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Lurdiana Araújo (Caldeirão Literário do Tocantins)

CÁLICE

Se o amor acabou,
traz-me o cálice
que finda esta vida,
transforma minha alma
nas flores, na lua.

Se o amor acabou,
acabou-se a lida.
Traz-me o cálice
sem despedida.

Esquece as juras
Sob a luz da lua,
esquece que minh’alma
desejava a tua.

Esquece o silêncio
na madrugada fria,
minh’alma partiu,
sem despedida
pra longe da tua.

VIDA

A vida é uma metáfora tão mágica,
Que confunde até o crepúsculo da aurora.
O segredo está em saber acreditar.
O pingo da chuva quando se lança
Do firmamento ao chão,
Não é um suicida,
É um aventureiro
Em busca do mar.

SAUDADE

A saudade é uma flecha doída
Corta o peito, deixa a alma traída,
Nem mesmo as mágicas do tempo
Selam esta ferida.

Tece as rendas do tempo em nossa face
Nos escraviza, nos minimiza, tira da gente
O melhor da vida.

FOGUEIRA

Coração, deixa de besteira,
O amor é apenas uma fogueira
Queima a alma inteira.

Como fogo na lareira
Vai nos queimando como madeira
Nos consumindo a vida inteira.

É uma chama traiçoeira
Quer nos sufocar, apedrejar,
Aniquilar.

Nunca tente pular esta fogueira
Uma ferida corta a carne quer não queira,
E nos aprisiona nesta chama traiçoeira.

É inútil relutar, nem mesmo nossas cinzas,
Conseguem se libertar de alguma maneira.
O amor é apenas uma fogueira, chama traiçoeira.

MEU VÍCIO

Alucinação,
Loucura,
Palavra fria,
Ternura.

Foi se o tempo
Do meu ócio,
Desejar não posso.

Estou aprisionado
No meu vício,
Já quase não existo.

Fraquejante
Eu desisto,
Não da vida,
Do meu vício.

Esta paixão suicida
Que fiz de abrigo
Roubou-me a vida.
–––––––––-

Professora, escritora, poetisa. Nasceu em Filadélfia, Estado do Tocantins. Radicada em Brasília há quinze anos, é formada em Artes/Teatro. Especialista em Arte-Educação e Tecnologias Contemporâneas. Pós-graduada em Arteterapia.

Vencedora do XXIII PRÊMIO INTERNACIONAL DE POESIA NOSSIDE 2007 em Reggio Calábria – Itália.

Livros publicados: Querido Mundo (poesia) 2005. Participou de diversas antologias.

Página pessoal: http://ideiaspoeticas.blogspot.com

Redatora do site Cerrado Poético – http://www.cerradopoetico.com.br

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Caldeirão Literário do Mato Grosso do Sul (2)

Vanda Ferreira
Árvores

Braços múltiplos,
Mãos e dedos adornados
Com preciosos anéis;

Pés de confetes
Cipós, Flores,
Pernas vestidas
Com pele de musgo;

Corpo perfumado
Seiva de cheiro matuto;

Singra em mim
Acolhimento para poesias.
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Ileides Muller
Amor Concluído

Julgamento a revelia
no tribunal da razão.
A sentença:
“Amor concluído”.
“ARQUIVE-SE.”
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Ruberval Cunha
Corpos meditando

A solitude invade o universo.
Todo mundo tão sozinho, tão disperso,
Um em cada canto do universo.

Mas eu sou um sonhador
E ainda acredito,
Na extinção da solidão,
Pelo amor.

Almas se unindo
Corpos meditando.
O fim será o começo
E o começo está chegando.

O homem quer companhia,
Mas constrói a solidão
E sobrevive a cada dia,
No iceberg da razão.

Mas eu sou um sonhador
E ainda acredito,
Na extinção da solidão,
Pelo amor.

O fim será o começo
E o começo está chegando.
Almas se unindo,
Corpos meditando.
====================

Nena Sarti
Imagens

Toda virgem
Deveria pousar
Para fotografias
Antes de serem flechadas
Pelo senhor desejo
Esse transformador de sentimentos.

Nos retratos
Eternamente sem toques:
Os sorrisos puros,
Olhares cândidos,
Saudoso deleite.
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Luzia Ozarias
Flor de outono

Feito flor de outono
Tempo árido, manhãs frias
No alforge d’alma o que traria
Envolta em tão excelsa luz?

Doce essência, servindo a Divina ciência
No sutil aroma perfumando os ares
Envolvente, inebriante…ah, quem me dera!
Ter-te em meu jardim, e permanente.

Trouxe beleza que abraça e contagia
Nos olhos quase negros e brilhantes
Transformando a íris torturante
Em sereno aconchego. Quem diria!

Trouxe a esperança da bondade incansável
Refletindo o Doador imensurável
No viver de eterna bonança.

Trouxe fé inquebrantável e perene
Flor de outono, coração cálido
Seu nome é Luciene.
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Elias Borges
Mar e Fé

(para Maria Rejane Fernandes Borges)

Outorgou-me
esperança.
O fogo lambendo
seus olhos.
Troando em
minhas retinas
águas profundas.
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Toninho do Arapuá
Por Ti Amar

De mim já não precisa mais, meus sentimentos tanto faz,
Esquece que tirei as pedras do seu caminho,
Ofereci-lhe tanto carinho, sem nada lhe cobrar.
Na hora do seu desespero, fui eu o seu parceiro,
Aquele que lhe tirou do sufoco, hoje recebi um troco,
Sua atitude a nada posso comparar.

O que me deixou mais triste, foi à maldade que em você existe,
Quando consegue o que quer, é um salve-se quem puder,
Não importa a quem vai machucar.
Preocupa somente com seus direitos, esse é o seu pior defeito,
E ainda se faz de vítima, mas nada justifica,
Minha pessoa querer julgar.

Lamento com tristeza porque lhe conheci,
Por te amar muitas vezes não percebi,
Um sonho vivido pela metade, esta é a triste verdade,
Que demorei para aceitar
Porém, já esqueci minha magoa, na minha vida você é água passada,
O destino comigo foi caprichoso, mas o meu diário amoroso,
Seu nome consegui apagar.
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Tânia Gauto
Taperas

Não há cultura!
Ajudem! Rabisquem histórias.
Ergam costumes deliciosos.
plantem pés Mbaiá,
colham ritos Guarani,
encham o mar Xarayé.

Salguem carnes moças,
Temperem almas pobres.
Cantem noites vazantes,
Debrucem ais Paiaguá.
Vistam manhãs bonitas,
Namorem Maracajús.

Nas prateleiras de Barros
guardem bugras Conceições,
soldem nas calhas do tempo
Ferreiras, florais e Baís,
abram Mirandas estradas
salvem lendas Terena.

Proseiem Helenas horas
em dez cordas afinadas
e marquem de céu a chão
com as sementes, sangue porã,
que não há cultura nas águas,
mas, taperas escondidas nos Homens,
a serem catalogadas.
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Delasnieve Daspet
Sombras de Mulher!

Sou uma menina.
De meia idade.
De acordar preguiçoso.
Da tardes ensolaradas,
Dos beija-flores coloridos!
Sou uma menina levada
Que se fez mulher
Que se fez sombra
Para viver.
Uma sombra nas nuvens.
Uma avezinha canora,
Que dentro da gaiola
Morre de saudades!
Sou uma sombra
Que não teve poder
Para gerar o que
Foi gerado.
Que queria apenas amar,
Mas que amor busquei?
Será este argamassado
Em lágrimas?
Uma sombra bela.
Que martela na pedra.
Que corta o barro.
Para dar seu produto:
A inspiração!
Sou sombra.
Que se desespera.
Que errou por lugares longínquos.
Sou hera.
Colada na tristeza dos edifícios!
Sou desespero,
Que emerge do fundo dos ser.
Sou paixão.
Não posso repetir façanhas
Do passado,
Reincidir.
Sou sombra.
Apenas uma sombra de mulher.
Em busca de luz.
As liberdade desse amor que
foi
E é minha expiação!
==================

Fonte:
União Brasileira dos Escritores do Mato Grosso do Sul

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Aristóteles Guilliod de Miranda (Caldeirão Literário do Pará)

RUÍDOS

Traduzo meu risco de ser
buscando-te no desvão do eco
da palavra espanto
plantada no olfato de gestos
deste chão que planejo
assim como a natureza
da morte revisitada
em cada ausência.
–––––––––––––––-

PORTA-RETRATOS

A vida parada num sorriso
que desafia o tempo
e que se destrói
quando alguém
troca a foto
– que já não toca.
–––––––––––––––-

XXII

O cinzeiro mede a hora
e a alma
O tapete acalma os pés
inquietos
com seu carinho sintético
A lâmpada e seu olho quente
observam a
natureza morta do homem

Só o relógio, impunemente,
enterra o tempo
entre os ponteiros
–––––––––––––––––––

1964

Então, foi decretado o escuro.
Eu, que nem iniciara
o aprendizado da luz,
fiquei sem sol.

––––––––––––––-
MACACO

Do espelho ancestral me olhas
em caretas e curiosidade
como a perguntar pelas eras
em que eras eu

Semi-ereto, teu caminho
encontra meu destino recurvo

Em guinchos saúdas a razão
em seu caminho milenar
até a voz

Teus riscos no chão inauguram
as palavras com que te celebraria
mais tarde.
––––––––––––––––––

ANIMA/IS

em penas
em pêlos
em pele
– plenos de si

cantos e escamas
cascos, carapaça e casulo
caudas

seda envoltos
vital invólucro
vôo & passo
uivos

patas irmãs das minhas mãos
em asas e nadadeiras

quebra-cabeças da natureza
misteriosa mistura
de cheiros e gritos e textura
universo inverso
de mim
––––––––––––––––––

PARA SEMPRE

Remeter ao vértice
ao pubiano vórtice incendiado
em alegóricas auroras
entranhadas na hora amortecida
Entre pêlos
………………sábios
………………………..lábios
aludir segredos
diluir delírios
Sucumbir em vagas
em estridentes vagas ressoadas
como um bote
––––––––––––––––

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Age de Carvalho (Caldeirão Literário do Pará)

Aqui, em meu país
irremediavelmente nordestino e miserável,
à luz elétrica de meu século,
sob todos os alfabetos do medo e da fome;

aqui,
entre o homem e o homem
(como dois sistemas totais
num universo de águas inacabado),
aqui vivo.

De Arquitetura dos ossos (1980)

BOCA

a minha e a tua:
o ímã das línguas lança promessas,
letra-sobre-letra

À vera,
a tempestuosa mão da rasura
subjaz
negra no plural dos pêlos
à procura do selo mais profundo,

funda.

De Arena, areia (1986)

FAZER COM, FAZER DE

Estar, entre
estrelas e pedras,
interrompido

Resto de
ervas, tempo, entre dentes
detém-se
a palavra-refém,

réstia.
De Pedra-Um (1989)

SANGUE-SHOW

Esse o tempo—
em-sempre da serpente,
seu recobrado sentido
circular nas glebas
do sangue.

Chão,
subcutáneo, chão—
aqui se apaga
a veia vida/obra,
aqui a cobra
(intra-
vírgula
venenosa) insinua
entre ramas brilhantes
seu eterno s:

aqui, é-se.

Revista Inimigo Rumor, 7 (1999)

CORCOVADO

à Nelci Frangipani

Uma última vez
antes de subirmos,
braços abertos sobre
a flora brava, aqui
em baixo, onde colho
a despedida –

o tempo
só de abraçar
o abricó-da-praia,
meu amigo,
enquanto tu, trezentas
e terrena, davas
comida aos gatos.

POEMA COMPLEMENTAR SOBRE O RIO
A José Maria de Vilar Ferreira

O rio consagrado: a vazante
lembrança que escoa em maré
baixa e retorna — água escura
— na preamar

O rio sagrado: invólucro do céu
e margem, e duas margens
dos caboclos amantes. O rio

passado: cismando na crisma, paresque
dumas lembranças que trabalham a solidão:
o paralelo das margens, uma igara partida,
as águas sujas que sempre voltam.

A CADELA

Caminhava grave pela casa
a cadela.
A cabeça quieta era sua altivez
quadrúpede no centro da cozinha.
Caminhava. Os olhos, costelas,
o mar de ossos, o coração
pardo e lento – caminhava.
A manhã debruçava-se pela janela: cristais no pó,
o púcaro da china, horas de louça
batendo nas palavras na sala da casa.
A cadela caminhava, dura,
secular.
(Domingo dormia
prolongado como um funcionário feriado).
Vivera demais. Descansava à sombra,
perto do quarador.
Sonhava farta, invisível,
a cadela azul,
nua
(o sexo velho e molhado,
um caranguejo arcaico sob o rabo).
Dormia, vazia.
Outubro doía longe, na Ásia,
quando a Fuluca anunciou: “A Catucha morreu”.

De ROR (1980-1990)
São Paulo: Claro Enigma, 1990

IN ABSENTIA

E: ainda uma chance —
uma pedra se refolha
para o repouso,
o instante é
sempre presença

Ror de erros,
recolho repetidos
o que ainda me pertence

NISSO

que ascendeu
se revelou
e esqueceu

ponhamos uma pedra

SUMA

Quantas vezes
ainda por repetir?

Estão comigo, todas
de segunda mão,
não classificadas

ó anel
círculo mancha ervas
sombra relva irmã
estrela erro tumba
por companhia

pedra pedra pedra

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

só dizer
o que sei
e duvido saber, o sal
pela mão
do rio-sem
resposta —
um luxuoso dizer, de vagar sem onda
e vaga, fluvial, não aliterado;

um dizer repetido na diferença,
barrento, semi-dito, em Não fechado;

ou o não-dito, rios sem discurso,
nome por dizer ou dizer empedrado;

dizer sim o raro e claro do poema,
dizer difícil e atravessado, com margem
de erro.
—–

Fonte:
Antonio Miranda. www.antoniomiranda.com.br

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Caldeirão Poético do Pernambuco

Saulo Novaes

QUADRO DE OUTONO

Cai a última folha da árvore nua
Lentamente
Amparada pelos traços invisíveis
Do vento de Outono
E da janela, olhos que não vêem
Observam a dança da natureza
Enquanto os olhos reais
Passam ilesos por aquela cena

EXPLOSÃO POÉTICA

Pratico meu egoísmo
Numa poesia em primeira pessoa
Ao rimar-me num oásis poético
De versos livres.
Cantando a liberdade,
Saio à procura da perfeita
Forma que expressará
Aquilo que sinto,
E que me foge
Como a explosão de átomos.
============================
Sérgio Bernardo

HERANÇA DAS VÁRZEAS

-Que herança foi deixada
por teu pai, poeta?
-Uma serra gasta de suor
seixos de maré faminta
que afiava a lua minguada
em suas mãos

-E o teu pai, o que deixou?
-Uma casa no campo
outra na praia e contas bancárias
pela cidade

-Mas, e o teu? Só a lua minguada
e nada mais?
-Ele fora carpinteiro
e tantas vezes canoeiro
sabia das marés obesas e nuas.
Por isso não sou poeta
sou canoa e serra amanhecendo

-Diga-me então, já que não és poeta:
-o que ele faz hoje?
-Poda as nuvens em silêncio
para a minha chegada.

UMA LUZ, SÓ UMA LUZ

A um ano-luz ou laços infinitos
De uma aritmética suicida?

O calendário no mofo da parede
Sustenta a agonia das asas
E milhões de vidas
Juntam-se aos tigres enterrados

Quando começa a morrer o sol
De teus olhos
O calendário outra vez
Mostra-me o inatingível

Aí, vem a consciência:
Não compreendes?
A China já mora em teu rosto.

As nuvens de um chão aberto
Em rugas e brasas
Ainda se vestem de esperança.

O coração do amado
Viaja continentes
E chega ao teu, faz morada,
As fontes renascem
E a incadescência da manhã
Vive cantigas de pássaros.
===============================

Sergio Leandro

CANÇÃO PARA LISBOA

Há um mundo de águas e seres abissais
entre meu coração e Lisboa.
Mas eu sei que nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera

Minha canção também é feita de silêncio
e o meu tumulto se derrama nas horas vazias da noite…

Eu invoco as palavras sagradas
e ergo ao vento o meu estandarte
porque nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera.

