Arquivo da categoria: caderno de poesias

Carolina Ramos (Caderno de Poesias)

RETORNANDO…
DE UMA FESTA POÉTICA


 Obrigada, Senhor, eu Te agradeço
 os dias de emoção que me ofertaste;
 este sol, esta luz, que não tem preço
 e faz do céu azul o seu engaste;

 estes campos viçosos que se estendem
 numa carícia aos olhos que, cansados,
 buscam repouso e o brilho reacendem
 na veludosa ondulação dos prados.

 Obrigada, Senhor, pela ternura
 colhida em cada gesto, em cada olhar…
 ficou mais bela a minha noite escura
 depois do beijo suave do luar.

 Obrigada, Senhor, muito obrigada,
 pela doce esperança que acarinho
 de que a Poesia, que me abriu a estrada,
 me ajude a reencontrar este caminho!

ANSEIO

 Por mais que em convulsões o mundo trema,
 rumo ao caos que implacável nos atinge…
 Por mais, seja negado o suave lema,
 Paz e Amor, que de sangue hoje se tinge…

 Por mais que o desencanto fel esprema
 nas almas secas de quem já nem finge,
 creio, ainda, num Deus que é Luz suprema,
 e é Sol que aclara o Bem e o Mal restringe!

 Mesmo envolta nas sombras da amargura,
 mesmo que os dias sigam mais tristonhos
 e a vida, cada vez menos segura,

 fujo à incerteza que o momento traz
 e, sempre vivo, a incrementar meu sonho,
 eu guardo o anseio de encontrar a Paz!

 A GRANDE MESTRA

 Não temas que o Destino te atraiçoe
 pondo pedras demais no teu caminho.
 Usa as pedras que acaso ele te doe,
 e, ao construir, não estarás sozinho!

 Se Deus te deu a luz da inteligência
 e o poder de ir e vir em liberdade,
 tens o solo, a semente e, com paciência,
 um dia hás de colher felicidade!

 Não creias, por temor e covardia,
 que só o Destino teu porvir decida!
 – Destino tu constróis, a cada dia!
 E a Gran Mestra da Obra é a própria Vida!

 ENCANTAMENTO

 Como se a luz de um palco se abrandasse
 velada pelas nuances da cortina,
 assim o fim-do-dia inteiro dá-se,
 num cenário de encanto que fascina!

 O sol, como se o leito procurasse,
 reduz o ardor da audácia matutina.
 Um toque de rubor colore a face
 das nuvens com recatos de menina.

 Volta em bando ruidoso o passaredo,
 não é mais dia e não é noite ainda,
 ganham mais vida os galhos do arvoredo!

 A tarde se desfaz… o céu deslumbra…
 e a natureza, cada vez mais linda,
 mergulha, pouco a pouco, na penumbra!

 CONSELHOS DE MÃE

 Meu filho, a vida é dura e fere… e nos magoa…
 mas, trata-a com respeito e guarda a dignidade.
 Ainda que a alma inteira sem clemência doa,
 não permitas que o mal altere o que é verdade!

 Sonha bem alto e segue o voo do teu sonho,
 sem pressa de alcança-lo e tendo-o sempre à vista!
 Cada dia que passa é um dia mais risonho,
 quando o amanhã promete as glórias da conquista!

 “Segura a mão de Deus!” Segue o rumo sem medo.
 Os caminhos, verás, se abrirão à medida
 que teu passo provar firmeza e, sem segredo,
 revelar o sentido e o Ideal da tua vida!

 Não temas opressões nem quedas. Persevera!
 Se achares que ao final o saldo não convence,
 reage, continua… a vida tens à espera!
 Confia em teu valor! Trabalha! Luta! E vence!

ALMA LIBERTA

Ser livre é poder falar e seguir livre depois…

 A paisagem é rude! E triste pobre é o mundo
 onde o sonho fenece à míngua de lugar!
 Onde a Fé e a Esperança habitam caos profundo,
 onde o Amor estertora, exangue a agonizar!

 Olho o ventre da terra, ubérrimo, fecundo,
 a pedir que a semente o venha despertar.
 E vejo a fome rir… levando ao colo imundo
 as vidas que roubou da indigência ou de um lar!

 Clamo! Fechem-me a boca e hei de gritar! Que importa,
 seja selado o vão de minha humilde porta,
 ninguém há de abafar meu grito, meu lamento!

 Clamo! Quebro o silêncio… o vil silêncio imposto!
 – De que serve o mutismo a mascarar meu rosto,
 se tenho a alma liberta e livre o pensamento!?

CÂNTICO DE FÉ

 Manhã de sol, fragrante a maresia!
 A vida a pedir vida, de asa ao vento…
 Cada suspiro alenta o novo dia
 e cada instante vale o novo alento!

