las à luz. Basta-lhes satisfazer a necessidade íntima de comunicação com seu próprio ego. E quanto talento se perde! E. em todas as áreas, quantos ensinamentos úteis vão morrendo embutidos, sem jamais chegar até aqueles a quem, talvez, pudessem ajudar ou tão-somente deleitar!

24 – Na sua opinião, que livro ou livros da literatura portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

CR – Ainda uma vez, evito citar nomes. Acho que, para quem quer ter uma visão o quanto possível ampla, da literatura luso-brasileira, deve começar lendo os clássicos da literatura tanto portuguesa como brasileira, tanto na prosa como na poesia Daí para a frente, o seu passeio pelas estantes vai se impondo de acordo com a evolução das fases que se sucedem, através de diferentes autores, até chegar aos ditos tempos modernos, com seus voos e quedas, com seu realismo, suas extravagâncias, hermetismos e crueza de linguagem que, não raro, nos impelem a procurar matar saudades das leituras mais amenas, que deleitaram nossa juventude, principalmente na área da poesia.

25 – Qual o papel do escritor na sociedade?

CR – A obra do escritor não tem fronteiras. Não há limites que cerceiem a sua criação, e, muito menos, cronológicos. Mas o escritor não é imune às influências do meio e da época em que vive. Seus escritos bebem a água da inspiração, na fonte que corre perto de seus pés. A voz do escritor incorpora a voz do seu tempo e, automaticamente, através do que escreve, passa a interagir, de acordo, ou não, com a vida que rola à sua volta, e até mesmo contra suas próprias convicções, segundo as exigências da personagem criada. Note-se, que há, sempre, escritores e poetas envolvidos nas grandes causas que o cercam e que acabam por marcar suas existências. É por isso, que podemos afirmar que poetas e escritores, em qualquer tempo ou lugar, são quase sempre ativistas sociais e arautos dos grandes acontecimentos que marcam o seu tempo.

26 – Há lugar para a poesia em nossos tempos?

CR – Logo que me iniciei na poesia, recebi um artigo de um poeta de São Paulo intitulado “A Poesia morreu!…” Arrepiei-me e dei-lhe resposta, escrevendo um outro artigo provando que a poesia ainda estava viva e que nunca morreria, porque o mundo precisava dela! Perdi esse artigo, que também foi para os jornais. Mas a minha opinião continua a mesma! Hoje, os tempos são outros, mais agressivos mais duros, mais frios…simplesmente mais, em tudo o que é mau! E, por isso mesmo, também mais do que nunca, o mundo precisa de ternura, de amor, de congraçamento, de fraternidade, de suavidade e de beleza – em suma, cada vez mais, o mundo precisa de Poesia! E há lugar para ela em nossos tempos?! Há sim… é empurrar o materialismo daqui, os excessos de vaidades dali, as prepotências, os ódios e outros tantos defeitos inerentes ao homem e então veremos que sempre há de sobrar um lugarzinho discreto para que a rosa da poesia se instale, desabroche e esparja seu inefável perfume. Perfume que atrai corações e une as almas! E estejamos certos, de que, quanto mais rudes e maus os tempos se tornarem, mais a poesia há de se manter indispensável!

UBT

27 – Pertencer à UBT muda o que em sua vida?

CR – Tudo! A UBT (União Brasileira de Trovadores) promoveu uma verdadeira revolução em minha vida! Filha única, eu tinha uma enorme carência de irmãos! Canalizei todo esse amor para meus filhos. Mas faltava ainda aquele afeto diferente, fraterno, da palavra amiga e dos sonhos divididos com igualdade. E, de uma hora para outra, ou seja, de 1960 em diante, quando entrei no turbilhão da Trova, através do GBT, (Grêmio Brasileiro de Trovadores) logo transformado em UBT, ganhei uma enxurrada de Irmãos e Irmãs, acolhidos por meu coração com um carinho deslumbrado, que talvez nenhum deles consiga jamais aquilatar! Foi uma glória para mim, encontrar gente amiga, que sonhava, pensava, sentia e se expressava poeticamente, da mesma forma que eu! E esse fascinante diletantismo de concorrer a concursos e conquistar prêmios,( ou não), passou a ser meu hobby predileto, porque me facultava a proximidade desses Irmãos e Irmãs que as artérias da Trova canalizaram para mim.

28 – O que é para a mulher atrás da trovadora pertencer à UBT?

CR – Quem indaga bem sabe que a pergunta é delicada. Não a contorno. A mulher atrás da trovadora, era a mulher sofrida que ninguém desconfiava que fosse. O casamento, à beira de um despenhadeiro! Incompatibilidade total! Dizer que a Poesia, em particular a Trova, foram uma fuga é quase ofendê-las, mas, ninguém pode fugir à verdade! Busco imagem melhor. Tanto a Poesia como a Trova foram aquela janela que consegui abrir para que o sol chegasse a mim e afastasse o inverno prematuro, que avançava e me envolvia cada vez mais! A UBT foi a mão amiga que destravou essa janela!

29 – Comente sobre algum fato curioso ou engraçado que tenha ocorrido em algum Concurso de Trovas.

CR – Há muitos fatos curiosos! Vejamos um, acontecido em Cambuquira, creio que em 1969. O tema do Concurso era Fonte. Eu tinha uma trova premiada, esta:

Sussurrando, com ternura,
prova a fonte, sem revolta,
como é possível ser pura,
mesmo tendo lama em volta!

Mas, ao ser-me entregue o livreto do Concurso, vi que meu nome não aparecia e minha trova fora publicada com o nome de outro autor. O promotor do Concurso desculpou-se muito, prometendo-me corrigir o erro em sua Coluna de Trovas, num jornal local. Tranquilizei-o, dizendo-lhe que não se preocupasse, essas coisas aconteciam com frequência. Uma semana depois, recebo, em minha casa, o referido jornal e o desconsolo do promotor que me dizia consternado: – “ Veja só, Carolina, o que fizeram com sua Trova!” E lá estava minha pobre trova, com o verbo sussurrando completamente deturpado, ou seja:

Surrando com ternura,
prova a fonte, sem revolta… etc

“ – Mas, eu vou corrigir, Carolina, pode deixar”, completava o articulista.

Passa-se mais uma semana, e chega novo exemplar do jornal de Cambuquira, com esta calamidade:

Urrando com ternura,
prova a fonte, sem revolta etc

Vinha junto, um recadinho desconsolado, escrito de próprio punho, que me fez rir um bocado:

“- Mil perdões, Carolina! Desisto!”

Daí em diante, prometi a mim mesma, que nunca mais usaria esse perigoso verbo, sussurrar, em trabalho algum!

30 – O que é a Trova para você como trovadora?

CR – Eu vinha dos sonetos e dos poemas de muitas estrofes.. Meu primeiro livro de poesias, de nome, “Sempre”, é uma prova disto. A Trova me disciplinou, impondo-me a síntese. Tenho um ou outro soneto cuja base é uma trova e tenho trovas que desenvolvi em sonetos.

E percebo que, tudo o que há de mais substancial, está nos quatro versos de sete sílabas da trova. O mais, que tece a trama ampla do soneto, mesmo sem ser supérfluo, é rendilhado decorativo.

A PESSOA POR TRÁS DA ESCRITORA

31 – O que a choca hoje em dia?

CR – Muita coisa me choca, hoje em dia! A insinceridade, as injustiças, os desmandos políticos, a corrupção, a falta de caráter; o poder dissociado da responsabilidade, os rumos da educação e da saúde, a paternidade irresponsável, a exploração das crianças, o descalabro e propagação do poder nocivo das drogas, a falta de respeito para com os idosos; a sexualidade exacerbada e precoce dos jovens e consequente banalização do amor; a ausência de uma religião, a falta de fé e do amor a Deus, o desamor à vida e a facilidade com que se trama uma guerra! Mas, é melhor parar por aqui, ou a lista ficará por demais extensa!

32 – O que mais lê hoje?

CR – Para ser bastante sincera, devo dizer que hoje mais escrevo do que leio. Mesmo assim, leio tudo o que me cai em mãos, ou dois ou três livros ao mesmo tempo, sem mais aquele estoicismo, inicial, de ir até a última página, mesmo não sendo a leitura do meu total agrado. Recebo muitos livros e não lhes dou resposta sem lê-los. Isto toma tempo! Assim, tenho que dividir minhas horas, inclusive de sono, entre encargos domésticos e sociais, o fascínio do computador e os momentos repousantes que um livro, de livre escolha, possa me oferecer.

33 – Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

CR – Nunca deixei de escrever, mesmo ocupada com outros afazeres, cargos etc, mas, dormi no tempo, trabalhando para entidades e acumulando trabalhos meus que poderiam estar publicados. Assim, minha meta atual é colocar em dia os livros que praticamente estão prontos, dependentes de seleção e revisão. Quanto a projetos, gostaria, se Deus me desse algum tempo mais, de terminar e levar a público meu livro, “Canta, sabiá!” de prosa e poesias baseadas em temas folclóricos. E gostaria também de voltar a pintar e frequentar algumas aulas de teclado, já que dei meu piano à minha neta e sinto falta dele, pois não sei viver sem música! Penso, também de voltar a dedicar-me a obras sociais. Mas, a saúde e a vontade de Deus decidirão. Tudo está no terreno das veleidades, que nem chegam a ser sonho!

34 – De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

CR – Precária! Só aquele que ainda é capaz de sonhar, se interessa pela cultura. Nosso povo é ingenuamente criativo, é sonhador por natureza, gosta de arte, mas a luta entre o “feijão e o sonho” continua cada vez mais árdua! E qualquer ajuda oficial, na hora do aperto, os primeiros cortes vão para a área da cultura. Isto poda as asas dos artistas e os seus voos só podem ser rasteiros. Mesmo assim, o brasileiro canta, toca, compõe, modela, cria e o quanto possível sonha, porque aquele que nasce artista sempre encontra um meio de dar vaza às suas tendências, buscando inspiração mesmo dentro da rústica precariedade que o cerca. E é assim que vão se multiplicando gerações de cantadores, cordelistas, violeiros, artesãos e pintores, que enfeitam, com a ingenuidade da sua arte, a cultura popular deste nosso Brasil.

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES

35 – Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever?

CR – Quem sou eu para dar conselhos?! Tentarei. Quando alguém pretenda começar a escrever, deve preocupar-se, a priori, com o manejo da língua pátria. Estudar, estudar muito! Estudar a vida inteira, para errar o quanto menos possível! Quem quer tocar um instrumento estuda o seu manejo. Pratica! E assim acontece em qualquer área.

O computador, a máquina de escrever, a caneta, o lápis, são meios utilizados na grafia das palavras, mas, o instrumento propriamente dito do escritor, é o seu idioma.

Antes de dedicar-se à escrita, portanto estude e leia. A leitura ajuda muito! Deve ser uma espécie de hábito compulsivo. A receita é ler, ler e ler sempre, autores nacionais e também, estrangeiros. Quando se sentir seguro, então escreva. A princípio, para si mesmo, com sinceridade, fluência como se só você fosse ler o que deixar no papel. Aceite, com humildade as ponderações dos que procurarem ajuda-lo e não se deixe abater por possíveis críticas acerbas e não construtivas, capazes de desestimula-lo.

E acredite que, se escrever lhe agrada de fato, o texto concebido há de ser sempre o seu maior prêmio! Isto é o que eu diria, com toda a sinceridade aos que se iniciam no caminho das Letras.

36 – O que é preciso para ser um bom poeta ou trovador?

CR – 1) – Ter alma e coração, ou seja sensibilidade. E também certa predisposição poética, que já nasce com ele e com ele deverá crescer.
2) – Amar a Trova, conhecer e estudar, a fundo, a sua técnica e requisitos principais.
3) – No que se refere a atitudes: – Quem pretenda tornar-se um “bom” trovador, deve entrar no Universo da Trova, para somar e não para dividir! Para respeitar, e ser respeitado! Enfim, para fazer amigos, evitando ferir e criar opositores. Indispensáveis, também, trazer consigo alguma humildade, espírito fraterno e isenção de vaidades excessivas. Ninguém poderá vencer sempre, mesmo sendo um bom trovador! E como é feliz quem, sem maledicências, consegue alegrar-se com a vitória dos demais! Aquele que é capaz de crescer e evoluir graças aos seus esforços e principalmente do seu talento inato, tarde ou cedo, há de ser um autêntico trovador, de valor reconhecido e querido por todos! Sua atuação só poderá engrandecer o tão bonito e atuante Movimento Trovadoresco, que avança a passos largos e tantos momentos felizes proporciona aos seus seguidores!

