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Martins Pena (O Juiz de Paz na Roça)

O Juiz de Paz na Roça (1838) é uma peça teatral de Martins Pena (1815-1848). Trata-se de uma comédia em um ato de 23 cenas, primeira obra de Martins Pena a ser representada, em 4 de outubro de 1838, no Teatro de São Pedro, pela companhia teatral de João Caetano (1808-1863).

Enredo

A peça passa-se na roça e aborda com humor o jeito particular de ser da gente roceira do Brasil do século XIX, focando as cenas em torno de uma família da roça e do cotidiano de um juiz de paz neste ambiente e explorando uma série de situações em que transbordam a simplicidade e inocência daquelas pessoas.

Na comédia, o juiz de paz é um pequeno corrupto que usa a autoridade e inteligência para lidar com (e suportar) a absurda inocência dos roceiros, que lhe trazem os mais cômicos casos. O escrivão aparece como servo mais próximo do juiz e viabiliza suas ordens; no entanto, não é intencionalmente corrupto e chega a surpreender-se com algumas decisões de seu superior. A família de Manoel João (incluindo o negro Agostinho) mais José da Fonseca formam o núcleo mais importante da peça. Os outros personagens são roceiros que servem para apresentar ao juiz de paz as esdrúxulas situações que ele deve resolver.

Análise da obra

O Juiz de Paz da Roça (1833), obra de Martins Pena, é considerada a primeira comédia de costumes do teatro brasileiro. Influenciada pelo teatro picaresco espanhol, possui, além da crítica social e do diálogo coloquial, características posteriormente encontradas na chanchada, no teatro de revista e outros gêneros populares, como a piada de duplo sentido e a utilização de danças e canções. Além disso, traz também, sob a influência dos franceses – o que o faz ser chamado de Molière brasileiro –, o teatro que, por meio do riso (outro ponto de contato gilvicentino), a descrição e a crítica aos costumes do Rio de Janeiro de meados do século XIX. E tudo de forma simples, natural, espontânea, ágil.

Espaço / Tempo

Rio de Janeiro – casa de Manuel João e casa do Juiz de paz. A peça é de 1837. O momento histórico da ação é o mesmo da Revolução Farroupilha, acontecida no Rio Grande do Sul, em 1834: é da convocação militar que José, noivo de Aninha, vem fugindo. 0 casamento seria justificativa legal para seu não recrutamento. Coincidentemente, é Manuel João o encarregado de conduzir o recruta ao serviço militar – o que não acaba acontecendo, naturalmente

Temática

Criticar as convenções sociais, o casamento, a família, o governo e satirizar figuras como padres, juízes, políticos inescrupulosos e novos ricos.

Estrutura da peça

Ato único com 23 cenas (incluindo a Cena Última)

Personagens

As personagens de Martins Pena são pessoas comuns em situações do dia-a-dia, como casamentos, festas, envolvidas em pequenas intrigas domésticas etc: juiz de Paz; escrivão do Juiz de Paz; Manuel João; Maria Rosa; Aninha; José da Fonseca; lavradores.

Enredo

O enredo é simples: trata-se de uma sátira à aplicação da justiça nas províncias remotas do Segundo Império, denunciando a corrupção e o abuso das autoridades. Sem dúvida foi esse o motivo do estrondoso sucesso da sua primeira encenação, em 1848. Faz menção à Guerra dos Farroupilhas, ao contrabando de escravos e outras mazelas sociais.

Peça de um ato, o texto é considerado o nosso Monólogo do Vaqueiro, já que é o inaugurador, literariamente, de nosso teatro. Como seu título indica, a trama dedica-se a descrever os costumes da zona rural, o que era a preocupação das primeiras obras do autor. Depois de infeliz passagem para a tragédia, o dramaturgo voltaria às comédias, mas ambientadas na Corte. No entanto, como se verá, o foco de sua crítica não mudou.

Assim como nas peças de Gil Vicente, somos jogados de chofre no meio da história. Essa técnica recebe o nome de “in media res”. Assim, por meio do diálogo de mãe (Maria Rosa) e filha (Aninha) sobre a labuta do pai (Manuel João), tomamos conhecimento de todo o sofrido universo de valores, costumes e tarefas da roça, como a necessidade de mais mão-de-obra escrava, atrapalhada por dificuldades econômicas. É interessante como essas preocupações por demais pragmáticas são apresentadas diante de um público romântico e com tendência à evasão e à idealização. Até que ponto estaria ocorrendo um desvio aos padrões estéticos burgueses?

Aninha, ciente da iminente chegada do pai, cansado do trabalho, lembra a mãe que este iria gostar de jacuba (um tipo de refresco). A senhora sai de cena, para a preparação da bebida. Tratava-se de um expediente da menina para que ficasse sozinha e recebesse seu namorado. Esses estratagemas são muito comuns no tipo de teatro que Martins Pena estava inaugurando. Dão mais agilidade à trama.

Aumentando a velocidade do texto, as cenas são curtas, tendo apenas a extensão necessária para o desenrolar dos fatos. Tudo é essencial, econômico, importante, inclusive as rubricas (marcações da cena), que são precisas e significativas até no vestuário. O autor demonstra aqui a consciência de que o teatro é encenação, é para ser visto principalmente. Isso explica a importância de se lembrar que o namorado de Aninha, José (note a simplicidade dos nomes) veste roupas brancas. Em plena roça, esses trajes reforçariam uma tendência, disseminada em outros momentos, da personagem a não enxergar que seu papel é trabalhar e não pensar em prazeres da vida apenas, como se fosse um bon vivant.

Nesta segunda cena ocorre o encontro amoroso entre José e Aninha. Nela se manifesta uma característica comum do autor, que é a utilização do exagero caricaturesco, percebido no instante em que Aninha recusa o abraço de seu amado. Só depois do casamento é que pode! E ainda alfineta dizendo que esse “abuso” fora causado pelos maus costumes adquiridos na Corte.

Há também nesta cena, por meio do diálogo dos namorados, um elemento que é crucial na obra do autor: o contraste entre a roça e a Corte. O rapaz, após a estranha explicação de que não sobrara vintém do bananal que recebera de herança – revelador, no mínimo, da imaturidade da personagem –, diz como pretende se arranjar com sua amada: vão-se casar às escondidas e se mudarão para a Corte. Para seduzir Aninha, faz uma descrição completamente distorcida da Capital, apegado apenas ao aspecto exótico, como se a vida lá fosse prazer, diversão. Isso é percebido no diálogo abaixo transcrito:

JOSÉ – Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.

ANINHA – Mas então o que é que há lá tão bonito?

JOSÉ – Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.

ANINHA – Oh, como é grande!

JOSÉ – Representa-se todas as noites. Pois uma mágica… Oh, isto é cousa grande!

ANINHA – O que é mágica?

JOSÉ – Mágica é uma peça de muito maquinismo.

ANINHA – Maquinismo?

JOSÉ – Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, e um homem vira-se em macaco.

ANINHA – Em macaco! Coitado do homem!

JOSÉ – Mas não é de verdade.

ANINHA – Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?

JOSÉ – Tem rabo, tem. Essa visão distorcida provoca riso na platéia, composta de burgueses da Corte. No entanto, fica subentendida uma crítica de Martins Pena à mania desse grupo em tentar se equiparar à Europa, não se tocando de que é tão provinciana – trata-se de uma nação recente – quanto a roça. A maneira como Aninha imagina a Corte (em que acaba até comicamente misturando tudo o que José descreveu) deve ser a mesma maneira como enxergávamos e ainda enxergamos o Primeiro Mundo.

Enfim, o encontro é abreviado por causa da iminência da chegada de Manuel João. Assim, combinam o casamento para o dia seguinte, de manhã.

A chegada do pai serve para que mais uma vez entremos no cotidiano simples da classe baixa rural. Ficamos sabendo das lamentações por uma vida trabalhosa, das tarefas feitas e a serem realizadas e até da janta (carne seca, feijão e laranjas). Não se poupa nem mesmo a menção ao fato de já ter acabado carne seca. Lembra o esforço, muitas vezes fracassado, que algumas novelas globais tentam de retratar o dia-a-dia.

Ao bater da porta, mais uma vez o ridículo será utilizado, dessa vez por aspectos visuais (um procedimento também comum em Martins Pena, que remonta à tradição circense e que deu origem ao pastelão): Manuel João trata de esconder a comida e ainda – beiramos o grotesco – lambe os dedos. É pobreza extrema misturada a mesquinharia e sovinice.

Quem entra em cena é o Escrivão, que traz uma intimação do Juiz de Paz: Manuel João tem de levar até a cidade um prisioneiro como recruta para a revolta que estava havendo no Rio Grande do Sul. João não entende por que justo ele tem de realizar tal tarefa, o que representaria a perda de um dia de trabalho. As preocupações imediatas, ligadas à sobrevivência, entram mais uma vez em foco. O Escrivão informa que ninguém a aceitava. João mais uma vez protesta, dizendo que ele não tinha culpa nenhuma dos problemas arranjados pelo governo. Nem mesmo dá atenção ao argumento ligado a patriotismo. No entanto, cede, diante da ameaça de prisão.

Observe-se que há críticas fortes aqui que chegam a se chocar com o conjunto de valores burgueses. Seu efeito só não é de imediato fulminante porque tudo se dilui em meio ao humor e principalmente por estar na boca de uma personagem que age de forma tão estabanada.

A partida de Manuel João é feita em meio a inúmeras recomendações sobre as tarefas a serem feitas de ambos os lados, tanto para os que ficam, quanto para o que vai. Mais uma vez o cotidiano simples retratado de forma viva, natural e colorida. Destaque seja feito ao pedido que Aninha faz ao pai: já que vai à cidade, que lhe trouxesse sapatos franceses. Outra crítica que se dirige não à roça, mas à Corte e ao seu apego à ostentação das superficialidades do universo europeu.

A próxima cena é já na casa do Juiz de Paz, funcionário que tem a função de conciliador dos conflitos de sua jurisdição. É provavelmente o melhor momento da obra, por causa principalmente dos jogos de palavra que se estabelecem.

Em primeiro, ficamos sabendo de um presente recebido pela autoridade:

“Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um caicho de bananas maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à V. Sª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sª há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas.” É saborosa a maneira com que o autor enfoca a simplicidade do povo, por meio, primeiro, de pleonasmos (“comer com a boca”) e por expressões inadequadas, mas cômicas (“V. Sª Juíza”, no lugar de “esposa do Juiz”, e “Srs. Juizinhos”, no lugar de “filhos do Juiz”). Há também a confusão que se faz entre o tom cerimonioso, adequado à situação, e o familiar, íntimo, inadequado. Mas há ainda uma crítica à corrupção do magistrado, pois Manuel André, a personagem que presenteia o juiz, participará, como se verá, de uma ação litigiosa. Além disso, olha a visão distorcida (será?) que se tem sobre os efeitos da Nova Constituição.

O primeiro caso a ser resolvido envolve Gregório, Inácio José e sua esposa Josefa Joaquina. A transcrição de um trecho apresenta elementos suficientes para análise:

JUIZ – É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

GREGÓRIO – É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

JOSEFA JOAQUINA – Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

JUIZ – Nada, nada, não é preciso; eu o creio. Martins Pena manipula com eficiência e colorido os elementos dramáticos, reproduzindo com fidelidade não só a linguagem coloquial, mas também a psicologia das personagens. Prova disso é que Gregório e Joaquina desviam-se da resolução de sua contenda em meio a ofensas. Fica nítido, por exemplo, que o aspecto infantil do raciocínio de Joaquina, que, ao invés de apresentar argumentos na discussão, devolve ofensa, atacando a mãe do oponente.

O mais incrível é a decisão do Juiz, que, além de paternalista, é contraditória. Se por um lado dispensa Inácio e Joaquina, sob a alegação de que umbigada não constitui crime em nenhuma lei, por outro ameaça Gregório de aplicar a lei “às costas” se este continuar a praticar umbigadas. E arbitrariamente encerra o caso com um “Estão conciliados”, o seu bordão.

Em seguida é lido um outro requerimento de Manuel André. E mais uma vez o suborno: na introdução do requerimento, antes de anunciado o assunto, avisa-se, meio que en passant, que um cacho de bananas será enviado ao Juiz. E novamente a mistura cômica do tom familiar com o solene.

Tratava-se de uma questão de divisa de terra. O Juiz delega ao suplente a decisão. O problema é que ambos estavam atarefados com seus próprios roçados. Note-se que o suborno não foi eficiente. Note-se também o descaso e incompetência no exercício das funções jurídicas.

Manuel André protesta. O Juiz ameaça com cadeia. O pleiteante faz lembrar a Constituição, fortemente desprezada pelo magistrado. Confusão é formada – mais um elemento de gosto popular no corpo da peça – e Manuel André acaba fugindo.

O outro caso é entre João de Sampaio e Tomás. O primeiro é dono de um leitão, que invadiu as terras do segundo. Estabelece-se uma briga até física – mais uma cena à pastelão, com os dois reclamos puxando, um de cada lado, o objeto de disputa. O problema é resolvido com a determinação do Juiz – um tanto egoísta – de ficar com o bicho. Ainda manda que seja trazida ervilha para a complementação de um prato que imaginara. E, pior, folgadamente determina que um dos contendores coloque o suíno no chiqueiro. Exibe-se a aplicação torta da lei, apenas para atingir interesses pessoais. No fim, o bordão: “estão conciliados”.

Como um adendo, Sampaio quer que tudo seja citado na Assembléia Provincial. O Juiz não autoriza, achando o assunto irrelevante. Tomás convence-o do contrário, lembrando os votos que o magistrado havia-lhe pedido para os integrantes da tal instituição legislativa. Corrupção, troca de favores, compra de votos… Problemas de longa data!

O próximo caso é de Francisco Antônio, Rosa de Jesus e José da Silva. A transcrição abaixo do requerimento dá mais detalhes:

“Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. ‘Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava tem um filho que é meu, peço a V. Sª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher’”. Observe-se como a manipulação da linguagem abre no texto uma ambigüidade saborosa, apesar de rasteira.

A decisão do Juiz seguiu o caminho que parecia mais lógico: em favor de Francisco e Rosa de Jesus. José da Silva protesta, diz que vai recorrer, mas o magistrado faz pouco caso – tem procedimentos jurídicos para invalidar os questionamentos. Há mais reclamações, sufocados quando o magistrado manda prender José da Silva e fazê-lo recruta. Diante do pior, o protestante abre mão das queixas.

Nesse momento, chega Manuel João para receber o preso. E, preocupado com coisas imediatas, obtém autorização para deixar em sua casa o prisioneiro, pois que já estava chegando a noite.

Na chegada à casa de Manuel João ocorre outro expediente típico da dramaturgia popular: a surpresa causada pela descoberta da identidade de uma personagem. Causa curiosidade o espanto de Aninha ao se deparar com o prisioneiro. Depois que pai e mãe saem, a filha solta o recruta e fica-se sabendo tratar-se de seu namorado, José. Havia sido preso, alega, de forma extremamente arbitrária: “Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar.” Há um potencial de crítica aqui, que, diluído, não é aproveitado.

O casal foge para se casar. Quando os pais descobrem o que ocorreu, surge alvoroço, revolta e decepção, mas engraçadamente há espaço para um certo alívio de Manuel João, que estava livre da tarefa de levar o prisioneiro no dia seguinte. No fim, toda a culpa recai, comicamente, sobre a guerra que se processava no Rio Grande do Sul. A culpa é do Governo (como dizia uma antiga personagem humorística da televisão). Talvez por isso Manuel João resolva dar parte ao Juiz.

No entanto, é interrompido com a chegada do casal fugitivo, já casado. Tudo acaba em abraços. É essa explosão de felicidade (estamos indo na direção do desfecho da obra) que retira da obra um fôlego mais forte para se dedicar a uma ferrenha crítica social, no estilo do Realismo.

Resolvem, então, dar outra parte ao Juiz, agora de tom mais positivo.

A próxima cena é na casa do magistrado, que comunica ao escrivão a necessidade de consultar um letrado – deixa claro que não entende muito de leis. Antigamente, toda vez que surgia um problema cuja solução não conhecia, simplesmente usava um “Não tem lugar.” e o empurrava. Deixou de utilizar esse expediente porque uma vez quase tinha sido suspenso. Esses são mais ingredientes para que possamos denegrir a imagem desse funcionário. O escrivão até pergunta se tudo isso não era motivo de vergonha. Resposta:

“Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz…” Suas reflexões são interrompidas com a chegada de Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José, que lhe comunicam o casamento. Dessa forma, livra-se a personagem da obrigatoriedade de se tornar recruta.

A primeira reação do Juiz é desmoralizar José, chamando-o de biltre. Mas depois pede para perdoar a ofensa. O magistrado é de fato uma personagem rica em suas contradições, tornando-se extremamente humana, tanto que decide comemorar o matrimônio em sua casa, caindo todos na dança e na cantoria, conforme atesta o trecho final abaixo transcrito:

TOCADOR, cantando – Em cima daquele morro

Há um pé de ananás;

Não há homem neste mundo

Como o nosso juiz de paz.

TODOS – Se me dás que comê,

Se me dás que bebê,

Se me pagas as casas,

Vou morar com você.

JUIZ – Aferventa, aferventa!… Tudo termina bem, em festança, em folguedo, afugentando todo e qualquer elemento (e os há na obra em grande quantidade) que pudesse desagradar os padrões do público burguês romântico.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/

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João Guimarães Rosa (Sagarana) (Parte final)

Artigo do prof. Teotônio Marques Filho
Parte I = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/05/joao-guimaraes-rosa-sagarana-parte-i.html
Parte II = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/05/joao-guimaraes-rosa-sagarana-parte-ii.html
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6. São Marcos

Narrado também na primeira pessoa, “São Marcos” é outro conto de linha trágica e esta sob o signo da superstição:

Izé ou José, o narrador, era um homem que não acreditava em feiticeiro: “Naquele tempo eu morava no Calango-Frito e não acreditava em feiticeiros” (221). Vivia a fustigar João Mangalô, feiticeiro de fama e escama naqueles rincões. Nhã Rita, preta cozinheira dele, vivia a adverti-lo:

“- Se o senhor não aceita, é rei no seu; mas abusar não deve”. (224).

E relatava o caso da lavadeira que desfeiteara a velha Cesária e sofrera, de repente, agulhadas inexplicáveis “no pé (lá dela!)”.

Mas ele, sempre incrédulo:

Você deve conhecer os mandamentos do negro… Não sabe? “Primeiro: todo negro é cachaceiro...” “Segundo: todo negro é vagabundo”. “Terceiro: todo negro é feiticeiro…”

Ai, espetado em sua dor-de-dentes, ele passou do riso bobo à carranca de ódio, resmungou, se encolheu para dentro, como um caramujo à cocléia, e ainda bateu com a porta (228)

Depois disso, voltando da missa, encontra com Aurísio Manquitola que lhe narra o caso de Tião Tranjão, que era um sujeito um tanto tolo e burro, e acabou aprendendo a oração de São Marcos que é “sesga, milagrosa e proibida”, com que resolveu os seus problemas conjugais de ter mulher, e esta dormir com os outros.

O narrador vai andando. A natureza ao seu redor atrai as suas vistas. Escreve versos num tronco, e quando lhe faltou inspiração, certa vez, limitou-se a fazer um rol de reis caldeus.

Reconhece que “as palavras têm canto e plumagem

Perde-se em descrições e cenas que seus olhos vêem:

E, pois, foi aí que a coisa se deu, e foi de repente: como uma pancada preta, vertiginosa, mas batendo de grau em grau – um ponto, um grão, um besouro, um anu, um urubu, um golpe de noite… E escureceu tudo.” (pág. 244)

Uso acentuado da audição. Até os olhos cegos ouvem (“meus olhos o ouvem” – 248). Vaga, sem rumo, pela floresta, para depois defrontar-se com João Mangolô e as vistas que tinham sido amarradas por este:

“- Pelo amor de Deus, Sinhô… Foi brincadeira… Eu costurei o retrato, p’ra explicar ao Sinhô…” (250)

E o narrador conclui com um mundo de cores:

Na baixada, mato e campo eram concolores. No alto da colina, onde a luz andava à roda, debaixo do angelim verde, de vagens verdes, um boi branco, de cauda branca. E, ao longe, nas prateleiras dos morros cavalgavam-se três qualidades de azul.” (251)

“São Marcos” é de linha frenética, o que lembra a “Dama Pé-de-Cabra”, de Alexandre Herculano. Aqui está presente o mundo das superstições e feitiçarias que envolvem o homem interiorano.

Outra tese desenvolvida é a da “plumagem e canto das palavras”.

