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José de Alencar (Ao Correr da Pena I)

A primavera – Eclipse de uma estrela – Espetáculo de graça – As três graças dos gregos e as des-graças de um diletante – Importe de um espetáculo gratuito – o baile do Cassino – A valsa – Nova pomba da arca.

17 de setembro

Estamos na primavera, dizem os folhetins dos jornais, e a folhinha de Laemmert, que é autoridade nesta matéria. Não se pode por conseguinte admitir a menor dúvida a respeito. A poeira, o calor, as trovoadas, os casamentos e as moléstias, tudo anuncia que entramos na quadra feiticeira dos brincos e dos amores.

Que importa que o sol esteja de icterícia, que a Charton enrouqueça, que as noites sejam frias e úmidas, que todo o mundo ande de pigarro? Isto não quer dizer nada. Estamos na primavera. Os deputados, aves de arribação do tempo do inverno, bateram a linda plumagem; a Sibéria fechou-se por este ano, os buquês de baile vão tomando proporções gigantescas, as grinaldas das moças do tom são perfeitas jardineiras, a Casaloni recebe uma dúzia de ramalhetes por noite, e finalmente os anúncios de salsaparrilha de Sands e de Bristol começam a reproduzir-se com um crescendo animador.

Come, gentil spring! Vem, gentil quadra dos prazeres! Vem encher-nos os olhos de pó! Vem amarrotar-nos os colarinhos da camisa, e reduzir-nos à agradável condição de um vaso de filtrar água. Tu és a estação das flores, o mimo da natureza! Vem perfumar-nos com as exalações tépidas e fragrantes da Rua do Rosário, da Praia de Santa Luzia, e de todas as praias em geral!

Doce alívio dos velhos reumáticos, esperança consoladora dos médicos e dos boticários, sonho dourado dos proprietários das casinhas dos arrabaldes! Os sorveteiros, os vendedores de limonadas e ventarolas, os donos dos hotéis de Petrópolis, os banhos, os ônibus, as gôndolas e as barracas, te esperam com a ansiedade, e de suspirar por ti quase estão ficando tísicos (da bolsa).

Esta semana já começamos a sentir os salutares efeitos de tua benéfica influência! Vimos uma estrela do belo céu da Itália eclipsada por uma moeda de dois vinténs, e tivemos a agradável surpresa de ouvir o 1º ato do Trovatore e um epeech da polícia, tudo de graça.

Alguns mal intencionados pretendem que a noite não foi tão gratuita como se diz; mas deixai-os falar; eu, que lá estive, posso afiançar-vos que o espetáculo foi todo de graça, como ides ver.

A autoridade policial depois de participar que ficava suspensa a representação e que os bilhetes estavam garantidos, sendo por conseguinte aquela noite de graça, como esta notícia excitasse algum rumor, declarou formalmente, e com toda a razão, que se acomodassem, porque a polícia, quando tratava de cumprir o seu dever, não era para graças.

Os namorados que tiveram duas noites de namoro pelo custo de uma, os donos de cocheira que ganharam o aluguel por metade do serviço, o boleeiro que empolgou a sua gorjeta sem contar as estrelas até a madrugada, aqueles que lá não foram, não só riram-se de graça, como acharam nisto uma graça extraordinária.


Muito olhar suplicante vi eu nos últimos momentos, humilhando-se diante de um rostozinho orgulhoso e ofendido, clamar com toda a eloqüência do silêncio: grazia! grazia! É preciso advertir que o olhar estava no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas melhor do que qualquer diplomata.

Finalmente, para completar a graça deste divertimento, as graças com os seus alvos vestidinhos brancos se reclinavam sobre a balaustrada dos camarotes, cheias de curiosidade, para verem o desfecho da comédia. E a este respeito lembra-me uma reflexão que fiz a tempos, e da qual não vos quero privar, porque é curiosa.

Os gregos, como gente prudente e cautelosa, inventaram unicamente três graças, e consta que viveram sempre muito bem com elas. Nós, de mal avisados que somos, queremos ter em todos os divertimentos, nos bailes, nos teatros e nos passeios uma porção delas, sem refletir que, logo que se ajuntarem muitas, podem formar necessariamente um grupo de dez graças.