37 – Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, críticas etc…

CR – Já me alonguei demasiado. Abusaria um pouco mais, citando os meus livros publicados. São eles: Sempre (Poesia); Cantigas feitas de Sonho (trovas); Espanha (poema épico 2ª ed.); Rui Ribeiro Couto- Vida e Obra (biog); Trovas que Cantam por Mim; Interlúdio (Contos); Paulo Setúbal –Uma Vida/Uma Obra (biog. parceria com Cláudio de Cápua); Feliz Natal ( contos natalinos); Evocação (parc. c/ Edith Prata Real); Príncipe da Trova (biog); Saga de uma Vida (biog.); Um Amigo Especial (ficção para juventude) Liberdade – Sonho de todos (prosa e poesia), Destino (poesias)

Livros Inéditos: Contos ; Mosaicos (trovas); Canta , Sabiá! (folclore)

38 – Se Deus parasse na sua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?
CR- Em termos globais: – PAZ, JUSTIÇA E AMOR. Urgentemente!!!

Fontes:
http://www.novomilenio.inf.br/cultura/cult016.htm
Instituto Histórico e Geográfico de Santos. http://www.ihgs.com.br/
Pavilhao Literario Singrando Horizontes
http://singrandohorizontes.blogspot.com.br/2011/01/carolina-ramos-escritora-atras-da.html

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Arquivado em Biografia, São Paulo

Lídia Serras Pereira

Elvira Lídia Valente Correia Serras Pereira, nasceu em Algôz, no Algarve, Portugal, em Janeiro de 1903. Está ligada ao Sardoal através do casamento com o prestigiado escritor e filósofo António Serras Pereira, natural desta vila. Casaram em 1931, após se terem conhecido num baile da faculdade. Tiveram uma única filha, Maria Helena, já falecida.

Lídia foi homenageada, a título  póstumo, pela Junta de Freguesia de Silves, pela sua actividade cultural, artística e de colaboradora em programas infantis em rádios nacionais. Enquanto residiu entre nós foi uma grande militante associativista, integrando os grupos cénicos que se constituíam para apresentação de récitas.

Em conjunto com Gregório Cascalheira foi autora de muitos textos e versos desses espectáculos.

De Lídia Serras Pereira existem as seguintes obras publicadas:

“Bicharada Endiabrada” (contos infantis em verso – 1941),
“O Pinto Pintalegrete” (contos infantis em prosa – 1944),
“A Bravata de D. Barata” (1945) e
“A Burrinha Toleirona” (1947),
todos da Clássica Editora, de Lisboa.

Quanto a outros géneros, escreveu o romance regional

“Como Nasce um Romance”, editado pela Empresa Literária Fluminense (1944).

Após o seu falecimento, a família publicou as duas obras a título póstumo, “Sonetos” (1964) e “Quadras Soltas” (1965).

“O Século”, um jornal diário já extinto, disse em 1964 que o volume “Sonetos”, de Lídia Serras Pereira reúne “uma admirável série de poesia”. Apesar do livro ser publicado alguns meses depois da morte da autora, precisamente em 1964, o periódico escreve: “a poetisa mostra-nos, em todos os seus versos, uma inspiração rica e uma delicada sensibilidade. Os sonetos são todos perfeitos, de uma fluência encantadora, e difícil se torna dizer qual é a composição melhor e a mais linda. As imagens são belas, e no classicismo de forma encontramos outro motivo para apontar o livro como uma das melhores obras poéticas publicadas nestes últimos tempos. Os modernismos, os versos sem rima, deformados e sem regras, não tocaram, felizmente, a autora.”

Fonte:
Boletim de Informação e Cultura da Câmara Municipal de Sardoal . Bimestral – N.º 58 – Ano 10 – Maio/Junho de 2009.

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Arquivado em Biografia, Portugal

Zé Lucas (1939)

José Lucas de Barros nasceu no município de Condado, na Paraíba, em 12 de março de 1939, mas registrou-se civilmente em Serra Negra-RN, terra de seus pais.

    Trabalhou no campo, no comércio, no Banco do Brasil e,  finalmente, exerce a advocacia, tem atividades literárias, sociais e religiosas.

    É advogado, poeta, trovador e pesquisador de literatura popular.

    José Lucas escreveu seus primeiros versos na adolescência e é, hoje, nome conhecido e admirado no mundo trovista. Escreve poesia em suas variadas modalidades, destacando-se em trovas e cordel. Suas criações primam pela inspiração e criatividade.

    Publicou em 1973, um livro de trovas, intitulado ”Cantigas do meu Destino”.

    Em 1985, o livro “Caminhada” com lindos conjuntos de trovas, sonetos, glosas e poemas de forma livre.

    Foi professor de Português e Literatura por dez anos.

    Participa em “O TROVADOR”, Órgão Oficial da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, com a coluna: “Questões Simples de Linguagem”.

    Entidades a que pertence:
Academia de Trovas do Rio Grande do Norte
Associação Estadual de Poetas Populares – RN
Academia Curraisnovence de Letras
União Brasileira de Trovadores, seção de Natal/RN,
Instituto Cultural do Oeste Potiguar,
Membro da Academia Parnaminense de Letras.

Obras Publicadas:
 1 – Cantigas do meu Destino (Trovas),
 2 – Repentes e Desafios (Pesquisa de Literatura Popular), .
 3 – Caminhada (Poesias),
 4 – Diálogo em Trovas I (parceria com Delcy Canalles).
 5 – Diálogo em Trovas II (idem),
 6 – iálogo em Trovas III (Idem).
 7 – Quando Dois Rios se Encontram (Diálogo em sextilhas c/Delcy Canalles),
 8 – Do Potengi ao Guaíba (Diálogo em Setilhas c/Delcy Canalles).
 9 – Dois Poetas em Setilhas (Diálogo em Setilhas c/Ademar Macedo),
10 – Um Rojão em Sextilha Agalopada (com Ademar Macedo e Francisco Garcia de Araújo),
11 – Distâncias Que Se Aproximam (sextilhas e trovas em parceria com Delcy Canalles,
12 – Sexteto em Sextilhas (com A.A. de Assis, Ademar Macedo, Delcy Canalles, Francisco Garcia de Araújo e Gislaine Canales),
13 – No Balanço da Canoa (Trovas e Sonetilhos).
14 – Peleja em Martelo Agalopada (com Prof. Garcia)
Os diálogos poéticos foram feitos todos pela Internet. Há mais quatro em andamento e outros planejados.
15 – Resumo Biográfico do Mons. Lucas Batista (Cordel).

    Além de outros trabalhos inéditos.

    É também letrista em cerca de 20 músicas, com vários parceiros.

    Zé Lucas,como é conhecido, em seu livro Repentes e Desafios conta que o falecido Belarmino de França foi contratado para uma cantoria no município de Pombal (Triângulo), com a garantia do transporte de volta. Na hora da viagem o dono de casa ofereceu-lhe a garupa de um jumento. Diante da situação desanimadora, alguém gritou: “Jumento não tem garupa”. Belarmino, instigado pelos presentes, improvisou:

Segundo o que está escrito,
Jumento por garantia,
Levou Jesus e Maria
De Belém para o Egito;
Não é um animal bonito,
Mas, no trabalho, se ocupa;
Se ele der uma upa,
Bota o sujeito no chão…
E eu não sei por qual razão
Jumento não tem garupa.

Fontes:
http://www.avspe.eti.br/biografia2010/JoseLucasDeBarros.htm
http://uniaocultural.blogspot.com/2011/01/no-universo-da-trova-delcy-canalles.html

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Arquivado em Biografia, Rio Grande do Norte

Rodolpho Abbud (1926)

Rodolpho Abbud nasceu em Nova Friburgo/RJ, em 21 de outubro de 1926; filho de Dona Ana Jankowsky Abbud e de Ralim Abbud.

Radialista, Locutor Esportivo, Poeta e Trovador, foi sempre muito bom em tudo aquilo que fez ou faz. Contam até que, certa vez, transmitindo um jogo do Friburguense, teve a sua visão do campo totalmente coberta pelos torcedores. Sem perder a calma, e com sua habitual presença de espirito, continuou a transmissão assim: – “Se o Friburguense mantém a sua formação habitual, a bola deve estar com o zagueiro central, no bico esquerdo da área grande…”

Tem um livro de Trovas intitulado: “Cantigas que vêm da Montanha”, e, recebeu, com inteira justiça e por voto unânime de todos os Trovadores que ostentam essa honra, o titulo de “Magnífico Trovador”.

São poucos os pioneiros da trova em plena atividade. Entre eles, com especial destaque figura Rodolpho Abbud, o grande e querido apóstolo da trova de Nova Friburgo. Ele entrou na alegre tribo dos trovadores em 1960, com aquele vozeirão inconfundível, como repórter de rádio, entrevistando os participantes dos I Jogos Florais na Rádio Sociedade de Friburgo. Gostou tanto, que virou trovador também.

Quase meio século depois, super-jovem em seus 82 anos, o mestre Rodolpho Abbud continua brilhando não só como criador de primorosos versos, mas também como um dos mais importantes líderes nacionais da União Brasileira de Trovadores (UBT). A importância de Rodolpho Abbud vai muito além das fronteiras da cidade.

Premiado em centenas de concursos, Rodolpho é autor de milhares de trovas memoráveis. Entre outros títulos, ostenta o de Magnífico Trovador Honoris Causa, que lhe foi atribuído por ocasião dos 40ºs Jogos Florais de Nova Friburgo. Ele faz parte da geração de trovadores surgidos com o lançamento dos I Jogos Florais. Trata-se do trovador mais antigo da cidade e a prova está em sua carteira de trovador, que ostenta o número 1.

Rodolpho explica aos que não são versados nesta arte que trovas são pequenos poemas de quatro versos, de sete sílabas poéticas, isto é, com o som de sete sílabas – o primeiro rimando com o terceiro e o segundo com o quarto. Ele aprendeu rapidamente os segredos do estilo poético característico da trova recriado por J. G. de Araújo Jorge e Luiz Otávio.

Quando teve início o movimento trovadoresco em Nova Friburgo, Rodolpho trabalhava como comentarista de futebol na Rádio Sociedade de Friburgo e ainda não tinha descoberto que sabia fazer trovas. Mas desde pequeno gostava de fazer quadrinhas. Na infância as crianças aprendiam na cartilha algumas rimas básicas, que davam origem a quadras como uma que Rodolpho jamais esqueceu:

Joãozinho é cabeçudo
mas tem belo coração
é dedicado ao estudo
e sabe sempre a lição”.

Por alguma razão Rodolpho sempre se identificou com o estilo e, mesmo sem saber, já fazia trovas, que costumava chamar de quadrinha, assim no diminutivo mesmo. Naquela época, porém, bastava rimar o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto. Rodolpho acha até graça, porque já naquela época faturou cem mil réis num concurso da Rádio Nacional, com uma de suas primeiras trovas, em 1950.

“Foi numa festa junina
que eu vi a Rita sapeca
A cabocla era bonita
Parecia uma boneca”.

Levou um bom tempo para os trovadores, inclusive o próprio Rodolpho Abbud, incorporar a expressão trova – que vem do francês trouver, isto é, procurar, achar. Chamavam aqueles pequenos poemas de quatro sílabas de quadra, quadrinha ou trovinha, menos de trova. Um dia Luiz Otávio até chamou a atenção do J. G. de Araújo Jorge, quando este lhe contou que tinha feito uma trovinha: “Que trovinha o quê, José Guilherme, isso aí se chama trova, não é trovinha nem trovão, é trova”.  “Acho que eu sei fazer este negócio aí”
 

Rodolpho Abbud já criou mais de cinco mil trovas. Infelizmente, boa parte delas se perdeu e seu acervo conta apenas com as trovas premiadas nos concursos de que participa em todo o Brasil. A sorte é que o mais respeitado trovador da cidade e um dos maiores do país é um colecionador de prêmios, já perdeu a conta do número de troféus e diplomas que já conquistou.

Sua facilidade para criar trovas impressiona até seus colegas trovadores. Todas, diga-se de passagem, dignas de figurar em qualquer antologia. “Com qualquer assunto se faz uma trova”, explica, modesto, tentando explicar os segredos desta arte. Ele acredita em inspiração, tanto que carrega sempre papel e caneta no bolso para anotar as ideias que vão surgindo em sua cabeça.