ETERNA SÚPLICA

Morrer na flor da idade
Sem andar pelos pomares,
Sem colher os frutos doces…

Ai, meu Deus, não permitas tal!

Morrer na flor da idade
Sem ver se quer um filho.
Um filho!

Ai, Deus meu, não permitas tal, Senhor.

Ó Deus de todos os mortais,
De todos os crentes,
Deus de todos os ateus…

Deixa crescer a árvore junto às águas,
Deixa em silêncio a voz dos sinos,
Deixa.

CONCLUSÃO

O amor,
O ódio,
A violência,
O cosmo,
O infinito.

O que há de novo em tudo isso?

Nenhum dia se passou
Sem que eu pensasse na morte…

A vida é como a poeira
Que o vento leva,
Como teus olhos embaçados pela chuva,
Como eu mesmo quando me escondo.
======================
Sérgio Ricardo Soares

EPILIMNO

nunca bordou-se de singelas ondinhas azuis
o lago frio
nunca foi cisterna por cujo brilho
via-se plâncton

existiu -como é o comum nos dias –
com demasiada pouca luz
mal se distinguia o extenso lodo
que afinal nunca fora muralha assim tão mordaz

nunca o lago frio coalhou-se de gansos
os últimos fugiram sem grasnar
da sombra dos salgueiros

nunca pôde haver inverno branco
sob a sombra dos salgueiros
nunca se soube o sabor da pouca água
porque se desprezava com simples olhar
as poças pululantes de camarões

era remoto de qualquer rio
entre três montes humildes
só cheirava o vento forte
a longos juncos amarelados
aroma até doce
se vagasse em brisa
que no frio do lago nunca houve
e durou tanto

DRAMA

em verdade não é mais belo
o vôo do ranforrinco

atenção e notarás
como hesita um de seus braços
como se o espaço baixo fosse vastidão
e mãe dramática a vociferar algemas
como seus olhos repitílicos estão cheios
de falta de brilho de quem não encontra sua paz
e não a busca
e nem discerne os seres que lhe causam
esses embriões de pavor

o ranforrinco já é o assombro
de hibridez e esterilidade
vôo alçado ontem
e urgência de repouso
mas não se pousa no chão do futuro

não funciona por enquanto
a vida do ranforrinco
se ele soubesse que à frente
do ir está apenas a morte tamanha
—-

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Almir Câmara (Caldeirão Literário da Bahia)

POUCO, MAS BASTANTE

As coisas boas que não conhecemos,
sabendo até que elas estão em vida,
de faltas suas não padeceremos
se a nossa alma estiver abastecida.

Não vale a pena a elas se ter acesso
se para consegui-las for preciso
sentir nosso conforto agora opresso,
pois tempo futuro é muito impreciso.

Feliz do ser que o pouco for bastante
para levar a vida que ele gosta
sem a riqueza ver muito importante.

Quem reputa o bastante muito pouco
de muita coisa boa se desgosta
e se consome num viver de louco.

(04/07/1989)
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O SABOR DA TRISTEZA

Nada pode ser tanto condolente
quanto ver a chorar um sofredor
que está cativo de uma grande dor
sem ver um só calor que lhe acalente.

Não, não há nada mais comovedor
do que assistir as lágrimas de um ente,
que está a sofrer uma dor ardente,
fluírem sem tirá-lo dessa dor.

Suas lágrimas são sangue incolor,
mas que deixa impressões de alto calor,
fazendo a gente chorar com certeza.

Elas têm o sabor da água do mar,
sabor que não dá para costumar,
pois é também o gosto da tristeza.

(18/07/1990)
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CONFERÊNCIAS AMARGAS

Tenho do meu rincão muita saudade,
mas só do tempo que eu era criança,
pois lá eu só vivi toda essa idade
e tudo ficou fixo na lembrança.

Hoje se vê por lá outra verdade,
tudo se transformou, houve mudança.
Por toda parte tudo é novidade.
Para mim não existe mais pujança.

As árvores antigas não há mais.
O povo mais velho, também jamais.
De amigos que deixei, só referências

Até seu rio não é mais o tal,
está sujo, doentio, não vital.
É triste fazer estas conferências.

(10/10/1990)
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ENDEREÇO DA FELICIDADE

Se é um endereço onde há felicidade
que você está tanto na procura,
não vá onde houver pompa com fartura
nem onde muito houver necessidade.

No primeiro lugar há corredura
para sempre se ter prosperidade,
enquanto no outro, que disparidade,
só manter-se vivo é carreira dura.

Investigue onde o pouco for bastante,
onde não haja inveja assinalada,
onde parar se possa algum instante,

onde valor ninguém dê a adereço
e onde a raiva ninguém veja instalada,
pois, com certeza, é lá esse endereço.

(12/10/1990)
===============

O HOMEM FELIZ

O homem feliz não é muito exigente.
No geral é de classe média baixa.
Não é considerado diligente,
mas sempre tem algum dinheiro em caixa.

Também não é julgado inteligente,
sua cultura é de pequena faixa,
mas todos o acham uma boa gente
e a amizade de todos, ele encaixa.

Muitas vezes eu fico-lhe observando
viver bem sem haver tanta exigência,
e nesse exame dou-lhe o grau distinto.

E assim, sem ganas, vai se conservando.
Pode não ser de grande inteligência,
porém é um racional de grande instinto.

(14/10/1990)
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CALÚNIA, ARMA DO MAL

Se tua ira algum dia aconselhar-te
fazer acusações falsas a alguém,
contém-te, nada inventes de ninguém,
ainda que se ponha a atrapalhar-te.

Defende-te com as armas só do bem,
usando-as com justiça e com muita arte,
mas a calúnia deixe bem à parte.
Ela atingirá tua alma também.

Se a vomitares, num lance cruel,
pedes logo desculpas da desfeita,
confessando que tu foste infiel.

Faças como o cachorro que retoma
sua vomição logo após a feita
e do mal sanarás seu hematoma.

(03-11-1990)
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Sobre o Autor
Almir Querino Câmara, filho de Antonio Querino Câmara e Maria Madalena Lemos Câmara, nasceu em Faisqueira, vila do Município de Ubaitaba, Bahia, em 16 de outubro de 1932. Reside em Vitória da Conquista, Bahia, desde maio de 1964. É casado com Heleusa Figueira Câmara, tem 4 filhos (Diana, Mônica, Danilo e Verônica) e 6 netos (Matheus, Heleusa, Raquel, Isaque, João Pedro e Leonardo).
Formado em engenharia civil em 11 de dezembro de 1958 pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Foi engenheiro da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, Bahia de 16/03/1973 a 31/12/2005. É engenheiro credenciado da Caixa Econômica Federal desde maio de 1975.
Vem se dedicando a fazer versos rimados desde maio de 1989. Participou no livro Coletânia de Poesias, Volume I, da Usina de Letras, publicado em 2005

Fonte:
Antonio Miranda

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Benjamin Silva (Caldeirão Literário do Espírito Santo)

ESCADA DA VIDA

Julguei da vida haver galgado a escada,
essa escada de mármore polido,
que nos conduz à estância desejada
de um grande bem, raríssimo atingido.

Hoje vejo, porém, que quase nada
consegui, afinal, haver subido:
—ficou-me longe o termo da jornada
em que eu exausto me quedei vencido.

Pelos desvãos da escada mal me erguendo,
já sem noção e sem fé que anima,
nem sei se vou subindo ou vou descendo…

Por isso os seus extremos jamais acho:
—vejo degraus, olhando para cima,
vejo degraus — olhando para baixo!

(Escada da Vida, 1938)

CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM

Prisioneira feliz mas condenada
por leis irredutíveis e absolutas
a viveres assim encarceirada
nesta cadeia de montanhas brutas.

Mas que importa se é esplêndida a morada!
Pois daqui tudo vês e tudo escutas;

E o Itabira te guarda e te vigia,
como se fosse eterna sentinela
—carcereiro que vela noite e dia.

Tudo, afinal, te rende um justo preito,
Enquanto um claro rio tagarela
Rola, cantando, dentro de teu peito.

(Escada da Vida, 1938)
–––––––––––––-

Benjamin Silva (1886-1954)

Nasceu na Fazenda de São Quirino, distrito de Castelo, no então município de Cachoeiro de Itapemirim, a 20 de julho de 1886. Faleceu no Rio de janeiro, a 10 de junho de 1954. Poeta e comerciário. Foi diretor dos Armazéns Gerais da Empresa Guanabara, no Rio de Janeiro. Desde cedo dedicou-se à poesia. Colaborou em vários periódicos e desfrutou de prestígio nos meios literários de Cachoeiro de Itapemirim. Figura em várias antologias de poetas nacionais, com o soneto “O Frade e a Freira”, que se tornou um dos mais conhecidos da poesia espírito-santense.

OBRAS: “Escada da Vida”, 1938 (poesia), prefácio de Atílio Vivacqua e ilustrações de Santa Rosa.

Fonte:
BRASIL, Assis (organizador). A Poesia Espírito-Santense no Século XX. RJ: Imago; Vitória, ES: Secretaria de Estado de Cultura e Esportes, 1998.

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José Usan Torres Brandão (Caldeirão Literário do Paraná)

MEU ANIVERSÁRIO

De hoje a cinco anos, serei sexagenário
Estou tranqüilo, cônscio daquilo que me espera
Pois afinal festejo o meu aniversário
Mesmo sendo natural, ele agride e fere.

Debalde compensar com sonhos, dor que me invade
É o ser que desce a serra na sua calmaria
É o silêncio da noite na pequena cidade
A peraltice hipócrita da própria nostalgia.

É a ave que já tem o seu vôo mais curto
É o vôo que tem uma breve, curta duração
É o buquê em vaso de água que está murcho
Pouca vontade ademais de cantar uma canção.

QUE MUNDO!

Se nasce, já sai lutando
Se vive, já está sofrendo
Que estranho é o ser humano
Que aprende, mesmo morrendo

Na luta do dia-a-dia
No ouro para conquistar
Para contar, pouca alegria
Muita cousa para chorar

Na caminhada para o fundo
Quase nada para dizer
Voz uníssona do mundo
É melhor ter do que ser

Se essa voz a mim não veio
E o ouro não conquistei
Então nada tenho, eu sou
No meu reinado, sou rei!

O MÉDICO

Entre quatro paredes, seu mundo restrito
De grandes emoções, suas horas, dia-a-dia
Aliviar a dor, salvar vidas, está escrito
Sua missão, um sacerdócio sem hipocrisia.

Marcas do tempo, cedo batem à sua porta
Esclerose, enfarte, cansaço, depressão
Seu lar, que não é seu ninho, teme sua sorte
Médico, imagem tão mudada neste mundo cão.

Já não se fala dele como ser superior
Hoje, nome desgastado, luta pra viver
Como qualquer ser, anônimo, sem valor
Num mundo de mercado em que mais vale ter.

Médico, operário de Deus, salvando vidas
Também chora, também ama e também sonha
Na sua labuta com alma e corpo, suas feridas
Leva uma existência bem tristonha.

Não é sem luta que ele ganha fama
Nem é na flor que ele vê espinho
Num pedestal também joga-se lama
Médico, não ligues, segue o teu caminho.

MEU VELHO CHICÃO

Caminhas lento com a mesma altivez
Já não sou o mesmo, os anos se passaram
Minha infância está ligada a ti, velho Chicão
Fonte dos primeiros sonhos que voaram.

Brinquei em tuas águas
De dono do mundo
Que ironia
Com meus amigos de infância
Que nunca mais eu vi
Pois tudo se passou.

As imagens vivas
Que hoje guardo
Pura fantasia
No meu mundo de sonhos
Que o tempo desabou.

És perene
Mas de ti sinto saudades
Pois sei, nada temos em comum
Vives passeando alegre entre cidades
E eu, entre os tristes da vida
Sou mais um.
–––––––––––––––––––

O médico José Usan Torres Brandão nasceu em Senhor do Bonfim – BA, no dia 30 de novembro de 1929. Formou-se em medicina em 1953, pela Escola de Medicina da Bahia, em Salvador. Exerceu a medicina no Recôncavo Baiano e em Maringá. Autor de Descendo a serra. Membro da Academia de Letras de Maringá, Cadeira nº. 03, cujo patrono é Alphonsus de Guimarães.

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Clara Góes (Oratório)

Não
não tem traço reto aqui

no fundo
curvas
cravam
auroras em cantos
improváveis.

Um macaco joga
dardos no
Sagrado Coração

e a lua num cristal claro
embalsama
a solidão.

————

Sobre a autora

Psicanalista e professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Clara Góes nasceu no Rio Grande do Norte e escreve poesia desde 1986. Sua grande estréia no mundo da poesia, no entanto, aconteceu em 1989, quando lançou o livro As aranhas. Um ano mais tarde, em 1990, publicou os poemas reunidos em Cinema Catástrofe. A partir daí, não parou mais. Lançou Pedra do Morcego, em 1991, Poeira, em 1992, e Caravelas em 1995.

Ao longo desses mais de 20 anos, a poeta também se revelou como dramaturga e escreveu três textos para teatro. O último deles, Abelardo, Heloisa, lançado em 1995, deu origem a uma peça encenada por Moacyr Góes e protagonizada por Herson Capri e Letícia Spiller.

Seu livro mais recente, Pão e Chocolate, que será lançado no próximo Terças Poéticas, tem as orelhas assinadas por Heloisa Buarque de Hollanda, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que comenta que “a leitura dos poemas de Clara de Góes, curiosamente, sempre me provocou não apenas prazer, mas, sobretudo, um conforto muito grande. Uma sensação de proximidade, ou mesmo intimidade, com sua experiência, sua história, suas entrelinhas”. Para ela, essa proximidade está relacionada ao universo poético onde Clara se move. “São tramas e temporalidades históricas complexas. Um espaço no qual me sinto inexplicavelmente inserida”, completa.
–––––––––––––––––––––––––––––––––––-
Fonte:
Antonio Miranda

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Clauder Arcanjo (Caldeirão Poético do Rio Grande do Norte)

ATÉ ONTEM…
(POR ENTRE RESTOS DE ROSAS)

Até ontem, a tarde trazia
um pouco de cheiro de rosa,
apesar de serem poucas
as floradas do meu jardim.
Havia, na cumeeira das casas,
o medo aos morcegos,
aos fantasmas desdentados,
e aos bruxos de antanho.
Mas, nesta tarde fria e longa,
me encontro sem halo
de camélias, e com o vaso
aposentado das rosas.
E com um espinho lancinante
na fala, recendendo a abandono.
Sem jardins, vejo a noite
cair pesada, e tenho saudade
dos meus fantasmas,
dos morcegos de Santana, e
dos bruxedos do faz-de-conta…
A vida lá fora me garroteia,
e agarro-me a estes humildes
restos poéticos, único barco
deste pouco que ficou de mim.

DESPOJOS

O palhaço partiu,
os balões ficaram flácidos,
o bolo carcomido, e
as crianças despedem-se sem graça.

Na rua em frente, um balão a quicar,
com o vento trigueiro a levá-lo…
Preguiçoso, a rolar pelas pedras,
cabreiro, a acenar para a noite da favela.

De repente, uma luz dúbia na janela,
um olho na fresta, e um coração,
infante, a rezar pelo atraso do lixeiro,
para reinar cedo nos despojos da alegria.

MEANDROS

A noite não vem,
o sol não quer se despedir,
e a felicidade pende como promessa.
Enquanto isso, lá fora, nos meandros
dessa tarde infinda, o bicho-homem
insiste em festejos, apesar do peito,
necrotério, repleto da nefasta abulia.

A REGALIA DE UM DESVARIO

Na beira da estrada solteira,
cabelos lisos, sem riso.
Em meio às pedras toscas,
a regalia de um desvario.
À leira do cântico, em estilo,
os versos a escorrerem da boca.
Dentes a mastigar o uivo
da aurora, amistosa, a lhe fazer
em lobo. No canto, contido.

