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Carlos Daniel Toni (A Teimosa Ana Clara)

CURIOSIDADES SOBRE AS ABELHAS 
• Têm seu sexo definido por um processo natural chamado de partenogênese. 
Se o ovo da fêmea for fecundado, nasce uma abelha fêmea, caso contrário, nasce macho. 
• Vivem em sociedade. 
• O que diferencia a rainha das operárias é a alimentação. Enquanto a rainha, que só come geleia real, vive cerca de cinco anos, as operárias, que comem mel, vivem cerca de três meses. 
• Têm o corpo dividido em três partes: cabeça, tórax e abdômen. 
• São invertebradas (não possuem coluna Vertebral).
––––––––––––––-

Ana Clara era uma linda princesa. Suas cores pareciam pintadas à mão, de um amarelo forte que realçava a elegância de seu corpo listrado. Todas as abelhas da colmeia maravilhavam-se ao ver tão belas cores. 

Mas isso não era tudo. Além de bela, Ana Clara era dotada de rara inteligência. Conhecia toda a história da colmeia, sabia cantar várias músicas, dançava como ninguém. E, acima de tudo, adorava brincar. 

Talvez você esteja pensando: Que abelha encantadora! 

Mas Ana Clara tinha um defeito: não sabia ouvir os outros. Se alguém lhe dava um conselho, ficava zumbindo à toa. 

Para ela, não era importante ouvir as experiências das outras abelhas, pois tudo o que precisava para viver estava nos livros. 

Assim, costumava dizer para si mesma: 

. Uma abelha comum, que mal sabe falar direito, quer ensinar alguma coisa a uma princesa? Ora essa! 

Mas por educação fingia escutar o que lhe diziam. Fazia isso sempre do mesmo modo: o que ela escutava entrava por um ouvido e saía pelo outro.

Numa bela manhã de sol, a linda abelha resolveu passear e colher néctar. 
No caminho, encontrou sua amiga Cora, uma habilidosa operária que já estava voltando com um monte de néctar. 

Ao ver Ana Clara, Cora lhe disse: 

. Ana Clara, não vá pelo caminho da Lagoa Azul. É por lá que andam os humanos que colhem flores. Você pode ficar presa numa armadilha e não conseguir voltar para casa. 

Ana Clara respondeu: 

. Obrigada Cora, pode deixar comigo. 

Aquela era mais uma de suas respostas prontas. Ela ignorou as palavras da amiga. Seguiu o caminho da Lagoa Azul enquanto pensava: 

. Aqui a estrada é tão bonita e as flores têm o melhor néctar que já provei. 

No início, achou estranho não encontrar nenhuma abelha naquele paraíso. Então pensou: 

. Como são bobas, o dia está lindo e ninguém está aproveitando. 

Quando chegou à margem da lagoa, pousou na primeira flor para beber o néctar e… zaz! 

Um homem arrancou a flor e a colocou num saco grande. 
Já era tarde quando Ana Clara percebeu que era prisioneira e estava sozinha. 

Começou a chorar e pensou: 

. Deve ser por isso que nenhuma abelha vem aqui. Por que ninguém me avisou? Puxa vida, a Cora não me disse nada. 
Logo a Rainha sentiu a falta de Ana Clara. E por isso enviou tropas de operárias e zangões para procurá-la nos quatro cantos da mata. 
As investigadoras encontraram o cheiro da princesa perto do caminho da Lagoa Azul. Sem demora, foram relatar a descoberta à Rainha. 
Muito preocupada, a mãe de Ana Clara perguntou às abelhas: 

. Ninguém avisou minha filha de que não devia voar por lá? 

. Eu avisei, mas acho que ela não quis me escutar . disse Cora, um pouco tímida. 

A Rainha sabia que sua filha era muito teimosa, mas mesmo assim não perdeu as esperanças. Organizou novas buscas, agora além da área da floresta.

Ana Clara, com muito esforço, conseguiu sair do saco. Mas quando olhou ao redor não reconheceu o local: 

. Devo estar muito longe de casa! 
Sentou-se à beira de uma pequena fonte para descansar, quando avistou de longe suas amigas.
Ela havia aprendido uma lição. Ana Clara voltou para casa e houve uma grande festa. 

Anos depois, quando cresceu e se tornou uma poderosa Rainha, Ana Clara ficou conhecida pela sabedoria e delicadeza de seus conselhos. 

A experiência na Lagoa Azul lhe ensinou que a inteligência também reside na humildade de escutar e aprender com os outros. 

Fonte:
Toni, Carlos Daniel. Contos ambientais – 10 histórias e curiosidades sobre a fauna brasileira. Ilustrações de Fábio Fernando. São Paulo: Editora José Luis e Rosa Sundermann, 2012. 

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Marcelo Alencar (Amplexo)

Ilustração: Marcelo Cipis

Mãe, me dá um amplexo? 

 A pergunta pega Cinira desprevenida. Antes que possa retrucar, ela nota o dicionário na 
 mão do filho, que completa o pedido: 

 – E um ósculo também.

Ainda surpresa, a mulher procura no livro a definição das duas estranhas palavras. E encontra. Mateus quer apenas um abraço e um beijo. 

 Conversa vai, conversa vem, Cinira finalmente se dá conta de que o garoto, recém-apresentado às classes gramaticais nas aulas de Português, brinca com os sinônimos. “O que vai ser de mim quando esse tiquinho de gente cismar com parônimos, homônimos, heterônimos e pseudônimos?”, pensa ela, misturando as estações. “Valha-me, Santo Antônimo!” E emenda: 

 – Pára com essa bobagem, menino! 

 – Ah, mãe, o que é que tem? Você nunca chamou cachorro de cão? E casa de residência? E carro de automóvel? 

 – É verdade, mas… 

 Mas a verdade é que Cinira não tem uma boa resposta. 

 – E meu nome é Mateus – continua o rapaz. – Só que você me chama de Matusquela. 

 – Ei, isso não vale. Matusquela é apelido carinhoso. 

 – Sei, sei. Tudo bem se eu usar nosocômio e cogitabundo em vez de hospital e pensativo? 
 E criptobrânquio no lugar de mutabílio? 

 – Mutabílio? O que é que é isso? 

 – O mesmo que derotremado, ora. Tá aqui no Aurélio. 

 Está mesmo. É um bichinho. Mas pouco importa. A mãe questiona a opção do menino por vocábulos incomuns. Mateus sai-se com esta: 

 – A professora disse que aprender palavras é como ganhar roupas e guardar numa gaveta. Quando a gente precisa delas, tira de lá e usa. Cada uma serve para uma ocasião, por mais esquisita que pareça. Igual à querê-querê roxa que você me deu no último aniversário. Lembra? 

 Como esquecer? Cinira nem se dá ao trabalho de consultar o dicionário. Sabe que a explicação para essa última provocação está no verbete camiseta.

Fonte:

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Flávio Carneiro (Aprendizagem)

Ilustração: Eva Uviedo


– Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer? 

 – Hã?  – Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo? 

 – Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha. 

 A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas. 

 – Todo dia, mãe? 

 – É, só que a gente não repara. 

 – Por quê? 

 – Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha? 

 A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder. 

 – Você é muito ocupada, não é, mãe? 

 – Hã? 

 – Nada, não. 

 A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário. 

 Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto. 

 “Nada, não cresceu nada”, ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana! 

 Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis. 

 – Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer? 

 – Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura? 

 Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder. 

 A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda. 

 – Mãe! 

 – O que foi? 

 – É que eu estava aqui pensando. 

 – Pensando o quê? 

 Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas. 

 – Vai, fala logo. 

 – Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu? 

 – Não, não entendi. 

 Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar: 

 – Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo? 

 – Ai, meu Deus! 

 Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca. 

 Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela: 

 – Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu? 

 E com um carinho: 

 – Foi minha mãe que me ensinou.

