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José de Alencar (O Pampa)

Como são melancólicas e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as margens do Uruguai e seus afluentes! A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e coxilhas que figuram as flutuações das vagas nesse verde oceano. Mais profunda parece aqui a solidão, e mais pavorosa, do que na imensidade dos mares.

É o mesmo ermo, porém selado pela imobilidade, e como que estupefato ante a majestade do firmamento.

Raro corta o espaço, cheio de luz, um pássaro erradio, demandando a sombra, longe na restinga de mato que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; ei-lo que se vai retouçando alegremente babujar a grama do próximo banhado.

No seio das ondas o nauta sente-se isolado; é o átomo envolto numa dobra do infinito. A âmbula imensa tem só duas faces convexas, o mar e o céu. Mas em ambas a cena é vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuação; têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada instante ao sopro do vento; há nelas uma fisionomia, um gesto. A tela oceânica, sempre majestosa e esplêndida, ressumbra possante vitalidade. O mesmo pego, insondável abismo, exubera de força criadora; miríades de animais o povoam, que surgem à flor d’água.

O pampa ao contrário é o pasmo, o torpor da natureza. O viandante perdido na imensa planície, fica mais que isolado, fica opresso. Em torno dele faz-se o vácuo: súbita paralisia invade o espaço, que pesa sobre o homem como lívida mortalha. Lavor de jaspe, embutido na lâmina azul do céu, é a nuvem. O chão semelha a vasta lápida musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a imutabilidade. Nem um bafo para que essa natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto. Pasmosa inanição da vida no seio de um alúvio de luz!

O pampa é a pátria do tufão. Aí, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito de furacão estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes areais da África.

Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nelas como o potro indômito; convole a terra e o céu em espesso turbilhão. Afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade; queda-se o deserto, como dantes plácido e inalterável. É a mesma face impassível; não há ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios. A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.

Ao pôr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora. É então que assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano. A savana figura realmente em vasto lençol desfraldado por sobre a terra, e velando a virgem natureza americana.

Essa fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos; mas logo após ressumbra tão funda tristeza que estringe a alma. Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim uma família na grande sociedade universal.

Quantos seres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou planta, inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana.

No seio dessa profunda solidão, onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, sofrer as privações com paciência, e suprimir as distâncias pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no meio dos pampas é tipo dessas virtudes. Seu aspecto tem o que quer que seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou à sua nutrição. A árvore é sóbria e feita às inclemências do sol abrasador. Veio de longe a semente; trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta emigrante.

Como a árvore, são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana. Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, o gaúcho. De cada ser que povoa o deserto, toma ele o melhor; tem a velocidade da ema ou da corça; os brios do corcel e a veemência do touro. O coração, fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta coxilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão; o mesmo bramido, a mesma pujança. A esse turbilhão do sentimento era indispensável uma amplitude de coração, imensa como a savana.

Tal é o pampa.

Esta palavra originária da língua quíchua significa simplesmente o plaino; mas sob a fria expressão do vocábulo está viva e palpitante a idéia. Pronunciai o nome, com o povo que o inventou. Não vedes no som cheio da voz, que reboa e se vai propagando expirar no vago, a imagem fiel da savana a dilatar-se por horizontes infindos? Não ouvis nessa majestosa onomatopéia repercutir a surdina profunda e merencória da vasta solidão?

Nas margens do Uruguai, onde a civilização já babujou a virgindade primitiva dessas regiões, perdeu o pampa seu belo nome americano. O gaúcho, habitante da savana, dá-lhe o nome de campanha.

Fonte:
Texto extraído de “O Gaucho”.

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João Cabral de Melo Neto (Morte e Vida Severina)

Retirantes (Cândido Portinari)
Morte e Vida Severina, o texto mais popular de João Cabral de Melo Neto, é um auto de natal do folclore pernambucano e, também, da tradição ibérica. Foi escrito entre 1954-55.