Maldito calembur! Não vão já pensar que pretendo que as graças tenham sido a causa de tudo isto, nem também que todo aquele desapontamento fosse produzido por alguma graça da Charton. A primadona estava realmente doente, e, aqui para nós, suspeito muito os meus colegas folhetinistas de serem a causa daquela súbita indisposição com o formidável terceto de elogios que entoaram domingo passado. Lembrem-se que os elogios e os aplausos comovem extraordinariamente um artista. Ainda ontem vi como ficaram fora de si as tímidas coristas, unicamente porque lhe deram duas ou três palmas!

Em toda esta noite, porém, o que houve de mais interessante foi o fato que vou contar-vos. Um velho dilettante do meu conhecimento, ainda do tempo do magister dixit, e para quem a palavra da autoridade é um evangelho, teve a infeliz lembrança de justamente nesta noite encomendar um magnífico buquê para oferecer à Charton no fim da representação. Apenas se declarou o relâche par indisposition, o homem perdeu a cabeça, e, o que foi pior, com os apertos da saída perdeu igualmente a bengala, que lá deixou ficar com os ares de novo um chapéu comprado pela Páscoa.

No outro dia, o homem, que tinha seus hábitos antigos de comércio, viu-se em sérias dificuldades. Não podia deixar de acreditar, à vista da declaração da polícia, que o espetáculo da noite antecedente fora de graça; mas, ao mesmo tempo, tinha de dar saída no livro de despesas ao dinheiro que gastara com o aluguel do carro, com a gorjeta do boleeiro, com o par de luvas, com o buquê da Charton, o custo da bengala e o estrago do chapéu. Coçou a cabeça, tomou a sua pitada, e afinal escreveu o seguinte assento: Importe de um espetáculo gratuito no Teatro Provisório – 26$000!

O meu dilettanti ainda não sabia que a palavra grátis é um anacronismo no século XIX, e, quando se fala em qualquer coisa de graça, é apenas uma graça, que muitas vezes torna-se bem pesada, como lhe sucedeu. Provavelmente, depois deste dia, o velho lhe aditou ao seu testamento um codicilo proibindo terminantemente ao seu herdeiro os espetáculos gratuitos.

Assim a crônica futura desta heróica cidade consignará nas suas páginas que, pelo começo da primavera do ano de 1854, tivemos um divertimento de graça. Os nossos bisnetos, não falo dos militares de boca aberta , hão de pasmar quando lerem um acontecimento tão extraordinário, e, se nesse tempo ainda estiver em uso o latim, clamarão com toda a força dos pulmões: Miserabile dictu!

Depois de uma semelhante noite, era natural que os dias da semana corressem, como correram, monótonos e insípidos, e que o baile do Cassino estivesse tão frio e pouco animado. Entretanto aproveitei muito em ir, pois consegui perder as minhas antipatias pela valsa, a dança da moda. É
verdade que não era uma mulher que valsava, mas um anjo. Um pezinho de Cendrillon, um corpinho de fada, uma boquinha de rosa, é sempre coisa de ver-se, ainda mesmo em corrupios.

Fiz a amende honorable de minhas opiniões antigas, e, vendo nos rápidos volteios da dança voluptuosa passar-me por momentos diante dos olhos aquele rostinho iluminado por um sorriso tão ingênuo, não pude deixar de fazer uma comparação meio sentimental e meio cosmogônica, que talvez classifiqueis de original, mas que em todo o caso é verdadeira. Quando o mar, que Shakespeare disse ser a imagem da inconstância, revolveu o globo num cataclisma e cobriu a terra com as águas do dilúvio, foi uma pomba o emblema da inocência, que anunciou aos homens a bonança, trazendo no bico um raminho de oliveira. Se algum dia uma paixão de loureira vos revolver a alma, e deixar-vos o desgosto e a desilusão, há de ser um anjinho inocente como aquele quem vos anunciará a paz do coração, trazendo nos lábios o sorriso do amor o mais casto e mais puro.

Fonte:
ALENCAR, José de. Ao correr da pena. SP: Martins Fontes, 2004.

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Walcyr Carrasco (Pinga-pinga de pinguço)

Um passeio nas vans que circulam de bar em bar

Bares do Itaim, Jardins e Pinheiros andam oferecendo um serviço exclusivo para bebuns. É uma van que os leva até em casa. Trata-se, com o perdão de um trocadilho, de um pinga-pinga de pinguços. As vans circulam de bar em bar. arrebanhando os etílicos, durante a madrugada.