 O sonho espera na amplidão vazia…
 E o vazio recua no momento
 em que o Amor se antecipa, na alegria
 de recompor os sonhos em fragmento!

 Ouro jorra do azul. Rebrilha o sol.
 Desdobram-se as alvuras do arrebol
 e em taça cristalina a aurora dá-se!

 O céu é fonte a transbordar de luz!
 E, enquanto a Deus entrego a minha cruz,
 eu bebo Fé nesta manhã que nasce!

SILÊNCIO

 O silêncio sucede à voz da tempestade.
 No silêncio do aroma, inteira dá-se a rosa,
 a oferecer à vida a sua amenidade
 e em silêncio a desfolha a insensatez maldosa!

 Há silêncio no espaço. E densa nebulosa
 guarda estrelas sem conta! A penumbra persuade
 de que se oculta em véus, talvez, porque invejosa
 desses sonhos de luz, de brilho e de verdade!

 Se o silêncio de um beijo, ou tantos que colhemos,
 em transportes de amor, em anseios supremos,
 a vida transformar em pedras contra nós,

 silenciemos, calando a mesquinhez do mundo,
 que não entende a voz do nosso amor profundo,
 nem o amargo e infeliz cansaço de dois sós!

BENDITO SEJA…

 As palavras o tempo apaga e arrasta
 – pétalas soltas, ao sabor do vento…
 O livro é escrínio que resguarda e engasta
 as jóias perenais do pensamento!

 O livro é amigo silencioso. E basta
 que traga em si o gérmen do talento,
 para, banindo a dúvida nefasta,
 mentes clarear e aos sonhos dar alento!

 Bendito o livro que mantém o lume
 do saber, a ajudar a erguer-se um povo
 que na cultura o seu lugar assume!

 Bendito seja quem imita os astros,
 valorizado, a cada instante novo,
 à luz de um livro, que lhe doura os rastros!

SAUDADE

 Roubando idéias sensatas,
 tu queimas, corróis, causticas!…
 Saudade – torturas, matas!
 Mando-te embora mas… ficas!

 Que esta mão, que o verso escreve,
 de minha alma te retire!
 Saudade, a vida é tão breve,
 deixa que eu, livre, respire!

 VI NOS TEUS OLHOS:

 A negação de tudo o que eu sonhara!
 A saciedade, o tédio, a indiferença.
 o desencanto, consequência clara
 da estafa emocional, que o amor dispensa!

 Mentiras, decepções, vi nos teus olhos,
 neles tentando achar sinceridade.
 Vi muita coisa boa entre os escolhos,
 porém, não pude ver felicidade!

PRESENÇA

 Tão feminina e triste, minha amiga,
 não queiras com teu jeito amargo e doce,
 instilar-nos no sangue o fel da intriga:
 – basta o suplício que este adeus nos trouxe!

 Nosso amor é tão grande… não periga!
 Ao teste da distância, confirmou-se.
 Deixa que a vida sua estrada siga…
 Nossa estrada, por ora, bifurcou-se.

 Terna, dizes que beijas seus cabelos…
 Eu asseguro que não tenho zelos
 por estares, fiel, sempre ao seu lado:

 – Ora, saudade, não me fazes ciúmes!
 – Ao lado dele, minha forma assumes
 e, junto a mim, tens o seu rosto amado!

Fonte:
http://www.avspe.eti.br/avspe2012/CarolinaRamos.htm
Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Estado de São Paulo, Santos

Amália Grimaldi (Caderno de Poesias)

PREMONIÇÃO CIGANA

Aquela que me lia 
 Irmã da outra 
 A que me sorria
 Roda de saia 
 Lenda de céu
 Seu anel de prata
 Ausente respaldo
 Desdobro estandarte
 A glória desse tempo 
 Ao sol azul de quando
 Premonição de cores
 Recorte à sombra
 Pairando ao deixado
 Minha lua de papel.

MEDIOCRIDADE CONFORTÁVEL

De longe a voz do mercado
 O barulho das correntes
 O grande portão de ferro
 Na calçada vazia o silêncio óbvio
 Dormem os bêbados
 Sonsos
 Vagam gatos mansos
 Pisam macio
 Adorno de noite escura
 Momento de consistência frágil
 Valor afetivo
 Mediocridade confortável.

UM CISCO NO OLHO 

Caminhante silente
 Gesto cuidado
 Desvio do olhar
 Incômoda atenção
 Bela canção à esquina
 Mas ninguém ali o conhecia
 Desconfia-se
 De cigano vagante.

