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Helena Kolody (Queixa)

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19 de fevereiro de 2013 · 19:54

Mário A. J. Zamataro (Carrinheiro – Ingenuidade)

Parque Tanguá (Curitiba)

CARRINHEIRO

Lá fora a chuva fina turva a luz
e molha o palco aberto onde se faz 
da hora a velha sina que conduz 
quem olha a rua incerta e o chão voraz. 

Um vulto esconde o rosto em breu capuz 
enquanto a chuva insiste em ser tenaz… 
Avulta em mim desgosto que traduz 
em pranto a chuva triste e pertinaz. 

Estia enfim e o vulto se levanta 
e leva o seu carrinho em contramão 
na via onde um insulto o desencanta 

e faz brotar nos olhos a explosão 
que torna a raiva insana e a dor maior 
na lágrima, na chuva e no suor.

INGENUIDADE 

 Quero ter a minha voz
 pra dizer abertamente
 que uma farsa aperta os nós
 e disfarça impunemente!

 E direi como é feroz,
 como faz tranquilamente
 o papel doce de algoz
 e se crê ser inocente.

 Usa a lei como sofisma,
 tem acordo com a ilusão
 pra fazer cavilação.

 Quer impor sempre o seu prisma
 e não vê nisso maldade,
 deve ser ingenuidade!

Fontes:

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José Marins (Haicais, Nada Mais)


a cássia florida –
 o que foi mesmo que vim
 fazer no jardim? 

a letra bonita
 no cartão de Natal lembra
 a amizade antiga 

alto Pilarzinho –
 agita as folhas dos cedros
 esse vento verde
 céu de primavera – 
 as fendas para o azul
 no branco das nuvens
 dessa cerração
 só me lembro do apitar
 do trem indo longe
 Dia da Professora –
 aquele quadro de giz
 com letra bonita
 dois piás na fila
 tão brancos como o sorvete 
 sabor de baunilha
 domingo sem sol
 uma árvore de Natal
 ainda na caixa

escurece a tarde –
 entre raios e clarões
 os sons da trovoada

feliz Ano Novo –
 sem pressa divido o mate
 com este silêncio

fim de um ano fértil –
 grato à generosidade 
 dos caros amigos

início do ano –
 os bons votos com arco-íris
 no final da tarde

já no entardecer
 a andorinha de verão
 com a chuva fina

mas que noite curta –
 o sonho do fim do mundo
 ficou no começo

não estou sozinho –
 a lua cheia de outono
 me deu uma sombra
o anoitecer trouxe
 o canto dos sabiás
 que se vai com ele
 o casal arranja
 os enfeites de Natal
 histórias da infância

o gato desperta –
 a pequena lagartixa 
 no teto passeia
oh, noite nublada –
 da alvura de suas flores 
 a luz do alfeneiro

 o rio poluído –
 os frangos d´água seguem
 nas margens da vida
 o sol da manhã
 os ipês-roxos do bairro
 voltam a florir
 os olhos se voltam
 para o meio da folhagem
 antúrio vermelho
 passa o sol ao norte 
 a extremosa florescida
 só do lado leste
 pretume da nova –
 das árvores de alecrins
 o voo dos morcegos
requer atenção –
 os pêssegos verdolengos
 nas mãos da velhinha
 ruídos dos carros –
 esforço-me para ouvir
 a voz do canário
 sábado de tarde –
 na sombra das jucaínas 
 pétalas laranjas

sob o sol das três
 o sorriso do carteiro
 de chapéu azul

Fonte:
Haicais obtidos no facebook de Marins

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Jose Marins (Haicais entre A Lâmpada e as Estrelas)