Hoje em dia uma das atividades que mais gratificam o velho trovador é ensinar a fazer trovas. Ele e seus colegas trovadores já visitaram muitas escolas, transmitindo às crianças e jovens os conceitos básicos que permitem criar trovas capazes de fazer bonito em qualquer concurso. Já estiveram no Ienf, na Escola Canadá, no Ciep Glauber Rocha, na Universidade Candido Mendes. Até na Clínica Santa Lúcia eles já estiveram.

Junto com seus companheiros da UBT, Rodolpho mantém há 50 anos um programa radiofônico pela Rádio Friburgo AM focalizando o movimento trovadoresco de Nova Friburgo e de todo o Brasil. O programa, transmitido todo sábado, às 20h, é o mais antigo do Brasil e seu slogan diz assim:

“É poesia sempre nova
cultivada com amor.
Se você gosta de trova
pode ser um trovador”.

Solidão? Rodolpho diz que não sabe o que é. Junto com seus amigos trovadores, viaja o Brasil inteiro, sendo sempre recebido com festa e toda a hospitalidade pelos companheiros das outras cidades. As viagens são uma verdadeira festa, com todo mundo brincando e fazendo trovas dentro do ônibus.

Depois de trabalhar 42 anos na Fábrica de Filó, todo mundo pensava que ele fosse ficar deprimido quando se aposentasse. Que nada! Voltou a narrar partidas de futebol, depois mergulhou na trova.

Rodolpho é pai de Luiz Carlos, Suely e Rosane, de seu primeiro casamento. Casado pela segunda vez há 50 anos com a doce Cyrléa Neves, eles são pais do conhecido percussionista Rocyr e da não menos conhecida Rivana, do Bar América.

Friburguense da gema, passou a infância na Rua Oliveira Botelho, até o 5º ano primário estudou com dona Helena Coutinho, que tinha uma escola na Rua São João. Fez o ginasial no Colégio Modelo e depois foi aluno do professor Luiz Gonzaga Malheiros.

Do que sente mais saudades da Nova Friburgo de antigamente? Rodolpho Abbud não pensa um segundo antes de responder. “Da Fonte do Suspiro”, responde de imediato e, subitamente, se emociona, chegando a ficar com lágrimas nos olhos. Mas, como os homens de sua geração não choram, trata logo de mudar de assunto. “Ah, sinto muita saudade também do footing da praça, com os rapazes parados como se estivessem num corredor e as moças passeando de um lado para o outro”, conta.

Maluco por futebol, Rodolpho pertence ao quadro de beneméritos do Friburgo Futebol Clube e, no Rio, é tricolor de coração. Fez até uma trova para seu time:

“É paixão que longe vai
na força do coração:
– Tricolor era meu pai
filhos, netos também são”.

Rodolpho e Cyrléa: 50 anos de amor e dedicação à trova

Fonte:
UBT São Paulo (http://www.recantodasletras.com.br/biografias/3061472)

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Arquivado em Biografia, Rio de Janeiro

Alberto Bresciani (1961)

Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira (Rio de Janeiro, 4.7.1961) é ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Ministro é o cargo. O trabalho é ser juiz, aliás, um trabalhão que o põe diante de milhares de processos e que, somado a uma severa autocrítica, não lhe deixa brechas para pensar em algum dia poder publicar poesias. E poesia para ele é uma das vias de salvação. 
No entanto, Bresciani viveu mais de vinte anos anos sem a revelar, até ir para o TST e lá encontrar um grupo de juízas e juízes que a cultuavam. Juntos, passaram a pesquisar os poetas clássicos e os contemporâneos, chegaram à poesia portuguesa e fizeram amizade com nomes de expressão e talento, de lá e de cá – ele conta. Pois, quem vê cargo nem sempre vislumbra o ser humano, ou o poeta, sensível que se que se esconde sob a toga, afogado na responsabilidade que o trabalho austero lhe exige.

Embora escreva e se sinta envolvido com a poesia há bastante tempo, Bresciani publicou seu livro de estreia, Incompleto Movimento, somente em 2011, quando completou 50 anos. Autor de poemas curtos e frases parcimoniosas, o poeta parece perseguir a essência do que pretende exprimir.

O que se encontra em Incompleto Movimento é uma poesia de perquirição do avesso das coisas. “Só o que destila / por trás do que me é oculto / se esconde à vista // É grampo no avesso / ― até a secreção” (Reinvenção). Para essa tarefa de levantar véus e tentar expor à luz o lado obscuro de nossos passos e vivências, o poeta se arma com a curiosidade e a obstinação de um microbiologista.

Essa observação minuciosa está em cada um dos poemas. Até mesmo num poema levemente erótico, percebe-se o silêncio e, num crescendo, “o pressentimento / o pacto e o voo” (Harmonização). É sempre a sutileza, o cisco, o grão de pó, a nota breve e leve, quase inaudível para ouvidos menos atentos e afinados.

Essa característica domina a maioria dos poemas enfeixados no livro de Bresciani. As indagações existenciais percorrem a mesma pauta, sempre em tom menor: “Somos ficção / Simulamos o invisível / e a imagem / no reflexo / do espelho”.

A poesia de Alberto Bresciani não é de leitura fácil nem de comunicação imediata. Exige certa disposição do leitor para debruçar-se sobre o texto. Os apressados, os que procuram extrair efeitos explosivos e imediatos, talvez se cansem antes de alcançar o nível das sutilezas.

Fontes:
Carlos Machado in poesia.net. http://www.algumapoesia.com.br
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/distrito_federal/alberto_bresciani.html

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Arquivado em Biografia, Rio de Janeiro

Eliana Ruiz Jimenez (1960)

Eliana Ruiz Jimenez, nasceu em São Paulo, Capital. 

Com formação em Letras e em Direito, exerce a advocacia em Balneário Camboriú/SC.

Ligada a entidades de proteção ao meio ambiente, faz parte da Comissão de Meio Ambiente e Urbanismo da OAB.

Suas incursões literárias vão das crônicas a poesias livres, trovas e literatura infanto-juvenil.

É autora do livro “A tropa do ambiente em a internet do futuro”.

Tem vários trabalhos disponibilizados nos seguintes blogs:

poesiaemtrovas.blogspot.com (Trova-legenda)
elianaruizjimenez.blogspot.com (crônicas)
poesiasurbanasetrovas.blogspot.com (poesias livres e haicais)

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Arquivado em Biografia, Santa Catarina

Héron Patricio (1931)

Héron Patrício, nasceu em Ouro Fino , Minas Gerais, a 17 de junho de 1931, quando foi dado de presente ao mundo pelo Sr Salvador Santos Patrício e Dona Genoveva Cadan Patrício .
 
Era uma criança muito saudável, porém magrinha. Um amigo vaticinou: vai crescer forte, inteligente, e até se tornará gordinho e Poeta… (“Mas que trem de mineiro advinhão, sô!”).
 
O comboio ía correndo entre Ouro Fino e Pouso Alegre… Estávamos na década de 30. A locomotiva espalhafatosa bufava, chiava, apitava nas curvas. E aquele garoto, deslumbrado com a viagem, e com o rosto colado à vidraça do vagão, não compreendía porque naquela terra os postes de energia elétrica, as bananeiras e todas as árvores que margeavam a linha férrea “corriam” em sentido contrário ao do trem…Mas ele “via” que corriam! E para trás foi ficando o seu doce chão onde veio ao mundo, seu mundo de brincadeiras e de folguedos inocentes…
 
A máquina chiou, bufou, deu um vasto suspiro de alívio, frenou e “solavanqueou” os passageiros. O clã do nosso amigo estava chegando na cidade que escolheria para nova residência. E Pouso Alegre foi mesmo um “pouso alegre” para todos.
 
Foi logo providenciada escola para o menino, que viria a tornar-se um ótimo aluno. Foi nessa linda cidade que Héron começou a participar do movimento poético.
 
Em 1964 mudou-se para São Paulo, mas sempre dividiu, emocionalmente, sua residência entre a capital paulista e a cidade de Pouso Alegre.
 
É casado com a Trovadora Yêdda Ramos Maia Patrício. Nasceu-lhes a filha Patrícia, que lhes deu os netos Raphael e Daniel. Patrícia é casada com Flávio dos Santos Szelbracikowski.
 
Funcionário público federal aposentado (Auditor) é Contabilista, Professor e Advogado, exercendo, atualmente, a “nobre” profissão de Poeta/Trovador.
 
Além de ter seus trabalhos publicados em Jornais e Revistas de todo País, participou de “Meus Irmãos, os Trovadores” (Luiz Otávio), “Cigarras em Desfile” (trovas), “Garimpeiros de Sonhos” (Arcádia de Pouso Alegre), “Em Prosa e Verso” (Academia Pousoalegrense de Letras), “I Antologia de Trovas” (Livro Arte-SP), etc…
 
Desde 1994 é integrante da União Brasileira de Trovadores, Seção de São Paulo, onde ocupava uma vice-presidência.
 
Ocupa a cadeira número 17  da Academia Pousoalegrense de Letras.
 
Em francês “Héron” quer dizer “garça real”, mas gostaríamos que quisesse dizer uirapuru, uai, pois quando ele “trova” nós, trovadores menores, emudecemos.
 
(Lavinio Gomes de Almeida). Biografia publicada no livro do 9º Concurso Nacional de Trovas de Barra do Piraí – 1998

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Arquivado em Biografia, Minas Gerais

Alexandre O’Neill (1924 – 1986)

Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill de Bulhões GOSE (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 – Lisboa, 21 de Agosto de 1986) foi um importante poeta do movimento surrealista português. Era descendente de irlandeses.

Em 1943, com dezessete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Apesar de ter recebido prêmios literários no Colégio Valsassina, esta actividade não foi grandemente incentivada pela família.1

Datam do ano de 1947 duas cartas de Alexandre O’Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O’Neill, Mário Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos.

Por volta de 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José-Augusto França, António Domingues, Fernando Azevedo, Moniz Pereira, António Pedro e Vespeira. As primeiras reuniões ocorreram na Pastelaria Mexicana. As posições antineorealistas eram frontais e provocatórias, tal como as atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo retira a sua colaboração da III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a comissão organizadora decidira impor. Com a saída de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom).

Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro), onde expuseram Alexandre O’Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião, Alexandre O’Neill publicou A Ampola Miraculosa como um dos primeiros números dos Cadernos Surrealistas. A obra, constituída por 15 imagens e respectivas legendas, sem nenhum nexo lógico entre a imagem e legenda, poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.

Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos surrealistas (1950-52) e a extinção de ambos os grupos, o surrealismo continuou a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O’Neill. Em 1951, no “Pequeno Aviso do Autor ao Leitor”, inserido em Tempo de Fantasmas, ele demarcou-se como surrealista. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência deste corrente manifesta-se em poemas como “Diálogos Falhados”, “Inventário” ou “A Central das Frases” e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura.

Neste primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, “Um Adeus Português”, originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar, muitos anos mais tarde: no início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani, enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência. Conheceu O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris, O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria a ver Nora Mitrani.

Não foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE. No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece-se-lhe uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de grupos ou tertúlias, demasiado irônico e cioso do seu individualismo para se envolver seriamente em qualquer militância partidária.

Em 1958, com a edição de No Reino da Dinamarca, Alexandre O’Neill viu-se reconhecido como poeta. Na década de 1960, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções.

A poesia de Alexandre O’Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no caráter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas — com a influência da tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo).

Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neorealismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.

Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo (veja-se “O Poema Pouco Original do Medo”, com a sua figuração simbólica do rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um certo desespero perante o marasmo do país — “meu remorso, meu remorso de todos nós”. Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.

Alexandre O’Neill, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua escrita ou de trabalhos relacionados com livros. Em 1946, tornou-se escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Permaneceu neste emprego até 1952. A partir de 1957, começou a escrever para os jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando colunas regulares no Diário de Lisboa, n’ A Capital e, nos anos 1980, no Jornal de Letras, escrevendo indiferentemente prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas do século XIX.

Em 1959 iniciou-se como redator de publicidade, atividade que se tornaria definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slogans publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: “Há mar e mar, há ir e voltar”. Tinha entretanto abandonado definitivamente a casa dos pais, casando com Noémia Delgado, de quem teve um filho, Alexandre. Nesta época, instalou-se no Príncipe Real, bairro lisboeta onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma relação amorosa durante a década de 1960. Mais tarde, em 1971, casará com Teresa Gouveia, mãe do seu segundo filho, Afonso, nascido em 1976.4

Fez ainda parte da redação da revista Almanaque (1959-61), publicação arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.

A sua atração por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é testemunhada pela letra do fado “Gaivota” destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 1970, em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudônimo de A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro. Em 1982 recebeu o prêmio da Associação de Críticos Literários.

Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que, apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 1980, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital. Morreu em Lisboa a 21 de Agosto desse ano. A 10 de Junho de 1990 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada a título póstumo.

Obras

Poesia

    1948 – A Ampola Miraculosa, Lisboa, Cadernos Surrealistas.
    1951 – Tempo de Fantasmas, Cadernos de Poesia, nº11.
    1958 – No Reino da Dinamarca, Lisboa, Guimarães.
    1960 – Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães.
    1962 – Poemas com Endereço, Lisboa, Moraes.
    1965 – Feira Cabisbaixa, Lisboa, Ulisseia.
    1969 – De Ombro na Ombreira, Lisboa, Dom Quixote.
    1972 – Entre a Cortina e a Vidraça, Lisboa, Estúdios Cor.
    1979 – A Saca de Orelhas, Lisboa, Sá da Costa.
    1981 – As Horas Já de Números Vestidas (Em Poesias Completas (1951-1981))
    1983 – Dezanove Poemas (Em Poesias Completas (1951-1983))

Antologias feitas na vida

    1967 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
    1974 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1969), 3.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
    1981 – Poesias Completas (1951-1981), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.
    1983 – Poesias Completas (1951-1983), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984.
    1986 – O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Potuguês & Vários Outros Poemas, Lisboa, Moraes.

Antologias póstumas

    2000 – Poesias Completas, com inclusão de dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.
    2005 – anos 1970. Poemas Dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.

Prosa

    1970 – As Andorinhas não Têm Restaurante, Lisboa, Dom Quixote.
    1980 – Uma Coisa em Forma de Assim, 2ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Presença.

Antologias feitas por O’Neill

1959 – Gomes Leal – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
    1962 – Teixeira de Pascoaes – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
    1962 – Carl Sandburg – Antologia Poética, Lisboa, Edições Tempo.
    1963 – João Cabral de Melo Neto – Poemas Escolhidos, Lisboa, Portugália.
    1969 – Vinicius de Moraes – O Poeta Apresenta o Poeta, Lisboa, D. Quixote.
    1977 – Poesía Portuguesa Contemporánea / Poesia Portuguesa Contemporânea (em colaboração com a Secção de Literatura da Direcção Geral de Acção Cultural), edição bilingue, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura.

Discos de poesia

Alexandre O’Neill diz poemas da sua autoria – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1010.
    Os Bichos também são gente – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1278.

Filmografia

    1962 – Dom Roberto
    1963 – Pássaros de Asas Cortadas
    1967 – Sete Balas Para Selma
    1969 – Águas Vivas
    1970 – A Grande Roda
    1975 – Schweik na Segunda Guerra Mundial (TV)
    1976 – Cantigamente (3 episódios da série)
    1978 – Nós por cá Todos Bem
    1979 – Ninguém (TV)
    1979 – Lisboa (TV)

Ator (Narrador)

    1933 – Las Hurdes, tierra sin pan
    1969 – Águas Vivas
    1971 – Sever do Vouga. Uma Experiência
    1976 – Máscaras

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_O%27Neill

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Orlando Woczikosky

Entrevista realizada pela Revista “Falando de Trovas e de Trovadores” , do Portal CEN,  pelo trovador delegado de Pinhalão/PR,  Lairton Trovão de Andrade.

 O grande poeta e trovador Orlando Woczikosky, Príncipe dos Trovadores do Paraná, o único remanescente vivo dos fundadores da UBT-Paraná (União Brasileira de Trovadores do Paraná), e por sua vasta obra trovadoresca, faz-lhe homenagem com o título singular de “O Mais Ilustre Membro da UBT-Paraná da Atualidade”.

Lairton: Qual o seu nome completo? Onde e quando nasceu? Reside em que cidade?

Orlando: Meu nome completo é Orlando Woczikosky. Nasci no bairro Xaxim, em Curitiba, a 08 de maio de 1927, onde resido.

Lairton: Voltando aos tempos da adolescência, como era a sua cidade natal?

Orlando: Curitiba era pequena, com 110 mil habitantes.

 Lairton: Qual a sua formação profissional?

Orlando: Ginásio Industrial e Técnico Industrial, pela Escola Técnica de Curitiba; Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná; C.P.O.R. de Curitiba; etc..

Lairton: O Senhor foi, com certeza, um professor bem sucedido, hoje merecidamente aposentado. Em que estabelecimentos de ensino lecionou e que boas lembranças tem das suas atividades docentes?

Orlando: Minha principal atividade foi lecionar Desenho no Senai de Curitiba, por mais de 30 anos. Na Escola Técnica de Comércio de Plácido e Silva, lecionei Desenho e Caligrafia. No Colégio Parthenon, lecionei Desenho e Educação Artística. No Ministério do trabalho, lecionei Leitura e Interpretação de Desenho no Curso de Segurança do Trabalho.

Lairton: Sabemos que é poeta e trovador de méritos inquestionáveis. Como foi seu início na arte de fazer trovas?

Orlando: Minha mãe ao se casar ficou morando com meus avós maternos, onde nasci. Minha avó, Carolina Krumann, gostava muito de quadras populares, declamando-as e me ensinando a declamá-las, nos meus primeiros anos, antes de nos mudar da casa dela.

Quando tive os primeiros contactos com a poesia, principalmente as de versos setissilábicos, notei a grande facilidade em compor meus primeiros versos, mesmo desconhecendo as regras da metrificação.

Em 06 de junho de 1948, escalando o Pico do Marumbi, na Serra do Mar, diante de tal beleza, escrevi a minha primeira poesia de algum valor: Marumbi. Dias depois, mostrando essa poesia ao meu professor de Português, Rosário Farani Mansur Guérios, quando ele me perguntou se eu havia estudado metrificação, respondi-lhe que nunca ouvi falar em metrificação. Ele, veementemente, me disse: “Ou você é mentiroso, ou nasceu Poeta!” Mandou-me procurar o livro Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, por meio do qual aprendi outros metros da poesia acadêmica.

Diante do que me disse o saudoso Professor Mansur Guérios, eu deduzi que não era mentiroso nem nasci poeta, escrevi pela cadência dos versos que aprendi com as quadrinhas ensinadas pela minha avó e que ficaram no meu subconsciente.

Após me casar, deixei de escrever por catorze anos.

Numa festa de fim de ano, meu colega de escola e de caçadas na Serra do Mar, o Professor Oswaldo Ormianin, a quem eu havia declamado muitas das minhas poesias do passado, solicitado a falar, declinou do convite, indicando-me para, em vez de discurso, declamar o “Marumbi”.

Para não decepcioná-lo, o fiz, para espanto de todos que não me sabiam poeta. O Diretor Regional do Senai do Paraná, Dr. Antonio Theolindo Trevizan, incumbiu o Professor Aluízio Plombon, Diretor da Escola de Curitiba, a me solicitar todas as minhas poesias para publicar um livro pelo Senai.

Como eu não escrevia há muito tempo, mas sabia muitas, ainda de cor, fui obrigado a escrever novas poesias, que foram enfeixadas no meu primeiro livro, “Crepúsculo da Minha Aurora”.

Nessa época, apresentado ao Escritor Vasco José Taborda Ribas, pelo seu primo, Dr. Apollo Taborda França, que fora meu colega na Escola Técnica e no C.P.O.R. de Curitiba, o Vasco me convidou para sócio do Grêmio Brasileiro de Trovadores, quando tive os primeiros contactos com a arte de trovar.

Lairton: Suas inspirações poéticas o levaram a escrever mais poesias ou trovas?

Orlando: No ínicio, escrevia só poesias, atualmente, com os movimentos trovadorescos surgidos no Brasil, tenho me dedicado mais às trovas.

Lairton: Muitos trovadores têm preferência sobre determinados temas. Alguns falam mais do amor; outros, do sofrimento; outros preferem motivos religiosos… E o Senhor? Qual foi o tema que mais o levou a trovar?

Orlando: Eu sempre fui saudosista, mas aconteceu um fato curioso na minha vida: Minha filha, com nove anos, na época, ouviu na Rádio Clube Paranaense, a instituição de um concurso de trovas de saudade e me pediu que participasse. Escrevi e enviei algumas trovas, despretensiosamente. Minha filha ouviu, no programa seguinte, que eu havia sido contemplado com vários gêneros alimentícios, oferecidos pelo patrocinador do programa. Quis recusar em receber tais prêmios, mas minha filha argumentou que seria indelicado não recebê-los, então eu fui. Ao receber os prêmios, o Dr. Ubiratã Lustosa, apresentador do programa de saudade e Diretor Superintendente da PRB2, Rádio Clube Paranaense, perguntou-me o nome do livro que eu havia copiado tais trovas, dizendo que conhecia a maior parte das melhores trovas de saudade do Brasil e de Portugal e nunca teria ouvido nenhuma das enviadas por mim. Ao lhe afirmar que eu mesmo as escrevi, ele me pediu que continuasse a colaborar, enviando trovas de saudade, ao que concordei em enviá-las, com a condição de não mais como concorrente, mas como mero colaborador. Tempo depois, o Dr. Ubiratã me chamou, perguntando-me quantas trovas eu já havia enviado ao seu programa. Disse-lhe que mais de duzentas. Sugeriu-me que as publicasse em livros de 100 (cem) trovas, como estavam fazendo no Rio de Janeiro, por muitos trovadores. Então, publiquei uma série de livros de trovas alternando-os em saudade e não saudade. Eis aí o porquê de escrever tantas trovas de saudade e continuar a escrevê-las ainda, embora há vinte e cinco anos não tenha mais publicado livros. O Dr. Ubiratã Lustosa, já aposentado, continua, ainda, apresentando o programa “Revivendo”, na Rádio Educativa AM 630, todos os domingos, das sete às oito horas da manhã, quando declama três trovas minhas, de saudade.

Lairton: Pelo visto, o gosto pela trova é universal. Em sua opinião, o que faz com que a trova seja tão fascinante?

Orlando: Na minha opinião, o que faz com que a trova seja tão fascinante é a sua versatilidade. A trova, pelo seu poder de sintetizar, presta-se, como nenhuma outra forma poética, para exaltar qualquer acontecimento, tais como aniversário, nascimento, formatura, pessoas, falecimento etc.. Um dos melhores exemplos do que afirmo é a “Missa em Trovas”, do grande trovador Antonio Augusto de Assis, nascido em São Fidélis, no Estado do Rio de Janeiro, residente na cidade de Maringá, no Estado do Paraná, onde, com sua brilhante inteligência, enaltece aquela cidade.

Lairton: A UBT – Paraná foi fundada numa época de grande efervescência trovadoresca, e o Senhor é um dos seus fundadores. Cite-nos os outros trovadores que participaram da fundação da UBT- Paraná.

Orlando: A União Brasileira de Trovadores, no Estado do Paraná, foi fundada a 10 de setembro de 1966, com a presença da Embaixatriz da Trova, Magdalena Léia, do Rio de Janeiro. Fomos seus fundadores: Vasco José Taborda Ribas, Vera Vargas, Orlando Woczikosky, Ermírio Barreto Coutinho da Silveira, José Augusto Gumy e Oswaldo Portugal Lobato, dos quais, somente eu ainda vivo.

Lairton: O grande valor de uma instituição encontra-se nas suas finalidades. Quando da sua fundação, quais os objetivos da UBT – Paraná?

Orlando: Um dos principais objetivos da fundação da nossa UBT é cultuar e divulgar a trova, bem como promover e formar novos trovadores, o que se comprova pelo grande número de novos trovadores nas escolas e nas cidades do Paraná.

Lairton: Pelos memoráveis anos de duração da UBT- Paraná, sem dúvida, a Entidade obteve sucessos. Que sucessos foram esses?

Orlando: Um dos maiores sucessos, como disse na resposta anterior, foi o grande número de novos trovadores, de novas seções e novas delegacias. Outros grandes sucessos foram os vários concursos, os jogos florais, em várias cidades, como por exemplo, os Jogos Florais de Curitiba, que neste ano realizou a XIV festa dos seus Jogos Florais.

Lairton: O seu primeiro livro editado de poesia tem o título de “Crepúsculo da Minha Aurora”. Onde encontrou inspiração para este título de excelente sugestão poética?

Orlando: Foi numa tarde, quando vi um maravilhoso pôr-do-sol, aliei esse quadro ao alvorecer e formei essa antítese para nominar o meu primeiro livro.

Lairton: O seu repertório trovadoresco é extenso e consistente. Quantos livros de trovas editou? Pretende editar outros?