BLOCO DE JUDAS 

 Dançariam seus ódios mútuos
 A mulher dos cabelos ruivos e a serviçal judiada
 Eis que o dia final havia chegado
 Era tão somente um bloco engraçado
 De fêmeas e machos tolos
 E os importantes seriam então judiados
 E ela, pretensiosa pecadora
 Ao som de bumbo e tambor
 Em seus vermelhos estonteantes
 Retornaria à perversidade escura de antes
 Ao socavão dos seus desejos malvados
 Arderia no fogo do seu juízo final
 Regozijo inútil.

UM RASTRO SEFARDITA 

 No almoço do cristão galego
 Cordeiro não é imolado
 Mas sua faca é aí amolada
 E perus são aí degolados
 À luz do sol do meio-dia
 O sacrifício malvado
 Rubra agonia da morte
 Coalha no prato ao vinagre
 Manchadas são as pedras
 Do pátio da minha infância
 No rastro de penas deixado
 Deitam palavras vestidas
 Nessas minhas linhas nuas
 Poema das minhas entranhas.

UM QUASE NADA 

 À loja da esquina
 Alegria de panos 
 Meus suspiros aí deixados
 Seu Salim e seu riso de marfim
 Armazém das cores
 Quantas vezes aí voltei
 Em meus ecos suspirados
 Hoje perdidas tramas
 Quase um fiapo
 Um fio de pouca coisa
 Alegria de quase nada
 Em seu riso de marfim
 Subiu aos céus suspirado.

 DESORDENADA LUZ ORIENTAL 

 Os mais ricos pigmentos
 Despeja o céu ao poente
 Cores damascenas
 Desordenada luz oriental
 Seda persa de outrora
 Cavalos do espectro
 Em asas de luz ao rapto 
 Fio da trama por desatar
 Sobre o aparador da sala de jantar
 O suspiro esquecido
 O vestido reinado da estátua
 Desordenada luz oriental
 Fantasma do Bairro Judeu.

FLORES MORRIDAS 

 Parei. Em esquina contente
 Conjunção imaginária
 A jogar bola de satisfação
 Avistei meninos folgados
 Sem dengos. Contudo plenos
 Voltei. À Rua das Flores
 Pálida lembrança de meus encantos
 Avistei para desgosto meu
 Mulheres sem alegrias
 A carpir evidências
 Mulheres antes meninas. Como eu
 Nas mãos, suadas e mornas
 Flores sozinhas traziam. Só Angélicas
 Murchas outrora perfumadas.

ALMA DEVASSADA

Um pedaço de pão
 Um naco de peixe
 Contou um pouco de si
 Despida sua fraqueza cabeluda
 Sentia-se um pouco nu
 Talvez deselegante
 Um fratello amigo
 Espiava dentro da sua alma
 Mas ninguém ali o conhecia

Cobria-lhe o manto opaco
 Dos pensamentos desolados
 Devassada alma.

A FRAGILIDADE DA COERÊNCIA

Teço a minha trama
 E a do meu companheiro
 As linhas são muito finas 
 Escanteada é a luz suspeita
 Fios necessários por separar
 Até percebo a agonia 
 Da sombra fugidia 
 E na clareza na certeza
 Vejo que linhas tênues se partem fácil. 

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Bahia, caderno de poesias

Ógui Lourenço Mauri (Caderno de Poesias)

155036_505713929470100_613442967_n
AH!… O CARNAVAL DE OUTRORA!
 
Tenho saudade do antigo Carnaval…
Quem dera poder viver tudo de novo
Sem o engodo da intervenção oficial,
Tudo sob a espontaneidade do povo!
 
Como era gostoso ver a multidão
Botando pra fora os males do ano inteiro,
Alheia aos esquemas da televisão,
Farta alegria, sem pensar em dinheiro.
 
“Passarela do Samba” não existia…
Não era importante sambar pra turistas.
Que pena!… Tudo está mudado hoje em dia, 
Carnaval virou um desfile de artistas!…
 
Qual a graça de cantar o samba-enredo
Lendo os versos distribuídos na hora?
O “folião” é tratado qual brinquedo…
Ah!… Que saudade das marchinhas de outrora!
 
Queria tanto brincar com minha amada 
Sem me ajustar a essa tal metamorfose…
Abraçados, na avenida iluminada;
De todos, pois, a “Praça da Apoteose”.
 
AMOR AO SOM DA CACHOEIRA
Numa suíte ao lado das cataratas…
Do janelão, linda vista panorâmica.
Céu estrelado, lua cheia entre as matas,
Cama convidativa, artes de cerâmica.
 
Só mesmo o local inovou na rotina…
“Dia dos Namorados” em nada altera.
Nós o temos com a proteção divina,
Ocorre todos os dias, sem espera.
 