7. “Corpo Fechado”

A técnica narrativa de “Corpo Fechado” é em forma de entrevista. O “doutor”, no decorrer da história, vai entrevistando Manuel Fulô, “um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para glória do arraial” (281)

O papo começou com o doutor passando em revista os principais nomes de valentões daquelas bandas: José Boi, Desidério Cabaça, Adejalma, “nome bobo, que nem é de santo…” Miligido, que já se aposentara, e o terrível Targino:

Esse-um é maligno e está até excomungado… Ele é de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaça na frente da igreja, em sexta-feira da Paixão, só p’ra pirraçar o padre e experimentar a paciência de Deus…” (pág. 255)

Esses valentões todos já tinham sido castigados. Só faltava o Targino. Mas o seu fim havia de chegar como chegou para os outros:

Eles todos já foram castigados: o Roque se afogou numa água rasinha de enxurra­da… ele estava de chifre cheio… Gervásio sumiu no mundo, asem deixar rasto… Laurindo, a mulher mesma torou a cabeça dele com um machado, uma noite… foi em janeiro do ano passado… Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro… Só quem está sobrando mesmo é o Targino. E o castigo demora, mas não falta…” (pág. 256)

E Manuel Fulô, o entrevistado, vai narrando as suas aventuras entre os ciganos; como os tapeou, uma vez; o seu desejo de possuir uma sela mexicana para a mulinha Beija-Fulô. E então chegamos ao casamento de Manuel da raça dos Peixoto, do que tinha honra e fazia alarde. A noiva era a das Dor.

E aqui é que começa a história propriamente. O Targino aparece e diz assim para o Manuel Fuló:

“- Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva. amanhã.. Já mandei recado, avisando a ela… É um dia só, depois vocês podem se casar… Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… (pág. 275)

Reboliço. Correrias. Movimentação do doutor. E então “a história começa mesmo é aqui”: Antonico das águas, “que tinha alma de pajé” e era “curandeiro-feiticeiro” agora entra na história para “fechar o corpo” de Manuel Fuló, “requisitando agulha-e-linha, um prato fundo, cachaça e uma lata com brasas” (279):

“- Fechei o corpo dele. Não careçam de ter medo, que para arma de fogo eu garanto!…” (280)

E o doutor conclui a história assim:

“E, quando espiei outra vez, vi exato: Targino, fixo, como um manequim, e Manu e Fulô pulando nele e o esfaqueando, pela altura do peito – tudo com rara elegância e suma precisão. Targino girou na perna esquerda, ceifando o ar com a direita; capotou; e desviveu, num átimo. Seu rosto guardou um ar de temor salutar.

– Conheceu, diabo, o que é raça de Peixoto?!” (pág. 281)

“Corpo Fechado” ainda continua a problemática apresentada em “São Marcos”: mundo de feitiçarias e bruxarias.

Além dessa temática, sobressai também a saga dos valentões das gerais, principal­mente com o temível Targino, e a saga dos ciganos, muito freqüente no interior.

8. “A Saga dos Bois”

Em “Conversa de Bois”, Guimarães Rosa, procura desenvolver a “psicologia” dos animais o que já se vislumbra em “O Burrinho Pedrês”, também aqui, e com largo uso, explorando “a plumagem e canto das palavras”.

A técnica narrativa é a terceira pessoa, narrado por Manuel Timborna, que é entrevistado pelo autor, que pede para recriar a história:

“- Só se eu tiver licença de recontar diferente, enfeitado e acrescentado ponto e pouco…

– Feito! Eu acho que assim até fica mais merecido, que não seja” (283)

E então Manuel Timborna começa a “contar um caso acontecido que se deu”, pro­curando demonstrar que “boi fala o tempo todo”.

Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé são os protagonistas bovinos da história, que vão na sua marcha lenta, carregando “o peso pesado” do carro-de-bois, carregado de rapaduras e um defunto.

O guia é Tiãozinho, filho do defunto carregado. Vai triste e “babando água dos olhos” (313). Visto pelos bovinos é “o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois”. (313)

O carreiro, orgulhosão e perverso, é o Agenor Soronho: “o homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta” que vem “trepado no chifre do carro…” (313).

Na sua marcha, os oito bovinos vão conversando. Criticam o modo de vida dos homens, o animal pensante: “É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens… As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo pensado, é pior…” (290)

Brilhante conta a história do boi Rodapião – “o boi que pensava de homem, o-que-come-de-olho-aberto…” (296, que saiu certa vez, com esse raciocínio silogístico:

… “Cada dia o boi Rodapião falava uma coisa difícil p’ra nós bois. Deste jeito:

– Todo boi é bicho. Nós todos somos bois. Então, nós todos somos bichos!… Estúrdio…” (300)

E porque pensava muito-pensava como o homem – o boi Rodapião tem fim trágico:

“Escutei o barulho dele: boi Rodapião vinha lá de cima, rolando poeira feia e chão solto… Bateu aqui em baixo e berrou triste, porque não pôde se levantar mais do lugar das suas costas…” (308)

Tiãozinho vai relembrando a morte do pai. Tem uma raiva danada do Agenor Soronho que “bate em todos os meninos do mundo: Seu Agenor Soronho é o diabo grande” (314)

O fim é trágico. Deus e o Demo: Agenor Soronho é castigado pelos bois e por Tiãozinho que “pensa quase como nós bois” (314): “A roda esquerda do carro lhe colhera o pescoço.” (317)

Tiãozinho fica como um possesso diante daquela tragédia.

– “Conversa de Bois” procura interpretar a psiquê bovina. É uma história trágica também, e pode ser aproximada de “O Burrinho Pedrês” pela relevância que dá ao animal. Dentro dessa perspectiva está implícita uma crítica ao comportamento do homem, o animal pensante.

Outra temática que me pareceu também bastante nítida no conto é a da oposição entre o Bem e o Mal, onde os maus têm sempre fim trágico, como foi o caso de Seo Agenor Soronho.

9. “A Hora e Vez de Augusto Matraga”

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto” (319).

Nhô Augusto foi homem ruim, de muitos pecados e pouca água benta: maltratava a mulher e filha e vivia de pagode com outras, como a tal da Sariema que aparece no começo do conto, mulherzinha com “perna de Manuel-Fonseca, uma fina e outra seca!” (322)

Estourado e sem regra, estava ficando Nhô Augusto. E com dívidas enormes. política do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando” (324)

E então surge o pior: a mulher foge com outro levando também a filha e os capangas o abandonam, para servir ao Major Consilva, um antigo inimigo da família:

Assim, quase qualquer um capiau outro, sem ser Augusto Esteves, naqueles dois contratempos teria percebido a chegada do azar, da unhaca, e passaria umas rodadas sem jogar, fazendo umas férias na vida: viagem, mudanças, ou qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado: “Cada um tem seus seis meses…” (328)

Mas Nhô Augusto era couro ainda por curtir” e, de imediato, foi tirar satisfação com o Major. Resultância: os capangas novos e antigos do Major saíram em cima do homem e o arrasaram de pancadas, lançando-o, depois, num despenhadeiro.

Morto, mas não sepultado, ressuscitou pela caridade de um par de pretos que habitava aquelas plagas inóspitas. Cuidam do semimorto: enfaixam-no, pensam-lhe as feridas e Nhô Augusto pede padre:

Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua” (336), conclui o batina, depois de tê-lo confessado e conversado.

Não morre. Regenera-se. E daquele lugar maldito “pegou chão, sem paixão”, junta­mente com o par de negros.

“- Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal” E a minha vez há de chegar. P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…” (pág. 337)

Afastado de tudo, isolado do seu antigo mundo procura penitenciar-se de seus pecados.

Aparece, o bando de Seo Joãozinho Bem-Bem, a quem Nhô Augusto dá pousada. Os anjos-da-guarda de ambos combinam-se. Desencontro. Encontro. Deus e Demo. Nhô Augusto encontra de novo com seu Joãozinho Bem-Bem, chefe do bando mais temido daquelas bandas. Um velho pede pelos filhos. Seo Bem-Bem quer vingança. Exterminação. E foi aí que aconteceu a hora e vez de Nhô Augusto, dito Matraga:

“- Êpa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez! (362).

Exterminação total. Mas seu Joãozinho Bem-Bem se sente honrado em ser exterminado por Matraga: “quero acabar sendo amigos…”

E Matraga:

“Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas agora se arrepende dos pecados, e morre logo como um cristão, que é para gente poder ir juntos…” (pág. 363)

E “com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue”, Augusto Mal ruga morre satisfeito porque teve a sua hora e vez:

Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente” (pág. 364), comenta a turba agradecida.

“A Hora e Vez de Augusto Matraga” é, sem dúvida, o ápice da criação literária rosiana em Sagarana, dada a tragicidade e epicidade que o conto encerra.

Quatro temáticas me parece bem nítidas:

a) a oposição Deus e o Demo (Bem x Mal);
b) a saga dos cangaceiros e valentões (Joãozinho Bem-Bem);
c) misticismo (Augusto Matraga depois do encontro com o padre);
d) todos têm a sua vez e hora.

Não me parece sem lógica uma aproximação entre “A Hora e Vez de Augusto Ma­traga” e “O Burrinho Pedrês”: ambos, Augusto Matraga e Sete-de-Ouros, tiveram a sua hora e a sua vez, e dela saíram cobertos de glórias. Não é sem razão que já se disse que os extremos se tocam…

Fabulista? – Não. João é fantasticamente fabuloso!

Findo. Findo o fino fabulista fabuloso. Finririnfinfim…

NOTA: As páginas indicadas referem à nona edição de Sagarana (Rio. 1967)

Fonte:

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João Guimarães Rosa (Sagarana) (Parte II)


Artigo do prof. Teotônio Marques Filhos
Parte I = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/05/joao-guimaraes-rosa-sagarana-parte-i.html
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5. Técnica Narrativa

Com relação à técnica narrativa de Guimarães Rosa, empregada em Sagarana, vamos destacar alguns itens:

A) Sintaxe Pontilhista

De um modo geral, as descrições de Guimarães (principalmente as descrições) são entrecortadas por frases curtas e rápidas, dando especial atenção à frase nominal. Trata-se de uma sintaxe telegráfica, ou, na expressão de David Hayman, “uma espécie de estenografia literária”.

Destaquemos aqui um exemplo:
Uma porteira. Mais porteira. Os currais. Vultos de vacas, debandando. A varanda grande. Luzes. Chegamos. Apear”. (182).

A passagem acima é de “Minha Gente” e exemplifica, com clareza, essa sintaxe pontilhista ou telegráfica, freqüente no estilo de Guimarães. É como se o escritor estivesse tomando nota para redigir depois.

Outro exemplo expressivo é este de “Conversa de Bois”, onde a repetição do verbo “passar” no pretérito perfeito, e depois o uso do verbo sumir, sugere a distância em que foram ficando os carreiros que encontram Seo Agenor Soronho:
Passam. Passaram. Sumiram. O carro aqui rechina mais forte, outra vez” (292).

B) História Entrecortada

Trata-se de um aspecto do estilo de Guimarães decorrente da sua espantosa capacidade de fabulação de que já tratamos em item anterior. Tal técnica parece conferir maior espontaneidade e autenticidade à oralidade que perpassa os seus casos. Um bom exemplo é aquele de “O Burrinho Pedrês”, onde Raymundão, ao mesmo tempo que vai tangendo as reses, conta para Badu, outro vaqueiro, a história trágica do boi Calundu. Volta e meia, Raymundão entrecorta o caso, para cuidar do rebanho ou de uma rês que quer fugir.

C) Reticências

As reticências denotam interrupção do pensamento ou hesitação em enunciá-lo. É recurso muito usado em Sagarana, o que confere ao texto maior autenticidade e expressividade oral. Vejamos um exemplo de “Volta do Marido Pródigo”, na cena final em que o Major Anacleto, chefe político do interior, ficou sem saber o que fazer e o que falar diante das ilustres personalidades que o visitaram inesperadamente.

“- Ah, que honra, mas que minha honra, senhor Doutor Secretário do Interior… Entrar nesta cafua, que menos merece e mais recebe… Esteja à vontade! Se execute! Aqui o senhor é vós… Já jantaram/ ô diacho… Um instantinho, senhor Doutor, se abanquem… Aqui dentro, mando eu – com suas licenças -: mando o Governo se sentar… P’ra um repouso, o café, um licor… O mano Laudônio vai relatar! Ah, mas Suas Excelências fizeram boa viagem?…” (113 e 114).

Também, para interromper e continuar o fio de uma história Guimarães usa as reticências.

Estrutura do Livro

Sagarana (composto de saga + rana) é um livro constituído de nove contos. Muito deles, entretanto, fogem às características do conto, apresentando estrutura ora do romance (cf. “O Burrinho Pedrês”), ora da novela (cf. “A Volta do Marido Pródigo)”.

A Seguir, vamos fazer a apresentação do enredo de cada um deles, comentando o seu conteúdo temático.

1. “O Burrinho Pedrês”

O burrinho Sete-de-Ouros, decrépito, torna-se uma cavalgadura de emergência para um dos vaqueiros do Major Saulo, os quais tinham que transportar uma boiada (quatrocentos e oitenta reses) até uma cidade, donde deverá ser transportada por trem.

Durante a viagem chove muito. Os vaqueiros relatam casos do seu mundo: o caso do boi Calundu que, inexplicavelmente, mata Vadico, filho do Seu Neco Borges; e o caso de Leôncio Madureira, homem herodes, que vendia o gado e depois mandava cercar os boiadeiros na estrada, para matar e tornar a tomar os bois – A conseqüência dessas malvadezas foi que, “quando ele morreu, e os parentes estavam fazendo quarto ao corpo, as vacas de leite começaram a berrar feio, de repente, no curral. Coisa que o garrote preto urrava:

– Madurêra!… Madurêra!…

E as vacas respondiam, caminhando:

– Foi p’r’os infernos!… Foi pr’r’os infernos…!” (pág. 44)

Chegam ao destino. Põem a boiada no trem e retornam sob o comando de Francolim, posto o major ter permanecido na cidade. Uma tragédia paira sobre as cabeças: Silvino quer matar Badu; a escuridão trevosa envolve a noite; a enchente embarga a travessia. Os vaqueiros enfrentam as trevas, com exceção de João Manico e Juca, sendo tragados pela fúria das águas daquela noite sinistra.

Apenas de salvam o Francolim e Badu, o primeiro agarrado à cauda de Sete-de-Ouros, o segundo à crina do prestimoso burrinho que, alquebrado, decrépito, desacreditado, salvara duas vidas humanas.

Em “O Burrinho Pedrês”, primeiro dos nove contos, Guimarães procura mostrar, tendo como pano de fundo o mundo dos vaqueiros, que todos têm a sua hora e sua vez de ser útil. É o caso do burrinho Sete-de-Ouros: “a gente segue a esperteza mansa do bicho, a sua finura de instinto e inteligência que o faz poupar-se, furtar-se a choques e maus pisos e, por fim, orientar-se e salvar-se numa cheia onde os cavalos afogam, carregando um bêbado às costas e ainda outro náufrago enclavinhado no rabo” – ressalta Oscar Lopes.

E observe-se que tudo é colocado como coisa do Destino, acontecida por acaso, dentro do espaço de um dia:

Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida. E a existência de Sete-de-Ouros cresceu toda em algumas horas – seis da manhã à meia-noite – nos meados do mês de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais.” (pág. 4).

E veja-se que as outras histórias contadas no decorrer do conto estão também neste sentido: os caprichos inexplicáveis do Destino que esmaga o homem.

Dentro desse Fatalismo sobressai a hora e vez de Sete-de-Ouros, apenas um burro.

2. A Volta do Marido Prodígio

O marido pródigo é Lalino Salãthiel – Eulálio de Souza Salãthiel, por completo. É homem de muito riso, de muita graça e pouco trabalho:

Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é de adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver.” (pág. 78).

Mas o que o Lalino queria mesmo era (des)venturar por este mundo, pelo Rio de Janeiro. Deixou a mulher, Maria Rita, entregue (ou vendida) ao Ramiro, um espanhol que há muito a perseguia. Lalino foi. O espanhol ficou. Maria Rita chorou e… depois se acomodou ao espanhol.

No Rio, o marido pródigo logo se enfara da beleza e das beldades: volta o marido pródigo:

“- Quero só ver a cara daquela gente, quando eles me enxergarem!…” (87)

Espanto pasmagórico. Olhos que se arregalam e enregelam. Lalino, o que vendera a mulher, voltara.

Entra na política do Major Anacleto. Faz o diabo. Tudo dentro dos conformes e da paz. Lalino tinha tino e tirocínio. Tinha diplomacia, sim senhor, tinha: “E falando nisso, que magnífico, o senhor Eulálio! Divertira-os! o Major sabia escolher os seus homens. Sim, em tudo o Major estava de parabéns…” (114) – é elogio graúdo. De altas personalidades. Gente do governo.

Final feliz.

Maria Rita volta. O Major aceita. O dia afoita. Falece a (des)ventura. De Lalino. De Maria Rita: “Então, o Major voltou a aparecer na varanda, seguro e satisfeito, como quem cresce e acontece, colaborando, sem o saber, com a direção escondida-de-todas-as­-coisas-que-devem-depressa-acontecer”. (115).

As eleições estavam ganhas com a volta do marido pródigo: “no brejo – friíssimo e em festa – os sapos continuavam a exultar” (116).

– “A Volta do Marido Pródigo” apresenta também, de forma picaresca, os caprichos do Destino: Lalino, o marido pródigo, dá voltas e desvoltas pela vida, e acaba tudo bem. Com a mulher. Com a política. Consigo mesmo:

No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo. Então, o Major voltou a aparecer na varanda, seguro e satisfeito, como quem cresce e acontece, colaborando, sem o saber, com a direção-escondida-de-todas-as-coisas-que-devem-depressa-acontecer.” (pág. 115). O que tem que acontecer, acontece.

3. “Sarapalha

A ação de “Sarapalha” se desenvolve sobre um monte de ruínas causadas pela maleita: “Ela veio de longe (…) matando muita gente” (117).

E o resultado da calamidade foi a morte e tristeza dos moradores: “os primeiros para o cemitério, os outros por aí afora, por este mundão de Deus” (117).

Numa fazenda em ruínas, “perto do vau da Sarapalha”, Primo Ribeiro, ora em diálogo, ora em monólogo, vai reconstituindo, alquebrado e decrépito pela maleita, a sua história ao Primo Argemiro, uma das poucas pessoas que lhe restaram. Trágica e triste história a do Primo Ribeiro: Luisa, a sua mulher, fugira com outro, deixando-o só com sua maleita: “- P’ra que é que há-de haver mulher no mundo, meu Deus?…” (130) – pondera Primo Argemiro.

Mas ao saber que o Primo Argemiro pretendia-lhe a mulher também, Primo Ribeiro enxota-o da sua presença, e Argemiro dos Anjos sai por aí, perambulando por entre malei­tas e belezas, buscando um lugar para cair e morrer:

“- Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p’ra gente deitar no chão e se acabar” (137).

– “Sarapalha” é de linha trágica, o que contrasta com o conto anterior. Mostra não só um mundo em ruínas, ainda fumegando os efeitos da Malária, como a infidelidade feminina com o conceito de honra do sertanejo. São dois mundos em ruínas: a população vitimada pela maleita e o primo Ribeiro sucumbido pela mulher infiel: “a maleita era uma mulher de muita lindeza” (132)

4. O Duelo

O duelo, que não houve propriamente, foi entre Turíbio Todo e Cassiano Gomes. Motivo d’honra: Turíbio encontra, certa vez, voltando a casa “sem contra-aviso”, a mulher “em pleno adultério” com o Cassiano Gomes. O marido chifrado não fez nada. Preferiu agir traiçoeiramente e assim procurou dar finalmência ao desonrador, “baleando-o bem na nuca.”

Quanto à esposa, Dona Silvana, o narrador escreve irônica e humoristicamente:

Nem por sonhos pensou em exterminar a esposa (Dona Silvana tinha grandes olhos bonitos, de cabra tonta), porque era um cavalheiro, incapaz da covardia de maltratar uma senhora, e porque basta, de sobra, o sangue de uma criatura, para lavar, enxaguar e enxugar a honra mais exigente.” (pág. 142)

Mas enganara-se o Turíbio Todo: “eliminara não o Cassiano Gomes, mas sim o Levindo Gomes, irmão daquele”. Foi exatamente esse engano “que veio pôr dois bons sujeitos, pacatíssimos e pacíficos, num jogo dos demônios, numa comprida complicação”.

Trava-se um comprido duelo: Turíbio fugindo e o outro atrás. E nessa desavença passaram-se muitos meses: “E continuou o longo duelo, e com isso já durava cinco ou cinco meses e meio a correria, monótona e sem desfecho” (148).

Mas, “porque um homem é um homem e não é de ferro, e o seu vício cardíaco começara a dar sinal de si”, Cassiano Gomes voltou para o sossego do arraial e da mulher do Turíbio. Agrava-se o seu mal quando viajava para capturar o assassino que fora para São Paulo. Acaba morrendo nas boas amizades de um tal Antônio, apelidado de Timpim e Vinte-e-Um, “p’r’a-mór-de que nem que a minha mãe teve vinte e um filhos, e eu fui o derradeiro…” (159)

Sabedor da morte do Cassiano, volta, saudoso, Turíbio, todo civilizado e cheio de noves-fora. Espera-o, um pouco além da estação férrea, a garrucha do Timpim. Vinte-e-Um chamado:

“- Seu Turíbio! Se apeie e reza, que agora eu vou lhe matar!” (167)

E mata.

A causa do “duelo” foi também a infidelidade amorosa cuja honra o marido queria lavar com sangue (“se o sangue lavasse alguma coisa neste mundo…”). Aqui também entra um pouco de Fatalismo: Voltas e desvoltas e o marido, que matara a pessoa errada, acaba sendo morto por um sujeitinho “caguincho”, incapaz de matar uma galinha: todos têm a sua hora e a sua vez.