Naquela ocasião, Maria Clara Machado, que dirigia o teatro Tablado, no Rio, pedira que João Cabral escrevesse algo sobre retirantes. O poeta escreveu, então, um grupo de poemas dramáticos, para “serem lidos em voz alta” e os dedicou a Rubem Braga e Fernando Sabino, “que tiveram a idéia deste repertório”.

Morte Vida Severina tem como subtítulo Auto de Natal pernambucano e tem inspiração nos autos pastoris medievais ibéricos, além de espelhar-se na cultura popular nordestina.

É por esse motivo que, no poema, João Cabral usa preferencialmente o verso heptassilábico, a chamada “medida velha”, ou redondilha maior, verso sonoroso e facilmente obtido.

Morte e Vida Severina estruturalmente está dividida em 18 partes; no entanto, outra divisão muito nítida pode ser feita quanto à temática: da parte 1 a 9, compreende-se o périplo de Severino até o Recife, seguindo sempre o rio Capibaribe, ou o “fio da vida” que ele se dispõe a seguir, mesmo quando o rio lhe falta e dele só encontra a leve marca no chão crestado pelo sol. Da parte 10 a 18, o retirante está no Recife ou em seus arredores e sofridamente sabe que para ele não há nenhuma saída, a não ser aquela que presenciou no percurso: a morte.

Sua linha narrativa segue dois movimentos que aparecem no título: “morte” e “vida”. No primeiro, temos o trajeto de Severino, personagem-protagonista, para Recife, em face da opressão econômico-social, Severino tem a força coletiva de uma personagem típica: representa o retirante nordestino. No segundo movimento, o da “vida”, o autor não coloca a euforia da ressurreição da vida dos autos tradicionais, ao contrário, o otimismo que aí ocorre é de confiança no homem, em sua capacidade de resolver os problemas sociais.

O auto de natal Morte e Vida Severina possui estrutura dramática: é uma peça de teatro. Severino, personagem, se transforma em adjetivo, referindo-se à vida severina, à condição severina, à miséria.

O retirante vem do sertão para o litoral, seguindo a trilha do rio Capibaribe. Quando atinge o Recife, depois de encontrar muitas mortes pelo caminho, desengana-se com o sonho da cidade grande e do mar.

Resolve então “saltar fora da ponte e da vida”, atirando-se no Capibaribe. Enquanto se prepara para morrer e conversa com seu José, uma mulher anuncia que o filho deste “saltou para dentro da vida” (nasceu).

Severino assiste ao auto de natal (encenação comemorativa do nascimento). Seu José, mestre carpina, tenta demover Severino da resolução de “saltar fora da ponte e da vida”.

Em forma de poema a peça apresenta a história de um dos tantos Severinos de Maria, filhos de Zacarias que saíam da Paraíba pra fugir da velhice que mata os jovens aos trinta anos, da seca e da fome.

Este Severino parte das terras à beira da serra e segue o caminho para o Recife, no caminho encontra-se com dois homens que levam um defunto. Esse havia morrido de “morte matada” em uma emboscada por uma bala que estava perdida no vento. Tinha uma pequena terra onde plantava. Severino então ajuda a levar o defunto ao cemitério que cruzava seu caminho e assim seguiu ele com um dos homens e o falecido.

Quem guiava o caminho de Severino era o Rio Capibaribe, mas ele havia sido cortado pelo verão. Ele encontra em uma cidade um homem sendo velado. Mais tarde resolve parar no local onde está e interromper sua jornada e tenta ali encontrar um trabalho, mas na cidade o que ele sabe fazer, plantar e pastorear, não tem serventia, pois o único negócio da cidade é a morte.

Severino segue na sua emigração e chega à Zona da Mata, uma terra macia diferente da que ele conhecia. Ali ele acredita que a vida não é vivida junto com a morte e que nessa terra o cemitério praticamente não funciona. Ele acaba por ouvir a conversa de amigos de um morto recém enterrado e resolve seguir mais rápido para chegar logo ao Recife.

