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José Carlos Capinan (O Poeta no Papel)

MUDANDO DE CONVERSA

Não me venham falar de éticas
Prefiro locomotivas
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão
Atravessando o país
Vendo o povo acenando lenços brancos
(Campos férteis)
Aos que vão sul a norte
Leste oeste
Trilhos novos, outros brasis

E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos da antihistória
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos
Em trilhos magnéticos
E novamente pensar que podemos alcançar as estrelas

(Dakar, em maio/2006)
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ALGUMAS FANTASIAS

I

É noite, tudo é mistério, eu vejo
Há quem chore, há quem ligue a chave de ignição
Entretanto em meu coração fortemente chove
Chove chove chove

Enquanto chove, choro e relampeja
Se despem e se despedem todos os amantes
As chaves de ignição acendem os trovões
Apagam-se as velas e assim seja

VII

Os carros são cada ano mais potentes
E capazes de desenvolver velocidades surpreendentes
São capazes de atirar quilômetros animais árvores
gente
Não sei porque a vida se faz tão urgente

VIII

Sou político
E nem sei o que possa dizer com isso
Mas é da época ser político
E há vários políticos
E cada um tem a sua verdade política
E a sua maneira política de ser político
E cada político tem o seu melhor mundo a oferecer
Sou político e também penso que talvez tenha um mundo
Mas nem por isso, talvez somente fantasie inútil
E acredite poder alterar esse inexorável rumo.

Fui tão político às vezes que desdenhei as formas
E contestei as normas
E confessei ridículas as pétalas de rosas
Fui tão político às vezes que fiz da beleza uma coisa perigosa
E tão político às vezes que tornou-se a noite pavorosa
Fui tão político às vezes que se desfizeram as minhas
mãos amorosas
E tão político às vezes que pensei entender a guerra
O chumbo e a pólvora
Fui tão político às vezes que despendi mil impossíveis horas
Dissolvendo em amnésia todas as memórias

As máquinas são políticas
As poéticas são políticas
As canções são políticas
Mas eu desconfio que alguma coisa possa deixar de ser
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MADRUGADAS DE NARCISO

Encalho nas madrugadas as minhas velas em farrapos
Sou eu mesmo os marinheiros
Sou eu mesmo a cabotagem
Sou eu quem traça os portos do roteiro
E torna em desespero a bússola da viagem

Naufrago nas madrugadas
Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as mais
longínquas praias
Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade
Sou eu mesmo a terra à vista
Inalcançável
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OUTRAS CONFISSÕES

Narciso se despe, é noite, estão ladrando os cães
Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a noite
Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres das canções
Um traficante boliviano
Diz alô de Amsterdã
Um fracassado governante
Diz alô num telegrama
Tudo é ópio, para um ex-marxista
Para um ex-espiritualista, tudo é transe.
Tudo é provisoriamente eterno para os poetas
Tudo é eternamente provisório para os amantes
E o poema apenas a configuração do instante
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DIDÁTICA

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos)
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POESIA PURA

Se esta é a busca da noite enquanto noite,
A busca intensa que nada perturba,
Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta.
Nego a compreensão, pois ela já tem noções
E pode perturbar a flor pelo conhecer do homem.
Hoje não relaciono, não comprometo.
Quero a coisa em seu íntimo mais grave
Quero a coisa, essencialmente a coisa,
A coisa metafísica, para provar a impossibilidade.
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O REBANHO E O HOMEM

O rebanho trafega com tranqüilidade o caminho:
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele chegue
Ao campo ou ao matadouro.
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos
Ou ainda que sobreviva.
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:
Até na sede ele é tranqüilo
Até na guerra ele é mudo.
O rebanho não pronuncia,
Usa a luz mas nunca explica a sua falta
Usa o alimento sem nunca se perguntar
Sobre o rebanho o sexo
Que ele nunca explicara
E as fêmeas cobertas
Recebem a fecundidade sem admiração.
A morte ele desconhece e a sua vida.
No rebanho não há companheiros,
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.

O rebanho não vê a cara dos homens
Aceita o caminho e vai escorrendo
Num andar pesado sobre os campos.
—-

Fontes:
– CAPINAN, José Carlos. Confissões de Narciso. Civilização Brasileira, 1995.
– CAPINAN, José Carlos. Inquisitorial. Civilização Brasileira, 1995.