Fonte:

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Tatiana Belinky (A Luva)

Ilustração: Maria Eliana Delarissa

Foi nos tempos distantes do amor cortês. No reino medieval do rei Franz era dia de festa, e o ponto alto das festividades era a exibição de feras selvagens, trazidas de terras distantes, na arena do grande castelo. Em volta da arena erguiam-se as arquibancadas, encimadas por altos balcões onde brilhavam os nobres da corte, ao lado das belas damas faiscantes de jóias. Entre elas se destacava a donzela Cunegundes, tão rica e formosa quanto orgulhosa, e de pé ao seu lado estava o seu apaixonado adorador, o jovem cavaleiro Delorges, cujo amor ela desdenhava, distante e fria.
 Chegou a hora do início da função. A um sinal do rei, abriu-se a porta da primeira jaula, da qual saiu, majestoso, um feroz leão africano e, sacudindo a juba dourada, deitou-se na areia, preguiçoso. Abriu-se a segunda jaula, liberando um terrível tigre de Bengala, que encarou o leão com olhos ameaçadores e deitou-se também, tenso, como quem prepara um bote mortal. Em seguida, abriu-se a terceira jaula, da qual saltaram, quais enormes gatos negros, duas panteras de dentes arreganhados, deitando-se agachados e aumentando a tensão do ambiente.
 Fez-se um silêncio no público: todos aguardavam ansiosos um pavoroso embate mortal entre os quatro monstros felinos… E neste momento, como que sem querer, a donzela Cunegundes deixou cair, do alto do balcão, sua branca luva, bem no centro da arena, entre as quatro feras assustadoras. E dirigindo-se com um sorriso irônico ao seu cavaleiro adorador, falou, afetada:
 “Cavaleiro Delorges, se de fato me amais como viveis repetindo, provai-o, indo buscar e me devolver a minha luva.”
 O cavaleiro Delorges não respondeu nada e sem titubear, desceu rápido do balcão e com passos decididos pisou na arena, entre as fauces hiantes e as presas arreganhadas das quatro feras. Calmo e firme ele apanhou a luva, e sem olhar para trás e sem apressar o passo, voltou para o balcão, sob os sussurros de espanto e admiração de todo o público presente.
 A donzela Cunegundes estendeu a mão num gesto faceiro para receber a luva e com um sorriso cheio de promessas, falou:
 “Ganhaste a minha gratidão, cavaleiro Delorges.”
 Mas em vez de entregar-lhe a luva, o cavaleiro Delorges atirou-a no belo rosto da dama cruel e orgulhosa: “Dispenso a vossa gratidão, senhora!”, ele disse.
 E voltando-lhe as costas, o cavaleiro Delorges foi embora para sempre.

Fonte:
Recontado de um poema de Schiller por Tatiana Belinky
Disponível na Revista Nova Escola

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Fanny Abramovich (Dona Licinha)

A senhora não me conhece. Faz tanto tempo e me lembro de detalhes do seu jeito, sua voz, seu penteado e roupas… A senhora ensinava na 3a série B e eu era aluna da 3ª série C no Grupo Escolar do Tatuapé… Passava no corredor fazendo figa para mudar de classe, pra minha professora viajar e nunca mais voltar, pra diretora implicar e me mandar pra 3a B… Nunca tive tanta inveja na minha vida como tive das crianças da série B… 
 Lembro que na sua sala se ouviam risadas quase o tempo todo. Maior gostosura! De vez em quando, um enorme silêncio quebrado por uma voz suave…era hora de contar histórias. Suspirando, eu grudava na janela e escutava o que podia… Também muitos piques e hurras, brincadeiras correndo solto. Esconde-esconde, telefone sem fio, campeonato de Geografia. Tanto fazia a aprontação inventada. Importava era sentir a redonda contenteza dos alunos. 
 A sua sala era colorida com desenhos das crianças, um painel com recortes de revistas e jornais, figurinhas bailando em fios pendurados, mapas e fotos… Uma lindeza rodopiante mudada toda semana! Vi pela janela seus alunos fantasiados, pintados, emperucados, representando cenas da História do Brasil! Maior maravilhamento! Demorei, entendi. Quem nunca entendeu foi a minha professora… Seu segredo era ensinar brincando. Na descoberta! Na contenteza! 
 Nunca ouvi berros, um “Cala boca”, “Aqui quem manda sou eu” e outras mansidões que a minha professora dizia sem cansar. Não escutei ameaças de provas de sopetão, castigos, dobro da lição de casa, chamar a diretora, com que a minha professora me aterrorizava o tempo todo… 
 Dona Licinha, eu quis tanto ser sua aluna quando fiz a 3a série. Não fui… Hoje, tanto tempo depois, sou professora. Também duma 3a série. Agora sou sua colega… Só não esqueço que queria estar na sua classe, seguir suas aulas risonhas, sem cobranças, sem chateações, sem forçar barras, sem fazer engolir o desinteressante. Numa sala colorida, iluminada, bailante. Também quero ser uma professora assim. Do seu jeito abraçante. 
 Hoje, vi uma garotinha me espiando pela janela. Arrepiei. Senti que estava chegando num jeito legal de estar numa sala de aula… Por isso resolvi escrever para a senhora. Vontadona engolida por décadas. Tinha que dizer que continuo querendo muito ser aluna da Dona Licinha. Agora, aluna de como ser professora. Fazendo meus alunos viverem surpresas inventivas. 
 Um abraço apertado, 
 cheinho de gostosuras, da
Ciça
Fonte:

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João Anzanello Carrascoza (Apenas uma Ponte)

Ilustração: Milton Trajano
Chegara, enfim, o último dia de aula. Havia sido uma longa  trajetória até ali. Mas, agora, o professor observava com  ternura os alunos à sua frente, cada um voltado para seu  caderno, fazendo a lição que colocaria ponto final no ano  letivo. Então, agarrado à calmaria daquela hora, ele se  recordou do primeiro encontro com o grupo. Todos o miravam com  curiosidade, ansiosos por apanhar, como uma fruta, o  conhecimento que imaginavam lhe pertencia. Nem tinham idéia de  que aprenderiam por si mesmos, e que ele, mestre, não era a  árvore da sabedoria, mas apenas uma ponte que os levaria à sua  copa frondosa. Naquele dia, experimentara outra vez a emoção de  se deparar com uma nova turma, e o que o motivava a ensinar,  com tanta generosidade, era justamente o desafio de enfrentar  esse mistério. Sim, uma ponte. Uma ponte por onde transitassem os sonhos daquelas crianças, o movimento incessante de seus  desejos, o ir e vir de suas dúvidas, o vaivém do aprendizado em  constante algaravia. 
 Lembrou-se da dificuldade da Julinha nas operações de  multiplicar. O resultado correto era um território que ela nem  sempre conseguia atingir. Mas, agora, a garota estava lá,  segura da direção que deveria tomar. Ele fizera a ponte. O que  dizer da distância entre o José e o Augusto no início do ano,  ambos se temendo em silêncio, deixando de desfrutar da aventura  de uma grande amizade? Com paciência, ele os unira. Desde  então, não se desgrudavam. Podia vê-los dali, de sua mesa, um  ao lado do outro, concentrados em fazer a tarefa. Já a Maria  Sílvia, dona de uma letra redondinha, ainda há pouco lhe dera  um sorriso. Antes, contudo, vivia irritada, a letra sem apuro,  só garranchos. Fizera a ponte para ela. Mateus, à sua frente,  detestava Ciências e fugia das aulas no laboratório. Talvez porque só via dificuldade na travessia e não as maravilhas que o esperavam no outro extremo. O professor estendera-lhe a mão e o conduzira, até que, subitamente, ele se tornara o melhor aluno naquela matéria. Tinha também a Alessandra, tão silenciosa e tímida. Ia bem nos primeiros meses e, depois, o rendimento caíra. Ele descobrira que os pais dela viviam em conflito. Alertara-os para que dessem mais afeto à filha, e eis que ela florescera, voltando a ser uma boa aluna. 
 E lá estava, nas últimas fileiras, o Luís Fábio. Notara suas limitações e construíra uma ponte especial para ele, mas o menino não conseguira atravessá-la. Era assim: para alguns, bastavam uns passos; para outros, o percurso se encompridava. O professor suspirou. Fizera o seu melhor. Lembrou-se das palavras de Guimarães Rosa: “Ensinar é, de repente, aprender”. 
 Sim, aprendera muito com seus alunos. Inclusive aprendera sobre si mesmo. Aquelas crianças haviam, igualmente, ligado pontos em sua vida. Agora, seguiriam novos rumos. Haveriam de encontrar outras pontes para superar os abismos do caminho. Ele permaneceria ali, pronto para levar uma nova classe até a outra margem. E o tempo, como um viaduto, haveria de conduzi-lo à emoção desse novo mistério.
Fonte:

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Januária Alves (Minha Chupeta Virou Estrela)