Ele não esperava muita coisa do destino, apenas seguia para escapar da velhice que chegava mais cedo na sua terra. Não tinha grandes ambições. Finalmente Severino chega ao Recife, quando pára pra descansar ao lado de um muro ouve a conversa de dois coveiros. Cada um fala sobre a área do cemitério em que trabalha e como ali há muitos mortos e assim, muito serviço, e como nas outras áreas há menos enterros e ainda se ganha gorjeta.

Os dois ainda falam sobre as pessoas que migram do sertão e que só tendo o mar pela frente se instalam, vivem na lama e comem siri; e depois que morrem são enterrados no seco. Antes fossem jogados nos rios, seria mais barato e acabaria no mar sem mais problemas.

Severino se surpreende, vê que migrara seguindo o seu enterro, mas já que não viajou esperando grandes coisas segue o rio que, segundo os coveiros, faria um enterro melhor. Anda e se encontra com um morador da beira do rio. Ficam ali falando sobre o rio, sobre a fome e sobre a vida. Até que José, o morador, é chamado, seu filho nascera.

Severino fica de fora sem tomar parte em nada, os vizinhos chegam, cumprimentam os pais, dão presentes que sua pobreza permite, falam sobre o menino e ainda duas ciganas falam sobre o futuro dele.

Por fim, o recém pai fala a Severino que a pergunta dele sobre a vida ele não sabe responder mais que apenas deve-se viver a vida.
––––––––––––

Trecho Inicial de Morte e Vida Severina

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
–––––––––––––––

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Daphne Du Maurier (Rebecca)

Resumo

No clássico de Daphne du Maurier, suspense romântico, o novo narrador é definido por seu sentido de desejo. É este sentido de insuficiência que lhe dá características distintas e lhe faz ser original. Como obedece desejos, perde seu sentido de identidade, tornando se o mesmo que um espectro. Está colocado então de maneira que, enquanto supera finalmente o fantasma, o viúvo de Rebecca, Manderley se queima.

Isto explica também sua irritação ao revelar que o Maxim matou sua primeira esposa.
Nietzsche escreve em seu ensaio sobre a moralidade do mestre e do escravo, todos estes instintos que não acabam, voltando sempre ao seu interior, transformando a substância da alma. É então, esta insuficiência do narrador que lhe dá até mais identidade. Começa seu talhe como o companheiro da pretensiosa Sra. Pick-up Funnk, cujo objetivo e interesse é ver o Maxim rico. Descreve sua posição como inferior e subserviente à ela. Sua cegueira subseqüente para Maxim é tão forte quanto a curiosidade de Pick-up Funnk. Diz-se sentido com o novo, e inexperiente com si próprio. Embaraçado em se livrar de Pick-up Funnk e Maxim, porque a vê em um papel maternal (e conseqüentemente por sua própria reflexão).

No segundo capítulo de Rebecca, o narrador atesta a mudança que ocorreu dentro dela, porque consegue cumprir o seu destino. Diz que supõe que sua dependência dela o fêz forte. Anota como diferente ficou da menina tímida que veio antes a Manderly.

Vai então saber comparar seu perfil anterior com a figura de Rebecca, desta figura que veio substituir. O narrador faz esta transição de empregada a patroa negligente, superação da Sra. Pick-up Funnk, no mesmo recipiente em que põe o fantasma do Maxim.

Excerto do livro Rebecca (Capítulo I)

À Noite Passada sonhei que tinha ido novamente a Manderley. Pareceu-me ter ficado por algum tempo diante do portão de ferro, fechado a cadeado. Chamei, no meu sonho, pelo porteiro; não obtive resposta; espiando com mais atenção por entre os varões ferrujentos, vi que a portaria estava deserta.

