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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 12, final

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS DA UBT

AUTORIA: LUIZ OTÁVIO  –  acróstico: SÃO FRANCISCO
Simplicidade – Sendo a trova a expressão mais simples da poesia e, pois, um reflexo da alma do trovador, devemos  agir sempre com simplicidade na arte, nas palavras e nas ações.

Amor – Nosso padroeiro São Francisco de Assis – pregou o amor total. Assim, não nos devemos afastar deste ensinamento. Amor ao próximo, à nossa arte, mas também à UBT. Em outras palavras, fidelidade à nossa agremiação.

Ordem – Sem ordem, disciplina, responsabilidade – de dirigentes e sócios- não poderá haver progresso, segurança e paz. Faremos tudo para manter esta ordem, a fim de que possamos atingir nossos objetivos, elevando culturalmente o meio social em que vivemos.

Fraternidade – Todas as religiões pregam a fraternidade. O “pobrezinho do Assis”, ao fundar a sua Ordem, denominou seus companheiros de “Irmãos”. Nós que recebemos de Deus o dom da Poesia, mais do que ninguém, devemos ser, verdadeiramente, Irmãos Trovadores. Mas sem esquecer que a Bondade deve ser justa, o Perdão sem humilhações e a Tolerância sem fraqueza.

Renúncia – A Renúncia pode ser resumida em não querer tirar proveito da Associação para si, mas ao contrário, em dar algo de si para a mesma.

Autenticidade – Se desejamos fazer parte de uma comunidade devemos ser autênticos. E autenticidade exige lealdade, cooperação e trabalho.

Neutralidade – A U.B.T. tem finalidades definidas. Dentro de nossa Associação, os sócios devem abster-se de debates políticos e religiosos. A neutralidade deve ser compreendida, também, no sentido de isenção e imparcialidade, em nossos trabalhos de direção e julgamento.

Comunicabilidade – Se a Trova é o gênero mais comunicativo, nós, Trovadores devemos cultivar a comunicabilidade não só entre nós da U.B.T., mas também, com a sociedade que nos cerca.

Idealismo – Temos um Ideal em comum. Ideal simples de espiritualidade e de beleza. Na conquista deste Ideal devemos trabalhar com fé e, também, com dinamismo e perseverança.

Sinceridade – Se a todos os empreendimentos elevados é indispensável a sinceridade, nós, como artistas e trovadores, em nossas atividades repudiamos a mentira, a deslealdade, a intriga e a má fé.

Controle – Os dirigentes devem saber controlar, com habilidade e segurança, o setor que lhes foi dado para dirigir, zelando pela disciplina, pois dessa atuação, é que decorrem a uniformidade, a unidade e força de nossa Agremiação.

Obediência – Obedecer não é humilhante. Há na vida de nosso Padroeiro a lição:- ”Quem sabe obedecer, aprendeu a vencer-se e a triunfar”. A liberdade não afasta os princípios de ordem, disciplina e obediência. Aquele que sabe obedecer, que possui espírito de equipe, que acredita realmente na Lei, é o que poderá, com maior êxito, ser bom dirigente. A obediência aos nossos Estatutos, Regimentos e Declaração de Princípios é o que traz a ordem, a paz, a união, e faz a grandeza de nossa UBT- União Brasileira de Trovadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALENCAR,José, O Sertanejo, s/d, Edigraf S/A,SP.

BELTRÃO,Jorge,Ciclo da Trova,1975, Tipografia Escola Profissional,Pouso Alegre MG

Cadernos do Futuro, Língua Portuguesa, IBEP, 3º serie, sem data.

CEGALLA, Domingos Paschoal, Nova Minigramática da Língua Portuguesa,. Cia.Ed. Nacional, FNDE, 2004.

CENP, Letra e Vida, 2005, mod.III, M3U6T8, SSESP

CRUZ, José Marques da Português Prático, 1966,ed. 29º, Ed. MELHORAMENTOS:

CRUZ,José Marques,Seleta – Português Prático, 1944, MELHORAMENTOS:

FERREIRA, Delson Gonçalves, Língua e Literatura – Luso Brasileira, 1970,Editora Bernardo Álvares S/ª BH-(MG)

FERREIRA, Josué de Vargas, Trovas de Graça, 2006, ed. própria

FERREIRA, Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa (1964,p.XXXI ) ed.11ª 

GOLDSTEIN, Norma, Versos, Sons, Ritmos, Atica,1991.

LÉLLIS, Raul Moreira, Português no Colégio, 3º,Cia. Ed. Nacional,1951

LOUREIRO, Milton Nunes, Dos Sonhos Brotaram Versos,p.17,1976,Super gráfica ltda.

OTÁVIO, Luiz , Decálogo de Metrificação, UBT-1975, UBT-Nacional

OTÁVIO, Luiz , Meus irmãos os trovadores, 1956, Ed. Veck

TORRES/MELO, Artur de Almeida e J.Nelino, Manual de Língua Portuguesa, Cia. Ed. Nacional,1951.,

SANTOS, Renato Alessandro, Teoria da Literatura I, 2004, CEUCLAR  

TAVARES, Hênio, Teoria Literária, 5º ed..1974, Editora Itatiaia,BH-MG,

Jornais e Revistas
O Cruzeiro
 Livretos de Jogos Florais, edições da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.
Trovas e Trovadores,

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 11

2. PROJETO DE TROVAS

                 Duração e período:

         A duração deve ser quinzenal ou mensal dependendo do objetivo que se pretenda. Buscamos  estimular o aparecimento de poetas.

               Apresentação:    

O projeto tem por finalidade  despertar o gosto leitura,declamação e produção poética, através da Trova.

 Justificativa:

     Tendo em vista a presença da poesia nos livros didáticos, nas cantigas de roda e  diversos concursos de Trovas e Jogos Florais de Ribeirão Preto, a Oficina de Trova desenvolverá o gosto pela leitura e elaboração de trovas.

Objetivo

     Desenvolver a sensibilidade; valorizar o universo poético, como forma de comunicação com o mundo; trabalhar com as palavras e imagens obtendo novas possibilidades de expressar sentimentos, emoção, lirismo e humor.

Estratégia:

Apresentar a origem e a história da Trova. A Trova, como movimento literário no Brasil.  A Versificação: a forma e o fundo ou seja o corpo e a alma da trova. O Decálogo de Metrificação. Hoje os dicionários trazem as sílabas divididas, mas em poesia conta-se sons. Há diferença entre trova literária e popular. Temos por  classificação: humorismo, lirismo, filosófico, etc. Os elementos essenciais: coesão e coerência. A União Brasileira de Trovadores e os concursos. Livros de Trovas de resultados de  Concursos. Pesquisas virtuais sobre a Trova no Brasil e no mundo.

