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Maria do Carmo Marino Schneider (Cristais Poéticos 2)

FEITIÇO

Qual cantiga triste, sussurrada ao vento,
 tua voz sonora, em doce lamento,
 como som de harpa veio e me encantou…

 Qual brisa suave, ao tanger do sino,
 tua face meiga, de eterno menino,
 como anjo celeste então me cativou…

 Qual taça espumante que promete tudo,
 teu olhar profundo, de negro veludo,
 como vinho antigo me embriagou…

 Qual rubra maçã em pomar proibido,
 tua boca ardente, num doce gemido,
 como vil pecado me atormentou…

 Qual cupido alado vindo dos espaços,
 teu ser cativante embargou-me os passos
 e, como um feiticeiro, me apaixonou…

MOSAICO
Madrugada de abril.
 Um vento frio e inesperado
 abre, ao acaso, a pagina
 de um livro de memórias
 há muito guardado.
 Inscrita em negra tinta
 uma frase: “never more”…
 Sob o pó acumulado,
 emoldurando os traços
 infantis e descuidados,
 vê-se ainda o frágil esboço
 de um coração, antes inteiro,
 hoje feito em pedaços.

MAR
Na concha da mão
 adormece uma lágrima.
 Pérola escondida.

 Na praia, o mar
 beijava o teu corpo lasso.
 Matutina orgia…

 Na espuma clara
 do mar deitei meus sonhos.
 Dormem no azul.

 Duas alvas lágrimas.
 Contas ocultas na concha
 de um mar de saudade.

MAR II
Verde mar,
 verde folha,
 verde esperança
 que se desfaz,
 que se desfolha,
 na alva areia,
 entre alga e espuma…
 Assim, o amor,
 concha esquecida
 em praia deserta,
 no vai e vem
 da onda saudade
 também se evade,
 também se esfuma.

INDAGAÇÃO
Veios d’água
 fluíram de dentro de mim,
 viraram rios
 transbordando limites.
 Na vazante
 levaram as palavras.
 Fiquei vazia de signos.
 Só meus olhos,
 cegos de sentido,
 inundam de porquês.

O LUAR E A NOITE
Raio de luar, raio de luar,
 minha sombra infinda vens luarizar
 mesmo já sabendo que, chegando a aurora,
 vais me abandonar…

 Raio de luar, raio de luar,
 de luz transitória vens me fulgurar
 mas, luzindo o dia, em incerta hora,
 sei, vais me deixar…

 Raio de luar, raio de luar…
 Pela frágil aurora vives a buscar
 Quem, indiferente, sempre vai embora
 Sem calor te dar…

 Raio de luar, raio de luar,
 me adornei de estrelas para te esperar.
 Não fujas assim, não te vás agora,
 de sombras fui feita para te velar
 Não tenho a beleza ou o brilho da aurora,
 mas berço de paz para te ofertar.

IMAGINÁRIO
Sonho sonhos impossíveis
 de um amor imaginário.
 E quanto mais eu te vejo,
 de perto, assim, tão concreto,
 mais te concebo abstrato,
 ao meu tímido contato,
 como se fosses a imagem,
 esmaecida e incorpórea,
 de antigo porta-retrato.
 E quanto mais te contemplo,
 misterioso e galante,
 cruzando meus descaminhos,
 mais percebo, a contragosto,
 que é de estrelas solitárias
 o meu sombrio caminho.
 E que não cobrirão teu rosto
 as vãs espumas de prata
 dos meus sonhados carinhos.

SONATA
Vibram as cordas da alma do poeta,
 No afã da criação, a rara e completa
 arte de versejar então resgata.

 Retoma o soneto, a mais dileta
 forma de poesia, e a repleta
 de tom e suavidade já inata.

 Com a arte e a habilidade mais discreta,
 de quem modula sons em serenata,

 cria sua obra-prima o poeta:
 herdeira do soneto, eis a SONATA!

DESTINO
Tranquilos como as águas de um rio
 Assim se vão meus dias…
 Sou como o verde ramo
 Que se deixa levar
 Sob o morno sol do estio
 Troncos, pedras, seixos,
 Nada impede meu caminho.
 Apenas o vento me conduz
 Em suas asas de pluma.
 Para onde? Não sei…
 Talvez para a grande foz
 Onde todos rios deságuam
 E onde o barqueiro me espera
 Para a pontual travessia…

Fonte:
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Evaldo da Veiga/RJ (Cristais Poéticos)


NOSSO AMOR

Nossa bossa não é nova
e nem antiga, é nossa.

Nossa bossa
se faz de pequenas doses de tempo
em um belo momento.
A busca de nossas almas,

Nossa bossa
vai à direção aos nossos desejos.
Desejos puros e sacanas,
cada hora em seu momento.

Ouço com fervor
o som de ouvir e a graça de dizer.
Música são tuas palavras,
puras e sensuais,
Santas e pervertidas.

Ah! Como amo o que me dizes,
misto perfeito do Santo e profano,
do carinho singelo
e do mais puto desejo…

Vem!
Demole a inércia do tempo sem vigor.
Vem!
Faz a vida girar em sentido do amor…
Somente nesse sentido.
Vem!