DAS ESCOLHAS

De todas as dores, a mais do meio;
Dos loucos amores, quero o mais doído.
Das flores, a da rosa do centeio;
Desta fria noite, o mal, calmo e banido.
De tudo, o resto do resto do pouco;
Do pouco, pouco, o que foi mais moído;
Mas que, desta funda noite, escoa o soro
De uma vida por demais ultra-sentida.

CABRA DE PEDRA
A João Cabral de Melo Neto

Ser racional, rocha, pedra.
Fitar o consciente, faca afiada.
Correr com o rio do riso, banir o tolo sorriso.
Exorcizar a volúpia, o transbordamento.
Arquitetar, raspar os excessos.
Ouvir o canto primal, verão solar.
Procurar, catar a palavra exata, sonata-miolo.
Nada que falte ou exceda.
Mastigar, ulcerar, triturar o excedente…
Tecer o cerne da pedra, miolo inconsútil da pedra…
………………………………………………………………………
Arquiteto da pureza que choca,
Fostes o maior dos estetas – anti-supérfluo:
Cabra, e cobra, do pensar, e criar, com pedras.
A pedra das pedras. Sem plumas, com unhas.
Poesia severina. Tradução de todas as sinas.
====================================

Fontes:
Antonio Miranda
Jornal de Poesia
Imagem = montagem José Feldman

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Clovis Andrade (Clamor do Mundo)

OS QUE NÃO VIRAM E CRERAM

“Bem-aventurados os que não viram e creram”
(S. João, 21-29)

Felizes são aqueles que passaram
a vida toda crendo e não mentiram,
muito embora sem ver não desdenharam
de coisas que seus olhos nunca viram.

Felizes são os que testemunharam
com viva fé coisas que sentiram
e disseram ao mundo, e acreditaram
em fatos tais que os parvos repeliram.

Bem hajam os profetas que tocados
pela graça de Deus compreenderam
os mistérios da vida irrevelados…

Com os olhos do Espírito buscaram
a Verdade dos que não viram
que, à luz da Eterna Lei, edificaram.

TUDO É DEUS

Mercê de Deus, segundo o panteísmo
a natureza é Deus, assim disperso
no todo e parte pelo sincronismo
das leis do Amor, regentes do Universo.

E Deus é Amor. Está no idealismo
de Spinosa e Platão, no mundo imerso
do espaço-tempo, em meio ao dinamismo
das Esferas, sistema incontroverso.

Deus é o mundo pensando, a sinfonia
da vida, épico poema que exaltamos,
ante o poder da cósmica Energia!

Deus é tudo que existe. Tudo é Deus.
Vibra na idéia, no ar que respiramos,
Desafiando a tese dos ateus!

NÃO HÁ MORTE

“Ora, Deus não é de mortos, e sim, de
Vivos. Laborais em grande erro.
(Marcos, 1: 27)

Somos mortais na carne perecível
por um determinismo universal,
como somos na lei do incogniscível,
algo de Deus, espírito imortal.

Dí-lo bem a Ciência do Invisível;
— a morte é vida à luz potencial
dessa Verdade eterna, imperecível,
culminando sublime no “Eu” real.

Sem os olhos carnais, vislumbro a vida,
além dessa aparência fementida,
em conceitos profundos, positivos…

Nesse reino de Amor e de Verdade,
não há morte, mas imortalidade,
pois “Deus não é dos mortos, sim, de vivos”.

NEGATIVISMO

“O homem é senhor e soberano de tudo que sabe,
Mas é escravo de tudo que ignora”

Por que negar o que se desconhece
no mau vezo de tudo confundir,
o que parece ser e não parece
pelo simples negar, sem perquirir?

Por que negar mofando o que acontece,
em vez de analisar para convir,
onde o poder da Mente permanece
pela razão de ser e de sentir?

Porque o Espírito está na realidade
de tudo acontecer em Luz e Vida
para o conhecimento da Verdade!

Contra os que negam por inconseqüência,
na sua concepção indefinida,
negando por negar sem consciência!

REENCARNAÇÃO

“Segundo o critério espiritualista, o conceito da
evolução implica a necessidade da palingenesica
”.

Dentro da Filosofia
dessa Lei de Causa e Efeito,
só a Verdade faria
de Deus o justo conceito.

Como até compreenderia
a razão do preconceito
de seitas de fancaria
que não merecem respeito…

Ao Carma não há fugir,
pagando em múltiplas vidas
tanto crime a redimir…

Só é crível a redenção
com as almas redimidas,
segundo a REENCARNAÇÃO.
===============================

Sobre o Autor
Clóvis Jordão de Andrade (Pseudônimo: Clóvis Andrade ) nasceu em Macaíba, RN, em 1903.
Obra poética: Imortalidade Poesia ; Musa Amiga do Sonho Poesia ; Versos Diversos Poesia; Clamor do Mundo (Recife, 1959). Livro de inspiração religiosa, cristã, em toda a sua extensão, deste poeta pouco conhecido. Um espiritualista, que acreditava na Reencarnação.

Fonte:
Antonio Miranda

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Artur Eduardo Benevides (Caldeirão Literário do Ceará)

Soneto inglês

Na divina tolice dos que amam,
Quando se traçam rumos sem sentido.
Algumas cousas belas se proclamam
Do acontecido ou do inacontecido.
De repente, fiquei enamorado!
Será, talvez, na idade, uma loucura.
Mas, se é destino meu mudar o fado,
Já sei que o desatino não tem cura.
Por que somente agora vejo tudo?
Por que guardas em ti tanta poesia?
Com tua luz ficou feliz e mudo
Um coração que a morte pressentia.

Mas, esse amor, que agora em mim se enflora,
Será por certo, o último, Senhora.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Soneto em Recife

Tão leve qual capulho de algodão
Que a brisa da tarde transportasse
Sinto o doce luar de tua face
Sobre o azul dos gestos em canção.

Mesmo distante, vem-me tua mão
Trazendo a flor que agora despertasse
Na manhã de teu sonho, de que nasce
A paz das verdes relvas pelo chão.

Que fazes por aí? Aqui, eu teço
Uma saudade enorme. Não te esqueço.
Se te, esquecesse, já estaria morto.

Muito tempo custou-me a travessia
Até te achar, nas ilhas da Poesia,
Iluminando as noites do meu porto.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Elegia cearense

1.
Longo é o estio.
Longos os caminhos para os pés dos homens.
Longo o silêncio sobre os campos. Longo
o olhar que ama o que perdeu.
Já não vêm as auroras no bico das aves
nem se ouve a canção de amor
dos tangerinos.
A morte nos abóia. Exaustos, resistimos.
Se se acaso caímos os nossos dedos
começam a replantar a rosa da esperança.
Ai Ceará
teu nome está em nós como um sinal
de sangue, sonho e sol.
Chão de lírios e espadas flamejantes,
território que Deus arranca dos demônios,
mulher dos andarilhos, dálida da canícula,
em nós tu mil rorejas. Pousas. És canção.

2.
Para cantar-te me banho em tua mem’;oria
e ouço a voz enternecida
diante de esfinges soluçando.
Oh! ver-te apunhalada — e o sol
roubando tua frágil adolescência
e ponto em tua face o esgar
de quem se sente, súbito, perdido.
Teus pobres rios secam
os galhos perdem os frutos
as aves bicam o céu
fogem as nuvens.
Então ficamos escravizados
à tua sede austera, ao teu desejo
de um dia seres bela igual às noivas
que se casam no fim dos teus invernos.

3.
Triste é ver as crianças finando-se nos braços
de mães alucinadas que vendo-as à morte
inda cantam de amor canções do tempo antigo.
E ficas desesperada vendo os filhos
ao longo das estradas onde há pouco
trabalhadores cantavam an entardecer.
Mudas a voz, então: és cantochão
és réquiem crescendo à sombra dos degredos
és rouca como presos que murmuram
palavras dos dias em que foram
jovens e felizes.
Para cantar-te, Bem-Amada telúrica,
seria feliz se vez de vãs palavras
tivesse em minha boca chuvas e sementes.
Ai, viúva do inverno, flor violentada,
teu sol não brilha: queima. Mas um luar
renasce sempre no olhar
dos homens.
Ó grande olhar de pedra, sede e solstício:
te dessem um novo reino e nunca aceitarias!

4.
Belos são os teus frutos porque difíceis.
Em cada sepultura nasce uma rosa.
Em cada filho teu o amor é como o inverno.
Jamais tu morrerás. Não seríamos fortes
se por ti não estivéssemos em vigílias cruéis, ó mãe!
Mas se as chuvas te querem
como louco partimos
para o amanho da terra.
Os campos então ficam maduros
qual ventre de mulher,
e as bocas
— tranqüilas e felizes —
gritam
palavras de amor
que erguem
primaveras.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

A sombra das palavras

As palavras nos recriam.
Às vezes, belas, nos reconciliam
com o vôo das cousas em mistério
ou o magistério
da solidão das nuvens do Sião.

Elas guardam a prenhez
de lobas solitárias. A lividez
das cousas fontanárias.
E as albas e os montes
cobrindo o descolor de velhos horizontes.
Ou de nossas feridas e súbitas partidas
para o nunca mais.
E tudo nelas é um velho cais
onde tentamos amar. E ancorar.

Podemos ir a Tebas, dançar em Babilônia,
ou ter uma alma dórica ou jônia.
E partir para o desconhecido.
Ou sermos apenas um gemido
por não havermos beijado os seios da Donzela
em sua cidadela.

As palavras são fendas
de onde vemos palomas descerem sobre lendas
e canções emoldurarem as moças nas varandas,
ou as plumas da tarde, as cousas mais brandas
e as pedras sagradas
em que se escondem as cartas das Amadas.

Em ritmo e verdade celebram a desventura
de nosso desviver e a incessante loucura
do entardecer fatal da Poesia.
Às vezes, têm o cristal puríssimo do dia,
mas chegam com leveza de pés de bailarinas
ou de róseas algas vespertinas
dormindo sobre espumas. E são brumas
abrindo-se no verso como rosas,
frágeis e formosas,
quais luzes de estrelas num rondó.
E mesmo poucas e loucas
estão nos sete anos de Jacó.

Os poetas são seus turiferários,
que êxtases ofertam, nos itinerários,
com um canto a prolongar
por terras de Aragão, ou às margens do Jordão,
fazendo do sonho uma estrela polar.
Em seu ir e vir
pelos campos desertos ou as tardes de Ofir,
tentam limpar a pátina e o bolor
do tempo interior.
Ou fazem renascer o perfume e o lume
da espera e da vida.
E essa é sua glória. Sua lida.
Seu barco, a descer, lento
pelos rios de nosso pensamento,
enquanto em sedução e solidão
transformam-se em abismo ou alumbramento.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Soneto autobiográfico

O meu modo solene, o jeito vago,
A metódica forma de enfrentar
Os problemas, as lutas, o desar
E as outras cousas que em silêncio trago,

Nasceram quais nenúfares no mar,
Ou serenas visões de um grande lago.
Mas nunca os procurei, tampouco afago.
A minha face externa, singular.

Habito etérea torre em decadência,
Mas essa é minha marca de existência.
O meu destino. Ou sorte. Ou meu fanal.

No coração, contudo, vos abraço
E sigo pelo sonho passo a passo,
Tentando ser moderno e provençal.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Momento

O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto
dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
E aquilo que emergiu
é o emergente.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Num sonho

Em minhas mãos tomo teu rosto agora
E não sei se esse gesto vai ferir-me.
Não sei se fico aqui, pensando em ir-me,
Ou se a teus pés sucumba sem demora.

Tenho medo de amar! Vou demitir-me
Desse ofício de sonhos. Vou-me embora.
Mas, o Amor me chama e nele ancora
O meu jeito de ser e de exprimir-me.

Tomo teu rosto, então, por um minuto.
Um grande amor, do eterno claro fruto,
Envolve-me de todo e com loucura.

Entregue fico então ao meu desejo
E ficas em meus braços e te beijo
E morres de prazer e de ventura.
——————–

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Tarcisio Costa (Caldeirão Literário do Ceará)

O Meu Viver

O meu viver não é uniforme,
Ele tem curvas,
mas é também linear.
Ele tem altiplanos,
mas tem suas depressões,
Ele é sorriso,
mas às vezes é tristeza,
Ele é tumulto,
mas é também paz,
Ele não é soma
nem divisão,
Ele não é amálgma
nem ferro gusa,
É, quem sabe,
a média de tudo.

Meu viver são fragmentos,
São “flashs” dos meus momentos…
Ele foi o ontem, ele é o agora
E poderá ser o amanhã…
==================
Poesia em Conflito nos Corações

Poesia, rigor das regras, obra prima,
Musas, sonhos, encantos, inspiração,
Alma e enlevo, encontro, repleta emoção!
Tantos amores, sonhos… obras sem rima…

Cantilenas, sem pé, se cabeça, sem fim,
Transtorna a natura, borra o firmamento,
A musa confusa invade o pensamento,
Reverberações qu’indefinem o sim.

Oh! Bardo em vão o teu fecundado lirismo,
Seguiu nas contravias do parnasianismo,
Conflito de indefinidas emoções…

Poetas! Versos impuros improvisados,
Gargalhares com ais e prantos derramados,
Dos feridos, maltratados corações.
=======================
Falta de Um Amor

A cadência da poesia
Tem das fadas, a beleza,
É sonho, é encanto é certeza
Do palpitar da alegria.

Som plangente do violão,
A duetar com o violino
No toque do feminino,
No agito do coração…

Esses meus sentidos versos,
Um bradar de um sonhador,
São sentimentos inversos

De um ilusório clamor.
É o meu sonhar, é emerso
À procura de um amor.
====================
Alternâncias

A vida é uma soma de circunstâncias.
Em tudo estão surpresas, não há linearidades.
É uma sucessão perene de alternâncias
A vida, assim, é ajustada em novidades.

A alegria, a dúvida, a incerteza,
São contrastes representados
Pelas perdas ou sucessos não colimados
Ou pelas láureas, a magnitude da grandeza…

Há uma permanente busca de soluções,
O que impõe maior dinâmica à vida,
Para serem evitadas as apreensões.

Até a serenidade da alma
É entremeada de dúvidas e de ludíbrio.
Daí, vem a inevitável perda da calma,
O embrião do desequilíbrio.

Advêm, então, a razão e as emoções,
Pilares que sustentam o inconsciente
De uma forma peremptória, permanente,
São os reflexos das ações.

Apenas a noite e o dia são alternâncias,
Programadas, adrede, pela natureza,
O que significam uma constância
A única certeza…

Tudo, no entanto, são apenas os meios
Ou, apenas, mero instrumento apoiador,
Que, no arroubo dos entremeios,
O objetivo final é O AMOR!
====================
A Mulher e a Poesia

Veja, preste atenção,
Que cuidado teve a natureza,
Para deixar o mundo com mais beleza!
Criou o céu enfeitado de estrelas…
Criou o jardim e deu-lhe a flor,
Para encantar, criou a mulher,
Para existir o amor…

A mulher, embora imperscrutável,
É doce, é amiga, é amável, é alegria,
É, para o poeta,
A mais bela fonte de inpiração,
Para nascer a poesia.
================

Sobre o Autor
Tarcísio Ribeiro Costa, nasceu na cidade de Ubajara – Estado do Ceará, Brasil. Até os 15 anos de idade estudou interno no seminário, concluindo, depois, os seus estudos em Fortaleza, capital do estado, onde exerceu várias atividades, tanto no setor privado como setor público, quando foi Diretor da então Secretaria de Viação e Obras do Estado do Ceará.
Transferiu-se para Brasília em 1982, exercendo várias funções, inclusive, como Assessor-Chefe da Presidência de uma estatal. Aposentando-se no início de 2000.
ATIVIDADE LITERÁRIA
Colaborou com crônicas, por algum tempo, na década de 60, em um jornal diário de Fortaleza, capital do Ceará.
Ao se aposentar passou a escrever um pretenso livro em que revelaria curiosidades da vida de Lampião, trabalho esse, não concluído.
OBRA LITERÁRIA
Desde 2002, passou a escrever poemas e algumas crônicas. O seu intercâmbio com grupos de poetas o estimulou a publicar as suas poesias, sonho que se tornou realidade, em 27 de agosto de 2004, com o lançamento do seu livro Poesia… Sonhos… Saudades…
No ano de 2008, no dia 21 de maio, lançou o seu novo livro “O Silêncio dos Luares”.
Trabalha no projeto do seu novo livro, com edição prevista para 2009.