Desde que o novo Código de Trânsito entrou em vigor, a polícia anda rondando perto dos bares, bafômetro a postos, em busca de motoristas infratores. Com as vans, os bares garantem faturamento. Os clientes podem mergulhar nos copos, sem depois arriscar a pele no asfalto. Serviços semelhantes já existem na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Raramente tomo umas e outras. Soube, entretanto. que o clima nas vans é animadérrimo. Imaginem seis bêbados indo para casa. A van estaciona para pegar o sétimo, em novo bar. Descem os seis primeiros.

E aí, que tal a saideira?

Dá-lhe! O inocente que saiu para tomar um ou dois uísques entra na animação. Acorda embaixo do balcão de uma padaria. Também são freqüentes os tipos belicosos e as discussões capazes de resolver o problema do futebol brasileiro.

Eu já disse que o Ronaldinho…

Ah, nego vem falar do Ronaldinho! Não vem! Nãããão veeeeem!

O Ronaldinho? O Ronaldínho?

Sóbrio por necessidade profissional. o motorista tenta aplacar os animos.

-Ô, pessoal, o Ronaldinho joga um bolão.

Os seis se unem.

– Cala a boca!

O coitado silencia. Abre a janela. É obrigado a dirigir a madrugada toda de vidro abaixado. Até o ar está impregnado. Se respirar mais fundo, fica de fogo.

Mais uma parada, entra um rapaz. Tomou só um ou dois goles.

– Eu sozinho. Lembrei da van. Que negócio é esse de ir para casa tão cedo?

Novo tropel. No veículo. fica só um, desmaiado, lá no fundo. Os outros descem, atrás de nova rodada. A van é ideal para fazer amizades. Há quem chegue até mais longe.

A senhora não está bêbada! – desconfia o motorista.

Ela afina a voz, bambeia as pernas.

– Estou bebinha, sim!

Consegue entrar. Aperta-se entre todos. Examina um por um, com o olhar esperto. Um está bêbado demais. Outro, passado da idade. O terceiro, sim, serve! Tem perfil de executivo. Ela afia as garras. Ele nem desconfia., quando descem no mesmo prédio. Sobem juntos no elevador, aterrissam no mesmo andar. Começa a ficar cabreiro quando, após várias tentativas, consegue botar a chave na porta e percebe que ela o espera. Não há tempo para perguntas. Ela entra depressa, vai até o bar e prepara dois uísques. Ele cai duro no sofá. Consegue erguer uma das pestanas meia hora depois.

Quem é você? – pergunta, trêmulo.

Você me convidou para um uísque! – ela retruca, revoltada.

O executivo vasculha o cérebro. Não consegue lembrar. Mas deve ter convidado. Senão, por que ela estaria em sua sala? Bebe mais uma dose para acordar e desmaia. Na semana seguinte, ela já está falando em casamento. Ele continua não se lembrando de nada.

Também existem alpinistas sociais. Como o sujeito que mora na periferia. Quer chegar em casa de carro. A maior parte dos bares adota limites mínimos de consumo, para dar direito a carona. Ele bebe o mínimo. Depois, exige que o levem para a casa. O motorista quase cai nas barrancas do Tietê para chegar até lá. O falso bebum desce alegremente. Os amigos, admirados.

-Tu tá por cima. hein, malandro? Chegando em casa de chofer!

Sorri, vitorioso. Sai mais barato do que táxi. O bêbado desmemoriado é uma tragédia.

O senhor não se lembra do endereço?

Eu aaaaaaaaaacho que é virando aquela rua…

Toca a vasculhar quarteirões.

Certo tipo de bebum não vai de van. É o imprevidente, que saiu de casa em seu próprio carro. O bar oferece o motorista. que dirige para o cliente. Mas bêbado detesta terminar a noite sozinho.
Soooobe aí. Veeeem tomar uma comigo.

Sinto muito. A van do bar vem me pegar em meia hora, esquiva-se o motorista.

Soooobe só meia hooora.

O chofer acaba mais bêbado do que o cliente. Quando a van chega, está cantando na sarjeta. Há quem possa se espantar com a idéia. É uma medida civilizada. Com este calor, poucos resistem a um chope, ou a dois, a três, quatro… Ficam a salvo pedestres e postes!

Fonte:
Revista VEJA. São Paulo. 11 de março 1998.

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Carlos Leite Ribeiro (Esta Juventude …)

(lamentos dos mais velhos…)

Mais velhos, não direi, talvez os mais antigos – de acordo?

No nosso tempo não se via disto – uma frase que se ouve com certa frequência aos mais antigos. Agora, vimos os jovens sempre agarradinhos e aos beijinhos por todo o lado.

