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Renato Modernell (Elogio da miopia (e do binóculo))

A inquietude do jornalista ao lidar com um mundo fluido, massificado e globalizado pode ensejar suposições enganosas. Uma delas, por exemplo, é a de que antes não era assim. Teria havido um tempo feliz em que a realidade era virgem, e não virtual; e a poesia estava em cada esquina da cidade, pronta para ser colhida. Outra suposição perigosa é a de que a platitude dos dias de hoje teria sua fonte nos fatos e nos objetos, e não em nossa maneira pouco poética, quase burocrática, de olhar para eles. Se folheamos jornais antigos, encontramos coisas surpreendentes.

Em 11 de novembro de 1900, Machado de Assis publicava em “A Semana” uma crônica confessional: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, cousas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver cousas miúdas, cousas que escapam ao maior número, cousas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.”

Feita a ressalva (ou, se quisermos, o elogio da miopia), Machado envereda machadianamente por assuntos prosaicos do Rio de Janeiro naquele começo do século 20. Seu poder de sedução faz com que, ao final do texto, tenhamos a impressão de que as tais “cousas miúdas” não são aquelas das quais ele trata, mas sim as que “entram pelos olhos” dos consumidores de jornais – no caso, a curiosa notícia telegrafada da França e a tragédia pessoal transmitida do Paraguai. Porém Machado, nesse parágrafo de abertura da crônica, está dizendo muito mais que isso. Anuncia que há um mundo lá fora, indiferente ao filtro representado pelo telégrafo, que clama por ser visto com outros olhos. Olhos raros, embebidos de certa condição poética. Raros, mas existentes. Era o caso de Lima Barreto, que cobriu para o “Correio da Manhã” a lendária demolição do Morro do Castelo, em 1905, texto depois publicado em forma de folhetim. E foi o caso também de outro escritor-jornalista, João do Rio, que anos depois mergulharia com os cinco sentidos no que chamou poeticamente de “alma encantadora das ruas”.

O que valia era a experiência direta das coisas, a entrevista, o incidente de esquina, pequeno mas carregado de significado. De resto, o telégrafo (na época, o supra-sumo da tecnologia da comunicação) dava conta das “cousas que entram pelos olhos”, ou seja, do cenário oficial ou, pelo menos, objetivo. Vamos fazer de conta, para todos os efeitos, que o suicídio do chefe da polícia paraguaia importasse mais ao cidadão carioca do que os camelôs que, já nos tempos machadianos, atravancavam o encanto das ruas.

Machado sugere que nas ruas de sua cidade (e, por extensão, nas de qualquer outra) em se colhendo, tudo dá. Era natural pensar assim, numa época em que também os peixes e as árvores pareciam inesgotáveis. O jornalista que enveredasse por algum beco obscuro e infecto, afastando-se dos corredores dos palácios ou das calçadas da Rua do Ouvidor, esquivando-se da notícia imposta pelo telégrafo, com certeza encontraria assunto.

Imaginamos que antes era mais fácil meter o nariz em trilhas não trilhadas, para quem se dispusesse a isso. Supomos que nem Machado, nem Lima Barreto, nem João do Rio encontrariam as mesmas facilidades se vivessem em nossos dias. Enfim, o mundo não é mais aquele.

Em crônica publicada em 22 de fevereiro de 2001, no semanário italiano “L’Espresso”, Umberto Eco adverte para o fato de que as ruas principais das grandes cidades do mundo se parecem cada vez mais umas às outras. Com engenhosa argumentação, mostra que nós, de certo modo, viajamos sempre para o mesmo lugar. O elemento “achatador” da realidade já não é mais o telégrafo, como no tempo de Machado, mas outro engenho que leva no nome o mesmo prefixo. É fácil: aquele caixote barulhento e despótico, com uma face de vidro, que fica em frente ao sofá da sala, onde está o controle remoto. Controle? Não temos controle de nada, exceto duns botõezinhos. “Conhecemos o mundo por meio da televisão, que com freqüência não o capta tal como é”, escreve Eco, e cita como exemplo a cobertura da Guerra do Golfo. “Vemos cada vez mais simulacros da realidade. No entanto, na nossa época, as pessoas se põem a viajar como nunca aconteceu antes. Cada vez mais gente, cujos pais se moveram no máximo a uma cidade próxima, me dizem ter visitado lugares com os quais eu, viajante compulsivo, diria até profissional, limito-me apenas a sonhar. Nenhuma praia exótica, nenhuma cidade perdida permanece inacessível.”