Fontes:
http://www.tarcisiocosta.com.br/
Varanda das Estrelícias.

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Caldeirão Literário do Ceará (Patativa do Assaré)

(5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002)

O Burro

Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,

É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.
=============================

O Alco e a Gasolina

Neste mundo de pecado
Ninguém qué vivê sozinho
Quem viaja acompanhado
Incurta mais o caminho
Tudo que no mundo existe
Se achando sozinho e triste,
O alco vivia só
Sem ninguém lhe querê bem
E a gasolina também
Vivia no caritó.

O alco tanto sofreu
Sua dura e triste sina
Até que um dia ofreceu
Seu amô a gasolina
Perguntou se ela queria
Ele em sua companhia,
Pois andava aperriado
Era grande o padecê
Não podia mais vivê
Sem companhêra ao seu lado.

Disse ela: dou-lhe a resposta
Mas fazendo uma proposta
Sei que de mim você gosta
E eu não lhe acho tão feio
Porém eu sou moça fina,
Sou a prenda gasolina
Bem recatada, granfina
E gosto muito de asseio.

Se você não é nogento
É grande o contentamento
E tarvez meu sofrimento
Da solidão eu arranque,
Nós não vamo nem casá
Do jeito que o mundo tá
Nós dois vamo é se juntá
E morá dentro do tanque.

Se quisé me acompanhá
No tanque vamo morá
E os apusento zelá
Com carinho e com amô,
Porém lhe dou um conseio
Não vá fazê papé feio
Quero limpeza e asseio
Dentro do carboradô.

Se o meu amô armeja
E andá comigo deseja,
É necessaro que seja
Limpo, zeladô e esperto,
Precisa se controlá,
Veja que eu sou minerá
E você é vegetá,
Será que isto vai dá certo?

Disse o alco: meu benzinho
Eu não quero é tá sozinho
Pra gozá do teu carinho
Todo sacrifiço faço,
Na nossa nova aliança
Disponha de confiança
Com a minha substança
Eu subo até no espaço.

Quero é sê feliz agora
Morá onde você mora
Andá pelo mundo afora
E a minha vida gozá,
Entre nós não há desorde
Basta que você concorde
Nós se junta com as orde
Da senhora Petrobá.

Tudo o alco prometia.
Queria por que queriá
Na Petrobá neste dia
Houve uma festa danada
A Petrobá ordenou
Um ao outro se entregou
E o querozene chorou
Vendo a parenta amigada.

Porém depois de algum dia
Começou grande narquia,
O que o alco prometia
Sem sentimento negou,
Fez uma ação traiçoêra
Com a sua companhêra
Fazendo a maió sugêra
Dentro do carboradô.

Fez o alco uma ruína
Prometeu a gasolina
Que seguia a diciprina
Mas não quis lhe obedecê
Como o cabra embriagado
Descuidado e deslêxado
Dêxava tudo melado,
Agúia, bóia e giclê.

A gasolina falava
E a ele aconceiava,
Mas o alco não ligava,
Inxia o saco a zomba
Lhe respondendo, eu não ligo,
Se achá que vivê comigo
Tá sendo grande castigo
Se quêxe da Petrobá.

E assim ele permanece
No carro a tudo aborrece,
Se a gasolina padece
O chofé também se atrasa
Hoje o alco veve assim
Do jeito do cabra ruim
Que bebe no butiquim
E vai vomitá na casa.
=====================

A Festa da Natureza

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

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Caldeirão Literário do Rio Grande do Sul

ADEMIR ANTONIO BACCA

iceberg

o que escondo
nem sempre é
a minha parte
mais perigosa

um bloco de ternura
hiberna
há muitos invernos
submerso em mim
à espera
de tantos reencontros
===============

insônia

inventei tantos mundos
e abri tantas portas
em minha insônia
que tem noites
que não encontro caminho
para voltar para dentro de mim
==============

ferido de morte

me deixe quieto
no meu canto

não toque no rádio
não mexa na ferida
nem provoque o sonho

deixe a noite
acontecer sem pressa

não fale meu nome
não atravesse a ponte

fique onde estás
e me deixe entregue
ao meu silêncio

hoje,
eu calo por nós dois
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nós

essa coisa
que há em nós

busca que não cessa
palavra que não sacia

esperança que a gente tece
teimosamente
todos os dias

essa coisa
que há em nós

bálsamo para tantas dores
que a gente acostumou
e nem mais sente

força estranha
que há em nós
e nos leva pelas ruas
em busca dessas coisas todas
que na madrugada
desatam sobre nós
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migração

sonhos

sonhos
batem asas
dentro de mim

quem sabe para o norte
quem sabe para morte
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do conformismo

eu toco
a minha vida
como que conduz
um tropa de bois

de que me vale
a sensibilidade
de poeta
se a insensatez
dos governantes
sempre põe tudo
a perder?
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Sobre o Autor

Natural de Serafina Corrêa, RS, é poeta, contas, folclorista e jornalista. Publicou, até 2007, oito livros de poesia, além de organizar e participar de muitas antologias. Ativista cultural, organizador de festivais e eventos de poesia com repercussão nacional e internacional.

“Ao alçar seu Plano de Vôo, com poemas curtos e tocantes, é possível imaginar o poeta navegando sua asa delta emocional pelas querências gaúchas, captando o silêncio do silêncio, num horizonte sempre distanciado.”
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CELSO GUTFREIND


Conversa de menino

O silêncio era infinito
mas acabou
perguntando ao menino:
– O que fazes nesta manhã?

Ele agarrou no que não tinha:
– Reinvento a minha mãe.
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NADO

De máscara em máscara
passas como um fósforo.
Já riscas a próxima,
porém ainda lembras
um outro de antes
ou depois da chama.
E segues a luta
de torna-se alguém
igual a ti mesmo,
até encontrar
tua natural
e forma própria,
a de
teu pai.
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OS INOCENTES

Nós íamos ao parque na inocência
para muito prazer, divertimentos
e um pouco de sorte nas argolas.
Jamais nós retivemos uma imagem
de forma superior à sua essência
a fim de que depois fosse expressada.
Jamais observamos qualquer ritmo
de carrossel, de roda ou trem-fantasma
exatos e velozes como o medo.
Jamais nos dirigimos ao porteiro
a fim de questionar o que não fosse
um preço de bilhetes ou a hora.
Jamais pensamos que essa arte toda
seria assim um dia necessária.
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PROMESSA DE PALAVRA

Embora tornado texto
frio, gabinete, impres-
tável para os quintais,
fechado em coisas de coisas
velhas, frias e sem dança,
a cada novo capítulo,
escreve-se uma esperança.
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A LONGEVA

E lidos todos os livros
o dos livros incluído
letra pequena história comprida
conteúdos fundo vivos
Amadas muitas das carnes
de águas fotos ofícios
incluída a dos planos
na reta curva da vida
(e dos livros os seus ritmos
e das carnes seus espíritos)
restam vivos somente os decassílabos
fluentes na extensão de suas imagens
talvez levando em si seu próprio modo

e a amiga querendo saber como vais
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PRESCRIÇÃO DE ANDARILHO

Dar a volta ao mundo
para tocar flauta
Tocar cada volta
apesar do áspero
Parar num lugar
apesar do tempo
Dizer desdizer
até o som, a dança
Ver cor sentir cor
olhar um segundo
Esquecer a hora
sonhar muitos anos
Viver e viver
antes que seja arte
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Sobre o Autor

Nasceu em Porto Alegre, em 1963. Como escritor tem 12 livros publicados, entre poesia e histórias infantis. Também participou de diversas antologias e recebeu alguns prêmios. Tem textos traduzidos para o espanhol, francês e inglês. Colabora na imprensa, assiduamente, sobretudo com crônicas. Como médico, Celso Gutfreind especializou-se em Medicina Geral Comunitária (Hospital Nossa Senhora da Conceição), Psiquiatria (Fundação Mário Martins e Associação Brasileira de Psiquiatria) e Psiquiatria Infantil (Universidade Paris V). Realizou na França doutorado em Psicologia Clínica (Universidade Paris XIII) e pós-doutorado em Psiquiatria Infantil, no grupo hospitalar Pitié-Salpetrière, da Universidade Paris VI. Atualmente, é professor da Faculdade de Medicina e do mestrado de Saúde Coletiva da ULBRA e da Fundação Universitária Mário Martins.
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DOLORES MAGGIONI

O meu Fantasma e seu Bloco de Rabiscos

ESTAÇÃO PRIMEIRA- É NOITE DE OUTONO

Há alguém batendo à porta. É ele, o meu fantasma
trazendo na algibeira um bloco de rabiscos.
Descansa o chapéu roto, no encosto da cadeira
me olha de soslaio. Nos seus olhos ariscos
o jeito de quem veio ficar a noite inteira.
Desfaz-se da sandália e calça o seu chinelo.
No colo estende. o abrigo da manta de pelúcia.
Debruça o seu olhar tristonho na janela
perscruta o céu violáceo, em cada sua minúcia.
Vivaldi e seus violinos, na sua Estação de Outono.
O bloco de rabiscos é aberto e o meu fantasma
ensaia no rascunho a minha história antiga.
Invade docemente a minha intimidade
e assim, enternecido, com sua mão amiga
rabisca no seu bloco, do Adágio de Vivaldi,
o ébrio adormecido, dos aldeões o canto,
os cães, a espingarda, a fera abatida.
O seu olhar se esteira por sobre mim em prece
e ele, o meu fantasma, sem um sinal de pressa
se aninha na cadeira, tão terno, e adormece.
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ESTAÇÃO SEGUNDA – É NOITE DE INVERNO

Crepita, tão sombrio, o fogo na lareira.
De volta, o meu fantasma, tão trêmulo de frio.
Se assenta na cadeira, aperta a minha mão
com sua mão gelada.
O seu roto chapéu descansa na almofada.
Fica a me olhar de um jeito, tão meigo e tão antigo,
parece que hoje veio para ficar comigo.
Um copo de conhaque. Faz parte da rotina.
A chama sinuosa que arde na lareira
se espelha, do fantasma, em sua triste retina.
O bloco de rabiscos se amolda, à sua maneira,
por sobre seus joelhos, de frio enrijecidos.
O disco chora agora o Largo de Vivaldi
na sua Estação de Inverno.
Saudades batem pés, pra não morrer de frio
e a chuva, sem cuidado, escorre pelo chão
formando enorme rio. O meu triste fantasma
parece pouco a pouco, se transformar num louco.
Estampa velozmente, com seus olhos ariscos,
toda a poesia da alma, no bloco de rabiscos.
Lá fora, pavoroso, o vento, todos ventos
explodem na vidraça. Os sonhos, congelados,
deslizam sobre o gelo, iguais ao movimento
do Alegro de Vivaldi.
Tristeza que não passa.
A chama assim brejeira do olhar do meu fantasma
se apaga lentamente, junto à última brasa
que arde na lareira.
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ESTAÇÃO TERCEIRA- É NOITE DE PRIMAVERA

A tarde anoitecida se veste de estrelas. Chegou a primavera.
Num terno azulado, na sala acomodado, está o meu fantasma,
de novo à minha espera.
Saímos de mãos dadas, ele de temo azul, eu, com azul na saia.
A imensa lua cheia brilha novo poema, em cada onda da praia.
O mar nos faz suas rondas, quebrando o silêncio
com o espocar das ondas.
Voltamos irmanadas, as nossas duas almas.
Um drink bem gelado. Borbulhas no espumante.
Gemidos de violinos irrompem o constante
Alegro de Vivaldi louvando-a primavera.
Se assenta o meu fantasma, em sua fiel cadeira.
No rosto, tão de volta, os seus olhos ariscos
e tão nas mãos de volta, o bloco de rabiscos.
Trovões, cantar de aves, até um pastor que dorme,
as fontes que murmuram, também plantas e folhas,
a dança pastoral, na sua tristeza enorme.
Só ele, o meu fantasma, me lembra, sem prudência
histórias do passado. Imploro por clemência,
mas ele, o meu fantasma, assim, rindo-se de mim
vai rascunhando um sonho, do início até o fim.
Já tarde. A lua se esconde, prateada de carinho
e ele, o meu fantasma, suave adormece
tão doce … de mansinho.
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ESTAÇÃO QUARTA – É NOITE DE VERÃO

Parece que hoje o sol retarda em retirar
seu cobertor vermelho de sobre o entardecer.
Me chega bem mais cedo, esta noite, o meu fantasma,
ansioso por me ver. Veio jantar comigo.
Pois fique à vontade. Assim seja. Não se vá.
Trazidos na bagagem, presentes de sonhar.
Me veio o meu fantasma, como quem vai ficar.
De volta ao aconchego do seu antigo ninho
lhe sirvo, com ternura, um cálice de vinho.
Vivaldi e os movimentos da sua Estação Verão.
Sobras de antigos sonhos, olhando-me das coisas
como velhos retratos, com olhos de piedade
Alegro na saudade e sua languidez.
O cuco, a rolinha, este calor intenso
e este rubor na tez.
O pintassilgo, o vento, o pranto do aldeão,
as moscas, os moscões, o Presto que descreve
trovões e temporais. O meu fantasma triste
com seus olhos ariscos, de súbito rascunha
seu bloco de rabiscos.
Logo um pranto desliza, na sua face mansa.
Ele hoje se parece com tímida criança
que crê que tem um bicho
papão dentro da lua. A dor que se insinua
é como uma serpente, que enrosca sua curvas
na dor da alma da gente.
É tarde. As estrelas nos olham distraídas
por sobre a noite intensa.
Eu sirvo framboesa, pra uma saudade imensa.
De novo, o meu fantasma, sem um sinal de pressa
esteira sobre mim o olhar enternecido.
Se aninha na cadeira … Tão doce … adormecido.
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Sobre a Autora

Pós-graduada em História das Artes é professora Universitária de Estética e Filosofia da Arte e História da Música Universal. Desempenha atualmente a função de Assessora Cultural da Escola “Província de São Pedro” em Porto Alegre, RS. Integra várias Academias Literárias do País e do Exterior: Membro “Ad Honorem” do Centro Cultural e Artístico a Gazeta de Felgueiras ¬Felgueiras – Portugal e Membro Simpatizante do Centro Europeu para Promoção das Artes e das Letras – cadeira n° 225 – Ano 2001 ¬Thoinville – França. Foi publicada na Espanha: obra Poetas da Humanidade em homenagem a Garcia Lorca.

Uma das 20 personalidades que marcaram o século XX em Farroupilha, RS, sagrou-se vencedora do Prêmio lararana de Poesia da Revista de Arte, Crítica e Literatura – Salvador – Bahia Ano 2000. Foi painelista em Conclaves Literários, destacando-se o Seminário Nacional de Literatura Brasileira – Acre – Rio Branco, O Seminário de Literatura de Ibiraçu – Espírito Santo e o Congresso Nacional de Trova Literária – Corumbá – Mato Grosso do Sul.

Detentora de inúmeros prêmios em poesia e prosa poética tem 15 livros publicados, Lps e Cds gravados com poemas recitados, por ela própria.
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MARILENE CAON PIERUCCINI

TOQUE DE CARRILHÕES

A manhã adormece o sol.
No beiral fundo do mundo
Rouxinol acalanta o ninho
Trança de corda e espinho,
Escondido no ramo vazio

De caladas rosas, só rosas.

Sozinho voa o pássaro
Das asas abertas na rua.

Ícaro se faz sonho escorrido
Nas violas desacordoadas
De notas perdidas na aragem.

A imagem de luz desaparece,
Além da vida, as Três Marias
Sopram forte o vento do norte

Sozinho canta o pássaro
Das asas despidas de lua.

A roupagem da ave canora
Seduz na cor da folha ausente,
O trinado afina, ressente dor.