Ilustração por Ionit Zilberman
Eu me chamo Pedro e tenho 7 anos. Eu tenho uma estrela, sabe?
 Uma estrelona, linda, que está lá no céu, brilhando, todos os dias.
Quando eu tinha 3 anos, para salvar meu dente da frente que ficou mole porque eu caí de boca brincando na gangorra da escola, minha dentista me disse que… EU TERIA QUE PARAR DE USAR A MINHA QUERIDA CHUPETA VERDE!
 – A chupeta ou o dente! – ela me mandou escolher.
 Bom, eu nem quis ouvir direito essa proposta tão maluca! A doutora Virgínia e a minha mãe tentaram conversar comigo, explicar por que era importante eu não perder um dente tão cedo e… nada. Eu só olhava com o olho mais comprido do mundo para a chupeta verde, minha companheira do sono mais gostoso do mundo! Como dormir sem ela?
 Na primeira noite em que fiquei sem a minha querida chupeta, só lembro de sentir o cheiro da minha mãe, que me carregou no colo enquanto papai dirigia nosso carro, passeando em frente ao meu parque preferido pra ver se eu enfim conseguia pegar no sono…
 No dia seguinte fui com minha mãe e meu irmão ao parque e levei pão para dar aos patos que moram num lago bem bonito que tem lá. Um pato maior e mais cinza que os outros me chamou a atenção. Ele veio várias vezes comer pão na minha mão e eu gostei dele. Parecia o patinho feio da história que meu pai sempre contava antes de eu dormir.
 Mamãe chegou perto de nós e disse que aquele era mesmo um pato especial. Ele costumava tomar conta das chupetas de alguns meninos. E fazia isso muito bem: ele transformava todas em estrelas! Superlegal!
 Pus o nome naquele pato de Pato Pão. Eu não queria perder nem o meu dente nem a minha chupeta… Talvez o Pato Pão fosse a soluçãopara o meu problema! Então… resolvi dar a minha chupeta verde para ele. Ele pegou minha chupeta verde com o bico e atirou longe, no lago. Eu fiquei olhando para ela boiando, boiando… até desaparecer… Na hora de entregar a minha chupeta verde, mesmo para um pato tão especial como o Pato Pão, eu segurei bem forte a mão da minha mãe e a do meu irmão!
 Enquanto a minha chupeta verde ia embora no lago, pensei que naquela noite ela não ia estar embaixo do meu travesseiro. Eu teria que ir até a janela se quisesse dar uma espiada nela.
 Quando a noite apareceu, meu pai chegou do trabalho e se deitou na cama comigo, olhando pro céu, procurando a minha estrela-chupeta verde. Eu vi primeiro e nós dois batemos palmas pra ela! Aí eu só me lembro de adormecer com aquele brilho de estrela no meu olho e a sensação do abraço enorme do meu pai.
 Todas as vezes em que penso na minha chupeta, olho pro céu, procurando a estrela-chupeta verde. Agora, a saudade, em vez de crescer como eu, fica menor a cada noite. Deve ser porque meninos grandes gostam mais de estrelas no céu do que de chupetas, eu acho.

Fonte:
Revista Nova Escola

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Hans Christian Andersen (A Menina dos Fósforos)


Era véspera de Ano Bom. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina, descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. É certo que estava calçada quando saiu de casa; mas as chinelas eram muito grandes, pois que a mãe as usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados, quando atravessava correndo uma rua, para fugir de dois carros que vinham a toda a brida. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo e declarando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos, quando os tivesse. Continuou, pois, a menina a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos e tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera esmola – nem um só vintém.

Assim, morta de fome e frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e o desânimo – a estátua viva da miséria.

Os flocos de neve caíam pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro; vagava na rua um cheiro bom de pato assado – era a véspera do Ano Bom – isso sim, não o esquecia ela.

Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém; era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, lá fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas que lhe tinham vedado as enormes frestas.

Tinha as maozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos, sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parece para acendê-lo… Ritch!… Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!

Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela, quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita, aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados para aquecê-los e… crac! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via agora a parede escura e fria.

Riscou outro. Onde batia a sua luz, a parede tornava-se transparente como a gaze, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa, e sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo soalho direto à menina que estava com tanta fome, e…

Mas – que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria, na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente, viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Oh! Era muito maior, e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos brilhavam milhares de velinhas; e estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços, diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas de natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.

– Morreu alguém – disse a criança.

Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que estava morta, lhe dizia sempre que quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.

Agora ela acedeu outro fósforo; e desta vez foi a avó que lhe apareceu, a sua boa vovó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.

– Vovó! – gritou a pobre menina – Leva-me contigo… Já sei que quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como se sumiram a estufa quente, e o rico pato assado, e a linda árvore de Natal!

E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão alta, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais altoo, e mais alto, e mais longe… longe da terra, para um lugar lá em cima onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam agora com Deus.

A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de beatitude. Morta. Morta de frio, na última noite do ano velho.

A luz do Ano Bom iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mão cheia de fósforos queimados.

– Sem dúvida ela quis aquecer-se – diziam.

Mas… ninguém soube das lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem em que halo tinha entrado com a avó nas glórias do Ano Novo.

Fonte:
Hans Christian Andersen e Irmãos Grimm. Contos infantis. Seleção e tradução: Jô Andrada . http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135

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Hans Christian Andersen (A Princesa e a Ervilha)


Havia uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas não se contentava com uma princesa que não fosse de verdade. De modo que se dedicou a procurá-la no mundo inteiro, ainda que inutilmente, pois todas que via apresentavam algum defeito. Princesas havia muitas, porém não podia ter certeza, ja que sempre havia nelas algo que não estava bem. Assim, regressou ao seu reino cheio de sentimento, pois desejava muito uma princesa verdadeira!

Certa noite, caiu uma tempestade horrível. Trovejava e chovia a cântaros. De repente, bateram à porta do castelo, e o rei foi pessoalmente abrir.

No umbral havia uma princesa. Mas, Santo Céu, como havia ficado com o tempo e a chuva! A água escorria por seu cabelo e roupas, seu sapato estava desmanchando. Apesar disso, ela insistia que era uma princesa real e verdadeira.

“Bom, isso vamos saber logo”, pensou a rainha velha.

E, sem dizer uma palavra, foi ao quarto, tirou toda a roupa de cama e colocou uma ervilha no estrado, em seguida colocou vinte colchões sobre a ervilha, e sobre eles vinte almofadas feitas com as plumas mais suaves que se pode imaginar.

Ali teria que dormir toda a noite a princesa.

Na manhã seguinte, perguntaram-lhe como tinha dormido.

-Oh, terrivelmente mal! – disse a princesa. Não consegui fechar os olhos toda a noite. Vá se saber o que havia nessa cama! Encostei-me em algo tão duro que amanheci cheia de dores. Foi horrível!

Ouvindo isso, todos compreenderam que se tratava de uma verdadeira princesa, ja que havia sentido a ervilha através dos vinte colchões e vinte almofadões. Só uma princesa podia ter uma pele tão delicada.

E assim o príncipe casou com ela, seguro que sua era uma princesa completa. A ervilha foi enviada a um museu onde pode ser vista, a não ser que alguém a tenha roubado.

Fonte:
Hans Christian Andersen e Irmãos Grimm. Contos infantis. Seleção e tradução: Jô Andrada . http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135

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Guerra Junqueiro: Contos para a Infância (A Canção da Cerejeira)


Disse Deus na Primavera: – Ponham a mesa às lagartas! E a cerejeira cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e verdejantes.

A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as folhinhas tenras, dizendo:

– Não se pode a gente despegar delas. Quem é que me arranjou este banquete?

Então Deus disse de novo: – Ponham a mesa às abelhas! E a cerejeira cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores delicadas e brancas.

E a abelha matinal, aos primeiros raios da aurora, pousou sobre elas, dizendo: –Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão lindas em que o deitaram.

Provou, exclamando: – Que deliciosa bebida! Não pouparam o açúcar!

No Verão disse Deus: – Ponham a mesa aos passarinhos! – E a cerejeira cobriu-se de mil frutos apetitosos e verme lhos.

– Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa hora; temos apetite; e ganharemos forças para cantar uma nova canção.

No Outono disse Deus: – Levantai a mesa; já estão satisfeitos. – E o vento f rio das montanhas começou a soprar; e fez estremecer a árvore.

As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o vento que as lançara ao chão erguia-as novamente, fazendo-as remoinhar.

Chegou Dezembro e disse Deus: – Cobri o resto! – E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.

Fonte:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.

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Guerra Junqueiro: Contos para a Infância (A Mãe)


Uma desventurada mãe, louca de dor, velava o berço de seu filhinho agonizante. A criancinha pálida tinha os olhos fechados. Respirava ansiosa, e às vezes tão profundamente, que parecia gemer. A mãe, no entanto, causava ainda mais lástima do que o pequenino moribundo.

Nisto bateram à porta, e entrou um velho miserável embuçado numa manta de arrieiro. Era em Dezembro. Lá fora, no escuro, um lençol de neve, e o vento cortando que nem uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se, a chegar as brasas uma caneca de cerveja. O velho começou a embalar a criança, e a mãe sentou-se ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez com mais dificuldade, tomou-lhe a mãozinha descarnada e disse para o velho:

– Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?

E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça de modo estranho, em ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas deslizavam-lhe em fio pelo rosto. Sentiu-se estonteada, com um grande peso na cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou levemente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.

– Que é isto?! exclamou, lançando em roda o olhar alucinado. No berço ninguém! O velho partira, roubando-lhe a criança.

E a triste mãe, soluçante, correu desgrenhada por montes e vales, à procura do filho. Encontrou uma mulher no meio da neve vestida de luto.

– A Morte entrou-te em casa, disse-lhe ela. Vi-a a sair muito ligeira, levando o teu filho. Anda mais do que o vento, e o que ela rouba não torna a dar.

– Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo! Diz-mo pelo amor de Deus!

– Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de negro. Mas só te ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.

– Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.

A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram ainda mais do que as palavras.

No fim disse-lhe a Noite:

– Toma a direita, pela floresta escura de pinheiros. Por ai e que a Morte seguiu com o teu filho.

A mãe correu para a floresta. No meio, porém, dividia-se o caminho, e não sabia que direção escolher. Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve cristalizada.

– Não viste a Morte que levava o meu filho? perguntou a mãe.

– Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho sem me aqueceres primeiro no teu seio, porque estou gelado.