SONETO DO AMOR MANEIRO

 O amor que idealizei é um paraíso de viver
 Sob a égide da livre expressão e do contato
Em abraço amante e amigo, quero envolver-te
Gozar bem dentro de você e também em torno

Respirar um ar gratuito que vem da tua boca
Gratuito são todos os ares, mas o teu é meu
Quero respirar em você e ir ao fundo do desejo
Se é que se pode chegar ao fundo em si mesmo

Porém se és Santíssima, muito Pura e bem Puta
Nada perco, ao contrário, ganho dos dois lados
Quero-te como és, nada de acrescentar ou sacar

Quero-te assim porque em ti tenho o melhor gozo
Se em ti acrescentassem em explodiria no prazer
Se retirassem, eu perderia grande parte do amor

VOCÊ, VIDA

Minh´alma louva tua existência etérea
e o meu corpo busca o teu corpo, sempre.
 Quão perdido andei em caminhos distantes,
mas o destino generoso fez o encontro.

Agora, ando no teu e você no meu,
nossa vida em um único caminho.
 Descanso em ociosidade inversa,
em cuidando do nosso amor.

Bendito o dia que me acorda
e lindo o dia que se encerra,
ensejando um novo dia.

Nossos caminhos em busca,
estão lá, bem lá, além…
em estando aqui, bem presente.

SONETO DO AMOR QUE FICOU

Hoje e amanhã
Vou te amar
Como amei ontem
Como amei sempre

No meu olhar, em minhas mãos
No tremor do meu espanto
Farei acenos de ternura
Assim como nos versos em branco

Inserido em música o meu silêncio
Ele irá contigo aonde fores
Jamais direi adeus

Amo tua presença
Mas se fores, por derradeiro
Amarei tua ausência, vivo em teu amor

SONETO DO DIA AZUL
Um dia todo azul em sol
Uma lua chegando cedo
Linda delícia tua vinda
Simples  e encantadora

Tua voz dizendo sim
No ritmo do bem querer
No exato tom do fazer
Em meu corpo o amor

Fiel certeza no encontro
Virando o incerto em crença
Convicção que o amor é viver

Lindo amor em dia azul, sim
É a vida que vem cantando
Em alegre encontro com o amor

VOCÊ, DOCE PRESENÇA

Estando em tua presença
O mundo fica terno
E os movimentos que encantam a alma
Dão vida e gozo ao corpo

Um pendão real te entregou a vida
Investida da honraria você buscou o simples
O que existe na mais absoluta gratuidade
SER, TER E FAZER

TER, sem a sensação de egoísmo
FAZER, em torno o amor gravitando
SER, visando somente SER

Se estás nos meus braços
Descanso no prazer consentido
Bondade da vida: amar e viver o teu amor

O AR DA MANHÃ
 
É um ar diferente, não sei dizer se mais frio ou menos
Destemperado de outros paliativos fora do tempo, não sei
Só sinto que não tem a mesma temperatura de outros momentos
Parece-me que nem se trata de temperatura, suave ou amena
É uma questão de sentir o ar no tempo, misturado ao acaso

Se não me desperto por imposição do dever, fico inerte
Curtindo este ar um tanto mágico que se inicia como menino
Talvez esteja no orvalho a grande diferença, umidade virgem
Traz indiferença, sinto falta do misto de pureza com pecado
Nada virgem me atrai, prefiro a experiência da mulher nua
Aquela que nada sabe e fica buscando aprender, sempre…

Vou dormir, ainda sentindo este sono do ar da manhã
Se não me despertas deixarei de lado o meu corpo frio
Umedecido pelo orvalho deste irresistível ar da manhã
O que isso distante soa, é o amor ou o vento apressado?
Por isso é sempre minha opção o ar da manhã com amor
Cores, umidade e todas vestimentas de uma nova aurora

Não me abandone neste caminho onde não sei caminhar
Se fores muito longe ou para o improvável, vou contigo
Não tenho destino definido, melhor buscar o teu carinho
Nada saberás dessa madrugada onde a chuva se aproxima
Pretendendo alterar o inesgotável prazer do ar da manhã

O AMOR E O LIVRO

O que esperamos com desespero em chegada breve
Leva-nos ao cruzamento com rumos frios do suspense
Recorrendo à calma é que buscamos o silêncio no livro
Um silêncio que diz o lindo e fortalece a confiança

Além, os livros transferem para o céu, quando em versos
Suas estrofes de ouro cravejadas de brilhantes eternos
Do nada se faz o verbo e o livro transmite o que Deus diz
Sem dizer ele que é sagrado e que é a palavra do criador

Livros, doces emoções nos conduzindo ao reino do todo
E quase sempre ao reino amor, em alegria e desejo sublime
Falam os Poetas também da dor, da desilusão e do insulto
Tudo em paradoxais que exaltam a pura beleza do bem

Que lamento tão fundo às vezes diz, transtornado
Nada além de alegorias inversas que sublimam o amor
Cada livro deixa e tem si o que muitas vezes não existe
Mas quando buscado com esperança, alegria, amor é fé

Fontes:
1– Poema enviado pelo autor
2 – http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=4817&categoria=Z

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