Avaliação:

O interesse de cada participante pela literatura, a produção literária, o preparo de textos para concursos e o domínio da versificação trovadoresca.

3. COMO PARTICIPAR DE CONCURSOS

 SISTEMAS DE REMESSA:
ENVELOPE,
CARTÃO POSTAL,
A4,
E-MAIL.

O interessado em participar de um concurso literário, deve em primeiro lugar ler com muita atenção o regulamento do certame. Tudo o que for solicitado deve ser cumprido. A quantidade de remessa de trovas não deve ser ultrapassada. Hoje temos variação de concurso para concurso. Há concurso que só se pode enviar uma trova, outros duas, três, cinco, dez… sem limite! Num passado, não distante muitos remetiam cinqüenta, cem, duzentas trovas se o tema fosse do seu agrado. Hoje notamos, em alguns casos, a recauchutagem (adequação composição não premiada) de trovas para novo concurso. Não somos favoráveis ao reaproveitamento. A escrita atinge melhor os objetivos da temática solicitada.

– Sistema envelope

O Sistema envelope (mais usual) deve ter a trova escrita na face de envelopes, no interior deste nome,endereço com cep,.e-mail e colado. Remeter em envelope comercial ao endereço do concurso e no remetente o nome que pedir no regulamento. O prazo, geralmente, é da chegada na cidade promotora. As cartas simples demoram de três a dez dias no Brasil e até quinze para Portugal. A melhor orientação quanto a remessa e chegada quem presta é a  ECT.

– Cartão postal

O sistema cartão postal teve realizações por várias entidades  de Ribeirão Preto. Na ocasião  foram oportunos e estão dentro das propostas da UBT. O nome do trovador vem no cartão com seu endereço completo. Todos são transcritos ou xerocados e da mesma forma do concurso de envelopes, forma-se caderno para  cada julgador. Não há conhecimento de quem está concorrendo. A maioria reclamava pela compra do cartão e tarifa postal. Procedimento caro.

– Sulfite A4

O sulfite A4, em três vias, é usado nos concursos promovidos por entidades Portuguesas. Ora solicitam endereçamento no próprio trabalho, ora identificação em envelope à parte sob pseudônimo usado no trabalho enviado.

– E-mail

Os concursos por e-mail têm ocorrido por algumas entidades. Apesar da  resistência por parte de alguns veteranos da trova, bons livros virtuais tem sido editados. Com os concursos via internet, tem havido concursos em língua espanhola.

No ano de 2.007, longas polêmicas em torno dos concursos semanais de trovas. A internet tem garantido a História da literatura atual. Os jornais diários não cobrem a vida literária das cidades onde circulam e são mantidos por publicidade. Como dissemos, é elástica a lacuna histórica que temos por parte da imprensa diária. Os jornais ampliaram o número de páginas, reduziram as fontes e vivem sem espaços  nesta temporada em que a pluralidade cultural vive em alta.

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 10 – Entrevista com Luiz Otávio

ANEXOS

 1. Entrevista

Via Correios, entrevistamos Luiz Otávio, a 10 de junho de 1975, cujas perguntas obtiveram as seguintes respostas:

(P= pergunta, R= resposta)

P.: Luiz Otávio, qual a importância  principal do Movimento Trovadoresco na  literatura Brasileira?
R.: O principal valor, eu diria melhor, uma das características fundamentais do Movimento Trovadoresco é a sua espontaneidade.Nasceu, brotou espontaneamente como uma planta. A te mesmo os que o plantaram não se aperceberam bem, no momento, o que estavam fazendo, E,aí, este Movimento difere, essencialmente, de tantos outros movimentos, sub-movimentos e hipo-sub-movimentos que tem surgido e,  as vezes, morrem antes do nascedouro. Alguns pretensos “gênios” se reúnem ( não muitos), fazem manifestos, deitam plataformas, conseguem suplementos-literários, querem destruir tudo que encontram (é outro “cacoete” destes pseudos-gênios), e … no fim, a  “coisa” dura muito pouco… Eles  mesmos não se entendem… Citar exemplos? São inúmeros. Mas não  há tempo, nem espaço. Já o nosso Movimento Trovadoresco  nasceu, aos poucos, sem saber que viria a ser um Movimento. Espontâneo, genuinamente brasileiro, popular, moderno (porque comunicativo, rápido e direto) e que, em poucos anos, cresceu muito e continua a crescer. Tudo isto, reunido e dito em poucas palavras demonstram a importância do Movimento Trovadoresco. Diria mais que ele, tal como aquele anúncio de óleo, excede  os limites da literatura brasileira. Tem sido também um movimento social e turístico. Para explicar tudo isto só mesmo um Ensaio ou uma crônica…

P.: O trabalho que a UBT vem realizando todos estes anos, sabemos que está marcando a história da literatura nacional do futuro; Perguntamos: por que os tratados literários atuais teimam em deixar de fora toda a grandiosidade deste trabalho?
R.: A pergunta é simples e boa, mas a resposta não é fácil e seria complexa. Respondo com perguntas: Quem sabe  se certos professores e críticos andam pouco afastados da realidade e não se aperceberam que há, em suas portas, um Movimento poético vivo,  palpitante,  popular:?  Quem sabe se eles têm certo receio ou  constrangimento para reconhecer e divulgar  esta verdade? Quem sabe se tem faltado a nós, os dirigentes ou mais antigos do Movimento, tempo, oportunidade, para ir às escolas, faculdades e suplementos e dizer,  bem alto: “Minha gente, há um movimento de Trovadores que poetas, povo, associações, comércio, indústria, já tomaram bastante conhecimento… Chegou a vez de vocês saberem que nós existimos. Mas, meu caro Nilton, já há uma reação. Já há professores que nos convidam a falar sobre trovas em seus colégios ou faculdades, outros que, em seus livros, já dedicam páginas aos trovadores e outros ainda, como um professor sacerdote, que nos últimos Jogos Florais de Friburgo, num belíssimo sermão, reclamava justamente isto que é o tema de sua pergunta: de algumas esferas literárias ou professores ainda ignorarem o valor da Trova e do Movimento Trovadoresco.