No nosso tempo, não se via “esta vergonha” não; tínhamos uma enorme ingenuidade quase a roçar a santidade. Nós quase não olhávamos para as jovens pois tínhamos grande pudor e éramos demasiadamente envergonhados e tímidos. No meu tempo nem tínhamos tentação de saber se as carnes da nossa moça eram rijas ou moles; se ela sabia beijar bem; nem sequer um encosto mais apertado. Nada disso. Éramos uma perfeição. Nos bailes, dançávamos afastados das moças pelo menos um palmo; no escurinho do cinema, ficávamos sempre com as mãos em posição de oração e nunca por nunca a fazer pesquisas por sítios proibidos; para mais, tínhamos sempre a mamã sentada a nosso lado. Nenhuma parte de nosso corpo reagia à aproximação ou quando estamos junto da nossa amada. Nos dias de chuva, nunca procurávamos a entrada de um edifício ou mesmo o vão de uma escada; nunca (o pior era quando esses espaços já estavam ocupados por outro casal).

Nunca por nunca invejámos e muito menos desejámos a namorada dos outros ou mulher casada; nunca!

Rapazes como nós, já não existem.

Um certo colega, o Mário, certa vez foi apanhado por uma vizinha a fazer algo que não “devia” com uma moça. A dita (cuja) vizinha, chamou-o a sua casa para lhe dar uma grande lição de moral e, ao mesmo tempo, dar-lhe umas lições de sexologia prática; no dizer desta senhora já viúva há muitos anos, as lições seriam vinte… Mas o Mário contou a situação aos amigos e, quando a vizinha marcou nova lição, aparecemos a sua porta cerca de dez amigos. Resultado: não passou da primeira lição. O que éramos capazes para perder a nossa ingenuidade para nos integrarmos no mundo dos já muito adultos!

Volto a repetir: rapazes como nós, já não existem…

Também é preciso não esquecer que namorávamos com a moça à janela, mesmo que morasse num 5º andar enquanto o rapaz ficava na rua. Não tínhamos hipóteses nenhumas … Embora há quem diga que nós tínhamos uma “engenharia deveras criativa”; mas isso são boatos!

O caso melhorou (só um pouco) quando apareceram as “lambretas” que só tinham dois lugares e a mamã tinha que ficar de fora. O pior era quando a tal mamã marcava que de dez em dez minutos tínhamos que passar à sua porta ou num local pré-combinado.

E quando apareceram os Volkswagens de três mudanças para a frente e uma para trás? Para “conduzir” era precisa certa “habilidade” pois senão saiam dentro do carro que dolorosos torcicolos.

Rapazes como nós, já não existem…

Em 2001, escrevi este apontamento “MOMENTOS MARCAM UMA ÉPOCA …”

Há nomes que nos marcam para sempre, principalmente, quando se referem à nossa juventude. Para mim, o nome Nan, traz-me recordações da minha meninice.

Teria uns dez anos, morava num rés-do-chão de um prédio da Pascoal de Melo (Estefânia – Lisboa), e no último andar, por sinal o 4º, morava a Nan, uma moça que na altura teria uns 16 ou dezassete anos. A mãe da moça, de nome Sen, viúva de um obscuro subchefe de uma repartição da função pública, era uma figura muito castiça: Muito magra, não muito alta, sempre vestida de preto e, fosse em que estação do ano fosse, andava sempre de sombrinha. Quando aqui em Portugal passou a telenovela “Tieta do Agreste” (que eu parodiei para a radiodifusão), logo me lembrei da D. Sen, que a vi retratada na “Charifú” desta novela. A Nan era filha única e sua mãe a defendia de todos e quaisquer “Moinhos de Vento” (eram como as mamães tratavam os rapazes). Se a moça lhe ia fazer algum recado (compra) perto de casa, logo a mãe se empoleirava na varanda começando logo a berrar assim que ela saía do prédio: “Nan ! não te demores, olha que eu estou aqui à tua espera !” ; ou “Nan ! estás a demorar muito ! Que estás para aí a fazer ?…”. Se nas traseiras da casa, a moça estava a estender a roupa na varanda, lá estava sua mãe ralhando comigo:

– “Olha lá menino, estás a olhar para as pernas da Nan … etc …”.

Recordo-me uma vez minha tia dizer em voz alta para ela ouvir bem:

– “Carlitos, não olhes para cima !Podes estar a cobiçar umas pernas que não valem nada … “.

Claro que a opinião era de minha tia, porque a minha, embora não me recorde bem, talvez fosse uma “bela panorâmica” !

