Arquivo da categoria: Caldeirão Literário

Lurdiana Araújo (Caldeirão Literário do Tocantins)

CÁLICE

Se o amor acabou,
traz-me o cálice
que finda esta vida,
transforma minha alma
nas flores, na lua.

Se o amor acabou,
acabou-se a lida.
Traz-me o cálice
sem despedida.

Esquece as juras
Sob a luz da lua,
esquece que minh’alma
desejava a tua.

Esquece o silêncio
na madrugada fria,
minh’alma partiu,
sem despedida
pra longe da tua.

VIDA

A vida é uma metáfora tão mágica,
Que confunde até o crepúsculo da aurora.
O segredo está em saber acreditar.
O pingo da chuva quando se lança
Do firmamento ao chão,
Não é um suicida,
É um aventureiro
Em busca do mar.

SAUDADE

A saudade é uma flecha doída
Corta o peito, deixa a alma traída,
Nem mesmo as mágicas do tempo
Selam esta ferida.

Tece as rendas do tempo em nossa face
Nos escraviza, nos minimiza, tira da gente
O melhor da vida.

FOGUEIRA

Coração, deixa de besteira,
O amor é apenas uma fogueira
Queima a alma inteira.

Como fogo na lareira
Vai nos queimando como madeira
Nos consumindo a vida inteira.

É uma chama traiçoeira
Quer nos sufocar, apedrejar,
Aniquilar.

Nunca tente pular esta fogueira
Uma ferida corta a carne quer não queira,
E nos aprisiona nesta chama traiçoeira.

É inútil relutar, nem mesmo nossas cinzas,
Conseguem se libertar de alguma maneira.
O amor é apenas uma fogueira, chama traiçoeira.

MEU VÍCIO

Alucinação,
Loucura,
Palavra fria,
Ternura.

Foi se o tempo
Do meu ócio,
Desejar não posso.

Estou aprisionado
No meu vício,
Já quase não existo.

Fraquejante
Eu desisto,
Não da vida,
Do meu vício.

Esta paixão suicida
Que fiz de abrigo
Roubou-me a vida.
–––––––––-

Professora, escritora, poetisa. Nasceu em Filadélfia, Estado do Tocantins. Radicada em Brasília há quinze anos, é formada em Artes/Teatro. Especialista em Arte-Educação e Tecnologias Contemporâneas. Pós-graduada em Arteterapia.

Vencedora do XXIII PRÊMIO INTERNACIONAL DE POESIA NOSSIDE 2007 em Reggio Calábria – Itália.

Livros publicados: Querido Mundo (poesia) 2005. Participou de diversas antologias.

Página pessoal: http://ideiaspoeticas.blogspot.com

Redatora do site Cerrado Poético – http://www.cerradopoetico.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, Tocantins

Caldeirão Literário do Mato Grosso do Sul (2)

Vanda Ferreira
Árvores

Braços múltiplos,
Mãos e dedos adornados
Com preciosos anéis;

Pés de confetes
Cipós, Flores,
Pernas vestidas
Com pele de musgo;

Corpo perfumado
Seiva de cheiro matuto;

Singra em mim
Acolhimento para poesias.
==================

Ileides Muller
Amor Concluído

Julgamento a revelia
no tribunal da razão.
A sentença:
“Amor concluído”.
“ARQUIVE-SE.”
==================

Ruberval Cunha
Corpos meditando

A solitude invade o universo.
Todo mundo tão sozinho, tão disperso,
Um em cada canto do universo.

Mas eu sou um sonhador
E ainda acredito,
Na extinção da solidão,
Pelo amor.

Almas se unindo
Corpos meditando.
O fim será o começo
E o começo está chegando.

O homem quer companhia,
Mas constrói a solidão
E sobrevive a cada dia,
No iceberg da razão.

Mas eu sou um sonhador
E ainda acredito,
Na extinção da solidão,
Pelo amor.

O fim será o começo
E o começo está chegando.
Almas se unindo,
Corpos meditando.
====================

Nena Sarti
Imagens

Toda virgem
Deveria pousar
Para fotografias
Antes de serem flechadas
Pelo senhor desejo
Esse transformador de sentimentos.

Nos retratos
Eternamente sem toques:
Os sorrisos puros,
Olhares cândidos,
Saudoso deleite.
=============================

Luzia Ozarias
Flor de outono

Feito flor de outono
Tempo árido, manhãs frias
No alforge d’alma o que traria
Envolta em tão excelsa luz?