Foi Eros quem fez cruzar nossos destinos,
Milagre de um amor mantido a poesias.
Vivemos a trocar versos repentinos,
Somos namorados de todos os dias.
 
Junto às cataratas, porém, foi incrível…
Nossas vestes aos poucos abandonadas,
Mútuos desejos ultrapassando o nível
E explosões de prazer enfim alcançadas.
 
Após o amor, muitos beijos e carícias,
Revelações de sonhos de vida a dois.
Envolvimento total nessas delícias,
Sono reconfortante vindo depois.
 
INESQUECÍVEL
 
Um momento a dois que não me sai da mente!
De um amor eterno, o ponto de partida.
De duas almas, recomeço de vida.
De dois sonhos, desembarque no presente.
 
Inesquecível… te ver à minha espera!
Explica-me de que estrela tu vieste,
De quem herdaste esta magia inconteste,
Eis que na arte de amar ninguém te supera.
 
Inesquecível… tocar tua nudez!
Aos ouvidos, sussurros de rouxinóis.
Momentos a dois, dividindo os lençóis,
As delícias do amor na primeira vez.
 
Inesquecível… quando à hora melhor,
Senti os traços de tua anatomia.
Fui às nuvens, face à nossa sinergia,
De dois corpos bem molhados de suor.
 
Olvidar-me disso tudo é impossível,
Um encontro sublime que só Deus viu.
Foi assim que nossa paixão explodiu…
Foi uma noite de amor… Inesquecível!
 
SIMPLES MIRAGEM
 
Agora sei que os traços em minha face
Marcam aonde meus sorrisos chegavam.
Atestam os estragos de um desenlace
De dois sonhadores que tanto se amavam.
 
Provocado por seus versos atraentes,
Via-me no céu quando estava com ela.
Seus gestos tão dela eram tão diferentes,
Talvez só por isso deixaram sequela.
 
Que pena! Somente agora me dei conta
De que meu estro foi além do plausível.
Quem ama é cego e não raro se defronta
Com as amarras de um amor impossível.
 
Julgava-me feliz pro resto da vida,
Com as delícias de nossa convivência.
Tal expectativa se fez esvaída,
Dando lugar à mais rude consequência.
 
Por que o tão concreto virou abstrato?
Por que a felicidade só de passagem?
Que drama mais triste no último ato!…
O sonho não passou de simples miragem!
 
A MÚSICA DE MINHA VIDA
 
Eros, o deus do amor, plasmou minha vida
Quando, ao acaso, eu escutava contigo
Linda música que lembra uma bebida…
Fez de mim teu homem, no lugar de amigo!
 
Como enleva aquela noite relembrar!
Reviver a música de minha vida…
Voltar àquela amizade singular,
Então repleta de paixão recolhida.
 
A tal música nos pôs em sintonia!…
E os corações batendo à mesma frequência.
Paixão intensa a partir daquele dia
E palavras de amor com mais eloquência.
 
Foi tudo tão natural e de relance.
Brindamos com champanhe, a nosso critério.
A simples amizade virou romance
E o nada se transformou em caso sério.
 
Sei que foi algo que só Eros decreta,
Dádiva que rompeu minha solidão;
Chegou-me, assim, a alma gêmea completa,
Que se alojou de vez em meu coração.
 
SOLITÁRIOS PASSOS
 
Para mim, és agasalho das Alturas,
Que me chegou à metade do caminho.
Contigo, sei que não estarei sozinho,
Face à cumplicidade nas horas duras.
 
Com teus olhos, reergueste minha autoestima,
A mando dEle, na raia tu entraste.
De minha vida, foste tu o guindaste
Que, por Deus, fez eu dar a volta por cima.
 
Estar só, hoje não passa de lembrança.
Meus solitários passos foram de vez.
No mar bravio, em que o tempo se refez.
Depois da tempestade, veio a bonança.
 
Foste o bálsamo para minha ferida,
Que surgira de meus passos solitários.
Tu trouxeste os ingredientes necessários
Ao nosso amor, em retomada de vida.
 
Sinto mais um anjo do que uma mulher,
Em teu aconchego, que igual nunca vi.
Dos solitários passos antes de ti,
Não tenho saudade, um tiquinho sequer…
 
GESTOS E PALAVRAS
 
Gesto é um termo de duas definições:
Dá, a primeira, ideia de movimento,
Enquanto a segunda tem por fundamento
O brilho e enlevo de certas ações.
 
Temos na palavra a exteriorização
Do que nosso íntimo deixa vazar.
A palavra é instrumento singular,
Algo refratário ou de aproximação.
 
Teus gestos e palavras lembram poesias
Exclusivas das aptidões femininas.
Parecem versos de rimas repentinas,
Que atiçam meus desejos e fantasias.
 