E a mãe estreitou o matagal contra o coração; os espinhos dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno frigidíssima; tal é o calor febricitante do selo de uma pobre mãe angustiosa.

E o matagal ensinou-lhe o caminho por onde ela devia ir. Foi andando, andando, até que chegou: à margem de um grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para se andar por ele, e era profundo de mais para o passar a vau. Contudo urgia atravessá-lo. Num ímpeto do seu amor, arrojou-se de bruços a ver se poderia beber-lhe toda a água. Impossível! Lembra-se que Deus, compadecido, faria talvez um milagre…

– Não! Não és capaz de me esgotar, disse-lhe o lago. Sossega, e entendamo-nos. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas águas, e os teus olhos são de um brilho mais suave que as pérolas mais ricas que tenho possuído. Querendo, arranca-os das órbitas à força de chorar, e levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: aí habita a Morte; e, as flores e as arvores que estão lá dentro, é ela quem as trata; em cada flor e em cada árvore habita a vida de um coração humano.

– Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho! soluçou a mãe.

E apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não teve no mundo uma rainha.

O lago então, arrebatando-a numa onda, depositou-a na outra margem, onde se erguia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua de comprido. De longe ninguém discriminava se era um monumento de arte ou uma grande montanha cheia de cavernas, grutas e florestas. Mas a pobre mãe nada podia ver, porque tinha dado os seus olhos.

– Ah! como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou ela desesperada.

– A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava de um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste, tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?

– Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. Anda, compadece-te de mim, e diz-me onde está o meu filho.

– Eu não o conheço, e tu és cega, tornou a velha. Há aqui muitas plantas e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda aí para as levar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste sitio uma árvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e descobrirás talvez o coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?

– Já nada me resta, disse a pobre mãe suspirando. Mas iria até ao fim do mundo buscar o que tu quisesses.

– Fora daqui, não preciso de coisa alguma, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros. Agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus cabelos brancos, que têm mais de mil anos.

– Só isso? volveu a mãe. Ei-los, dou-vos de boa vontade.

E arrancou os esplêndidos cabelos, o seu orgulho na juventude, outrora, recebendo em volta os cabelos curtos e inteiramente brancos da corcovada feiticeira.

Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegetação maravilhosa.

Viam-se debaixo de campânulas de cristal, jacintos mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também plantas aquáticas, umas a estoirar de seiva, outras meio murchas, e em cujas raízes se enovelavam cobras asquerosas. Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos frondentes; depois, num outro sítio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortelã e outras plantas humildes.

Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, quase a rebentar; mias viam-se também florinhas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, cuidadas com esmero delicadíssimo. Tudo isto representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a China até à Gronelândia.

A velha queria-lhe mostrar tantas e tantas coisas misteriosas, porém a mãe impacientada rogou-lhe que a levasse aonde estavam as plantas pequeninas; tateava-as, apalpava-as, para lhes sentir o arfar, e, depois de haver tocado em milhares delas, reconheceu as pulsações do coração de seu filho.

– É ele! exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.

– Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte ganhará medo porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem Ele o permitir.

Nisto zuniu um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte que se aproximava.

– Como é que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o conseguiste?

– «Sou mãe», balbuciou ela.

E a Morte estendeu a mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.

A mãe, porém, defendia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de não magoar uma só das pequeninas pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados de Dezembro.

– Não podes nada comigo! disse a Morte.

– Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a mãe.

– É verdade. mas eu não faço senão o que Ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, árvores e arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as, para outros jardins, um dos quais é o grande jardim do Paraíso. São regiões desconhecidas; ninguém sabe o que se lá passa.

– Misericórdia! misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho, agora que eu o encontro!

Suplicava e gemia. Tudo inútil: a Morte, impassível. Agarrou então em duas flores lindíssimas e gritou a Morte:

– Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não só estas, mas todas as flores que estão aqui!

– Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és desgraçada, e querias ir partir o coração das outras mães!

– Outras mães! balbuciou a infeliz mulher, largando logo as flores.

– Aqui tens os teus olhos, volveu a Morte. Brilhavam com tal esplendor que os extrai do lago. Não sabia que eram teus, Mete-os nas Orbitas, e olha para o fundo deste poço; vê o que destruías, arrancando as flores. Contemplarás na miragem da água a sorte destinada a essas duas flores, e a que teria o teu filho, se porventura vivesse.

Inclinando-se então sobre a cisterna, viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros risonhos e trágicos, e logo depois cenas inefáveis de miséria, de angústias e desolação.

– Nisto que vejo, tornou a mãe aflitíssima, não distingo qual a sorte que Deus destinava ao meu filho.

– É-me defeso revelar-ta, acrescentou a Morte. Porém no que viste podias ler o destino do teu filho.

A mãe, alucinada, caiu de joelhos, exclamando:

– Suplico-te, diz: era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade? Fala! Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele sofrer desgraças tão horrendas. O meu querido filho! Quero-lhe mais que à vida. As angústias que sejam todas minhas. Leva-o para o reino dos Céus. Esquece estas lágrimas, estas súplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que te disse.

– Não compreendo, respondeu a Morte: Queres o teu filho ou desejas que o leve para a região desconhecida de que não posso falar-te?

Então a mãe, alucinada, convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos, e, dirigindo-se a Deus, exclamou:

– Não me atendas, Senhor, se reclamo no fundo do coração contra a tua vontade que é sempre boa e sempre justa! não me ouças, meu Deus!

E deixou cair a fronte sobre o peito, mergulhada numa alegria dilacerante.

E a Morte, arrancando o pequenino açafroeiro, lá o foi plantar nos jardins da luz do Paraíso.

Fonte:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.

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Hans Christian Andersen (O Trigo Mourisco)

Muitas vezes, após uma trovoada, ao passar-se por um campo de trigo mourisco, pode ver-se como ficou todo chamuscado. É como se o fogo tivesse passado por ele e o camponês dá-nos a explicação seguinte: “Foi um raio!” Mas porquê? Pois vou contar-lhes o que disse a um pardal um velho salgueiro que se encontrava perto dum campo de trigo mourisco e ainda lá está. É um salgueiro grande e venerável, mas enrugado e velho, um pouco rachado ao meio, com uma fenda onde crescem ervas e sarças. A árvore está um pouco tombada para a frente, e os ramos pendem para o solo, como se fossem uma longa cabeleira verde.

Em toda a volta havia campos de cereal, de centeio, de cevada e de aveia, a bela aveia que, quando está sazonada, parece um enorme bando de pequeninos canários amarelos pousados num ramo. Os cereais são assim uma bênção de Deus e quanto mais pesados estão, mais baixos se inclinam em humildade.

Mas havia também um campo de trigo mourisco, bem perto do velho salgueiro, que não queria nunca inclinar-se como os outros cereais; sempre se mantinha direito, orgulhoso e altivo.

— Sou tão rico como a espiga de trigo — disse ele. — Sou, além disso, mais bonito. As 15 minhas flores são tão belas como as da macieira, e é um regalo olhar para mim e para a minha floração. Conheces algo de mais belo, velho salgueiro? O salgueiro abanou a cabeça, como quem diz “pois claro que conheço”, mas o trigo mourisco inchou de orgulho e exclamou: — Árvore estúpida, tão velha estás que te crescem ervas na barriga!

Então rebentou uma terrível trovoada. Todas as flores dobraram as folhas ou inclinaram as cabeças, enquanto passava a trovoada sobre elas. Só o trigo mourisco continuava com a cabeça erguida, no seu orgulho.

— Abaixa a cabeça, como nós! — disseram as flores.

— Não tenho nenhuma necessidade disso! — respondeu o trigo mourisco.

— Abaixa a cabeça como nós! — gritou o trigo. — Vem aí o Anjo da Tempestade! Tem asas e com elas alcança tanto o céu lá em cima como a terra cá em baixo. Pode ceifar-te sem teres sequer tempo de pedir-lhe mercê.

— Está bem, mas eu não vergo! — retorquiu o trigo mourisco.

— Anda, fecha as flores e dobra as folhas! — disse o velho salgueiro. — Não olhes para cima, para os raios, quando as nuvens rebentam. Nem os próprios homens o podem fazer, pois que por eles é possível olhar para dentro do Céu, mas isso é bastante para os cegar. E o que nos aconteceria a nós, plantas da terra, se o ousássemos fazer, nós que somos muito menos?

— Muito menos? — disse o trigo mourisco. — Pois vou mesmo olhar para dentro do Céu! E foi isso que fez, com presunção e orgulho. Caiu então uma faísca tão grande que parecia que toda a terra ardia em chamas.

Quando o mau tempo passou, sentiram-se as flores e os cereais numa atmosfera calma e pura, refrescada pela chuva; mas o trigo mourisco ficara completamente queimado, reduzido a carvão pelo raio. Era agora uma erva inútil e morta no campo.

O velho salgueiro agitava os ramos ao vento e deixava tombar grandes gotas de água das suas folhas verdes, como se chorasse. Os pardais perguntaram-lhe:

— Porque estás a chorar? Não é tudo maravilhoso? Repara como brilha o sol e deslizam as nuvens. Não sentes o perfume das flores e dos arbustos? Porque choras, pois, velho salgueiro?