José Marins é de Curitiba/PR
árvores do outono –
dão cores ao vento sul
folhas de mil tons
o branco flutua
na lonjura do horizontes –
campo de algodão
por que tanto pia?
o gaviãozinho no azul
na manhã de outono
céu de lua cheia –
ondas se quebram na praia
espalhando brilho
maio que se vai –
a mulher reclama do
breve veranico
sem nenhuma folha
os galhos da magnólia
floridos de roxo
o rigor do inverno
o pigarro que peguei
é feito o do pai
a noite mais longa –
o gato dorme no colo
alheio à leitura
o Dia dos Pais –
nas duas pontas da linha
as vozes fraquejam
o olhar do menino –
um pouquinho de amarelo
na flor de ipê-rosa
o velho tropeiro –
o pé de ipê na campina
marelou de frô
ouve-se de longe
o velho trator vermelho
começa a aração
Praça da Bandeira
só a grama rebrotada
lembra o verde pátrio
gramado do parque –
entre o bando de chopins
canário-da-terra
corre a menininha
atrás do joão-de-barro –
asas e pernas
noite sem estrelas –
ao morcego o néctar das
flores amarelas
chegaram os gozos
das férias de verão –
um mate gelado
sob o guarda-sol
a velhinha diz ao velho –
que moço sarado
céu de Curitiba –
o branco da garça passa
no meio da tarde.
o fim do verão
o riacho do meu bairro
chegará ao mar?
Fonte:
José Marins (organizador). A Lâmpada e as Estrelas: coletânea de haicais. Curitiba: Araucária Cultural, 2012.

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José Marins (Emergência Dentária)

Voltei ao dentista no mesmo dia. Avisei a secretária que iria no final da tarde. Só tenho horário para daqui 20 dias – insistiu.

Trata-se de uma emergência – pedi.

De pé na sala de espera, só retirava a mão da boca para repetir: isso não podia ter acontecido. Espanto e curiosidade nos olhares. Quando saiu o último cliente, pulei para dentro do consultório.

– O que houve? – perguntou o dentista.

– Perdi meu assovio!

– Podemos procurar, aviso à faxineira. Como era?

Sentei na cadeira.

– Perdi-o com a restauração!

– Como assim?

– Não consigo assoviar depois disso. Era de estimação…

Ele riu, eu fiz cara de sério.

– Como vou me comunicar com o meu canário? Eram uns dez tipos de afinações.

O dentista girou a primeira lixa, a segunda, a broquinha de alta rotação. Eu tentava assoviar a cada tentativa, nada. Dispensou a secretária com voz irritada sob a máscara. Pedi calma, a coisa podia piorar.

Mexeu, remexeu e os dentes (esses da frente que gente normal usa pra sorrir) não voltavam ao padrão anterior. Vieram silvos mixos, nada de agudos silvestres.

Finalmente ele disse: Por que não me avisou? É tudo o que posso fazer. Só recuperei um ou outro trinado de aborrecer tico-tico.

Perdeu o cliente.

Uma dentada num churrasco levou as resinas.

Achei um doutor em dentística com boas indicações.

– O senhor restaura assovios? – perguntei ao senhor de óculos foscos

Fonte:

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Trova 231 – Mário A. J. Zamataro (Curitiba/PR)

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6 de outubro de 2012 · 22:59

Isabel Furini (Poema infantil: Poesia e Poema)

 (Leitura recomendável: a partir de 8 anos).

 Na porta do prédio,
 o poeta falava com Maria:
 – Poemas são ondas
 no oceano da poesia,
 mas há alguns dias
 eu não tenho inspiração.

 Nesse mesmo momento,
 uma gatinha sapeca
 que brincava no parapeito
 da janela
 deixou cair seu brinquedo…
 A boneca aterrissou na cabeça do poeta.
 Plaf!

 E de repente, uma luz:
 – Você quer me conhecer?
 Eu sou a Poesia.

 O poeta olhou o céu e começou a poetar:

 A poesia é deserto, céu, ar, luz, mar…
 Poemas são como areia,
 poemas são como o vento,
 poemas são como as ondas
 que agitam o belo mar.

 O poeta abriu os olhos
 e exclamou:
 – Os poemas são como pássaros,
 livres pássaros e pássaros prisioneiros,
 pássaros voando no céu,
 aprisionados nas letras,
 aprisionados nos livros,
 quase canções do mar.

 Rindo, a Maria falou:
 – Agradeça a esse gatinha,
 você estava na ruína.
 Dê a ela um brinquedo novo,
 mostre a sua gratidão,
 pois voltou a sua inspiração.

Fonte:

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Arquivado em Curitiba, poema.