P.: Qual a preocupação do Movimento Trovadoresco, atualmente, em relação à classe estudantil universitária? O que os trovadores brasileiros tencionam fazer para demonstrar a originalidade do “Movimento” que é nacional e não importado como o Romantismo, Parnasianismo,Simbolismo, etc?
R.: A pergunta é comprida e profunda. Verei se resumo a resposta. Já temos procurado levar a Trova não só à esfera Universitária mas, também aos outros graus anteriores. Já fizemos palestras e concursos  nos meios ginasiais, colegiais e universitários, em muitas cidades que evitarei de citar os nomes para não omitir algumas. Quanto à preocupação de demonstrar isto ou aquilo, de atacar ( mesmo o que nos atacam), de mostrar as nossas qualidades ou virtudes, não tem havido. Nós temos vencido  porque realmente é bela  a nossa rosa e porque temos trabalhado muito, com amor e autenticidade, a fim de que ela sobreviva e se multiplique. Se outros cultivam ou camélias ou cravos de defunto ou couve-flor, não temos nada com isto… Podem até cultivar flores de papel, importadas… Que nos deixem em paz cultivando a nossa rosa…

P.: Na antiguidade os Jogos Florais foram lançados para propiciar o não desaparecimento da produção poética, no Brasil, segundo  o Sr. mesmo já escreveu, nossos concursos de Trovas e Jogos Florais apareceram com a finalidade preponderante de selecionar democraticamente as produções literárias brasileiras. Sendo experimentado, promovendo, participando, concorrendo, publicando tratados e livros com suas produções trovadorescas, por que ainda no Brasil têm-se um imenso déficit de publicações por editoras de nomeadas?
R.: Há anos notei e escrevi a seguinte curiosidade ou paradoxo: Na Idade Média, quando caiu a Poesia Trovadoresca, tiveram a idéia dos Jogos Florais, em Toulouse, em 1.322, para  revitalizá-la. No Brasil, só  após a Poesia dos Trovadores ter alcançado certo nível ou progresso é que senti condições propícias para lançar em 1960 os Primeiros Jogos Florais de Nova Friburgo. Sim, na verdade tenho afirmado que estes concursos foram um meio útil e democrático para lançar grandes trovadores no Brasil. Quanto aos livros, acho que tem havido muitas publicações. Se o interesse das editoras é pequeno, tem acontecido o mesmo com outros gêneros mais vendáveis como o romance e o conto.

P.: Quantos anos temos de Movimento Trovadoresco? Ou  o que melhor propiciou a corrente literária trovadoresca?
R.:Quanto à primeira parte, se aceitarmos como um marco  de nosso Movimento, como li na apresentação desta entrevista, a publicação do livro “Meus Irmãos, os Trovadores”,temos, então, que, no ano próximo completaremos 20 anos de Movimento. É claro que, antes disto, já eram feitas trovas e alguns livros eram publicados. Mas, trata-se  aqui de marcar um ponto de partida para algo que significasse aglutinação, propaganda maior, estudo mais profundo,etc. Embora sendo o autor do livro e não o autor da proposta de transforma-lo como um marco, acho  –  modéstia à parte  –  perfeitamente válida a idéia.

Quanto ao que melhor propiciou  esta corrente, além do que já ficou dito, de autenticidade, popularidade, atualidade, etc., e das finalidades culturais, sociais e turísticas, queria ainda apontar algo que considero de muita importância e que resumo: depois do Movimento Modernista, passado o fogo inicial, parecia  que a poesia tinha morrido. Tornara-se tão difícil, tão hermética, que apenas alguns iniciados ou alguns pretensos entendidos, apreciavam e entendiam esta Poesia. Depois vieram grupos e subgrupos. Cada  vez mais discussões,cada vez mais originalidade e menos entendimento. O público ia cada vez ficando desconfiado e retraído… Se, em todas as antigas Escolas – dos Clássicos, Românticos, Parnasianos, Simbolistas, houve sempre grandes intérpretes do sentimento popular, – do Povo das várias camadas sociais – com o Movimento Modernista tudo mudou. Somente as elites intelectualizadas, ou as pseudo-elites, compreendiam aquelas mensagens poéticas herméticas e muitas vezes sem melodia, sem ritmo e sem sentido… Vieram os trovadores e, modesta mas autenticamente, deram aquele grito da fábula: “O Rei está nu!” Apenas, ao invés  de dar este grito diretamente e de entrar em debate, começaram a fazer trovas, aperfeiçoar esta singela forma da poesia popular, a realizar concursos e festas, a fundar associações, a pronunciar palestras, a escrever artigos e livros, enfim, a Trova veio mostrar, com êxito, que a Poesia não morrera, veio restabelecer aquele elo destruído entre o Povo e o Poeta.

P.: O título de “Magnífico Trovador” com o qual o Sr. foi agraciado após tantos anos de idealismo, de dedicação, contribuindo para a integração nacional através da poesia, sabemos que é internacional através de convênio com entidades culturais de Portugal; fale-nos sobre isto.
R.: Acredito que haja uma pequena confusão do caro repórter. O título com o qual fui agraciado devido ao meu trabalho em Prol da Trova e dos Trovadores foi o de  “ Príncipe dos Trovadores Brasileiros”  – por um Congresso Nacional de Trovadores, em 1.960, em São Paulo. O outro – o de” Magnífico”  dos Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ) é um título muito honroso e difícil. Outros dez trovadores o obtiveram nestes 15 anos. Não tem nada com o trabalho pela Trova ou pela classe. Está relacionado a uma vitória, três anos consecutivos, entre os dez primeiros lugares, nos Jogos Florais. Mas repito: é um título muito honroso e difícil. Os dez que o obtiveram – e por ética permita tirar o meu nome – demonstraram talento,inspiração, fibra e, também, um pouco de sorte. Constituem uma verdadeira  seleção de trovadores, vitoriosos em várias cidades do Brasil. Para atingir este título não adiantam posição social, financeira, tentativa de protecionismo ou de corrupção. Nem simpatias ou troca de gentilezas como acontece na eleição de muitas academias… Com os “Magníficos” entraram em julgamento apenas as trovas, escondidas num pseudônimo. E chegaram quatro mil ou cinco mil ou mais trovas! E é preciso repetir  a vitória três anos consecutivos!

A presente entrevista, datada de 10/6/1975,Santos (SP) tem a assinatura de Luiz Otávio.