Sabes usar esses dons com maestria,
És mulher inteligente e resoluta.
Em todas as batalhas, ganhas a luta;
No amor e nas lides de todos os dias.
 
Sou vidrado em tua poesia e lucidez…
No visco de teus traquejos, me prendi;
Teus gestos humanos, eu sempre aplaudi
E às tuas palavras, entreguei-me de vez.
 
DOCE SAUDADE
 

Quando leio teus versos tão sensuais,
Com pitadas de uma fêmea provocante,
Sou tomado do impulso de querer mais,
Ganas de eu estar contigo a todo instante.


Uma doce saudade me vem à mente,
Recordações fazem meu sangue ferver.
Frustrado, vejo que não estás presente
E que tudo que eu quero não pode ser.


Vem-me à lembrança nossa alcova de amor,
De quando nos encontramos, afinal.
Paixões incontidas no seu esplendor,
Enlevos a dois, numa entrega total.


Doce saudade de teu lindo sorriso,
De teus cabelos sedosos, cor de mel;
Detalhes que afetam meu frágil juízo,
Que não suporta esta distância cruel.


Hoje, sou dependente de tua poesia.
Ela é a fonte desta doce saudade.
Sentimento que se aflora a cada dia,
Num sonho só, preso na felicidade.

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, São Paulo

Tere Penhabe (Caderno de Poesias)

A CHUVA

A chuva cai
Impiedosa!
Eu precisava do sol
para viver
para sorrir
e ele não veio.
Veio a chuva
em seu lugar
e atrevida
inda me sorri
e pergunta-me:
– Quem é você,
para não me querer?
Eu vou cair
em sua vida
muito tempo ainda
e vou molhar você.
Depois gargalha
e vai embora.
Mas o sol não vem…

A DONA DA HISTORIA

Se naquele dia
a coragem não me faltasse
se contigo eu não me casasse
e se o vento não levasse
tantos sonhos meus e teus… 

Que teria sido
desse destino vencido
que percorremos separados
porém unidos, ligados
pela filha que tivemos…

E depois, muito depois
qual seria a história de nós dois
se naquele carnaval
entre risos e cuba libre
eu tivesse aceitado você de volta…

Se eu pudesse, se soubesse
que serias tão infeliz
quem sabe teria aceito
o teu amor aprendiz
e te ensinado a viver…

Não fui a dona da história
perdoe-me, se puder
você se foi desse mundo
sem nem aprender sorrir
só agora a história eu li…

Que bom seria
se a vida fosse um roteiro
com direito a remanejo
com direito a reversão
história de segunda-mão…

Mas não é.
O escritor desse roteiro
dá o direito de escolha
só que é feita no escuro
ninguém é dono da história.

A LUA E EU

A lua me deixa assim
inquieta
com o mundo nas mãos
o mar ao meu lado
querendo amor e amar. 

Querendo um abraço
que me abraçasse por dentro
aquietasse-me a alma
suavizasse os gritos roucos
do meu coração.

A lua me deixa assim
querendo o calor da sua pele
suas mãos me tocando
seus lábios ao meu alcance
mas eu não tenho.

Posso sentir com intensidade
o silêncio da sua inexistência
uma fera estoura as grades
que embriaga esta  vontade 
que eu tenho de buscar você.

Já não sei quem sou
com passos felinos
esgueiro-me pela vida
procurando o sentido
do que a lua me proporciona.

Vejo-o nos braços de anjos
a embalarem seu sono
coberto de sorrisos mansos
paz e docilidade…
Falta coragem à fera…

Você já foi fera um dia
entenderia?…
O medo me consome
violenta meus sentidos
deita-me ao mar sereno.

Tentáculos do mar me abraçam
como se ele pudesse
fazer-me o que você faria
na volúpia desse momento eu vejo:
não é bem isso que eu queria…

Queria que você fosse o mar
adentrasse a alma e o coração
possuísse meu corpo
tomando-me um pouco
da vida que explode em mim.

Queria os seus beijos quentes
que abrasadores, intrépidos
arrebentassem minhas correntes
libertando-me para sempre
deixando-me voar livre outra vez.

E de repente
a imagem refletida no espelho
parte-se lentamente
cacos de medo se desprendem
lembro-me onde tudo começou…

A lua me deixa assim…

ÁGUA DOCE DO RIO

A água do rio é doce
só até chegar no mar
pois quer queira ou não queira
ele sempre há de chegar.
E ele vem petulante
certo de que irá adoçar
com sua mansidão de longe
toda a violência do mar.
Ao perceber seu engano
se enfurece e quer voltar
mas é sempre muito tarde
a pororoca se dá.
O mar, em contradição
abre os braços e o recebe
no melhor do coração
como o amor que lhe apetece.
Nessa suave união
corpos se banham felizes
sentindo o sal do mar
e a mansidão do aprendiz.
Que sem ter pra onde ir
aceita seu novo destino
vai entrando com carinho
no gigante tão humilde.
Essa magia tão bela
que ao rio, o mar aquartela
vale a pena conhecer.
Sentir na alma e na pele
a carícia inconfundível
de águas doces que se salgam
deixando então de ser rios.

