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Jakob e Wilhelm Grimm (O Pássaro de Ouro)

Era uma vez, há muito tempo, num reino distante, havia um rei que tinha um pomar muito belo nos fundos de seu castelo. Nesse pomar havia uma árvore que produzia maçãs de ouro muito deliciosas. Quando as maçãs amadureciam eram contadas uma a uma. Certo dia o rei notou que faltava uma maçã e então deu ordem para que todas as noites alguém ficasse vigiando a macieira.

Esse rei tinha três filhos, príncipes herdeiros, e então enviou o maior deles, ao cair da noite, a vigiar o pomar e a árvore; porém, antes da meia-noite o jovem não se conteve de sono e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que faltava uma maçã. Na noite seguinte o rei enviou o filho do meio a vigiar o pomar. E da mesma forma este não teve melhor sorte que seu irmão mais velho. Adormeceu antes mesmo da meia-noite e, quando despertou na manhã seguinte, notou que faltava uma maçã na árvore.

Terceira noite. Chegou a vez do menor, do caçulinha cuidar do pomar. O rei, porém, não botava muita fé no menorzinho e achava que aconteceria o mesmo com ele, e que não teria melhor sorte que seus irmãos mais velhos, motivo pelo qual não queria deixá-lo ir. O jovem, porém, pediu, implorou e insistiu tanto que o seu pai acabou consentindo. Então o caçula postou-se debaixo da árvore, ficou alerta, em vigília, e não deixou que o sono o vencesse. Ficou de olhos bem abertos e vigiando a macieira.

À meia-noite, como era noite enluarada, ele ouviu um grande barulho no ar e viu um grande pássaro voar ao redor da árvore – suas penas eram de ouro puro e brilhavam sob a luz do luar. O pássaro pousou na macieira e bicou uma maçã. Ao fazer isso o príncipe-caçula pegou o estilingue e atirou-lhe uma pedra. O pássaro voou com a maçã no bico mas, atingido na cauda, deixou cair uma pena dourada.

 Na manhã seguinte o caçula levantou-se, pegou a pena e levou-a ao rei seu pai e contou-lhe o que vira durante a noite. O rei então reuniu os sábios do seu reino e todos foram unânimes em dizer que uma pena de ouro daquelas era raríssima, mais cara que todo o seu reino. Então o rei lhes disse:

“Se uma pena assim é tão valiosa, então de nada me adianta ter apenas uma pena dourada. Eu quero o pássaro todo, vivo.”

No dia seguinte o pai chamou o filho mais velho e enviou-o em busca da ave. Ladino, pôs-se a caminho em busca do pássaro de ouro, acreditando que logo o acharia. Mal havia andado alguns quilômetros quando, ao entrar em uma floresta, viu uma raposinha à beira do caminho.

Preparou a espingarda e mirou. A pobre raposinha suplicou:

“Por favor, não me mate. Eu vou lhe dar um bom conselho: Você está em busca do pássaro dourado, não é mesmo ?  Pois bem, hoje à tarde, antes mesmo do por do sol, você irá chegar a uma aldeiazinha. Logo na entrada, na primeira rua dessa aldeiazinha você verá duas pensões – uma diante da outra. Uma delas estará toda iluminada e com música alta. Lá só tem folia e algazarra. Não entre nessa não. Vá à outra, do outro lado da rua, mesmo que ela tenha um aspecto horrível – mas essa é boa.”

 E o príncipe pensou consigo:

“Só se eu fosse muito bobo pra seguir um conselho dessa raposa tola…”

E assim pensando, apertou o gatilho da espingarda mas errou o alvo e não acertou a raposinha que esticou a cauda e os pelos e correu para dentro da floresta. Então o príncipe continuou seu caminho. Ao cair da tarde, chegou a uma aldeiazinha onde havia duas pensões, uma em frente da outra.  Numa delas, só música, festa, folia e bagunça e, na outra, silêncio e um aspecto não muito agradável aos olhos.

 E pensou consigo:

“Eu seria um tolo se eu me hospedasse naquela espelunca feia que mais parece uma favela e cemitério…”

E assim dizendo, entrou na casa onde imperava a bagunça e a folia. E viveu a vida comendo e bebendo, dançando e gastando tudo.  Esqueceu-se do pássaro, do seu pai e de tudo de bom que havia aprendido.

 Como o tempo se passou e o filho mais velho não retornava, o pai enviou o filho do meio. Este se pôs a caminho em busca do pássaro dourado.  E, da mesma forma como acontecera com o seu irmão mais velho, encontrou a raposinha à beira do caminho, a qual deu-lhe conselhos. Porém ele não a ouviu. Chegando àquela aldeiazinha viu, pela janela da casa de folia, seu irmão bebendo e dançando. E lá dentro só algazarra. Seu irmão o chamou. Ele entrou e também levou a vida só no bem-bom.

 Passou-se o tempo e, como nenhum dos dois irmãos retornava, o caçula quis partir em busca do pássaro de ouro, porém seu pai não botava fé nele e não queria deixá-lo partir. Então o rei, seu pai, falou-lhe:

 “É inútil. Se seus irmãos não encontraram o pássaro dourado, você não terá melhor sorte… Você é muito pequeno… “

E tanto insistiu, e implorou o caçula que o rei, seu pai, acabou consentindo na sua partida.

  No caminho, logo na entrada da floresta, o príncipe-caçula encontrou a raposinha a qual disse-lhe que se não a matasse ela lhe daria bons conselhos. O caçula gostava de animais e adorou a raposinha, e disse-lhe:

“Fique tranqüila, raposinha bonitinha, eu não vou causar-lhe mal algum… Eu não vou matar você não…”

E a raposinha disse-lhe:

 “Meu nome é Sabedoria. Seguindo meus conselhos você não irá se arrepender… E para que você chegue mais depressa, suba às minhas costas.”

 Nem bem o jovem havia subido às costas da raposinha esta correu como um raio, passando sobre paus e pedras, até que chegaram àquela cidadezinha. O jovem príncipe desceu e, sem olhar para os lados, seguiu o bom conselho da raposinha. Pernoitou na casa feia, porém sossegada e limpa por dentro; e adormeceu tranqüilamente.

 Na manhã seguinte, ao prosseguir seu caminho, deparou-se novamente com a raposinha à beira do caminho, a qual lhe disse:

“Eu quero continuar lhe ajudando, aconselhando e dizendo o que você deve fazer. Vá sempre em frente, direto e reto, sem olhar para os lados, até que você irá chegar a um castelo diante do qual há um batalhão de soldados, deitados. Mas não se preocupe, pois todos eles estão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre no castelo e vá até o último quarto. Dentro desse quarto você irá encontrar o pássaro dourado dentro de uma gaiola velha, de madeira, pendurada na parede. Ao lado dessa gaiola de madeira estará uma outra gaiola, de ouro maciço, porém vazia; tome cuidado ! Não pegue o pássaro de ouro e o coloque na gaiola dourada. Se você fizer isso algo de mal irá lhe acontecer….”

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta correu tanto que até o vento zunia e assobiava.

 Chegando ao castelo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. O príncipe foi até o quarto onde o pássaro dourado estava dentro de uma gaiola de madeira. Notou que, ao lado, pendurado na parede, havia uma gaiola de ouro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada…. Já pensaram ! Eu levar um pássaro de ouro em uma simples gaiola de madeira e deixar aqui uma gaiola de ouro…??? Brincadeira, né???… . “

Assim pensando, abriu a gaiola de ouro e colocou o pássaro dourado nela.

No mesmo instante o pássaro dourado começou a piar e a  graznar muito forte e alto acordando todos os guardas do castelo, e fugiu da gaiola. O guardas do castelo entraram correndo no quarto, prenderam o príncipe-caçula e o lançaram na cadeia.

 Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte.  Porém, o rei daquele castelo disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse o cavalo de ouro e de crina branca, o qual era mais veloz que o vento; e, ainda por cima, poderia ganhar de presente o pássaro e a gaiola de ouro.

 Triste e desconsolado o príncipe pôs-se a caminho.  Mas, onde encontrar o cavalo de ouro ?  Pensando nisso ele viu sua amiga raposinha, à beira do caminho, a qual lhe disse:

“Viu só ? Eu não lhe falei ?? Você não seguiu meus conselhos… Tudo isso lhe aconteceu porque você não deu ouvidos aos meus conselhos… Mas, coragem. Você terá outra chance. Eu vou lhe mostrar como conseguir o cavalo dourado. Você deve seguir direto e reto esse caminho, sem olhar para os lados nem para trás, até que você irá chegar a um castelo onde encontrará o cavalo dourado em um estábulo. Diante do estábulo você verá, deitados, muitos guardas, mas não se preocupe, pois eles estarão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre na estrebaria, pegue o cavalo e parta a galope. Mas, cuidado ! Coloque sobre ele a sela feita de madeira e couro e não a feita de ouro que estará pendurado ao lado, senão algo de ruim irá lhe acontecer..”.

 Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.  Chegando ao estábulo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Foi até onde o cavalo de ouro estava, com uma sela de madeira e couro.  Pendurada, ao lado, havia uma sela de ouro puro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada…. Já pensaram ! Eu levar um cavalo bonito e alazão como esse com uma simples sela de madeira e couro velho?? … E deixar aqui uma sela novinha de ouro???   Brincadeira, né ?? … . “

Assim pensando, rechaçou a sela velha e colocou a de ouro no alazão. No mesmo instante o cavalo começou a relinchar tão alto e forte que acordou todos os guardas do castelo, os quais vieram e prenderam-no levando-o diante do rei.

Depois o jovem príncipe foi posto na cadeia.

 Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte. O rei daquele castelo, porém, disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse a princesa que morava no castelo de ouro. Se trouxesse a princesa poderia levar de presente o cavalo e a sela de ouro.