Mas voltando à Nan, andava num colégio de feiras, onde a mamã a ia levar e trazer. Recordo-me de um carnaval no Clube Estefânia, em que a D. Sen quando notava (?) que o par da filha a estava a agarrar “demais”, levantava-se e o ia afastar do corpo da filha. De tantas vezes que repetiu, que se tornou um escândalo hilariante. Nessa altura, um D. Juan da época, virou-se para a D. Sen, perguntando-lhe:

– “Olhe lá minha senhora, é católica ?”. A senhora olhando-o de frente, replicou-lhe:
– “Sou sim, seu desavergonhado !.

Então o “malandreco” respondeu-lhe perante a hilaridade de todos:

– “Então vá com Deus e deixe sossegada a sua filha!”.

Era assim a vida da Nan …

Meses depois, a pequena, não se sabendo muito bem porquê, apareceu grávida. É verdade !. Já na gravidez avançada, tanto a mãe como ela, juravam a pés juntos que não sabiam com “aquilo tinha acontecido”. Algumas vizinha, (daquelas mais aconselhadas), aconselharam a D. Sen a ir a uma senhora de grande virtude, que morava na Horta das Tripas (Casal de Santa Luzia – Rua D. Estefânia) para que ela expulsasse o “Mafarrico” do corpo da moça, porque tal só podia ter sido “obra do diabo”. Outras menos “cultas” diziam que tinha era sido “obra e graça do Espírito Santo”…

Fosse como fosse nasceu um bebé que teve como nome Francisco (o Chiquinho).

Muito mais tarde, já a D. Sen tinha entregado a alma a Deus e o corpo à terra fria, a Nan confessou que “talvez fosse obra de um ajudante de limpa-chaminés”. Na altura, existiam em Lisboa o “limpa-chaminés” que subiam aos telhados, ponham uma corda muito comprida dentro das chaminés e tiravam a “ferrugem”; pelo menos faziam muito lixo. Normalmente quem tinha a chave da porta que dava para o telhado era o locatário do último andar. Assim, um dia, a Nan foi abrir a porta ao ajudante de limpa-chaminés, enquanto o mestre ficava junto às chaminés das cozinhas, segurando a corda, o ajudante abanava – a no telhado.

Ainda segundo o relato da Nan “foi tudo muito rápido”. Nós podemos acrescentar: Rápido e Eficiente! Ficámos sem saber se teria sido no abrir da porta, ou, ao abanar da corda. Mas isso também não interessa.

Claro que a moça teve depois vários namorados.

Enquanto estes esperavam pela dama, havia sempre um “malandreco” a avisá-lo:

– “Não cuspas para cima que ela pode engravidar …”.
E assim, o nome de Nan, ficou sempre gravado na minha memória …
(von Trina – Março 2001)

Fonte:
Colaboração do Autor.

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Átila José Borges (Vivendo o Tarzan para a Platéia)

Ilustração de Ayrton Borges
Meus sonhos de menino eram povoados pela vida circense. Queria ser artista de circo. Qualquer papel me serviria. Queria sentir a platéia.

Um dia o Ayrton resolveu tornar esse meu sonho em realidade. A vizinhança foi convocada para o espetáculo intitulado TARZAN, O REI DAS SELVAS. O mais importante: eu seria o Tarzan.

Não sei como apareceu tanta criança. E para minha maior consagração, a menina que eu andava de olho, uma ruivinha sardenta estava presente.

Os ingressos eram pagos com a nossa moeda convencional que era constituída de caquinhos de louça, obviamente com seus valores determinados pelo “chefe” Ayrton, que também era o diretor da peça.

Nada tinha ensaiado…

As tradicionais três batidas feitas em uma lata velha, para início do espetáculo, foram dadas pela Abigail. O público aguardou alguns minutos e, nada.

O Ayrton ainda preparava o cipó que eu deveria segurar quando entrasse em cena.

Como um bom Tarzan, a contragosto eu estava relutante em entrar vestido apenas com uma calcinha de uma irmã, como uma tanga, segundo exigência da produção.

A demora impacientou ainda mais o público.

O meu “diretor” então, num arroubo de determinação deu-me a terrível ordem: Você não quer entrar de tanga? Então você vai fazer o papel do Tarzan como realmente tem que ser feito, pelado.

Quis abrir o choro, mas fui interrompido: entra! Segure o cipó que vou abrir o “pano” (um lençol dependurado). Artista é artista e pronto! Realmente, aí o diretor mexeu com os meus brios…Afinal, “to be or not to be”; tomei a decisão. Tudo pela arte.