ANTES DA PRIMAVERA

Minh’alma e coração dançam felizes
pelos campos de trigo do outono
mas é também primavera em mim
floresce o nosso jardim…
Desabrocham  nossas primeiras flores…
não estás comigo para a colheita
mas fizeste parte do plantio, esperarei
sei que chegarás algum dia, na praia eu o verei…
Por isso colho atenciosamente cada uma das flores
eu as guardarei com carinho, se precisar
secarei as pétalas em páginas do livro
onde começamos a escrever a nossa vida!
Meus olhos buscam, teimosos, o horizonte
que já haviam abandonado…
nele também floresce, as mais lindas flores
cultivadas na tristeza da tua ausência…
Mas amanhã (que eu sei, haverá de chegar)
elas ainda estarão vivas comigo
e eu poderei te entregar… não demores amor
venha antes da primavera voltar!

ARCO-ÍRIS

Gosto do branco nos meus lençóis
imaculada e ousadamente puros
rude contraste com o qual premeio
o corpo em sonhos de paixão desfeito. 

Gosto do azul, anil ou royal, claros
caminhando na praia em devaneios
na espessa bruma da madrugada,
ouvir as ondas me cantando enleios.

Gosto do verde, que me lembra as matas
onde meu corpo jovem se embrenhava
buscando flores que eu nunca mais vi
 cujo perfume eu nunca me esqueci.

O vermelho, de todas, a minha preferida
relembra-me paixões da minha vida
se não foram tantas, bem que foram lindas
a saudade delas, não chegará ao fim.

Elas lembram alguém forte e tão amado
que me arrancava desse mundo ingrato
impunemente deitados na macia relva
trocávamos sonhos e vida.

Nunca esquecerei, de tão doces beijos…

AOS VERSOS DE UM POETA


Tarde morna… sol abraçando a serra
a sua tão amada serra menina.
Ao longe, um pássaro canta:
bem-te-vi, bem-te-vi, eu bem que te vi… 


É mais que um lamento, quase um grito
incontido, de tristezas feito
nesse canto de harmonia, acontece a alquimia
transformando o triste em belo: perfeito! 


Não chora a ave. Chora a vida pelo que fez
pelo inusitado, fatal e rudemente provocado
o brilho que vê naqueles olhinhos, creia
é só o reflexo dos teus olhos…


Abra suas mãos, que de versos é feita
pois é sempre de versos as mãos de um poeta
deixa que o doce pássaro pouse  sobre elas
passe a cantar a dor, que ele sente também.


Talvez se surpreenda pela compreensão
que abranda-lhe no peito, a dor da missão
e cantarão juntos, o mesmo gorjeio lindo
brilhando seus olhares, como tantas vezes.

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Santos, São Paulo

Maria Granzoto (Caderno de Poesias)

MINHA MÃE 
  
 Em teu colo
 Repouso a minha dor…
 Forte é o poema que cresce
 Por amor
 ao teu amor
 Neste solo tão agreste
 Da tua ternura…
 Daquele olhar tão cândido
 Os meus olhos a procurar
 Como em busca do alívio
 Para a dor luarizar…
 Foste para as alturas,
 Deixaste o nosso convívio para sempre!
 Eu, às penas duras,
 Confesso que o tempo não resolve,
 Pois ele também não cicatriza
 As chagas da tua ausência,
 Não enfraquece a saudade,
 Não suaviza a demência
 Que a tua falta me faz!
 Só provoca a imensa vontade
 Que eu sinto de te abraçar!
 Neste mundo, nada, ninguém,
 Há de apagar a imagem
 Do branco
 da tua tez
 E dos teus pequeninos olhos
 A olhar-me
 pela última vez…

NADA

 O vazio é pleno
 A ausência angustiante
 Do nada sereno.
 Não há busca.
 É tão alucinante,
 Que nem assusta mais.
 Não há o mirante,
 Não há mais paz.
 Não há tolerância.
 Nada é comedido.
 Só, a ignorância
 De pobres sofridos,
 De almas vagando,
 Procurando guarida.

 QUEM CEIFA, CORTA!