Outra temática desenvolvida no conto é a saga dos valentões.

5. Minha gente

A técnica narrativa de “Minha Gente” é a primeira pessoa.

Ao longo do caminho, até a fazenda do tio Emilio, o narrador se perde em descrições várias do mundo que o cerca, ao mesmo tempo que joga xadrez com Santana. São guiados pelo José Malvino, vaqueiro do tio Emilio.

Chegam.

Na fazenda, no convívio de sua gente, o tio Emilio e a prima Maria Irma, o narrador vai contando pormenores da política do tio Emilio, ao mesmo tempo que desenvolve o seu romance-melhor dito idílio – com Maria Irma.

No decorrer dos seus passeios na fazenda, demonstra uma grande admiração pelo homem do campo:

“- Mas, como é que você pode saber isso tudo, José?” (177)

Mas, misturado com a política e com a natureza, o conto concentra-se mesmo é no romance dos dois primos: Maria Irma cada vez mais arredia e arrisca, o narrador cada vez mais apaixonado.

Como em “A Volta do Marido Pródigo”, o desfecho de “Minha Gente” é um autêntico “happy end”: o tio Emílio ganha a política e o destino se incumbe de casar o primo com Armanda, noiva de Ramiro, que, por sua vez, casa-se com Maria lima:

E foi assim que fiquei noivo de Armanda, com quem me casei, no mês de maio, ainda antes do matrimônio da minha prima Maria Irma com o moço Ramiro Gouvêia, dos Gouvêias da fazenda da Brejaúba, no Todo-Fim-E-Bom.” (pág. 219)

“Minha Gente” apresenta uma temática semelhante à de “A Volta do Marido Pródigo”: tudo acaba bem, apesar das voltas que o Destino dá.

Muitas temáticas são desenvolvidas:

a) a saga da política no interior (tio Emilio);
b) a honra sertaneja (morte do Bento Porfírio);
c) os caprichos do Destino (casamento de Armanda com o narrador).

Aliás, esse último aspecto é desenvolvido também num conhecido poema de Drummond:

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para a tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história
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continua = última parte
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Fonte:
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/sagarana

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João Guimarães Rosa (Sagarana) (Parte I)

Artigo do prof. Teotônio Marques Filhos
Artigo em 3 partes.

Localização da obra no estilo de época

Publicado em 1946, Wilson Martins coloca Sagarana como uma das três grandes estréias da prosa de ficção pós-modernista ou, como querem outros, neomodernista.

Para a crítica, o Pós-Modernismo representa o incontido desejo de superar as formas modernistas em busca, principalmente, de originalidade e expressividade, não só no concernente à linguagem, onde se explora a sua plumagem e o seu canto, para usar as mesmas expressões de Guimarães Rosa, como também a ânsia do universal. Deste modo, procurando transcender o estritamente regional, o escritor pós-modernista parte sempre de um plano vertical para, assim, chegar a uma dimensão metafísica, universal do homem.

Embora seja o livro de estréia de Guimarães Rosa, não é difícil ver em Sagarana esses elementos inovadores que caracterizam o Pós-Modernismo. Com efeito, a pesquisa lingüística e a ânsia do metafísico – que superam o estritamento local e regional – têm sido uma das grandes características pós-modernistas, e aqui, especialmente, de Guimarães Rosa. Entretanto, esses elementos apenas vislumbram em Sagarana, despontando intensa e desconcertantemente no monumental romance – Grande Sertão: Veredas (1956). Diríamos que Sagarana foi uma espécie de rascunho que Guimarães Rosa usou para a elaboração de Grande Sertão: Veredas. Na comparação não vai nenhuma subestimação do primeiro livro de Guimarães que, pelo fato de ter sido rascunho, não deixa de ser obra-prima. É a velha história de Adão e Eva que se repete aqui: toda obra-prima tem um rascunho. No caso, o rascunho seria o velho Adão; a obra-prima, a femininíssima Eva… Quem é que vai negar uma coisa desta, minha gente, quem?!

Como sugere o título, Sagarana é uma coletânea de contos estruturados a partir de uma visão moderna dessa espécie literária, pois, embora apresentem os seus elementos tradicionais, os contos de Guimarães Rosa são portadores de “um sopro renovador”, como observa o crítico Massaud Moisés: “Numa linguagem mesclada de tipismos mineiros, eruditismos e arcaísmos, traz para a literatura regionalista um sopro renovador, um senti­do de epicidade e profundo conhecimento da alma humana, que fazem dele, desde logo, um escritor de lugar definitivamente marcado” (Massaud Moisés).

Como já ressaltamos atrás, Guimarães Rosa foi um dos primeiros entre nós que logrou captar o mundo regional através de um prisma universal: a sua obra veio concretizar a nova dimensão que o regionalismo estava esperando: a dimensão do espírito e do mistério das coisas.

Dono de um estilo pessoalíssimo, onde sobressaem os elementos melopéicos das palavras, os contos de Sagarana, fogem, muitas vezes, àquela estrutura que apontamos no início.

Estilo de Guimarães Rosa em Sagarana

Com relação ao estilo de Guimarães Rosa em Sagarana, muita coisa tem-se que falar. Pelo menos cinco características sobressaem na sua maneira de ver o mundo, no seu modo de escrever. Abaixo vamos relacionar essas características:

1) Linguagem

Quanto à linguagem, Augusto de Campos observa que “embora revele um notável e incomum domínio artesanal, a linguagem de Guimarães Rosa também não se confunde com a dos estilistas da língua. O seu palavreado diferente não é constituído propriamente de vocábulos “difíceis” ou desusados, como no caso de Euclides da Cunha ou Coelho Neto, mas de recriações e invenções forjadas a partir das virtualidades do idioma, que levam o leitor a constantes descobertas.” Vejamos, abaixo, os principais aspectos:

Criação de vocábulos

É o que podemos chamar de neologismos onde sobressaem composições e derivações novas, além “de novos tipos de construção frasal”, ditos “neologismos sintáticos”, segundo Mattoso Câmara.

Vamos arrolar aqui alguns exemplos de neologismos vocabulares:

a) derivação prefixal. Um dos prefixos mais usados é ainda dês-: desfeliz, desinquieto, desenxergar, etc. sempre em sentido negativo ou como mero reforço, dado e desgaste do prefixo existente, como é o caso de desinfeliz ou mesmo desinquieto.

b) derivação sufixal. É outro processo formador de vocábulos novos bastante usado no livro e que funciona como expressivo recurso estilístico, principalmente em se tratando de linguagem popular. Entre outros exemplos, mencionemos o caso de: vaqueirama, assinzinho, coisama, pensação, cigarrar, rapaziar, quilometrosa, maismente, saudadear, pererecar, etc.

As vezes o sufixo é usado mesmo em palavras que não o comportam, como é o caso, já citado, de maismente, assinzinho, arranjeizinho (cf. “Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil”, Sag. 82) e amormeuzinho que aparece no conto “São Marcos”.

Registre-se ainda o expressivo verbo pernilongar, que aparece no conto ‘São Marcos”.

c) derivação parassintética. Consiste no uso de prefixo e sufixo ao mesmo tempo. Não é muito freqüente em Sagarana, mas mesmo assim podemos anotar alguns exemplos: avoamento, esmoralizado, desbriado, amaleitado, etc.

d) abreviação. Na abreviação, registre-se o caso de estranja (cf. “você não tem vergonha de trabalhar p’ra esses gringos, p’ra uns estranjas, gente atoa?” — Sag. 89), além de largo uso da síncope, como é o caso de corgo em vez de córrego, p’ra em vez de para, e muitos outros casos que refletem a nossa língua popular. Veja-se ainda vam’bora para “vamos embora” e ixa para “virgem” (como interjeição).

e) composição aglutinada. Consiste na junção de dois vocábulos de modo que percam a sua individualidade fônica. É o caso de, entre outros: passopreto (pássaro + preto), milmalditas (mil + malditas), suaviloqüência (suave + eloqüência), destamanho (deste + tamanho), membora (me + embora), santiaméin (santo + amém) e o curioso nomopadrofilhospritossantamêin (em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém) que sugere a rapidez com que Nhô Augusto fez o sinal da cruz, naquelas circunstâncias em que se achava (cf. Sag. 362).

É curioso também o dei’stá (deixa + está) de largo uso no interior.

f) composição justaposta. Consiste na união de dois ou mais vocábulos em que se mantém a integridade fônica de ambos. Como exemplo, anote-se: hoje-em-dia, mulheres-a­toa, todo-o-mundo e aqueles vocábulos formados pela introspecção bovina de “Conversa de Bois” como: “boi-grande-que-berra-feio-e-carrega-uma-cabeça-na-cacunda (para marruás, touro) e homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta (para o homem que guia os bois e leva o ferrão).

Arcaísmos

Como sabemos, arcaísmos são “vocábulos, formas ou construções frasais que saíram do uso na língua corrente”. Evidentemente, os arcaísmos de Sagarana foram usados por Guimarães Rosa para fins estilísticos, com a intenção de estabelecer coerência entre forma e conteúdo. Com efeito, o arcaísmo em Sagarana é um reflexo da linguagem popular, visto que a língua do interior, afastada do contato com a civilização, é estática, conservando muitos vocábulos do português arcaico. Entre outros, anotemos aqui alguns exemplos: riba (cf. por riba do monte), banda (em lugar de lado), vigiar (em vez de olhar), quentar (em vez de esquentar) e uma enfiada de verbos com prótese de um a, outrora bastante em voga em nossa língua e que ainda existe na fala do nosso homem do interior: agarantir, alembrar, alumiar, amostrar, arreconhecer, arrenegar, arresolver, arresponder, arresistir, aclivertir, etc.

Erudismo

Escrever com erudismo é um fato que a crítica reconhece no estilo de Guimarães Rosa. É o que ocorre sempre quando é o escritor que narra, quando não pretende registrar modismos regionais ou a linguagem popular. Nesse sentido nos parecem válidos os contos “São Marcos” e “Minha Gente”, principalmente este último, donde extraímos este exemplo:

Eu tinha cochilado na rede, depois de um almoço gostoso e pesado, enquanto Tio Emílio, na espreguiçadeira, lia sua pilha de jornais de uma semana. A varanda era uma praia de ilha, ao mar da chuva. Meu espírito fumaceou, por ares de minha só pos-se — e fui, por inglas de Inglaterra, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi à visão de deusas, lentas apsaras de sabor de pétalas, lindas todas: Dária, da Circássia; Ragna de Aase; e Gúdrun, a de olhar cor dos fiordes; e Vivian, violeta; e Érika, sílfide loira; e Varvára, a de belos feros olhos verdes; e a princesa Vladislava, císnea e junoniana; e a princesinha Berengária, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaçante dos tornozelos preciosos…” (pág. 197).

Figuras

Aqui sobressaem pelo menos três figuras importantes:

a) Metáfora. Consiste numa transposição do sentido de um vocábulo por se tornar opaco ou gasto o existente. Como ressalta Oscar Lopes, as metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. Anote-se: “De noite, saiu uma lua rodo-leira, que alumiava até passeio de pulga no chão” (26); em vez de dizer que a lua era cheia e brilhava intensamente; “Cor do céu que vem chuva” (24) para indicar uma cor que é mais que o castanho ou baio; “Estou como ovo depois de dúzia” (32) para dizer que está sobrando; “em mão de vaqueiro com dez anos de lida nos currais do sertão” (36) para dizer que o vaqueiro era experiente; “Só de vez em quando é que um quer me saudar com a mão canhota” (40) para indicar que, vez por outra, surgiam ingratidões, ou coisa semelhante; “aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda lingüiça da vida” (49) para indicar que ia levando a vida de qualquer jeito; “Durou o prazo de se capar um gato” (98), para dizer que a ação foi rápida; e aquele “arquipélago de reses” (172) para indicar ajuntamentos de reses aqui e ali. E assim muitas outras.

b) Anacoluto. “Chama-se anacoluto ou frase quebrada àquela em que a uma palavra ou locução, apresentada inicialmente, se segue uma construção oracional em que essa palavra ou locução não se integra.” A definição é de Mattoso Câmara (cf. Dicionário de Filologia e Gramática), que acrescenta: “Na língua oral coloquial o anacoluto é um processo freqüente de construção de frase”. E o que se pode ver em Sagarana, visto que uma das principais características de Guimarães é exatamente a estilização da sintaxe popular. Veja-se esse exemplo: “Que há? O senhor sabe que, a mim, eu gosto de estimar e respeitar os meus amigos, e, grande principalmente, as suas famílias excelentíssimas…” (82); ou aquela passagem de “Conversa de Bois”, onde o escritor procura expressar a angústia e inquietude do menino Tiãozinho através de um mundo de reticências e frases entrecortadas que avolumam na sua cabeça e dão prova do seu apavoramento diante da mor­te de seu Agenor Soronho (vide pág. 317-318).

c) Silepse. A silepse é uma concordância ideológica. Quer dizer, é uma concordância que se faz com a idéia e não com o termo expresso. É o caso do coletivo com o verbo no plural que ocorre várias vezes em Sagarana. “Eu acho que a boiada vai bem, sêo Major. Não vão dar muito trabalho, porque estão bem gordos” (20) “Ele é de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaça na frente da igreja, em sexta-feira da Paixão, só p’ra pirraçar o padre e experimentar a paciência de Deus...” (256).

Trata-se, igualmente, de uma concordância bem popular.

Musicalidade

Trata-se de uma das características mais presentes e individualizadoras de Guimarães Rosa, que dão um caráter nitidamente poético à sua prosa. É o que o escritor chama de “plumagem e canto das palavras”. Com efeito, amiúde Guimarães apela para os aspectos auditivos (“canto”) e visuais (“plumagem”), fazendo uma verdadeira orquestração sonora com as palavras. Isso sobressai principalmente em “O Burrinho Pedrês” e “São Marcos” onde, nesse último, há uma verdadeira saraivada de luz e cores de início (aspecto visual-plumagem das palavras), para ceder lugar aos sons e ao ritmo (canto das palavras), depois que fica cego. É curioso ver-se o conto neste sentido.

Entre outros recursos melopéicos, ressaltam-se:

a) Rimas. É um recurso bastante explorado em Sagarana e expressa, mais uma vez, a natureza popular da linguagem rosiana. Vejam-se esses exemplos: “por amos e anos” (3); “boi sanga sapiranga” (6); “veio apropinquando, brando” (10); “suspiro de vaca não arranca estaca” (17), “e as vagas de dorsos, das vacas e touros” (23): “Quem não trabuca não manduca” (72); “Você é tudo, bigodudo” (89); “ó Vitalina, engambela ela” (111); “papo de mola, quando anda pede esmola” (139); “Pega à unha, joão-da-cunha” (147).

Sensível ao poder fônico dos vocábulos, diz o Prof. Wilton Cardoso, Guimarães Rosa se deixa entregar a combinações léxicas, cujo fim é sem dúvida explorar o seu manancial sonoro”. Na prática desse recurso, “se algumas vezes pretende ilustrar conteúdo semântico, à maneira onomatopaica, em outros casos dá à nota sonora valor próprio e exclusivo, já que não se relaciona com o contexto.”

b) Ritmo. É outro elemento poético que se pode constatar em Sagarana. Principal­mente em “O Burrinho Pedrês”, onde a disposição das palavras parece acompanhar as marchas e contra-marchas do rebanho que começa a trotar em passos cadentes:

Galhudos, gaiolos, estrelos, espácios, combuscos, cubetos, lobunos, lompardos, caldeiros, cambraias, chamurros, churriados, corombos, cornetos, bocalvos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros… E os tocos da testa do mocho macheado, e as cuarmas antigas do boi cornalão…” (pág. 22).

Move-se o rebanho lentamente e o ritmo pentassilábico acompanha-lhes a marcha cadente e uniforme.

As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão…” (pág. 23).

c) Aliteração. Consiste numa “repetição de dado fonema, numa frase, em vocábulos seguidos, próximos, distantes e simetricamente dispostos” (Mattoso Câmara). É recurso que serve para intensificação do ritmo, conferindo-lhe expressiva harmonia imitativa, como é o caso ainda da boiada anterior onde a mansietude do ritmo pentassilábico “é aparente ou provisória, observa o prof. Wilton Cardoso, porque a rês brava pula e volteia na ponta da vara e comunica calor à centopéia ondulante, que começa a acelerar-se.” É o que parece expressar as aliterações em medida trissilábica da passagem abaixo: “Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando.. . Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito… Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...” (pág. 23).

Outros exemplos de aliterações são: “três trons de trovões” (18); “bebedérrimo, Badu” (49); “que vinha vivendo o visto mas vivando estrelas” (235); etc.

d) Onomatopéia. É outro recurso melopéico, de larga tonalidade, que Guimarães explora em Sagarana. Consiste em “procurar reproduzir determinado ruído, constituindo-se com os fonemas da língua, que pelo efeito acústico, dão melhor impressão desse ruído” (Mattoso Câmara). Entre outros, citemos: “A boiada entra no beco – Tchou! Tchou! Tchou!… (48) para tanger o gado; “lho… lho… lho… – vão, devagar, as braçadas de Sete-de-Ouros” (66), para o burrinho atravessando o rio; “-Prrr-tic-tic-tic!” para chamar galinha; “i-tchungs”-tchungou uma piabinha” (242), para o movimento da piaba, etc.

Concluindo, podemos afirmar com Pedro Xisto que “os vocábulos do nosso romancista-poeta não se restringem a contar uma história. Eles têm, ainda, o que contar de si próprios. Eles são mais do que signos abstratos e indiferentes. Eles integram a coisa, participando, concretamente, das vivências.”

Assim, em Guimarães Rosa, “não é a linguagem que se acomoda à realidade, mas a realidade que se transforma em linguagem”.

2. Fabulação

É outra característica de Guimarães Rosa que sobressai em Sagarana: o seu extraordinário poder de fabulação. Suas narrativas, repletas de incidentes, casos fantásticos e imaginários, contém às vezes mais de uma “estória” dentro da “estória”. É o que se pode notar, principalmente, em “O Burrinho Pedrês”, onde, dentro da “estória” de Sete-de-Ouros podemos surpreender e anotar outros casos que os vaqueiros vão relatando no decorrer da viagem.

Outros exemplos neste sentido são: “Minha Gente” que inicialmente se perde em descrições paisagísticas (outra grande qualidade de Guimarães), para depois se concentrar na história propriamente, por sua vez, mesclada de outros casos; “Corpo Fechado”, cuja “estória” começa propriamente no final, com Manual Fulô contando outros casos para o doutor; “Conversa de Bois”, que é entrecortada também por outros casos, etc.

De um modo geral, entretanto, esses casos secundários são postos em função do principal: têm a finalidade de comprovar ou preparar terreno para a história principal.

3. Personagens

De um modo geral os personagens de Sagarana estão ligados à paisagem mineira, à vida das fazendas, à saga dos vaqueiros e dos criadores de gado – mundo da infância e mocidade de Guimarães Rosa.

Seus personagens são admiravelmente delineados e caracterizados não apenas externamente, mas com uma rara penetração da psicologia do homem rústico. Suas descrições, atestam um conhecimento minucioso de gentes, plantas e bichos em contacto com o ambiente sertanejo”. (Augusto de Campos).

Entre outras personagens que sobressaem nos contos de Sagarana, podemos relacionar aqui Nhô Augusto, de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”; Latino Salãthiel, de “A Volta do Marido Pródigo”; Maria lima, de “Minha Gente”; Manuel Fulô, de “Corpo Fechado”; Turíbio Todo, de “Duelo”, além do burrinho Sete-de-Ouros, de “O Burrinho Pedrês” e aquele fantástico boi Rodapião, de “Conversa de Bois”, onde Guimarães se revela também profundo conhecedor da “psicologia” bovina.

4. Provérbios e Quadras

É outra característica do estilo rosiano que evidencia um gosto bem popular: o gosto por ditados e provérbios, além das quadrinhas que harmonizam as noites sertanejas, sob um céu palpitante de luar e de estrelas que pululam encantadas dos sons gotejantes das melodias populares. Mundo de fantasia e poesia que já começa a crepuscular para dar lugar aos sons trepidantes e fumegantes das guitarras desconcertantes que infestam e empestam este soberbo século XX de maravilhas fatais!

Dos primeiros, anote-se: “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma” (18); “Suspiro de vaca não arranca estaca!” (17), “para bezerro mal desmamado, cauda de vaca é maminha” (34); “Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão” (319), e muitas outras.