Doce essência, servindo a Divina ciência
No sutil aroma perfumando os ares
Envolvente, inebriante…ah, quem me dera!
Ter-te em meu jardim, e permanente.

Trouxe beleza que abraça e contagia
Nos olhos quase negros e brilhantes
Transformando a íris torturante
Em sereno aconchego. Quem diria!

Trouxe a esperança da bondade incansável
Refletindo o Doador imensurável
No viver de eterna bonança.

Trouxe fé inquebrantável e perene
Flor de outono, coração cálido
Seu nome é Luciene.
=============================

Elias Borges
Mar e Fé

(para Maria Rejane Fernandes Borges)

Outorgou-me
esperança.
O fogo lambendo
seus olhos.
Troando em
minhas retinas
águas profundas.
==========================

Toninho do Arapuá
Por Ti Amar

De mim já não precisa mais, meus sentimentos tanto faz,
Esquece que tirei as pedras do seu caminho,
Ofereci-lhe tanto carinho, sem nada lhe cobrar.
Na hora do seu desespero, fui eu o seu parceiro,
Aquele que lhe tirou do sufoco, hoje recebi um troco,
Sua atitude a nada posso comparar.

O que me deixou mais triste, foi à maldade que em você existe,
Quando consegue o que quer, é um salve-se quem puder,
Não importa a quem vai machucar.
Preocupa somente com seus direitos, esse é o seu pior defeito,
E ainda se faz de vítima, mas nada justifica,
Minha pessoa querer julgar.

Lamento com tristeza porque lhe conheci,
Por te amar muitas vezes não percebi,
Um sonho vivido pela metade, esta é a triste verdade,
Que demorei para aceitar
Porém, já esqueci minha magoa, na minha vida você é água passada,
O destino comigo foi caprichoso, mas o meu diário amoroso,
Seu nome consegui apagar.
=====================================

Tânia Gauto
Taperas

Não há cultura!
Ajudem! Rabisquem histórias.
Ergam costumes deliciosos.
plantem pés Mbaiá,
colham ritos Guarani,
encham o mar Xarayé.

Salguem carnes moças,
Temperem almas pobres.
Cantem noites vazantes,
Debrucem ais Paiaguá.
Vistam manhãs bonitas,
Namorem Maracajús.

Nas prateleiras de Barros
guardem bugras Conceições,
soldem nas calhas do tempo
Ferreiras, florais e Baís,
abram Mirandas estradas
salvem lendas Terena.

Proseiem Helenas horas
em dez cordas afinadas
e marquem de céu a chão
com as sementes, sangue porã,
que não há cultura nas águas,
mas, taperas escondidas nos Homens,
a serem catalogadas.
===========================

Delasnieve Daspet
Sombras de Mulher!

Sou uma menina.
De meia idade.
De acordar preguiçoso.
Da tardes ensolaradas,
Dos beija-flores coloridos!
Sou uma menina levada
Que se fez mulher
Que se fez sombra
Para viver.
Uma sombra nas nuvens.
Uma avezinha canora,
Que dentro da gaiola
Morre de saudades!
Sou uma sombra
Que não teve poder
Para gerar o que
Foi gerado.
Que queria apenas amar,
Mas que amor busquei?
Será este argamassado
Em lágrimas?
Uma sombra bela.
Que martela na pedra.
Que corta o barro.
Para dar seu produto:
A inspiração!
Sou sombra.
Que se desespera.
Que errou por lugares longínquos.
Sou hera.
Colada na tristeza dos edifícios!
Sou desespero,
Que emerge do fundo dos ser.
Sou paixão.
Não posso repetir façanhas
Do passado,
Reincidir.
Sou sombra.
Apenas uma sombra de mulher.
Em busca de luz.
As liberdade desse amor que
foi
E é minha expiação!
==================

Fonte:
União Brasileira dos Escritores do Mato Grosso do Sul

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário

Aristóteles Guilliod de Miranda (Caldeirão Literário do Pará)

RUÍDOS

Traduzo meu risco de ser
buscando-te no desvão do eco
da palavra espanto
plantada no olfato de gestos
deste chão que planejo
assim como a natureza
da morte revisitada
em cada ausência.
–––––––––––––––-

PORTA-RETRATOS

A vida parada num sorriso
que desafia o tempo
e que se destrói
quando alguém
troca a foto
– que já não toca.
–––––––––––––––-

XXII

O cinzeiro mede a hora
e a alma
O tapete acalma os pés
inquietos
com seu carinho sintético
A lâmpada e seu olho quente
observam a
natureza morta do homem

Só o relógio, impunemente,
enterra o tempo
entre os ponteiros
–––––––––––––––––––

1964

Então, foi decretado o escuro.
Eu, que nem iniciara
o aprendizado da luz,
fiquei sem sol.