A foice corta e ceifa.
 Resta o cepo
 Da árvore decepada.
 Devagarinho é arrancado e,
 Ambos,
 Em carvão, transformados.
 A terra geme pelo que lhe foi tirado
 de modo brutal.
 Mas lá vem o animal
 animando o arado
 arranhando seu ventre
 já violentado…
 Volta o homem
 com sementes espalhando,
 na cova certa,
 esperanças para tantos
 que há tanto já não comem.
 Nada mais causa espanto.
 É uma cena perfeita:
 Que falta faz 
 uma farta colheita!

SAL DA SAUDADE 

 Vai alta a noite.
 Os pensamentos, desalinhados,
 descem em açoites
 desesperados.
 Desesperança de um porvir
 que é lento,
 um amargo sentir
 sedimentado com o cimento
 da saudade que insiste
 em ficar me assistindo…
 Para quê vim?
 Para consumir as dores,
 consumar o fim?
 Não vê que no seu mundo,
 Continuo não existindo?
 Não mais reconheço as cores,
 não mais me reconheço em mim.
 Amanhece.
 Também amanheço
 De um jeito meio esquisito:
 Acabo de ver a saudade, brilhando
 No imenso do infinito…
 O sol aquece.
 Eu, inerte, padeço.

AMOR EM SILÊNCIO

Na noite de sono agitado,
 Insone, clamo teu corpo sem rosto…
 Grito em silêncio teu nome, amado!
 Lavro a palavra lavada
 em silencioso silêncio…
 Esse silêncio que pensa
 e produz a miragem
 da tua imagem…
 Talvez sejas a pergunta
 que em silêncio faço ao vento silente!
 Quantas coisas me dizes na quietude,
 que eu, demente, doente de amor,
 arquiteta da dor, não decifro esses
 planos que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
 Num frágil fragmento de silêncio,
 tento harmonizar o silêncio e a solidão.
 O nosso silêncio tão cortado
 pela imagem da ilusão.
 Na indagação de gestos tão vários,
 há o silêncio
 das palavras várias,
 com tantas variantes!
 E o silêncio, vibrante,
 mostra as variáveis
 incontroláveis
 que me expõem ao avesso da dor que explode
 ao abrir-se em amor…
 Então, na tela fico à espera da poesia que há por vir,
 que há de ir com certeza, exprimir
 a tua meiguice
 e a minha sandice…
 E em silêncio a minha poesia começa
 onde termina a tua ternura
 e prossegue a minha desventura.
 Em silêncio…

DOAÇÃO

 A você, doei-me por inteira,
 Sem ao menos, antes, conhecê-lo!
 Surgiu, então, um profundo golpe na velha madeira
 Que tombou a árvore que não fez por merecê-lo!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Doação de coração que dói,
 Qual verdadeira ferida!
 Maldade que a alma corrói
 Nos percursos e revezes da vida!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Amo-o tanto e tanto!
 Confessar que nem pareço verdadeira!
 Nada, ninguém faz cessar o pranto
 Que em mim desaba, feito cachoeira!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Apagaram o meu sol e assopraram a minha luz!
 Mataram minhas estrelas, minhas flores!
 Sufocaram o meu sentir e o transformaram em cruz!
 Aprisionaram meus pássaros em gaiolas sem cores!

 Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

 Mutilaram o meu sentir,
 Meu grito lancinante, ninguém para ouvir!
 Nenhum afago nas noites insones
 Quando vivo a gritar você, seu nome! 
Sem tino, sem rumo,
 Sem vida, sem prumo!

ENTREGA 


Foi assim, bem me lembro…
 Nossos olhos diziam por
 nós…
 Estaríamos, um dia, atados
 por seguros nós…
 Até que chegou a hora, o dia!
 Foi um querer não sabendo se queria,
 se deveria…
 Nada falamos. Você me sorrria,
 eu, também, sorria!
 Demo-nos as mãos…
 Eu, trêmula, fui docemente levada ao seu peito!
 Não teve jeito…
 Corpos colados, bocas entreabertas,
 Levemente se roçando…
 Arfantes!
 Você me querendo,
 eu, me entregando…
 Então, nossas bocas se uniram,
 Nossos corpos vibraram,
 Ali, no chão,
 doei a minha alma!
 Entreguei meu coração!


Fontes:

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Paraná

Neoly de Oliveira Vargas (Caderno de Trovas)


Nasceu em Sapiranga, Rio Grande do Sul, em 26 de dezembro de 1926. Professora do Ensino Fundamental, especializada em alfabetização, aposentada. Delegada da UBT em Sapucaia do Sul, aonde reside há cerca de 60 anos. Membro da UBT Rio Grande do Sul deste 1986. Tem diversas trovas premiadas em concursos e Jogos Florais.

Ao marujo que anda absorto,
cuida que o dito malogra,
“um amor em cada porto”
e em cada porto uma sogra!