Então, o salgueiro falou-lhes do orgulho e da presunção do trigo mourisco e do seu castigo. É sempre assim. Eu, que escrevi este conto, ouvi-o duns pardais. Contaram-mo uma tarde em que lhes pedi uma história.

Fonte:
ANDERSEN, Hans Christian. Historias do Cisne. Companhia das Letrinhas.

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Hans Christian Andersen (O Duende da Mercearia)

Era uma vez um estudante, um autêntico estudante; vivia num sótão e não possuía nada. E era uma vez um merceeiro, um autêntico merceeiro; vivia no rés-do-chão e era dono do prédio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Além disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande pedaço de manteiga lá dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. Há por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.

Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um pedaço de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabeça e disseram «boa noite». A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora — falava, falava, falava. Tinha o que se chama o hábito de falar pelos cotovelos, disso não havia dúvida. O estudante também fez um aceno — e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma página de um velho livro de poemas, uma página que nunca devia ter sido arrancada.

— Tenho aqui mais desse livro, se quiser — disse o merceeiro. — Dei a uma velhota alguns grãos de café por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.

— Obrigado — respondeu o estudante. — Dê-mo em vez do queijo. Passo bem só com pão. É uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor é muito boa pessoa e bastante prático, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.

Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante à banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com o merceeiro — ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do prédio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.

Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, exceto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de pés e roubou à mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela não precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objeto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opiniões tão bem como a mulher do merceeiro. Mas só podia falar um de cada vez, o que era uma bênção, se não desatavam todos a falar ao mesmo tempo.

Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos à banheira onde se guardavam os jornais velhos.

— É mesmo verdade que não percebes nada de poesia? — perguntou.

— Claro que percebo! — respondeu a banheira. — A poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho até que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.

Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de café. Meu Deus, que confusão! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois à caixa registadora. Todos eram da mesma opinião da banheira e as opiniões da maioria têm de ser respeitadas.

— Agora posso pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende.

E lá foi em bicos de pés, pela escada das traseiras acima, até ao sótão onde morava o estudante. Havia luz lá dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.

Que grande claridade havia no quarto! Do livro saía um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de árvore, de uma nobre árvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de canções.

O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali à porta, em bicos de pés, a espreitar, de olhos muito abertos, até que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama — mas o duende continuava sem ser capaz de arredar pé. Parecia-lhe ouvir a linda música, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.

— Isto custa a crer — murmurou o duende para consigo. — Nunca esperei nada do gênero. Acho que vou ficar no sótão com o estudante. — Depois pensou um bocado e suspirou: — Tenho de ser sensato; o estudante não tem papas de aveia.

E portanto, é claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos à mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora até à lenha, seguiram as opiniões da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais críticas de peças ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.

Mas o duende já não aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz através das frestas da porta do sótão, parecia ser atraído para lá por cordelinhos, e tinha de subir a escada e pôr-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensação de indizível grandeza — a espécie de sensação que se tem quando se vê o mar encapelado com ondas tão fortes que o próprio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da árvore com o estudante! Mas era impossível.

Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava através dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono começou a soprar pela clarabóia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia até a luz se apagar no quartinho do sótão e a música se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Então, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confortável. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande pedaço de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.

Mas uma noite, já bem tarde, o duende acordou com uma grande agitação à sua volta. Estavam pessoas a bater nas persianas, o guarda-noturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa é que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que pânico! Que agitação! A mulher do merceeiro estava tão desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa… O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadinha foi buscar o seu xale de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.

E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente à janela, vendo o incêndio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do boné vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracinhos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!

Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chaminé, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao boné vermelho com o tesouro lá dentro.

Agora sabia para onde o seu coração o puxava: estudante?, merceeiro? — a escolha era clara.

Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende já tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem…

— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.

Mesmo coisa de ser humano, francamente! Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia.

Fonte:
ANDERSEN, Hans Christian. Historias do Cisne. Companhia das Letrinhas.

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Cleuza Sarzêdas (O Sapo Sonhador)

Na beira de um pequeno lago em um terreno baldio, um sapo vivia. Ele era diferente de todos os outros: sua pele lisa tinha um prateado claro, com listras marrons. No alto da cabeça, um desenho dourado semelhante a uma coroa. Seus olhos eram da cor do céu. Sonhava ser rei daquele lugar, comandar com muito amor seus irmãos e irmãs e protege-los dos animais malvados e dos humanos que ali chegavam para caçar as rãs. Irresponsáveis, muitos nem sabiam a diferença entre uma rã e um sapo, matando-os até descobrirem o que queriam. Seria um paraíso! Cada morador teria o próprio nome, e iria à escola para aprender a ler e saber a razão de ter nascido e qual a participação de cada um no mundo. Teria casa, trabalho e família. Os adultos trabalhariam para os menores e todos seriam respeitados.

Ele, como rei, casaria com sua namorada, uma linda sapinha de grandes olhos negros, que seria a rainha. Teriam muitos filhos e formariam uma grande família abençoada por Deus.

Naquele momento, uma claridade cobriu o lago e o sapo sonhador viu-se sentado num trono com enorme coroa sobre a cabeça. O terreno e o lago eram o seu reino e a sapinha de olhos negros transformara-se em sua esposa. A população, composta de anfíbios e répteis, era muito feliz, vivia cantando. Ali morava a felicidade! Mas os súditos percebiam uma tristeza no rei e comentavam que a rainha não queria filhos, pois alegava darem muito trabalho e ela dizia não ter tempo para cuidar deles.

O rei, tranqüilo e paciente, tentava convencê-la de que os filhos são o futuro da nação e que onde não há pequeninos falta alegria. O sapo argumentava: “Quando formos bem velhos, o que faremos se não tivermos netos para contar histórias de sapos? E o reinado ficará nas mãos de quem quando Deus nos chamar para junto dele? Fomos criados para aprender muitas coisas e para procriar, dando oportunidade a outros sapos de viverem o que nos vivemos. Eles serão o que nós fomos e muito mais, farão mais do que fizemos. Tudo é uma questão de evolução.”

Mas a rainha, orgulhosa e vaidosa, não queria ouvir o que o marido dizia e continuava teimosamente não querendo filhos. Decepcionado, o rei foi chorar à beira do lago quando, súbito, teve a atenção despertada para algo que se movimentava muito rapidamente de um lado a outro até que finalmente parou: era um girino.

Girino é filho de sapa com sapo, nasce de um ovo dentro d’água, respira por brânquias, ou seja, guelras, é semelhante a uma bolinha preta com um rabinho. Esse rabinho cai quando ele se torna um sapo adulto e vai morar em terra firme. O pequenino colocou a cabecinha fora d’água e falou:

“Senhor rei, vivo triste neste lago porque não tenho ninguém. Meus pais na terra foram morar e eu aqui fiquei. Nem irmão tenho para brincar. O senhor não quer ser meu pai? Juro ser obediente, estudar bastante, me alimentar o suficiente para crescer e ser bem sadio e nutrido. E, quando adulto, fazer de você um vovô bastante feliz. Palavra de girino.”

O rei sorriu comovido e se encantou com aquele ser tão inteligente. “Vou adotar você. A partir de hoje será meu filho querido e se chamará Girinino. Sempre que puder virei conversar com você, até tornar-se adulto e ao meu lado governar. Quando eu me for, você será o novo rei.”

Feliz, o girino balançava eufórico o minúsculo rabinho e cantava: “Agora tenho um pai… agora tenho um pai… nunca mais ficarei só…”

A partir daquele dia, o rei, alegre, passou a ser visto junto do lago a conversar com o filho amado. Os dois brincavam e se divertiam por horas e horas.

Mas a rainha, enciumada com medo de perder o reinado, mandou pescar o girino e o colocou no mato, dentro de uma concha somente com água, na intenção de matá-lo de fome. Agindo daquela maneira, achava que iria livrar-se do que pensava ser uma ameaça para ela. Preocupado com o sumiço de Girinino, o rei chamou a guarda e ordenou:

“Vasculhem todo o lago e encontrem meu filho.” Inútil a procura. Não o encontraram. Mas, na esperança de achar seu querido pequenino, o rei voltava ao lago todos os dias e punha-se a chamar: “Cadê você, filho adorado? Apareça!”

Os dias passaram e o rei voltou a ficar triste. Ele contornava o lago por várias e várias vezes à procura de Girinino. A saudade apertou tanto que ele adoeceu e foi chorar junto a um matagal próximo. Lá, já sem esperanças, debruçou-se sobre uma pequena concha como se fosse uma mesinha e, de repente, ouviu uma voz bem fraquinha.

“Paizinho, vem me buscar”. O rei olhou em volta, assustado, mas nada viu. Procurou entre as folhas, revirou tudo e nada achou. Decidiu voltar para casa, mais triste ainda. No entanto, no momento em que se afastava, novamente ouviu a voz, quase sumindo: “Paizinho, vem me buscar”.