––––––––––––––-
MACACO

Do espelho ancestral me olhas
em caretas e curiosidade
como a perguntar pelas eras
em que eras eu

Semi-ereto, teu caminho
encontra meu destino recurvo

Em guinchos saúdas a razão
em seu caminho milenar
até a voz

Teus riscos no chão inauguram
as palavras com que te celebraria
mais tarde.
––––––––––––––––––

ANIMA/IS

em penas
em pêlos
em pele
– plenos de si

cantos e escamas
cascos, carapaça e casulo
caudas

seda envoltos
vital invólucro
vôo & passo
uivos

patas irmãs das minhas mãos
em asas e nadadeiras

quebra-cabeças da natureza
misteriosa mistura
de cheiros e gritos e textura
universo inverso
de mim
––––––––––––––––––

PARA SEMPRE

Remeter ao vértice
ao pubiano vórtice incendiado
em alegóricas auroras
entranhadas na hora amortecida
Entre pêlos
………………sábios
………………………..lábios
aludir segredos
diluir delírios
Sucumbir em vagas
em estridentes vagas ressoadas
como um bote
––––––––––––––––

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, Pará

Age de Carvalho (Caldeirão Literário do Pará)

Aqui, em meu país
irremediavelmente nordestino e miserável,
à luz elétrica de meu século,
sob todos os alfabetos do medo e da fome;

aqui,
entre o homem e o homem
(como dois sistemas totais
num universo de águas inacabado),
aqui vivo.

De Arquitetura dos ossos (1980)

BOCA

a minha e a tua:
o ímã das línguas lança promessas,
letra-sobre-letra

À vera,
a tempestuosa mão da rasura
subjaz
negra no plural dos pêlos
à procura do selo mais profundo,

funda.

De Arena, areia (1986)

FAZER COM, FAZER DE

Estar, entre
estrelas e pedras,
interrompido

Resto de
ervas, tempo, entre dentes
detém-se
a palavra-refém,

réstia.
De Pedra-Um (1989)

SANGUE-SHOW

Esse o tempo—
em-sempre da serpente,
seu recobrado sentido
circular nas glebas
do sangue.

Chão,
subcutáneo, chão—
aqui se apaga
a veia vida/obra,
aqui a cobra
(intra-
vírgula
venenosa) insinua
entre ramas brilhantes
seu eterno s:

aqui, é-se.

Revista Inimigo Rumor, 7 (1999)

CORCOVADO

à Nelci Frangipani

Uma última vez
antes de subirmos,
braços abertos sobre
a flora brava, aqui
em baixo, onde colho
a despedida –

o tempo
só de abraçar
o abricó-da-praia,
meu amigo,
enquanto tu, trezentas
e terrena, davas
comida aos gatos.

POEMA COMPLEMENTAR SOBRE O RIO
A José Maria de Vilar Ferreira

O rio consagrado: a vazante
lembrança que escoa em maré
baixa e retorna — água escura
— na preamar

O rio sagrado: invólucro do céu
e margem, e duas margens
dos caboclos amantes. O rio

passado: cismando na crisma, paresque
dumas lembranças que trabalham a solidão:
o paralelo das margens, uma igara partida,
as águas sujas que sempre voltam.

A CADELA

Caminhava grave pela casa
a cadela.
A cabeça quieta era sua altivez
quadrúpede no centro da cozinha.
Caminhava. Os olhos, costelas,
o mar de ossos, o coração
pardo e lento – caminhava.
A manhã debruçava-se pela janela: cristais no pó,
o púcaro da china, horas de louça
batendo nas palavras na sala da casa.
A cadela caminhava, dura,
secular.
(Domingo dormia
prolongado como um funcionário feriado).
Vivera demais. Descansava à sombra,
perto do quarador.
Sonhava farta, invisível,
a cadela azul,
nua
(o sexo velho e molhado,
um caranguejo arcaico sob o rabo).
Dormia, vazia.
Outubro doía longe, na Ásia,
quando a Fuluca anunciou: “A Catucha morreu”.