Segurei o “cipó” e o “diretor” colocou no meu braço livre a macaca chita, representada por uma cadelinha que nós tinhamos.

Entrei de costas. O público vibrou!

Passei pelo palco voando. Coloquei a cachorra no chão e sai em célere corrida. A entrada da casa estava obstruída e enfrentar de novo peladão o público seria humilhante. Refugiei-me no quintal aguardando um bom tempo até a saída do último espectador. Mesmo assim fiz uma tanga de folhas e voltei humilhado para a minha casa. Desisti da carreira de artista…

O público não recebeu seus ingressos de volta, ou seja, seus caquinhos de porcelana!
––––––––––––––––––––––-
Nota:
Raro aquela ou aquele que quando criança, quando da passagem de um circo por sua cidade, não imaginou tornar-se artista. O circo durante muitos anos era sempre aguardado com grande expectativa nas cidades brasileiras, quer nos grandes centros quer nos pequenos, pois era praticamente o único veículo que levava arte, alegria e comunicação. Poucas cidades tinham teatros para receber companhias e assim o circo era uma atração especial arrastando numerosas platéias. Para as crianças era um verdadeiro sonho observar malabaristas, contorcionistas, trapezistas e, especialmente, os sempre animados palhaços.

O mundo encantado do circo chamava atenção de garotos e garotas, que muitas vezes passavam a imitar os artistas, alguns inclusive improvisavam circos nos quintais de suas casas. Houve até jovens que fugiram com os circenses imaginando que viveriam maravilhas e não demoraram a voltar para suas famílias, já que a vida de circense não é fácil, aliás, é muito difícil.

Fontes:
BORGES, Átila José. Memórias de um “Guri” (em tempo de guerra) 1936 a 1945. 2a. edição. Curitiba: Editora do Autor, 2007.
Nota extraída de José Domingos.

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Ignácio de Loyola Brandão (Hora de Almoço na Cidade Grande)

Na tarde sombria de segunda-feira, sentado no Viena da Alameda Santos, eu hesitava entre o à la carte e o bufê. Entre pedir a carta, escolher, esperar, decidi pela preguiça, fui ao bufê que é variado, amplo, de acordo com um tempo que exige rapidez e preços acessíveis. Levantei-me, ainda pensando que, nas dicas mineiras da semana passada, me esqueci de recomendar a Casa Cambuquira, de Três Corações, com seus queijos brancos, verdadeiras musses, e os doces de leite Nata Suíça, que batem de longe o famoso e cobiçado La Pataya uruguaio, que a gente, aqui, só consegue quase no contrabando. Lembro-me do Viena desde os tempos em que era uma lanchonete situada em frente do corredor de entrada pela Avenida Paulista. As coxinhas de creme, imensas, o sanduíche com pão italiano e queijo derretido, que valia por almoço e jantar, e as tortas de morango que, no início, eram feitas pela própria dona, provocaram ao longo dos anos um problema: encontrar lugar no balcão, na hora do rush do almoço.

Alguém já parou para observar as pessoas diante de um bufê com suas cores atraentes? Vale por uma sessão de cinema, um programa de televisão. A democracia é total: lado a lado estão executivos com ternos Armani, comerciários, secretárias, estudantes, interioranos (ainda é possível reconhecê-los), bancários, jornalistas, modelos, funcionários das livrarias, consulados, mulheres bonitas. Não, elas não foram fazer compras na Rua Augusta! Há muito a rua deixou de ser point, está se transformando em um amontoado de estacionamentos. A fila diante das comidas se forma, compacta, desorganizada, alguns entram de um lado, outros vêm na contramão, há quem reclame, há quem ceda a vez. Os primeiros devem estar com fome, os outros já passaram pelo primeiro prato e estão voltando.

A diversidade de gostos está nos pratos. Há anos freqüento restaurantes como o Viena, além de circular pelos quilos, e jamais vi dois pratos iguais.

Queria estudar as personalidades por meio do que colocam nos pratos ou na forma como arranjam a comida, separando tudo bem separadinho. Alguns amontoam tudo, outros têm o cuidado de organizar. Tenho uma amiga, diretora de arte que odeia mandioquinha, que faz um desenho, combinando as cores, o verde da alface e da rúcula, o vermelho do tomate, o roxo da beterraba, o amarelo da mandioquinha, o branco do palmito, o alaranjado da cenoura.