Teve, então, certeza de que era seu filho. Ele estava preso ali, em algum lugar. Desesperado, o rei recomeçou a busca e encontrou a conchinha. Abriu-a e deparou-se com o pobre girino quase morto de fome. Levou-o rapidamente para o lago e conseguiu salvá-lo.

Chamou sua guarda pessoal e ordenou que não o deixassem só nunca mais. Em seguida, decidiu punir o malvado e perguntou a Girinino quem lhe fizera aquilo.

Mas o sapinho tinha bons sentimentos e não acusava ninguém, pois sabia do amor que o rei sentia pela rainha. Mentiu para que seu paizinho querido não sofresse: “Um sapo malvado me enganou dizendo-me que o Rei me chamava. Fui atrás dele e o bandido me trancou naquela concha. Para não morrer de fome comi os mosquitos que entravam pela abertura, pois tinha certeza que você me encontraria.” “Agora, filho, ficaremos juntos para sempre. Ninguém nunca mais tocará em você.” Abraçaram-se fortemente.

Ainda com os bracinhos apertando o próprio peito, o sapo ouviu a voz da sua amada, a sapinha dos grandes olhos negros, de dentro do lago: “Vetusto! Acorda, seus filhos nasceram. Veja! são muitos.” Sonolento e sob a ação do sonho, o sapo abriu os olhos devagar e viu muitos girinos nadando rapidamente de um lado a outro. Feliz, jogou-se ao lago entre os tantos filhos e cantou.

“Agora sim, sou um verdadeiro rei…”.

Fonte:
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/

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Figueiredo Pimentel (Histórias da Avozinha – Parte I)

O AVÔ E O NETINHO

Bastante velho já, fatigado por uma longa existência de trabalhos e canseiras, exausto de forças e doente de velhice – porque a velhice é, também, uma doenç a – estava tio Benedito, o bom e estimado velhote tio Benedito: oitenta anos pesavam-lhe às costas, como um grande fardo que ele a custo carregasse.

Na sua mocidade, e mesmo durante parte da velhice, ninguém trabalhara mais que ele, honesto sempre, mourejando, dia e noite, para sustento de sua família.

Não podendo fazer serviço algum, alquebrado pela idade, veio morar em casa de Augusto, seu filho mais moço, já com um filhinho de três para quatro anos, o pequenino e interessante Luís, vivo e esperto como poucos.

Velho e enfermo, qual estava, tio Benedito como que volvera à primeira infância; e, por isso, eram precisos inúmeros cuidados com ele, que mal se sustinha sozinho, trêmulo, muito trêmulo, quase sem poder andar.

Quando se sentava à mesa, para o almoço e para o jantar, derramava sopa na toalha, quebrava pratos e copos, com as mãos fracas, como uma criança arteira e estouvada.

Augusto, e sua mulher, Henriqueta, aturavam-no com dificuldade, zangados, contrariados, aborrecidos principalmente com o prejuízo diário que o pai lhes dava.

Afinal, não podendo mais suportar o velho, resolveram comprar uma cuia; e às horas das refeições sentavam-no no chão, perto da mesa dando-lhes a comida naquela tosca vasilha.

Quando Luisinho, o pequenino, viu que o avô não se sentava mais à mesa, ficou triste, mas não disse palavra. Estranhou aquilo porque a sua almazinha desabrochava formosamente para o bem; e se não manifestou a sua impressão, foi por supor que assim se fazia sempre com os velhinhos, que não se sentavam à mesa, nem comiam em pratos, como os outros.

O pequeno Luís era o único que verdadeiramente estimava o ancião, próximos entre si aquela primavera e aquele inverno, aquela criança e aquele velho, ambos na infância, ambos no crepúsculo da vida.

Dias depois, Augusto e Henriqueta viram o filho entretido a brincar com alguns pedaços de tábuas, um martelo e pregos, como não tinha por costume fazer.

A mãe, estranhando aquilo, perguntou: – Que estás fazendo aí, Luisinho? – Estou fazendo um prato, para dar de comer a papai e mamãe, quando eu for grande, e eles já estiverem velhinhos como vovô, respondeu ingenuamente a criança.

Henriqueta e Augusto entreolharam-se confusos, vexados e arrependidos da sua ingratidão, e de novo trouxeram o pai para se sentar à mesa, em sua companhia.

Desde então, trataram-no com todo o respeito, o desvelo e a consideração que os filhos devem aos pais.

O SOLDADO E O DIABO

Contam que, em outros tempos, há milhares e milhares de anos, quando nada existia do que hoje existe, viveu em certa cidade um rico fidalgo, o barão de Macário, tão poderoso e opulento, quão orgulhoso e mau.

Uma tarde, achava- se ele no seu escritório, contemplando avaramente a grande fortuna que acumulara, roubando aos pobres, às viúvas e aos órfãos, emprestando dinheiro a juros elevados, quando, de súbito, se sentiu tocado por um raio de bondade, até então jamais experimentado pelo seu coração empedernido.

Lembrou- se que já estava velho; e que, com aquela idade, nunca fizera o menor benefício a pessoa alguma, sem ter dado jamais uma única esmola sequer. Arrependeu- se, então, do seu passado.

Nessa mesma tarde, Augusto, um infeliz sapateiro, seu vizinho, que vivia na maior pobreza, carregado de filhos, veio bater à porta, suplicando que lhe emprestasse cem mil-réis, para se ver livre de uma penhora, e poder comprar o material que precisava para os trabalhos de sua profissão.

– Em vez de cem- mil réis, dar- te-ei um conto de réis, Augusto; disse o barão, com a condição, porém, que, se eu morrer primeiro, você irá vigiar meu túmulo, nas três primeiras noites depois do meu enterro.

O sapateiro prometeu, acossado como estava pela necessidade, e o fidalgo deu- lhe o conto de réis.

*** Dois meses depois, o barão de Macário morreu; e Augusto, lembrando-se de sua promessa, como era homem de promessa, foi cumpri-la.

Duas noites passou ele em claro, no cemitério da cidade, cheio de medo, mas sem que ocorresse novidade alguma.

Na terceira e última, dirigia -se para ir velar junto no túmulo, quand o avistou um soldado encostado a um mausoléu.

– Eh! camarada! bradou. Que fazes aí? Não tens medo de estar no cemitério? – Eu não tenho medo de coisa alguma, respondeu o militar. Vim para aqui, porque não tenho onde pousar esta noite.

Puseram- se ambos a conversar, enquanto o sapateiro contava ao soldado por que motivo ali se achava.

Passou- se o tempo, sem que eles o sentissem, quando o relógio da torre da igreja bateu compassadamente as doze badaladas fúnebres da hora terrível da meia-noite!…

Então, nesse momento, próximo deles surgiu de súbito, sem que soubessem de onde vinha, um homem vestido de vermelho, com os olhos chispando fogo, e cheirando fortemente a enxofre.

Era o diabo, que lhes ordenou: – Retirem-se daqui, rapazes! a alma deste homem, que foi um grande usurário na terra, pertence-me, e eu vim buscá-la.

– Senhor vestido de vermelho, disse o soldado, o senhor não é meu superior, nem mesmo um oficial. Não posso, pois, obedecer- lhe; e, assim, digo -lhe que se retire daqui, pois aqui chegamos primeiro.

O diabo, vendo aquele militar destemido, não quis puxar barulho, e lembrou-se de comprá-lo, perguntando-lhe quanto queria para se ir embora.

– Aceito o negócio que me propõe, sr. Satanás. Basta que me dê o dinheiro em ouro, que uma das minhas botas puder conter.

O diabo saiu, e foi pedir emprestado a um judeu seu amigo, que morava naquela mesma cidade.

Enquanto não vinha, o soldado puxando o rifle, cortou a sola do pé direito, e colocou-a por cima de um túmulo aberto.

Quando Satanás chegou, vergado ao peso de um saco de ouro, esvaziou- a, peça por peça, dentro da bota. O dinheiro caía todo na sepultura.

– Olé! disse o capataz do Inferno, esta bota parece-me mágica! – Vá buscar mais … mandou o soldado.

Mais de dez sacos foram assim trazidos pelo diabo. As moedas escorregavam pelo cano da bota, e iam cair no túmulo, de modo que a bota jamais se enchia. Satanás, desesperado, ia trazendo saco por saco. Na ocasião em que carregava o décimo saco, cheio de moedas de ouro, eis que amanheceu de repente. O galo cantou; o sol rompeu; e o sino da igreja bateu alegremente, chamando para a missa.

Satanás deu um berro e desapareceu…

Estava salva a alma do barão de Macário…

O soldado e o sapateiro Augusto repartiram entre si a grande fortuna que o diabo deixara na cova; e foram viver ricos e felizes, empregando uma boa parte do dinheiro em dar esmolas aos pobres.