Nenhuma fumaça na chaminé; as janelazinhas se abriam numa atitude de tristeza infinda. Então, como acontece nos sonhos, senti-me de súbito possuída de poderes sobrenaturais, e transpus, qual um espírito, aquela barreira. O caminho serpenteava à minha frente, com as mesmas curvas de outrora; à medida que avançava, porém, notei mudança; mais estreito e descuidado; não era mais o caminho que tínhamos conhecido. Fiquei perplexa a princípio, sem nada compreender; e só quando tive de baixar a cabeça para não roçar um galho de árvore percebi o que acontecera. A Natureza havia reconquistado os seus direitos, e pouco a pouco, na sua maneira insidiosa, ia abafando o caminho. A vegetação invasora triunfava. Plantas sombrias e rebeldes sobre ele debruçavam seus ramos. As faias de troncos lisos e esbranquiçados, crescidas muito próximas umas das outras, entrelaçavam a galharia, fechando-se em abóbada sobre a minha cabeça. E havia ainda outras árvores que eu não reconhecia: carvalheiras atarracadas, olmos tortuosos, emersos da terra silenciosa em conjunto com outras plantas que me pareciam monstruosas e de que eu não tinha recordação.

O caminho de outrora transformara-se em simples trilha, com o pedregulho desaparecido sob a invasão de musgos e grama. Galhos rasteiros embaraçavam-me a marcha; raízes nodosas pareciam garras macabras… Dispersos aqui e ali, em meio a essa vegetação desordenada, eu reconhecia arbustos que nos tinham servido de marcos em nosso tempo; criaturas de beleza e graça, famosas hortênsias de tufos azuis. Como nada lhes houvesse embaraçado o desenvolvimento, asselvajaram-se, tornaram-se primitivas, elevando-se a alturas incríveis, mas sem flores, de folhagem sombria e feia como a das parasitas anônimas que ao lado cresciam. Mais e mais, agora para leste, depois para oeste, desdobrava-se a simples trilha que fora outrora o nosso caminho. Sumia-se às vezes, para ressurgir de novo de sob um tronco deitado, ou para além de pequenos brejais criados pelas chuvas do inverno. E nunca me pareceu tão longa a distância, como se as milhas também se houvessem multiplicado. E a senda conduzia provavelmente a algum ermo labirinto selvagem, não mais à casa que eu tinha em vista. Não obstante, dei de súbito com ela: o crescimento louco da vegetação ocultara-ma até o último momento. Entreparei. Meu coração palpitava acelerado; um ardor nos olhos impedia-me as lágrimas.

Ali estava Manderley, nossa Manderley, reservada e silenciosa como sempre; a pedra gris rebrilhava ao luar do meu sonho; nas vidraças refletiam-se o terraço e o gramado verde… O Tempo não quebrara a perfeita simetria daqueles muros, nem o encanto daquele sítio maravilhoso — jóia no côncavo da mão de alguém.

O terraço erguia-se a cavaleiro do gramado que se projetava até o mar; voltando-me pude ver o lençol prateado, tão calmo sob o olhar da lua, de uma placidez de lago que os ventos não perturbam. Não havia ondas para encrespar aquele mar de sonho, nem nuvens a obscurecerem o suave palor do céu. Olhei de novo para a casa: embora permanecesse inviolada, como se a tivéssemos deixado na véspera, o jardim em torno obedecera à lei da jângal, como sucedera com o caminho. Os rododendros elevaram-se a cinqüenta pés de altura, enlaçados a outras plantas, em estranho conúbio com arbustos sem nome, pobre ralé a arrastar-se-lhes humildemente sobre o raizame.