  Muito triste e com o coração angustiado o jovem pôs-se a caminho em busca do castelo de ouro e da princesa que nele morava. Por sorte ele logo encontrou no caminho a fiel raposinha, que lhe disse:

“Eu deveria abandoná-lo à sua própria sorte, mas eu tenho pena de você e quero ajudá-lo mais uma vez. Siga esse caminho direto e reto, sem olhar para os lados nem para trás. Ao entardecer você irá chegar a um castelo dourado. Ao soar meia-noite, quando tudo estiver em silêncio, a princesa sairá para nadar na piscina. Então, assim que ela entrar na piscina, mergulhe também e beije-a. Então ela irá seguir você. Porém não a deixe despedir-se e beijar os pais, porque se você deixá-la fazer isso, algo muito ruim irá lhe acontecer.”

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

Quando o príncipe chegou ao castelo dourado encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Esperou dar meia-noite e, quando tudo estava calmo e silencioso a jovem e bela princesa foi até a piscina, entrou, e logo a seguir o príncipe mergulhou e deu-lhe um beijo. Ela disse-lhe então que havia gostado dele, que o amava, e que gostaria de ir embora com ele; porém, antes teria que despedir-se de seus pais. Ele, lembrando-se dos conselhos da raposinha, disse que não. Mas ela tanto chorou e implorou e beijou-lhe tanto que ele acabou consentindo que ela se despedisse dos pais.

 Logo que a jovem princesa entrou no quarto de seus pais, que estavam dormindo, beijou-os, e estes despertaram;  acordaram-se também todos que estavam dormindo no castelo. Houve uma gritaria e o jovem foi preso e colocado na cadeia.

 Na manhã seguinte o rei daquele castelo disse-lhe:

“Sua vida está por um fio, mas você poderá salvá-la se conseguir retirar esta montanha que está diante do meu castelo, montanha difícil de ser transposta e que me impede de ver o outro lado do meu reino. Mas veja bem, você tem que fazer isso no prazo de oito dias. Faça isso e você terá a mão de minha filha em casamento.”

E o príncipe começou a cavar, a retirar terras, paus e pedras da base  da montanha que ficava diante do castelo. E trabalhou, e trabalhou e, no sétimo dia não havia feito muitos progressos, tinha retirado pouca terra. Cansado e exausto, caiu, desanimado e desesperançado, chorou.

 Ao entardecer do sétimo dia apareceu novamente a raposinha sua fiel amiga e disse-lhe:

“Você não merece que eu o ajude pois foi desobediente e não seguiu meus conselhos. Última chance. Deite-se e durma ali na grama que eu vou fazer esse serviço em seu lugar”

E começou a cavar.

Na manhã do oitavo dia, quando o rei acordou e olhou pela janela, a montanha havia desaparecido. Por seu turno, feliz da vida, o jovem príncipe correu ao castelo e disse ao rei que agora este teria de cumprir a palavra e a promessa e dar-lhe a mão da princesa em casamento. Então, alegres e felizes, partiram ambos, príncipe e princesa, em uma carruagem muito bonita, puxada por seis cavalos brancos.

Não demorou muito, a raposinha apareceu-lhe no caminho e falou:

– “O melhor você já conseguiu, mas acontece que o cavalo dourado  também é da princesa do castelo de ouro…”

– “Mas como eu poderei pegá-lo ?”   Perguntou o príncipe.

– “Eu vou lhe explicar. Primeiramente você apresenta ao rei daquele castelo a princesa que ele lhe pediu. Então haverá uma grande alegria naquele castelo e irão lhe dar o cavalo dourado com a sela dourada. Despeça-se de todos no castelo, um por um, e deixe de despedir-se da princesa por último. E, quando você for abraçar a princesa, agarre-a, coloque-a no cavalo e parta a galope dali, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo dourado é mais rápido que o vento.”

 E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela e a princesa, partiu a galope. No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

“Agora irei ajudá-lo a conseguir o pássaro dourado. Quando você se aproximar do castelo onde o pássaro dourado vive, apeie do cavalo dourado e o conduza até o interior do castelo. Ao virem o cavalo dourado, haverá grande alegria naquele castelo e então irão lhe trazer o pássaro dourado na gaiola dourada. Quando você estiver com o pássaro e a gaiola na mão, monte no cavalo, pegue a princesa e parta dali a galope, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo corre mais rápido que o vento.”

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a princesa, o príncipe partiu a galope.

No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

“Então, como você já conseguiu tudo que queria, agora é hora de você me recompensar pela ajuda que lhe prestei.”

“O que você quer em troca ? “ Perguntou o príncipe.

“Quando entrarmos na floresta, mate-me;  decepe-me a cabeça e as patas.”

E o príncipe disse:

“Mas isso seria uma ingratidão de minha parte… Isso eu não farei.”

A raposinha falou:

“Então eu não poderei mais continuar do seu lado. Se você não fizer isso eu vou lhe abandonar; antes, porém, vou lhe dar mais um conselho: Não compre corpo de enforcado ou espancado e nem sente-se à beira de poço.”

Após falar isso a raposinha entrou na floresta.

 Então o jovem príncipe, pensou:

“Mas que bicho estranho essa raposinha… Tem cada mania estranha… Quem iria comprar carne enforcada ?? E também nunca me passou pela cabeça e nem tenho vontade alguma de sentar-me à borda de algum poço….”

E assim pensando, ao lado da jovem princesa, cavalgando, continuou em direção ao castelo de seu pai. No caminho teve que passar por aquela cidadezinha na qual haviam ficado na bagunça seus dois irmãos mais velhos. Havia ali um tumulto e barulheira infernais.

Perguntando sobre o que estava acontecendo, soube que dois rapazes seriam enforcados. Ao se aproximar mais, viu que eram seus dois irmãos que estavam sendo espancados e iriam ser enforcados porque haviam cometido muitos crimes naquele vilarejo e contraído muitas dívidas. Então ele perguntou ao carrasco se podia resgatá-los e libertá-los, ao que o carrasco respondeu:

 “Pagando bem, que mal tem… “

 O príncipe deu-lhes uma pena de ouro e seus irmãos foram libertados; ambos subiram em uma carruagem e se puseram em marcha rumo ao castelo do velho rei e pai.

 Chegaram novamente à floresta onde haviam visto a raposinha pela primeira vez. Os irmãos mais velhos viram um poço e, como estavam com sede, disseram:

“Pare a carruagem, deixe-nos descansar um pouco aqui à beira desse poço e beber água… “

O jovem príncipe, bobinho, consentiu. Conversa vai, conversa vem, sentou-se à beira do poço e esqueceu-se dos conselhos da raposinha. Os seus dois irmãos então empurraram-no para dentro do poço, pegaram a jovem princesa, o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a gaiola e partiram pra casa, em direção ao castelo. Lá chegando, disseram ao velho rei e pai:

 “Pai, não trouxemos somente o pássaro dourado, mas também a gaiola dourada, o cavalo dourado, a sela dourada e a princesa do castelo de ouro.”

E a alegria naquele castelo foi imensa. Muita festa. 

O cavalo, porém, não queria comer, o pássaro não queria cantar e a jovem princesa ficava sentada a um canto, triste e chorando.

Entrementes, ao cair no poço, o jovem príncipe não morrera. Por sorte o poço estava seco e ele caíra sobre um lodo macio, sem se machucar, porém não conseguia subir porque o poço era muito fundo. Gritando e pedindo por socorro, a raposinha, sua fiel amiga, não o abandonara, veio em seu socorro, estirou-lhe a cauda e retirou-o do fundo do poço e disse-lhe para não se esquecer dos seus conselhos, acrescentando:

 “Eu não posso abandoná-lo, eu tenho que mostrar toda a verdade.”

 Após dizer-lhe essas palavras a raposinha disse-lhe que o levaria até o castelo de seu pai. Abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

A caminho do castelo a Prudência lhe dizia: 

“Você não está totalmente livre do perigo – seus irmãos não estão seguros de que você tenha morrido, por isso enviaram bandidos a lhe procurar pela floresta para então dar cabo de sua vida. Portanto, não se deixe notar.”

Então o príncipe encontrou um mendigo pelo caminho, vestido com farrapos, e com ele trocou as roupas, motivo pelo qual, ao chegar ao castelo de seu pai não foi reconhecido. Só que, lá dentro do castelo, nesse exato momento, o pássaro dourado começou a cantar, o cavalo começou a comer e a bela princesa parou de chorar.   Notando a mudança repentina, o rei perguntou:

“O que significa isso ???”

E a jovem princesa respondeu:

“Eu não sei… Eu estava tão triste e depressiva e de repente fiquei alegre… É como se meu verdadeiro noivo estivesse por perto… “

Apesar de os dois irmãos malvados terem-na ameaçado de morte, caso contasse ao rei a verdade;  ela relatou ao rei o que de fato havia acontecido e o modo como os dois irmãos mais velhos procederam com o caçula.

 O rei chamou e reuniu todas as pessoas de seu reino e, dentre elas estava o jovem príncipe em trajes de mendigo. A jovem princesa logo o reconheceu, beijou-o, lançou-se ao seu pescoço e o abraçou. Os irmãos malvados foram julgados e expulsos do reino. O jovem príncipe casou-se com a bela princesa e herdou todo o reino e os tesouros.

 Mas, o que aconteceu com a raposinha ? 

Certa vez, estando o príncipe e a princesa passeando pela floresta depararam-se com a raposinha, a qual lhe disse:

    “Agora você está feliz e possui tudo que desejava. A minha sorte, porém ainda não está completa e está em suas mãos resolver meu problema. “

E tanto ela insistiu que o jovem príncipe decepou-lhe as patinhas e a cabeça.    Logo a seguir a raposinha transformou-se em um belo e forte rapaz. Para surpresa de todos esse jovem era ninguém mais que o irmão da jovem princesa e que havia sido enfeitiçado por uma bruxa malvada e transformado em raposinha. Desfeito o encanto, voltaram para o castelo e viveram felizes para sempre. O príncipe, a bela princesa e a Sabedoria.