De ROR (1980-1990)
São Paulo: Claro Enigma, 1990

IN ABSENTIA

E: ainda uma chance —
uma pedra se refolha
para o repouso,
o instante é
sempre presença

Ror de erros,
recolho repetidos
o que ainda me pertence

NISSO

que ascendeu
se revelou
e esqueceu

ponhamos uma pedra

SUMA

Quantas vezes
ainda por repetir?

Estão comigo, todas
de segunda mão,
não classificadas

ó anel
círculo mancha ervas
sombra relva irmã
estrela erro tumba
por companhia

pedra pedra pedra

A JOÃO CABRAL DE MELO NETO

só dizer
o que sei
e duvido saber, o sal
pela mão
do rio-sem
resposta —
um luxuoso dizer, de vagar sem onda
e vaga, fluvial, não aliterado;

um dizer repetido na diferença,
barrento, semi-dito, em Não fechado;

ou o não-dito, rios sem discurso,
nome por dizer ou dizer empedrado;

dizer sim o raro e claro do poema,
dizer difícil e atravessado, com margem
de erro.
—–

Fonte:
Antonio Miranda. www.antoniomiranda.com.br

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, Pará, Poesias

Caldeirão Poético do Pernambuco

Saulo Novaes

QUADRO DE OUTONO

Cai a última folha da árvore nua
Lentamente
Amparada pelos traços invisíveis
Do vento de Outono
E da janela, olhos que não vêem
Observam a dança da natureza
Enquanto os olhos reais
Passam ilesos por aquela cena

EXPLOSÃO POÉTICA

Pratico meu egoísmo
Numa poesia em primeira pessoa
Ao rimar-me num oásis poético
De versos livres.
Cantando a liberdade,
Saio à procura da perfeita
Forma que expressará
Aquilo que sinto,
E que me foge
Como a explosão de átomos.
============================
Sérgio Bernardo

HERANÇA DAS VÁRZEAS

-Que herança foi deixada
por teu pai, poeta?
-Uma serra gasta de suor
seixos de maré faminta
que afiava a lua minguada
em suas mãos

-E o teu pai, o que deixou?
-Uma casa no campo
outra na praia e contas bancárias
pela cidade

-Mas, e o teu? Só a lua minguada
e nada mais?
-Ele fora carpinteiro
e tantas vezes canoeiro
sabia das marés obesas e nuas.
Por isso não sou poeta
sou canoa e serra amanhecendo

-Diga-me então, já que não és poeta:
-o que ele faz hoje?
-Poda as nuvens em silêncio
para a minha chegada.

UMA LUZ, SÓ UMA LUZ

A um ano-luz ou laços infinitos
De uma aritmética suicida?

O calendário no mofo da parede
Sustenta a agonia das asas
E milhões de vidas
Juntam-se aos tigres enterrados

Quando começa a morrer o sol
De teus olhos
O calendário outra vez
Mostra-me o inatingível

Aí, vem a consciência:
Não compreendes?
A China já mora em teu rosto.

As nuvens de um chão aberto
Em rugas e brasas
Ainda se vestem de esperança.

O coração do amado
Viaja continentes
E chega ao teu, faz morada,
As fontes renascem
E a incadescência da manhã
Vive cantigas de pássaros.
===============================

Sergio Leandro

CANÇÃO PARA LISBOA

Há um mundo de águas e seres abissais
entre meu coração e Lisboa.
Mas eu sei que nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera

Minha canção também é feita de silêncio
e o meu tumulto se derrama nas horas vazias da noite…

Eu invoco as palavras sagradas
e ergo ao vento o meu estandarte
porque nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera.

ETERNA SÚPLICA

Morrer na flor da idade
Sem andar pelos pomares,
Sem colher os frutos doces…

Ai, meu Deus, não permitas tal!

Morrer na flor da idade
Sem ver se quer um filho.
Um filho!

Ai, Deus meu, não permitas tal, Senhor.

Ó Deus de todos os mortais,
De todos os crentes,
Deus de todos os ateus…

Deixa crescer a árvore junto às águas,
Deixa em silêncio a voz dos sinos,
Deixa.

CONCLUSÃO

O amor,
O ódio,
A violência,
O cosmo,
O infinito.

O que há de novo em tudo isso?