Conheço tal situação por experiência direta, por trabalhar em “Terra”. Ao longo de dez anos de existência, a revista consolidou seu prestígio com base em uma atitude de desbravamento. Mostrava lugares incomuns, remotos e inexplorados pelo turista tradicional. Agora, porém temos um dilema: quase já não existem mais (pelo menos no Brasil) esses lugares tidos como “virgens” ou “exóticos” que constituíram a própria identidade da revista perante o leitor.

Se pensássemos numa “alma encantadora das praias”, com a licença de João do Rio, teríamos de reconhecer que Jericoacoara se parece mais a Copacabana do que uma década atrás. Uma avenida de Calcutá cruza a nossa São João, e ninguém percebe. A crônica de Eco explora essa ironia contemporânea de que, quanto mais nos movemos, mais os lugares se parecem uns com os outros.

Onde meter o nariz, se tudo já foi farejado e visto? Transmitir o que, se tudo já foi retransmitido?

Para nós, jornalistas do século 21, modestos súditos de Machado, longínquos filhotes de Lima Barreto e João do Rio, saudosos sucessores de Marcos Faerman, só resta uma saída: a grandeza das “cousas miúdas”, a nitidez das “cousas de míopes”. Enfim, aquelas “cousas” que o telégrafo não dizia e a televisão, hoje, continua não dizendo. Lima Barreto, João do Rio, Marcão. O que cada um desses homens teria descoberto (ou captado, eis a melhor palavra) se por acaso vivesse no Paraguai, em novembro de 1900, sobre o suicídio daquele chefe de polícia? Cirrose oculta? Traição amorosa? E com que tintas teriam pintado o quadro? Vamos lá: o que fez o chefe de polícia nesse último dia de vida? Afinal, que “cousas” são essas, além do suicídio, que o tornaram diferente de todos os outros chefes de polícia do Paraguai? Marcão não estava lá.

Por isso essa notícia, aos olhos de Machado, perdeu-se no caudal diário da Grande Imprensa, que sempre percorre as mesmas avenidas, assim como nós viajamos para os mesmos lugares. Pegando carona com Umberto Eco, poderíamos dizer que, quanto mais se noticia, em volume e rapidez, menos as notícias se distinguem umas das outras, como as ruas e as cidades. A alma encantadora do mundo dá lugar a uma vertigem. Estamos a bordo de um carrossel em aceleração crescente, que no fim das contas não vai a lugar nenhum. É preciso saltar fora para voltar a captar as “cousas miúdas” de Machado, para “catar o mínimo e o escondido” que poderiam devolver o frescor que já não encontramos na realidade, por falta de condição poética.

Precisamos de olhos míopes – no sentido machadiano, não oftalmológico, evidentemente. Míopes no sentido de dissonantes, assim como os músicos mais ousados buscaram caminhos para além do sistema tonal, no momento em que o consideraram esgotado. Para se livrar da aceleração do carrossel, que paralisa os sentidos, o jornalista precisa redescobrir a alma encantadora das ruas, onde Marcão gastou muitas e muitas solas de sapatos.

O repórter precisa compreender e, nem que seja de vez em quando, experimentar um sentimento do mundo semelhante ao que o poeta polonês Czeslaw Milosz expressa no texto “A Condição Poética”, traduzido por Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik: “Como se tivesse, em vez de olhos, binóculos ao contrário, o mundo se distancia e as pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada, nada perde a clareza, fica mais denso. Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética. As coisas antes difíceis agora são fáceis, mas não sinto desejo forte de transmiti-las por escrito. Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo galopava e afligia-me o medo do que viria. A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura podia querer dominá-lo. Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim: por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros? Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano onde se viam nadando enormes peixes marinhos. Tive medo de que, se olhasse, cairia. Virei então, agarrei-me nas asperezas da parede rochosa, e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei a um lugar seguro. Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais, incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo vários tipos de molho.”