Fonte:
http://www.fabulasecontos.com.br/?pg=descricao&id=17

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Arquivado em Contos de Fadas, Magia das Palavras

Maria Elizabeth G. de Vasconcellos (Contos de Fada: Nossos Medos e Nossos Sonhos)

As fadas… eu creio nelas! Umas são moças e belas, Outras, velhas de pasmar… […] Quem as ofende…cautela! A mais risonha, a mais bela, Torna-se logo tão má, Tão cruel, tão vingativa! É inimiga agressiva, É serpente que ali está!
Antero de Quental

Quando se fala de contos de fada, três nomes da literatura vêm à baila: Charles Perrault, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Mas afinal, quais as marcas que fazem a atemporalidade dessas narrativas? Por que elas constituem eternos e sedutores convites à leitura e à releitura? Que sonhos e utopias nelas se inscrevem? Quando se fala de contos de fada, três nomes da literatura vêm à baila: Charles Perrault, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Mas afinal, quais as marcas que fazem a atemporalidade dessas narrativas? Por que elas constituem eternos e sedutores convites à leitura e à releitura? Que sonhos e utopias nelas se inscrevem?

Comecemos por afirmar que uma das principais marcas que ali circulam é o medo. Os nossos e eternos medos, quer individuais, quer coletivos. E aqui vale lembrar Jean Delumeau, na obra da História do medo no ocidente: …. não só os indivíduos tomados isoladamente, mas também as coletividades e as próprias civilizações estão comprometidos num diálogo permanente com o medo. [1]

Vivendo, portanto, assolado pelo medo, o homem procura uma compensação que o liberte dessa agonia.

É preciso que encontre respostas que preencham as angustiantes lacunas do seu dia-a-dia. É então que, movido pela necessidade de sonhar uma outra História, o homem cria suas utopias pois, como ensina Hilário Franco Jr., [….] utopia é negação de um presente medíocre e sufocante, é espaço futuro sem limites, sustentado pelo desejo, é sonho apaziguador de regresso a perfeição das origens, é reencontro do homem consigo mesmo. [2]

Neste final de século – e de milênio –, quando heranças quer de um passado remoto, quer de um passado próximo misturam-se aos velozes progressos de uma moderna tecnologia, será necessário rever a História e repensar as utopias de ontem para entender os sonhos de hoje. E só assim seremos capazes de ter um amanhã.

Estudar as utopias de uma sociedade é lidar com o desejo dessa sociedade; é trabalhar com a falta e a esperança que circulam em seu imaginário. É preciso, então, revisitar a História que ali se viveu e ouvir as histórias que ali se contavam. E para tal há que se recorrer a determinadas pistas: aquelas deixadas pelos historiadores e pelos cronistas, pelos pintores e escultores, pelos poetas, romancistas e contistas.

Sendo assim, vamos encontrar nos contos de fada [3] as utopias que respondem aos eternos desejos da humanidade, pois como afirma Karl Mannheim, na obra Ideologia e Utopia,

Quando a imaginação não encontra sua satisfação na realidade existente, busca refúgio em lugares e épocas desiderativamente construídos. Mitos, contos de fada, promessas supraterrenas da religião, fantasias humanísticas, romances de viagens têm sido expressões, em contínua mutação, do que estava faltando na vida real. [4] (o grifo é nosso)

Em busca da abundância, da justiça e do amor – sonhos que embalam o imaginário social através dos tempos –, as personagens dos contos de fada vivem suas histórias que funcionam como respostas aos eternos desejos da humanidade. E por isso os contos tornam-se atemporais, como ensina Pierre Mabille:

Os contos, repetidos de boca em boca, de geração a geração, seguem uma trajetória comparável à de um eco gigante que se prolonga ao infinito. [5]

Assim entendidos, os contos de fada constituem documentos onde se inscrevem nossos medos e os mecanismos para neutralizá-los – as utopias. São eles que agora revisitaremos.

Contemporâneo de Luis XIV, o Rei-Sol, Charles Perrault (1628-1703) publica as suas Histórias ou contos dos tempos passados com algumas moralidades em 1697. A obra consta de oito contos de prosa: A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira, Henrique de Topete e O Pequeno Polegar. Cada um é encerrado com uma moralidade em verso. No frontispício, a obra apresenta uma gravura com a inscrição Contes de ma mère L’Oye (Contos da Mamãe Ganso).

O tempo é de contrastes na França de então; ao lado do extremo fausto da corte de Versailles, os camponeses vivem em alarmante penúria, como salienta Robert Darnton:

Para a maioria dos camponeses, a vida na aldeia era uma luta pela sobrevivência,
e sobrevivência significava manter-se acima da linha que separava os pobres dos indigentes. A linha da pobreza variava de lugar para lugar, de acordo com a extensão de terras necessária para pagar impostos, dízimos e tributos senhoriais; separar grãos suficientes para plantar no próximo ano;e alimentar a família. [6]

Esse universo de fome e miséria inscreve-se em contos como O Gato de Botas e o O Pequeno Polegar. Para ajudar o terceiro filho de um pobre moleiro falecido, o Gato usa das mais refinadas trapaças e consegue para seu dono até um casamento com a filha do rei. Já o Polegar – sétimo filho de um lenhador também pobre –, após ser abandonado com seus irmãos, na floresta, pelos pais, consegue um lugar na corte, como correio, graças às botas que rouba do ogre; lá enriquece e emprega também toda a família. A lição dos contos é clara: num mundo onde as injustiças sociais e as diferenças econômicas são flagrantes, é preciso ser esperto para burlar o esquema e vencer.

Também nos contos dos irmãos Grimm (Jacob, 1785-1863; Wilhelm, 1786-1859) vamos encontrar idênticas situações em que o fraco (pobre) vence o forte (rico): são situações que alimentam o desejo de prosperidade e de fartura das classes menos favorecidas. Desejo este substantivado na utopia da Terra da Cocanha à qual os Grimm dedicam um conto homônimo. Nessa terra de abundância, retrato do «mundo às avessas», ninguém precisa trabalhar, pois «um rio de mel escorria como água de um vale profundo no cume de uma montanha muito alta» e «em um pátio próximo, se achavam outros quatro cavalos debulhando milho e duas cabras acendiam um fogão, enquanto uma vaca assava pães no forno». [7]

O ano da publicação dos Contos de criança e do lar dos irmãos Grimm é de 1812 e vamos encontrar a Europa vivendo sob o signo do Romantismo. Os contos fazem parte, portanto, de uma literatura que reflete as mudanças rápidas e profundas que a sociedade de então experimentava. Viajando pela Alemanha, os dois irmãos vão colhendo de diversos narradores as histórias que circulavam na boca do povo, cheias de tradições e, ao mesmo tempo, cheias de sonhos de renovação.

Quando as narrativas elegem o terceiro irmão (o bobo) – ou ainda um simples caçador (como em Os dois irmãos) – para protagonizar a aventura e finalizá-la com sucesso (muitas vezes casando-se com a filha do rei, como no conto citado), parecem responder a determinadas expectativas do público. Num mundo que vivia os ideais da Revolução Francesa, os contos apontam para a necessidade de revisão de atitudes despóticas da nobreza e da aristocracia: mais importantes que a força e a linhagem são a bondade, a coragem e a temperança. E para confirmar tais lições, as narrativas incorporam características daquele momento literário.

A vivência da Natureza, por exemplo, tão a gosto do espírito romântico, passa a constituir, nos contos de Grimm, importante marca para qualificar o herói. Lugar de refúgio ou de desamparo, a Natureza propicia muitas vezes ao personagem cenas de união e de compensação, como acontece com o caçador de Os dois irmãos. Auxiliado pela lebre, pelo urso, pelo lobo e pela raposa, casa-se com a filha do rei. É certo que tal união subverte a ordem, mas é muito bem aceita por um público que vive o sonho de «liberdade, igualdade e fraternidade». E esse final feliz alimenta, sem dúvida, a ilusão de ascensão econômica e social das classes menos favorecidas.

Mas se sonha com a ascensão social – desejo individual –, o homem sonha também com uma sociedade equilibrada, com uma terra regida por um soberano justo. Recorrendo a certos perfis já cristalizados no imaginário do ocidente cristão (como o Rei Arthur, o Imperador Carlos Magno, e até o fora-da-lei Robin Hood), as narrativas vão construindo heróis que satisfazem o eterno desejo das sociedades: o de um pai protetor.

Retrato da perfeição física e moral, o herói conta muitas vezes com a ajuda sobrenatural (de fadas, gnomos, objetos mágicos e até de animais encantados, como já salientamos anteriormente) para vencer o inimigo (muitas vezes também sobrenatural, como bruxas, ogres, anões malvados, dragões) e qualificar-se para ocupar o lugar de soberano. É o que acontece em Os dois irmãos. Assim como Arthur, personagem das histórias da Távola Redonda, o nosso herói – um caçador – é um predestinado para retirar a espada mágica de uma pedra:

Lá no alto, havia uma igreja e no altar havia três taças, cheias até a borda, e ao lado havia uma inscrição que dizia: «Quem esvaziar estas taças será o homem mais forte da terra e poderá brandir a espada que está enterrada ao lado de fora da porta». O caçador não bebeu. Saiu e achou a espada enterrada, mas não conseguiu arredá-la do lugar. Voltou e esvaziou as taças. Aí ficou bem forte, conseguiu tirar a espada do chão e manejá-la à vontade. [8]

De posse da arma, luta com o dragão que todos os anos exigia uma donzela imaculada, mata-o e ganha a mão da princesa, sendo em seguida proclamado herdeiro do rei. Esse final feliz – que é muitas vezes repetido nos contos – aponta para o nascimento de uma sociedade mais justa. Coroado, o herói reina por muito tempo, com muita sabedoria. Cumpre-se utopia da justiça.

Mas se o dragão é desafio constante ao jovem herói, é verdade que há outro oponente que se lhe apresenta igualmente tenebroso: a bruxa. Figura diabólica, a bruxa espalha malefícios que atingem a todos: a nobres, a camponeses e a crianças perdidas na floresta.

Através dos séculos – através dos contos –, detalhes anatômicos vão sendo acrescentados a um retrato de mulher que o desejo rejeita: ela é velha, é feia, corcunda, sua pele é enrugada aponteada de verrugas. Seus dedos de ossos longos completam-se com unhas tortas e ponteagudas. Demonizada, ela representa o ser marginal que a ordem rejeita. Ela opõe-se à fada que o desejo almeja. Mas como chegamos a esses perfis tão distintos?