Um lilazeiro se unira a uma faia; e para ligá-los ainda mais intimamente, a hera maldosa — eterna inimiga da graça — enroscara-se à volta deles. Começava a hera a preponderar naquele jardim perdido, com os longos tentáculos avançando sobre a relva, rumo à casa. Plantas invasoras, vindas de sementes muito tempo adormecidas sob as árvores, viçavam agora, desgraciosamente, em companhia da hera; sugeriam a forma de ruibarbos gigantes emersos da relva macia outrora pintalgada de narcisos. Urtigas por toda parte — a vanguarda do exército. Cobriam o terraço, espalhavam-se pelas alamedas do jardim e, frouxas, encostavam-se até às janelas da casa. Sentinelas descuidadas, pois suas fileiras tinham sido rompidas em
muitos pontos pelas plantas loucas que ali exibiam a sua vulgaridade. Cheguei até o terraço, pois as urtigas não constituem obstáculo a quem sonha — no meu encantamento nada podia deter-me. O luar tem grande influência sobre a imaginação, mesmo a imaginação de quem sonha. E ali, queda e silenciosa, eu juraria não ser a casa uma concha morta, mas um ser que respirava, que palpitava de vida como outrora. A luz coava-se pelas vidraças, as cortinas balouçavam-se com suavidade no relento da noite, e lá na biblioteca a porta estaria entreaberta como a deixáramos, com o meu lenço sobre a mesa, ao lado do vaso com rosas do outono.

O quarto trairia a nossa presença. Livros, um número já lido do The Times. Cinzeiros, um toco de cigarro; sobre as cadeiras, almofadas denunciando a pressão de nossas cabeças; tições envoltos de cinza branca na lareira, ainda mornos. E Jasper, o nosso querido Jasper, estirado sobre o tapete, de cauda erguida ao perceber os passos do seu senhor. Uma nuvem erradia velou a lua, mão de sombra a cobrir um rosto. Com o desaparecer da lua foi-se-me a ilusão; as
luzes das janelas se apagaram. A casa fizera-se concha vazia, sem alma, sem suspiros ou evocações do passado. Um túmulo, a casa; nossos sofrimentos e temores sepultos em ruínas. Impossível a ressurreição. Não me viriam pensamentos amargos, quando em minhas horas de insônia evocasse Manderley. Pensaria na mansão como ela o fora.

Teria recordações do jardim-das-rosas no estio, dos pássaros a cantarem pela manhã. Do chá sob o castanheiro, do murmúrio do mar subindo até nós. Lembrar-me-ia do Vale Feliz e do lilazeiro em flor. Essas coisas eram permanentes, não podiam esvair-se nunca. Eram memórias felizes. Tudo isto resolvi eu no meu sonho, enquanto a sombra velava o rosto da lua. Porque, como é comum entre os que sonham, eu sabia estar sonhando.

Achava-me, na realidade, a centenas de milhas dali, em terra estranha, e acordaria dentro de poucos segundos num pequeno quarto de hotel, consolador justamente pela falta de ambiente. E daria um suspiro, e me espreguiçaria, e ao abrir os olhos ficaria admirada de ver brilhar o sol num céu metálico, tão diferente do meigo luar do meu sonho… O dia se estenderia diante de nós, longo sem dúvida, sem acontecimentos, mas impregnado de certa quietude, duma tranqüilidade feliz que dantes não conhecêramos. Não falaríamos sobre Manderley, eu não contaria o meu sonho. Porque Manderley não era mais nossa. Manderley não mais existia.

Fontes:
Daphne Du Maurier. Rebecca. Abril Cultural.
http://www.netsaber.com.br/resumos/
Imagem = http://kennebunkfreelibrary.wordpress.com/

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Sonia Belloto (É Bom Ser Escritor)

O escritor como empresário

Imagine que você resolveu ter seu próprio negócio. Você está pensando em abrir um restaurante. Sabe o que vai acontecer se você o fizer? Para começar, vai assumir uma porção de responsabilidades. Terá de fazer um investimento considerável e descobrirá que o retorno financeiro vai demorar alguns anos. Vai ter de respeitar o horário comercial e contratar funcionários. Ficará às voltas com contador, fornecedores e aluguel. Terá de pensar na compra de mercadorias e, muitas vezes, ir de lá para cá até encontrar os produtos de que precisa. Os funcionários podem ficar doentes ou faltar por qualquer motivo, e você vai ter de se preocupar com isso. Sim, porque você vai querer que seu negócio dê certo. E você já ouviu dizer que o boi só engorda diante dos olhos do dono.