Orlando: Dez livros de trovas somente minhas e duas Antologias de Trovadores do Paraná. Uma com 10 trovadores e 100 (cem) trovas e outra, com 25 trovadores com 250 (duzentas e cinqüenta) trovas, ambas em colaboração com o meu grande amigo, o Professor Vasco José Taborda. Todos os meus livros foram editados nas oficinas de Artes Gráficas do Senai, quando eu só pagava as custas do material. Publicar novos livros, já não tenho o mesmo entusiasmo nem condições financeiras para novas publicações.

Lairton: Como se pode concluir, brilhante foi sua participação no mundo da Literatura. Seus poemas e trovas foram lidos por centenas e centenas de pessoas. Fazendo uma retrospectiva, valeu a pena ter sido poeta e, principalmente, trovador?

Orlando: Valeu plenamente, porque ser poeta e trovador, principalmente no fim da vida, é muito mais
gratificantes do que possuir qualquer outro título.

Lairton: Fale-nos a respeito da sua grande descoberta sobre “quem nasceu primeiro: O ovo ou a galinha”?

Orlando: O Vasco Taborda me fez aquela pergunta clássica: “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?” Respondi-lhe de imediato: “Nenhum dos dois! Foi o galo!”

Eu deduzi que não descende o maior do menor e, como analogia, se Deus fez por primeiro o homem, certamente, fez por primeiro o galo.

Alguns dias depois, entreguei ao Vasco minha PROVA CONVINCENTE.

Gente sábia ou adivinha,
me responda bem ligeiro:
Quem foi que nasceu primeiro,
foi o ovo ou foi a galinha?

– Deixa comigo que eu falo:
Pela experiência minha,
não foi ovo nem galinha,
Deus fez por primeiro o galo.

Ao ver o galo sem tanga
botando no mundo a goela,
tirou dele uma costela
fazendo dela uma franga.

Depois de uma conversinha
e de uma boa “cantada”
que o galo deu na coitada,
a franga virou galinha.

Assim o casal distinto
caiu na boca do povo:
nascendo o primeiro ovo
e, do ovo, o primeiro pinto.

Esclareci num repente,
essa polêmica antiga.
Quem não gostou que me diga
se há prova mais convincente!

Lairton: Para finalizar, agradecemos ao Prof. Orlando a honra que nos proporcionou. Esta entrevista será divulgada, através do Portal CEN (Cá Estamos nós), para mais de 23.000 endereços eletrônicos de países do mundo que falam a Língua Portuguesa. O Portal CEN, cujo presidente é o grande escritor português Carlos Leite Ribeiro, representa eficiente ponte literária e cultural entre o Brasil e Portugal, prestando indescritível benefício à nossa Literatura. Diante disso, poderia dizer algumas palavras de apreço ao nosso querido PORTAL CEN?

Orlando:

Não tenho computador,
mas pelo valor que tem,
minha nota ao Portal CEN
é nota cem: Com louvor!

 

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Arquivado em Biografia, Paraná

Falecimento do Professor da UEM e Poeta, Marciano Lopes e Silva

O professor e poeta Marciano Lopes e Silva, do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, faleceu no início da noite desta quinta-feira (17/10/2013), no Hospital Metropolitano, em Sarandi.

Na semana passada ele contraiu uma broncopneumonia, foi para a UTI e por volta das 19h não resistiu. 


Seu corpo está sendo velado no Velório Prever, do Cemitério Municipal de Maringá, sendo encaminhado ao Cemitério Parque Maringá, onde será cremado amanhã, sábado, ás 11hs.
—————–
Marciano era conhecido por projetos e eventos culturais como “No meio do caminho” e “Sarau Outras Palavras” e estava na organização de um evento nacional na UEM, a V Jornada Inteartes Outras Palavras em conjunto ao Congresso Nacional de Educação Ambiental Literatura e Ecocrítica.

Marciano , que tinha um blog (http://marcianolopes.blogspot.com), era doutor e atuava na área de Teoria da Literatura e Literatura de Língua Portuguesa.

Marciano Lopes e Silva nasceu em Porto Alegre/RS.


Graduado em Oceanografia e Letras pela Fundação Universidade de Rio Grande (FURG, 1986, 1990), foi mestre e doutor em Letras (UFRGS/1994, Unesp/2005).

Foi professor da Universidade Estadual de Londrina (1995 a 1997) e, desde 1997, lecionava na Universidade Estadual de Maringá.

Suas linhas de pesquisa eram: Estudos sobre Relações Raciais; História e Cultura Afro-brasileiras; Literatura: teorias críticas e história

Como poeta, publicou dois livros, sendo que o segundo, intitulado “A contrapelo”, foi premiado pela Lei de Incentivo à Cultura em Maringá e é acompanhado por um CD que reúne dez compositores que residiam na cidade.
 

Em parceria com Fábio Freitas (Sansão), foi um dos fundadores do Movimento Artístico-Cultural “No Meio do Caminho” e um dos editores da extinta revista eletrônica “No Meio do Caminho” juntamente com Caetano Medeiros e Fábio Freitas.

O Projeto Outras Palavras (POP) surgiu como um projeto de extensão do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) idealizado e coordenado pelo professor Dr. Marciano Lopes e Silva desde abril de 2006. Atualmente, com a divisão do departamento ocorrida no primeiro semestre de 2013,  passou a ser lotado no Departamento de Teorias Literárias e Linguísticas. Para funcionar, tem a colaboração da Rádio UEM-FM 106,9.

Objetivos:
a) incentivar e divulgar a produção artística brasileira, especialmente de Maringá e região;
b)  proporcionar à comunidade um contato prazeroso, crítico e criativo com a arte,
c) produzir material pedagógico para o ensino de letras e artes;
d) proporcionar aos estudantes que dele participam adquirir experiência de pesquisa, locução radiofônica e organização de eventos.
Em sua organização, o  POP apresenta  as seguintes formas de interação com a comunidade:
1) Programa  Outras Palavras – programa radiofônico apresentado diariamente na Rádio UEM-FM 106,9, sem horário fixo;
2) Sarau Outras Palavras – evento anual que reúne música, poesia e performances dramáticas;
3) Dois sítios no Orkut:  Marciano Lopes – Projeto Outras Palavras e Marciano Lopes – Projeto Outras Palavras – 2 (inativos, porém disponíveis para visitação) ;
4) Revista Outras Palavras – um blog que é utilizado como revista de arte e educação;
5) Jornada Interartes Outras Palavras (JIOP) – evento de extensão realizado na UEM, com periodicidade anual;
6) Revista JIOP  – revista anual de literatura, arte e educação em mídia digital – lançada durante a 2ª JIOP, dia 7 de outubro de 2010

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Arquivado em Biografia, Nota de Falecimento

Francisco Miguel de Moura (1933)

Chico Miguel nasceu na cidade de Francisco Santos-PI (outrora povoado “Jenipapeiro”, município de Picos), aos 16/06/1933. Estudos primários com seu pai; ginasial e contabilidade, em Picos, onde casou e residiu alguns anos. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, onde residiu cerca de 3 anos. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Mestre-escola como seu pai, funcionário público municipal (escrivão de Polícia), radialista, professor de língua e literatura, cujas atividades não mais exerce. Dedica-se exclusivamente a ler, escrever, fazer palestras e brincar com os netos. Já ganhou prêmios em todos os gêneros que pratica, até em trovas no Ano do Sesquicentenário.

Colabora nos diversos jornais de seu Estado, entre os quais “O Dia”, “Diário do Povo” e “Meio Norte”; nas revistas “Literatura”, de Brasília (hoje editada em Fortaleza), “Poesia para todos”, do Rio; “LB – revista da literatura brasileira”, São Paulo; “Almanaque da Parnaíba”, “Cirandinha”, “De Repente”, “Revista da Academia Piauiense de Letras”, “Cadernos de Teresina” e “Presença”, de Teresina. É também colaborador permanente dos jornais “Correio do Sul”, Varginha, MG; “Diário dos Açores”, das Ilhas dos Açores e “O Primeiro de Janeiro” (Suplemento Cultural “das Artes das Letras”), de Porto, Portugal. Ultimamente, vem sendo editado pelas revistas “Lea” e “Clarín”, editadas na Espanha; “Pomezia-Notizie”, Itália; e “Jalons”, na França.

É sócio efetivo da União Brasileira dos Escritores e da Academia Piauiense de Letras, e membro-correspondente da Academia Mineira de Letras e da Academia Catarinense de Letras.

Por força de sua atividade como funcionário do Banco do Brasil, além de na cidade de Picos, morou na Bahia (Capital e interior) e no Rio, e por último em Teresina, onde concebeu e publicou a maioria de suas obras.

A obra de Francisco Miguel de Moura recebeu enorme manifestação da crítica, vinda de escritores de todo o país, inclusive críticos literários como João Felício dos Santos, Fábio Lucas, Nelly Novaes Coelho, Rejane Machado, Olga Savary, cujo material quase todo foi reunido em dois volumes já publicados: “Um Canto de Amor à Terra e ao Homem” (Editora da Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2007) e “Fortuna Crítica de Francisco Miguel de Moura” (Edições Cirandinha, Teresina-PI, 2008).

Chico Miguel ama as artes, a poesia (literatura) especialmente – pelo trabalho que realiza com a palavra; ama o ser humano (o “eu” e o “outro”) e a natureza, quase como se fosse uma religião sem dogmas. Enquanto as religiões e a ciência são, de certa forma, indiscutíveis, incontestáveis, despóticas, portanto, a arte é humilde e trabalha em torno da humanização do homem, que ainda está bem longe. Talvez essas sejam as razões do seu agnosticismo.

POESIA:

“Areias”, editora Correio de Timon Ltda. Timon – MA, 1966. “Pedra em Sobressalto”, Pongetti, Rio, 1972;
“Universo das Águas”, Grupo Cirandinha,Teresina, 1979;
“Bar Carnaúba”, Universidade Federal do Piauí,Teresina, 1983;
“Quinteto em mi(m)”, Editora do Escritor, Rio, 1986;
“Sonetos da Paixão”, Ed. Ciradinha,Teresina, 1988;
“Poemas Ou/tonais”, Ed. e Gráfica Júnior Ltda.,Teresina, 1991; “Poemas Traduzidos”,Gráfica e Ed. Júnior Ltda., Teresina, 1993; “Poesia in Completa”, Ed. Fundação “Mons. Chaves”,Teresina, 1998 (comemorando os 30 anos de poesia);
“Vir@gens”, Editora Galo Branco, Rio, 2001:
“Sonetos Escolhidos”, Editora Galo Branco, Rio Rio, 2003;
“Porta Folio: 40 Sonetos”, Editora Guararapes, Recife-PE, 2003;
“Antologia”, Edições Cirandinha, Teresina, 2006;
“Tempo contra Tempo”, Edições Cirandinha, Teresina, 2007 (este em co-autoria com Hardi Filho);
“A®fogo – Romance da Revolução”, Paco Editorial, São Paulo, 2010;
“Cinquenta Sonetos” – Editora Guararapes – EGM, Recife – PE
Inéditos:
“Itinerário de Passar a Tarde”, “O Coração do Instante”, “A Casa do Poeta”, “Lindes do Caminho”, “As Cores a Cor”, “A Sombra do Silêncio, “A Jóia Rara” , “50 Poemas Escolhidos pelo Autor”, “Testemunho” e “Novos Poemas”.

ROMANCES:

“Os Estigmas” Ed. do Escritor, SP, (1984), reeditado em 2004, Ed. Cirandinha);
“Laços de Poder”, Projeto Petrônio Portela, Teresina (1991); premiado, 1º lugar (prêmio Fontes Ibiapina, da Fundação Cultural do Piauí;
“Ternura”, Ed Univ. Federal do Piauí, 1993 – reeditado em 2011-Ed. Livro Pronto – SP),
“D. Xicote”, Ed. do Governo do Estado do Piauí, 2005, em conj.com outros. Com este ganhou 2º lugar do prêmio Fontes Ibiapina em 2003;

Inédito:
“O Crime Perfeito”- terminado de escrever em julho de 1991, na praia da Atalaia,Luís Correia – PI.

CONTOS:

“Eu e meu Amigo Charles Brown”, Fundação Petrônio Portela, 1986,
“Por que Petrônio não Ganhou o Céu”, Companhia Editora do Piauí, 1999;
“Rebelião das Almas”, Academia Piauiense de Letras/Banco do Nordeste, Teresina, 2001.