Ao revisitarmos a literatura dos séculos XII e XIII – principalmente aquela que aflora a chamada matéria de Bretanha, de substrato celta –, aprendemos, através do exame de alguns perfis femininos (como Isolda, Viviane, Morgana e Mab), que fada e bruxa são representações das duas faces de uma mesma história da mulher. Como grande fiandeira, reeditando o fazer de Láquesis, Cloto e Átropos, as três parcas da tradição clássica, a fada é aquela que tece o destino (fatum) do homem. Como a sábia alquimista que prepara mezinhas e conduz os partos, a bruxa é aquele agente perigoso que se atreve a penetrar nos segredos da ciência, invadindo, assim, os domínios masculinos. É na fala de Mercúrio, personagem da obra Romeu e Julieta de Shakespeare que melhor vemos apresentada essa bipolaridade:

Pelo que vejo, foste visitado Pela rainha Mab. Ela é a parteira Entre as fadas. E é tão pequenininha. Como a ágata do anel que os conselheiros usam no indicador.[….] É essa mesma Mab que, de noite, Entrança as crinas sujas dos cavalos E dá-lhes nós feéricos, os quais Enfeitiçam aqueles que os desatam. Ela é bruxa que aperta as raparigas Que se deitam de papo para o ar, E lhes ensina na primeira vez Como se hão de portar para aguentar a carga. [9]

Com o passar dos séculos, cada uma dessas facetas vai ganhando autonomia, e fada e bruxa passam a ser representações distintas e antagônicas. Na obra dos Grimm, por exemplo, são abundantes os retratos de fadas e de bruxas e no conto João e Maria a descrição da bruxa muito se aproxima daquelas que foram feitas na Baixa Idade Média – séculos XIV e XV –, período em que a caça às bruxas atingiu o apogeu:

A velha, porém, apenas fingira ser boa. Na verdade era uma perversa feiticeira, que fizera aquela casa de pão doce, bolos e açúcar-cande com a intenção de atrair crianças. Quando uma criança caía em seu poder, ela a matava, cozinhava e devorava, pois, para ela, não havia um prato mais delicioso do que carne de criança.

As bruxas têm os olhos vermelhos e enxergam muito mal, mas por outro lado, têm um faro igual ao de certos animais e, mesmo sem vê-lo, percebem quando um ser humano se aproxima. [10]

Mas afinal, que motivos levaram uma sociedade – como a cristã medieval, da qual herdamos vários tabus e muitos medos – a alimentar esse amedrontador perfil feminino? É bem verdade que o medo da mulher não é uma invenção dos ascetas cristãos. Por ter sido um constante enigma para o homem, a mulher sempre o amedrontou, como salienta Jean Delumeau:

Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganadora, a mulher foi acusada pelo outro sexo de ter introduzido na terra o pecado, a desgraça e a morte. Pandora grega ou Eva judaica, ela cometeu a falta original ao abrir a urna que continha todos os males ou ao comer o fruto proibido. O homem procurou um responsável para o sofrimento, para o malogro, para o desaparecimento do paraíso terrestre, e encontrou a mulher. Como não temer um ser que nunca é tão perigoso como quando sorri? [12]

Mas se é verdade que o medo da mulher não é invenção do ascetismo cristão, é certo também que foi o cristianismo que muito cedo o integrou em seu ideário e trabalhou esse espantalho até o limiar do século XX. Se o indecifrado existe, se incomoda e amedronta, é preciso buscar um motivo que justifique sua perseguição e até, se possível, sua neutralização – a mais perfeita que se puder. E no que se refere à mulher, a Europa da Baixa Idade Média viveu, com toda violência, uma clima favorável a essa cena. É Jeffrey Richards, na obra Sexo, desvio e danação, quem sintetiza:

As pessoas do período medieval viviam num mundo de medo: medo de impostos, doença, guerra, fome, da morte e do inferno. Era uma sociedade que acreditava no sobrenatural,no poder das forças das trevas em ação de Satã e de seus demônios no mundo.Acreditava também na bruxaria, que era uma explicação conveniente tanto para as catástrofes naturais súbitas (fome, epidemias,tempestades, enchentes, destruição de safras e animais) quanto para problemas familiares recorrentes, tais como impotência,infidelidade, mortalidade infantil. [….]

As acusações de bruxaria eram geralmente levantadas por vizinhos indispostos contra mulheres específicas: as velhas, as solitárias, as impopulares, as neuróticas, as insanas, as mal-humoradas,as promíscuas, as praticantes de medicina popular ou parteiras, mulheres que, por motivos variados, haviam se tornado alvo do ódio local. [….]

As bruxas satânicas do final da Idade Média eram, assim, os bodes expiatórios perfeitos, uma minoria inventada, uma imagem compósita do mal, pronta para ser usada e aplicada a qualquer pessoa que discordasse dos dogmas da Igreja e que, pelo uso da tortura e do terror, se tornava realidade. [13]

Autos de fé são comuns e a execução de bruxas na fogueira traz o aval das Escrituras: «Não deixarás viva uma feiticeira», diz o Êxodo, 22, v. 18. Infração cometida, castigo imposto. Castigo que se eterniza através dos séculos e que também se inscreve no universo dos contos de fada. É o que acontece, por exemplo, em Os dois irmãos, de Grimm, com a bruxa da floresta que encantava a todos que por lá passassem:

– Sua macaca velha! Devolve a vida imediatamente a meu irmão e a todas as criaturas que estão aí, ou então vai para o fogo! Ela pegou uma varinha e tocou
as pedras. O irmão e os animais voltaram à vida. E muitos outros homens também, mercadores, artesãos, pastores. Todos se levantaram,agradeceram ao caçador e foram para casa. Os gêmeos se abraçaram e se beijaram, contentíssimos por se encontrarem novamente. Agarraram e amarraram a bruxa e a jogaram na fogueira. [14]

E agora o nosso terceiro autor, o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875). Imprimindo à sua obra marcas de sua hipersensibilidade, timidez, e de seu temperamento depressivo, Andersen publica seus Contos em 1835. Neles também desfilam personagens em busca de abundância, da justiça e do amor. É deste que trataremos agora.

Acossado pelo medo da diferença encarnada pelo outro, pelo medo, enfim de sua natureza seccionada, o homem (a humanidade) responde com a utopia da androginia. Através do sonho de amor, homem e mulher buscam a unidade perdida, isto é, procuram reviver o tempo em que, como recorda Aristófanes em sua fala em O Banquete, de Platão, [….] nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não como agora, o masculino e feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino… [15]

Tais seres possuíam muita força e, presunçosos, voltaram-se contra os deuses. Zeus, para punir tal ousadia, delibera cortá-los ao meio, para enfraquecê-los. E assim, seccionados, viviam à procura da outra metade. E continua Aristófanes:

O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; e portanto ao desejo e procura do todo é que se dá o nome de amor. [16]

Será, então, na expressão literária que o amor se imortaliza: na paixão vivida por Tristão e Isolda, por Romeu e Julieta e por tantos outros casais. São também muitos os contos de fada onde se lê a busca do par: A Bela Adormecida e a Gata Borralheira, nas versões de Perrault e Grimm; A Bela e a Fera, na versão de Madame Leprince de Beaumont (meados do século XIX); Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel, A Moça dos Gansos, na versão dos Grimm, dentre outros.

Já nos contos de Andersen essa busca não constitui tema recorrente; há narrativas em que o final é feliz – como em A Princesa e o Grão de Ervilha e Os Cisnes Selvagens –, mas certamente há outras em que se acentua o pessimismo em relação ao amor, como em Os Namorados. E em A Sereiazinha, que reedita, ainda que de maneira eufemizada, a eterna sedução das sereias, é trágico o final para a figura feminina: não conseguindo o amor do príncipe, e não desejando matá-lo, como recomendara a bruxa do mar, para reassumir sua antiga natureza de sereia, a Sereiazinha joga-se ao mar e transforma-se em espuma.

E em relação a esse final, vale ressaltar que é também trágico, em outras narrativas de Andersen, o destino das personagens femininas, como as dos contos Os Sapatinhos Vermelhos e A Menina dos Fósforos, por exemplo.

Encerrada a viagem através do universo literário dos três autores selecionados – Perrault, Grimm e Andersen – é importante lembrar, ainda, que o primeiro livro infantil publicado no Brasil data de 1894 e é de autoria de Figueiredo Pimentel (1869-1914): Contos da Carochinha. A ele somam-se Histórias da Avozinha e Histórias da Baratinha, do mesmo autor. Nessa trilogia são incluídos os contos clássicos, já presentes nas obras dos três autores mencionados, e muitos outros.

Por traduzirem as eternas paixões humanas, os contos de fada tornam-se atemporais, como salientamos ao início. Sendo assim, tendo já visitado a produção clássica, cabe agora dirigir nosso olhar para a produção destas últimas décadas do século XX e observar como tais contos são recontados.

Reaproveitando o já escrito, os autores vão recontando as histórias ouvidas (ou lidas) aqui e ali e, nesse processo, vão descobrindo novos sentidos, multiplicando, assim, o já contado. É como salienta Marina Colasanti no conto Com voz de mulher da obra Longe como o meu querer:

Foi quando uma mulher que havia estado no estábulo passou a repetir as histórias de deus para outros habitantes da cidade. Repetir exatamente, não. Aqui e ali, acrescentava coisas, tirava outras e cada história, sendo a mesma, era outra. Mais que contar, recontava. Depois houve um rapaz, que também. E, o tempo passando, ninguém mais podia dizer com certeza de onde tinha vindo esta ou aquela história, e quem a havia contado primeiro. [18]

Também nas narrativas agora produzidas vamos encontrar os mesmos medos de ontem: o medo da morte, da fome, da solidão, da doença, da injustiça. A forma de tratá-los é que é diferente. Em vez de narrativas que caminham para um final fechado (muitas vezes feliz), agora privilegia-se um final aberto, que conduz o leitor à reflexão. É o que acontece, por exemplo, em R, a Princesinha de Ziraldo, que retoma A Sereiazinha de Andersen. Em vez de transformar-se em espuma, como no conto clássico, a sereia transforma-se em reticências, que, sem dúvida, constituem o sinal de pontuação mais aberto que conhecemos… E é Nasuta, a bruxa, quem explica às irmãs da sereia:

Olha: no final de uma frase, as reticências significam que há ainda alguma coisa mais a dizer, certo? As letrinhas já tinham suas lágrimas quase secas.