Mas, caso você resolva ser escritor, não precisará passar por esses aborrecimentos. Quer saber por quê? Então responda a esta pergunta: Em que lugar você pode escrever?

Em qualquer lugar. Portanto, não precisará se preocupar em comprar ou alugar um ponto comercial. Também não precisará se deslocar até o local de trabalho, já que sempre estará nele. Imagine um daqueles dias de chuva em que o trânsito está insuportavelmente lento. Como escritor, você poderá olhar pela janela, saboreando uma xícara de café bem quentinho, o aparelho de som tocando sua música preferida, a cabeça cheia de idéias, e você dirá:

— Que dia maravilhoso! Perfeito para escrever mais um capítulo.

Parece boa essa sensação?

E o que dizer do horário? Não terá hora certa nem para entrar nem para sair, tampouco para interromper o trabalho quando estiver na melhor parte. Sem chefe e sem grandes investimentos. A matéria-prima dos escritores são as idéias, e os produtos são os textos. Assim, você nunca terá problemas com fornecedores.

Seus funcionários não exigirão salário, férias, nem décimo terceiro. Não perderão um dia de trabalho e nunca ficarão doentes. Na verdade, eles responderão por um outro nome: personagens. Você terá um poder divino sobre eles. Aliás, se desejar, poderá fazê-los adoecer, morrer e até ressuscitá-los.

O escritor Arthur Conan Doyle, por exemplo, criou Sherlock Holmes, um personagem que se tornou famoso. Certa vez, cansado de escrever histórias sobre Sherlock Holmes, o autor resolveu dar um fim ao personagem e escreveu uma cena de luta na qual ele morria ao despencar de um penhasco. Já imaginou o poder de matar Sherlock Holmes e não ser preso por isso?

Mas aconteceu algo inesperado. Os leitores se indignaram com a morte do detetive e escreveram inúmeras cartas de protesto. Pressionado, Doyle não pensou duas vezes e ressuscitou o personagem no livro seguinte.

Os escritores podem tudo. Podem fazer chover, realizar milagres, promover a justiça, dar sentido à vida, ensinar, fazer rir e chorar, despertar as mais diferentes emoções, viajar sem sair do lugar. Sem dúvida, são possuidores de poderes divinos.

Como patrões de seus personagens, os escritores também são dispensados de respeitar as leis trabalhistas. Sabemos que não é permitido o trabalho infantil, no entanto, a escritora J. K. Rowling criou um garoto de apenas onze anos, batizou-o de Harry Potter e o colocou para trabalhar. Ao contrário do que aconteceria em uma empresa convencional, ninguém reclamou. Aliás, o que muita gente quer é ver o menino em ação.

Outra importante vantagem de ser escritor é que você não precisa abandonar seu atual modo de vida. Escrever é uma atividade que pode ser desenvolvida em paralelo a qualquer outra.

Muitos escritores têm outras atividades. Machado de Assis e Carlos Drummond eram funcionários públicos. Michael Crichton, Moacyr Scliar e Drauzio Varella são médicos. John Grisham é advogado. Não importa o que você faz, sempre é possível conseguir algum tempo para escrever.

Os escritores também não enfrentam barreiras de idade. Cora Coralina teve seu primeiro livro publicado aos 76 anos. E quando tinham apenas 18 anos, Françoise Sagan escreveu Bom dia, tristeza, e Mary Shelley, Frankenstein.