Nenhum dia se passou
Sem que eu pensasse na morte…

A vida é como a poeira
Que o vento leva,
Como teus olhos embaçados pela chuva,
Como eu mesmo quando me escondo.
======================
Sérgio Ricardo Soares

EPILIMNO

nunca bordou-se de singelas ondinhas azuis
o lago frio
nunca foi cisterna por cujo brilho
via-se plâncton

existiu -como é o comum nos dias –
com demasiada pouca luz
mal se distinguia o extenso lodo
que afinal nunca fora muralha assim tão mordaz

nunca o lago frio coalhou-se de gansos
os últimos fugiram sem grasnar
da sombra dos salgueiros

nunca pôde haver inverno branco
sob a sombra dos salgueiros
nunca se soube o sabor da pouca água
porque se desprezava com simples olhar
as poças pululantes de camarões

era remoto de qualquer rio
entre três montes humildes
só cheirava o vento forte
a longos juncos amarelados
aroma até doce
se vagasse em brisa
que no frio do lago nunca houve
e durou tanto

DRAMA

em verdade não é mais belo
o vôo do ranforrinco

atenção e notarás
como hesita um de seus braços
como se o espaço baixo fosse vastidão
e mãe dramática a vociferar algemas
como seus olhos repitílicos estão cheios
de falta de brilho de quem não encontra sua paz
e não a busca
e nem discerne os seres que lhe causam
esses embriões de pavor

o ranforrinco já é o assombro
de hibridez e esterilidade
vôo alçado ontem
e urgência de repouso
mas não se pousa no chão do futuro

não funciona por enquanto
a vida do ranforrinco
se ele soubesse que à frente
do ir está apenas a morte tamanha
—-

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, O poeta no papel, Pernambuco

Almir Câmara (Caldeirão Literário da Bahia)

POUCO, MAS BASTANTE

As coisas boas que não conhecemos,
sabendo até que elas estão em vida,
de faltas suas não padeceremos
se a nossa alma estiver abastecida.

Não vale a pena a elas se ter acesso
se para consegui-las for preciso
sentir nosso conforto agora opresso,
pois tempo futuro é muito impreciso.

Feliz do ser que o pouco for bastante
para levar a vida que ele gosta
sem a riqueza ver muito importante.

Quem reputa o bastante muito pouco
de muita coisa boa se desgosta
e se consome num viver de louco.

(04/07/1989)
========================

O SABOR DA TRISTEZA

Nada pode ser tanto condolente
quanto ver a chorar um sofredor
que está cativo de uma grande dor
sem ver um só calor que lhe acalente.

Não, não há nada mais comovedor
do que assistir as lágrimas de um ente,
que está a sofrer uma dor ardente,
fluírem sem tirá-lo dessa dor.

Suas lágrimas são sangue incolor,
mas que deixa impressões de alto calor,
fazendo a gente chorar com certeza.

Elas têm o sabor da água do mar,
sabor que não dá para costumar,
pois é também o gosto da tristeza.

(18/07/1990)
============================

CONFERÊNCIAS AMARGAS

Tenho do meu rincão muita saudade,
mas só do tempo que eu era criança,
pois lá eu só vivi toda essa idade
e tudo ficou fixo na lembrança.

Hoje se vê por lá outra verdade,
tudo se transformou, houve mudança.
Por toda parte tudo é novidade.
Para mim não existe mais pujança.

As árvores antigas não há mais.
O povo mais velho, também jamais.
De amigos que deixei, só referências

Até seu rio não é mais o tal,
está sujo, doentio, não vital.
É triste fazer estas conferências.

(10/10/1990)
========================

ENDEREÇO DA FELICIDADE

Se é um endereço onde há felicidade
que você está tanto na procura,
não vá onde houver pompa com fartura
nem onde muito houver necessidade.

No primeiro lugar há corredura
para sempre se ter prosperidade,
enquanto no outro, que disparidade,
só manter-se vivo é carreira dura.

Investigue onde o pouco for bastante,
onde não haja inveja assinalada,
onde parar se possa algum instante,

onde valor ninguém dê a adereço
e onde a raiva ninguém veja instalada,
pois, com certeza, é lá esse endereço.

(12/10/1990)
===============

O HOMEM FELIZ

O homem feliz não é muito exigente.
No geral é de classe média baixa.
Não é considerado diligente,
mas sempre tem algum dinheiro em caixa.

Também não é julgado inteligente,
sua cultura é de pequena faixa,
mas todos o acham uma boa gente
e a amizade de todos, ele encaixa.

