Arquivo da categoria: Cabo Verde

Poesia do Cabo Verde

Oswaldo Alcântara
FILHO

Nicolau, menino, entra.
Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?

Nicolau, menino, entra.
Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.

Tens comigo o teu catre de lona velha.
Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe.

Dorme sem medo.
Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.

Quando acordares a jornada será mais longa.

Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.

Terêncio Anahory
NHA CODÊ

Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.

(Se choro
são saudades de nha Codê…)

Nha Codê vive
na evocação de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!

… E em mim
essa saudade de nha Codê!

Pedro Corsino Azevedo
CONQUISTA

Trás!…
Explodiu a Verdade,

Agora sou capaz
De tudo
Indiferente e quedo e mudo
Deixarei escangalhar o brinquedo
Que temi na Infância,
Rasgou-se o céu em mil fatias lindas,

Ricos
Fanicos
Que recolhi na mão.

Desilusão!
Cristal, cristal, cristal!

E eu a namorar o mal…

Pedro Corsino Azevedo
GALINHA BRANCA

Sol de Agosto.
Raios a prumo.
Nem dá gosto
Viver.

Litoral ardente.
Montes nus.
Pó vermelho,
Na valsa doida do vento leste.
Meio-dia.
Nem pinga de água…
O céu plasmando infernos.
A agonia
Da gente pobre
– Pobre de tudo -,
O olhar mudo
Que sufoca gritos
Que não partem.

Mas:

Noite de luar,
Vento amainado.
Depois da ceia,
Brincam crianças
Ao canto da varanda:

Galinha
Branca
Que anda
Por casa
De gente
Catando
Grão
De milho.
E mais:
É mim
É bô
É Carlos
É Valério
É Fêdo.

Somos todos, todos,
Catando
Grão
De milho
Em anos de crise,
E mais…

– Não!…

Canivetinho
Canivetão


França.

Galinha branca
O espectro da morte
A sorte
De todos.

Olha pra mim!
Assim.

Canivetinho
Canivetão


França.
– A única esperança…

França lendária
Terra longínqua
De onde os meninos
Costumam vir em cestos
E para onde
Em anos de crise
Num cesto de pau
(Mácabra nau!)

Canivetinho
Canivetão

Coitadinhos
Vão!…

Pedro Corsino Azevedo
TERRA-LONGE

Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
minha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.

“Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente”

A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:

“Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente”.

Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!…
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:

“Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente”.
Terra-longe! terra-longe!…
– Oh mãe que me embalaste
– Oh meu querer bipartido!

Jorge Barbosa
CANÇÃO DE EMBALAR

“Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo…”

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos…

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro…

Não fala de mamãe…
Ti Lobo talvez…
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
“Ti Lobo não tem…”

Essa voz nocturna segredando…
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando…

“Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo…”

Volta-se e torna a dormir…

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra…

Jorge Barbosa
PRELÚDIO

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada
e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n’El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Fontes:
PEREIRA, Carlos Pinto (organizador). Autores Africanos – Do Rovuma ao Maputo
Imagem = http://radioatlantico.blogspot.com

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Cabo Verde, Poesias