Continua…

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 9

 Luiz Otávio deixou-nos um estudo moderno de como fazer uma boa trova literária. Na página 3 do Decálogo informa: “buscando um denominador comum ou uniformização  de normas “que propiciaram mais liberdade e segurança para quem concorre ou promova concursos literários no país”. Olavo Bilac no Tratado de Versificação, na II parte trata da Métrica. Castilho, também, preocupado com a arte deixou-nos  orientações sobre  literatura poética.

Quando falamos na forma poética, buscamos provocar, no leitor, o envolvimento necessário para que no momento de inspiração consiga compor  a sua trova que além da métrica (forma) tem ainda a mensagem (fundo) ou seja toda trova tem corpo e alma e as rimas desempenham um rico papel no contexto. No decorrer do tempo, diversas outras leituras chegam-nos à mão e buscando melhorar nossa qualidade de desempenho. Silveira Bueno  editou em 1.958, em 5ª edição, um Manual de Califasia, Califonia, Carritmia e Arte de Dizer, indicando-o “para uso das escolas normais, ginásios oficiais –canto orfeônico e declamação”. A p.190,nos orienta sobre sílabas; Na leitura de versos  é indispensável observar rigorosamente as sílabas dispostas pelo poeta. O guia único e absoluto é o ouvido; na prosa as sílabas são contadas pela maneira de pronunciar; na poesia, pelo modo de ouvir.

O autor de trovas, participando dos concursos , integra-se, rapidamente, ao movimento literário da trova por todo o Brasil e co-irmãos de Portugal. Temos trovadores por todo o mundo e, via internet. Os concursos em língua espanhola tem sido o destaque do momento. Os concursos literários são responsáveis pela integração nacional em torno da Trova . Os trovadores, numa imensa confraria, têm um trabalho cultural, social e turístico através da poesia. Conhecedor do imenso legado que deixaria, Luiz Otávio, reforçava sempre esta mensagem:“ Amor, idealismo, trabalho, disciplina e união eu peço a todos”.

 Nas cantigas de roda, A Barata diz que tem (folclore) ou em músicas populares como a Banda de Chico Buarque sentimos a vida dos sete sons poéticos usados na Trova moderna.

Estava à toa na vida,
o meu amor me chamou,
pra ver a banda passar,
falando coisas de amor 
(Goldstein, 1991,p.8),
Conversando, conversando… é que percebemos pelos  versos falados em sete sons, o poeta que há em cada um de nós.

O que precisamos saber para fazer uma trova? Saber o que é uma trova! Estudar a vida da trova! Sentir que no telúrico nacional. A poesia está presente em tudo. Os bons letristas cantam em versos setissilábicos coisas que tocam fundo a alma e animam nossos sentidos. Ouça  Disparada  na voz de Jair Rodrigues. A letra de Geraldo Vandré, e música de Theo de Barros, explodiu nas paradas de sucesso há quarenta e dois anos depois do festival de MPB. Ouvindo a letra faça a escansão verso por verso e sinta nos heptassílabos, a força poética da forma (rítmo, melodia e expressão -gramatical e poética) e no Fundo (a mensagem, a originalidade e o achado, a comunicabilidade, a simplicidade, a harmonia interna) e podemos vibrar com a importância de cada verso da letra (forma) e a interpretação ( fundo) da produção musical que revela em sua letra importante exemplo da produção poética que tanto bem faz a cultura brasileira. Numa sala de aula, podemos usar o retro-projetor, ou animar em PowerPoint através de um projetor de imagens:

“Pre/pa/re o/ seu/ co/ra/cão/
pras/ coi/sas/ que eu / vou /com/tar/
eu /vê/nho /lá /do /ser/tão/
eu/ vê/nho/ lá/ do/ ser/tão/,
eu /vê/nho/ lá /do /ser/tão/,
e /pos/so/ não/ lhe a/gradar/.
                No http://www.google.com.br, podemos buscar além do texto a apresentação histórica do festival que ocorreu durante o período militar.

               Diversas outras canções enriquecem o estudo literário, métrico e sonoro das palavras; A Banda de Chico Buarque, Pois é pra quê de Sidney Miller; as cantigas de roda e declamações de Cordel. No site http://www.professorjuscelino.com.br, o prof. Dr. Juscelino Pernambuco apresenta interessantes análises musicais

                  Discorremos bastante sobre o que é trova e, justamente no nº 1, ano I, 1997, que Trovas & Cantigas nos informa sobre Trova Bonita:

– Evitar duas palavras iguais numa mesma trova, desde que essa repetição, beleza não contribua para reforçar a beleza e originalidade da trova.

– Manter nos três últimos versos o mesmo ritmo do primeiro,evitando assim a quebra do ritmo.

– Evitar sons cacófatos ou  não recomendáveis:

Esperanças sempre dão ( predão, pridão),
Só no amor foi-me ensinado. ( sono),
Toda ilusão que ela tinha. ( latinha)

Observar se os quatro versos da trova guardam, entre si, o sentido completo do tema. Embora a trova esteja bem feita quanto à forma, muitas vezes observa-se  o sentido dos dois últimos versos “ desligados” dos dois primeiros. As trovas comparativas exigem riqueza de imagem e uma boa idéia para serem bem-sucedidas. Ex.:

Minhas netas, sempre rindo,
são meu alegre evangelho.
Musgo verde revestindo,
de esperança, um muro velho.                    
Lilinha Fernandes
As trovas conceituais devem evitar o lugar-comum para não caírem na mera repetição de outros autores. A palavra saudade é a que mais tem sido “vítima” disso.

Também se observa um verso inteiro de outra trova (e de outro autor) sendo costumeiramente repetido por alguém. Não se trata de plágio, mas coincidência ou “traição” do subconsciente. Deve-se  conferir essa situação ao compor uma trova.

É melhor evitar rimas já muito exploradas como amor/dor, vida/querida, lusão/coração, há-de/saudade, alacridade/ saudade, abrolho/olhos, entre outras.

Luiz Otávio deixou, além do Decálogo de Metrificação, um estudo inédito sobre: A Música, O Ouvido e A Metrificação, datado de 2/9/1975, onde destacamos alguns trechos oportunos da trova:Há música em tudo: Música, no sentido dilatado da palavra, é som.