Se colocarmos, porém, as reticências no princípio de uma frase, isto quer dizer que alguma coisa dita antes foi interrompida e vai começar, não é verdade, minhas…

Ééééé! … queridas? Logo, as reticências fazem exatamente essa ligação entre o que foi e o que virá a ser. As irmãs se olharam, tentando descobrir se todas haviam compreendido a explicação da bruxa. E ela continuou:

Como a espuma do mar, sua irmãzinha vai voltar … [19]

E se, ainda, nos contos tradicionais imperava o claro esquema antitético entre Bem (fada) e Mal (bruxa), já agora tais opostos se mesclam, sugerindo que de fada e de bruxa todos nós temos um pouco. E é o que lemos em Uxa, ora fada, ora bruxa, de Silva Orthof; Onde tem fada tem bruxa, de Bartolomeu Campos Queirós; e Bruxa e fada: menina encantada, de Ieda Oliveira.

Como paródias (para = ao lado de; ode = canto), isto é, uma narrativa ao lado da outra, as produções atuais exigem do leitor um conhecimento prévio do texto clássico para que o entendimento se estabeleça. É o que propõem os Contos de Fadas Politicamente Corretos, de James Finn Garner, onde encontramos deliciosas paródias de Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, dentre outras.

Ainda na esteira da paródia, podemos citar Ervilina e o Princês, de Silvia Orthof, que parodia o conto de Andersen A Princesa e Grão de Ervilha, mostrando que o destino da mulher não é mais o de ser escolhida, mas o de fazer sua própria escolha. E nessa linha de inauguração de uma nova história da mulher podemos ler também História meio ao contrário, de Ana Maria Machado; Mulheres de coragem, de Ruth Rocha; Heróis e guerreiras, de Heloísa Prieto; Doze reis e a moça no labirinto do vento, Entre a espada e a rosa, O lobo e o carneiro no sonho da menina e Ofélia, a ovelha – todos de Marina Colasanti.

Produzida sob o signo de uma cultura de propaganda, do consumo, da velocidade, a própria arte insere-se nessa rede de exigências. Narrativas curtas, à moda dos clips da linguagem televisiva, constituem a literatura ideal para o leitor de hoje. Assim é construída, em seis volumes, a coleção «Assim é se lhe parece» de Angela Carneiro, Lia Neiva e Sylvia Orthof. Cada volume contém três sketches que viram pelo avesso elementos e situações dos contos clássicos. No volume intitulado Chamuscou, não queimou, encontramos um dragão doente, casado com uma princesa indomada. Ao neutralizar o dragão como encarnação do Mal, a narrativa anula também o poder que o criou e a tradição que o manteve como sustentáculo do forte maniqueísmo repressor. O episódio final, à moda de um besteirol, conduz à perplexidade, perplexidade que é, enfim, a do próprio leitor num mundo estilhaçado como o desse final de século, onde até o amor é descartável. Desfazendo o seu casamento com o dragão, a princesa Marinalva volta para o castelo real, apaixona-se pelo sapo e depois pelo bode, levando o seu pai ao desespero:

O rei estava enfezado,e disse, assim assado:Perdôo só desta vez,ó filha, desajuizada,ficaste toda ensapada,estou danado! Marinalva se cuidou,desensapou. Aí ela viu um bode… vê se pode! Marinalva virou cabra? Abracadabra! Esta história é inventada, sou muito inventadeira, a história verdadeira por outros será contada. Eu brinco, rebolo, bolo, canto mentiras na feira, sou Orthofia, a feiticeira… quanta besteira! [20]

A palavra irreverente que provoca o riso, como essa de Sylvia Orthof, é mais uma das características das narrativas da atualidade; e pode também funcionar como uma das mais eficazes estratégias para neutralizar os nossos medos…

E já que falamos de riso, vamos concluindo também de maneira irreverente o passeio através do mundo encantado dos contos de fada: «entrou por uma porta e saiu por outra, e quem quiser que conte outra».”

Bibliografia

I – Repertório crítico-teórico
1 – BAROJA, Julio Caro. As bruxas e seu mundo. Lisboa, Vega, s/d.
2 – CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual. São Paulo, Brasiliense, 1984.
3 – COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo, Ática, 1987.
4 – DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro, Graal, 1986.
5 – DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
6 – FRANCO Jr., Hilário. As utopias medievais. São Paulo, Brasiliense, 1992.
7 – MABILLE, Pierre. Le miroir du merveilleux. Paris, Minuitt, 1976.
8 – MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. 3. ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
9 – PASTOUREAU, Michel. No tempo dos cavaleiros da Távola Redonda. São Paulo. Companhia das Letras, 1989.
10 – PAZ, Noemí. Mitos e ritos de iniciação nos contos de fadas. São Paulo, Cultrix, 1995.
11 – PLATÃO. O Banquete. 2. ed. São Paulo, Difel, 1970.
12 – PLACE, Robin. Os celtas. 2. ed. São Paulo, Melhoramentos, 1989.
13 – RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação. Rio de Janeiro, Zahar, 1993.
14 – SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase & Cia. São Paulo, Ática, 1985.
15 – SOUZA, Angela Leite de. Contos de fada: Grimm e a literatura oral no Brasil. Belo Horizonte, Lê, 1996.

II – Repertório ficcional
1 – ALLSBURG, Chris Van. A vassoura encantada. São Paulo, Ática, 1996.
2 – ALMEIDA, Fernanda Lopes de. A fada que tinha idéias. 10 ed. São Paulo, Ática, 1984.
3 – ANDERSEN, Hans Christian. Contos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.
4 – BANDEIRA, Pedro. Chapeuzinho e o Lobo Mau. 5. ed. São Paulo, Moderna, 1990.
5 – –––––. O fantástico mistério de Feiurinha. São Paulo, FTD, 1986
6 – BERNADINHO, Adriana (adap. de). Tristão e Isolda. São Paulo, FTD, 1996.
7 – BIRD, Malcom. Manual prático da bruxaria em onze lições. Rio de Janeiro, Ática, 1996.
8 – BUARQUE, Chico. Chapeuzinho Amarelo. 5. ed. Rio de Janeiro, Barlendis & Vertecchia, 1983.
9 – COLASANTI, Marina. Doze reis e a moça no labirinto do vento. Rio de Janeiro, Nórdica, 1982.
10 – –––––. Entre a espada e a rosa. Rio de Janeiro, Salamandra, 1990.
11 – –––––. Longe como o meu querer. São Paulo, Ática, 1997.
12 – –––––. O lobo e o carneiro no sonho da menina. Rio de Janeiro, Ediouro, 1994.
13 – –––––. Ofélia, a ovelha. 2. ed. São Paulo, Melhoramentos, 1989.
14 – ESTERL, Arnica. As penas do dragão. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996.
15 – FUNARI, Eva. A bruxa Zelda e os oitenta docinhos. São Paulo, Ática, 1994.
16 – –––––. O feitiço do sapo. São Paulo, Ática, 1995.
17 – GARNER, James Finn. Contos de fada politicamente corretos. Rio de Janeiro, Ediouro, 1995.
18 – GRIMM, Jacb & GRIMM, Wilhelm. Branca de Neve e outros contos de Grimm. Sel. e trad. de Ana Maria Machado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.
19 – –––––. Cinderela e outros contos de Grimm.Sel. e trad. de Ana Maria Machado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996.
20 – –––––. Chapeuzinho Vermelho e outros contos de Grimm.Sel. e trad. de Ana Maria Machado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.
21 – –––––. Contos de fadas. Belo Horizonte, Villa Rica, 1994.
22 – LARRUELA, E. & CAPDEVILLA, R. As memórias da bruxa Onilda. São Paulo, Scipione, 1990.
23 – LUKESCH, Angelika. A Excalibur de Arthur. Rio de Janeiro, Ediouro, 1995.
24 – MACHADO, Ana Maria. História meio ao contrário. São Paulo, Ática, 1994.
25 – MASTROBERTI, Paula. Cinderela. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997.
26 – –––––. Os sapatinhos vermelhos. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1995.
27 – NEIVA, Lia et alii. «Coleção assim é se lhe parece». Rio de Janeiro, Ediouro, 1994. 6v.
28 – –––––. O castelo da torre encantada. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996.
29 – OLIVEIRA, Ieda. Bruxa e fada: menina encantada. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994.
30 – OLIVEIRA, Rui de. A Bela e a Fera. São Paulo, FTD, 1994.
31 – ORTHOF, Sylvia. Ervilina e o Princês. Rio de Janeiro, Memórias Futuras, 1986.
32 – –––––. Uxa, ora fada, ora bruxa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985.
33 – PERRAULT, Charles. Contos. Lisboa, Estampa, 1977.
34 – PIMENTEL, Figueiredo. Contos da Carochinha. Rio de Janeiro, Garnier, 1992.
35 – –––––. Histórias da Avozinha. Rio de Janeiro, Garnier, 1994.
36 – –––––. Histórias da Baratinha. Rio de Janeiro, Garnier, 1994.
37 – PREUSSLER, Otfried & SPÍRIN, G. A história do unicórnio. São Paulo, Ática, 1993.
38 – PRIETO, Heloísa. Heróis e guerreiras. São Paulo, Cia. das Letrinhas, 1995.
39 – QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Onde tem bruxa tem fada… 24. ed. São Paulo, Moderna, 1983.
40 – QUENTAL, Antero de. As fadas. Lisboa, Contexto, 1983.
41 – ROCHA, Ruth. Mulheres de coragem. São Paulo, FTD, 1991.
42 – –––––. Sapo-vira-rei-vira-sapo. 8. ed. Rio de Janeiro, Salamandra, 1983.
43 – RÓNAI, Cora. Sapomorfose. Rio de Janeiro, Salamandra, 1983.
44 – ROSA, João Guimarães. Fita verde no cabelo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992.