Das segundas (quadrinhas), entre as muitas que o livro oferece, citemos:

O Curvelo vale um conto,
Cordisburgo um conto e cem.
Mas as Lages não têm preço,
Porque lá mora o meu bem
…” (pág. 22)
————————-

continua…

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Manoel de Barros (O Livro das Ignorãças)

artigo de Teotônio Marques Filho

INTRODUÇÃO

Não existe, ainda uma biografia sistematizada de Manoel de Barros, sendo os dados biográficos encontrados dispersos em artigos, poucos livros e alguns ensaios. Do que se sabe, algo pode ser dito da seguinte maneira: Manoel de Barros nasceu em 1916, em Cuiabá, Mato Grosso, onde vive atualmente. Ainda na sua infância, mudou-se para Corumbá, também no Mato Grosso, ficando, assim, bem próximo ao Pantanal. Aos oito anos de idade, foi mandado ao Rio de Janeiro, para estudar em um colégio de padres, e, na adolescência, foi a Bolívia e, em seguida, aos Estados Unidos, onde entrou em contato com a vanguarda artística da época. Volta ao Rio, ingressa no curso de Direito, no qual se forma, e inicia sua meteórica carreira na advocacia, que não dura muito. Simpatizante das idéias comunistas, tem seu primeiro livro de sonetos tomado pela polícia da época e nunca mais o tem de volta, tornando-se um livro perdido. Casa-se por volta dos 30 anos de idade e retorna a Cuiabá com sua esposa, com quem tem três filhos, vivendo até hoje. Seus primeiros livros são publicados em decorrência de prêmios recebidos, sendo que, posteriormente a editora Civilização Brasileira, tendo então como editor Ênio da Silveira, resolve publicar seus livros, que hoje são publicados pela editora Record

Sua vida inteira dedicada à poesia rendeu-lhe 14 livros, dando-se a estréia com Poemas concebidos sem pecado, de 1937. A segunda publicação só viria cinco anos mais tarde com Face imóvel, já marcando a boa distância de tempo entre as publicação que viriam depois, já que só quatorze anos mais tarde, em 1956, surgiria seu terceiro trabalho, intitulado simplesmente de Poesias. Destacam-se, ainda, na obra do poeta, livros como Gramática expositiva do chão (1966), livro de pré-coisas (1985), O guardador de águas (1989), O livro das ignorãças (1993) e livro sobre nada (1996), sempre tendo na simplicidade seu ponto de apoio e sua característica principal.

UM PASSEIO PELAS QUESTÕES DO POETA

Um simples olhar sobre alguns títulos dos livros de Manoel de Barros já nos revela algo sobre a sua poesia: o trabalho com a metalinguagem, ou seja, com o falar do próprio fazer poético, do próprio processo de criação. Os títulos já citados, assim como outros (Matéria de Poesia, de 1970, por exemplo), trazem sempre algum termo que nos lança diretamente a questão do fazer poético, do falar da própria poesia ou sobre o livro. Outros títulos, mais relacionados com a música, também esclarecem esse tom metalingüístico: Arranjos para assobio, de 1980, e concerto a céu aberto para solos de ave, 1991. Nota–se, também, Compêndio para uso dos pássaros, de 1960, já que “compêndio” significa a síntese das teses de uma determinada doutrina. Em entrevista a André Luís de Barros, quando perguntado sobre como nasceu seu interesse pelo trabalho com a linguagem reponde:

Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno , os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que tem é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso. (Entrevista concebida a André Luís de Barros. Jornal do Brasil. (Caderno Idéias) ).

Assim, percebemos claramente que, para esse poeta, o trabalho com a própria linguagem é um projeto consciente e uma preocupação constante, surgindo em toda a sua obra poética. Seu projeto, no entanto, não é de uma língua grandiosa, rebuscada, mas de uma língua simples, rasteira, “pobre”, sem ser, contudo, simplória ou simplista (o que é bem diferente de “simples”). Sua linguagem toca o chão, roça o solo das palavras, tirando delas o que elas têm de terra, de mais natural, digamos assim.

Esse trabalho com a simplicidade, com as coisas rateiras do chão, também se configura como um projeto. A preocupação de falar sobre o fazer poético, como dito anteriormente, está ao lado da procura por essa “pobreza” dos temas, “pobreza no sentido de que aquilo que Manoel de Barros escolhe para tratar na sua poesia é sempre algo “pequeno”, “ínfimo”, geralmente descartado pela maioria dos poetas. Na sua poesia, têm lugar privilegiado e seguro os insetos (formigas, principalmente), os pássaros (beija-flor, bem-te-vi, rolinha, andorinha), bichos que rastejam (sapos, lagartos, caranguejos), lembrando as “coisas rasteiras” que ele elege como tema. Em entrevista a Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa, Manoel fala justamente dessas “coisas rasteiras”, dessa “pobreza” que o encanta:

Penso que trago em mim uma pobreza ancestral que me eleva para as coisas rateiras. Disse uma vez: só as coisas rateiras me celestam. Procede que a pobreza é bíblica, procede que o ordinário é sagrado – e a desgrandeza é de DEUS. Com o canto do Sol e das Aves o nosso Francisco fertilizava a sua fé. (…) quero fertilizar os meus cantos com as pobres coisas do chão. Sendo que não sou eu que cristianizo as ordinariedades, mas a minha linguagem.
(Entrevista concedida a Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa. In: CASTELLO BRANCO, Lúcia (org.) Coisa de Louco. Belo Horizonte: Casa Freud, SCE, PBH, 1998. P. 184)

Para o poeta, tratar dessas coisas rateiras o aproxima de uma origem, o lança ao início das coisas, a um tempo mítico, bíblico, primitivo. Essa busca, é também, uma busca pelo tempo anterior à linguagem, em que nada existia além das coisas. Aí é que está o mítico de sua poesia, o primitivo, já que num tempo primordial não há uma linguagem, há simplesmente as coisas. Manoel de Barros parece querer alcançar a coisa em si, em seu estado bruto, em seu estado de coisa mesmo. Como o poeta diz em um poema do Livro sobre nada:

As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras.
(BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996. P. 11. (Destaques meus) )

Vemos claramente, nesses versos, o privilégio das coisas, ao invés das palavras e da linguagem. As palavras são transformadas em brinquedos, ou seja, em coisas que se podem manusear. Para isso, entretanto, tem de se utilizar da linguagem, pois não é possível fugir a ela. Por isso, já que na poesia se tem de passar pela linguagem para se chegar à coisa, que a linguagem seja, então, pelo menos, mais próxima à coisa – daí uma linguagem simples, sem rodeios, que fala diretamente das coisas, sem muito intermédio. Como dizem Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa, há, na poesia de Manoel de Barros, “a encenação da busca de uma língua adâmica, que esteja mais próximas às coisas“. Ou seja, o poeta quer chegar a uma língua das origens, de Adão, de um tempo mais remoto possível.

Não é à toa que a poesia de Manoel seja feita basicamente de versos soltos, ou de “frases”, como ele próprio prefere. O poeta chama a si mesmo de um bom “fazedor de frases”, caracterizando seu trabalho como algo mais fragmentado, sem uma continuidade de sentido, sem um “enredo”, sem uma “história” que se conta a partir dos versos. Muitas vezes, seus poemas são frases soltas, sem articulação com a frase anterior ou com a seguinte. Isso também é uma forma de aproximar sua poesia de algo primitivo, original, já que a impressão deixada pela leitura é de algo caótico, sem uma ordem estabelecida pelas frases lançadas no espaço da página. Essa desarticulação da linguagem é um trabalho pensado, como diz o próprio poeta:

(…) poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo. Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem seria mesmal. (…) Prefiro escrever o desanormal.

Desarticulando a linguagem, aproximando-a da linguagem desarticulada das crianças, dos bêbados e dos loucos, o poeta consegue alcançar o ilogismo que procura, a não-lógica de uma linguagem que escapa à mesmice e à utilidade. Para ele, a linguagem não deve servir a um sentido pronto, mas deve enlouquecer o sentido, desarticular a língua que utilizamos todos os dias, confundir a nossa lógica, que encarcera a língua em apenas uma possibilidade de expressão. A tarefa da poesia é justamente tirar a língua de seu lugar comum e dar-lhe outros sentidos, conceder-lhe outras possibilidades das quais não dispomos no nosso dia-a-dia.

É isso o que veremos em O livro das ignorãças, livro em que o poeta prossegue nesse projeto de se aproximar das coisas chãs, das coisas que rastejam e se aproximam da natureza, ou que fazem parte dela.

O Livro das Ignorãças

O livro das ignorãças é dividido em três partes (“Uma didática de invenção”, “Os deslimites da palavra” e “Mundo pequeno”), sendo que cada uma delas tem suas próprias características, o que, no entanto, não impede que vejamos também algumas recorrências e um prosseguimento de questões privilegiadas do autor.

Em “Uma didática da invenção”, surgem várias daquelas questões já apontadas anteriormente, evidenciando a preocupação de Manoel de Barros quanto as idéias específicas de poesia. Assim, já no primeiro poema do livro, temos a idéia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer a língua, tirando-a dos lugares comuns em que se encontra:

Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.”

Invertendo completamente a lógica tradicional, esse verso vê o aprendizado das coisas não no ato de aprender, mas no ato de desaprender. Atente-se para o termo “princípios”, que aponta para a questão da origem de que se falou antes. Desaprender, segundo o poeta, permite-nos alcançar os princípios, as origens, o momento anterior às palavras, em que só existem as coisas. Essa mesma idéia parece reger O livro das ignorãças, já que ela é recorrente em vários poemas e também na obra inteira do poeta. No poema de número XVI, há um verso que diz dessa idéia de que só as frases opacas e obscuras, que fogem da linguagem comum, é que interessam, pois são iluminadas:

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

Esse trabalho para “desacostumar as palavras”, como diz o próprio poeta, dando-lhe significações novas, inusitadas, antes não concebidas, atravessa todo o livro, resultando em versos que, muitas vezes, nos causam espanto, tal a desconstrução da linguagem, tal o “desacostumamento” da língua que eles acabam por fazer. Já que “desacostumar as palavras” é o trabalho da poesia, e do poeta, Manoel de Barros não hesita em agir assim a todo instante, transformando a sua poesia num jogo de sensações, numa inversão das características dos objetos e num lugar de imagens inesperadas. São vários os exemplos dessas inversões e desse jogo com imagens e sensações:

Como pegar na voz de um peixe (I)
E um sapo engole as auroras. (IV)
Eu escuto a cor dos passarinho. (VII)
Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (IX)
Não tem altura o silêncio das pedras. (X)

Poderíamos continuar enumerando ad infinitum exemplos como esse, já que eles elucidam muito da estética de Manoel de Barros. Esses versos alcançam exatamente a sua proposta de poesia, desvestindo as palavras de seus sentidos corriqueiros, de seus significados gastos. Não é à toa a referência, em vários momentos, à linguagem das crianças, já que elas ainda não aprenderam a totalidade da língua. Lembremos o que diz o poeta em entrevista já citada: “atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos“. A criança, por não Ter ainda tanto contato com a língua, não perdeu a capacidade de brincar com as palavras, o que as torna poetas sem que elas saibam. Se a poesia é enlouquecer as palavra, fazendo-as delirar, as crianças fazem poesia ao falar, como mostra o poema de número VII:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.

Mudar a função das palavras está dentro do conceito de poesia desse poeta, pois é assim que elas podem delirar, enlouquecer, tirar a língua da lógica. A figura da criança surge novamente em outros poemas, sempre ligada a essa idéia de ilogismo que a poesia deve buscar. Mais do que o ilogismo, os versos abaixo trazem a questão de coisas que sequer têm nome, sendo estas as preferidas pelas crianças:

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (VI)

Ora, como pronunciar nomes que nem existem? É justamente aí, como já viu anteriormente, que reside a poesia de Barros, já que ele busca exatamente aquilo que ainda não recebeu nomes, que ainda não foi aprisionado por definições, por conceitos. Daí sua idéia de chegar às coisas, sem intermédio da língua, tentando tocar na coisa mesma, em sua origem, sem palavras se interpondo entre o poeta e a matéria de sua poesia. Muitas vezes, Manoel fala mesmo de ser as coisas, que ultrapassa o simples tocar as coisas, ou, ultrapassando mais ainda, o falar das coisas. O poema de número IX trata desse ser a coisa:

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.

Esse poema é quase um ensinamento de como se tornar uma coisa, nesse caso uma árvore. O processo de ser uma árvore só se completa quando os galhos nascem do próprio corpo, saindo da voz. Isso não é apenas falar da coisa ou tocar a coisa, mas tornar-se a coisa, ser a coisa em seu estado mesmo.

Em O livro das ignorãças, também há a proposta de, além de tornar-se coisa, “desacostumar as coisas”, assim como se deve “desacostumar as palavras”. Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de livrar as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de “desinventar objetos” (poema II):

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.

Percebe-se que essa necessidade de desacostumar as coisas caminha junto com a de desacostumar as palavras. O último verso, que fala das palavras, vem logo depois dos versos que tratam das coisas, sendo que todos dizem sobre o mesmo ponto: desinventar coisas e palavras, tornado-os novos, sem sentido pronto, sem definição. Não definir é deixar soltar as palavras e as coisas, é deixá-las simplesmente ser, sem que haja nomes para aprisioná-las num mundo de conceitos, que se tornam cada vez mais gastos e pobres.

Essa idéia da não-definição é muito bem trabalhado no belo poema de número XIX, em que se pensa no empobrecimento de uma bela imagem originado por uma definição utilizada para conceituá-la.

O rio que fazia uma volta atrás de nossa cara era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

A substituição de uma bela imagem criada a partir de um rio foi completamente empobrecida por uma definição geográfica. A poesia da imagem foi rompida pela precisão e redução de um conceito, que nada diz sobre a coisa em si. Assim, percebe-se que a poesia nada tem a ver com definições, levando ser vista com olhos menos pragmáticos, menos reduzidos pela prática e pela precisão a que o mundo nos obriga. É o que mostra a poema de número XIII:

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas
razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.

É justamente o olhar de pessoas razoáveis – entenda-se, por pessoas razoáveis, pessoas comuns – que acabam com a poesia das coisas. O olhar comum sobre as coisas não consegue ver nelas qualquer poesia, acabando por enxergar apenas definições e palavras com seus sentidos convencionais, pobres.

Assim, na primeira parte de O livro das ignorãças, há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e alcançar uma língua adâmica, original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à “coisidade” da coisa, ao é da coisa, em seu âmago de coisa mesmo.

A Segunda parte, “Os deslimites da palavra”, não foge a esse projeto de linguagem. Nessa parte, o poeta inventa uma lenda e escreve a partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em 1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o poeta encontra esse caderno e tenta “desarrumar as frases”, de modo que elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia, pois, como diz o poeta, “nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa”, provocou “uma ruptura com a normalidade”, ou seja, escreveu fora da língua comum, fazendo poesia.

O resultado do encontro entre as frases do canoeiro, que escreveu fora da normalidade, com o poeta, que também só escreve fora do comum, é uma desarrumação completa dos padrões, um “desacostumamento” radical. Como diz o poema 2.1, primeiro do segundo dia de enchente:

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumar das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.

Novamente, o que se tem é a questão da supremacia da coisa sobre a palavra: “Não oblitero moscas com palavras.” Usar palavras para falar das moscas é uma rasura das moscas, um apagamento, já que se deve chegar à mosca mesmo, e não somente falar dela. A referência às “oralidades” também é uma fuga à normalidade da língua, já que a fala, a língua oral, apresenta uma série de desvios em relação à linguagem padrão, daí o poeta/canoeiro dizer que não é tolo (sandeu) de ficar seguindo gramáticas, de respeitar a língua imposta por elas. Por isso, o que ele escreve não são as palavras, mas o seu rumor: apenas o som, não o sentido. Escrever apenas o rumor das palavras, sem dar-lhes significado, as aproxima de coisas, de objetos que podem ser quase tocados.

O próprio nome dessa Segunda parte do livro já aponta para essas idéias, pois o poeta escreve além dos limites da palavra, ele atinge seus delimites, ele toca o que está fora da linguagem, o que se situa além das fronteiras que a língua nos impõe. Não se deixar submeter pelos limites da língua é o que faz o poeta/canoeiro ao longo de toda essa parte. Um passeio pelos poemas nos mostra isso de forma evidente:

Ontem choveu no futuro. (1.1)
Estas águas não têm lado de lá. (1.1)
Os nomes já vêm com unha? (1.2)
A chuva atravessou um pato pelo meio (1.6)
A chuva deformou a cor das horas. (1.6)
Um besouro se agita no sangue do poente. (2.4)
O acaso me ampliou para formiga. (2.7)
Uma sabiá me aleluia. (3.6)

O efeito de versos como esses é um grande estranhamento, pois eles fazem a língua delirar em todos os sentidos. A sintaxe delira, os termos mudam de categorias, substantivos ganham qualidades inusitadas, gerando um sentido completamente novo, totalmente “desacostumado”.

A questão da origem, de que já se falou anteriormente, surge de maneira marcante. A enchente que leva o canoeiro a navegar três dias seguinte remete evidentemente ao dilúvio bíblico, texto que trata das origens, por excelência. As imagens de origem são semeadas ao longo dessa Segunda parte, sendo as principais o ovo, a água (elemento sempre ligado à origem), o limo (espécie de lama, de lodo, ambiente úmido que sempre remete a uma origem), assim como bichos que lembram as coisas do chão, que se ligam diretamente a um universo mais primitivo, mais telúrico, muitas vezes aquático – lagarto, formiga, coruja, peixe, besouro, vaga-lume, osga (espécie de réptil), aranha, rã, cágado. Todos esses bichos são diretamente ligados a um mesmo universo mais remoto, às vezes “sujo”, viscoso, ou, no mínimo, obscuro, das trevas, silencioso. Essa idéia do “sujo” também surge mais explicitamente, não só na Segunda como também na primeira parte do livro, já que os ambientes úmidos, primitivos, pantanosos têm uma aparência (e só aparência) de imundície, sendo lugares orgânicos por excelência.

A terceira parte, “Mundo pequeno”, traz as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe com a gramática da língua, conforme já vimos em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos:

Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

Coisa, rã e árvore, que, gramaticalmente, são substantivos, tornam-se verbos, mostrando um desrespeito do poeta pelas regras gramaticais. O verso final aponta para essa inversão de categorias, representada pela figura do velho que, com sua flauta, inverte os ocasos, assim como o poeta inverte a língua.

A busca pela coisa é, mais uma vez, objeto de poesia, propositalmente no poema que encerra o livro (XIV), antes do “Auto-retrato falado”: “Todas as minhas palavras já estavam consagradas de pedras“. Esse verso parece apontar para um fim de trajeto, em que as palavras foram sendo desvestidas de seus significados até chegarem ao estado de coisa, de pedra. Os versos seguintes a esse elucidam ainda mais essa idéia:

Não era mais a denúncia das palavras que me
importava mas a parte selvagem delas, os seus
refolhos, as suas entraduras.
Foi então que comecei a lecionar andorinhas.

A busca do poeta é pela “parte selvagem” das palavras, pelas suas reentrâncias, o que a aproxima de uma árvore, de uma pedra, de um bicho. No fim, não se lecionam palavras, mas andorinhas, ou seja, ao invés de o poeta mostrar as coisas através de palavras, ele as mostra através delas mesmas, alcançando, como já se disse, a “coisidade” da coisa, a coisa em si mesma.

Essas idéias se repetem, mais uma vez, com a imagem da árvore, tão presente na poesia de Barros, fazendo com que as pessoas se transfigurem em árvores: “Bernardo é quase árvore.” (XII), “Estou atravessando um período de árvore.” (XIII), ou o já citado “Ele me árvore.” (I).

A recusa a definições ressurge, como no poema III, em que se fala de um vaqueiro, de um “peão de campo:”

Gostava de desnomear:
Para de falar barranco dizia: lugar onde avestruz esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.

O peão do poema faz poesia sem que saiba. A sua recusa em definir, em conceituar, ou, mais do que recusa, a sua ignorância dos conceitos, faz dele um poeta, no sentido que Manoel de Barros dá à poesia. Ao contrário do homem que chamou de “enseada” a imagem do rio que passa por detrás da casa, o peão não conceitua, ele cria imagens a partir das próprias coisas, não a partir de conceitos, criando, assim, belas imagens poéticas.

Esse é o percurso da poesia de Manoel de Barros: da palavra à coisa, do ser à natureza, do agora ao original, dá página à pedra. O peão do poema pode ser visto como um duplo do poeta, como uma extensão sua, já que é dessa maneira que o poeta tenta fazer poesia: partindo das coisas, dos bichos, das pedras, de um universo primeiro, situado nas origens: Assim é que o poeta pode “voar fora da casa”, pode alcançar os deslimites da palavra, o além da linguagem, o cerne das coisas – sua matéria é, enfim, o que escapa à expressão por meio de palavras.

CONCLUSÃO

A busca de uma língua ainda não maculada pela civilização e a procura por uma maneira de expressão que nos reingresse a um universo primitivo é justamente o projeto de Manoel de Barros com sua poesia. Essa é também a diretriz que alinhava todas as cinco obras, seja em relação às temáticas, seja em relação à linguagem. Manoel de Barros, assim, colabora substancialmente para refletirmos também sobre os inícios do povo brasileiro, ainda que na sua poesia não haja uma referência explícita a essa temática. Mas sua poesia, possuidora de um verbo primitivo, arcaico, coloca-nos a possibilidade do resgate, mesmo que na linguagem, de uma origem rica e necessária.

Fonte:
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/ignoracas

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João Guimarães Rosa (A Hora e Vez de Augusto Matraga)

“A hora e vez de Augusto Matraga” é a última novela de Sagarana, obra de estréia de João Guimarães Rosa. O volume é composto por nove novelas ligadas entre si pelo espaço em que transcorrem as ações, focalizando o regional mineiro e captando os aspectos físicos, sociais e psicológicos do homem e do meio interiorano. “A hora e vez de Augusto Matraga” é considerada, por muitos críticos, a mais importante produção do escritor em Sagarana, tanto por sua estrutura narrativa quanto pelo tratamento da luta entre o bem e o mal, e todo o questionamento decorrente de uma tomada de consciência do homem optando por uma dessas forças.