Fonte:
http://www.renatomodernell.com.br/texto1_ensaios.php?id=121

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Rafael Castellar das Neves (Era uma vez uma Novidade)

Ah, como é delicioso o sabor de uma novidade! Aquela novidade de algo surpreendente introduzido em nossas vidas e que nos rouba toda a atenção. Que nos faz dedicarmo-nos de maneiras improváveis e questionáveis. Que derruba valores, conceitos e definições. Que nos faz agir como inconseqüentes, passando por cima de tudo, de todos e até de nós mesmos, apenas para estarmos próximos. Que nos tira a concentração de todo um dia. Que não sai dos pensamentos, ou melhor, que é nossos pensamentos, e exige nossas presenças, ações e olhares. Como é bom viver a novidade, carregá-la no bolso do paletó, para cima e para baixo, exibindo-a a todos, com orgulho e arrogância. Aquela novidade que nos faz rever todos nossos conceitos, nossas atitudes, nossos sentimentos, nossos objetivos, nós mesmos.

Novidades assim nos fazem mudar, construir, destruir e, inclusive, nos enganar, simplesmente para tê-las plenamente em nossas entranhas. Dão-nos razão para um despertar alegre, para um dia entusiasmado, para um adormecer pueril. Fazem com que nossos corações batam empolgados, com que tenhamos o corpo inquieto por sentimentos intensos, com que as rédeas da razão sejam soltas para que possamos sentir o vento tocando nossos rostos enquanto somos tomados por uma sensação de paz em um galope sem destino, em uma praia qualquer, de braços abertos e peitos cheios.

Ah, melhor ainda é ser novidade! Ser desejado, ser perseguido, ser cobrado pela ausência, ser quisto no amanhecer, durante o dia, no tarde da noite. Ser pensamento de quem busca inutilmente o sono. Ser mantido no coração, ser fonte se sonhos de uma vida, ser motivo de felicidade buscada, ser alvo de destino manipulado, ser tido como o escolhido que nunca foi achado. Como é bom ser especial, ser buscado, ser cuidado, ser porto-seguro, ser afago, receber sorrisos de bom-dia.

É, mas a vida tem um senso de humor doente. Brinca conosco de forma cruel: sem que ao menos percebamos, transforma a novidade em algo comum. Aquela novidade se transforma em algo corriqueiro que não merece mais tanta atenção, dedicação e, nem ao menos, desperta aquela inquietude que tanto nos motivara. Desvaloriza-se e perde a prioridade em nossas vidas. Sai do bolso e vai para a estante, onde será vista vez ou outra quando passarmos sem pressa e, talvez, vez ou outra, trará aos nossos pensamentos algumas lembranças ternas do tempo em que ainda era novidade, mas sem aquela intensidade com que foi concebida. Na estante, faz parte da nossa paisagem, estará sempre lá e acreditamos que isso é suficiente. Que nada necessita ser feito, pois, se preciso for, basta apenas esticar os braços para ter a antiga novidade – novo algo comum.

Dizem que é assim que caminham as vidas. Que assim são as coisas. Mas não posso admitir isso, não posso admitir a estante. Não posso admitir que tenhamos o direito de tornar comum algo que nos faz incomum. Deixar de lado, sem mais nem menos apenas acreditando que está intrínseco e dispensa afagos. Uma planta que não é regada cuidadosamente todos os dias não nos mostra suas flores; ela seca!

Quero descobrir como se faz para passar por entre os acontecimentos rotineiros, os problemas, as prioridades, as dificuldades e sair do outro lado ainda como uma novidade. Mesmo não sendo uma novidade nova, mas que ainda seja novidade, eterna. Quero aprender como regar minhas plantas todos os dias para que, ao invés de secarem, continuem a florir minha vida.

Não quero ser paisagem, me nego a terminar em uma estante, empoeirado.