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Miguel Marelenquelem (O Conto de Fadas e o Imaginario Infantil)

RESUMO: Este artigo apresenta uma pesquisa em andamento, que questiona a preocupação do corpo docente em buscar um sentido didático para a utilização da literatura em sala de aula, não levando em consideração a importância dos contos de fadas para a construção do imaginário infantil. O estudo é baseado em autores como Bruno Bettelheim e Nelly Novaes Coelho, que tratam de contos de fadas cada autor, em uma área específica: psicanalítica e literária, e outros autores como, por exemplo, Gianni Rodari e Marcel Postic, que tratam do imaginário. O objetivo desse trabalho é observar a influência dos contos de fadas no imaginário infantil. Acredita-se que o contato com os contos de fadas possibilitará a criança o ensaio de vários papéis sociais, proporcionando a construção de uma personalidade sadia, bem como, promover a socialização, a troca de experiência e uma maior inserção no grupo social.

INTRODUÇÂO

Acredita-se cada vez mais na importância e na influência dos contos de fada, no desenvolvimento do imaginário infantil.

Ouvir e contar histórias é fundamental para o desenvolvimento da identidade da criança, pois através dos contos ela tem a possibilidade de ensaiar seus papéis na sociedade, adaptando-se a situações reais e colocando-se dentro da história, como também desencadeia idéias, opiniões, sentimentos e criatividade, antecipando situações que a criança só iria experimentar na vida adulta.

Objetivamos neste projeto demonstrar que os contos de fadas proporcionam desenvolvimento da imaginação, socialização em grupo, percepção de mundo, e na construção da identidade e autonomia da criança.

O CONTO DE FADAS

Os contos de fadas têm origem Celta, e surgiram como poemas que revelaram amores eternos, ou estranhos e até mesmo fatais. A princípio estes poemas eram independentes, mais tarde foram integrados como um ciclo novelesco, idealista, preocupado com os valores humanos. Historicamente, os contos clássicos nasceram na França no século XVII, na corte do rei Luís XIV e pela mão de Charles Perrault, inicialmente para falar aos adultos. Mas foram encontrados por estudiosos, fontes antes do nascimento de Cristo eram estas orientais e célticas, que a partir da Idade Média foram conhecidas por fontes européias.

Hoje em pleno século XXI os contos maravilhosos ainda têm algo a nos dizer? Com certeza! “o que nelas parece apenas infantil, divertido ou absurdo, na verdade carrega uma significativa herança de sentidos ocultos e essenciais para a nossa vida” NELLY (1987: 09). Em nossa sociedade os contos de fadas ganharam um nova roupagem indo além do prazer da leitura, pois com a “descoberta” de sua importância simbólica, do lúdico, da imaginação e da fantasia proporcionamos a construção de uma personalidade sadia na criança.

Além dos tradicionais contos de fadas, encontramos autores que se apropriam dos personagens ou situações dos contos de fadas, para recriarem novos textos simbólicos, como: “O menino e o Lobo”, “A fada que tinha idéias”, “A fada desencantada”, “A verdadeira história dos três porquinhos”, “Chapeuzinho amarelo”, entre muitas outras.

Segundo Nelly apund Câmara Cascudo, o conto popular maravilhoso é justamente o mais amplo e mais expressivo, pois ele nos traz informações históricas, etnográficas, sociológicas, e jurídicas. É um documento vivo, mostrando costumes, idéias, decisões e julgamentos da Humanidade em um determinado momento histórico. Para todos nós é o primeiro “leite intelectual”, os primeiros heróis, as primeiras cismas, os primeiros sonhos, os movimentos de solidariedade, amor, ódio, e compaixão vêm com as histórias fabulosas, ouvidas na infância.

De acordo com Khéde, os contos de fadas surgiram como forma de produção e organização social pré-capitalista. Eles representam em seus personagens valores burgueses que surgiram e se consolidaram entre os séculos XVII e XIX.

O Gato de Botas é o pícaro, pois tira proveito da corrupção social. O Pequeno Polegar, é o anão astuto que vence gigantes bobos. Perraut, também utiliza em seus contos o confronto dualista entre bons e maus, feios e belos, fracos e fortes, como exercício de crítica a corte, onde personagens pobres superam a nobreza com sua inteligência. “A presença da fada unívoca do narrador nos contos de fadas sugere um modelo fechado de narrativa que, por sua vez, reproduz uma realidade sociocultural também fechada. Mas eles apresentam o confronto entre, geralmente, duas posições: A dos que dominam, e a dos são dominados” (KHÉDE, 1990:19). Os contos de fadas são caracterizados por um único traço, e quando este é muito repetido, faz com que surja um esteriótipo, onde a bruxa será sempre um personagem maravilhoso, a serviço do mal; a fada sempre bondosa; o sapo vai virar príncipe; os gênios ora são bons ora maus (os magos são de origem pagã e exibem sabedoria); reis e rainhas, podem usar seus poderes tanto para o bem, quanto para o mal, reproduzindo sempre valores clássicos, significam a fantasia do poder e os conflitos dos relacionamentos interpessoais; príncipes e princesas, estão ligados a aventuras, e são transgressores. A princesa é caracterizada por sua função social ligado ao cuidar da casa e da família, são bonitas, honestas, e piedosas, e por isso merecem como prêmio seu príncipe encantado.

O Pinóquio, o qual podemos comparar como a volta do filho pródigo sustentado pela Bíblia. A história possui forte cunho moralista e Pinóquio alterna situações de infração, punição e salvação. Como prêmio pelo seu bom coração acaba transformado em um menino de verdade, perdoando-o as estrepolias do passado, e ao mesmo tempo ganha bens materiais como um quarto bem equipado, e também recupera a saúde de seu pai. “Os contos, representam valores que se cruzaram através de ciclos históricos, assim, podem significar ritmos de iniciação, símbolos tatômicos e a luta mítica entre forças da natureza” (KHÉDE, 1990:24).

Os personagens maravilhosos seguem inúmeras funções, tanto dentro da narrativa eminentemente lúdica, quanto à de denúncia social. As soluções maravilhosas são hoje questionadas por sociólogos, lembrando o estímulo à alienação provocada por resoluções mágicas, que são defendidas pela psicanálise mostrando a possibilidade de resoluções de problemas reais, através da representação simbólica. A criança aparece pouco, ou simbolizando o bom sendo e a inteligência, ou aparece como vítima da autoridade familiar.

OS IRMÃOS GRIMM

Na pesquisa prática com as crianças, foi utilizado as Obras dos Irmão Grimm.

A Família GRIMM, de Hanau, na Alemanha, teve o privilégio de dar ao mundo três nomes ilustres no terreno das Letras e das Artes. Contudo, como “Irmãos Grimm”, são mais conhecidos os dois mais velhos, Jakob Ludwig Karl e Wilhelm Karl, ambos filólogos e colecionadores de histórias populares.

Com o Irmão, fez preciosas pesquisas no campo da tradição popular, anotando ambos, diretamente da boca do povo humilde, histórias, lendas, superstições e fábulas da velha germânia. Wilhelm Karl, com estudos acurados nesse setor, fez-se o precursor da moderna ciência do folclore.

As histórias recolhidas pelos Irmãos Grimm, que tem na fantasia e no sobrenatural seus elementos constitutivos, são conhecidas de todo o mundo civilizado, e apoiam-se em recontos da antiguidade ou da Idade Média. Muito se fala numa senhora Katheri Wiehmann, esposa de um alfaiate, que com sua memória extraordinária, transmitiu aos dois curiosos das tradições germânicas um verdadeiro tesouro de sagas.

Tais sagas foram levadas ao livro através da pena de Wilhelm Karl, e vieram dar a coleção de histórias que de gerações a gerações foi se repetindo, e apresentadas sob formas diversas e atribuídas a autores diversos, encontrando traduções e adaptações mais ou menos livres em todos os recantos do mundo.

A LEITURA DOS IRMÂOS GRIMM HOJE

Hoje, discute-se a conveniência de fornecer a crianças essas leitura relacionada com o mundo fabuloso da imaginação, histórias em que se mesclam fatos cruéis, criaturas fantásticas, bem como animais encantados, heróis impossíveis, madrastas perversas. Fala-se, ainda, na incongruência de dar à infância desta época, essencialmente científica e informatizada, histórias que se ajustariam, talvez, à cultura medieval, mas não tem razão de ser na nossa época.

Ora, acreditamos que a necessidade do maravilhoso se conserva latente, é positiva nas criaturas, mesmo naquelas que já se despediram da quadra efêmera em que se vê o mundo do nível dos olhos infantis. O dragão de goela chamejante de ontem, é tão excitante para a imaginação alerta de uma criança quanto a nave espacial de hoje, cuspindo fogo em busca de mundos inexplorados. E, no fundo do coração, todos desejaríamos dispor de um fada madrinha que nos cobrisse de dons, ou de uma vara de condão que nos permitisse atravessar sem medo as florestas sombrias, latejantes de mistérios e avejões, que surgem no caminho de nossas vidas, por muito prosaicas que elas sejam.

O DESENHO DA CRIANÇA

“Se a literatura infantil se destina a crianças e se acredita na qualidade dos desenhos como elemento a mais para reforçar a história e a atração que o livro pode exercer sobre os pequenos leitores, fica patente a importância da obra infantil. É o caso, por exemplo, da ilustração”. (LAJOLO, 1991: 13)

Nessa pesquisa, o desenho é uma fonte fundamental para compreendermos como os contos de fadas influenciam no Imaginário Infantil. Portanto, faz-se necessário, fazermos uma pequena abordagem sobre o tema, a fim de conhecermos de maneira mais apropriada, este foco de estudo.