1º Movimento – o Mal

“Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, da Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici”. Augusto aparece como homem desregrado. Fazia questão de mostrar-se valentão, não se importando com a família – a mulher Dionora e a filha. Gostava de tirar mulher dos outros, de brigar de debochar. Vivia cercado de capangas. Com a morte do pai Afonsão, ficou ainda mais estouvado e sem regras: tinha dívidas enormes, faltava-lhe crédito, terras em desmando e política do lado errado.

Dionora amaro o marido, “amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas, e o suportara os demais. Agora, porém, tinha aparecida outro”. Foge com Ovídio carregando a filha. O azar não pára aí, Augusto é abandonado por seus capangas. Resolve, antes de ir matar a mulher e o amante, enfrentar sozinho o seu maior inimigo, o Major Consilva.

Mas o Major piscou, apenas, e encolheu a cabeça, porque mais não era preciso, e os capangas pulavam de cada beirada, e eram só pernas e braços. (…) Já os porretes caíam em cima do cavaleiro, que nem pinotes de matrinxãs na rede. Pauladas na cabeça, nos ombros, nas coxas. Nhô Augusto desceu o corpo e caiu. Ainda se ajoelhou em terra, querendo firmar-se nas mãos, mas isso só lhe serviu para poder ver as caras horrívies dos seus próprios bate-paus, (…). Puxaram e arrastaram Nhô Augusto, pelo atalho do rancho do Barranco, que ficou sendo um caminho de pragas e judiação. (…) E quando chegaram ao rancho do Barranco, ao fim da légua, o Nhô Augusto já vinha quase que só carregado, meio nu, todo picado de faca, quebrado de pancadas e enlameado grosso, poeira com sangue. Empurraram-no para o chão, e ele nem se moveu. (…) Os jagunços veteranos da chácara do Major Consilva acenderam seus cigarros, com descanso, mal interessados na execução. Mas os quatro que tinham sido bate-paus de Nhô Augusto mostravam maior entusiasmo. (…) E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major – que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto.

O corpo dele rolou e atirou-se no fundo de um barranco.

2º Movimento – “Para o céu eu vou, nem que seja a porrete!”

Praticamente morto, Matraga foi recolhido por um casal de negros que vivia no lugar. Aconselhado por eles, busca um padre, confessa sua vida, medita sobre a mulher, a filha, pensa em tudo de ruim que já fez. Agora está decidido: “- Eu vou pra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!… E a minha vez há de chegar… Pra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…”

Com os negros, foi morar num sítio, única coisa que restar a Augusto. Começou a viver para ajudar os outros. Capinanva para ele mesmo e para os vizinhos, pouco conversava. Murmurava as frases finais do padre – “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há-de ter a sua”. Não fumava mais, não bebia, não olhava para as mulheres. Cada dia esquecia mais a sua vergonha.

Mas, como tudo é mesmo muito pequeno, e o sertão ainda é menor, houve que passou por lá um conhecido velho de Nhô Augusto – o Tião da Tereza – procura de trezentas reses de uma boiada brava, que se desmanchara nos gerais do alto Urucaia, estourando pelos cem caminhos sem fim do chapadão.

Tião da Tereza ficou bobo de ver Nhô Augusto. E, como era casca-grossa, foi logo dando as notícias que ninguém não tinha pedido: a mulher, Dona Dionora, continuava amigada com seu Ovídio, muito de-bem os dois, com tenção até em casamento de igreja, por pensarem que ela estava desimpedida de marido; com a filha, sim, é que fora uma tristeza: crescera sã e encorpara uma mocinha muito linda, mas tinha caído na vida, seduzida por um cometa, que a levara do arraial, para onde não se sabia… O Major Consilva prosseguia mandando no Murici, e arrematara as duas fazendas de Nhô Augusto… Mas o mais mal-arrumado tinha sido o Quim, seu antigo camarada, o pobre do Quim Recadeiro – “Se alembra?” – Pois o Quim tinha morrido de morte-matada com mais de vinte balas no corpo, por causa dele, Nhô Augusto: quando soube que seu patrão tinha sido assassinado, de mando do Major, não tivera dúvida – …jurou desforra, beijando a garrucha, e não esperou café coado! Foi cuspir no canguçu detrás da moita, e ficou morto, mas já dentro da sala-de-jantar do Major, e depois de matar dois capangas e ferir mais um…

A tristeza invade Augusto, mas lago nele começa a reavivar o homem forte, ao lado do humilde que viva pacificamente, pregando o bem. “Até que, pouco, a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela (…), Nhô Augusto agora tinha muita fome e muito sono. O trabalho entusiasmava e era leve. Não tinha precisão de enxotar as tristezas. Não pensava nada…”

Certo dia, chega ao reduto de Matraga o bando do temido Joãozinho Bem-Bem. O povo não se mexia de tão apavorado, mas Nhô Augusto acolhe-os e os trata com hospitalidade.

Nhô Augusto, depois de servir a cachaça, bebeu também, dois goles, e pediu uma dos papo-amarelo, para ver:
— Não faz conta de balas, amigo? Isto é arma que cursa longe…
— Pode gastar as oito. Experimenta naquele pássaro ali, na pitangueira…
— Deixa de criaçãozinha de Deus. Vou ver só se corto o galho… Se errar, vocês não reparem, porque faz tempo que eu não puxo dedo em gatilho…

Fez fogo.
— Mão mandona, mano velho. Errou o primeiro, mas acertou um em dois… Ferrugem em bom ferro!

Mas, nesse tento, Nhô Augusto tornou a fazer pelo-sinal e entrou num desânimo, que não o largou mais.

Ressurge em Matraga o valente que ele procurava esquecer. Quando Joãozinho Bem-Bem está de partida, convida-o para acompanhá-lo, fazer parte do bando. “Ah, que vontade de aceitar e ir também…” Matraga vence a tentação, recusa com o coração partido. “E, à noite, tomou um trago sem ser por regra, o que foi bem bom, porque ele já viajou, do acordado para o sono, montando num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões,, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo”.

3º Movimento: “Cada um tem a sua hora e a sua vez…”

Recuperado fisicamente, Augusto Matraga resolve sair de seu reduto, caminhar a fim de encontrar sua hora. Caminha sem destino, quando chega a lugarejo em que , por coincidência estavam Joãozinho Bem-Bem e seu bando prontos para executar uma família, para se vingarem da morte de um capanga. O velho chefe da família, pede, implorando para que só ele morra. Mas Bem-Bem se recusa a aceitar o pedido do velho, alegando ser regra… “Senão, até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga gente sua, morta de traição?… É regra.”

Augusto interfere, opondo-se à vingança. Há um duelo em que Joãozinho Bem-Bem e Augusto Matraga saem mortos. Morrem como irmãos, Joãozinho dizendo:
— Estou no quase, mano velho… Morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci!… Eu sempre lhe disse quem era bom mesmo, mano velho… é só assim que gente como eu tem licença de morrer… Quero acabar sendo amigos…
— Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas, agora, se arrepende dos pecados, e morre logo como um cristão, que é pra gente poder ir junto…

Mas, seu Joãozinho Bem-Bem, quando respirava, as rodilhas dos intestinos subiam e desciam. Pegou a gemer. Estava no entorcer do fim. E, como teimava em conversar, apressou ainda mais a despedida. E foi mesmo.

No que restou de sua vida, Matraga é reconhecido por um primo.

Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento.

Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:
— Põe a benção na minha filha… seja lá onde for que ela esteja… E, Dionora… Fala com a Dionora que está tudo em ordem!

Depois morre
(In Resumo, comentários e textos – PUC 98, coordenação de Célia A. N. Passoni, Editora Núcleo)
Introdução

Sagarana reúne nove contos nos quais estão presentes os temas básicos de João Guimarães Rosa: a aventura, a morte, os animais metaforizados em gente, as reflexões subjetivas e espiritualistas. O conto A hora e a vez de Augusto Matraga pertence a esse livro e traz para os sertões de Minas Gerais peripécias como nas antigas histórias heróicas.

Narrador

Quanto ao processo narrativo, geralmente as histórias de Guimarães Rosa (ou estórias, como queria Rosa) concentram-se em torno de “casos” que sustentam os enredos. Grande sertão: veredas provocou impacto sem precedentes em nossa literatura. Quando foi lançada a obra, percebeu-se que estava ali algo diferente de tudo o que até então se fizera em nossa literatura.

O narrador muitas vezes caracteriza como folclóricas as histórias que conta, inserindo nelas quadrinhas populares e dando-lhes um tom épico e/ou de histórias de fada. A onisciência do narrador dos contos em terceira é propositalmente relativizada, dando voz própria e encantamento às narrativas e acentuando sua dimensão mítica e poética.

O próprio narrador questiona o conceito de realidade e ficção na literatura. Veja o fragmento a seguir:
“E assim passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor”.Observa-se nessa passagem um diálogo com leitor e também a reflexão sobre a relação existente entre a literatura e o compromisso com a verdade.

Espaço

O ambiente rural vem, há muito tempo, fornecendo material para nossa literatura. A década de 1930 marca o surgimento do romance do Nordeste, com Graciliano Ramos (Vidas Secas) e Rachel de Queiroz, entre outros. Guimarães Rosa retoma a temática e a modifica radicalmente. E quais são essas modificações radicais?

Os demais regionalistas incorporavam termos regionais ao texto literário. Guimarães Rosa recria a linguagem regional de forma extremamente elaborada. Baseando-se na linguagem da região em que “ocorrem” as histórias narradas, o autor cria palavras novas, recupera o significado de outras, empresta termos de línguas estrangeiras e estabelece relações sintáticas surpreendentes.

Na obra de Guimarães Rosa, o sertão não se limita ao espaço geográfico, mas simboliza o próprio universo. Como afirma Riobaldo, personagem de Grande sertão: veredas: “O senhor tolere, isto é o sertão. O sertão está em toda a parte.”

O sertão criado por Guimarães Rosa é uma realidade geográfica, social, política, mas também é uma realidade psicológica e metafísica. Nesse espaço (sertão-mundo), o sertanejo não é apenas o homem de uma região e de uma época específicas, mas homem universal defrontando-se com problemas eternos: o bem e o mal; o amor; a violência; a existência ou não de Deus e do Diabo. Daí classificar-se seu regionalismo como universalista.

A luta entre o BEM e o MAL também pode ser identificada no livro , principalmente na relação de Matraga com Joãozinho Bem-Bem:
“- Sou um pobre pecador, seu Joãozinho Bem-Bem…
– Que-o-quê! Essa mania de rezar é que está lhe perdendo… O senhor não é padre nem frade pra isso; é algum?… Cantoria de igreja, dando em cabeça fraca, desgoverna qualquer valente… Bobajada!
– Bate na boca seu Joãozinho Bem-Bem meu amigo, que Deus pode castigar!”

O espaço específico do conto em questão pode ser bem delimitado. A história acontece na região do Norte de Minas Gerais:
“Era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitibá à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, da Carinhanha até Paracatu…” Três espaços são essenciais para a história: Pindaíbas, Tombador e Arraial do Rala-côco.

Tempo

A história começa com a seguinte marcação temporal: “Era fim de outubro, em ano resseco…” Depois dos acontecimentos que envolvem Matraga, transcorrem cerca de 6 anos.

Personagens

A razão do conto é alógica e mágica, conforme dissemos, e, portanto, aqueles em quem incide. Trata-se dos seres em disponibilidade, à margem da produção econômica e, por isso propensos ao devaneio, à aventura.

Neste contexto, podemos compreender que no homem comum está a divindade, no pecador a salvação, como nos mostra Augusto Matraga.

Estudo dos personagens

Augusto Matraga : Filho do fazendeiro e coronel Afonso Esteves, órfão de mãe, era conhecido por todos da região como Nhô-Augusto. Homem brigão, temido por todos, passava a vida bebendo e vadiando com outras mulheres. Deixava sua mulher e sua filha em casa, enquanto aproveitava a vida. Um dia, ficou muito endividado e perdeu os amigos e a mulher para outro. Além disso, levou uma surra e quase morreu. Depois disso, se converteu e morreu preocupado com a salvação de sua alma.
D. Dionóra. Mulher de Matraga: desprezada por ele. Acaba fugindo com outro homem, mesmo sabendo que ele poderia matá-la. Nunca mais viu o marido e nem foi vista por ele. Mimita
Mimita. Filha de Matraga. Foge com a mãe e acaba caindo na vida com um sujeito desconhecido.
Ovídio Moura Homem com quem D. Dionóra fugiu.
Quim Recadeiro Amigo fiel de Matraga, tentou evitar que Dionóra fugisse. Quando Matraga leva uma surra e é tido como morto, ele tenta vingá-lo e acaba sendo assassinado.
Major Consilva. Dono de terra e rival de Matraga. Mandou mata-lo após uma emboscada.
Casal de Negros: mãe Quitéria e pai Serapião. Cuidam de Matraga após ter sido pego em uma emboscada e é tido como morto. Esse casal lhe ensina a moral cristã.
Bando de Joãozinho Bem-Bem: Flosino Capeta, Cabeça-Chata, Tim Tatu-tá-te-vendo, Zeferino (gago), Epifâmio e Juruminho (foi assassinado no final e Joãozinho volta ao lugar para vingar sua morte e acaba reencontrando Matraga). Joãozinho tem muita afinidade com Matraga, mas ambos morrem no final depois de lutarem um contra o outro.
Tião da Thereza : conhecido de Matraga, o encontra e descobre que ele não estava morto. Passa, então a lhe contar o que acontecera a Dionóra e Mimita.
Prostitutas : Angélica e Siriema: são leiloadas no início de uma festa popular e Matraga ganha Siriema porque era temido. Quando ela tira a roupa, desiste de ficar com ela por considera-la feia.
Padre: É chamado pelo casal de velhos para abençoar Matraga e disse para ele: “sua hora chegará”. Matraga repete essa frase até o final do livro, todas as vezes que se lembrava das injurias que sofreu.

Enredo

Era noite de novena no arraial e havia uma procissão. Quando a reza acabou, aconteceu um rápido leilão. Depois disso toda a gente foi embora, mas o leiloeiro ficou na barraca, comendo amendoim, no meio do povo bêbado do fim da festa. Além deles, havia duas prostitutas, Angélica (negra) e Siriema (branca). Os homens começaram a disputá-las, como se elas também estivessem em leilão. Nesse momento, Nhô Augusto (Augusto Matraga) berrou para o leiloeiro, oferecendo 50 mil réis por Siriema. O povo, então, incentivou-o a levar a prostituta branca. Ele pegou-a pelo braço e os dois saíram. Ela quis ficar com outro homem e até ameaçou um choro, mas acabou se rendendo a ele. Quando a levou para casa e acendeu a luz, percebeu que ela era muito magra e disse: “Que é? – Você tem perna de Manuel-Fonseca, uma fina e a outra seca!” , mandando a rapariga embora. Depois disso, desceu a ladeira sozinho e esbarrou com Quim que trazia um recado de Dona Dionóra, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Ele disse a Quim Recadeiro que não iria lá. Quando Dona Dionóra soube a resposta, teve vontade de chorar pelo desprezo do marido e por sua desdita. Ela conhecia e temia os repentes de Nhô-Augusto que não se importava nem com a filha Mimita de dez anos. Ela sabia que ele tinha outros prazeres e outras mulheres, mas aceitava, pois havia contrariado toda a família para se casar com ele. Outro homem já tinha aparecido em sua vida, mas ela sabia que se fugisse Matraga a mataria. Depois de pensar, ela dormiu e, de madrugada ainda, partiu com a filha e com o camarada Quim, parando na fazenda de um tio. De manhã, continuaram a andar. No meio do caminho, encontraram Seu Ovídio Moura, o homem com quem ela decidiu fugir, mesmo com medo de ser assassinada pelo marido. Quim voltou para contar a Nhô-Augusto o que acontecera.

Quando recebeu a notícia, Matraga decidiu ir atrás, mas seus homens não quiseram ir com ele, pois ele devia dinheiro para todos. Além do mais, sua fama no lugar não era muito boa. Apesar de tudo isso, ele decidiu matar Ovídio, mas antes quis vingar-se do Major Consilva e de seus capangas que não quiseram acompanhá-lo na busca da esposa. Chegou, então, à chácara do major, porém, os capangas o espancaram até que ele caísse. No meio desses homens, estava o camarada de quem ele havia ganhado a prostituta Siriema. Quando ele já estava caído, o major mandou que o matassem. Eles o arrastaram até o rancho do Barranco. Antes de matá-lo, esquentaram o ferro dos gado e marcaram sua pele com as iniciais do Major Consilva. Nessa hora, ele levantou gritando e se jogou do barranco. Os capangas o consideraram morto e colocaram uma cruz no local.

Um homem negro que morava perto dali foi até ele e o levou para seu casebre. Nhô-Augusto pediu que o matassem, mas, dias depois, retomou a consciência. Lembrou-se da mulher e da filha, chorou e chamou o nome de sua mãe. O homem que o acudiu pediu que ele rezasse para Deus e para Nossa Senhora do Rosário. A tristeza tomou conta de Matraga.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e, após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou que sua vida já acabara e esperava apenas a salvação da sua alma. Tomara tão grande horror às suas maldades que nem podia mais se lembrar delas. Parecia se converter a Deus aos poucos.

Quando ficou bom, pensou em ir para o sertão com o casal samaritano que o socorreu e viajaram para o povoado do Tombador. Lá, ele pedia trabalho e conversava pouco. Às vezes, ficava sozinho e se lembrava das últimas palavras do padre: “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.” Desse modo, passaram-se quase seis anos. Ele não fumava nem bebia; não olhava para as mulheres nem discutia.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô-Augusto, dando notícias de sua família: Dona Dionóra, continuava amigada com Seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadero havia morrido de “morte matada” porque tentou vingar-se dos capangas que pensava terem matado Nhô. Ao ouvir tudo isso, Matraga repetia para si mesmo que sua hora havia de chegar. Por causa disso, no dia seguinte, fez muita caridade para não perder seu lugar no céu.

Com o tempo, ele voltou a ter muito sono e muita fome. Pensou que Deus o havia perdoado e mãe Quitéria louvou a Deus por isso. Acordou mais cedo e diante de tanta felicidade que sentia, teve vontade de fumar e não se sentiu pecando por isso.

Um dia, chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nhô foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado. Todos conversaram muito durante a noite e o chefe do bando, na hora de ir embora, convidou Nhô para ir com eles, mas ele recusou. Apesar disso, os invejou depois, porque não tinham que pensar na salvação da alma e podiam andar no mundo sem vergonha. Pensou bem e considerou que essa história de andar em penitência era andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos. Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jegue emprestado pelo amigo Rodolphio Merêncio. Onde o jegue o levou ele foi e entraram em um arraial onde, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

João ia matar um homem para vingar a morte do Jumentinho, seu colega de bando. O homem implorou pela vida, clamando por Deus e, quando viu essa cena, Nhô interveio, alegando que pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem tinha que ser respeitado. Joãozinho sentia-se preso a Nhô por respeito e não soube o que fazer. Seu bando, entretanto, liderado por Teófilo Sussuarana, caminhou para cima de Matraga. João também foi para a briga se agrediram. Por fim, Nhô-Augusto cortou a barriga do chefe do bando da púbis à boca do estômago, condenando-o à morte. Preocupado com a salvação de Joãozinho, Matraga pediu que ele se arrependesse de seus pecados, mas não ouviu resposta, pois este morreu em seguida. Nhô estava muito machucado, mas pediu que chamassem um padre. O povo, por sua vez, agradecia, dizendo que Deus o mandou ali para salvar as famílias. Diziam: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!…”. Por isso, era chamado de herói e santo por todos, pois ninguém antes tivera coragem para enfrentar Joãozinho Bem-Bem.

Um primo de Matraga estava no lugar e o reconheceu. Ele pediu a esse parente que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Dionóra que estava tudo em ordem. Depois disso, morreu.

Análise crítica

A questão da espiritualidade

A hora e vez de Augusto Matraga é uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão. Ao longo do seu enredo o protagonista, Augusto Matraga, passa do mal ao bem, da perdição à salvação. O agente desta passagem é o jagunço Joãozinho Bem-Bem. Podemos associar a ele o ditado: Deus escreve certo por linhas tortas, pois é o malvado Joãozinho Bem-Bem que permite a morte gloriosa e salvadora de Matraga. A dualidade entre o bem e o mal parece marcar esse mundo de jagunços e fazendeiros, no qual há a possibilidade de conversão quando chega a vez e a hora certa das pessoas, como ocorreu com Matraga. Nhô Augusto renuncia à vingança, mas não à honra, e se regozija ao fim, radiante, ao se deparar com a hora e vez de ser Matraga, o homem que escolheu ser. Homem capaz de agir com coragem, justiça, fraternidade e compaixão.

Observe pela leitura que o número três se repete em várias ocasiões, devido ao fato de ser místico.
Ex.: Matraga percorre três espaços e tem no corpo a marca de um triângulo inscrito em uma circunferência.

Linguagem

Na linguagem de Guimarães Rosa encontramos os jogos de palavras, o prazer lúdico, quase infantil, dos trocadilhos, das associações inesperadas de imagens, do trabalho sonoro e poético com a prosa.