Criança ergue o véu e chora.
Na esquina a piorra balança
É hora de sombras vazias

Sozinho está o pássaro

De asas partidas e nuas.
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PRELÚDIO

No espaço da noite os passos
Da hora que se nega ir embora

Assola o tempo aflito
O grito de vento d’alma

Calma, mas que’inda chora
os traços de idos abraços
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SOLO DE CLARINETA

Escuto o barulho do mar
Marulho de cantiga
Antiga mais que o ar

Magia que nina a lua
Na rua vazia de você

Pensamentos desertos
Abertos com a sombra
Que assombra o lugar

Perdidos na dor da escolha
Havida no meio de mim
Nunca há paz neste jardim
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NOTA DE VIOLA

É um encanto sob a lua
O canto da rua, se tonta
Desponta a alegria de voltar
A canção da fantasia voa
No abraço da saudade
Onde a ansiedade de chegar
É acorde de segundo a toa
Que muda o mundo vão
No toque do coração
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COMPASSO PARA TUBA

No filme das paredes de vento
Cenas que o tempo reteve

Uma bola
Uma mão
Um rabisco

Um nome escrito de giz

Roda inteira a história
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TIO FONSIO

Tio Fonsio era um velho preto
Que vivia nas bandas de Vacaria.
Carregava no peito um amuleto
A respeito do qual sempre dizia
Ser a marca de sua vida escrava.
Porém o que ele nunca contava,
Por farejar catinga de agouro no ar,
Era a quantia de anos que fazia.

À noitinha com a lua já despontada
Sentava ao lado do fogo de chão
Chamava acenando a calejada mão
E com memória lúcida e endomingada
Encantada história se largava a contar.
O galpão então todo de cor se iluminava
Na faísca de vento do cavalo orelhano
Que em quatro paletadas varava
De laço a laço o assovio do frio Minuano

A luz do candieiro se transformava
Em madrinheiro da tropa de sonho
Que ele criava com seu jeito risonho
Prá eu cavalgar no galope da fantasia.
De mim escondia o lombo guasqueado
E a marca da tronqueira que desenhava
Nos pulsos a porteira do Rio Grande amado
Sabia, com certeza, onde morava a coruja.

E quando o braseiro enfim se apagava
Feiticeiro me aconselhava: menina não fuja
Das taperas que pela vida vier encontrar
Reponte as feras pra dentro da mangueira.
Tendo charola, nunca deixe o poncho rasgar
E quando alguém lamber a canga pro seu lado
No mesmo espeto querendo churrasquear
Se achar que não vale a pena, se faça fumaça,
Que é melhor seguir só que mal acompanhado.

Há muito tio Fonsio partiu e eu já cresci
Nunca dele e de seus conselhos esqueci.
Quando a tristeza de mim se aproxima,
Juro por Deus e pela luz que me ilumina,
É só pensar no que o preto velho ensinava
Quando a noite no campo descambava
E no braseiro pro chimarrão a água aquentava
Para voltar a ser dia na dor de minha alma.
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PIALO DE AMOR

Quando é tardinha no pampa espraiado
As chilenas anunciam o taita aporreado
Que boleia a perna, lento solta a açoiteira
Levanta os olhos prá Estrela-Boeira,
E faz uma prece a Senhora-Madrinha
Enquanto no céu aguado a lua caminha.

Acende o fogo de chão sob a chaleira
Arruma de pelego e badana a esteira
Estende como coberta o poncho azulado
E ouve o Minuano na ceva do chimarrão,
Rebenqueando de saudades o coração.
No entanto, vira o mate o guasca orelhano.

Charla só, jogando de mano com a solidão.
Lança o olhar matreiro em direção à coxilha
Ao escutar o chasque da tropilha de vento.
O estandarte farroupilha preso no tento
Da alma maltrapilha é o seu parceiro alento
Tão longe dos olhos da chinoca caborteira.

Cincha o peito do bravo o cabresto da paixão
A Água-Benta desenha a imagem faceira
Do cambicho que lhe pialou entranha e emoção
O guapo seca a lágrima na noite estranha
Que não é vergonha chorar a dor de amor,
Uma braça de sesmaria separando a moça-flor.

O viço da aurora encontra as Três Marias
Boleando a relva orvalhada e macia
O guasca, num tranco, encilha a montaria
Bota na mala de garupa só a sua poesia
Retoça por diante o manotaço da vida
E vai buscar a sua prenda tão querida.

Como regalo leva com carinho e jeito
Embretado no aramado do seu peito
Um querer haragano para ser domado,
Marca de estância velha a ser garantida
Orelhada na esperança de jamais
Riscar a estrada em solita andança.
———————–
Sobre a Autora

Nascida em Vacaria, Rio Grande do Sul. Brasil.Formação superior em Filosofia e mestre em História da América Latina.Historiadora e escritora.
Membro da Academia Caxiense de Letras, cadeira nº 15, do Conselho de Cultura Municipal, da Comissão de Avaliação do Fundoprocultura e Responsável pela Área de Literatura da Lei Municipal de Incentivo à Cultura do município de Caxias do Sul, onde reside atualmente.
Autora de diversos livros, tendo recebido inúmeras premiações, inclusive o de “Melhor Obra Literária” em Caxias do Sul. Pesquisadora e documentalista do livro “Lendas do Brasil”.
Destacam-se entre seus livros já publicados: “Os Sertões na Teoria de Carl Gustav Jung”, “Retalhos de Mim”; “Retalhos de Uma Alma Nua”, “Retalhos”, “História do Aço no Brasil”. Incorporada na antologia “Grandes Escritores do Cone Sul”, volumes 1 e 2 e no “Dicionário de Escritores da Serra Gaúcha”.
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SIMÕES LOPES NETO(1865-1916)

A GALINHA MORTA

Vou cantar a galinha morta:
Por cima deste telhado.
Viva branco, viva negro,
Viva tudo misturado!

Eu vi a galinha morta,
Agora, no fogo fervendo…
A galinha foi p´ra outro,
Eu fiquei chorando e vendo!

Minha galinha pintada…
Ai! Meu galo carijó…
Morreu a minha galinha,
Ficou o meu galo só.

Minha Galina pintada…
Com tão bonito sinal!
Meu compadre me roubou
Pelo fundo do quintal.

Minha galinha morta
Bicho do mato comeu:
Fui ao mato ver as penas,
Dobradas penas me deu.

A galinha e a mulher
Não se deixam passear:
A galinha o bicho come…
A mulher dá que falar!

Eu vi a galinha morta,
A mesa já estava posta;
Chega, chega, minha gente,
A galinha é p´ra quem gosta!

Minha galinha pintada,
Pontas d´asas amarelas:
Também serve de remédio
P´ra quem tem dor de canelas…
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A POLCA MANCADA

A mancada ´sta doente,
Muito mal, para morrer;
Não há frango nem galinha
Para a mancada comer.

A dita polca mancada
Tem mau modo de falar:
De dia corre co´a gente,
À noite manda chamar.

A mancada está doente,
Muito mal, para morrer;
Na botica tem remédio
P´ra mancada beber.
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QUERO-MANA

Tão bela flor digo agora,
Tão bela flor quero-mana.
Que passarinho é aquele
Que está na flor da banana.
Co´o biquinho dá-lhe, dá-lhe,
Co´as asinhas, quero-mana!

Tão bela flor digo agora,
Tão bela flor quero-mana.
Que eu ando neste fado,
A própria sombra m´engana.

Tão bela flor quero-mana,
As barras do dia aí vêm.
Os galos já estão cantando.
Os passarinhos também.
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O PINHEIRO

Quem tem pinheiros tem pinhas
Quem tem pinhas tem pinhões,
Quem tem amores tem zelos
Quem tem zelos tem paixões.

Quem tem pinheiro tem pinha,
Quem tem pinha tem pinhão,
Do homem nasce a firmeza,
Da mulher a ingratidão.

Oh! Que pinheiro tão alto,
Com tamanha galharada;
Nunca vi moça solteira
Com tamanha filharada…

Oh! Que pinheiro tão alto,
Que por alto se envergou.
Que menina tão ingrata,
Que d´ingrata me deixou!
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O BOI BARROSO

Meu boi barroso,
Que eu já contava perdido,
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido.

Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora
E gritei — aperta, gente,
Que o meu boi se vai embora!

No cruzar uma picada,
Meu cavalo relinchou,
Dei de rédea p´ra esquerda,
E o meu boi me atropelou!

Nos tentos levava um laço
Com vinte e cinco rodilhas,
P´ra laçar o boi barroso
Lá no alto das coxilhas!

Mas no mato carrasquento
Onde o boi ´stava embretado,
Não quis usar o meu laço,
P´ra não vê-lo retalhado.

E mandei fazer o laço
Da casaca do jacaré,
P´ra laçar meu boi barroso
No redomão pangaré.

Eu mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga,
P´ra laçar meu boi barroso
No remomão pangaré.

Eu mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga,
P´ra laçar meu boi barroso
Lá no paço da restinga.

E mandei fazer um laço
Do couro da capivara,
P´ra laçar meu boi barroso
E lacei de mia cara.

Pois era um laço de sorte,
Que quebrou do boi a balda
Quando fui cerrar o laço,
Só peguei de meia espalda!
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O BALAIO

Mandei fazer um balaio
P´ra guardar meu algodão;
Balaio saiu pequeno;
Não quero balaio, não.

Corta, meu bem, recorta,
Recorta o teu bordadinho;
Depois de bem recortado,
Guarda no meu balainho.
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O GUARAXAIM

Lá vem o guaraxaim
Com cara de disfarçado;
Ele vem comer galinha
E soltar cavalo atado!
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O ANU

O anu é pássaro preto,
Passarinho de verão;
Quando canta à meia-noite
Oh! que dor no coração!

E se tu, anu, soubesses,
Quanto custa um bem querer,
Oh! pássaro, não cantarias
Às horas do amanhecer.

O anu é pássaro preto,
Pássaro do bico rombudo:
Foi praga que Deus deixou
Todo negro ser beiçudo!…
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TROVAS DOS FOLIÕES

Aqui chegou o Divino
que a todos vem visitar;
vem pedir-vos uma esmola
p´ra o seu império enfeitar.

O Divino Espírito Santo
não pede por carestia,
pede somente uma esmola
p´ra festejar o seu dia.

O Divino Espírito Santo
agradece a sua oferta,
que lhe deram seus devotos,
para fazer sua festa.

O Divino agradece
aos senhores e senhoras,
e também aos inocentes
que lhe deram sua esmola.

A pombinha do Divino
de voar já vem cansada,
vem pedir aos seus devotos
que lhe dêem uma pousada.

O Divino Espírito Santo
vai seguir sua jornada;
agradece aos seus devotos
que lhe deram esta pousada.

Se despeçam, nobre gente,
que a pombinha do Divino
vai seguir sua jornada,
visitar outros vizinhos.
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O GAÚCHO FORTE

Sou gaúcho forte, capeando vivo
Livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha
Por leito a pala, ao dormir a sesta.

Monto a cavalo, na garupa a mala,
Facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo?
Quem, atrevido, me pisou no poncho?

Por Deus, eu digo! que já fiz, um dia,
Uma gauchada de fazer pasmar:
De — ginetaço — ela deu-me o nome;
Tinha razão; eu lhes vou contar:

Foi que num dia numa bagualada,
Passei o laço num quebra, um puava;
Montei; ferrei-lhe na paleta a espora;
Ele ia às nuvens, porém eu brincava!

Mas, de repente, o animal se atira;
E sai correndo, pela várzea fora;
E eu, que, folheiro, lhe pisei a orelha,
Maneei as bolas, e o bagual estoura.

Gauchadas destas, tenho feito muitas,
Por isso ela me chamou um dia,
Rei dos monarcas, gauchão em regra!
Por Deus! te digo: que ela não mentia!

E, se duvidam, eu já marco a raia,
E que se enfrente parelheiro ousado;
Tiro ou parada; não reservo guasca;
E sou o juiz… de facãozinho ao lado!…

Lá no fandango, de botas e esporas,
Danço a tirana, o folgazão balaio;
E ainda mesmo que me dêem pancadas,
Saio rolando, porém; qual! não caio!

Lá na cidade, qualquer um baiano,
Pode, sem susto, me passar bucal;
Mas, tenho consolo, que cornetas desses,
Cá nos meus pagos têm passado mal!…

Se lá me perco nas encruzilhadas;
Eles sorriem pro me ver assim;
Aqui eu monto num cuerudo desses,
E rio, mesmo sem lhe dar mau fim.

Isto é que é vida; o demais é história;
E nem invejo do monarca a sorte;
Se a fronte cinge-lhe uma coroa de ouro
Eu cinjo a coroa de um gaúcho forte…

Se ele adormece em florido leito,
Sobre os arreios, é meu sono igual;
Se ele se nutre de iguarias mil,
Eu de churrasco, muita vez sem sal!

Não tenho trono onde vá sentar-me,
Nem falsa corte de adulação servil:
Mas sou a glória, perenal e eterna,
Da minha terra, do feliz Brasil!
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A ROCEIRA

Minha mãe nasceu na roça,
E eu criei-me na palhoça,
Eu sou filha do sertão;
Sou delgada e sou faceira,
Como o leque da palmeira,
Como o ramo do chorão.

Minha irmã é mais morena…
Tem os seios de açucena,
Tem os lábios de carmim…
Minha irmã é tão mimosa!
Minha irmã chama-se Rosa…
Porém gostam mais de mim!

Eu vagueio pelos campos,
Semelhante aos pirilampos,
As mariposas azuis…
Sei cantar… e canto e choro…
Sei bordar com fios d´ouro
Sei rezar na minha cruz.

Eu sei tudo quanto quero!
Sou esbelta, sou faceira,
Como a rama do chorão…
Minha mãe nasceu na roça,
Eu criei-me na palhoça,
Eu sou filha do sertão!

A quem amo? Não o digo;
Fique o segredo comigo,
Guardado no coração!
Amo os valos… amo a roça…
Eu criei-me na palhoça
Eu sou filha do sertão!
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MUSA GAÚCHA

Bonitaça no mais a Maricota.
Guapetona chinoca requeimada,
Braba como potranca malmarcada
Quando, de cola alçada, se alvorota.

Um defeito qualquer ninguém lhe nota:
Mãos pequenas, a face colorada,
E uma graça dengosa, malcriada,
Se requebra o fandango, a perdigota.

Não quer casar; e quando algum pealo
De sobre-lombo atiram-lhe, no calo
Ofendida se sente e faz negaça,

Pega o freio nos denes, e adeusito!…
Que então, como bagual que sai no jeito,
Nem à bola se pega a matreiraça!…
————————
Sobre o Autor

João Simões Lopes Neto (Pelotas, 9 de março de 1865 — Pelotas, 14 de junho de 1916) foi, segundo estudiosos e críticos de literatura, o maior escritor regionalista do Rio Grande do Sul.

Filho dos pelotenses Catão Bonifácio Lopes e Teresa de Freitas Ramos, era neto paterno do Visconde da Graça, João Simões Lopes Filho, e de sua primeira esposa Eufrásia Gonçalves, e neto materno de Manuel José de Freitas Ramos e de Silvana Claudina da Silva. Nasceu na Estância da Graça, propriedade de seu avô paterno.

Com treze anos de idade, foi para o Rio de Janeiro, estudar no famoso colégio Abílio. Retornando ao Sul, fixa-se em sua terra natal, Pelotas, então rica e próspera pelas mais de cinqüenta charqueadas que lhe davam a base econômica.

Envolveu-se em uma série de iniciativas de negócios que incluíram uma fábrica de vidros e uma destilaria. Os negócios fracassaram. Uma guerra civil no Rio Grande do Sul – a Revolução Federalista – e a economia local fora duramente abalada. Depois disto, construiu uma fábrica de cigarros. Os produtos, fumos e cigarros, receberam o nome de “Diabo”, “Marca Diabo”, o que gerou protestos religiosos. Sua audácia empresarial o levou ainda a montar uma firma para torrar e moer café, e desenvolveu uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos. Fundou ainda uma mineradora, para explorar prata em Santa Catarina.

Casou-se em Pelotas, aos 27 anos, com Francisca de Paula Meireles Leite, de 19 anos, no dia 5 de maio de 1892, filha de Francisco Meireles Leite e Francisca Josefa Dias; neta paterna de Francisco Meireles Leite e Gertrudes Maria de Jesus; neta materna de Camilo Dias da Fonseca e Cândida Rosa. Não tiveram filhos.