No livro “O Desenho Infantil”, escrito por MEREDIEU e traduzido por LORENCI, coloca o desenho como sendo uma expressão da personalidade, “As análises infantis demonstram sempre que por detrás do desenho, da pintura e da fotografia, escondeu-se uma atividade inconsciente muito mais profunda: trata-se da procriação e da produção no inconsciente do objeto representado”. Cada traço, cor, forma, pressão do lápis, tem um significado específico na interpretação do desenho. Para analisarmos o desenho temos três principais aspectos:

1. A maneira como a criança utiliza as linhas e formas. As linhas curvas e sinuosas nos indivíduos sensíveis e temerosos; ângulos retos, linhas firmes, nos opositores e nos realistas. (CARDOSO e VALSASSINA, completam sua idéia dizendo que as crianças realistas, por vezes agressivas tendem a desenhar linhas retas, as crianças sensíveis, imaginativas, com pouca confiança, tendem a desenhar linhas curvas, e linhas em zigue – zague, representam sinais de instabilidade).

2. O modo de distribuição do espaço-localização dos personagens. A terça parte superior, representa o ideal; a terça parte média, representa o sentido da realidade; a terça parte, inferior, representa as pulsões inconscientes. Vale lembrar que segundo o autor, a criança tímida desenha-se pequenina no centro da página, enquanto a instável preenche toda a superfície como traços nervosos.

3. Escolha da cor. A ausência de cor pode ser considerada como a marca de “vazio afetivo”, sua integração harmoniosa” ao desenho mostraria, pelo contrário, um bom equilíbrio. O emprego das cores puras: vermelho, amarelo e azul, e das tonalidades firmes seria um bom sinal até seis anos. Além daí, a utilização abusiva do vermelho traria a agressividade, a ausência de qualquer controle emocional. A frequência do tons escuros preto e marrom, e sujos amarelo e castanho, indicam uma má adaptação e denuncia num estado de regressão.

Vale lembrar que CARDOSO e VALSASSINA, afirmam que “a escolha da cor é feita segundo a sua sensibilidade e descobertas de momento”. (1988:86), citando Ebenezer Looke, 1985, complementa “Tão profundamente interessada está a criança pela cor que nenhum ensino de desenho adaptado à natureza Infantil poderá excluí-la” (1988:84).

Segundo CARDOSO, Camilo e VALSASSINA, Manuela M., apud Duquet, “a criança quando desenha reproduz o seu modelo interno e ainda as impressões que vive através dos traços a formas que executa, fase que esse autor denominou de realismo intelectual” (1988:82)

É importante destacar que quando a criança desenha, ela desenha para alguém, com alguma finalidade, esteja essa pessoa presente ou não, o objetivo claro ou não. A criança espera uma troca, uma resposta deste pessoa. A criança pinta para se exprimir, ainda segundo o autor “a criança é criadora duma expressão viva porque, dotada de faculdades que no adulto vão estar mutiladas, ela representa a sua maneira o mundo que vive (…) A criança não transmite recordações visuais, antes traduz plasticamente as sensações e os pensamentos” (1988:69).

O desenho é o “palco” para onde caminham a observação da criança, guiado pela sua memória aliado a sua imaginação. Através do desenho a criança tem a possibilidade de desenvolver toda sua motricidade, como é de conhecimento geral, e também o seu cognitivo, pois traz a luz da imagem que representa no papel, suas recordações já há muito tempo guardadas. Com a mesma facilidade que recorda seu passado a criança também imagina o futuro, criando personagem, e situações, em busca do novo. Afirma DERDYK, Edith “A memória evoca fatos vividos, a imaginação projeta no futuro desejos de conquista. E o presente é a materialização desses instantes, é a ponte de comunicação entre o que já foi e o que será. O desenho vai registrando, em seu processo de trabalho, o mapa da ampliação da consciência” (1989:130).

A capacidade de imaginação, é fundamental para a construção do conhecimento. Ela é o eixo norteador entre o desenho, e a criança. Continua DERDYK, “Imaginar é projetar, é antever, é a mobilização interior orientada para determinada finalidade antes mesmo de existir a situação concreta. A imaginação possui uma natureza visionário, detectando a intencionalidade contida na ação humana” (1989:131).

O IMAGINÁRIO INFANTIL

O imaginário da criança pode ser comparado a um rio, quando jogamos uma pedra no rio, ondas circulares se formam ao redor e vão se movimentando e atingindo correntes de águas cada vez mais longe. A pedra ao mergulhar vai assustando peixes, atraindo curiosos, e mudando a rotina do local, mesmo que por pouco tempo.

Uma criança ao ouvir contos de fadas, transforma a pedra em cada uma das palavras que lhe são contadas, trazendo lembranças, sonhos, desejos, personagens, dúvidas, medos e associações.

Marcel Postic (1993:19) apund Gurvitch, 1996, coloca-nos que imaginar não é só pensar, não significa apenas relacionar fatos, e analisar situações, tirando-lhe significados. “imaginar é penetrar, explorar fatos dos quais se retira uma visão. Esta só poderá ser comunicada ao outro através de símbolos, que provocam harmônicos e estabelecem a comunhão. O símbolo age como mediador para revelar ocultando, ocultar revelando, e ao mesmo tempo incitar à participação que, embora com impedimentos e obstáculos, fica favorecida”.

Gianni Rodari (1982:142), apund Dewey, apresenta nos a função da imaginação: “A função da própria imaginação é a visão de realidades e possibilidades que não se mostram nas condições normais da percepção visível. Seu objetivos é penetrar claramente no remoto, no ausente, no obscuro. Não só a história, a literatura, a geografia, e a aritmética, contém uma quantidade de argumentos sobre os pais a imaginação deve operar, para que possam ser compreendidos” e completa; “A função criativa da imaginação pertence ao homem comum, ao cientista, ao técnico, é essencial para descobertas científicas bem como para o nascimento da obra de arte, é realmente condição necessária da vida cotidiana”.

No conto, o símbolo pode ser um personagem, que irá enriquecer a identidade da criança, porque ela ira experimentar outras formas, de ser e de pensar, possibilitando a ampliação de suas concepções sobre o meio, pois no faz de conta a criança desempenha vários papéis sociais, e aprende com eles, acreditamos que ela os imita para compreendê-los.

Quando a criança entra no “mundo” da fantasia e da imaginação de um conto de fadas, ela elabora hipóteses para a resolução de seus problemas e toma atitudes do adulto indo além daquelas de sua experiência cotidiana, buscando alternativas para transformar a realidade. No faz de conta, seus desejos podem facilmente ser realizados e quantas vezes a criança desejar, criando e recriando situações que ajudam a satisfazer alguma necessidade presente em seu interior. Bettlheim, afirma que a criança precisa compreender seu inconsciente, para poder dominar seus problemas psicológicos de crescimento, superar suas decepções narcisistas, dilemas édipicos, ser capaz de abandonar dependências infantis, obtendo um sentimento de individualidade e valorizando-se.

Segundo POSTIC “ O pensamento progride de forma linear. A imaginação se processa em espiral, por alargamento de seu espaço. Ela não se dirige para níveis mais diferenciados, mais especializados, estende-se por extensão e por conquista de novos territórios” (1993:19).

Vygotsky, contribui com seus estudos do brincar, afirmando que ele irá permitir que a criança aprenda e elaborar e resolver situações conflitantes que vivencia ou vivenciará no seu cotidiano. Para isso a criança usará suas capacidades básicas como a observação, imitação e imaginação.

Segundo Gianni Rodari (1982:139), “Germes da imaginação criativa, reforça Vygotski, manifestam-se nas brincadeiras dos animais: assim manifestam-se ainda mais na vida infantil. A brincadeira, o jogo não é uma simples recordação de impressões vividas, mas uma reelaboração criativa delas, um processo através do qual a criança combina entre si os dados de experiência no sentido de construir uma nova realidade, correspondente às suas curiosidades e necessidades”.

Quando Vygotsky discute o papel do brinquedo refere-se especificamente à brincadeira do faz de conta, como o brincar de casinha, de escolinha, de cavalo com o cabo da vassoura, entre outras. Faço relação com Vygotsky, porque o faz de conta, do conto de fadas é também um jogo lúdico, e faz parte do brincar. As crianças amadurecem por intermédio de suas próprias brincadeiras e das invenções das brincadeiras de outras crianças e adultos. No princípio suas imitações poderão ser simples, de acordo com a idade, e a experiência de vida de cada criança, mas com o passar do tempo, (e com o desenvolvimento das atividades programadas), o faz de conta da criança fica mais elaborado.

Para Vygotsky, ao reproduzir o comportamento social do adulto em seus jogos, a criança esta combinando situações reais com elementos de sua ação fantasiosa. Esta fantasia surge da necessidade da criança de reproduzir o cotidiano da vida do adulto da qual ela ainda não pode participar como gostaria. Contudo, esta elaboração no faz de conta necessita de conhecimentos prévios do mundo que a cerca, portanto, quanto mais rica forem suas experiências, mais informações a criança irá dispor para materializar em seus jogos lúdicos.

A brincadeira e o faz de conta criam a Zona de Desenvolvimento Proximal na criança, que através da mediação de colegas, família, e educadores, a criança irá passar para o desenvolvimento potencial. No faz de conta, a criança passa a dirigir seu comportamento pelo mundo imaginário, isto é, o pensamento está separado dos objetos e a ação surge das idéias.

Assim do ponto de vista do desenvolvimento, o jogo do faz de conta pode ser considerado um meio para desenvolver o pensamento abstrato, em que a imaginação é uma ação, sendo ela concreta ou não, mas acima de tudo é algo em permanente amadurecimento, e não uma coisa, “A imaginação da criança, estimulada a inventar palavras, aplicará seus instrumentos sobre os traços da experiência que provocarão sua intervenção criativa”. Valotto (1997:19), fala nos sobre o contato com as histórias, sendo que elas não somente ampliam o horizonte cultural das crianças, e promovem seu enriquecimento lingüístico e literário, mas também colocam em doação, a disponibilidade do contador, contemplando a equilibrada formação das crianças em sua relação com eles mesmos e com o mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo como base os objetivos deste projeto:

Possibilitar as crianças o contato com a Literatura Infantil, através dos contos de fada;
Promover o desenvolvimento da imaginação, da criação, e da percepção de mundo, a partir das possíveis interpretações dos contos de fada.; e
observar através da aplicação do trabalho a importância que é dada aos contos de fadas na escola. É possível definir alguns parâmetros:

Na escola pública, existem trabalhos isolados que valorizam a literatura infantil, mas em sua maioria todos a utilizam para fins didáticos. No centro de Educação Infantil, existe uma preocupação do corpo docente em valorizar o imaginário da criança, bem como suas demais potencialidades.