Fonte:
http://descemaisuma.blogspot.com

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Joaquim Evónio (Carta-Poema do Amor Universal)

foto de Martos Ribeiro
Não invoque meus poderes soberanos… depois não os poderá controlar… nem a eles, nem aos efeitos que provocam sobre nós!

Deixe-os descansar na concha em que dormem desde épocas remotas…

Vamos brindar aos tempos antigos em que nossas almas desnudas passeavam por entre as flores do paraíso… e os corações revoltos ansiavam asas para ganharem eternidades…

Momentos em que o mais ligeiro e efêmero afago epidérmico era um vulcão de primavera florida, transpondo almas e corações para o apex do universo…; numa transmutação que já não se sabia onde começava ou acabava, exatamente porque não tinha princípio nem fim…

Também não tinha morada, era mudança em andamento perpétuo, órbita estelar em movimento, beijos caídos do espaço e recolhidos nas taças quentes dos seios sequiosos…

Vôos sem pássaros ou borboletas dentro, apenas harmonia ou música sem pauta ou instrumento, melodia ou som flutuante sem apoio material, beijo sem lábios ondulantes caído nas mãos seduzidas duma amante amada para sempre abraçada ao seu amor…

Sem braços, sem corpo, só alma… chuva na ausência de tempestade sobre o sensível orvalho brotante em gotas de gineceu… à espera do fecundo néctar vindo do sidério, puro e filtrado pelas nuvens caprichosas de todos os céus, para descansar finalmente naquelas pétalas abertas, quase receosas mas abertas, altar iluminado à espera do amor…

Aproveita o silêncio da campina e faz dele o sino desta noite, bebamos o maná que brota de nós e trocamos de forma só nossa e profunda, transforma toda a canção em emblema de amor… E voa… Voemos como prosélitos que somos, por entre as nuvens de flocos brancos ou cinzentos, qualquer côr serve à limpidez dos sentimentos que nos enlevam e transportam por esse espaço etéreo…

Não fales, deixa selar de beijos esses lábios cansados da vida de mágoas, guardá-los num recôndito espaço do meu coração grande e forte, ali ficarão para sempre como recordação de toda a ternura da vida, até que a vida dure…

E enquanto formos capazes de voar, haverá juventude nestes corações ágeis e turbulentos, criadores e aventureiros, navios nos desertos dos ares ou gigantes contra todas as agruras que se lhes deparem….

Navegadores somos para sempre, objetivos temos e os buscamos com ardor, havemos de descobrir todas as terras por descobrir, e os céus também, e os espaços… e o que para além deles porventura ficar…

Somos os argonautas da amanhã porque já de ontem viemos e construímos um ninho de amor donde nasceram estes pássaros viandantes capazes de descortinar futuros inesperados e de lançar olhares de fogo sobre as madrugadas receosas de amanhecer para os corações apaixonados…

Viajaremos à vela ou apenas impulsionados pelo vento do amor… chegaremos ao nosso Shangri-lá e aí repousaremos e meditaremos para continuar a viagem eterna a que nos propusemos a bem da humanidade que acreditou em nós!…

Lá em baixo, aquela aldeiazinha é cada vez mais pequena, liliputiana, quase tão ridícula como as disputas dos homens, e aqui vamos nós, supernos e viajantes, nautas de hoje e de sempre, espargindo pelo universo o que somos e o que queremos…

A missão é grande mas ao nosso alcance, precisa de força, de muita força, daquela que só as sinergias do amor podem recolher para distribuir por todos quantos dela precisam para nos acompanharem nesta navegação de rumo certo e decidido!

Deram-se as mãos, entrelaçaram-se os corações, a humanidade ficou mais forte! Que poderá recear? Está mais do que nunca pronta para enfrentar o futuro. Este é o desconhecido e o desconhecido é o amanhã. Para lá chegar é indispensável ter aprendido o ontem e dissecado o hoje… Temos a certeza, porque não estamos sós, de que lá chegaremos….

O nosso objetivo, qualquer forma que revista do ponto de vista formal, só pode ter um nome, pois foi prosseguido e consolidado por nós. Esse nome só pode ser VITÓRIA!

Março de 2006

Fonte:
Site Varanda das Estrelícias
http://www.joaquimevonio.com/

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