Como escritor, Simões Lopes Neto procurou em sua produção literária valorizar a história do gaúcho e suas tradições.Entre 15 de outubro e 14 de dezembro de 1893, J. Simões Lopes Neto, sob o pseudônimo de “Serafim Bemol”, e em parceria com Sátiro Clemente e D. Salustiano, escreveram, em forma de folhetim, “A Mandinga”, poema em prosa. Mas a própria existência de seus co-autores é questionada. Provavelmente foi mais uma brincadeira de Simões Lopes Neto. Em certa fase da vida, empobrecido, sobreviveu como jornalista em Pelotas.

Publicou apenas quatro livros em sua vida: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo (1914).

Morreu em Pelotas, aos 51 anos, de uma úlcera perfurada.

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br

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Caldeirão Literário do Alagoas (Arriete Vilela – Guimaraens Passos – Rosiane Rodrigues)


Arriete Vilela (1949)

POEMA N. 4
Preciso sempre
ir dentro de mim:

confiro-me.

E quando emerjo,
sou rochedo descobrindo-se
com a baixa da maré.

POEMA N. 11

Não quero mais
que o mergulho no mar,
a cara virada para o sol,
o esquecimento:

alma boiando à deriva,
como se fora tábua
despregada do casco
de algum velho barco.

POEMA N. 21

Hoje farejas indícios
de novas trilhas,
velas o teu coração tornado
ríspido, brumoso,
e vais às praças públicas colher
um súbito rosto.

Hoje tenho nos olhos
somente a dança das
estrelas cadentes
fazendo-se mar e poesia:
a minha melhor
porção diária de vida.

POEMA N. 26

Da janela sobre o mar,
sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;

faço-me outra,
e nova.

Quero trazer-me alegre
à luz do dia ou da noite,
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.

Inútil esforço,
Sei. Aos meus olhos
cola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.

POEMA N. 28

Os meninos de rua
Parecem pardais urbanos:

em ligeiros vôos
acham-se em toda parte,
aproveitam restos de toda sorte.

Tropical
é algazarra de suas vozes,
quando se ajuntam;

seus gestos e jeitos,
de uma graça desavisada,
assustam e comovem.

Atentíssimo dever ser
o anjo da guarda dos meninos de rua,
esses tantos pardais urbanos.

POEMA N. 29

Vou me sabendo sem remansos.
Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.

Difícil reconhecimento, porém.
Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
Possuir.
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Biografia da Autora

Arriete Vilela, Poeta e contista, nasceu em Marechal Deodoro, Alagoas, em 1949, é professora de Literatura da Universidade Federal de Alagoas. Já recebeu numerosos prêmios, tendo sido distinguida como mérito cultural da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro com a obra Lãs ao vento.

“Dona de uma obra que tematiza a Palavra e, em conseqüência, a escritura (suas possibilidades, conseqüências e responsabilidades), Arriete Vilela abre seu novo livro com João Cabral de Melo Neto: “Escrever é estar no extremo de si mesmo”, anunciando o que se vai experimentar até alcançar o ponto final indicado na epígrafe: a luta com, na e pela Palavra, para dar corpo a realidades, que, em última instância, são mesmo lãs ao vento: “Palavra: um modo metonímico de me fazer legar uma escritura de esfacelamentos, de recortes da realidade, de bordejos e de desesperanças.”, diz o texto, e dispensa explicações sobre esse “metonímico” que não pôde ser evitado.” Sônia van Dijck

Bibliografia: Eu, em versos e prosa (1970), 15 poemas de Arriete (1974), Recados (1978), Para além do avesso da corda (1980), Remate (1983), Farpa (1988), A rede do anjo (1992), Dos destroços, o resgate (1994), O ócio dos anjos ignorados (1995), Tardios afetos (1994), Vadios afetos (1999), Frêmito (2003), Lãs ao vento (2005).
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Guimaraens Passos (1867-1909)

XXXIV
Na terra estava quando te queria
De todas as mulheres diferente,
E olhando a altura com o fervor dum crente
Em nuvem de ouro a tua imagem via.

Na asa encantada que a paixão me abria
Subi, para buscar-te unicamente,
E em cima estando vi-te, de repente,
Na terra, no lugar donde eu saía.

Olhos de amante, que de tal maneira
Andam cheios de lúcida loucura,
Que assim se perdem na maior cegueira.

E vendo aquilo que não há, decerto,
Sonham longe a ilusão de uma ventura
E não vêem a ventura que têm perto.

Versos de um simples (1891)
————————-
PUBESCÊNCIA
A Emílio de Menezes

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste:

Seria outra alma, pensa, que a animava?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátira, de cuja boca escorre
Um fino fio d’água transparente —

Ri-se, dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente.

Versos de um simples (1891)

GUARDA E PASSA

… Non me destar, deh! parla basso
Michelangelo

Figuremos: tu vais (é curta a viagem),
Tu vais e, de repente, na tortuosa
Estrada vês, sob árvore frondosa,
Alguém dormindo à beira da passagem.

Alguém, cuja fadiga angustiosa
Cedeu ao sono, em meio da romagem,
E exausto dorme … Tinhas tu coragem
De acordá-lo? responde-me, formosa.

Quem dorme esquece … pode ser medonho
O pesadelo que entre o horror nos fecha;
Mas sofre menos o que sofre em sonho.

Oh! tu, que turvas o palor da neve,
Tu, que as estrelas escureces, deixa
Meu coração dormir… Pisa de leve.

Horas mortas (1901)
————————
VILANCETE

Saudades mal compensadas,
Por que motivo as tomei?
Como agora as deixarei?

Voltas

Hoje por coisas passadas,
E só por vosso respeito,
Varado vejo meu peito,
­Senhora, por Sete Espadas,
Saudades mal compensadas
Destes-me rindo, e não sei
Por que motivo as tomei …

Busquei-vos por brincadeira,
Aceitastes-me por brinco;
Quis-vos depois com afinco,
Não me quis vossa cegueira.
Vejo-me desta maneira …
Penas que eu próprio busquei,
Como agora as deixarei?

Horas mortas (1901)
—————————-
… DEPOIS

Para mim, pouco importa a recompensa
Dos meus carinhos, quando te procuro;
Dirão que tens um coração tão duro,
Que pedra alguma há que em rijeza o vença.

Dirão que a calculada indiferença
Com que tu me recebes, é seguro
Condão que tens, de todo o meu futuro
Trocar, sorrindo, em desventura imensa.

Dirão… Que importa a mim/ Dá-me o teu leito,
Dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,
Une os lábios aos meus, o peito ao peito,

Que eu nem saiba qual seja de nós dois…
Mentem teus beijos/ mentem teus abraços?
Será tudo mentira… mas depois.

Horas mortas (1901)
——————————–
NIHIL

Sem aos outros mentir, vivi meus dias
desditosos por dias bons tomando,
das pessoas alegres me afastando
e rindo às outras mais do que eu sombrias.

Enganava-me assim, não me enganando;
fiz dos passados males alegrias
do meu presente e das melancolias
sempre gozos futuros fui tirando.

Sem ser amado, fui feliz amante;
imaginei-me bom, culpado sendo;
e se chorava, ria ao mesmo instante.

E tanto tempo fui assim vivendo,
de enganar-me tornei-me tão constante,
que hoje nem creio no que estou dizendo.
————————–
XLI

Crianças fomos, como tal, tu, louca
de amores foste e eu, louco, te imitava,
então pelos teus olhos eu me olhava
e tu falavas pela minha boca.

E para nós tão cheia se mostrava
a vida que, por certo, havia de oca
ser para os outros; pena que foi, pouca
fosse para quem rindo a desfrutava.

Os anos foram breves como dias;
os dias como as horas foram breves;
esqueçamos passadas fantasias,

que, se eu fui louco, e se tu foste louca,
já por meus olhos hoje vejo e deves
ver que hoje falas pela tua boca.
————————————-

Sobre o Autor
Sebastião Cícero dos Guimarães Passos nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 22 de março de 1867, e faleceu em Paris, no dia 9 de setembro de 1909. Trans­ferindo-se para o Rio de Janeiro com menos de vinte anos de idade, ali fez parte da famosa roda boêmia de Olavo Bilac. Exerceu o jornalismo, escrevendo versos, contos e crônicas em diversos periódicos, às vezes com pseudônimo. Foi nomeado arquivista da Secretaria da Mordomia da Casa Imperial, cargo que perderia com a proclamação da República. Foi exilado ao tempo de Floriano Peixoto.

Obra poética: Versos de um simples (1891), Horas mortas (1901) e os versos humorísticos de Pimentões (1897), em parceria com Bilac, com quem assinou também um compêndio de metrificação. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. FONTE: Parnasianismo/ seleção e prefácio de Sânzio de Azevedo. São Paulo: Global, 2006. 153 p. (Col. Roteiro da Poesia brasileira)
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Rosiane Rodrigues (1948)

ESCULTURA

anjo bate asas
horizonte deserto
beijo de chuva
de suave gesto

arco-íris e flechas
contra o tempo
esculpindo amor
a favor do vento

DESEJO

longe,
o coração
pranteia

perto,
acelera
e baqueia

fonte
do desejo
permeia
———————–
QUIMERA

aquela imagem
ainda cintila
como miragem

a voz caliente
na mente destila
enfraquecida

o sonho se inflama
e a realidade
apaga a chama
—————————
TEMPESTADE

nuvem passageira
doce manjar dos céus
altaneira

estrelas ladrilham
passos solitários
trilham

cálida noite
tragar de chuva
açoite
————————————

Sobre a Autora

Rosiane Rodrigues Cavalcanti é natural de Piranhas, Alagoas, nascida em 14 de junho de 1948. Médica psiquiatra e professora universitária, fez cursos d pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Fundação São Camilo de São Paulo.

Poeta e compositora, é membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Grupo Literário Alagoano, Associação Alagoana de Imprensa, Confederação Internacional de Autores e Compositores, Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais e Sócia Honorária Ada Academia Maceiosense de Letras.

Obras publicadas: O inocente (1967), Alma e Poesia (1977), Uma vida simplesmente (1983), Pêndulo da vida (1985), Chispada (1986), Bico de luz (1990), Piranhas, retrato de uma cidade (1999), Pequeno Dicionário de uma Psiquiatra (2001) e A tentação do anjo (2001).
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Fontes:
Texto e retratos = http://www.antoniomiranda.com.br/

Retrato Guimaraens Passos = http://www.biblio.com.br/

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Caldeirão Literário do Pernambuco (Santina Geraldo de Castro Andrade)

(1948 Sítio Ferreiro, Bodocó/Pernambuco)

Coisas do meu Sertão

No solo pernambucano
Existe suas divisões
São várias as regiões
Do sertão estou falando
E aos poucos recordando
Sua beleza e tradição
Com bastante emoção
Vou escrevendo o roteiro
Dos retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Aveloz e juazeiro
Algaroba e tamboril
Que à seca resistiu
Mandacaru e faxeiro
Siriguela e umbuzeiro
Dão fruto e proteção
São nativos deste chão
Na mata, e no terreiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Asa Branca e ribançã
Coruja, peitica e corró
Teú, cobra-de-sipó
Papagaio, maracanã
Codorniz, nambu, acauã
Graúna, canário, azulão
Cigarra e camaleão
O gato lagaticheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Anum, sofreu, sabiá
A rola fogo pago
Lavandeira e beija-flor
Cava chão, tamanduá
Cutia, mocó, preá
Tatu, peba e cancão
Todos em quase extinção
No nordeste brasileiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

O vem-vem, a saracura
E a mãe da lua cheia
Conto de fada e sereia
Folclore, lendas, bravura
Faz parte dessa cultura
Luiz Gonzaga e lampião
Reis do cangaço e baião
Heróis do Brasil inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

De dezembro a janeiro
Noite chuva e garoa
O sapo seu canto entoa
Nas lagoas e barreiros
Se os açudes encheram
Peixe em cardume vão
vaga-lumes à noite estão
No campo com seus luzeiros
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Uma casa de sapé
E no quintal um caboclo
Carpindo ou arrancando toco
Com um moleque no pé
Na cozinha sua mulher
Filho no bucho, outro no chão
Tá cozinhando o feijão
Para comer sem tempero
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Na sala um rádio a pilha
Banco, tamborete e pote
Pra matar preá e capote
Espingarda e mochila
Onde agasalha família
Num quarto, rede e colchão
Lá fora tem num galpão
Pé de meizinha e canteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Lá na sombra da biqueira
A cachorrinha deitada
Na cerca dorme amarrada
Uma cabrinha leiteira
Para fazer mamadeira
A primeira obrigação
O leite lá no fogão
Gato mia sentindo o cheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Uma jumenta no roçado
Cangalha e caçoá
Cambito pra carregar
Madeira para o cercado
Um bacorinho amarrado
Pra não escavar o chão
Numa gaiola um cancão
Galo, galinha no poleiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Lá na sede da fazenda
Tudo é modificado
Luxo, tempero, merenda
Tem mais um pouco de renda
Pasto, curral, mangueirão
Carro-de-boi, alazão
Perneira, gibão, vaqueiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Tem patrão e tem boiada
Carro, trator e dinheiro
Tem cevado no chiqueiro
Leite, manteiga e coalhada
Tem mourão e vaquejada
Churrasco e requeijão
Boi, boiadeiro e peão
E filha de fazendeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Futebol e embolada
Quadrilha, forró, São João
Pamonha, milho e quentão
Amendoim, batata assada
Beiju-de-forno e farinha
Nas cacimbas a multidão
Lata na cabeça e na mão
Puxa água o dia inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Açude seco, chão rachado
Poeira e sol ardente
Pasto seco e terra quente
Gado magro e arrasado
Sertanejo atribulado
A reclamar a situação
Pensa em outra região
Falta coragem e dinheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Um forró numa latada
Triângulo, sanfona e pandeiro
Lua clara no terreiro
Cerveja, loa, embolada
Sarapatel e buchada
Peru, galinha e leitão
Amigos em união
Farreando tempo inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Café, fubá, imbusada
Cigarro, chapéu de palha
Panela de barro e fornalha
Cuia, farinha, carne assada
Cachaça, verso e piada
Bola, peteca e pinhão
Cunca, moinho e pilão
Pão de milho e cuscuzeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Tem raiz, e tem história
Nosso sertão, nossa gente
Tem futuro, tem presente
Tem conquista e vitória
Passado cheiro de glória
Tem cultura e tradição
Carnaval e devoção
E festa de padroeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão.
——————

Fonte:
ANDRADE, Santina Geraldo de Castro. Coisas do meu Sertão. PROJETO SECordel
http://www.movimentodasartes.com.br

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Caldeirão Literário do Pernambuco (Sandoval Ferreira)

Sandoval Ferreira
(1983 Iati/Pernambuco)

O curandeiro da feira

Sou curandeiro da feira
De tudo tem pra curar
Seja de dor de barriga
Ou até no calcanhar
Tenho pumada e raiz
E garanto não faia

Tem o óleo da mamona
Pro sinhô ficar, mas moço.
Ajeita tudo que é prega
Remenda tudo que é couro
Lhe deixa novo tinido
Estrala tudo que é osso

Tem a castanha atalaia
Que vale pra dez doença
Menos aquela das cornura
Que coisa das desavença
Mas se espiela caída
Ou farta de paciência passe
A bendita pumada que cura
Sua doença.

E se o senhor ta veio
E no agüenta mas nada
O Passarim no levanta
No canta nem faz zuada
Sua muié só reclama que
A seca ta pesada.

Ao invés de te chamar
De bem ela te chama
De barriga inchada
Home tome catingueira
Que a doença ta curada

E se vosmicê é moça veia
E quer arranjar namoro
Quer encontrar o cabra
Que venha apagar seu fogo
Vou lhe ensinar uma prece
Pra você ganhar o moço.

Por fim sou curandeiro
Da feira em todo canto
Me acho quando quiser
Me achar procure de cima
Abaixo que você vai encontrar
Não sendo pra reclamar
E nem pra comprar fiado
Eu posso lhe ajudar.