Viver muitas vidas

Os escritores vivem várias vezes. Uma vez na vida comum e outras nas histórias que criam. Escrever é um estado alterado de consciência. É sonhar acordado.

Quando escrevemos, podemos criar mundos com realidades distintas. Vivenciamos experiências que jamais teríamos em nossas vidas comuns. Isso faz com que os escritores percebam o mundo de uma forma diferente. E todo o árduo trabalho diante do papel ou do computador é largamente recompensado.

Escrever é uma atividade sedutora. Quando você descobrir isso, não terá mais escolha, desejará escrever. Verá seu primeiro livro desabrochar diante dos olhos e ficará surpreso ao perceber que é capaz de fazer. Ao ver seu livro publicado, você vai explodir de felicidade!

E, por favor, não se esqueça de me convidar para a sessão de autógrafos. Faço questão absoluta de ser a primeira da fila.

Outras vantagens de ser escritor

Escrever é uma atividade absolutamente democrática. Não há restrição quanto ao sexo, raça, idade, posição social, forma física, aparência etc.

Como vimos anteriormente, não há idade para começar a escrever. Nunca é cedo ou tarde demais. Eu mesma, apesar de ter começado a fazer as minhas tentativas aos seis anos de idade, só fui escrever meu primeiro livro quando tinha quarenta e cinco anos.

Ser escritor não exige nenhum diploma ou registro profissional. No entanto, você precisa gostar de ler e de contar histórias. Sim, porque, no caso do romance, o aspecto fundamental é contar histórias.

Também não são necessários equipamentos especiais para o trabalho. Basta que você tenha um bloco de notas e uma caneta ou um computador.

Você não precisa estar em um lugar específico, podendo escrever aonde desejar. Seja num parque, em uma cafeteria, em sua própria casa, ou mesmo se estiver viajando. Portanto, em qualquer lugar poderá escrever.

Escrever é uma atividade que pode ser desenvolvida em paralelo a qualquer outra. Logo, há flexibilidade no horário do trabalho. E você pode morar aonde quiser, porque hoje em dia é possível enviar o seu texto ao editor, por meio da internet.

Fonte:
BELLOTO, Sonia. Você já pensou em escrever um livro? São Paulo: Ediouro, 2008.

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Matheus De Giovanni (1988)

Matheus Yuri Gritzenco De Giovanni nasceu no dia 03 de Setembro de 1988 na cidade onde reside até hoje, Maringá, no estado do Paraná. Cursou até o ensino fundamental no Colégio Paraná e fez todo o Ensino Médio no Colégio Anglo-Drummond. Em 2006 começou o curso de Engenharia Química, na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Atualmente, aos 19 anos e em seu terceiro ano universitário, foge às linhas de seu curso ao publicar seu livro de contos, de forma totalmente independente.

Desde pequeno escrevia pequenos textos, tanto em cadernos quanto em páginas de Internet. Em meados de 2004 resolveu reuní-los em um único lugar. Ao fazê-lo, percebeu que ali estava relatada boa parte de sua vida até então, e assim o primeiro rascunho de seu livro foi criado, em um arquivo de Bloco de Notas. Com o passar do tempo, foi adicionando novos textos e lapidando as idéias daqueles já escritos, trazendo-as para o momento atual da época e adicionando/removendo trechos e pensamentos, nunca se afastando da base na qual foram escritas.

Após ler inúmeras vezes cada frase para evitar erros, percebeu que havia uma linha de evolução nas escritas. Decidiu fazer um molde em forma de uma única história. Organizou a ordem dos textos, alternando-as outras inúmeras vezes, até encontrar uma sequência ideal. O formato se mantém até hoje: um livro de contos independentes, de assuntos variados, mas que se for lido na sequência pode-se perceber que existe uma única história.