A pontuação das frases de Guimarães Rosa também está ligada a esta preocupação lúdica com a linguagem: trata-se sempre de associar o jogo de palavras aos elementos da narrativa (personagens, narrador, enredo, etc.) Com a pontuação, ele busca um ritmo que só pode ser encontrado na poesia do sertão, na marcha das boiadas, na passagem lenta e imperceptível do tempo, no bater das asas dos periquitos, no balançar sinuoso das folhas do buriti.

Guimarães Rosa é, em conclusão, o criador de uma obra em que elementos da cultura popular e elementos da cultura erudita se mesclam para reinventar a força da linguagem sertaneja e mineira. Conhecedor de pelo menos dezoito idiomas, ao lado das palavras que traz do vocabulário sertanejo há várias construções importadas do latim, do francês, do inglês e do alemão em seus livros. Poucos como ele têm a capacidade de reunir a erudição das reflexões filosóficas à transposição do imaginário popular, sem menosprezar as primeiras, e simplificando o segundo.

É o que vemos ao ler alguns trechos de Sagarana, onde percebemos o ritmo, a cadência, a fecundidade e o mistério, difícil de decifrar, de sua linguagem.

As marcas de oralidade são muito expressivas através das músicas cantadas pelos personagens durante todo o enredo:

“Mariquinha é como a chuva: / boa é, prá quem quer bem! / Ela vem sempre dee graça, / Só não sei quando é que vem”. “Ei, compadre, chegadinho, chegou… / Ei, compadre, chega mais um bocadinho”. “O terreno lá de casa / não se varre com vassoura: / Varre com ponta de sabre / bala de metralhadora”. “Eu quero ver a moreninha taboroa, / arregaçada, enchendo o pote na lagoa… / Como corisca, como ronca a trovoada, / no meu sertão, na minha terra abençoada… / Quero ir namorar com as pequenas / com as morenas do Norte de Minas”. “Eu já vi um gato ler / e um grilo sentar escola / nas asas de uma ema / jogar-se o jogo ded bola / dar louvores ao macaco. / Só me falta ver agora / acender vela sem pavio / correr pra cima a água do rio / o sol a tremer com frio / e a lua a tomar tabaco”.

Além disso, essa expressão oral é evidenciada através da gagueira de um dos homens do bando de Joãozinho Bem-Bem (Juruminho): “- Pois eu… eu est-t-tou m’me-espan-t-tando é de uma c’coisa…] e “É o m’ molho de as-mam-báia e a so-p-‘pa da c’c’ anji-quinha”.

Fonte:
MULLER, Maria Laura. Disponível em http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/horaeavezdeaugustobraga

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Rubem Fonseca (Agosto)

biografia do autor postado em 14/04/2008
1. PERSONAGENS E ENREDO

Neste romance, o autor desenvolve três tramas paralelas: policial, amorosa e histórico-política. Alguns personagens atuam em duas ou nas três tramas.

PERSONAGENS EM EVIDÊNCIA NA TRAMA POLICIAL:

ALBERTO MATTOS, ou simplesmente MATTOS: comissário de polícia, solteiro, residente em apartamento no oitavo andar de um prédio na Rua Marquês de Abrantes, bairro Flamengo, Rio de Janeiro. Formado em Direito, pretendia ser juiz, mas arrumou o emprego de comissário enquanto esperava completarem os cinco anos estipulados para prestar o concurso de acesso à magistratura. Carregava no bolso sempre um dente restaurado que se despregara da boca e sofria de uma úlcera gástrica que o atormentava.
PÁDUA: comissário de polícia que alternava plantões com Mattos.
ROSALVO: investigador de polícia, subordinado a Mattos.
RAMOS: delegado de polícia, superior de Mattos.
PAULO MACHADO GOMES AGUIAR: rico industrial assassinado, sócio fundador da Cemtex, uma das maiores firmas de importação e exportação do país (dizia-se que ele era testa-de-ferro de grupos estrangeiros)..
CLÁUDIO AGUIAR: primo de Paulo.
LUCIANA GOMES AGUIAR: esposa de Paulo.
ALICE: ex-amante de Mattos e casada com
PEDRO LOMAGNO: rico industrial, amante de Luciana.
SALETE: ex-prostituta, amante de Mattos e de
LUIZ MAGALHÃES: rico industrial.
CHICÃO: um negro forte, executor das ordens de Lomagno para eliminar aquelas pessoas influentes que prejudicassem seus projetos de corrupção.
VITOR FREITAS: senador, homossexual.
CLEMENTE: assessor do senador Freitas.

TRAMA POLICIAL

Início do mês de agosto de 1954. Mattos e Rosalvo, atendendo à comunicação, feita no final da manhã, do assassinato de Paulo Gomes Aguiar, ocorrido à noite, dirigiram-se ao oitavo andar do luxuoso edifício Deauville. Mattos encontrou no box do chuveiro um anel largo de ouro, no qual estava gravada a letra F, e guardou-o no bolso.

Da empregada que telefonara para a delegacia, Mattos ficou sabendo que Luciana estava em Petrópolis há mais tempo e que Cláudio Aguiar, acompanhado do advogado Galvão, havia chegado ao apartamento antes dos policiais. Comunicou-lhes que precisava interrogar a viúva. Antônio Carlos, o perito que fora fazer seu trabalho, encontrou e entregou ao comissário uma caderneta de endereços pertencente ao morto. Ao sair, Mattos deixou com o porteiro do dia recado para o porteiro da noite, Raimundo, que o procurasse no distrito tão logo pudesse.

O depoimento prestado por Luciana ao comissário no distrito nada de esclarecedor acrescentou.

Rosalvo estava pesquisando a vida pregressa de Paulo Gomes Aguiar, de Cláudio Aguiar e também do senador Freitas, nome incluído na caderneta de endereços do morto. Até então, o investigador nada descobrira que pudesse explicar o homicídio.

Pádua relatou ao colega Mattos que os senadores tinham o costume de relaxar de suas graves tarefas no “senadinho”, um apartamento de prostituição em prédio vizinho ao Senado. Para lá os dois policiais se dirigiram a fim de obter declarações da “cafetina” Laura, proprietária do prostíbulo. A única novidade obtida, sem interesse para o caso, foi a de que o Freitas era homossexual obcecado por rapazes.

Rosalvo colheu a informação de que Paulo, Cláudio e Pedro Lomagno tinham estudado no mesmo colégio, do qual foram expulsos por terem violentado sexualmente um outro aluno, José Silva. O mesmo investigador descobriu que Pedro Lomagno era sócio da Cemtex. Aliás, essa empresa conseguia vantagens junto ao Banco do Brasil por intermediação de Luiz Magalhães.

O perito e o legista passaram para Mattos algumas conclusões acerca do homicídio de Paulo: o assassino era um negro que matara por estrangulamento. O comissário interrogou o porteiro noturno do edifício Deauville e ficou sabendo que o apartamento dos Gomes Aguiar tinha sido visitado, na noite do crime, por um negro corpulento e mal-encarado, que disse estar indo lá para fazer um trabalho, provavelmente de macumba, segundo o porteiro. Luciana, porém, o havia proibido de falar com alguém sobre essa visita.

Mattos desconfiou que o assassino fosse Gregório Fortunato, o importante chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas; ele correspondia à descrição e usava um anel pelo menos semelhante ao encontrado pelo comissário. Alice insinuou que seu marido estava implicado na morte do empresário por ser amante da viúva. Mas, como ele não era negro, a hipótese foi considerada improvável.

Mattos nunca aceitou suborno dos bicheiros, mas tinha o costume de soltar os pobres coitados que eram presos quando colhiam os palpites do jogo de bicho nas ruas. Certo dia, irritou-se com a arrogância de um desses contraventores de pequeno porte, Ilídio. Deu-lhe um pontapé no traseiro e o manteve preso por curto tempo. Ilídio integrava uma corrente de bicheiros importantes que subornavam os policiais. Ramos, o delegado, chamou a atenção de Mattos por ter sido violento. Ele era um dos que recebiam suborno dos banqueiros do bicho; por isso Ilídio entrava no distrito policial com ares de poderoso. Humilhado, ele jurou vingar-se de Mattos. Contratou um capanga temido para matar o comissário, um tal de Turco Velho, que estava em Caxambu visitando a mãe. Imediatamente, retornou ao Rio para efetuar esse trabalho. Os poderosos banqueiros de bicho Aniceto Moscoso e Eusébio de Andrade convocaram seu subordinado Ilídio e usaram de um argumento convincente para que ele desistisse de mandar matar Mattos, ato completamente prejudicial aos interesses dos contraventores: ofereceram-lhe mais pontos do jogo de bicho, sonho dele, que ansiava crescer naquele ramo de atividade. Ilídio aceitou a proposta e ficou de dar uma contraordem para Turco Velho. Este, porém, gostava de “trabalhar” sozinho, não foi encontrado, ninguém sabia de seu paradeiro.

Mattos foi à sede da Presidência da República, o Palácio do Catete, para interrogar Gregório Fortunato. Conseguiu conversar com o subchefe da guarda pessoal do presidente, o inspetor Valente. Gregório, o chefe, estava ocupado, não poderia atender.

Alguém telefonou para o distrito, sem se identificar, e informou ao comissário que alguém iria lhe dar um tiro. Mattos não deu importância a essa ameaça pois não sabia que o “anônimo” era Ilídio, preocupado porque não conseguira cancelar a incumbência dada ao capanga.

Sem que Mattos percebesse, foi seguido por Turco Velho, que bateu à porta da casa dele, simulando querer fazer uma denúncia. O comissário teve certeza de que era o matador contratado. Mandou-o entrar, deu-lhe voz de prisão e o levou para o distrito. Ciente disso, o colega Pádua insistiu com Mattos, em vão, no sentido de liquidar o preso. O comissário permitiu que o delegado soltasse Turco Velho no dia seguinte, por falta de provas. Pádua não se conformou com a idéia de que fosse solto alguém que queria e poderia matar um policial. Por isso, de madrugada, levou o homem para um lugar ermo e o executou com um tiro na nuca, mais convicto ainda de que agira certo depois de saber que se tratava do famoso matador Turco Velho. Este aceitou morrer como conseqüência de sua falha e, antes, pediu que Pádua avisasse à mãe dele que no cartório de Caxambu havia a escritura de uma casa em nome dela, comprada em segredo como presente de aniversário dentro de dois dias. Pádua atendeu ao pedido e nada disso contou a ninguém, muito menos a Mattos. Só se arrependeu depois de não ter tido a curiosidade de saber quem fora o mandante. Tempos depois, Mattos ficou ciente de tudo, inclusive de que o mandante era Ilídio, através de um ladrão de jóias perseguido por Pádua e pela informação de um funcionário do necrotério. Os banqueiros Eusébio de Andrade e Aniceto Moscoso deram proteção a Ilídio. Mandaram-no internar numa clínica de repouso e, assim, evitou-se o interrogatório policial.

Rosalvo encontrou-se com Teodoro, capanga do senador Vítor Freitas, e propôs um acordo: se o senador arrumasse sua transferência, ele o livraria das suspeitas que constavam na polícia de sua participação em várias negociatas. Teodoro levou essa proposta a Freitas. O senador, bêbado, desentendeu-se, após a saída do capanga, com Clemente e confessou seu medo de que o comissário Mattos descobrisse que ele tinha sido flagrado, pelo síndico do prédio onde morava, praticando sexo oral com um rapaz no elevador. Por enquanto, tal caso estava abafado. Quanto a seu envolvimento na Cemtex, o senador não tinha receio. Chegou a pedir a Clemente que acionasse Teodoro para liquidar Mattos. Mais tarde, voltou atrás, deixassem o comissário de lado.

Numa nova entrevista com Luciana, esta deu a entender a Mattos que o negro visitante de seu apartamento era um macumbeiro. Aliás, Lomagno concluíra que o porteiro Raimundo deveria ser morto; caso contrário, ele poderia induzir Mattos a suspeitar que o assassino procurado não era o pai-de-santo e sim Chicão, o qual agira sob as ordens do casal de amantes. Para executar a morte do porteiro, Lomagno recorreu novamente a ele.

A fim de cumprir sua missão, Chicão pediu emprestado o carro de sua amante Zuleika. Já passava de uma hora da madrugada quando ele atraiu o porteiro para dentro do carro, imobilizou-o à força e matou-o quebrando-lhe o pescoço. Pôs o corpo no porta-malas e conduziu o carro para um local afastado da cidade. Ali, protegido pela escuridão, mutilou o cadáver, colocou os pedaços num saco e o atirou num rio, amarrando nele uns halteres bem pesados. Teve o cuidado de levar consigo os dedos da mão decepados. No retorno, o dia já estava claro e o carro ficou retido num congestionamento diante da Igreja da Candelária, pois estava terminando a missa de sétimo dia pelo Major Vaz. Uma multidão gritava, ameaçava as autoridade. A polícia interveio. Chicão aproveitou-se da confusão; ao passar por onde havia feridos e alguns mortos, foi jogando na rua os dedos de Raimundo, guardando intervalos. Lomagno deu-lhe a ordem de sumir da zona sul do Rio.

Atendendo a um chamado telefônico de Lomagno, Mattos procurou-o no escritório da empresa Lomagno & Cia. e foi informado de que Alice fazia tratamento psiquiátrico por sofrer de psicose maníaco-depressiva. Mas interessou mesmo ao comissário ficar sabendo que Paulo Aguiar tinha recorrido a Gregório Fortunato para conseguir favores do Governo. Lomagno passou essa informação falsa quando percebeu que o comissário suspeitava de Gregório como assassino de Gomes Aguiar. Ainda com o intuito de confundir mais a elucidação da morte, Lomagno confirmou a história da amizade da família do morto com um macumbeiro e até se prontificou a mostrar onde ele morava. Assim foi feito. Os dois chegaram à casa do pai-de-santo e o comissário o interrogou. Embora não convencido de que aquele pudesse ser o assassino – o anel não caberia no dedo dele –, Mattos o levou para o distrito, pretendendo fazer uma acareação dele com o porteiro Raimundo. No edifício Deauville, colheu a informação de que Raimundo tinha sumido. Então, liberou o pai-de santo, já certo de sua inocência.

Outra diligência de Mattos foi conversar com José Silva, molestado sexualmente no colégio por Paulo Gomes Aguiar e outros. Encontrou-o em casa. Era dentista, casado, vivia com a mulher e a filha. O comissário logo notou que ele não tinha nenhuma implicação no assassinato.

Procurando perseguir a pista do homicídio que levava a Gregório Fortunato, Mattos convidou Pádua a irem entrevistar o poderoso “Anjo Negro” que estava preso na base aérea do Galeão. Não conseguiu seu intento. Pediu, então, ao oficial que verificasse se Gregório usava um anel. O militar trouxe o anel que o prisioneiro usava e era muito parecido com o que foi encontrado no apartamento do morto.

Continuando suas pesquisas, Mattos voltou ao “senadinho” e fez perguntas à cafetina Laura, de quem obteve a informação de que Lomagno era muito amigo de um negro forte, treinador de boxe.

Com a ajuda da Seção de Vigilância, tomou ciência de que Chicão dava aulas de boxe num clube. Lá chegando, em lugar do negro encontrou o velho Kid Terremoto, segundo o qual Lomagno abrira uma academia para Chicão e este usava, sim, um anel só tirado do dedo quando calçava luvas ou tomava banho. Mattos foi atendido pelo vigia do galpão de propriedade de Francisco Albergaria, que há muito não aparecia por lá. O comissário deixou um bilhete pedindo que Chicão se comunicasse com ele para uma informação, “coisa sem importância”.

Lomagno estava envolvido na negociata da Cemtex. Sua preocupação quase exclusiva, porém, era um plano para cuja realização precisava da ajuda de Chicão, a quem prometeu alta recompensa: matar o comissário Mattos.

No dia 24 de agosto, pela manhã, Mattos soube do suicídio de Getúlio Vargas e foi logo para o Palácio do Catete, onde a confusão era grande. Valendo-se de sua condição de policial, o comissário atingiu o objetivo de sua ida ao palácio, pois viu Vargas morto. Abalado, retornou ao distrito, desarmou os policiais de serviço, trancou-os na sala, pegou as chaves do carcereiro e soltou todos os presos. Pádua, avisado disso por telefonema do próprio Mattos, dirigiu-se ao distrito e encontrou o colega. Os dois discutiram. Pádua censurou o que o outro fizera, mas este, sem dar importância às palavras iradas a ele dirigidas, saiu sozinho. De madrugada, voltou ao Palácio do Catete, porque desejou ver de novo Vargas morto. Depois, esperou a saída do cortejo fúnebre e entrou no meio da multidão que seguiu até o aeroporto, onde o caixão do presidente foi embarcado. Mattos assistiu a vários confrontos que se sucederam nas ruas entre grupos de pessoas revoltadas e os soldados.

Já em seu apartamento, Mattos sentiu que sua úlcera estava sangrando. Telefonou para Salete que logo o foi socorrer. De repente, Chicão entrou pela porta da frente. Levado por Salete, o negro foi até o quarto e conversou com o comissário, o qual lhe entregou o anel e lhe deu voz de prisão. Sem se abalar, Chicão aumentou o volume da vitrola ligada e matou o comissário com um tiro de revólver. Após, lamentando ter que matar uma moça bonita – Salete lhe agradeceu por ele tê-la achado a mulher mais linda que vira na vida –, colocou o revólver sobre o seio esquerdo dela, apertou o gatilho. Diminuiu o som da vitrola e saiu sem olhar os mortos.

Poucos minutos depois, Genésio, o pistoleiro irmão de Teodoro a quem Clemente contratara para matar o comissário, chegou ao apartamento. Constatou as mortes. No hotel, onde o irmão dele e o mandante Clemente o esperavam, deu a notícia de missão cumprida – “Tive também que matar a moça que estava com ele. Mas não vou cobrar por isso” –, recebeu os cem contos combinados e foi-se embora.

O alto comando do jogo de bicho mandou um emissário à clínica na qual estava internado Ilídio para saber se ele havia participado da morte de Mattos. Mediante a negativa do bicheiro, um novo guarda-costas o escoltou na saída. No meio da estrada, o carro do bicheiro foi fechado por um Chevrolet em que estava Pádua e outro policial. Este atirou nos dois acompanhantes de Ilídio, matando-os. Depois, o bicheiro foi levado para um local ermo e, sob tortura, forçado a declinar o nome do negro que assassinou Mattos e Salete. Não acreditaram que Ilídio estivesse falando a verdade quando declarou não conhecer o matador. Por medo de morrer, ele denunciou Feijoada Completa, apelido do único negro cuja lembrança lhe veio à cabeça. Mesmo assim, Pádua o executou com um tiro na nuca, sem lhe tirar as algemas. “Deixa as algemas. Para os amigos desse filho da puta saberem que foi o pessoal da casa que fez este trabalho. Para aprenderem que não podem matar um tira assim sem mais nem menos”.

TRAMA AMOROSA

Mattos tinha sido amante de Alice, até que esta desistiu de esperá-lo tornar-se juiz. Largou-o e casou-se com Pedro Lomagno. Entretanto, o comissário nunca deixou de gostar de Alice. Afastado dela, mantinha relações amorosas freqüentes com Salete, a qual, embora mantida financeiramente pelo amante Luiz Magalhães, alimentava a esperança de casar-se com Mattos.

ALICE E MATTOS

Fazia três anos que Mattos não via Alice. Às seis horas da manhã de certo dia, o telefone do apartamento do comissário tocou. Era Alice, que queria encontrar-se com ele. Marcaram, para aquela tarde no Café Cavé, um encontro, no qual Alice recordou hábitos e fatos envolvendo os dois no período em que viveram juntos, o gosto dele por óperas, entre outros. Acabou ela não dizendo o que desejava dizer. Combinaram nova conversa para dois dias depois.

Salete estava com Mattos no apartamento dele no momento em que Alice tocou a campainha. Assim que viu a outra lá dentro, ela se despediu sem entrar e ficou de telefonar mais tarde.

Após alguns dias, Alice voltou ao apartamento de Mattos, que estava sozinho desta vez. Sem muitos rodeios, ela desabafou: “Meu marido é amante de Luciana Gomes Aguiar”. Nervosa, não deu continuidade ao assunto. Os dois discutiram e ela se retirou.

Em conversa com o marido, Alice lhe disse ter informado que Luciana era amante dele ao comissário Mattos. Lomagno a chamou de tola e ouviu da mulher que Mattos estava à procura de um negro, suspeito de ter matado Paulo Aguiar.

Alice, por sofrer de psicose maníaco-depressiva, fazia tratamento com um psiquiatra. Mattos o procurou querendo colher dados que o levassem a esclarecer a morte de Paulo Aguiar. Dr. Arnoldo Coelho, o médico, explicou que Alice, na fase maníaca, precisava de movimento, tornava-se irônica, escrevia compulsivamente páginas e páginas de seu diário, presenteava as pessoas; na fase depressiva, ficava totalmente apática e já chegara a ser internada. À pergunta de Mattos se ela costumava ter alucinações, o psiquiatra disse que não; às vezes, apenas passava por ilusões, como mania de perseguição, e só.