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Caldeirão Literário do Estado do Mato Grosso do Sul

Rubenio Marcelo (O Mar e a Ponte do Passado)

O mar… O céu… Gaivotas, lado a lado,
sumindo – assim, fagueiras – lá no monte…
Ao longe, nos portais do horizonte,
jangadas, brancas velas num bailado…

O mar… Paisagem de brilho encantado,
reflexos que seduzem minha fronte…
Imagens passeando pela ponte
que me leva, em instantes, pro passado…

O mar… Ondas quebrando no penedo…
Espumas revelando o meu degredo,
rasgando os portagões de um vão sonhar…

E, no veleiro dos meus pensamentos,
de mim fujo e sigo ao sabor dos ventos,
buscando um amor que eu deixei no mar…
=====================
Geraldo Ramon Pereira (Tributo a Maracaju – Amor a minha terra)

Bem onde Deus plantara verdes matas,
No cimo de um planalto fértil, lindo,
Maracaju, marota, foi surgindo
Entre sítios, aos sons de serenatas:

Eram seriemas a cantar tinindo
Em dueto com as enxadas mais sensatas…
E um grupo de pioneiros pôs em atas
A fundação de um Município infindo!

Maracaju estava, pois, fundada,
Em educação, saúde e amor plasmada,
Por João Pedro Fernandes, doutor João…

Todos deram de si à sociedade;
Mas doutor João deu luz e caridade
E a Maracaju – vida e coração!
=========================
Geraldo Ramon Pereira (Varal de Luz)

No quintal da existência do meu nada,
Estendi, num varal de luz, os sonhos…
E do Amor uma aura perfumada
Inundou o meu ser com sóis risonhos.

Mas a manhã de sonhos foi tomada
Por vendavais e temporais medonhos;
E a vida, de astros e aves enfeitada,
Virou um ermo de areais tristonhos!

Caí ao chão voltado para o alto,
Ouvi tenor, soprano, ouvi contralto,
E uma voz a mais santa entre as demais…

Era Deus, que em coral se manifesta
Em compaixão ao filho a quem só resta
A voz divina a consolar seus ais!
========================
Adair José de Aguiar (Os Ipês Amarelos)

Nossas matas brasileiras,
Na época das floradas,
Ostentam manchas doiradas,
Os ipês estão em flor.
Pintalgadas as florestas,
É a vegetal riqueza,
Tesouro da Natureza,
Deste Brasil promissor.
Uma visão luminosa,
De longe logo se avista,
É que Deus, Divino Artista,
Quis, inventou de tingir,
Doirando a floresta imensa,
Onde soabrem mais flores,
Misturando a tantas cores,
Fez o ouro reluzir.

Quando, à noite, a lua-cheia,
Toda vestida de prata,
Desponta por sobre a mata,
Há uma estranha visão.
Ipês e lua se casam,
Tudo brilha e resplandece,
Se o mundo assim parecesse
Milagre da criação.
Viva, pois, a Primavera,
Linda, cheirosa e florida,
Colorindo a nossa vida
De amarelo dos ipês.
Que terra maravilhosa,
Em sua sabedoria,
Deus criou, com tal magia,
Foi, para nós, que Ele fez.
==========================
Raquel Naveira (Desejo Rural)

Desejaria um rio,
Um rio de peixes e cascatas,
Onde me fartasse de sol e luar…

Desejaria um canto.
Um canto de pássaro vindo das matas,
Que me desse vontade de me libertar…

Desejaria, se meu corpo não fosse de cimento,
Se meus olhos não estivessem embolados,
De tanto asfalto,
De tanto esquecimento…

Desejaria, se minha alma não fosse compacta,
Alerta ao sinaleiro e à propaganda,
Se não sentisse uma grande tristeza intacta
Diante do campo, simples e hospitaleiro.

Uma tristeza feita de babas de lodo,
De pântanos movediços,
De abelhas rainhas.

Uma tristeza sem limite
Que me torna bicho do mato,
Devorando grama e sonhando estrela.
=======================
Oliva Enciso (Fogos de Artifício)

No mês de junho as festas
De São Pedro, Sto. Antônio e São João,
Têm não sei o que de uma alegria simples,
Que nos invade o coração.

Seja um rico, um remediado, um pobre,
Seja um homem de cidade ou um campônio,
Quem não tem um amigo ou, em sua família,
Um Joãozinho, algum Pedro ou um Antônio?

Ainda que nenhum motivo nós tenhamos,
Só a alegria alheia já é bastante
Para nos fazer sorrir,
Ao menos um instante…

É a bomba que estoura,
É o busca-pé que foge,
Enquanto, mansamente, o balão vai subindo…
E, na noite escura e fria, as chuvas multicores
Dos fogos de artifício vão caindo…

Essa glória toda, efêmera da vida,
Que às vezes nos enlaça e nos seduz,
Parece lindos fogos de artifício:
Brilha um instante apenas e se apaga a luz!
===========================
Fontes
Academia Sul-Matogrossense de Letras
Suplemento Cultural de 27 de setembro de 2008
Suplemento Cultural de 20 de setembro de 2008
Suplemento Cultural de 13 de setembro de 2008

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Caldeirão Literário do Estado do Sergipe

Araripe Coutinho (1968)

XLII

Adentro avesso e o reto
É vulva aberta, mucosa
No inferno de nossos dentros.

Espeto o desejo como quem
Procura o risco, o medo, a coragem
De avançar perdido por algo que sei
Desde a infância, aurido.

Homem é sempre treva. Mas pode
Trazer o mundo para dentro de nós.
E a arte nessa selva é sempre
A morte.

Invento de muros. Paredes altas.
Consumo de felicidades mortas
E a maçã no escuro é Clarice
Sem decifrar GH, seu mito.

Estou apodrecendo como
Quem constrói uma catedral
Sem missa. Assim rendido no portal
Avanço sempre que me vejo.

Sou um mesmo homem
Que não conhece deus, mas que o ama.
Seria o amor assim? Este nunca vir.

Sim. É desejo o que me mata.
São negros e azuis e o quarto cabe
Cada um com seu poder.

Eu sempre rendido.

XL

Aparecer no espelho e dizer: morra!
Este é o meu tempo. Fantasmas visitando
O quarto escuro. Uma mulher de unhas longas
Tez avermelhada, sombrancelhas de chagas
Mal dormidas. É a morte. Ainda que o dia
Amanheça a noite nunca chega.
Estou tateando a ogiva de um amor sem matéria.
Carregando o andor de um santo sem fé.
É minha esta prece. É vasta, solene, quase muda.
Entendo a morte como a um copo de café.
Sirvo as compotas de frutas uma a uma.
É jambo, ameixas e morangos.
Nenhum sabor
Decifra esta ira. Estou incendiado
Desde amor.

XLIV

Tenho dito sempre
Que genet e Jeanne moreau
Estão certos: “todo homem mata aquilo que ama”.
Os negros na vidraça ensaboados
E o quarto aguardando bater seis horas.
É deu visitando a estrebaria.
Pondo fogo no feno, impedindo que se durma
Ao longo de uma costela larga.
Mas pode o desejo fraturado
Acender outra chama? Pode.
Desce as escadarias. Põe o colchão
De sombras na varanda. Deixa os glúteos
À mostra. Concentra o verde da vida
Entre os lábios. Deserta a última
Claridade. É ele quem ama.
Mesmo escuro põe vida nas coisas.
E inflama.
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Sobre o Autor
Nasceu no Rio de Janeiro em 1968 mas vive em Aracajú, Sergipe, desde 1979, onde é articulista de jornais e apresentador de programa de TV. É autor de meia dúzia de livros de poesia. Recebeu os títulos de Cidadania Aracajuana e Sergipana e é membro da Academia Sergipana de Letras. Foi diretor da Biblioteca Pública Municipal.
===============================
Gizelda Santana de Morais (1939)

Viola de Gamba

Nossas mãos juntas
construirão gestos insuspeitados
nossos passos juntos caminharão
dobro dos caminhos
nossos corpos juntos
suportarão o peso das pressões
elevado ao quadrado
nossos mentes juntas
nossos pensamentos
nossos momentos
se esticarão como cordas
de viola de gamba
nos ouvidos dos séculos.

Pela rua

Caminho pela rua…
quantos destinos cruzam-se comigo,
quantas vidas diferentes de outras vidas,
quantas faces diferentes de outras faces…

Vou passando por muitos
(enquanto eles também passam por mim)
e perscruto seus gestos, seus modos, seus olhares.
Vejo gente sorrindo,
vejo gente cansada,
gente altiva, gente humilde, gente triste…
não vejo alguém chorando,
mas, quanta gente choraria o pranto
guardado, se não fosse a vergonha
de chorar pela rua.

Na rua passa tudo, passam todos
passa a noite, o silêncio, o barulho,
até os mortos passam pela rua.
E suas casas, suas luzes, suas pedras
também olham, perscrutam e testemunham
a tudo e todos que passam
pela rua.

Baladas do inútil silêncio

I

se há por quês
é porque não se cansam
as andorinhas de voar

nem os mágicos
de tirarem coelhos da cartola

e o tempo é o gesto
e o espaço um pedaço de pão

Quero o tato

Quero o tato
limpo como o espelho
quero o dólmen
e o anel
quero as alpargatas
para correr mundo
e a lança para cruzá-la no caminho
quero o fruto
colhido com a boca
e quero o amargo
pois também sou humano.

Interrogações

Onde a clareza
a certeza
perdidas nesse momento?
será o sono o microfone
ou o medicamento?

por que me dói
tão físico o coração
se mesmo toda físico
não me dói a mão?

por que decorre desse grito
o grito atravessado
e na esteira dos planetas
navegam tantos nadas?

de onde veio
essa louca antevisão
de perceber o futuro
sem ter de hoje os cordões?
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Sobre a Autora
Nasceu em Campo do Brit, Sergipe em 1939 e mora atualmente em Maceió. Seu primeiro livro de poesias, Rosa do Tempo (1958), foi publicado aos 18 anos, pelo Movimento Cultural de Sergipe. No ano seguinte ganha o 1° prêmio no Concurso Universitário de Poesia em Belo Horizonte. No mesmo gênero publicou, Acaso (Salvador/1975), Cantos ao Parapitinga (Aracaju/1991), Poemas de Amar (edição pessoal, 1995); em parceria com N. Marques e C. Fontes, Baladas do Inútil Silêncio (Salvador/1964) e Verdeoutono (Aracaju/ 1982); participa de coletâneas, Palavra de Mulher (Rio/1979), Aperitivo Poético (Aracaju, edições de 1986/87/88/89), NORdestinos (Lisboa/1994); entre os ensaios literários, Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza (Aracaju/1996). Reúne sua poesia, publicada e inédita, em ROSA NO TEMPO, Scortecci Editora, São Paulo, 2003.

Doutora em Psicologia pela Universidade de Lyon (França), com a tese L’Ecriture et la Lecture, 1970); lecionou nas universidades federais de Sergipe e da Bahia e, como convidada, na Universidade de Nice. Tem vários trabalhos científicos em livros e revistas, entre os quais Pesquisa e Realidade no Ensino de 1° Grau (Cortez Ed. São Paulo/1980). É membro da Academia Sergipana de Letras.
Romances já publicados: JANE BRASIL, Aracaju/1986; IBIRADIÔ, 1ª ed. Aracaju/1990, 2ª ed. Scortecci Ed. SP. 2003, ed. francesa: Editions du Petit Véhicule, Nantes, 1999; PREPAREM OS AGOGÔS, Ed. Bagaço, Recife/1996, (Menção Honrosa no concursos nacional de romance do governo do Paraná ,1994); ABSOLVO E CONDENO, Vertente editora, SP, 2000 (menção especial, UBE, 2002); FELIZ AVENTUREIRO, Scortecci Ed. SP, 2001 (prêmio AJC, Especial do Júri, 2002).
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João Ribeiro (1860 – 1934)

MUSEON
II
Helés, a formosíssima das gregas,
Róseo trecho de mármor sob escombros
Dum Panteon que as divindades cegas
Soterraram depois de tê-lo aos ombros,

Helés, um dia, sobre a praia chegas …
Inclinam-se extensíssimos os combros
E o vento alarga em frêmitos de assombros
Da túnica do mar as verdes pregas.

E tu reinas, tu só! Debalde, vagas
Sobre outras vagas se atropelam, correm,
Uma por uma, indiferente esmagas:

Como as paixões na tua vida ocorrem,
Uma e mais outra, nas desertas plagas
Chegam e morrem, e chegam e morrem.

IV

Este vaso quem fez, por certo fê-lo
Folhas de acanto e parras imitando.
É de ver-se a asa fosca o setestrelo
De saboroso cacho alevantando.

Que desejo viria de sorvê-lo
Os gomos todos um a um sugando,
Quando, contam, dos pássaros o bando
Do céu descia prestes a bebê-lo.

Examina este vaso. N’um momento
Crê-se vê-lo a voar, o movimento
D’asa soltando, como aéreo ninho …

Será verdade que este vaso voa
Ou porventura à mente me atordoa
Seu capitoso odor de antigo vinho?

VIII

Foi com esta maçã d’ oiro polido
Que as ambições movendo de Atalanta,
Pôde Hipomenes alcançá-la. E quanta
Vitória a essa em tudo parecida!

Ao ideal aspira! à estrela aspira! à vida
Aspira ó nada, ó turba agonizante,
Ou chores quando a terra alegre cante
— Ou cantes quando a lágrima vertida

Desça-te à boca. E bastaria, apenas,
Para galgar essas regiões serenas,
A maçã de Hipomenes, flébil, louro …

E chegarás ao ideal e à vida, O pomo
Áureo atirando à própria estrela, como
Lá chega a l,:!z – por uma escada de ouro.

XI

Do mar e das espumas tu nasceste,
Ó forma ideal de rodas as belezas,
lnda teu corpo, mal vestindo-o, veste
Um colar de marítimas turquesas.

Milhares d’anos há que apareceste,
Outros milhares d’almas-sempre acesas
No teu amor, lá vão seguindo presas
Da rua garra olímpica e celeste.

Beijo-te a boca e sigo embevecido
Ondas sobre ondas, pelo mar afora,
Louco, arrastado qual os mais têm sido.

Ora te vendo as formas nuas, ora
Toda nua e sentir-te em meu ouvido
Do eterno som dos beijos meus sonora.
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Sobre o Autor
João batista Ribeiro de Andrade Fernandes, jornalista, crítico, filólogo, historiador, pintor, tradutor, nasceu em Laranjeiras, província de Sergipe e faleceu no Rio de janeiro, onde fez carreira depois de cursar Medicina, sem concluir o curso, na Bahia. Por concurso público, trabalhou na Biblioteca Nacional e depois no renomado Colégio Pedro II, na cadeira de Português. Estudioso de filologia, o que o levou a ter um papel decisivo nas reformas da própria língua nacional. Chegou a fazer estudos de pintura na Europa e a expor seus quadros mas foi no jornalismo e na literatura onde recebeu o reconhecimento por sua contribuição. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.

Obra poética: Tenebrosa lux (1881), Dias de sol (1884), Avena e cítara (1885) e Versos (1885).
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Joel Silveira (1918)

Poema

Porque não há trégua na quotidiana amargura,
os versos nascem todos desgraçados
e possivelmente maus.

Os caminhos estão gastos,
as mulheres se repetem
e é ridículo dar amor a alguém que amanhã estará murcho
e que jamais devolverá nossas cartas.
Para as horas, tão inúteis,
vale apenas a solução dos bêbedos.

Onde estão os perigos desta vida?
Quero-os todos para mim, aqui ou longe,
a eles o melhor estilo e o melhor entusiasmo.
E que sobre eles o amor e a alegria se debrucem
como rosas abertas num campo minado.
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Sobre o autor
Poeta e jornalista, nasceu em Aracaju, em 1918. Conhecido por seus livros de reportagens e ficção – entre eles o célebre Meninos eu vi (1965) e o romance Você nunca será um deles (1988), foi incluído por Manuel Bandeira em sua antologia Poetas brasileiros bissextos contemporâneos (1946).

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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Caldeirão Literário do Estado do Acre

(id: MCCXXIX)

Jorge Tufic (A origem da Noite)

A Noite era um fantasma que se repartia
entre a luz e a escuridão.