Gostava de comer ao lado dela, para admirar o design do prato que devia ser fotografado. A diferença entre o quilo e os bufês é que no quilo não se volta à mesa, porque se paga a cada rodada, as pessoas montam um PF, célebre prato-feito, buscam comidas mais leves.

No bufê há uma certa contenção, vergonha do “pratão”, porque as mesas ficam muito juntas e sempre existe a curiosidade de olhar o prato do outro.

Quantas vezes não ouvi a pergunta: “Essa torta, onde o senhor achou? Não estava lá quando passei!” É que, em certos momentos, a comida termina e enquanto o funcionário busca a reposição, fica um espaço vazio por minutos.

Mas comilões apressados na hora do almoço são impacientes. Os bufês democratizaram o salmão, o carpaccio e o estrogonofe, entre outras. Foram comidas “caras”, hoje estão ao alcance de qualquer um. O caro que ainda não se vê em bufê e em “quilo” é o camarão à grega, imbatível no preço alto. Os vegetarianos ficam na seção de folhas, os carnívoros recomendam ao chapeiro o ponto que gostam. Ali no Viena, na segunda-feira chuvosa, vi um sujeito colocar oito bifes no prato. Tive vontade de segui-lo, daria para a família inteira. Décadas atrás, quando as pizzas rodízio começaram em São Paulo, entrei em uma do Grupo Sérgio, na Augusta. Foi das primeiras. Estava com toda a redação da Editora Três e fomos conferir a novidade. Uma sensação, poucos imaginam o impacto que causou na gastronomia paulistana a chegada da pizza rodízio. Um dia, ficamos boquiabertos, um homem na mesa ao lado comeu 28 pedaços de diferentes sabores. A garçonete chegava, ele aceitava. Vinte e oito fatias correspondem a quatro pizzas grandes e uma média. Devíamos ter fotografado, registrado e enviado ao Guinness.

Agora, no Viena, fiz meu prato, sentei-me e percebi que o sujeito ao lado desenhava com lápis de cera. Ele estava concentrado, tentando retratar uma loira alta e bonita, que comia sozinha, um ar altivo, cheia de si. Sabia que atraía olhares e fingia que não. Desenhava mal o artista de bufê. Por mais que olhasse e se esforçasse, não conseguia um só traço semelhante. Ou ele estava apenas tentando chamar a atenção da jovem? Aí, percebi que na minha mesa tinha um copinho com dois lápis de cera, um preto e outro amarelo.

Levantei-me, dei uma volta, havia muita gente rabiscando as toalhas de mesa, que são de papel. Desenhar enquanto se come. Por que não ler? Acho que sou dos raros que levam um livro para o restaurante. Dia desses, uma senhora me abordou: “O senhor não sabe que faz mal ler e comer?” Não sabia, como e leio há 50 anos. “Que mal?”, indaguei. E ela ficou numa saia-justa, não sabia, sempre ouviu as pessoas dizerem isso. Vou continuar a ler, é uma hora sossegada, me abstraio dos barulhos do restaurante.

Agora, o jovem tentava retratar a loira que continuava indiferente, mas provavelmente com a auto-estima em alta. Será que ele desejava presenteá-la, usar o desenho como apoio para uma abordagem? E me veio à cabeça uma das imagens mais pungentes do cinema, em Os Amantes de Montparnasse (Montparnasse 19), de Jacques Becker, 1957. Modigliani (vivido por Gerard Philipe) precisando comer e vendendo por um preço de banana seus desenhos, de mesa em mesa, nos cafés de Paris, com as pessoas zombando dele. Agora, era o inverso. O jovem bem vestido, comia e queria desenhar. No entanto, estava longe, muito longe, tão distante de Modigliani quanto Marte da Terra.

Fontes:
Jornal O Estado de São Paulo. Caderno 2. Sexta-feira, 4 de junho de 2004.

Imagem descolorida de http://www.papatrilhos.com

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Carina Paccola (O Vento)

O vento soprou tanto, tão forte e tão ruidoso, que me perguntei o que ele queria tanto afastar do céu. Tenho medo de chuvas e ventos fortes. Mesmo protegida, não consigo dormir tranqüila. Acordo a todo instante, vou conferir pela janela se está tudo em ordem do lado de fora. Vejo as árvores balançando. Nenhuma alma viva pela rua.

Quando o dia clareia, parece que tive pesadelos a noite toda. Confiro novamente a janela. Vejo que o cavalinho vermelho do play-ground foi parar na quadra de esportes. Fico com dó do cavalinho. Separou-se dos irmãos e está ali, jogado, sozinho.