Percebemos que em ambas as instituições as crianças participam das atividades, e demonstram através de textos, desenhos, dramatizações, gestos, e conversas suas angústias, alegrias, vontades e dúvidas ao colocarem-se no lugar dos personagens, vivenciando momentos do seu cotidiano.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO:

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas.15.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
CARDOSO, Camilo.VALSASSINA,Manuela. Arte Infantil. Linguagem Plástica. 2ed. Lisboa: Presença, 1988.
CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. 8 ed. São Paulo: Ática, 1997.
LAJOLO, Marisa, ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira – Histórias e Histórias. 5 ed. São Paulo: Ática,1.991.
NOVAES, Nelly. Coelho Literatura Infantil. 7.ed.Ed. São Paulo: Moderna, 2.000.
______* O Conto de Fadas. São Paulo: Ática, 1987.
PAULINO, Graça. O Jogo do Livro Infantil. Textos Selecionados para Formação de Professores .Belo Horizonte: Dimensão, 1.997.
POSTIC, Marcel. O imaginário na Relação Pedagógica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. 8 ed. São Paulo: Summus, 1982.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da mente. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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Irmãos Grimm (Os Sete Corvos)

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, todos meninos, e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava mais uma vez esperando criança.

No tempo certo, quando ela deu à luz, veio uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser batizada com urgência. Então, o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o batismo.

O menino foi correndo e, atrás dele, seus seis irmãos. Chegando lá, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu. Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam demorando muito, o pai disse, impaciente:

– Na certa, ficaram brincando e se esqueceram da vida!

E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva:

– Queria que todos eles se transformassem em corvos!

Nem bem falou isso, ouviu um ruflar de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando a voar por cima da casa. Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, se consolaram com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita. Passaram-se anos.

A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas falando dela:

– A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram…

Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou- lhes se tinha irmãos, e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o batismo dela fora a inocente causa. A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los.

Não tinha mais paz nem sossego. Um dia, ela fugiu de casa, decidida a encontrar os irmão onde quer que eles estivessem, nesse vasto mundo, custasse o que custasse. Levou consigo apenas um anel de seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.

Foi andando, andando, se afastando cada vez mais, e assim chegou ao fim do mundo. Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças. A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau:
– Hum, hum… que cheirinho bom de carne humana!

A menina se afastou correndo e foi falar com as estrelas. Encontrou–as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela.

A Estrela D’alva ficou em pé e lhe deu um ossinho de frango, dizendo:
– Sem este ossinho, você não poderá abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão seus irmãos.

A menina pegou o ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano, e de novo se pôs a andar. Andou, andou e afinal chegou na Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar o osso, ele estava vazio! Ela havia perdido o presente da estrela… E agora, o que fazer? Queria salvar os irmãos, mas não tinha mais a chave da Montanha de Cristal.

Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do buraco da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado. Então, pegou uma faca em sua trouxinha, cortou fora um pedaço do dedo mindinho, meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão se abriu.

Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro:

– O que esta procurando, minha menina?

– Procuro meus irmãos, os sete corvos.

– Os senhores corvos não estão em casa e vão se demorar bastante. Mas, se quiser esperar, entre e fique à vontade.

Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou trazendo a comida dos corvos em sete pratinhos, e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho. Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.

– São os senhores corvos que vêm vindo – explicou o anãozinho. Eles entraram, quiseram logo comer e beber e se dirigiram para seus pratos e copos. Então um disse para o outro:

– Alguém comeu no meu prato! Alguém bebeu no meu copo! E foi boca humana!

E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até o seu bico. Ele reconheceu o anel de seus pais e exclamou:

– Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui! Então, estaremos salvos!

Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontro deles. Imediatamente, os corvos recuperaram sua forma humana. Abraçaram-se e se beijaram na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa.

Fonte:
http://www.logoslibrary.eu/

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Irmãos Grimm (Rumpelstichen)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha uma filha linda. Um dia ele se encontrou com o rei e, para se dar importância, disse que sua filha sabia fiar palha, transformando-a em ouro.

– Esta é uma habilidade que me encanta – disse o rei. – Se é verdade o que diz, traga sua filha amanhã cedo ao castelo. Eu quero pô-la à prova. No dia seguinte, quando a moça chegou, o rei levou-a para um quartinho cheio de palha, entregou-lhe uma roda e uma bobina e disse:

– Agora, ponha-se a trabalhar. Se até amanhã cedo não tiver fiado toda esta palha em ouro, você morrerá! – Depois saiu, trancou a porta e deixou a filha do moleiro sozinha.

A pobre moça sentou-se num canto e, por muito tempo, ficou pensando no que fazer. Não tinha a menor idéia de como fiar palha em ouro e não via jeito de escapar da morte. O pavor tomou conta da jovem, que começou a chorar desesperadamente. De repente, a porta se abriu e entrou um anãozinho muito esquisito.

– Boa tarde, minha linda menina – disse ele. – Por que chora tanto?

– Ah! – respondeu a moça entre soluços. – O rei me mandou fiar toda esta palha em ouro. Não sei como fazer isso!

– E se eu fiar para você? O que me dará em troca?

– Dou-lhe o meu colar. O anãozinho pegou o colar, sentou-se diante da roda e, zum-zum-zum: girou-a três vezes e a bobina ficou cheia de ouro. Então começou de novo, girou a roda três vezes e a segunda bobina ficou cheia também. Varou a noite trabalhando assim e, quando acabou de fiar toda a palha e as bobinas ficaram cheias de ouro, sumiu.

No dia seguinte, mal o sol apareceu, o rei chegou e arregalou os olhos, assombrado e feliz ao ver todo aquele ouro. Contudo, seu ambicioso coração não se satisfez. Levou a filha do moleiro para outro quarto um pouco maior, também cheio de palha, e ordenou-lhe que enchesse as bobinas de ouro, caso quisesse continuar viva. A pobre moça ficou sentada olhando a palha, sem saber o que fazer. “Ah… se o anãozinho voltasse…”, pensou, querendo chorar. Nesse instante a porta se abriu e ele entrou.

– O que você me dá, se eu fiar a palha? – perguntou.

– Dou-lhe o anel do meu dedo. Ele pegou o anel e se pôs a trabalhar. A cada três voltas da roda, uma bobina se enchia de ouro. No outro dia, quando o rei chegou e viu as bobinas reluzindo de ouro, ficou mais radiante.

Mas ainda dessa vez não se contentou. Levou a moça para outro quarto ainda maior, também cheio de palha e disse:

– Você vai fiar esta noite. Se puder repetir essa maravilha, quero que seja minha esposa. O rei saiu, pensando: “Será que ela é mesmo filha do moleiro? Bah! O que importa é que vou me casar com a mulher mais rica do mundo!” Quando a moça ficou sozinha, o anãozinho apareceu pela terceira vez e perguntou:

– O que você me dá, se ainda dessa vez eu fiar a palha?

– Eu não tenho mais nada…

– Se é assim, prometa que me dará seu primeiro filho, se você se tornar rainha. “Isso nunca vai acontecer”, pensou a filha do moleiro. E não tendo saída, prometeu ao anãozinho o que ele quis.

Imediatamente ele se pôs a trabalhar, girando a roda a noite inteira. De manhãzinha, quando o rei entrou no quarto, encontrou prontinho o que havia exigido. Cumprindo sua palavra, casou-se com a bela filha do moleiro, que assim se tornou rainha.

Um ano depois, ela deu à luz uma linda criança. Já nem se lembrava mais do misterioso anãozinho. Mas naquele mesmo dia, a porta se abriu repentinamente e ele entrou.

– Vim buscar o que você me prometeu – disse. A rainha ficou apavorada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino, se ele a deixasse ficar com a criança. Mas ele não quis.

– Não! Uma coisa viva vale muito mais para mim que todos os tesouros do mundo! A rainha ficou desesperada; tanto chorou e se lamentou, que o anãozinho acabou ficando com pena.

– Está bem – disse. – Vou lhe dar três dias. Se no fim desse prazo você adivinhar o meu nome, poderá ficar com a criança. A rainha passou a noite lembrando os nomes que conhecia e mandou um mensageiro percorrer o reino em busca de novos nomes. Na manhã seguinte, quando o anãozinho chegou, ela foi dizendo:

– Gaspar, Melquior, Baltazar- e assim continuou, falando todos os nomes anotados. Mas a cada um deles o anão respondia balançando a cabeça:

– Não é esse meu nome! No segundo dia, a rainha pediu às pessoas da vizinhança que lhe dessem seus apelidos, e fez uma lista dos nomes mais esquisitos, como: João das Lonjuras, Carabelassim, Pernil-mal-assado e outros. Mas a todos a resposta do anão era a mesma:

– Não é esse meu nome! No terceiro dia, o mensageiro que andava pelo reino à cata de novos nomes voltou e disse:

– Não descobri um só nome novo. Mas eu estava andando por um bosque no alto de um monte, onde raposas e coelhos dizem boa-noite uns aos outros, quando vi uma cabana. Diante da porta ardia uma fogueirinha e um anão muito esquisito, pulando num pé só ao redor do fogo, cantava:

– Hoje eu frito! Amanhã eu cozinho! Depois de amanhã será meu o filho da rainha! Coisa boa é ninguém saber Que meu nome é Rumpelstichen! Pode-se imaginar a alegria da rainha, quando ouviu esse nome. E quando um pouco mais tarde o anãozinho veio e perguntou:

– Então, senhora rainha, qual é meu nome? Ela disse antes:

– Será Fulano?

– Não!

-Será Beltrano?

– Não!

– Será por acaso Rumpelstichen?

– Foi o diabo que te contou! – gritou o anãozinho furioso. E bateu o pé direito com tanta força no chão, que afundou até a virilha. Depois, tentando tirar o pé do buraco, agarrou com ambas as mãos o pé esquerdo e puxou-o para cima com tal violência, que seu corpo se rasgou em dois. Então, desapareceu.

Fonte:
http://www.logoslibrary.eu/

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