(…) Há música na poesia. Ora, se a Poesia é composta de palavras e se estas possuem sons, naturalmente a Poesia tem música. Bela ou feia,rica ou pobre,agradável ou não, todo verso tem um som. (…) No entanto, se a música de um verso é importante na Poesia, um fator inestimável para seu enriquecimento e valorização; não deve ser tomada como um fim,mas, simplesmente, como um meio. (…) Assim pois, a Música é útil e importante na Poesia, como assessório, como um pormenor da moldura, do quadro e não como a pintura ou a  mensagem poética propriamente dita. É não é só a  música que é um elemento  da moldura poética, que é Forma da Poesia. Na forma teríamos o ritmo conseguido pelas tônicas e pela metrificação, assim como a melodia é conseguida pelas rimas, pelo emprego harmonioso de vogais e consoantes e rejeição de sons duros de cacofonias, de homofonias, etc, E teríamos ainda na forma, na moldura, a música – no sentido de melodia-, da metrificação que é um elemento bem mais peculiar do Ritmo. Embora, em última análise, o ritmo seja um componente da Música. Mas separemos, para melhor entendimento, melodia ( ou linha melódica) e ritmo (dado pelo compasso) ou , no verso, pelas tônicas e pela métrica.Assim, quando me referir à música do verso, estarei falando em melodia, do som, da sonoridade, abstraindo-me, passageiramente, do ritmo (tônicas e métrica)..
               
 Luiz Otávio refere-se ao ouvido e a música; reforça que cada um tem seu gosto musical,

…na Poesia, o ouvido é importantíssimo para a composição de um verso melodioso, para distinguir ou julgar se um poema ou uma trova possuem ou não sonoridade, observando ou ouvindo suas rimas, o emprego harmonioso das vogais e consoantes, a ausência de junções duras, de cacofonias, de homofonias,etc.
         

CONCLUSÃO
Nestes três capítulos desenvolvemos a vida da trova através dos séculos, definindo a diferença que há sobre a trova popular e literária. Trouxemos diversas produções de autores que escreveram a história literária de nosso povo, sabendo que muitos outros poetas aqui não citados têm mensagens que reaparecem como por encanto reforçando a frase: A trova e o trovador são imortais. Sentimos plenamente que está no sistema de educação adotado a reinação literária de nossos autores. Lamentamos aqui que jornais e revistas distanciaram-se da difusão poética e deixamos claro que poesia é arte e que cada artista tem seu estilo, sua percepção de vida. O espírito criativo de nossos trovadores revela-se em todos os gêneros e sentimos que a trova humorística tem um encanto especial. Nela não está presente a maldade, mas a lapidação conveniente ao tema de circunstância.

Nos concursos literários, sob o tema não podemos dizer que são trovas de encomenda, mas endereçadas aos concorrentes, com a finalidade de selecionar as melhores que o momento social oferece. O trovador, como todo artista tem o seu estado de graça, e numa competição literária as melhores trovas saem de acordo com a banca de julgadores. Quanto maior o número de julgadores, melhor a seleção. Não lidamos, mais com a simplicidade das cantigas de roda, mas com a beleza da mensagem que ocupa a forma de 28 sons poéticos tendo na alma a originalidade, comunicabilidade, simplicidade e harmonia. Nas músicas apresentadas, sentimos o cuidado de cada letrista.

Procuremos mais envolvimento com a trova. Busquemos em cada leitura novas fontes mensageiras. Sejamos poetas, sempre! Luiz Otávio, Príncipe dos trovadores Brasileiros deu-nos um movimento literário e turístico. Confraria que promove a interação social dos trovadores com prefeituras, secretarias de educação, cultura, promoção social  e entidades literárias.

Temos que relembrar BELTRÃO (1975,p.21): Nunca existiu no Brasil maior movimentação literária do que a que faz a União Brasileira de Trovadores através dos seus Jogos Florais, iniciados em Nova Friburgo (RG) e seguindo-se-lhe a cidade de Pouso Alegre (MG)

Hoje, dezenas de cidades trabalham em prol da trova, promovendo seus poetas e escrevendo a nova história da literatura brasileira. A grande maioria de escritores com obras registradas na Biblioteca Nacional, ainda, são desconhecidos pelas publicações do MEC

No entanto, anualmente, temos a escolha de livros didáticos e  módulos para-didáticos, sem inovações significativas. BELTRÃO (1975,p.22) reforça:

Daí levarmos  ao conhecimento de todos os professores de português e literatura a existência do Ciclo da Trova, solicitando a inclusão em programas didáticos de um capítulo sobre a Trova, como medida justa e necessária, preenchendo uma lacuna existente nos programas oficiais de português e literatura.

Continua…

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 8

3.1 AINDA SE FAZEM TROVAS COMO ANTIGAMENTE

Na inauguração das trovas em torno da Fonte Luminosa, estavam presentes o prof.Antônio Palocci, do Departamento de Educação e Cultura de Ribeirão Preto, Nilton da Costa Teixeira da União Brasileira de Trovadores, UBT, Silvio Ricciardi, da Academia Ribeirão-pretana de Letras,o historiador José Pedro Miranda, Nilton Manoel, dezenas de populares e a presença de jornais e rádios. A repórter de O Diário, publicou no dia seguinte, 17/11/1974, interessante matéria sob o titulo: Ainda se fazem trovas como antigamente? A pergunta reflete a mesma indagação nos dias de hoje. A trova literária tem os mesmos três pilares históricos e básicos da trova folclórica:- lirismo, filosofia e humorismo que estas palavras por si revelam-nos seus significados. Sentimos que, os trovadores veteranos, gostam mais  da trova filosófica na temática dos concursos e estas, por motivos óbvios, tem sido menos popularizadas. Nos concursos estudantis, a trova lírica e a trova humorística despertam maior interesse na juventude e revelam bonitas mensagens. Nascem  dos concursos novos poetas que, são divulgados em  livros, revistas e republicadas em outras como na Folhinha do Sagrado Coração e no Almanaque Santo Antônio.    – ASA – organizados pelo Frei Edrian Josué Pasini, OFM, Editora Vozes, anualmente. Em livro antigo, sem data e editora, encontrei Francisco da Silveira Bueno dizendo que o objeto da poesia é “ a expressão da beleza”. Quanto a essência  “ podemos ter  poesia sem métrica, sem rima; não a teremos, porém, se lhe faltar ritmo”.

3.2 COMO FAZER TROVAS E SER TROVADOR

Cada verso da trova é feito de palavras escolhidas para métrica e formação de sons poéticos. Nos dicionários atuais, as palavras são apresentadas em silabas.  Cabe ao poeta, os conhecimentos básicos de versificação. “Trova é um poema completo de quatro versos de sete sons, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto”  Daí por diante. Depende apenas  de o autor ser poeta ou não”. (ASA,2008, p. 123).