Novamente Alice apareceu no apartamento de Mattos e pediu para morar lá. Os dois dormiram juntos naquela noite. Na manhã seguinte, ela saiu com o comissário, que lhe deu as chaves da portaria e do apartamento. Ela havia deixado uma carta para o marido, comunicando-lhe que não queria mais viver com ele, que não a procurasse, pois estava bem de saúde.

Salete resolveu levar sua mãe para Mattos conhecer. Encontrou Alice no apartamento. Ao chegar, o comissário surpreendeu-se com as três juntas. Sugeriu que mãe e filha se retirassem. Salete saiu com vontade de chorar. Alice comprara vários objetos para o apartamento, inclusive cama nova, sob os protestos de Mattos, que nada adiantaram. Estava tudo pago.

O comissário se preocupava com a presença de Alice no seu apartamento porque tinha sido procurado lá por Turco Velho, incumbido de matá-lo. Por sorte, ela não estava no momento. Entretanto, mesmo ciente do perigo, Alice continuou morando com Mattos e até informou isso ao marido, o qual insistiu em que ela voltasse para casa. Mas ouviu-a dizer que amava o comissário e só precisava dele.

Em uma de suas conversas habituais, Alice perguntou a Mattos se estava feliz e pediu que prometesse não ver mais Salete. O comissário disse que precisava sair depressa, desconversou e não prometeu. Alice afirmou ser até bom que ela ficasse sozinha naquele momento porque tinha muita coisa para escrever no diário. No distrito, Mattos recebeu um telefonema do porteiro do prédio cientificando-o de que tinha havido um início de incêndio no andar em que morava. Lá chegando o mais depressa possível, soube que Alice queimara o diário e deixou o fogo se alastrar. Encontrou-a sem ferimentos. O comissário ligou para o psiquiatra, que mandou levá-la para a Casa de Saúde Dr. Eiras. O médico quis aplicar eletrochoque; Mattos pediu que ele não usasse esse procedimento em Alice. Deixou-a internada e disse que passaria lá no dia seguinte, assim que saísse do plantão. Logo que pôde foi visitá-la. Achou-a dormindo. O Dr. Arnoldo já havia passado cedo e a medicara. De casa, ligou para o psiquiatra, segundo o qual Alice passava bem e teria alta em dois dias. Mas não queria voltar para junto de Lomagno. Mattos pediu ao Dr. Arnoldo que lhe desse o recado de voltar para o apartamento dele. Pouco depois desse telefonema, o comissário foi assassinado.

SALETE E MATTOS

Salete só estudou até a quarta série do ensino fundamental. Seu amante, Luiz Magalhães, ofereceu a ela emprego no Senado, pois ele era bem-relacionado lá. Por medo, Salete recusou. Mas tinha vontade de estudar mais para conseguir exercer alguma profissão. Ela nasceu e foi criada em grande pobreza, sem conhecer o pai, numa favela perto de São Cristóvão, no Rio. Era a primeira dos três filhos. Ainda criança, tomava conta dos irmãozinhos para a mãe, uma mulata quase preta, feia e ignorante, ir trabalhar. Aos treze anos, Salete fugiu de casa e tornou-se babá numa casa de família em Botafogo. Lá ficou até encontrar D.Floripes, que a convidou para morar com ela e ganhar muito mais.

Antes, pois, de ser “descoberta” por Magalhães, Salete se sustentava financeiramente como uma prostituta agenciada por D. Floripes, relacionando-se com homens de classe média. Gastava o que ganhava comprando roupas caras. Graças a isso, foi notada por um homem rico.

Eram freqüentes as idas de Salete ao apartamento de Mattos. Este referia-se a Luiz Magalhães como o coronel dela. “É uma pessoa que me ajuda”, retrucava. “Se você quiser eu largo ele e venho morar aqui”. Mattos nunca quis. As discussões dos dois não tinham efeito duradouro.

Salete pedia sempre os “trabalhos” de mãe Ingrácia para conquistar Mattos (até cueca dele levou para a macumbeira fazer “despacho”).

Na primeira vez que Salete viu a loura Alice – justamente quando esta tocou a campainha no apartamento de Mattos e se despediu sem entrar –, não pôde deixar de se comparar fisicamente com ela. Embora soubesse que seu corpo era perfeito, achava-se horrorosa de rosto.

Mãe Ingrácia, ao lhe contar Salete sobre Alice, aconselhou-a a conseguir casquinhas de alguma ferida, mais eficientes do que a cueca para “trabalhos” de atrair paixão de homem. Quando o comissário bateu com a cabeça na parede e formou um “galo”, Salete ficou esperançosa de que virasse ferida com casquinha. Na primeira oportunidade que apareceu, ela foi mexer no fogão do apartamento de Mattos, pediu ajuda para fazer macarronada e acabou queimando, de propósito, a mão dele, na expectativa de que viesse a se formar uma ferida com casquinha. Mattos não esbravejou. Prometeu dar-lhe as casquinhas da ferida, mas pediu que não voltasse a ver a macumbeira, pois ele já gostava dela.

Salete não tinha tido nunca mais notícias da família e supunha que a mãe estivesse morta. Grande foi a sua surpresa no dia em que, do ônibus onde estava, viu a mãe saindo de uma loja. Pensou: “… a desgraçada não tinha morrido. Meu Deus, ficou mais negra e mais feia!” Sentiu-se infeliz ante a possibilidade de Luiz Magalhães e, sobretudo, Mattos virem a conhecê-la. Um dia depois, contudo, passou a pensar na mãe com pena. Tomou uma decisão. Pegou um vestido novo de seda francesa, embrulhou-o e foi tentar localizar a mãe para presenteá-la. Subiu o morro olhada com espanto pelos moradores, à procura de D. Sebastiana. À porta do barraco de madeira, coberto com folhas de zinco, encontrou-a. Sob forte comoção, ficou sabendo que um dos irmãos estava preso e o outro fugira de casa e não voltou mais. Salete pediu perdão à mãe e disse que a levaria para morar com ela. Já no seu apartamento, Sassá, como a mãe a chamava, a fez tomar banho e depois levou- a uma loja e à costureira, a fim de providenciar-lhe roupas novas.

A queimadura da mão de Mattos criou uma casca que ele guardou para Salete, a qual não sabia disso porque sumira do apartamento do comissário desde que Alice passara a morar lá.

Salete andava muito desgostosa, mais magra. Parara de se comunicar com Mattos e não atendia aos telefonemas de Magalhães. Certa feita, porém, com muita insistência deste, resolveu fazer-lhe um favor. Magalhães a levou à Sul América – Seguros e Capitalização, onde alugou um cofre em nome dela. Ele precisava ir para o Uruguai às pressas e passaria lá um tempo indeterminado “até que as coisas melhorassem”. Como tinha muitos inimigos, explicou, alguns objetos de valor ficariam guardados no cofre em nome dela. Assim que voltasse, os pegaria de novo. Deixou com Salete a chave, recomendou que não a perdesse, informou-a de que havia depositado bastante dinheiro na conta dela e afastou-se rapidamente. Salete desolou-se porque ele nem se importou quando lhe disse que gostava de outro homem. Magalhães sempre falava que, se isso acontecesse, a mataria. Ele brincou nervosamente: “Na volta eu te mato”.

Logo depois de ligar para o Dr. Arnoldo, que tratava de Alice hospitalizada, Mattos telefonou para Salete. Disse-lhe que a outra estava internada, que iria precisar dele por um tempo, mas que a verdadeira namorada dele era ela, Salete. Pediu que fosse vê-lo, tinha saudade. Na verdade, ele estava tendo uma crise fortíssima por causa da úlcera. Salete chegou logo, encontrou-o deitado, pálido, suando muito, precisando ser levado para um hospital. Ao socorrê-lo, Salete recebeu um embrulhinho com casquinhas de ferida. De repente, a porta da frente foi aberta. Chicão entrou e matou os dois.

PERSONAGENS EM EVIDÊNCIA NA TRAMA HISTÓRICO-POLÍTICA

GETÚLIO VARGAS – presidente da República do Brasil, ditador de 1937 e 1945 e eleito pelo voto popular em 1950.
GREGÓRIO FORTUNATO – um negro forte, amigo e chefe da guarda pessoal de Vargas, conhecido como “Anjo Negro”, mandante próximo do atentado à vida de Lacerda.
CARLOS LACERDA – jornalista, dotado de grande poder verbal, apelidado de “Corvo”; eleito deputado federal, através de artigos no jornal “Tribuna da Imprensa” e de discursos na Câmara, liderou o partido da UDN e aliou-se aos militares na conspiração golpista contra o governo de Vargas.
CLIMÉRIO – integrante da guarda pessoal de Vargas, encarregado por seu chefe e compadre Gregório de contratar um matador para dar fim à vida de Lacerda.
ALCINO – um carpinteiro desempregado, amigo de Climério, contratado por este para matar Lacerda.
NÉLSON – motorista cujo táxi foi utilizado por Climério e Alcino no atentado contra Lacerda.
MAJOR VAZ – oficial da Aeronáutica, morto no atentado contra Lacerda.
CAFÉ FILHO – vice-presidente da República no governo democrático de Vargas.
BRIGADEIRO EDUARDO GOMES – líder das forças militares contrárias a Vargas.
MARECHAL MASCARENHAS DE MORAIS – chefe do Estado Maior das Forças Armadas no governo de Getúlio, ex-comandante das tropas militares brasileiras que atuaram na Itália durante a 2ª Guerra Mundial.
GENERAL ZENÓBIO DA COSTA – Ministro da Guerra no governo de Vargas.
ALZIRA VARGAS – filha de Getúlio, casada com
ERNÂNI DO AMARAL PEIXOTO – político atuante e de confiança do sogro.
LUTERO VARGAS – filho de Getúlio, deputado federal.

TRAMA HISTÓRICO-POLÍTICA

Gregório Fortunato estava sozinho em seu quarto rememorando o mau transcorrer daquele ano de 1954 que já ultrapassara o primeiro semestre: manifestos dos militares contra o Governo; falta de confiança de Getúlio no apoio das Forças Armadas; tentativa de “impeachment” do presidente por parte dos políticos traidores; a liderança do oposicionista Carlos Lacerda com claros objetivos golpistas; vários políticos e empresários getulistas cobrando dele, Gregório, a morte de Lacerda. Já lhe tinham prometido uma boa soma de dólares como recompensa. De fato estava em poder de Luís Magalhães a quantia de quinhentos mil cruzeiros, enviada pelo industrial Matsubara – beneficiado pelo Governo num grande empréstimo junto ao Banco do Brasil – importância destinada a ajudar na campanha dum deputado, que era secretário particular do presidente Getúlio, mas que Gregório estava guardando para pagar ao futuro matador de Lacerda.

Gregório saiu do quarto e foi encontrar-se com Climério. Cobrou dele o que já lhe havia pedido: a indicação de um homem de confiança para matar Carlos Lacerda. Climério tranqüilizou o chefe dizendo que logo arranjaria o matador certo. Estava pensando em Alcino, que não era pessoa qualificada para isso, mas não podia contar com outro. Talvez, bem instruído, fizesse o serviço direito.

Alcino assumiu com Climério a obrigação de matar o jornalista Lacerda, única forma de ele conseguir dinheiro para ter casa própria.

Estabelecido o plano, Climério e Alcino tomaram o táxi de um tal de Nélson. Na noite do dia 5 de agosto – o ano era 1954 – estacionaram o carro em rua próxima ao Colégio São José, de onde sairia Lacerda. Com um revólver 45, Smith & Wesson, furtado do Exército, Alcino se pôs próximo à entrada do colégio. Climério ficou na porta. Depois de Alcino atirar, aproveitariam a confusão para fugir em direção ao táxi.

Lacerda não apareceu entre as pessoas que saíram do colégio. Então, os dois foram aguardar o jornalista perto do prédio onde ele morava, na Rua Tonelero, em Copacabana. Depois de quinze minutos de espera, já iam desistir, quando um carro parou e dele saltaram Lacerda, um filho e o Major Vaz. Alcino atirou no jornalista, que, ferido, correu para o interior da garagem. Sem que Alcino desse conta, o major se aproximou e agarrou a arma. O matador atirou, caiu o major. Alcino fugiu para onde estava o táxi; um policial correu atrás, atirando. Alcino apontou para ele e disparou, deixando-o caído. O táxi já estava de motor ligado e saiu em disparada. Climério tinha sumido, mas deixara a instrução de que Alcino embrulhasse o revólver e o jogasse no mar. No momento em que ele pôs a mão para fora do táxi, na Avenida Beira-Mar, a fim de lançar nas ondas a arma envolvida numa flanela, o carro fez uma manobra brusca e o embrulho caiu no asfalto. O táxi parou mais à frente e foi embora assim que Alcino desceu. Andou de um lado para outro sem saber o que fazer, já que não localizou na escuridão o revólver caído. Fora da visão de Alcino, um mendigo apanhador de papéis recolheu do meio da rua o embrulho e desapareceu. O matador acabou desistindo de encontrar a arma. Tomou um ônibus e foi até à casa de Climério, que logo em seguida chegou no táxi de Nélson. Com a promessa de que receberia o dinheiro prometido daí a dois dias, Alcino retirou-se.

O Major Vaz morreu em decorrência do tiro, mas Lacerda ficou ferido apenas no pé e responsabilizou o presidente da República pelo atentado, que provocou muita confusão no meio político. O filho de Getúlio, deputado Lutero Vargas, foi apontado como mandante do crime.

Dois dias após o atentado, Climério retornou à casa do pistoleiro Alcino. O motorista Nélson havia se apresentado à polícia e fez declarações incriminando os dois. Climério deu a Alcino dez notas de mil e mandou que ele sumisse.

As investigações sobre o atentado foram tomando vulto. Enquanto isso, em todos os grupos de pessoas no país o assunto político estava em pauta. Havia os que apostavam na decadência de Getúlio, os que tinham medo de o vice-presidente Café Filho assumir, os que viam o Brasil na mão dos militares, sobretudo da Aeronáutica… O senador Freitas, por exemplo, percebendo que a oposição ganhava mais força, declarou em discurso no Senado: “a nação não pode esquecer, não pode perdoar essa ignomínia”, referindo-se ao atentado.

Mais de quatrocentos oficiais da Aeronáutica, do Exército e da Marinha reuniram-se para manter o clima de indignação pela morte do Major Vaz e exigir o prosseguimento do inquérito até o fim. Outros encontros de militares em maior quantidade se realizaram sob a liderança do brigadeiro Eduardo Gomes.

Devido às informações prestadas pelo motorista Nélson, Climério estava sendo caçado pela polícia, que trabalhava no processo com apoio de oficiais militares. Já tinham até interrogado o mendigo Russo que encontrara na rua a arma do crime e a apreenderam.

Climério recebeu dinheiro enviado por Gregório Fortunato e fugiu para o sítio de um compadre, na Serra do Tinguá. Lá, se escondeu num barraco no meio de um bananal.

O deputado Lutero Vargas foi visitar seu pai para confirmar-lhe sua inocência no atentado. Achou Getúlio muito prostrado, sem vontade de lutar contra o Corvo difamador. Em contato com seus assessores, incluindo ministros e generais do Alto Comando, Vargas notava indecisão no apoio a ele, exceto o governador Amaral Peixoto, seu genro, e o ministro da Justiça Tancredo Neves, que estavam francamente a seu lado.

Além da imprensa, os opositores do governo faziam uma bem orquestrada campanha de desmoralização do presidente, da qual participavam a cúpula da Igreja, setores das Forças Armadas, do empresariado, partidos políticos de oposição. A voz mais eloqüente desse grupo era Lacerda, um mestre da intriga, segundo o senador Freitas. Suas falas no rádio e seus artigos no jornal haviam levado o Governo a colocar de prontidão nos quartéis trinta mil soldados, somente no Rio de Janeiro. Os diretores dos grandes jornais – incluindo Roberto Marinho de “O Globo” – conseguiram designar um representante credenciado no inquérito do atentado, certos de que formavam o Quarto Poder.

Vargas marcou uma reunião secreta com a família e alguns amigos. Propôs sua renúncia como forma de evitar uma guerra civil. Mas o consenso dos presentes foi que ele não cedesse às pressões dos golpistas.

Alguns generais quiseram forçar o Mal. Mascarenhas de Morais a concordar em entregar o Governo ao Gen. Zenóbio da Costa. Em nome do marechal falou o Gen. Castelo Branco que, se o Presidente renunciasse, deveria assumir o Governo seu substituto legal, o vice-presidente.

Depois da missa de sétimo dia pela morte do Major Vaz formou-se um tumulto da multidão aglomerada às portas da Igreja da Candelária, no centro do Rio. A polícia interveio. Houve feridos e mortos.

Após a inauguração da Usina Siderúrgica Mannesmann, em Belo Horizonte, durante o almoço no Palácio da Liberdade, ao lado do Governador Juscelino Kubitschek, Vargas afirmou que não entregaria o cargo e o exerceria até o fim do seu mandato.

Os deputados da UDN, porém, acusavam o Governo exigiam a renúncia de Getúlio. De todo lado e a todo momento eram veiculadas no rádio e na imprensa notícias alarmantes, que incriminavam o Governo de Vargas pelo atentado.

O Senador Vítor Freitas tentava convencer, sem conseguir, os líderes de seu partido, o PSD, a exigirem de Getúlio a renúncia ou a deporem-no. Os dezesseis deputados e quatro senadores continuavam indecisos porque, apesar de reconhecerem o “mar de lama” denunciado por Lacerda e a iminência da queda do Presidente, o partido deles apoiava o Governo, no lado oposto ao da UDN. As pressões a favor de um golpe aumentavam e choviam denúncias de corrupção.

Preso no Galeão, Gregório Fortunato foi interrogado durante oito horas. Negou saber do atentado e disse ter sido surpreendido com a notícia do envolvimento de Climério no caso. Os militares e policiais que chefiavam as investigações arrancaram dele um depoimento escrito no qual apontava Lutero Vargas como mandante. Foi promovida uma acareação do filho de Getúlio com o “Anjo Negro”, para desmoralizar o integrante da própria família do Presidente. Gregório, porém, nada disse, permanceceu totalmente indiferente e alheio.

Enquanto isso, Climério, cansado do isolamento, resolveu dar um passeio com o compadre até a uma venda no vilarejo. Lá encontraram uma mulher que morava no Rio e conversaram. Essa mulher, assim que voltou para casa, ligou para um tenente da Aeronáutica, seu amigo, para revelar o esconderijo de Climério. Logo depois chegaram à residência dela vários oficiais. Certificaram-se da veracidade da informação e colheram o endereço do foragido na Baixada Fluminense.

Armou-se uma verdadeira operação de guerra para capturar Climério. Quando alguns soldados e cães farejadores cercaram a casa do compadre de Climério, este já havia fugido, embrenhando-se na mata. Veio a noite e ele descansou. Na manhã seguinte, tropas do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, com apoio de aviões, helicópteros e viaturas militares fecharam o cerco sobre o fugitivo. Às oito horas, localizaram-no. Às onze, ele, preso, desembarcava de um helicóptero na base militar do Galeão. Sua mulher, Elvira, também fora presa naquela manhã.

Homens do Governo, para resistir aos diários ataques a Vargas por parte da UDN e seus aliados, estavam articulando o apoio do ex-presidente Dutra e do Governador Juscelino a Getúlio. Mas os jornais faziam o jogo da oposição.

Apesar de tudo, o Governo procurava dar sinais de vida. Vargas chegou a entrar em entendimento com Henri Kaiser, um dos reis da indústria automobilística norte-americana, para instalar no Brasil uma fábrica com capacidade de produzir cinqüenta mil carros por ano. Os negociadores saíram do encontro com a firme convicção de que Vargas estava doente, tamanho era seu abatimento.

Os envolvidos no atentado da Rua Tonelero foram apresentados à imprensa: Gregório Fortunato, que assumiu ser o mandante do crime; João Valente, ex-subchefe da guarda pessoal da Presidência, que entregou o dinheiro a Climério para efetuar a fuga; Alcino, que foi preso quando buscou mulher e filhos em sua casa; o taxista Nélson Raimundo de Sousa; Climério, que pareceu muito assustado. Em seguida, exibiu-se o material de propaganda do PTB, partido do Governo, encontrado com eles.

Em reunião no Clube Militar, exigiu-se a renúncia do Presidente, mas alguns oficiais ponderaram que primeiro deveria ser apurado o crime. Nos meios políticos também se faziam, no país inteiro, pressões para a renúncia de Vargas. Até o Tribunal de Contas da União manifestou seu repúdio ao atentado da Rua Tonelero. O Consultor Geral da República deu o parecer de ter havido arbitrariedade e abuso no vultoso empréstimo do Banco do Brasil a empresas sem idoneidade – entenda-se que apoiavam o Governo Federal.

Alzira Vargas venerava o pai. Tinha na memória a sua trajetória política desde os primeiros movimentos, em 1923, quando ele partiu para lutar numa interminável revolução. Lembrava-se dele em 1930 chefiando a outra revolução que o levou ao Governo Federal; em 1932, abafando a insurreição de S. Paulo; em 1935, comandando a resistência a militares rebeldes, unidos aos comunistas; em 1945, derrotado e exilado no próprio país. Alzira imaginou que a História redimira seu pai, retornando-o pelo voto à Presidência do país. Agora, em 1954, Getúlio era um velho derrotado.