O livro contém textos de várias épocas do autor. O conto “Previdência” é o mais antigo, escrito no início de 2002, e o conto “Epifania” o mais recente, escrito em Janeiro de 2008. Porém, durante a leitura pode-se perceber que nesses poucos anos o autor passou por muitas fases pessoais. Neste livro, os leitores viverenciarão parte da vida do autor, desde a ingênuidade juvenil até suas mais recentes reflexões e maneiras de ver o amor, ódio, amizade, traição, esperança, desespero, vida, morte, entre outros assuntos que o livro aborda!

Sob o signo de Virgem, regido pela emoção, e ascendente de Libra, regido pela razão, Matheus De Giovanni é um Anjo Misantropo nato, sempre buscando a harmonia entre ambos os extremos. E está seguindo seu próprio caminho.

Texto Inicial do Livro:

Feitio de Existir

No início, o amor surge límpido e sem intenções. A primeira flor em campo virgem. Encontrado pela primeira vez, um ser maravilha-se pela sedução que invade e percorre seu corpo. Uma série de experiências começa; a primeira marcante na vida de alguém. Nasce uma nova criança, com um ramo de escolhas, situações e um arrepio que tende a enfraquecer a pessoa, bambear as emoções, hesitar os movimentos. Não tente, não há que ser forte.

Teorias e pensamentos se mesclam em bobas tentativas imaginárias de abordagem, quase nunca praticadas. Desafios que aparentam não ter soluções efetivas. O mundo muda de foco, e para aqueles que não estão em seu campo de visão, isso se torna tedioso e infantil. O novo olhar toma conta e a rotina simples se complica, tornando-se retalhos mal cortados.

O medo da derrota começa a assombrar a esperança. A criança procura por regras para poder se guiar, mas não as encontra. Sendo assim, guia-se e age de acordo com o que é, sem truques. Ainda encantada, seu receio natural a faz distanciar-se daquela flor, imaginando ser impossível ter em mãos tamanha beleza. Desacredita em seu poder e desespera-se.

A inveja do pedaço de mundo que nunca sentiu este turbilhão se aproveita do desespero. Pequenas ações plantam ervas daninhas invisíveis pelo campo, construindo uma parede de dúvidas em frente ao ser. Desnorteada, a criança cai na armadilha. As atitudes que a seguem são apenas fracassos. Decepção com o que, até então, encantara tanto.

Um aperto forte tira toda a cor que existe em sua volta, deixando apenas uma chuva cinzenta. Quer rir, mas só o que consegue é chorar. Uma solidão cobre seus dias. Procura por atenção, mas para isso se isola, esconde-se.

Deseja tanto que as coisas mudem que parece não sobrar mais forças para que aja. Suas certezas se abalam. Tenta encontrar os culpados, mas eles estão camuflados. Não percebe a tênue cortina de trapaças. Quanto mais ela procura a culpa nos outros, mais se encontra. Sendo assim, veste-se de todo esse pecado. Sente-se responsável por tudo, inclusive da mágoa que sente. Não tente, não há que ser feliz.

Foi treinada a “ser você mesmo”, e quando aprendeu a lição encontrou a intolerância do mundo que a ensinou. Afinal, isso não era para ser bom? é incompreensível para ela. Parece estar a um passo de sair da realidade e ao mesmo tempo ter tanta consciência disso. Em uma tentativa de não mais se machucar, fecha-se em seu mundo.

Porém, justo quando está tudo construído, percebe que os espinhos que fazem a barreira de seu recanto estão virados exatamente para seu lado!

Desesperadamente, tenta encontrar algo que a sustente. Sem dar-se conta, sua base mudara de lugar. Ao tentar pisar no chão, cai.

A primeira queda é fundamental.

Agora, mesmo com sua arrogância e ingenuidade juvenil, esta criança deve se levantar sozinha, crescer enquanto enfrenta seus medos, aprender com suas próprias experiências. Até o final deste caminho, deve passar por quantas dificuldades e testes forem necessários para entender que possui e é tudo o que precisa.

Compreender que há que ser tranquilo, apenas isso.

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