Nos concursos literários, o concorrente, deve consultar o dicionário em busca da significação do tema proposto pelos organizadores. O sonho do trovador está na  confecção de uma trova perfeita. Quem quer ser premiado, escreve, reescreve, até que encontra a mensagem competidora.  O trovador sempre quer na ponta da esferográfica um achado ou seja idéia vantajosa, providencial e feliz. Nos  IV Jogos Florais de Ribeirão Preto (SP), 1978, com o tema  verde, em âmbito municipal, Geraldo de Maia Campos foi um dos premiados com a trova a seguir:

Não pode dar resultado
Sendo tu verde e eu maduro.
Eu tenho apenas passado,
E tu, meu bem, tens futuro!

(Jogos Florais em quatro tempos, UBT,PMRP;1978, p. 38)
      
Os concursos literários buscam o aprimoramento do gosto estético através do exercício da arte-poética, aqui ensejada pela trova, como estímulo à criatividade. Além, despertar o interesse pela literatura em geral e pela poesia em especial. Finalmente, incentivar os sentimentos humanitários para a vida social.

Na Declaração de Princípios da União Brasileira de Trovadores – UBT,acróstico São Francisco, escrito por Luiz Otávio, tem para a primeira letra: Simplicidade: Sendo a trova a expressão mais simples da poesia e, pois, um reflexo da alma do trovador, devemos agir sempre com simplicidade na arte,  nas palavras e nas ações”.

A trova é feita de palavras que devem ser as melhores ao tema proposto.A maioria dos poetas premiados em concursos  escreve, reescreve diversas vezes o texto para depois enviá-lo ao crivo dos julgadores literários. Cremos ser de grande valia, analisar as trovas premiadas no ano anterior. No âmbito nacional temos a têmpera do  produto final da banca e nas premiadas em âmbito local  a predileção  literária  dos trovadores da municipalidade.  Observe que são nas  palavras do texto literário, uma de mãos dadas com as outras, que encontramos infinitas possibilidades de expressão e de interpretação. (SANTOS,2006, p.12 )

Tendo por base o Decálogo de Metrificação de autoria de Luiz Otávio – fundador da União Brasileira de Trovadores, entidade de âmbito nacional – editado com a participação de poetas de todas as regiões do Brasil, ao ler: Ao estudarmos a Arte de Trovar ou a composição da Trova, devemos analisá-la em duas partes: o corpo e a alma ou a forma e o fundo. (OTÁVIO, 1975,pág.2)
Construímos com estas informações os quadros abaixo:

 ………………..Rítmo
Forma…………Melodia…………..gramatical
 ………………..Expressão……….poética

QUADRO 1 – FORMA

Na parte correspondente à Forma teríamos o Ritmo  –  resultante da metrificação e das tônicas: a melodia – conseguida pelas rimas e pelo emprego harmonioso das vogais e consoantes; a Expressão gramatical e poética. .(OTÁVIO, pág . 2,1975).

Mensagem
Originalidade (e o achado)
              Fundo        Comunicabilidade
Simplicidade
Harmonia interna

QUADRO 2 – FUNDO

Na parte correspondente ao Fundo, teríamos: a Mensagem poética, a originalidade (e o achado), a comunicabilidade, a simplicidade, a harmonia interna, etc.

 No Decálogo de Metrificação, a UBT, revela o cuidado  com a forma ligada ao ritmo, ou seja com a metrificação. A publicação oferece recursos para que o poeta componha  com segurança uma trova literária; e alerta: “ o idioma e o verso são os instrumentos do poeta”. O Ensaio lembra que é bom recordar noções sobre verso e pontos gramaticais.  Indicamos aqui a Minigramática de CEGALLA. Nesse Decálogo de Metrificação, temos  orientações e  trovas ilustrativas  de Luiz Otávio. Goldstein (1991, p.13)  sobre ritmo assegura: Cada época tem seu rítmo

– As sílabas são contadas até a última tônica do verso. Na aplicação das regras temos  por exemplo:

Poderá a força elétrica
de um sábio computador
ensinar contagem métrica
mas não faz um trovador.

 – As pontuações não impedem as junções de sílabas.

       Pensa em calma! Evita errar
       injusto és se nos reprovas…
       Pois não queremos mudar
       o modo de fazer trovas…

– Não se deve fazer o aumento de uma sílaba métrica os encontros consonantais disjuntos.(ou seja: não   usar o suarabact).  Ex. ignoro e não iguenoro.

Você pode acreditar                     
ter a pura convicção
que a ninguém vou obrigar
a ter a minha opinião…

         Comissão Central de Metrificação, UBT- Nacional, a 29/08/1974, atendeu a consulta da secção de Ribeirão Preto (SP) para sanar a dúvida com relação a palavra substituta usada em uma trova local. Luiz Otávio reforçou a necessidade de sistematizar os julgamentos de concursos de trovas. Hoje todos os trovadores brasileiros e portugueses concorrem em igualdade de condições

– Uma vogal fraca faz  junção com a vogal fraca ou forte inicial da palavra seguinte. §único: Aceitam-se exceções a esta regra no sentido de evitar a formação de sons duros e desagradáveis. Exemplo: “cuja ventura/única consiste”.   

Podes crer que és muito injusto
e estás longe da verdade:
pois na Trova, a todo o custo
defendo a espontaneidade…          
 

                 
– Uma vogal forte pode ou não, fazer junção com vogal fraca da palavra seguinte, no entanto jamais deve faze-la com vogal forte. § único – Nos casos  em que se prefira fazer a junção “forte + fraca”, deve-se ter sempre o cuidado de evitar sons desagradáveis ( “mais que tu/ardo”) ou formar  novas palavras (“via” ao invés de “ vi a..).

É uma história bem correta:
Em tudo o ensino é preciso,
No entanto, só/ o poeta
Quer ser gênio de improviso…

– Pode haver a juncão de três vogais numa sílaba métrica.
§1º – Não deve haver mais de uma vogal forte.

§2º – No caso em que a vogal forte não esteja  colocada entre  as vogais fracas e, sim, em 1º e 2º  lugar, para que seja  correta a junção, as duas vogais fracas devem juntar-  se por crase ou elisão, e não por sinalefa (ditongação). Assim estará certo: “ é a ambição que nos prende e nos maltrata” e  não se pode unir as três de ¨e a /íntima palavra derradeira’

§ 3º- Deve-se ser usada com cuidado a  junção de mais de três vogais, embora haja casos corretos de quatro ou cinco vogais.