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José Carlos Capinan (Letras de Músicas)

Com trechos de depoimentos do autor em Vinte Canções de Amor e Um Poema Quase Desesperado

PONTEIO

(Parceria com Edu Lobo)

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor ou dinheiro
Era um era dois era cem
Vieram pra me perguntar
Oh você de onde vai de onde vem
Diga logo o que tem pra cantar
Parado no meio do mundo
Pensei chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra nem sol nem vento

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar

Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado sem ponteio
Violência, viola violeiro
Era a morte em redor mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Era um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá ho fundo buscar
Se toma a viola eu ponteio
Meu canto não posso parar

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar

Era um era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio
Este dia bem claro por inteiro
Eu espero não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo que vim pra buscar
Parado no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
Quem me dera agora

Eu tivesse a viola pra cantar
Ponteio, ponteio
Todo mundo
Pontear

“Em 1967, Ponteio ganhou o III Festival da MPB, enquanto era morto em SantaCruz de la Sierra, Bolívia, um mito latino americano, que derrubara em Cuba, ao lado de Fidel, a ditadura de Fulgêncio Baptista, criando pela primeira vez uma república socialista nas Américas. Neste festival, foram plantadas as sementes da Tropicália. Caetano Veloso defende Alegria, Alegria, e enquanto se preparava para cantar Domingo no Parque, entreguei a Gilberto Gil o poema-letra Soy Loco Por Ti, América. Considero estas três canções precursoras do Tropicalismo. E considero Ponteio o encerramento do ciclo que elejera o Nordeste como síntese de nossa postura estético-política”.

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SOY LOCO POR TI AMERICA
(Parceria com Gilberto Gil)

Soy loco por ti, América
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea Marti, que su nombre sea Marti
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica
Y ei cielo como bandera, y ei cielo como bandera

Soy toco por ti, América,
Soy toco por ti de amores

Sorriso de quase nuvem, os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas, o corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Esse país sem nome, esse tango, esse rancho,
Esse povo, dizei-me, arde o fogo de conhecê-la!
O fogo de conhecê-la

Soy toco por ti, América!
Loco por ti de amores
El nombre dei hombre muerto
Ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es pueblo,
El nombre del hombre es pueblo

Soy loco por ti! América!
Loco por ti de amores

Espero o amanhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes, soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra
Quem sabe, canções do mar
Ai, hasta te comover, ai, hasta te comover

Soy toco por ti! América
Soy toco por ti de amores

Estou aqui de passagem,
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços Nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher
Nos braços de uma mulher
Mas apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa, guerrilheira, manequim,
Ai de mim, nos braços de quem me queira
Nos braços de quem me queira

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

O anúncio da vitória de Ponteio no III Festival da Record coincidiu com a notícia da morte do Che, que me levou a chorar e a escrever, num repente alucinado, do começo ao fim, sem reescrever uma só linha ou palavra (…). Entreguei o poema, nos bastidores do Festival, a Gilberto Gil. Ele criou o hino que hoje se mantém vivo e que talvez me dê a maior satisfação de tudo que fiz. Esta canção tem um grande significado, talvez seja a que melhor expressa meu sentimento rebelde e lírico e me faz acreditar que pertenço a um momento em que a América Latina era central em nossas idéias e destino, tudo sonhado revolucionariamente. Soy Loco por Ti, América me dá o imenso prazer de, querendo ser poeta, poder assim testemunhar nosso estar no mundo.”

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CLARICE
(Parceira com Caetano Veloso)

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouca me ficou
Igrejas brancas, luas claras nas varandas
Jardim de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar

Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito de não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos de frutas e passarinhos
Mas jamais que se despiu
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio

Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhação
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Soldado fez continência
O coronel reverência
0 padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice era inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram
As avós

Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Tem que um dia amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembrança
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda
Soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo tempo que existisse

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração?

1966 (…) Morava no Rio de Janeiro, numa espécie de exílio interno, que vivi ao sair da Bahia, em 1964. Eu tinha uma idéia recorrente de voltar. Algumas vivências de adolescente insistiam em permanecer no meu coração, resistindo ao sex appeal das garotas de Ipanema, pelejando com as novas emoções que o Rio oferecia. E eram muitas. Mas a quase namoradinha do interior permaneceu como ícone da beleza nativa, a cobiçada filha de seu Cícero (…). Escrevi Clarice num surto de banzo. E mostrei o poema a Suzana (filha de Vinícius de Moraes) e Macalé. Suzana identificou Caetano como parceiro ideal (…) A morena Clarice foi gravada também por Orlando Silva, o que vim a descobrir após a sua morte”.
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PAPEL MACHÊ
Parceria com João Bosco

Cores do mar
Festa do Sol
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz
No seu colo dormir
E depois acordar
Sendo seu colorido brinquedo
De papel machê

Dormir no teu colo
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer
Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor do batom
Arco-íris crepom
Nada via desbotar
Brinquedo de papel machê

Poucas canções eu fiz tomando como ponto de partida uma melodia já composta. Ponteio e Papel Machê foram raras exceções. Gosto de escrever os poemas ou letras livremente, sem um padrão a ser alcançado… Esta parceria com João Bosco é um dos maiores sucessos de tudo que escrevi. Eu estava feliz e bem amado quando a fiz e me interessava muito pelas relações amorosas que dão certo, porque me sinto mal-educado afetivamente (…)”

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br

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