Na área de serviço, recolho as toalhas de banho esticadas no varal. Todas sequinhas. Apanharam do vento a noite toda. Recolho uma por uma e penso o que foi que o vento tanto gritou durante a noite. Imagino que as palavras do vento estão escondidas na trama das toalhas e nunca entenderei seu significado.

Fico pensando o que a natureza pode querer me dizer: que eu varra com a força dos ventos o que me faz mal? Seja lá o que for, a única mensagem compreensível é que está muito frio lá fora e é melhor eu me agasalhar.
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Carina Paccola é jornalista em Londrina, PR.
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Fontes:
Jornal Guata. Foz do Iguaçu.
Imagem = http://www.jurassicos.com.br

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Wemerson Augusto (O Pé de Goiaba)

Com um gosto na boca de bolacha, água, sal e tubaína eu ainda cochilava enquanto o ônibus seguia seu itinerário. Novos passageiros apareciam há quase todo instante. Às vezes a genealogia das pessoas que minutos antes me deixava curioso, com pouco tempo me parecia muito normal. As casas de barro, as crianças, as terras, as senhoras e os senhores na pista, o céu estrelado e o vento noturno eu já conhecia. Sinceramente não sei de onde vem nossa amizade.

Não consigo precisar datas, horas e lugares deste encontro, no entanto, tudo era muito real e próximo. A chegada que eu vislumbrava ainda num retrato mental foi idêntica a minha recepção a simpática cidade de Abacates, ao Sul das Colinas. Uma senhora de óculos e um pouco desconfiada me dá bom dia falando para dentro. Junto com o cumprimento a atendente da pensão me olha de cima a baixo, concentrando um pouco seu olhar em meus cabelos.

Vou preenchendo a ficha. Antes de terminar a senhora corre para atender uma voz do fundo da casa que diz: “a água ta ferveeeendo”. E eu continuava no cadastro. Maria Odília chega com uma chave daquelas de banheiro com apenas um pininho de relevo na horizontal. Folheia o caderno de hospedes e corre o olho nas vagas. De longe avistei os seguintes dizeres: “deve 15” e “deve 10” e mais alguns rabiscos.

Odília resmunga e parece não acreditar na precisão do livro ata da casa. Agora com um molho de chave em mãos me convida a conhecer o estabelecimento. Abre o primeiro quarto, o de número 11. Roupas em cima da cama, camisetas na janela e uma mala entre aberta no chão informam que ali ainda tem hospede. Odília coça a cabeça e tem a certeza da imprecisão do controle dos moradores da pensão.

O quarto 13 é o próximo. A senhora vira a chave na fechadura, mas a porta não abre. A parte inferior da porta está muito próxima do chão, impedindo o movimento. Acostumada a senhora da um chute de leve. A porta abre como uma grande janela. Para fúria de Odília o quarto também estava ocupado. Desta vez um casal com trajes íntimos ainda curtiam as primeiras horas da manha.

A bolsa nas minhas costas a cada instante ficava ainda mais pesada e pegajosa. Numa terceira tentativa encontro um quarto aparentemente vago. “Pode ser este senhor”. Digo que sim. A senhora se despede. Abro a janela e dou de cara com um pé de goiaba com algumas goiabas no alto. Fecho parte da janela e fico me perguntando. Por que estou tanto longe deste lugar, desta casa, que parece ser tão próximo?

Qual era a minha relação com este mundo? Qual era a relação das goiabas do alto? Do retrato mental da pousada esverdeada? Dos dias difíceis que só me foi anunciado neste espaço?

– Estou aqui rascunhando estas idéias para entender melhor um dia como tudo isso começou. Quando voltar pra casa pense melhor. Tenho a impressão que já passei por esta rua, escrevi algo parecido, vi essa pessoa ou já escutei essa história. Repito: não consigo precisar datas, horas e lugares deste encontro. Do mesmo modo, estou aqui tentando ler a fachada da pousada para refrescar a memória, mas parece ser em vão. A grande quantia de tinta, letras e riscos atrapalha a leitura.
(Abacates, Sul das Colinas, domingo, 15 de fevereiro de 2009).
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Wemerson Augusto é jornalista em Foz do Iguaçu, Pr.
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Fontes:
– Colaboração do Jornal Guata. Foz do Iguaçu.

– Imagem =
http://angola.linda.googlepages.com/frutasdeangola

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