Esta é uma trova indiscreta
Convenções, mal amparadas,
Induzem muito poeta
A convicções enraizadas.

– Os ditongos aceitam as prejunções com vogais fracas, (“e eu”). As postjunções são aceitas somente nos ditongos crescentes ( encontro instáveis) (“a distância infinita”) e são repelidas nos ditongos decrescentes. (“ Eu sou/a que no mundo anda perdida”).

§ único – Há casos de uso facultativo de prejunção de vogais fortes aos ditongos  e não e não ferem as tônicas das  palavras. ( aceita-se: “Será auspiciosa” e será inaceitável: “Terá/auto nos pontos”).

Para medir nossos versos
se o ouvido fosse o juiz,
em nossos metros diversos
ninguém poria o nariz…

– Nos encontros vocálicos ascendentes ( formados por vogais ou semi-vogais átonas seguidas de vogais ou semi-vogais tônicas), a sinérese  é de uso facultativo. (“ci-ù-me”  ou “ciume”, etc.).

§ único- Há neste grupo, excepcionalmente, encontros vocálicos que não aceitam sinérese. Geralmente, são formados pela vogal “a”  seguidas das vogais “a” ou “e” ou “o” (como em: Sa/ara, a/éreo,a/orta,etc.) ou, em alguns casos, da mesma vogal “a” seguida das semi-vogais “i” ou “u” tônicas, como em: “para/iso”, “na/u”, etc.

Na trova, soneto ou poema
em toda parte do mundo,
se a Forma é o seu di/adema,
a sua alma é sempre o fundo!

– Nos encontros vocálicos descendentes ( formados por vogais ou semi-vogais tônicas seguidas de vogais ou semi-vogais átonas) não se aceita a sinérese ( “tua”,”lua”, “frio”,”rio”, etc., e sim “tu/a”, “su/a”, “fri/o”, “ri/o”,etc.

§ único – Em algumas regiões do Brasil é usada a sinerese nestes encontros vocálicos, com base na  fonética local. No entanto, não será aceita na metrificação, em benefício da uniformidade, uma vez que na maioria dos Estados e feita a separação dessas vogais.

As dúvidas são pequenas,
 não sejas tão pessimista,
dá-me a tu/a ajuda, apenas,
e será bela a conquista.
                            
– O uso da aférese (“inda”, etc), síncope (pra”, etc), apócope  ( “mui”,etc ), e ectilípses (com a”, “o”, “as”;   “os”) é facultativo. 

 § 1º a junção de “com” mais palavras iniciadas com vogais átonas é correta mas pouco usada. Acompanhando a maioria dos poetas, sempre que possível, deve ser evitada. (com amor”, etc);

§ 2º A junção de “com” mais palavras iniciadas com gogais tônicas não será aceita. (‘com esta”, etc).                               

§ 3º A junção de fonemas anasalados “am”,”em”, “im”, etc.,com vogais átonas não será mais aceita. (“ formaram/idéias”, “cantaram/hinos”,etc).

§ 4º É preciso de cuidado com o uso de aféreses, síncopes e apócopes que, por estarem em desuso ou por formare,, geralmente, sons desagradáveis, irão ferir a sensibilidade e os ouvidos dos leitores e dos ouvintes.

É mui// feio criticar       (apócope)
/inda que seja um direito      (aférese)
-p/ra ser justo, aulas vem dar    (síncope)
com o teu plano sem defeito…     ( ectilipse)

Continua…

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 7

CAPITULO III

 PRÁTICA DA TROVA EM SALA DE AULA

Trovador, grande que seja,
tem esta mágoa a esconder:
– a Trova que mais deseja
jamais consegue escrever.
                       LUIZ OTAVIO

 A trova vem fazendo história através dos séculos. O intercâmbio  com os trovadores portugueses é freqüente, principalmente, através dos concursos anuais de trova. Fernando Pessoa, poeta, é autor do poema Psicografia, composto de três quadras de onde, a primeira estrofe, tornou-se popularizada pela imprensa  trovadoresca,  por estar na conceituação de trova literária. Vejamos o poema:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.    
(27/11/1930)

Podemos notar pelo “E” da segunda quadra ( quinto verso ) a dependência com a primeira. O mesmo ocorre com a terceira quadra (nono verso) que se “amarra” a segunda quadra com “e assim”.  A primeira quadra não tem nenhuma dependência com os versos posteriores, deixando-a livre no conceito de trova literária, aceito por gramáticos e filólogos, mas, ainda, não incorporado no vocabulário da literatura brasileira. A trova é um poema autônomo, monostrófico, em redondilha maior (heptassílabo), com rimas alternadas e não tem titulação. Nesta conceituação,  Luiz Otavio, em Trovas e Trovadores, ano III, nº 25, fevereiro de 1968, reporta-se ao poema Mãe de autoria de Barreto Coutinho. Vamos ler o texto jornalístico do antigo órgão oficial da UBT- Nacional?

EU VI MINHA MÃE REZANDO.
Em crônicas e introduções de livros tenho repetido que classifico a Trova quanto a sua origem em: popular (anônima), literária (também chamada erudita) e popularizada. (…) Desejo apenas relembrar que denomino de trova popularizada  a que é lida,repetida, algumas vezes até modificada pelo próprio povo, e que, aos poucos, vai perdendo o nome do autor. Sofre um processo de “folclorização”.

A trova de Barreto Coutinho, por muito tempo, anônima, correu mundo, mas conforme o texto de Luiz Otávio:

Nos III Jogos Florais de Juiz de Fora, aos quais não pude comparecer, foi premiado em 3º lugar o veterano poeta pernambucano, residente em Curitiba, Barreto Coutinho e que este lhe mostrara um recorte de jornal pernambucano, no qual se lia um poemeto intitulado “Mãe” em oito quadras setissilábicas, entre as quais a quinta, era justamente a famosa trova, com o primeiro verso diferente:“Uma vez vi-a rezando”, perfeitamente compreensível, pois havia o título (“Mãe”) e as quadras anteriores falavam em mãe.