CRÔNICAS:

“Eu e meu Amigo Charles Brown”, Projeto Petrônio Portela, Gráfica e Editora Júnior, Teresina, 1996;
“A Graça de cada Dia”, Edições do Autor/SIEC, Teresina, 2009;
“O Menino quase Perdido” – que não se enquadra bem na categoria de crônicas, assim chamei-o de “memorial” – Projeto A. Tito Filho/Fundação Culural Mons. Chaves, Teresina, 2009.

CRÍTICA LITERÁRIA:

“Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, 1972/1997, 1ª e 2ª edições, respectivamente, a primeira pela Editora Artenova, Rio; a segunda pela Universidade Federal do Piauí;
“A Poesia Social de Castro Alves”, Editora do Escritor, São Paulo, 1979;
“Um Depoimento Pós-Moderno” , Ed. Cirandinha, Teresina, PI, 1989; (este depoimento teve ma 2ª ed. em Goiânia – GO);
“Assis Brasil” (em conjunto com Edmilson Caminha), Projeto Petrônio Portela, Teresina, PI, 1989;
“Castro Aves e a Poesia Dramática”, Academia Piauiense de Letras, Teresina, 1998;
“Moura Lima: Do Romance ao Conto”, Ed. da Universidade de Tocantis, Araguaina-TO, 2002.

NOTA: – Além disto, devem ser considerados na mesma área:
“Piauí: Terra, História e Literatura” (cr[itica e antologia), Ed.do Escritor, São Paulo, 1980;
“Literatura do Piauí”, Academia Piauiense de Letras, Teresina, 2001;
“Miguel Guarani, Mestre e Violeiro”(biografia), Edições Cirandinha/FUNCOR, Teresina, 2005.
________________
site: http://www.usinadeletras.com.br
blogs: http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
http:// cirandinhapiaui.blogspot.com
http://abodegadocamelo.blogspot.com


Fonte:
O Autor

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Ligia Tomarchio (1955)

Ligia Scholze Borges Tomarchio nasceu em Maringá, Paraná, em 24/11/1955, mas sempre viveu em São Paulo.

Começou a escrever na adolescência como muitos e foi colecionando seus textos. Não fez curso algum relacionado à literatura, tudo que sabe, aprendeu lendo e praticando.

Lígia se considera, com toda razão, uma autodidata.

Participou de algumas Oficinas Literárias em 1989/90, na “Casa Mário de Andrade”, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Todas coordenadas por escritores e poetas de renome. Foi amadurecendo literáriamente.

Fez parte da UBTSP – União Brasileira de Trovadores de São Paulo, ativamente, por um período de um ano.

Sua formação é de nível superior, é formada na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, em Licenciatura em Educação Artística para 1º Grau e nunca lecionou.

Ela gosta mesmo é de escrever e com seu ingresso na Internet conseguiu se realizar como poeta. Publicou poesias em vários sites de amigos, recebeu muitos prêmios de outros sites e publicou alguns livros virtuais e impressos.

Tem um livro impresso, publicado em 2004, intitulado “Retendo Imagens”, lançado na Bienal do Livro de São Paulo.

Participou de várias antologias poéticas, uma publicada em Portugal, sem contar na publicação dos seus textos em vários e-books e sites de amigos.

Fonte:
http://www.ligia.poeta.ws/
http://artculturalbrasilreinodapoesia.blogspot.com.br/2009/03/ligia-tomarchio.html

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Arquivado em Biografia, Paraná

Virgínia Crisóstomo

Virgínia Barbosa Leal Crisóstomo é recifense de nascimento e olindense de coração.

Filha de escritor e de historiadora e mãe de um casal de filhos, por trinta anos foi advogada da Caixa Econômica Federal em Pernambuco.

Iniciou seu percurso literário em 2003, com o livro “O Caleidoscópio da Vida”.

Em 2005 editou “Para quem não tem colírio – Desnudando o comportamento compulsivo”, e “Fênix”.

Participou de algumas antologias, entre elas “Pimenta Rosa” e “O Fim da Velhice – A superação bem humorada de um conceito”, “Pimenta Rosa”, “Antologia das Águas” e “Vozes – A Crônica Feminina Contemporânea em Pernambuco.

É sócia da União Brasileira de Escritores e integrante do Grupo Literário Celina de Holanda.

páginas em sites:

http://www.recife.pe.gov.br/pr/seccultura/fccc/cadastro/
 www.interpoética.com.br

Fonte:
Rebra

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Arquivado em Biografia, Pernambuco

Norália de Mello Castro

Norália de Mello Castro nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, filha de Noraldino de Mello Castro, advogado, líder, jornalista e escritor espírita, e de Magnólia Amaral de Mello Castro, prendas domésticas e ativista espírita, que esteve, por anos, à frente do Grupo beneficente das Samaritanas.

Iniciou seus estudos na escola primária da Casa d’Itália, cujo prédio foi atacado durante a II Guerra Mundial, por revolta de brasileiros contra o Eixo, o que provocou o fechamento da escola. Sua alfabetização foi completada por professores particulares, até ser novamente matriculada em escola pública. Da Casa d’Itália, resultou um despertar para as artes e carregou também, por toda a vida, o hábito de rabiscar: desenhos, letras e escritos. Ao fim da II Guerra, mudou-se com a família para um excelente bairro, onde viveu até a maturidade.

Estudou em escolas católicas e se formou na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, em Ciências Sociais, tendo se aposentado no exercício desta profissão. Paralelamente às diversas ações de sua vida, escreveu. Somente na década de 80 arriscou em concursos literários e teve êxito, chegando a publicar seu primeiro livro A Rede do Pescador, prêmio Clube do Livro de São Paulo.

Vivenciou e sofreu na revolução de 64. Acompanhou todo o movimento de Woodstock, a revolução feminina dos anos 60, o grito dos jovens franceses de 68. Vivenciou e curtiu muito toda a década de 60. Fez vários cursos complementares e/ou de extensão, relacionados ao social, história, filosofia e artes. Fez cerâmica artística, bordados, tricôs, patchwork. Nunca ficou apenas no teórico; necessitava, para seu equilíbrio profissional, fazer trabalhos paralelos. No inverno, era fatal, pegava nos tricôs, coisa que aprendeu aos 5 anos de idade.
Conservou sua paixão por livros, despertada pelas idas assíduas à biblioteca paterna. Conservou também sua paixão pelos filmes, tendo frequentado cinemas desde a mais terna idade. E continuou garatujando seus papéis, o que era e é uma compulsão: uma necessidade enorme de escrever.

Sua dedicação à Literatura, como trabalho real do fazer literário, só veio a acontecer em 2009, quando se descobriu no Dicionário de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novais, e ela se perguntou: “Como estar citada ali desde 2001 e nem sabia? Afinal o que fizera de sua literatura, tendo tanta coisa escrita? Se escrevia tanto, se lia tanto, alguma coisa teria a mostrar…” Entrou para a Rebra e passou a se dedicar realmente à Literatura. Agora, precisava continuar a escrever, pois escrever é uma necessidade visceral, compulsória mesmo. Pela Editora Scortecci, com selo Rebra, publicou, em 2010, o livro de crônicas e contos – Passos na Eternidade, premiado em 1986, no concurso Gralha Azul de Curitiba, que lhe deu uma viagem à Espanha/Portugal. Publicou também Apenas Viva, escrito em 2010. Em 2011, conheceu o Varal do Brasil e passou a mandar poesias e prosa para esta revista online, baseada em Genebra. Participou de várias antologias, inclusive Varal Antológico 2, que traria a editora Jacqueline Aisenman ao Brasil. Entusiasmada, Norália articulou junto da Prefeitura de Brumadinho, onde mora atualmente, para que ali acontecesse o lançamento desta antologia. Teve apoio substancial da Prefeitura para a realização deste evento, que foi muito significativo para o Município, que recebeu um número expressivo de escritores e poetas. Em 2011, foi agraciada com prêmios literários pela Academia Brasileira de Médicos Escritores – Abrames –RJ, com 1º lugar, com o conto Síndrome de Proteus e 2º Lugar com a poesia Teimosia. Em 2012, publicou o romance Realidade e Sonhos, pela Editora Catitu, de Belo Horizonte.

Para todo este trabalho literário de hoje, tem na sua filha, Daniela, a maior incentivadora e cooperadora, até mesmo inspiradora.

E Norália deseja continuar as sandices de seus escritos por muito tempo.

BIBLIOGRAFIA

Publicações: 

“A Rede do Pescador”, contos, 1988, prêmio do Clube do Livro de São Paulo.

“Passos na eternidade e outros contos”, l988, prêmio do I Concurso Gralha Azul, de Curitiba – PR.

“Apenas viva”- crônicas e contos, 2010.

“ Realidade e sonhos” – romance ,2012.

Antologias:

 “Novos Contistas Mineiros”, l988, com o conto “O tédio”.

“Show de talentos em prosa e verso”,  2010 com o conto Apenas passe.
 

IV antologia de poetas lusófonos, 2011 – Portugal
 
“Le grand show dês écrivaines brésiliennes”, Rebra 2011.

“Revista LUZES “ Ituiutaba- 1987, concurso, com o conto O Tédio..

“O indiscutível talento das escritoras brasileiras”, Rebra – 2011, com o conto Dardanelos.
 

“Nós da Poesia”, da AMEL-2012, com a poesia Teimosia.
 
“Varal antológico 2” – da editora Varal do Brasil- Genebra., 2012, com o conto Os reflexos.
 
“Letras de Babel”, ABRACE- Uruguai,2012, com poesias.
 
“Mil poemas para Miguel Hernandes de España”, Chile- 2012, selecionada com poesias.
 
“Mil poemas para Pablo Neruda”, Chile-2011, com poema a Neruda.
 
“Ler para Crer”, Oficina das Letras-SP, 2012, com o conto O mistério do relicário”
 
“Farol Literário”, da Literarte 2012, selecionada com o conto Na ventania.

OUTROS DESTAQUES: 

“Fios de prata ou a história do medalhão de turqueza azul”, romance, l989, menção honrosa no concurso literário Cidade de Belo Horizonte, inédito.

Publicações na revista literária VARAL DO BRASIL, em 2011, com os textos: 

E-mail libertador, 
A chuva é bela e 
Erva Divina, 
e mais com os poemas: 
Talvez, 
Reencontro e Os sinos. 
Carta de amor e Caos(poesia) 
e outros textos.

Participação do VARAL LITERÁRIO da cidade de Jundiaí, abril 2011, com o texto A chuva é bela.
 

Na década de 70, teve alguns poucos artigos publicados em jornal de BH

Fonte:
http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?assunto=biografia&id=1626

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Arquivado em Biografia, Minas Gerais

Nilton Manoel

Nasceu em Ribeirão Preto- SP. Brasil, em 03 de janeiro.
 
NILTON MANOEL é trovador. Aceitou o convite de Luiz Otávio e ingressou na UBT (União Brasileira de Trovadores) como ativista da Trova. Não tem a menor preocupação em buscar premiações  literárias, mas apoia por justiça classificações ordinais. Tem quase 100 concursos realizados com apoio da municipalidade e entidades diversas nas categorias: estudantil, municipal, estadual e internacional. Ajudou Luiz Otávio na edição do Decálogo de Metrificação e na Comissão de Métrica. Preparou documentário para que leis de suporte literário se efetivassem.

NILTON MANOEL, além de ser afiliado a UBT, integra a Academia Brasileira de Poesia, Academia Brasileira de Trova, Academia de Trovadores do Rio Grande do Norte, Academia Friburguense de Letras, Academia Mageense de Letras, Academia Santista de Letras, Academia Poços-caldense de Letras, Sociedade de Cultura Latina, Instituto Histórico e Geográfico do DF. Foi conselheiro municipal de cultura (três gestões) e  várias vezes vice-presidente da UBT-Paulista. Tem comendas e prêmios recebidos. Manteve em rádio o programa Cultura em Movimento; em jornais: Prosa e Verso, Trova em Movimento, Movimento da Trova, Bazar de Letras. Editou O Ubeteano que, ainda, é encontrado em sites de busca.

Livros editados: Cem anos de jornalismo escolar ribeirão-pretano, Didática da Trova, Trovas da Juventude, Cenas Urbanas, Poesia Mágica, entre outros.