Em longa reunião no Clube da Aeronáutica, os brigadeiros decidiram unanimemente que só a renúncia de Vargas seria capaz de restaurar a tranqüilidade no país. Quando esse fato foi levado ao Presidente, ele rejeitou a hipótese da renúncia. As movimentações dos militares caminhavam no sentido de guerra civil. Gen. Zenóbio da Costa e o Mal. Mascarenhas de Morais mantinham lealdade a Vargas; o Brigadeiro Eduardo Gomes liderava os opositores, que pressionavam cada vez mais. A residência do vice-presidente Café Filho permanecia repleta de amigos e correligionários políticos.

Às onze horas da noite de 23 de agosto, os dois altos militares da confiança de Getúlio estavam receosos: mais de quarenta generais do Exército haviam subscrito o manifesto dos brigadeiros. Já passava de meia-noite quando foram ao Palácio do Catete anunciar a Vargas que ele tinha perdido o apoio militar. O Presidente concordou com a idéia de convocar uma reunião de todo o ministério na manhã seguinte. Nesta, Vargas ouviu a opinião de todos os ministros, de sua filha Alzira e de alguns outros presentes indevidamente. As alternativas eram resistência armada ou renúncia. Vargas estava visivelmente desgastado. Finalizando a reunião, ele fez cessar a confusão de vozes que se cruzavam e definiu: “Se os ministros militares me garantem que as instituições serão mantidas, eu me licenciarei.” Tancredo Neves, ficou encarregado de redigir uma nota à nação. Café Filho chegou a receber os cumprimentos daqueles que estavam em sua casa, pois a notícia chegou rapidamente. Mas às cinco e vinte da manhã, quando o Chefe de Polícia anunciou pelo rádio que se tratava apenas de licença e não de renúncia, a expectativa tornou-se tensa.

Em seu quarto, Getúlio preparou-se para descansar. Recebeu a visita do irmão Benjamim, chorou diante dele que, sensibilizado e surpreso por nunca ter visto o irmão assim, confortou-o: “Tu já saíste de situações piores.” Quando o camareiro Barbosa entrou no quarto para lhe fazer a barba, Vargas estava de pé, vestido com um pijama de listas e disse que não queria se barbear. Novamente sozinho, o Presidente apanhou um revólver, deitou-se, encostou o cano da arma no lado esquerdo do peito e apertou o gatilho.

Imediatamente correu a notícia do suicídio de Vargas. Grande foi a confusão no Palácio do Catete. Os jornalistas receberam uma nota oficial da morte do Presidente. Foram entregues também dois documentos: o texto da chamada carta-testamento de Vargas e de um bilhete que diziam ter sido manuscrito pelo próprio Presidente (“deixo à sanha dos meus inimigos o legado de minha morte…”).

O corpo de Vargas ficou exposto na sala do Chefe do Gabinete Militar. Uma multidão formou filas para ver o Presidente morto, situação que durou até às oito e meia do dia 25. Logo em seguida, colocado numa carreta, o caixão foi conduzido até o Aeroporto Santos Dumont, seguido por milhares de pessoas. Como houve gritos de protestos e ameaças de tumulto, soldados da Aeronáutica dispararam contra os manifestantes; populares reagiram e várias pessoas acabaram ficando feridas. Acompanhado pela viúva Darcy Vargas e pelos filhos Alzira e Lutero, o caixão foi posto num avião que alçou vôo para o Rio Grande do Sul. Pessoas que retornavam do aeroporto foram formando grupos de protesto diante de vários prédios: Ministério da Aeronáutica, Embaixada dos Estados Unidos, edifício da Esso… Pelotões de soldados investiram contra os revoltosos e muitos foram os feridos. Uma multidão exaltada encaminhou-se para o escritório do jornal “O Globo” para incendiá-lo. As labaredas já começavam a queimar o edifício quando os bombeiros acudiram.

Sufocados os focos de rebelião contra os militares e civis que levaram Vargas ao suicídio, a vida brasileira voltou ao normal.

2. DIGRESSÕES

O CUMPRIMENTO DA LEI

Numa de suas intervenções, Mattos discutiu com o delegado Ramos. O comissário estava presidindo um auto de prisão em flagrante de um marido por haver cometido crime de lesões corporais em sua mulher. O delegado discordou: o homem só tinha dado uns sopapos, a mulher não apresentava marca de ferimentos, ela mesma ficaria contra a polícia e favorável ao marido em juízo… em suma, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Apesar disso, sob os protestos do advogado que defendia o agressor, Mattos prosseguiu, o fragrante foi lavrado, assinado e a mulher enviada a exame de corpo de delito. O marido pagou uma pequena fiança como mandava a lei e foi liberado. Mattos encerrou o episódio mastigando um comprimido de Pepsamar para acalmar a úlcera gástrica e se perguntando: ele estava tornando o mundo melhor cumprindo a lei?

AS MOTIVAÇÕES DE UM ASSASSINATO

Quando o investigador Rosalvo colhia informações para verificar a possível implicação do senador Freitas no assassinato de Paulo Gomes Aguiar, sugeriu a Mattos que pesquisassem a vida sexual do suspeito. O comissário rejeitou a idéia, alegando que tal tipo de notícias não interessava. Acrescentou que Rosalvo não tinha a menor noção de ética. Apesar do medo que tinha de Mattos – um esquisito e maluco, como o julgava – o experiente policial Rosalvo resolveu dar uma lição no inexperiente comissário. Segundo ele, só se mata por sexo, por poder ou pelos dois motivos juntos. “Assim é o mundo”, concluiu Rosalvo.

O MECÂNICO COSME

Esteve a cargo do comissário Mattos fazer diligências para esclarecer o assassinato de um cliente do mecânico Cosme, a quem este matara durante uma briga com um golpe de chave de cruz na cabeça. A oficina era de Cosme, jovem de 22 anos, e do pai, um português que, na ocasião, estava fora, em Nova Iguaçu. O inquérito pareceu terminado porque Cosme confessou o crime. Mas Mattos, mesmo assim, quis ouvir o velho, por estranhar sua ausência.

Informado da intimação dirigida ao pai a fim de comparecer ao distrito para interrogatório, o rapaz implorou ao comissário que não o fizesse, pois o velho era doente e tudo já estava resolvido. Para Mattos, o criminoso era o pai, a quem o filho estava protegendo.

O sr. Adelino – tal era o nome do pai de Cosme – foi conversar com Mattos. Afirmou que estava na oficina quando o filho cometeu o homicídio. Mattos insistiu na idéia de que Cosme se declarara culpado para proteger um velho doente, o verdadeiro assassino. O sr. Adelino acabou reconhecendo que perdera a cabeça ao ver o filho ser espancado pelo brutamontes e o matara. A decisão de fazer Cosme assumir o crime viera da família reunida, receosa de ver na prisão um homem idoso que sofria do coração. Lavrada a confissão, Cosme foi solto sob seus protestos: “Fui eu, fui eu! O papai não sabe o que está dizendo!” O sr. Adelino esperaria o julgamento em liberdade, porquanto não tinha havido fragrante. Mattos ficou visivelmente abalado com toda essa situação e disse aos dois que um bom advogado conseguiria a absolvição do velho.

Passado certo tempo, os policiais do distrito receberam a notícia de que o Sr. Adelino morrera de um enfarto fulminante. Dias depois, Cosme procurou o comissário para ser fiel à verdade. Esclareceu que a confissão de culpa do pai acontecera porque Mattos o forçara a fazê-la, mas que o criminoso era ele, Cosme. A família se calara por acabar se convencendo de que seria melhor o crime ser atribuído ao pai porque ficaria mais fácil absolvê-lo. “ O senhor matou o meu pai. Eu matei o meu pai. Minha mulher, minha mãe mataram o meu pai. Ele era um português velho que não sabia fingir ser o que não era…” E Cosme pedia para ser preso. Mattos o expulsou do distrito com brutalidade, arrastando-o pelo braço: “Ouça, sua besta. Eu não posso e não quero prender você por esse crime. Não posso aliviar sua consciência, nem a da sua mulher, nem a da sua mãe. Não seja estúpido. Não há nada mais a fazer. Saia daqui e não volte, não quero ver sua cara nunca mais, viva com essa lembrança horrível pelo resto da sua vida, como eu também terei de viver com ela.”

O VELHO EMÍLIO

Quando estudante, Mattos fazia parte da claque do Teatro Municipal para assistir a operas de graça e ainda ganhar algum dinheiro. O velho Emílio era o chefe da claque.

Após muito tempo sem vê-lo, o comissário recebeu um telefonema dele pedindo que marcassem um encontro. Na hora combinada, lá estava Emílio, ao lado da estátua de Chopin, com aparência de enfermo e empobrecido. Os dois dirigiram-se para um bar, onde tomaram chope. O velho recordou o passado, começou a cantar trechos de ópera. Mattos percebeu que ele queria dinheiro e deu-lhe um cheque de duzentos e oitenta cruzeiros para pagar o aluguel de quarto vencido.

Menos de uma semana depois, Emílio foi ao apartamento de Mattos, justamente quando este estava recebendo Alice pela primeira vez após três anos sem se verem. O velho queria mais dinheiro. Como o comissário lhe dissesse que não tinha, Emílio insinuou que Alice poderia ter. De fato, a pedido de Mattos, ela assinou um cheque de quinhentos cruzeiros e o doou ao velho. O comissário o despediu: “Está na hora de ir embora”, e o levou para a sala, abrindo-lhe a porta a fim de que saísse. Não se viram mais.

A TEORIA DE PÁDUA

O comissário Pádua irritava-se constantemente com Mattos porque este, ao substituí-lo nos plantões, costumava soltar os vagabundos que ele prendia. Na primeira vez em que isso aconteceu, Pádua pensou até em matar o colega; porém se controlara ao saber que Mattos era um dos raros policiais do Departamento a quem chamavam de “asa branca”, termo designativo dos que não aceitavam suborno.

Pádua preferiu discutir sempre com Mattos na esperança de mudar a opinião dele. Repetia mais ou menos o mesmo “discurso”: prendia qualquer um que estivesse parado numa esquina de madrugada, tachando-o de suspeito; mais tarde, se a ficha fosse limpa, soltava-o. Chamava isso de medida cautelar. “Aquela treta de santo Tomás de Aquino de que é preferível absolver cem culpados do que condenar um inocente é conversa mole para boi dormir. Puro lero-lero. Não é pensando assim que vamos proteger as pessoas decentes. Você tem medo de quê? Dessa imprensa de merda corrupta e analfabeta? Desse cascateiro escroto que é o nosso delegado? A cidade está entregue aos marginais, essas filosofias covardes não passam de justificativas de tiras comodistas que querem fugir das suas responsabilidades.”

Antes, Mattos ficava nervoso e revidava discordando: agora, ficava entediado, porém não discutia mais.

A PROSTITUIÇÃO

A propósito do “senadinho”, Mattos levantou a hipótese de que poderia fechá-lo, porquanto ali cometia-se o crime de lenocínio, por estar sendo mantida uma casa de prostituição. Mas, pensava, havia algum mal num bordel? Em Atenas antiga, a prostituição era livre e os prostíbulos considerados estabelecimentos de utilidade pública. Santo Agostinho tinha o ponto de vista de que a eliminação das meretrizes seria um mal maior do que deixá-las livres. Lembrou-se “ dos debates nas aulas de Direito Penal em torno de frases idiotas sobre prostituição que inflamavam as discussões entre os alunos. Desde criança se sentia atraído pelas prostitutas, conquanto jamais tivesse freqüentado um bordel. Vieram à sua mente as frases de Weininger, ‘a mulher prostituta é a salvaguarda da mulher mãe’; de Lecky ‘a prostituta é a custódia da virtude, a eterna sacerdotisa da humanidade’; de Jeannel, ‘ as prostitutas em uma cidade são tão necessárias quanto os esgotos e as lixeiras’. Um mal inextirpável, mas necessário – quem dissera isso? Numa associação de idéias recordou a melodia da ária Ah, Fors è lui…”

A LÓGICA

“Mattos, conquanto reconhecesse ser emotivo e impulsivo em demasia, acreditava ter lucidez e perspicácia suficientes para escapar das clássicas ciladas da investigação criminal, principalmente da ‘armadilha da lógica’. A lógica era, para ele, uma aliada do policial, um instrumento crítico que, nas análises das situações controversas, permitia chegar a um conhecimento da verdade. Todavia, assim como existia uma lógica adequada à matemática e outra à metafísica, uma adequada à filosofia especulativa e outra à pesquisa empírica, havia uma lógica adequada à criminologia, que nada tinha a ver, porém, com premissas e deduções silogísticas à la Conan Doyle. Na sua lógica, o conhecimento da verdade e a apreensão da realidade só podiam ser alcançados duvidando-se da própria lógica e até mesmo da realidade. Ele admirava o ceticismo de Hume e lamentava que suas leituras realizadas na faculdade não apenas do filósofo escocês, mas também de Berkeley e Hegel, tivessem sido tão superficiais.”

CRIMINOSOS E INDULTO

Diálogo de Rosalvo e Mattos:

“O senhor viu que o presidente vai indultar mais criminosos? Em julho já foram beneficiados trinta assassinos, vinte e dois ladrões, três estelionatários, um macumbeiro e um receptador. O que o senhor acha disto, doutor? Mais sessenta e tantos criminosos soltos na rua’.
‘Eles não deviam nem sequer ter sido presos.’
‘O senhor está falando sério? Acho que o nosso problema é que existem criminosos demais na rua.’
‘Prender um macumbeiro, um receptador é uma estupidez. O sujeito preso custa um dinheirão à sociedade, cumpre algum tempo de cadeia e sai pior do que entrou.’
‘Então o senhor acha que nem ladrões nem assassinos deveriam ser presos? E um tarado estuprador, como o Febrônio?’
‘Se o sujeito for um risco grande para a sociedade, um criminoso psicopata, coisa assim, aí o cara tem que ser tratado apenas.’
‘E a família da vítima?’
‘Foda-se a família da vítima. Você fala como se estivéssemos no século XVIII, antes de Feuerbach. A pena como vingança. Você devia ter estudado melhor esta merda na faculdade.”

3. COMENTÁRIO

“Agosto” é classificado como romance – embora possa lhe caber a classificação de novela, uma vez que engloba vários conflitos paralelos e vivenciados por personagens comuns a vários deles – apresenta 26 capítulos que acompanham cronologicamente os primeiros vinte e seis dias do mês de agosto de 1954.

O livro tece uma narrativa ficcional que abrange relatos históricos numerosos e detalhados com exatidão: datas, locais… Os personagens pertencentes à História recebem envolvimento também imaginário.

A estrutura da parte de ficção se concentra no assassinato de Paulo Machado Gomes de Aguiar e da parte histórica, no atentado da Rua Tonelero. Este foi cometido com a intenção de matar o jornalista Carlos Lacerda, mas acabou vitimando fatalmente o Major Vaz, da Aeronáutica, crime cujos desdobramentos pressionaram o presidente Getúlio Vargas e o levaram ao suicídio.

O foco narrativo é a visão do próprio autor em terceira pessoa, impessoal e onisciente. Quando são apresentadas opiniões subjetivas dos personagens, costuma ser usado o discurso indireto livre, misturando primeira e terceira pessoas.

A História e a ficção têm na intriga policial um elemento comum, muito explorado, objeto de amplo conhecimento de Rubem Fonseca, que exerceu a função de comissário de polícia na vida real.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, útero da corrupção. Nela está o Palácio do Catete, morada do Presidente, uma espécie de túmulo no qual jazem silenciados os crimes políticos. Nela está o distrito policial, em que o bem-intencionado Mattos atua com honestidade insuficiente para deter o domínio do crime organizado. Nela está o hospital, que abriga Alice para jogá-la à margem com eletrochoque. A única compensação, em toda esta cadeia negativa, é o apartamento de Mattos, uma pequena ilha, refúgio desprovido de luxo mas rico de arte – os discos de ópera – , para onde acorrem Alice e Salete, que desejam sobreviver à corrupção, acolhidas por um policial solitário e solidário.

A trama histórico-política é apresentada de forma documental, fruto de minuciosa pesquisa nas publicações da imprensa em 1954, sobretudo no mês de agosto. O narrador menciona jornais (Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora…) e revistas (Grande Hotel, Revista do Rádio, O Cruzeiro, A Cigarra…)

Não se faz um julgamento da História ou de Vargas. “Agosto” é uma investigação que resgata a memória de um período da vida pública brasileira.

A trama policial tem como protagonista Mattos, que parece ter pensamentos, sentimentos e procedimentos autobiográficos do autor: policial intelectualizado, honesto, isento e crítico da corrução, compreensivo com os marginalizados autores de pequenos delitos – ele libertava os bicheiros de rua – inadaptado impacientemente ao meio policial bruto e subornado…

Assim como em “Dom Casmurro”, também em “Agosto” tipos são criados semelhantes a personagens de ópera: Alice lembra a princesa Isolda (de “Tristão e Isolda”) e Salete, a “La Traviata”, na condição de ex-prostituta.

Parece ter sido intencional atribuir a Mattos o gosto pelas óperas. Sabe-se que a origem delas se relaciona com tragédia. E esse aspecto trágico se mostra tanto na ficção – Mattos, Salete… – quanto na História – Vargas. Os protagonistas de tragédia sempre procuram o caminho da autenticidade perante si mesmos, mas o destino acaba destruindo-os.

Como existe o gênero da ópera bufa – que ameniza o trágico pela inserção do cômico –, o livro contém ingredientes desse tipo de ópera. Por exemplo, Mattos e Salete foram assassinados duas vezes, porquanto dois matadores, agindo individualmente e em momentos diferentes, assumiram os crimes e receberam recompensas. Aliás, vem explícita essa tragicômica situação no trecho de ópera cantado pelo sr. Emílio, em italiano, cuja tradução é a seguinte: “Tudo no mundo é farsa, o homem nasceu farsante, em seu cérebro a razão sempre é ludibriada.(…) Ri bem quem dá a última risada.”

O comissário Mattos vai se configurando na sucessão dos relatos como a única figura detentora de algum poder que se faz antagônica ao mal. Tanto os contraventores do jogo de bicho que subornavam quanto os policiais subornados tinham a honestidade dele como demonstração de loucura. Sem apoio, impotente para conter a onda avassaladora do mal, rompeu com a polícia e se decidiu por Salete. Neste exato momento, a úlcera perfurou e ele morreu vítima das forças a que se opôs.

É constante na produção literária de Rubem Fonseca a revelação da violência explícita. Em “Agosto”, ela aparece sob a forma brutalista nas descrições dos matadores em ação. Predomina, porém, o enfoque do ninho da violência, o estado de corrupção em que vivem os poderosos de grande e de pequeno porte: “toda autoridade contém de certa forma algo de corrupto e imoral”. Há um desfile de corruptos , desde os políticos desonestos, passando por industriais metidos em negociatas, até os contraventores do jogo de bicho que subornam policiais irresponsáveis.

Da leitura atenta do livro, pode-se deduzir que o nascedouro da violência está no âmbito político, pois é a violência camuflada, exercida pelos condutores dos destinos do país, preocupados apenas em alcançar o poder com apoio da imprensa venal que manipula covardemente a opinião pública.

É interessante aduzir que, na narrativa histórica, o autor não se posicionou a favor do Governo ou contra ele, porquanto preferiu denunciar a corrupção tanto naqueles que provocavam quanto naqueles que acusavam o “mar de lama”. Estende, na ficção, essa denúncia ao meio policial. Em ambas as situações “a impunidade sempre será a testemunha ocular da fragilidade humana”.

“Agosto” contém situações com forte ingrediente metafórico. Eis alguns exemplos: o assassinato de Paulo Aguiar (veio à tona tudo o que o rico industrial escondia como representante da alta sociedade apodrecida no meio de prazeres, “a morte se consumou numa descarga de gozo e de alívio, expelindo resíduos excrementícios e glandulares – esperma, saliva, urina, fezes”); a reação de Mattos diante da morte de Vargas, quando ele soltou todos os prisioneiros do distrito ( os verdadeiros criminosos estavam atuando fora da prisão, o que absolvia e tornava inocentes os pobres coitados dentro dela); a úlcera persistente de Mattos (somatização das contrariedades causadas pela corrupção com a qual o policial estressado e inadaptado tinha que conviver); o anel do criminoso que Mattos carregou (fruto lucrativo da vida marginal que o comissário queria desvendar); o dente de ouro de Mattos que ele guardava no bolso (precioso, mas frustrante, porque em vez de triturar como seria sua função na boca, estava arrancado, inútil).

Como é típico em Rubem Fonseca, o vocabulário inclui palavras chulas, grosseiras, agressivas, violentas, como forma de traduzir expressões da realidade sem máscaras. Além disso, ele deu autenticidade à trama histórica, usando termos políticos eruditos e populares das décadas descritas. Acrescentou vocábulos médicos exatos, citações cultas, provérbios… A linguagem dos personagens é fruto do levantamento exaustivo que ele fez da época focalizada.

Este conceituado escritor juizforano confirma em “Agosto” sua excelente performance como minucioso pesquisador dos temas e ambientes escolhidos, como cronista policial, como contador de histórias desenvolvidas sob a forma de roteiro cinematográfico, mantendo o paralelismo de situações diversificadas e o “suspense”.

FONTES:
Concursos Públicos. Digerati. CEC 0004. (CR-ROM)
http://www.sebodomessias.com.br/ (imagem)

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