                 Adiante Luiz Otávio escreve

Mas o povo, que às vezes é um colaborador perspicaz e inteligente, destacou essa quinta quadra que é de tal valia, de tanta riqueza de sentimento e de força de expressão, que teria mesmo de se libertar do Poema e
criar vida autônoma, emancipada. E surgiu então, o primeiro verso modificado para: “Eu vi minha mãe rezando”. E a quadra ou quadrinha que era ligada as suas irmãs, adquiriu asas e voou… Voou… correu mundo… é admirada,querida, recitada, repetida…”

O  poema editado no jornal A Província, Recife-PE, 28 de janeiro de 1912, trazia a quadra assim:

Uma vez vi-a rezando,
Aos pés da Virgem Maria…
Era uma santa escutando
 O que a outra santa dizia

 Com relação a primeira quadra de Autopsicografia não houve necessidade  de ajuda; é autônoma por si só. A trova de Barreto Coutinho, foi “contemplada”  com pequena inovação à oralidade, (Uma vez vi-a rezando’ para “eu vi minha mãe rezando”). Tornou-se autônoma e antológica. Vamos analisar a metrificação das duas:

Eu/vi/mi/nhá/ mãe/ re/zan/do ( até a última tônica, sete sílabas)
Aos/ pés/ da /Vir/gem/ Ma/ri/a
(sete sílabas poéticas na tônica )
…E/ra u/ma /san/ta es/cu/tan/do 
(sete )
O/que a ou/tra /san/ta/ di/zi/a. 
(sete)

O mesmo ocorre com a quadra intacta de Fernando Pessoa:

O/ po/e/ta é um/ fin/gi/dor/
Fin/ge/ tão /com/ple/ta/men/te
Que/ che/ga a/ fin/gir /que é /dor/
A/ dor/ que/ de/vê/rãs/ sem/te.

Continua…

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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Nilton Manoel (Didática da Trova) Parte 6

2.2 ORIENTAÇÕES E CUIDADOS QUE AJUDAM
Acreditamos que, o texto a seguir seja oportuno para quem lê, recita ou declama um poema:
“Aprender a pontuar não é aprender um conjunto de regras transmitidas através de um discurso sobre o que são e para o que servem os sinais de pontuação.
Aprender a pontuar é aprender um conteúdo procedimental de natureza complexa. E como todo conhecimento procedimental, pontuar se aprende pelo uso.
O sistema de pontuação não é composto apenas pelos sinais que conhecemos – ponto final,dois pontos, travessão, virgulas etc…. Dele fazem parte os brancos que centralizam o título, o branco que indica parágrafo, a letra maiúscula, os sublinhados, negritos, itálicos etc.
A função da pontuação no texto escrito não é indicar pausas para respirar. Sua função é separar, traçar as “fronteiras que” vão indicar ao leitor como o texto deve ser lido.
A pontuação é um atributo do texto e recurso da textualidade e não um elemento da frase.
Textualidade é aqui entendida como conjunto de relações que se estabelecem à partir da coesão e coerência.
( CENP, Letra e Vida, 2005, Mod.III, M3U6T8, p.1-2)
É necessário e importante conhecer rimas; porém, não podemos empregar uma rima que não combine a mensagem que está sendo desenvolvida no poema.
Rima é a repetição de sons semelhantes no final de um verso. Pode ser consoante (mesmo som a partir da vogal  tônica) ou toante (rima com a vogal tônica do verso). Na trova, as rimas são. Esquema ABAB.
O poeta deve ser paciente; ler, reler, declamar e trabalhar o poema até que fique pronto. Não devemos nos preocupar com o tempo gasto na feitura de um poema, mas com o seu produto final. O trovador Adelmar Tavares deu-nos a avaliação de fácil e difícil e Olavo Bilac no poema Profissão de Fé. A construção do saber é constante. Começamos lendo com os olhos e depois com todos os órgãos dos sentidos. As conclusões ocorrem à medida que desenvolvemos a aprendizagem poético-literária. Nos dicionários modernos todas palavras estão separadas em sílabas. O verso é feito com sílabas  (poéticas) e, isto leva a aprofundar os conhecimentos. O alfabeto é composto de 5 vogais e as demais são consoantes. Lembremos que o H tem o som da vogal e junta-se na métrica com a sílaba anterior. Cada vez que abrimos a boca, falamos um pedacinho de uma palavra e isto recebe o nome de sílaba. Na forma fixa o poeta  tem que ser exímio metrificador. As silabas gramaticais são apresentadas nos dicionários modernos, facilitando professor e aluno na docência e na aprendizagem. Os encontros de vogais são chamados vocálicos e os encontros de consoantes, consonantais. A palavra dia tem um encontro vocálico, porém  num verso metrificado é separada por ser um hiato. Com relação aos encontros consonantais, devemos atentar-nos na ocorrência do “suarabact”.  Quanto a pronúncia da sílaba forte, oxítona,na última (boné), paroxítona, penúltima (telefone), proparoxítona, antepenúltima ( bombástico). O acento agudo, serve para indicar que a sílaba é tônica e que a vogal têm som aberto. O acento circunflexo, serve para indicar  que a sílaba é tônica e tem o som fechado. A sílaba tônica é  vida  na forma poética. Diversos poetas têm produções com rimas em sons abertos e fechados. Já assinalamos em trovas anteriores esta ocorrência.  Quanto a classificação das palavras quanto a sílabas tônicas, citamos boné,telefone e bombástico. Quanto aos ditongos (encontro de duas vogais pronunciadas em uma mesma sílaba) tem  força na escrita  de um verso. O Decálogo de Metrificação  exemplifica-nos a importância. O hiato tem deixado muita trova sem premiação. As palavras dissílabas – lua, rua, tua; as trissílabas – poeta, miolo, saúde; as polissílabas  são menos  freqüentes nos versos heptassílabos.
Convém não esquecer  que verso é cada linha de um poema. Em algumas regiões do Leste e do Nordeste, por verso, é conhecida a quadra  popular sob a  influência das cantigas de roda.
Luiz Vieira, trovador e cantor de sucesso, visitando o marco zero de Ribeirão Preto, lendo as trovas que contornavam a Fonte Luminosa da Praça XV, assim escreveu, em 17/5/85:
Quando eu pude aqui chegar,
vi tanto amor, tanta graça
que resolvi vir plantar
um verso meu nesta praça.
Luiz Vieira, hoje cidadão ribeirão-pretano, homenageia a capital do Interior paulista, com a Cantiga pra Ribeirão, de onde extraímos estes versos:
nas praças pardais trovadores…
minha Ribeirão da Poesia,
minha capital do saber
Na metrificação de um verso, as sílabas são contadas até a última sílaba tônica. O que vimos neste capítulo reforça a estrutura da Trova, revê os conceitos dicionarizados e prepara-nos para a prática pedagógica da trova.
Continua… prática da trova em sala de aula

Fonte:
Nilton Manoel. A Didática da Trova. Batatais, 2008.

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