Muitas vezes eu fico-lhe observando
viver bem sem haver tanta exigência,
e nesse exame dou-lhe o grau distinto.

E assim, sem ganas, vai se conservando.
Pode não ser de grande inteligência,
porém é um racional de grande instinto.

(14/10/1990)
========================

CALÚNIA, ARMA DO MAL

Se tua ira algum dia aconselhar-te
fazer acusações falsas a alguém,
contém-te, nada inventes de ninguém,
ainda que se ponha a atrapalhar-te.

Defende-te com as armas só do bem,
usando-as com justiça e com muita arte,
mas a calúnia deixe bem à parte.
Ela atingirá tua alma também.

Se a vomitares, num lance cruel,
pedes logo desculpas da desfeita,
confessando que tu foste infiel.

Faças como o cachorro que retoma
sua vomição logo após a feita
e do mal sanarás seu hematoma.

(03-11-1990)
===========================

Sobre o Autor
Almir Querino Câmara, filho de Antonio Querino Câmara e Maria Madalena Lemos Câmara, nasceu em Faisqueira, vila do Município de Ubaitaba, Bahia, em 16 de outubro de 1932. Reside em Vitória da Conquista, Bahia, desde maio de 1964. É casado com Heleusa Figueira Câmara, tem 4 filhos (Diana, Mônica, Danilo e Verônica) e 6 netos (Matheus, Heleusa, Raquel, Isaque, João Pedro e Leonardo).
Formado em engenharia civil em 11 de dezembro de 1958 pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Foi engenheiro da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, Bahia de 16/03/1973 a 31/12/2005. É engenheiro credenciado da Caixa Econômica Federal desde maio de 1975.
Vem se dedicando a fazer versos rimados desde maio de 1989. Participou no livro Coletânia de Poesias, Volume I, da Usina de Letras, publicado em 2005

Fonte:
Antonio Miranda

Deixe um comentário

Arquivado em Bahia, Caldeirão Literário, notas biográficas, O poeta no papel, Ubaitaba

Benjamin Silva (Caldeirão Literário do Espírito Santo)

ESCADA DA VIDA

Julguei da vida haver galgado a escada,
essa escada de mármore polido,
que nos conduz à estância desejada
de um grande bem, raríssimo atingido.

Hoje vejo, porém, que quase nada
consegui, afinal, haver subido:
—ficou-me longe o termo da jornada
em que eu exausto me quedei vencido.

Pelos desvãos da escada mal me erguendo,
já sem noção e sem fé que anima,
nem sei se vou subindo ou vou descendo…

Por isso os seus extremos jamais acho:
—vejo degraus, olhando para cima,
vejo degraus — olhando para baixo!

(Escada da Vida, 1938)

CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM

Prisioneira feliz mas condenada
por leis irredutíveis e absolutas
a viveres assim encarceirada
nesta cadeia de montanhas brutas.

Mas que importa se é esplêndida a morada!
Pois daqui tudo vês e tudo escutas;

E o Itabira te guarda e te vigia,
como se fosse eterna sentinela
—carcereiro que vela noite e dia.

Tudo, afinal, te rende um justo preito,
Enquanto um claro rio tagarela
Rola, cantando, dentro de teu peito.

(Escada da Vida, 1938)
–––––––––––––-

Benjamin Silva (1886-1954)

Nasceu na Fazenda de São Quirino, distrito de Castelo, no então município de Cachoeiro de Itapemirim, a 20 de julho de 1886. Faleceu no Rio de janeiro, a 10 de junho de 1954. Poeta e comerciário. Foi diretor dos Armazéns Gerais da Empresa Guanabara, no Rio de Janeiro. Desde cedo dedicou-se à poesia. Colaborou em vários periódicos e desfrutou de prestígio nos meios literários de Cachoeiro de Itapemirim. Figura em várias antologias de poetas nacionais, com o soneto “O Frade e a Freira”, que se tornou um dos mais conhecidos da poesia espírito-santense.

OBRAS: “Escada da Vida”, 1938 (poesia), prefácio de Atílio Vivacqua e ilustrações de Santa Rosa.

Fonte:
BRASIL, Assis (organizador). A Poesia Espírito-Santense no Século XX. RJ: Imago; Vitória, ES: Secretaria de Estado de Cultura e Esportes, 1998.

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, Espírito Santo, notas biográficas, Poesias