Tem trovas premiadas e publicadas em Niteroi (RJ), Curitiba (PR), Pouso Alegre (MG), Ribeirão Preto (SP), Angra dos Reis (Ateneu Angrense de Letras e Artes), Vitória (ES), Campinas (SP) e em livros virtuais e em http://www.usinadeletras.com.br,www.movimentodasartes,com.br, www. falandodetrovas.com.br, ubtnacional.com.br.  Participa de diversas antologias: Ponto & Virgula (Funpec-Editora), Sexta Antologia da UEI (União dos Escritores Independentes), III antologia da Casa do Poeta e do Escritor (onde foi o 1º presidente),  Ave-Palavra (Funpec, coordenada pela profª.  Ely Vieitez Lisboa, Versos a Ribeirão Preto (Nilton da Costa Teixeira), Almanaque Santo Antônio e Folhinha do Sagrado Coração (Editora Vozes), publicações de Maria Tereza Cavalheiro e antologias de Débora Novaes de Castro (www.haicai.com.br). Possui diversas aparições em Mensagens Poéticas de Ademar Macedo e Seleções em Folha de Manoel Fernandes Menendez.

Na vida profissional é professor normalista (IEOM), pedagogo, professor de português da SEE/SP, onde já esteve coordenador pedagógico (8 anos) . É pós-graduado em Fundamentos e Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, (Redação, Produção e Interpretação de Textos), pós-graduado em Sociologia, Contabilista (CRC), Jornalista (MTb).

Dedica-se as artes visuais, a filatelia e a numismática. Fez teatro amador e foi aluno por quatro anos na Escola Municipal de Artes-Plásticas. 


Fonte:
O Autor

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Isabel Pakes (1947)

Nascida em Araçoiaba da Serra/SP aos 26/09/1947. Professora aposentada, residente em Cerquilho/SP.

Poeta e declamadora:

1º prêmio no I, II e III Festival de Poemas de Cerquilho (1986 a 1988)

1º prêmio no I Concurso de Poesias Fernando Pessoa de Juiz de Fora – MG – participação no livro “Poesia e Liberdade” das Edições Maria (1989)

1º prêmio no  I Concurso de Poesias de Juquitiba – SP (1990)

1º prêmio na categoria “outra cidade” no V Concurso de Poesias de Capivari – SP (1990 )

1º prêmio no I e II Festival de Poesias de Tietê – SP (1991 e 1992)

1º prêmio no I Concurso Mário Gemignani de Poesias – Capão Bonito – SP (1992 )

Trabalhos literários voluntários:
– “Poesia e declamação”, com crianças assistidas pela Casa de Maria, em Tietê/SP (2005 a 2008)

– “Caminhos da Poesia”, com crianças e adolescentes assistidos pela Promoção Social, em Cerquilho (2007)

Outras atividades literárias:

– Participação da “Noite e Poesia” – Palco Livre – na Faculdade de Tatuí (anos 90)

– Participação da “Poesia na 4ª Capa”, evento promovido e realizado pelo Jardim das Artes de Cerquilho (2004)

– Integrante do corpo de jurados do “Torneio Municipal De Poesias”, do “Festival de Poemas de Cerquilho” e do “Mapa Cultural Paulista – Fase Municipal”, organizados e realizados anualmente pelo Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Cerquilho.

– Palestra “Poema ou Poesia?” nas Escolas de Ensino Fundamental de Cerquilho/SP

– Participação na comemoração dos 40 anos da “Biblioteca Pública Municipal Guilherme de Almeida” de Cerquilho, com exposição de seus trabalhos (06/2011)
Condecorações:

– Medalha “Cidade De Cerquilho” conferida pela Câmara Municipal de Cerquilho, em 1992.

– Medalha “Filhos Ilustres Da Cidade Das Rosas” conferida pela Prefeitura Municipal de Cerquilho, em 2008.

– Madrinha Do “Festival De Poemas Da Escola Plínio R. De Moraes”, realizado anualmente em Tietê/SP.

Web: http://belpakes.blogspot.com/

Livros publicados:
– Transcendência.
– Era uma vez um grão de areia.

Fontes:
Portal CEN
Blog da Autora.
Clube de Autores

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Francisco Sobreira (1942)

Francisco de Paula Sobreira Bezerra (Canindé, 1942) fez o antigo Ginasial e o Científico, incompleto, em Fortaleza. Concursado no Banco do Brasil, foi trabalhar no interior do Estado, depois fixou residência em Natal, Rio Grande do Norte. Publicou os livros de histórias curtas A Morte Trágica de Alain Delon (1972), A Noite Mágica (1979), Não Enterrarei os Meus Mortos (1980), Um Dia… os Mesmos Dias (1983), O Tempo Está Dentro de Nós (1989), Clarita (1993), Grandes Amizades (1995) e Crônica do Amor e do Ódio (1997); os romances Palavras Manchadas de Sangue (1991), A Venda Retirada (1999) e Infância do Coração (2002). Cinéfilo, foi presidente do Cineclube Tirol, de Natal, e do Clube de Cinema, de Fortaleza. Ganhador de vários prêmios literários, como o da Fundação José Augusto de Ficção, de 1879 e 1981. Também venceu o Prêmio Aurélio Pinheiro de Ficção, de 1985, e o Concurso Literário “5 Contistas Potiguares”; além do Concurso Literário Câmara Cascudo, de 1987, dentre outros. Participa de várias antologias.

A maioria das peças ficcionais de Sobreira se situa na estante das chamadas narrativas lineares, com um episódio central, poucos personagens, desfecho, narração, diálogos e alguma descrição. Em “Operação coroada de êxito”, do primeiro volume, o narrador, internado num hospital, monologa por alguns minutos, no presente, e vez ou outra “repete” falas, de pouco interesse, de seres fictícios insignificantes, ao seu redor. No entanto, a obra de título igual ao da coleção tem arquitetura mais moderna: uma notícia de jornal (a morte do cachorrinho Alain Delon), uma crônica, outras notícias menores relativas ao cão, duas entrevistas e, finalmente, a notícia do julgamento do assassino.

Seu segundo livro, A Noite Mágica, nada tem de revolucionário, de vanguardista, de inovador. Muito pelo contrário, é tecnicamente conservador. Francisco Sobreira não faz nenhuma alquimia de estilo, não cria nenhuma nova linguagem. No entanto, esta aparente acomodação não indica seja ele um simples contador de histórias.

Sendo conservador na forma, o livro de Sobreira segue a trilha da prosa de ficção de pós-1964. Perpassa por quase todas as composições um vento forte de paranoia, caudaloso na literatura urbana brasileira dos últimos anos do século XX. Histórias de medo, terror, alucinação. Medo de ser preso, de perder o emprego, de morrer de fome, medo disso e daquilo. As pessoas se sentem caçadas como bichos, ameaçadas, perseguidas. Os amigos e os parentes são delatores ou espiões a serviço do Poder. A própria sombra de cada ser humano é um dedo-duro em potencial. Esse horror kafkiano é notório em contos como “O Caçado”, “Enquanto o Diabo Esfrega o Olho”, “O Falso Álibi”, “A Promissória” e “O Caçador de Nostálgicos”. O narrador, sempre perseguido, sempre paranoico, torna-se perseguidor, delator, comparsa da polícia (representação do direito de perseguir), como em “A Voz do Vizinho”. O protagonista, sem nome explícito (“o homem que vinha denunciar”, “senhor” ou “denunciante”), comparece a uma delegacia para denunciar o seu vizinho, pelo crime de não falar, embora não seja mudo. Os outros seres fictícios são “o soldado” e “o Delegado”. Constituído basicamente de diálogos, a história tem um quê de non-sens ou, se quiserem, de parábola. E isto é visto em outras peças, como “A Fábrica”, a lembrar José J. Veiga, especialmente “A Usina Atrás do Morro”. Entretanto, a notícia da fábrica, da sua inauguração perde importância logo, para dar lugar à presença de “estranhos”, isto é, os construtores ou trabalhadores da fábrica, na cidade. E somente um personagem adquire significância: o palhaço Arrelia. Por que este e não o professor, o padeiro, o padre? Perfeito desvario, o que não deixa de ser valioso.

O absurdo é, assim, o ingrediente principal da iguaria narrada. Às vezes um absurdo que, de tão cotidiano, perde o sabor de coisa literária. Em “A Lâmina”, por exemplo. Porque ninguém é mais dono de nada. Outras vezes, a situação anormal se apresenta como se o ser fictício fosse apenas um deficiente mental, incapaz de perceber a vida e a morte ao seu redor, manejado por tentáculos tão torturantes quanto os fantasmas dos pesadelos. A realidade narrada aproxima-se, então, do sonho. Os protagonistas e os espectadores são meros joguetes nas malhas de seres todo-poderosos que inventam a vida ou o fato. Por isto, em alguns contos a presença do elemento onírico é perfeitamente perceptível ou mesmo preponderante. Os atos e as imagens se sucedem de forma incoerente, deixando o personagem simplesmente perplexo, espantado diante da estranha realidade de que tenta desesperadamente fugir. Assim, reduz à condição de ficção, de brincadeira de mau gosto, de encenação, quando muito de logro, a peça que lhe pregam. Não acredita ser possível tão absurda realidade. Por fim se convence e tenta fugir. Porém, já é tarde demais.

Essa cosmovisão, esse sentimento de inferioridade, de pequenez, essa crença nos super-homens, nos homens de milhões de dólares, nos seres biônicos, nos deuses e entes mitológicos do mundo moderno, possibilitaram a ascensão do nazi-fascismo e possibilitam, ainda, um mundo de tantos disparates.

“A Pedra” é belíssima composição e tem dimensão diferente das demais. No entanto, o mesmo clima de perseguição, de repressão, na pessoa de um pobre sertanejo virado pagador de promessas.

A linguagem nas narrativas de Sobreira é coloquial, popular, recheada de gírias e modismos (“meu chapa”, “abonado”), expressões de uso comum (“era a última coisa que faria naquele momento”; “ajuda de que tanto necessitava”; “tocava na sua ferida”; “pele de uma alvura imaculada”), observações desnecessárias (“Lá bem distante o mar glaucíssimo oferecia-se à admiração das pessoas”; “Mas os jornalistas parecem sofrer do mesmo tipo de amnésia que afeta os eleitores e os torcedores”; “É preciso que se diga que”). O narrador de “Aquele casal” (pode ser o próprio autor também) observa: “A rotina, seria dispensável dizê-lo, gruda-se na vida de todos nós de uma tal maneira…” Apesar disso, esta peça é magnífica até no desenlace. Sobreira inverteu os papéis dos personagens: o narrador, Ernani, é mero espectador, e é o único com nome explícito. Os protagonistas são “o homem” ou “o gigante” e “a mulher” ou “a mulherzinha”, ou, como se fossem um só, “o casal”. O narrador e os seres fictícios que gravitam ao seu redor falam, gritam, ouvem, veem, discutem, se relacionam. Exercem seus papéis no palco da rua. Por outro lado, os protagonistas simplesmente passam diante deles, em permanente discussão, como se o mundo além deles não existisse.

Em Sobreira a narração é minuciosa, o narrador se perde em detalhes. Há explicações em demasia: “A submissão aos maridos, naquela época, era como que uma cláusula no contrato de casamento, que as esposas tinham que cumprir, e ainda vigora na maioria das uniões existentes no Nordeste do Brasil”. A linguagem da crônica, do ensaio, da matéria jornalística não pode ser a do conto, salvo se o propósito do contista for o de imitar ou parodiar uma ou outra.

Personagens sem nenhuma influência na trama surgem de repente e logo desaparecem, como em “Lastênia”. Algumas obras parecem capítulos de romance, com vários episódios e personagens secundários que poderiam se apresentar sem nomes, como Jofre Colares, Celso Meireles, Benito, Policarpo, Hermógenes, Zeca Marcolino, de “Soldadinhos de chumbo”.

O Francisco Sobreira das histórias insólitas, das parábolas, dos contos fantásticos é, sem dúvida, muito superior ao narrador das pequenas cenas domésticas, das narrativas do cotidiano das pessoas. Entretanto, se depurasse a linguagem, se transgredisse as normas do conto, mesmo os episódios ordinários poderiam alcançar degraus mais altos da arte literária. E, ainda, se buscasse sobrepor ao objetivo um pouco de sugestivo, ou seja, se transitasse da movimentação episódica externa para a ação interior.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil, ensaio, 2008. Imprece, Fortaleza, CE.

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Arquivado em Biografia, Magia das Palavras

Humberto Veríssimo Soares Santa (1940)

Humberto Veríssimo Soares Santa – Nascido a 31 de Outubro de 1940, numa pequena aldeia do litoral português, Atalaia da Lourinhã, de onde saiu com dois anos.

Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Setúbal, tendo estado ligado à Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, onde foi responsável pelo Departamento de Coordenação de Operações, encontrando-se hoje na situação de aposentado.