Um lado desse fantasma era escuro e feio.
O outro lado era claro e bonito.

Nãmi, era como se chamava o dono da Noite.

Os grilos teciam as folhagens do sono
enquanto o pássaro japu tratava de afastar,
com seu bico,
as cortinas da madrugada.

Antes de dar a Noite a seus netos,
Nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).

O resto dessa estória ninguém sabe,
porque uma parte dela ficou com a Gente da Noite
e a outra parte ficou com a Gente do Dia.

Jorge Tufic (Makunaíma Recria o Mundo)

Depois das águas grandes,
o mundo ficou seco e oco.
Pedaços de carvão ficaram rolando no solo,
como ecos de pedras,
vozes de rio, gemidos de fogo.
Então, Makunaíma acordou.
E do barro de sua vigília
retirou aquele homem, sua forma de barco,
seu peito cavado.

No outro lado de Roraima
seus feitos continuaram.
Homens e mulheres foram sendo mudados
em rochas, antas e javalis.
Perto de Koimelemong, um cervo
mergulha na terra a cabeça-de-pedra.
Sobre uma grande onda na Serra de Aruaiang,
pousa uma cesta de luar.
A Serra do Mel parece conduzir
um silêncio de aragem
e vai sem ter vindo.

Muitas dessas pedras se elevam
No país dos ingleses, assim como peixes
E uma cesta que imita, por baixo,
Um perfil de mulher.

A savana da Serra de Mairani
são braços, pernas e cabeça
de um ladrão de urucu.
Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra.
Cachoeiras acima,
o movimento dos peixes adentra na rocha.

Uma pedra chamada Mutum
canta como este
quando alguém vai morrer.
vespas gigantes construíram suas casas
e zumbem na base mais profunda da serra.

Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques
Nos bichos domésticos.
Depois disso ele deita na terra molhada
e se deixa esvair em milhares de seres
que nadam para o rio.

Jorge Tufic (Cartago Fui Eu)

Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.

Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.

Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.

Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.

Jorge Tufic (O Desencontro)

Uma folha tremula
sobre o branco aflitivo dos garfos.

Passado & futuro
são fronteiras de aragem.

Formigas saem das tocas
ganham asas de louça.

Cristais se fundem
no brinde sem eco.

Jorge Tufic (Fragmento)

À tarde e à noite
o poeta está ausente.
Relógio e calendário
ficaram do avesso.
Ele usa a freqüência dos búzios
e capta as notícias que envelhecem
antes da letra e do chumbo.

Percebe, então, que falta um elo
para cada coisa.

Possivelmente indecifrável.

Jorge Tufic (Prospecção)

Ninguém te vê.
Só os ventos te penetram.

Ninguém que esteja saciado
ou faminto
necessita de ti.

Neste exato sem nome
reintegra-te à nuvem que passa
e ao canto das aves.

o poeta, já o disse,
é um ser transparente.

Invicto. Desnecessário
entre porcos, hienas
e outros viventes

solidariamente incompletos.

Jorge Tufic (As Três Porcas)

Uma coisa me olha desde que nasci.
Outra coisa me suga.
E ainda sobra uma terceira
que, lenta e pacientemente,
vai desfolhando os meus dias
como quem toca um realejo.

Jorge Tufic (De Ônibus, pelo Sertão)

Lá fora, o diameno.
Bloqueio de trevas,
cysne,
cântico de agulhas.

Em busca desse dia
eu parto: noutras paragens,
decerto,
há homens e bichos
que disputam vitórias,
se matam.

Mas aqui, só nuvens
rascunham fugacidades.
Paisagens, velozes,
não passam por mim.

Atravessamo-nos, apenas.
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JORGE TUFIC (1930- )
Nasceu em Sena Madureira, no Acre e reside em Fortaleza, Ceará, Brasil.
“Aí começou aos sete anos de idade, a ouvir o ponteio das violas sertanejas, acompanhando as trovas, os repentes e as saudades dos soldados da borracha, filhos do nordeste brasileiro.”
Mais de quarenta títulos publicados, entre prosa e poesia,. Os versos a seguir espelham melhor a sua biografia e a sua geografia humana.
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Valquíria Raizer (Dos ipês)

De um amarelo
Impositivo
Flutuante

(cambio, desligo)

As garrafas de fanta
Parecem tão laranja
(ali)

A escada
Tem muitos
(degraus)

Prego
Cada uma
(a seu tempo)

Valquíria Raizer (Laranjas e fantas)

Eu te avisei!
…disse Mário com cara de Maria…
(como se houvesse menos multa
quando se buzina antes de passar o sinal)

Avisou sim é verdade,
mas queria não ser entendido.
Avisou só por desencargo.
E isso não conta.

Disse que o ipê floria,
que era amarelo e só.
Disse que era desse jeito todos os anos,
e que não pensava em mudar.

Mas o ipê muda Mário,
e sou eu
é que estou te avisando.

Há de nascer laranjas nele…

Se não nascer eu mesma subo
e prego umas garrafas de fanta.

Valquíria Raizer (Reticências)

vou escrever qualquer coisa
que não pareça
nada
( ! )

esse tudo
é mesmo
o que
(devasta)

Valquíria Raizer (Coração estranho)

Um coração estranho
E uma alma
Torta

Um coração
Estranho
E uma alma
Torta

Olha pra mim
Vê o que vês
Olha (!)
É só uma
Alma torta

Do que tens medo
Medo de quê
Sou só mais uma alma
Torta

Valquíria Raizer (Aceleração)

…é como se tudo tivesse
girando
Um giro calmo
(e calculado)

Um giro bom
(pro mundo)

Mas o mundo
(é grande)
E não precisa de mim
( e de ti)

Mas eu, querida
Eu preciso do mundo
E ele está aí
(flertando)

Valquíria Raizer (Katauê)

O miolo dentro da casca
(pão)

O miolo dentro
( da casca)

A casca virando

O miolo
O miolo
Miolo

Poderia
Correr
Sem
Léguas
(cem)

Um colar de castanha elétrica
Uma flor amarela
Muru

(estou tão acremente despida hoje que o açai perdeu a cor)
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WALQUÍRIA RAIZER

graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Acre e especializou-se em Jornalismo Político pelo Centro Educacional Uninorte. Devido ao engajamento pessoal com as manifestações culturais, tem o histórico profissional voltado para a política cultural. Amazônida, escritora e poetisa, publica seus textos em diversos sites amazônicos. Defende a poesia como matéria prima de todas as artes. “A poesia antecede a escrita: é sentimento.” Escreve no desterro21 (http://desterro21.blogspot.com/) e no Um caso Poético (http://umcasopoetico.blogspot.com/).
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Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br
/

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Caldeirão Literário do Estado do Maranhão

(id: MCCXXVIII)

Adailton Medeiros (Auto-Retrato)

Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer

Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)

Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
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ADAILTON MEDEIROS
Nasceu em Caxias, Maranhão, em 1930 e estudou jornalismo em Niterói, Rio de Janeiro., e depois mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Livros de poesia: O Sol Fala aos Sete Reis das Leis das Aves e Bandeira Vermelha.
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Lago Burnett (O Copo D´Água)

O copo d´água. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.

Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.

Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.

O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)

Lago Burnett (A Última Canção da Ilha)

Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial

Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)

A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas

Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo

Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte

Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas

Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo

Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís

Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho

Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias

A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato

Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas

(Os Elementos do Mito / l953)
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LAGO BURNETT
(1929-1995)
José Carlos Lago Burnett é natural da cidade de São Luis do Maranhão, onde atuou intensamente na imprensa e em veículos de cultura com Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Considerado um dos expoentes da Geração de 45, passou a exercer atividade jornalística no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal do Brasil.
Obra poética: Estrela do céu perdido (1949), 50 poemas (1959).
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Dunshee de Abranches (A Selva)

De pé, no tombadilho, olhos fitos no espaço,
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira…
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fàntasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço… e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
Jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.

Dunshee de Abranches (O Violino do Artista)

Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.

Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era “mais do que humano, era divino!”

E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!…

Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo… mas ah! tinha a alma surda…
já não sentia o mísero instrumento!…
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DUNSHEE DE ABRANCHES
(1867 – 1941)
Dunshee de Abranches (pseudônimo: Rabagas), romancista, poeta, jornalista, orador
nasceu em 1867 em São Luís do Maranhão e faleceu em Petrópolis, em 1941.
Romancista, poeta, jornalista, orador
Obra poética: Cartas de Um Sebastianista (1895), Minha Santa Teresinha (1932),
Pela Itália (1906), Pela Paz (1895), Selva (1923), Versos de Ontem e de Hoje (1916).
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Luís Augusto Cassas (Crônica de Nomeação da Defensoria Lírica da Cidade)

por graça e gosto de el-rei
e espada de bom capitão
por instrução do prior-frei
segredos do coração
e por tudo que oro e sei
moinhos de ventos e brasão
consagro em pública praça
do herói a rebelião
e nomeio fiel protetor
das pedras do nosso chão
a luís Augusto cassas
defensor perpétuo e lírico
de São luís do Maranhão
em nome do sol e mar
dou a ele força e poder
de lapidar e guardar
a vida que há de florescer
expeça-se alvará
salvas de mudo canhão
província de muito amar
firmo: “cais da sagração”
Extraído de Em Nome do Filho (Advento de Aquário). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Luís Augusto Cassas (Mar Deprimido)

mar de São Luis, constrangido,
que banhas as costas do Atlântico
e as costas e seios das pacíficas,
quem te roubou o azul do paraíso:
os vendedores de cloro das piscinas
ou o céu desbotado do olhar das meninas?

mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e conquistadores
em navios que vazam óleo desde o início,
quem roubou o azul do teu sorriso:
os poetas que te deixaram abandonado
ou os petroleiros que te sujaram o vestido?

mar de São Luís, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
é o teu vestido e anágua?

choras por Antonio: o de Cleópatra?
choras por outro: o de Ana Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de crocodilo,
deságuas sujas águas em praias e portos.

enches os tonéis, os lenços, os esgotos.
mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar amargurados,
quem seqüestrou o teu azul-coral
deixou-te em troca o excesso de sal.

entanto, o verde que antevejo nessa manhã,
só o vislumbro detrás de óculos rayban.
a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti, choro.

Luís Augusto Cassas (Os Arautos do Dia)
edital de tombamento
(escrito em papel embrulho)

Ficam declarados tombados
pra todos os efeitos e dados
os herói anônimos e martirizados:

os paralelepípedos sob o asfalto
& a cobertura de cobalto

o sorvete de ameixa do hotel central
& as sessões coloridas no cine-rival

as sabiás de cócoras
& os bem-te-vis de galochas

a coroa de rei dos homens
& a galinhagem de ana jansen

a caldeirada do germano
& os endereços dos pés-de-pano

os vendedores de pirulito
& os jogadores de palito

os anjinhos despirocados
& os poetas emprenhados pelos ouvidos

os quebra-queixos à mingua
& o teu beijo de língua

o doce de bacuri com cravinho
& o pôr-do-sol do portinho

as meninas da rua 28
& as virgens mortas sem coito

(a esses 20 tiros de canhão
e 30 missas em intenção)

e mais ainda: a saudade etérea
do amor de g. dias & ana amélia

O pintor de cartazes do cine-éden
faça repintar e imprimir e correr
a nova aurora que vai nascer

Luís Augusto Cassas (Feira do João Paulo)

Grécia jamaicana:
tua bandeira republicana
é um cacho de banana

Extraídos da obra Ópera barroca (guia erótico-poético & serpentário-lírico da cidade de São Luís do Maranhão). Rio de Janeiro: Imago, 1998.
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LUÍS AUGUSTO CASSAS
Nasceu e mora em São Luis do Maranhão desde 2 de março de 1953. Publicou muitos livros de poesia, sempre bem recebidos pela crítica.
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Félix Aires (Imprevisto)

O viajante, ao passar., joga e esquece, na mata,
a ponta do cigarro, inconsciente do mal;
e nas folhas do chão a fagulha desata
o fogo que não veio ali proposital.

Irrompe a labareda, alarmante arrebata
ramos, troncos, rechãs a investida infernal!
Rubra serpente enorme em fúria desbarata
a fragrância, o viçor do reino vegetal!

Queima-se o campo, a roda, a um sopro, de improviso!
E longe, o causador de todo o prejuízo
vai muito alheio ao dano, olhos não volve atrás.

– Também há quem nos jogue o olhar flamante e quente
que o coração nos leva a uma paixão ardente
e a dona desse olhar nem sabe o mal que faz!

Félix Aires (Soneto Artificial)

Do alto do meu sonho inadiável, do cimo da
impressãp que conduz em prol de novo estilo,
às vezes vejo a Musa – uma Vênus de Milo,
outras vezes, porém, uma pobre quasímoda!

A lira – o coração – a jóia que esmerilo,
tímida, pronuncio aqui no verso – tímida;
metaplasmo ajuda a isto, alcança o arrimo da
antítese que vem para servir de asilo.

Hei de também vencer! O caminho mais reto dos
trabalhos vou a seguir, vendo que se desaba do
esforço que porfio, a rigidez dos métodos.

E fico, noite e dia, alerta, neste afã:
– segunda, terça, quarta, e quinta, e sexta, e sábado,
domingo… E vencerei? – Vencerás, amanhã!

Félix Aires (Porto de São Luis)

De momento a momento, amuado, o mar esmurra,
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!

Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!

Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!

– Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!

(In Vagalume, jan./fev., 1994)

TROVAS
Longe, a gaivota voando,
é um til perdido nos ares…
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!

Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.

Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.

Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.

Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!

Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!

In Clóvis Ramos/Minha Terra Tem Palmeiras (Trovadores Maranhenses) Janeiro, 1970)
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FÉLIX AIRES
(1904-1979)
Felício Alves nasceu em Buriti Bravo, M aranhão, Brasil. Poeta, prosador, médico veterinário, membro da Academia Maranhense de Letras.
Obra: Antologia de Sonetos Piauienses (1972), Apanágio (Poesia,1936), Buriti Bravo (Poesia, 1931), Cromos (1953), O mais Lindos Sonetos Piauienses (crítica, teoria e história literárias, 1940), O Maranhão na Poesia Popular (1977 ), O Natal na Poesia Brasileira (1957), O Piauí na Poesia Popular (1975), Os Menores Versos da Língua (crítica, teoria e história literárias, 1962), Ouro Bravo (Poesia, 1960), Pequenas Palestras (1936), Poemas aos Imortais (1937 ), Relâmpagos (Poesia, 1960).
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Assis Garrido (Vênus)

Deusa, a teus pés a flor das minhas crenças, ponho!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, – a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.

Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.

Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!

Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!

(In Antologia da Academia Maranhense de Letras,1958)

Assis Garrido (A Frase que Matou o Operário)

“Não precisamos mais do seu serviço”,
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
” Não precisamos mais do seu serviço” .

,. Não precisamos mais do seu serviço…”
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso…
E ele consigo murmurava como um louco:
” Não precisamos mais do seu serviço..,”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
Torou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço,
E após, chorava murmurando como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!… E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava murmurando como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se.Morreu. “Foi o diabo ou feitiço…”
Ele murmurando, como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

(O Livro da Minha Loucura,1926)

TROVAS

Tic-tac… E a mocidade
vais-se e aparece a velhice…
Tic-tac… Ai, que saudade
Dos tempos da meninice!…

O amor, que em sonhos espreito,
em teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?

Eu era um só. Tu surgiste –
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!

Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, – por que não? –
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração…

Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!

(In Minha Terra Tem Palmeiras/Clóvis Ramos/1970)
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ASSIS GARRIDO
(1899 – 1969)
Poeta, teatrólogo, jornalista, funcionário público nascido em São Luis do Maranhão, membro da Academia Maranhense de Letras, Instituto Cultural Americano-Argentina.
Obra: A Divina mentira( Poesia, 1944), A Vergonha da família (Teatro),
Dom João (1922), O Livro da minha loucura, e O Meu livro de mágoa e de ternura (Poesia, 1923), Oração materna (Poesia, 1920), Regina (Teatro, 1920) e Sol glorioso (Poesia, 1922).

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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Arquivado em Caldeirão Literário, Maranhão, notas biográficas, O poeta no papel