Fonte:
PIMENTEL, Figueiredo. Histórias da Avozinha. Rio de Janeiro, 1896.
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/literatura-infantil-classicos-infantis/historias-da-avozinha.php

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O Conto de Fadas

Considerado no seu sentido literal, o termo refere-se somente a histórias fantásticas sobre fadas, seres de tamanho muito reduzido que habitavam o reino da fantasia e que fizeram parte integrante das crenças populares da Antiguidade greco-latina e da cultura medieval européia. São seres imaginários, míticos, representados geralmente por mulheres dotadas de poderes sobrenaturais usados para o Bem (Fadas Madrinhas) ou para o Mal (Bruxas ).

Atualmente, o termo engloba uma variedade de narrativas, sobretudo histórias que por regra possuem elementos “atemporais” e que normalmente recorrem a heróis (ou heroínas) quase sempre jovens, corajosos e habilidosos que passam por aventuras estranhas, por vezes mágicas, que lhes servem de teste para um eventual destino feliz, e madrastas malévolas (ou padrastos) cuja função é dificultar-lhes a vida ao longo da narrativa. Toda a história se desenrola no sentido de demonstrar um princípio moral que ou aparece em apêndice (como no caso dos contos de Perrault) ou é construído ao longo do texto (como no caso dos contos de Grimm). Exemplos de histórias como estas encontram-se em muitos países. Apesar das suas características ditas “universais”, o conto de fadas tem sofrido alterações ao longo do tempo, de acordo com os gostos conscientes ou inconscientes de cada geração. Tal como o mito, também o conto de fadas apresenta seres e acontecimentos extraordinários, mas, em contrapartida e tal como a fábula, tende a desenrolar-se num cenário temporal e geograficamente vago, iniciando-se e terminando quase sempre da mesma forma: “Era uma vez…” e “Viveram felizes para sempre.” Entre os muitos exemplos destacam-se; “A Cinderela”; “A Branca de Neve e os Sete Anões”; “A Bela Adormecida”; “O Capuchinho Vermelho”; “João e o Feijoeiro Gigante“, etc.

Tal como acontece com as nursery rhymes, também o conto de fadas sobreviveu à custa da tradição oral até ser compilado e fixado num texto por escritores e não foi, na sua origem, concebido para crianças pois tratava-se de narrativas complexas que descreviam o reino das fadas e duendes e que culminavam em finais infelizes. Gradualmente, este tipo de narrativas simplificou-se introduzindo-se nos domínios da leitura infantil. O conto Dwarf da Condessa d’ Aulnoy é disso um bom exemplo: o fim trágico que apresentava no século XVIII foi substituído por um happy end no século XIX.

Os contos mais modernos devem a sua origem a Charles Perrault e aos seus Contes du Temps Passé ou Contes de ma Mère l’Oie (1697) e à Condessa d’ Aulnoy com os Contes des Fées (4 vols. publicados entre 1710 e 1715). Entre os contos de Perrault, encontram-se “A Bela Adormecida”, “A Cinderela “ e “O Gato das Botas”, por exemplo. O autor recupera contos populares esquecidos e apresenta versões modernas, usando um estilo simples e natural, cujo objetivo único é o de entreter as crianças. Apesar da pedagogia do Iluminismo condenar o mundo imaginário apresentado às crianças, os contos de Perrault ganham enorme projeção internacional.

Tal como aconteceu em França, também na Alemanha os pedagogos do Iluminismo denegriram a imagem do conto de fadas, defendendo que se tratava de histórias contadas por mulheres ignorantes, desprovidas de intelecto e que afastavam a criança da realidade. No entanto, encorajados por um espírito de nacionalismo romântico, que influenciou a Europa no século XIX afetando fortemente a literatura infantil, os irmãos Grimm [Jakob Ludwig Karl (1785- 1863) e Wilhelm (1786-1859)] compilaram contos de fadas alemães a partir de histórias contadas por amigos, parentes e aldeões. A sua obra intitulada Kinder und Hausmärsmarchen foi publicada sob a forma de volumes sequenciais em 1812, 1815 e 1822 e tornou-se famosa por toda a Europa, sendo traduzida para inglês em 1823 como German Popular Stories.

Na Inglaterra, o Puritanismo condenava os ideais religiosos e cristãos divulgados por alguns contos de fadas, mas o gosto popular sobrepôs-se e quando Tales of the Fairies foi publicado e Mille et Une Nuits (12 vols. 1704-1717) de Gallant foi traduzido para inglês, os “chapmen” rapidamente compraram as obras e colocaram-nas no mercado. Em 1729, Robert Samber traduz os contos de Perrault como Histoires or Tales of Past Times, mais conhecidos por Tales of Mother Goose, não se limitando apenas a traduzir os contos franceses mas adaptando-os, atribuindo por exemplo às personagens nomes de personalidades inglesas.

Em meados do século XVIII, a literatura infantil renova-se e o conto de fadas passa a ser encarado como um veículo essencial de transmissão de lições morais, elaboradas especificamente para crianças, assistindo-se à sua introdução nos programas escolares como exercício de leitura. Contudo, a controvérsia que se gerou em torno do conto de fadas vai marcar a literatura infantil do século XIX. Por um lado, surgem os defensores do seu valor educacional que, devido ao caráter fantasioso induz nas crianças o gosto pela leitura, por outro, aqueles que defendem que a leitura destes mesmos contos reduz a capacidade criativa das crianças e ilude-as porque as afasta da realidade. No entanto, estas divergências não impediram que, por volta de 1846, os contos de Hans Christian Andersen (1805-1875), Eventyr, fossem traduzidos para inglês e se popularizassem por toda a Europa. Andersen foi considerado por muitos o mestre na arte dos contos de fadas. O seu engenho, sensibilidade e forte sentido do maravilhoso atribuíram às suas histórias um apelo perpétuo e universal. Entre os seus contos destacam-se “O Patinho Feio”, “A Pequena Sereia” e “As Roupas Novas do Imperador“.

A popularidade de Andersen foi tal que deu origem ao aparecimento de outro tipo de contos na literatura infantil inglesa, tais como Mopsa the Fairy (1869) de Jean Ingelow; The Princess and the Goblin (1872) de George MacDonald; The Happy Prince (1888) de Oscar Wilde, merecendo real destaque Alice’s Adventures in Wonderland (1865) e through the Looking-Glass (1872) de Lewis Carroll. As duas últimas obras são extremamente complexas, repletas de jogos lógico-matemáticos e lingüísticos. Muitos autores encontraram nelas códigos secretos que sugerem uma sátira política e social. Independentemente da intenção de Carroll, o fato é que são obras que ganharam o estatuto de clássicos, que têm como ponto de partida uma Alice que se desloca no mundo dos adultos (descrito como um mundo de “malucos”), tornando-se o exemplo de uma criança que se afirma no mundo Vitoriano repressivo. Os livros de Carroll popularizaram-se sendo traduzidos para a maior parte das línguas.

Em Portugal, devido ao rígido sistema religioso e de imprensa, a publicação de contos de fadas foi proibida entre o século XVII e o início do século XIX. Só após essa data, se assiste à tradução destes contos para Português e, à semelhança do que aconteceu nos outros países, também eles foram adaptados à realidade nacional, sofrendo alterações com o passar dos anos.

No século XX, surgiu uma tentativa por parte de alguns psicólogos, tais como Sigmund Freud, Carl Jung e Bruno Bettelheim de interpretar determinados elementos dos contos de fadas como manifestações de desejos e medos. Bettelheim, no seu livro Psicanálise dos Contos de Fadas (1975) defende que a leitura de contos de fadas não só oferece à imaginação da criança novas dimensões que seria impossível ela descobrir por si só, como também contribui para o seu crescimento interior. Para este psicólogo, os contos de fadas são verdadeiras obras de arte plenamente compreensíveis para as crianças, como nenhuma outra forma de arte o consegue ser.

Fonte:
Sónia Jacinto e Carlos Ceia. Conto de Fadas.

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Textos Infantis: Modalidades (Cristiane Madanelo de Oliveira)

Estudo das diversas modalidades de textos infantis

Fábulas (do latim- fari – falar e do grego – Phao – contar algo)

Narrativa alegórica de uma situação vivida por animais, que referencia uma situação humana e tem por objetivo transmitir moralidade. A exemplaridade desses textos espelha a moralidade social da época e o caráter pedagógico que encerram. É oferecido, então, um modelo de comportamento maniqueísta; em que o “certo” deve ser copiado e o “errado”, evitado. A importância dada à moralidade era tanta que os copistas da Idade Média escreviam as lições finais das fábulas com letras vermelhas ou douradas para destacar.

A presença dos animais deve-se, sobretudo, ao convívio mais efetivo entre homens e animais naquela época. O uso constante da natureza e dos animais para a alegorização da existência humana aproximam o público das “moralidades”. Assim apresentam similaridade com a proposta das parábolas bíblicas.

Algumas associações entre animais e características humanas, feitas pelas fábulas, mantiveram-se fixas em várias histórias e permanecem até os dias de hoje.
leão – poder real lobo – dominação do mais forte
raposa – astúcia e esperteza cordeiro – ingenuidade

A proposta principal da fábula é a fusão de dois elementos: o lúdico e o pedagógico. As histórias, ao mesmo tempo que distraem o leitor, apresentam as virtudes e os defeitos humanos através de animais. Acreditavam que a moral, para ser assimilada, precisava da alegria e distração contida na história dos animais que possuem características humanas. Desta maneira, a aparência de entretenimento camufla a proposta didática presente.