É casado com Margarida Augusta Correia Pinto Soares Santa que alia à arte de desenhar uma elevada sensibilidade poética e lhe ilustra todos os poemas com magníficos desenhos a lápis ou a nanquim.

OBRA LITERÁRIA
POESIA :
MUNDO DE QUIMERA – Edição do autor 1999

COLECTÂNEAS :
POIESIS V e VI – Editorial Minerva – Lisboa – 2001
TEMPERA(MENTAL) – Editorial Minerva – Lisboa – 2002
PROSA & VERSO II – Projecto Palavras Azuis – Blumenau (BRASIL) – 2003
I ANTOLOGIA DO PORTAL CEN – Edição L.P. Baçan – P. R. – Londrina – BRASIL 2004
TERRA LUSÍADA – Edição Abrali – BRASIL – 2005

LIVROS VIRTUAIS :

REDENÇÃO
FRASCOS com gotas de poesia
SENTIMENTALMENTE
FANTASIA NO LAGO DOS SONHOS
O BERGANTIM DE CRISTAL
O OÁSIS DO AMOR
O PENSAR PROSAICO DE PEQUENOS POETAS
MUNDO DE QUIMERA I – II – III
ALMA PEREGRINA
O TEMPO E O VERBO

Participação em várias ANTOLOGIAS

Fontes:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_humbertosoaressanta.htm

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Dulce Rodrigues (1941) autobiografia

Lisboa, 29 de Abril de 1941.

O meu nome é Dulce Rodrigues e sou a autora de A Aventura do Barry e outros livros infanto-juvenis em português, francês, inglês e alemão, assim como do sítio multilingue para crianças e jovens http://www.barry4kids.net.

Nasci num dia de Primavera, já lá vão muitos anos… “Alfacinha” e portuguesa de nacionalidade e de coração, vivi grande parte da minha vida na cidade que me viu nascer. Mas embora traga Lisboa e o meu belo Portugal sempre no coração, a minha “aventura” profissional levou-me a outras cidades e países. Durante cerca de quarenta anos, reparti a minha vida profissional entre o meu país de origem – que adoro – e os países estrangeiros que adoptei e que me adoptaram. Isso tem-me permitido divulgar mais facilmente a enorme riqueza cultural do meu país e conhecer de perto novas gentes e mentalidades, o que inevitavelmente abriu o meu horizonte espiritual e influenciou a minha própria vivência.

Divido agora o meu tempo entre as viagens afectivas ou de lazer, e os livros – como leitora e como autora. Escrever, sobretudo para crianças, é fonte de grande prazer e realização pessoal.

E porque a língua é a alma de um povo, a melhor maneira que encontrei para compreender os outros foi aprender a língua deles. Sou poliglota, falo seis línguas vivas e escrevo regularmente pelo menos em três, o que me permitiu ganhar quatro prémios em concursos literários internacionais com contos para crianças em três línguas.

Os meus verdes anos passei-os no Bairro da Encarnação. Os meus pais mudaram-se para lá na véspera dos meus quatro anos. Ali frequentei a escola e encontrei os primeiros amigos e amigas, e muitas dessas amizades perduraram através do tempo; algumas, infelizmente, já nos deixaram prematuramente.

Fui uma adolescente como tantas outras, mas nesse período da minha vida começou a manifestar-se o meu interesse pela escrita, pela Ciência e pela História… Circunstâncias várias levaram-me, contudo, a seguir primeiramente o campo das Letras. Talvez porque comecei cedo a contactar com Alemães, uma vez que o meu pai praticamente sempre trabalhou na Siemens em Portugal, apaixonei-me pela língua alemã, e logo após ter terminado o meu curso do British Council, inscrevi-me no Goethe-Institut, que alguns anos mais tarde me ofereceu uma bolsa de estudos, o que me levou a viver pela primeira vez num país estrangeiro e a começar a tomar verdadeiramente gosto pelas viagens.

Regressei a Portugal, mas o apelo da Alemanha, que para uma jovem adulta da época representava a aventura e a liberdade, foi mais forte. Assim começou uma carreira professional internacional que interrompi para voltar de novo para Portugal. Mas alguns anos depois parti novamente. E como a vida às vezes nos prega partidas, embora eu seja contra a guerra e contra tudo o que é violência, a verdade é que as minhas vivências profissionais no entrangeiro me levaram sempre a trabalhar com organizações de carácter bélico. Nos anos 60, na Alemanha, fui tradutora de inglês/alemão junto do ENGCOMEUR, por outras palavras, do Comando de Engenharia das Forças Armadas Norte-americanas na Europa, entidade que pertencia ao Ministério da Defesa dos Estados Unidos. Anos mais tarde, já nos anos 80 e no Luxemburgo, fiz parte do pessoal internacional da NAMSA, ou seja, da agência que faz a manutenção e reparação de material bélico para os países que pertencem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Foi esta organização que me ofereceu a minha segunda bolsa de estudos, quando paralelamente à minha actividade profissional me decidi a pisar de novo os campos universitários, desta vez com uma universidade inglesa, para finalmente realizar o meu sonho no campo da Ciência.

Tenho uma grande ânsia de aprender sempre e cada vez mais, e todos os assuntos me fascinam. A História é outra das minhas paixões, especialmente a de Portugal, e dela tenho feito o tema das minhas conferências. Adoro viajar e sou um pouco como o vento – sempre em constante deslocação. Mas aprecio igualmente o aconchego da minha casa, quer seja a de Portugal ou a da Bélgica. Sou uma apaixonada pela Natureza, pela sua grandeza e diversidade. Aprecio todas as formas de expressão artística, desde que elas nos transmitam Beleza, pelo que sinto uma grande tristeza quando penso na Arte – se é que podemos dar-lhe esse nome – que nos legou o final do século XX e com que se estreou o século XXI. E porque amo a Vida, ela também tem sabido amar-me.

Sou membro de várias associações, tanto em Portugal como no estrangeiro.

BIBLIOGRAFIA:
“Era Uma Vez Uma Casa”;
“Piloto e Lassie, uma outra estória de Romeu e Julieta”;
“Há Festa no Céu”;
“O Pai Natal está constipado”;
“A Aventura do Barry”; 
“Barry’s Adventure”;
“Father Christmas has the Flu”;
“Il était une fois une Maison   ;
“Le Ciel est en Fête” ;
“Le Théâtre des Animaux” ;
“Piloto und Lassie, Romeo und Julia einmal tierisch anders”;
“Der Weihnachtsmann ist verschnupft”;
“Travelogue – Egypt through the Eyes of a Western Woman”

Fonte:
http://www.dulcerodrigues.info/dulce/pt/bio_pt.html

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Adélia Prado (1935)

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935, filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Leva uma vidinha pacata naquela cidade do interior: inicia seus estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e mora na rua Ceará.

No ano de 1950 falece sua mãe. Tal acontecimento faz com que a autora escreva seus primeiros versos. Nessa época conclui o curso ginasial no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, naquela cidade.

No ano seguinte inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui em 1953. Começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955.

Em 1958 casa-se, em Divinópolis, com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A. Dessa união nasceriam cinco filhos: Eugênio (em 1959), Rubem (1961), Sarah (1962), Jordano (1963) e Ana Beatriz (1966).

Antes do nascimento da última filha, a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia  da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis.

Em 1972 morre seu pai e, em 1973, forma-se em Filosofia. Nessa ocasião envia carta e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade.

“Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarisse. Esta é a minha turma, pensei.  Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa.Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala.”

Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam “fenomenais”. O poeta envia os originais ao editor daquele que viria a ser Bagagem. No dia 09 de outubro, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora.

“Bagagem, meu primeiro livro, foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando.”

O livro é lançado no Rio, em 1976, com a presença de Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho, entre outros.

O ano de 1978 marca o lançamento de O coração disparado que é agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

Estréia em prosa no ano seguinte, com Soltem os cachorros. Com o sucesso de sua carreira de escritora vê-se obrigada a abandonar o magistério, após 24 anos de trabalho. Nesse período ensinou no Instituto Nossa Senhora do Sagrado Coração, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, Fundação Geraldo Corrêa — Hospital São João de Deus, Escola Estadual são Vicente e Escola Estadual Matias Cyprien, lecionando Educação Religiosa, Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Sua peça, O Clarão,um auto de natal escrito em parceria com Lázaro Barreto, é encenada em Divinópolis.

“O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta.”

Em 1980, dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. No ano seguinte, ainda sob sua direção, o grupo encenaria A Invasão, de Dias Gomes. Publica Cacos para um vitral. Lucy Ann Carter apresenta, no Departament of Comparative Literature, da Princeton University, o primeiro de uma série de estudos universitários sobre a obra de Adélia Prado.

Em 1981 lança Terra de Santa Cruz.

De 1983 a 1988 exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis, a convite do prefeito Aristides Salgado dos Santos.

Os componentes da banda é publicado em 1984.

Participa, em 1985, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América.

Fernanda Montenegro estréia, no Teatro Delfim – Rio de Janeiro, em 1987, o espetáculo Dona Doida: um interlúdio, baseado em textos de livros da autora. A montagem, sob a direção de Naum Alves de Souza, fez grande sucesso, tendo sido apresentada em diversos estados brasileiros e, também, nos EUA, Itália e Portugal.

Apresenta-se, em 1988, em Nova York, na Semana Brasileira de Poesia, evento promovido pelo Comitê Internacional pela Poesia. É publicado A faca no peito.

Participa, em Berlim, Alemanha, do Línea Colorada, um encontro entre escritores latino-americanos e alemães.

Em 1991 é publicada sua Poesia Reunida.

Volta, em 1993, à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis, integrando a equipe de orientação pedagógica na gestão da secretária Teresinha Costa Rabelo.

Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro O homem da mão seca.  Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê “a aridez como uma experiência necessária” e que “essa temporada no deserto” lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

“O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez.”

Deus é personagem principal em sua obra. Ele está em tudo. Não apenas Ele, mas a fé católica, a reza, a lida cristã.

“Tenho confissão de fé católica. Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. Qual a importância da religião? Dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte. Acredito que personagens são álter egos, está neles a digital do autor. Mas, enquanto literatura, devem ser todos melhores que o criador para que o livro se justifique a ponto de ser lido pelo seu autor como um livro de outro. Autobiografias das boas são excelentes ficções.”

Estréia, em 1996, no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte, a peça Duas horas da tarde no Brasil, texto adaptado da obra da autora por Kalluh Araújo e pela filha de Adélia, Ana Beatriz Prado.

São lançados Manuscritos de Felipa e Oráculos de maio. Participa, em maio, da série “O escritor por ele mesmo”, no ISM-São Paulo. Em Belo Horizonte é apresentado, sob a direção de Rui Moreira, O sempre amor, espetáculo de dança de Teresa Ricco baseado em poemas da escritora.

Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura.  Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá.

“Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português.”

Em 2000, estréia o monólogo Dona da casa, em São Paulo, adaptação de José Rubens Siqueira para Manuscritos de Felipa. A direção é de Georgette Fadel e Élida Marques interpreta Felipa.

Em 2001, apresenta no Sesi Rio de Janeiro e em outras cidades, sarau onde declama poesias de seu livro Oráculos de Maio acompanhada por um quarteto de cordas.

OBRAS:

Individuais

POESIA:

– Bagagem, Imago – 1976
– O coração disparado, Nova Fronteira – 1978
– Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira – 1981
– O pelicano, Rio de Janeiro – 1987
– A faca no peito, Rocco – 1988
– Oráculos de maio, Siciliano – 1999
– A duração do dia, Record – 2010

PROSA:

– Solte os cachorros, Nova Fronteira – 1979
– Cacos para um vitral, Nova Fronteira – 1980
– Os componentes da banda, Nova Fronteira – 1984
– O homem da mão seca, Siciliano – 1994
– Manuscritos de Felipa, Siciliano – 1999
– Filandras, Record – 2001
– Quero minha mãe – Record – 2005
– Quando eu era pequena – 2006.

ANTOLOGIAS:

Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira – 1978
Palavra de Mulher, Fontana – 1979
Contos Mineiros, Ática – 1984
Poesia Reunida, Siciliano – 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano e A faca no peito).
Antologia da poesia brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim – 1994.
Prosa Reunida, Siciliano – 1999

Participação em antologias

– Assis Brasil (org.). A poesia mineira no século XX. Imago, 1998.
– Hortas, Maria de Lurdes (org.). Palavra de mulher, Fontoura, 1989.
– “Sem enfeite nenhum”. In Prado Adélia et alii. Contos mineiros. Ática,  1984.

Fonte:
http://www.releituras.com/aprado_bio.asp

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