A verdadeira amizade,
não exige recompensas,
assim como nos aplaude,
nos corrige, sem ofensas.

Cansado, o velho marujo
tenta a manobra no cais,
o caso é que o dito cujo
nem consegue atracar mais.

Doces lembranças guardadas,
no peito, quem não as tem?
De caminhar de mãos dadas
por sobre os trilhos do trem.

Entrou no mar, o “pelado”…
saiu correndo do banho,
com um siri pendurado
num lugar, pra lá de estranho.

Herói dos inconfidentes,
não conheceste a vitória,
mas teu nome, Tiradentes
ficou gravado na História!

Lembra uma taça de vinho,
de inebriante sabor,
quando, com muito carinho,
tu me beijas, meu amor.

Numa ilusão, tal criança,
volto sempre ao mesmo cais,
naquela doce esperança
de te ver uma vez mais.

… O problema é que essa gente,
com tanta “oferta” hoje em dia,
vai logo pros “finalmente”,
pois nada mais arrepia!

O Rosário de Maria,
a meditar nos conduz,
são as lágrimas que um dia,
Jesus derramou na cruz.

Pelo sol, pela beleza,
deste céu, do mar, da flor,
e por toda a natureza,
eu te agradeço, Senhor.

Pra que teu lar seja um templo,
pleno de amor e de paz,
mostra o caminho do exemplo,
que é sempre o mais eficaz.

Quando a saudade me abraça,
num devaneio febril,
até na nuvem que passa
eu diviso o teu perfil.

Quando a Olívia reclamou
dos “deveres” do marido,
o marujo retrucou:
– o espinafre tá vencido!

Surpresa a noiva ficou,
numa ansiedade maluca,
quando o noivinho tirou
a dentadura, a peruca…

Tanto ódio!…Tanta guerra!…
Mandai “bons ventos”, senhor,
aos quatro cantos da terra,
somente espalhando amor!

Tristeza, estresse, por que?
Tenha uma vida sadia!
– Participe da UBT,
faça uma trova por dia.

Um amigo verdadeiro,
é jóia que não tem preço,
na vitória, é companheiro,
nos ampara no tropeço.

Viver é recomeçar,
olhar em frente, sorrir,
é ter coragem, lutar
acreditar no porvir.

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Rio Grande do Sul

Carolina Ramos (Caderno de Poesias)

CÉU DE AMOR

Bastava o manto azul da fantasia
a oferecer à vida luz e cor…
Bastava uma semente de Poesia
para, de sonhos, um jardim compor!

Bastava acreditar que ainda viria
nos meus braços pulsar um grande amor.
O que nunca, meu Deus, pressentiria,
é que a vida guardasse tanta dor!

E se a angústia aceitei por companheira,
sinto, agora, feliz, por vez primeira,
a doçura de obter, sem pedir nada!

Que importam rumos que o destino assume,
se, sobre mim, há um céu que se resume
nesta glória de amar e ser amada!
1976
(in: Destino, p.64)

SÚPLICA

Dá-me, Senhor, a benção que resume
a certeza de que, crescendo aos poucos,
hei de chegar a ver o excelso lume
– privilégio dos bons, quiçá bem poucos!

Dá-me a graça de olhar, sem ter ciúme,
namorados aos pares, de amor loucos,
da saudade a esquecer o frio gume
e o coração no peito a dar-me socos!

Dá-me ver rosas, mesmo em vaso alheio,
a enfeitar este mundo, às vezes feio
– feio porque o egoísmo assim o quis!

Dá-me um punhado tenro de esperanças…
Dá-me o riso espontâneo das crianças…
– Mais nada eu peço, para ser feliz!
(in: Destino, p.98)

NOVA FRIBURGO

Loira “Princesa da Serra”,
das nuvens rasgando o véu!
Indago, serás da terra
ou doce visão do céu?!

Tens glórias de velho burgo,
cobrem-te rendas e galas,
mas, sempre nova, Friburgo,
vive a beijar-te o Bengalas!

Pelas nuvens resguardada,
meio aos penhascos da Serra,
Friburgo és concha encantada,
onde a Poesia se encerra!

Tua chave, hoje, me ofertas!
Isto me faz tua irmã…
e vejo portas abertas,
nesta festiva manhã!

Em troca deste presente
que me dás, Friburgo bela,
minha alma te abro e, contente,
verás que estás dentro dela!

E quando meus olhos ponho
no céu azul, sobre ti…
Não sei, Friburgo, se é sonho…
só sei que o teu céu sorri!!!
(in: Destino, p.186-187)

Fonte:
RAMOS, Carolina. Destino: poesias. SP: EditorAção, 2011

Deixe um comentário

Arquivado em caderno de poesias, Santos, São Paulo