A fabulação ou afabulação é a lição moral apresentada através da narrativa. O epitímio constitui o texto que explicita a moral da fábula, sendo o cerne da transmissão dos valores ideológicos sociais.

Acredita-se que esse tipo de texto tenha nascido no século XVIII a.C., na Suméria. Há registros de fábulas egípsias e hindus, mas atribui-se à Grécia a criação efetiva desse gênero narrativo. Nascido no Oriente, vai ser reinventado no Ocidente por Esopo (Séc. V a.C.) e aperfeiçoado, séculos mais tarde, pelo escravo romano Fedro (Séc. I a.C.) que o enriqueceu estilisticamente. Entretanto, somente no século X, começaram a ser conhecidas as fábulas latinas de Fedro.

Ao francês Jean La Fontaine (1621/1692) coube o mérito de dar a forma definitiva a uma das espécies literárias mais resistentes ao desgaste dos tempos: a fábula, introduzindo-a definitivamente na literatura ocidental. Embora tenha escrito originalmente para adultos, La Fontaine tem sido leitura obrigatória para crianças de todo mundo.

Podem-se citar algumas fábulas imortalizadas por La Fontaine: “O lobo e o cordeiro”, “A raposa e o esquilo”, “Animais enfermos da peste”, “A corte do leão”, “O leão e o rato”, “O pastor e o rei”, “O leão, o lobo e a raposa”, “A cigarra e a formiga”, “O leão doente e a raposa”, “A corte e o leão”, “Os funerais da leoa”, “A leiteira e o pote de leite”.

O brasileiro Monteiro Lobato dedica um volume de sua produção literária para crianças às fábulas, muitas delas adaptadas de Fontaine. Dessa coletânea, destacam-se os seguintes textos: “A cigarra e a formiga”, “A coruja e a águia”, “O lobo e o cordeiro”, “A galinha dos ovos de ouro” e “A raposa e as uvas”.

Contos de Fadas

Quem lê “Cinderela” não imagina que há registros de que essa história já era contada na China, durante o século IX d. C.. E, assim como tantas outras, tem-se perpetuado há milênios, atravessando toda a força e a perenidade do folclore dos povos, sobretudo, através da tradição oral.

Pode-se dizer que os contos de fadas, na versão literária, atualizam ou reinterpretam, em suas variantes questões universais, como os conflitos do poder e a formação dos valores, misturando realidade e fantasia, no clima do “Era uma vez…”.

Por lidarem com conteúdos da sabedoria popular, com conteúdos essenciais da condição humana, é que esses contos de fadas são importantes, perpetuando-se até hoje. Neles encontramos o amor, os medos, as dificuldades de ser criança, as carências (materiais e afetivas), as auto-descobertas, as perdas, as buscas, a solidão e o encontro.

Os contos de fadas caracterizam-se pela presença do elemento “fada”. Etimologicamente, a palavra fada vem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo).

Tornaram-se conhecidas como seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite, quando já nenhuma solução natural seria possível.

Podem, ainda, encarnar o Mal e apresentarem-se como o avesso da imagem anterior, isto é, como bruxas. Vulgarmente, se diz que fada e bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher, ou da condição feminina.

O enredo básico dos contos de fadas expressa os obstáculos, ou provas, que precisam ser vencidas, como um verdadeiro ritual iniciático, para que o herói alcance sua auto-realização existencial, seja pelo encontro de seu verdadeiro “eu”, seja pelo encontro da princesa, que encarna o ideal a ser alcançado.

Estrutura básica dos contos de fadas
Início – nele aparece o herói (ou heroína) e sua dificuldade ou restrição. Problemas vinculados à realidade, como estados de carência, penúria, conflitos, etc., que desequilibram a tranqüilidade inicial;
Ruptura – é quando o herói se desliga de sua vida concreta, sai da proteção e mergulha no completo desconhecido;
Confronto e superação de obstáculos e perigos – busca de soluções no plano da fantasia com a introdução de elementos imaginários;
Restauração – início do processo de descobrir o novo, possibilidades, potencialidades e polaridades opostas;
Desfecho – volta à realidade. União dos opostos, germinação, florescimento, colheita e transcendência.

Lendas (do latim legenda/legen – ler)

Nas primeiras idades do mundo, os seres humanos não escreviam, mas conservavam suas lembranças na tradição oral. Onde a memória falhava, entrava a imaginação para suprir-lhe a falta. Assim, esse tipo de texto constitui o resumo do assombro e do temor dos seres humanos diante do mundo e uma explicação necessária das coisas da vida.

A lenda é uma narrativa baseada na tradição oral e de caráter maravilhoso, cujo argumento é tirado da tradição de um dado lugar. Sendo assim, relata os acontecimentos numa mistura entre referenciais históricos e imaginários. Um sistema de lendas que tratem de um mesmo tema central constiruem um mito (mais abrangente geograficamente e sem fixação no tempo e no espaço).

A respeito das lendas, registra o folclorista brasileiro Câmara Cascudo no livro Literatura Oral no Brasil:

Iguais em várias partes do mundo, semelhantes há dezenas de séculos, diferem em pormenores, e essa diferenciação caracteriza, sinalando o típico, imobilizando-a num ponto certo da terra. Sem que o documento histórico garanta veracidade, o povo ressuscita o passado, indicando as passagens, mostrando, como referências indiscutíveis para a verificação racionalista, os lugares onde o fato ocorreu. (CASCUDO, 1978 , p. 51)

A lenda tem caráter anônimo e, geralmente, está marcada por um profundo sentimento de fatalidade. Tal sentimento é importante, porque fixa a presença do Destino, aquilo contra o que não se pode lutar e demonstra o pensamento humano dominado pela força do desconhecido.

O folclore brasileiro é rico em lendas regionais. Destacam-se entre as lendas brasileiras os seguintes títulos: “Boitatá”, “Boto cor-de-rosa”, “Caipora ou Curupira”, “Iara”, “Lobisomem”, “Mula-sem-cabeça”, “Negrinho do Pastoreio”, “Saci Pererê” e “Vitória Régia”.

Nas primeiras idades do mundo, os homens não escreviam. Conservavam suas lembranças na tradição oral. Onde a memória falhava, entrava a imaginação para supri-la e a imaginação era o que povoava de seres o seu mundo.

Todas as formas expressivas nasceram, certamente, a partir do momento em que o homem sentiu necessidade de procurar uma explicação qualquer para os fatos que aconteciam a seu redor: os sucessos de sua luta contra a natureza, os animais e as inclemências do meio ambiente, uma espécie de exorcismo para espantar os espíritos do mal e trazer para sua vida os atos dos espíritos do bem.

A lenda, em especial as mitológicas, constitui o resumo do assombro e do temor do homem diante do mundo e uma explicação necessária das coisas. A lenda, assim, não é mais do que o pensamento infantil da humanidade, em sua primeira etapa, refletindo o drama humano ante o outro, em que atuam os astros e meteoros, forças desencadeadas e ocultas.

A lenda é uma forma de narrativa antiqüíssima, cujo argumento é tirado da tradição. Relato de acontecimentos, onde o maravilhoso e o imaginário superam o histórico e o verdadeiro.

Geralmente, a lenda está marcada por um profundo sentimento de fatalidade. Este sentimento é importante, porque fixa a presença do Destino, aquilo contra o que não se pode lutar e demonstra, irrecusavelmente, o pensamento do homem dominado pela força do desconhecido.

De origem muitas vezes anônima, a lenda é transmitida e conservada pela tradição oral.

Poesia

O gênero poético tem uma configuração distinta dos demais gêneros literários. Sua brevidade, aliada ao potencial simbólico apresentado, transforma a poesia em uma atraente e lúdica forma de contato com o texto literário.

Há poetas que quase brincam com as palavras, de modo a cativar as crianças que ouvem, ou lêem esse tipo de texto. Lidam com toda uma ludicidade verbal, sonora e musical, no jeito como vão juntando as palavras e acabam por tornar a leitura algo muito divertido.

Como recursos para despertar o interesse do pequeno leitor, os autores utilizam-se de rimas bem simples e que usem palavras do cotidiano infantil; um ritmo que apresente certa musicalidade ao texto; repetição, para fixação da idéias, e melhor compreensão dentre outros.

Pode-se refletir, acerca da receptividade das crianças à poesia, lendo as considerações de Jesualdo:

“(…) a criança tem uma alma poética. E é essencialmente criadora. Assim, as palavras do poeta, as que procuraram chegar até ela pelos caminhos mais naturais, mesmo sendo os mais profundos em sua síntese, não importa, nunca serão melhor recebidas em lugar algum do que em sua alma, por ser mais nova, mais virgem (…)”
Fonte:
OLIVEIRA, Cristiane Madanêlo de. Estudo das diversas modalidades de textos infantis. Disponível em http://www.graudez.com.br/litinf/textos.htm#Fabulas

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