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Isaac Asimov (Tempo Para Escrever)

– Conheci uma pessoa que era um pouco parecida com você – disse George.

Estávamos almoçando em um pequeno restaurante, em uma mesa perto da janela, e George olhava para fora com ar pensativo.

– Estou surpreso – disse eu. – Pensei que eu fosse único.

– E é. O homem a que me refiro só se parecia um pouco com você. Ninguém mais no mundo possui essa sua capacidade de escrever, escrever, escrever sem colocar nenhuma idéia no papel.

– Acontece que eu uso um processador de texto.

– Usei a palavra “escrever” no sentido figurado. Qualquer escritor de verdade compreenderia isso – declarou, parando de comer a mouse de chocolate para dar um suspiro dramático.

Eu conhecia o sinal.

– Vai me contar mais uma daquelas histórias fantasiosas a respeito de Azazel, não vai, George?

Ele me dirigiu um olhar de desprezo.

– Você vem inventando mentiras há tanto tempo que não sabe mais reconhecer um relato verdadeiro. Mas não tem importância. A história é triste demais para ser contada.

– Mesmo assim, você vai me contar, não vai?

George suspirou de novo.

Foi aquela parada de ônibus lá fora [disse George] que me fez lembrar de Mordecai Sims, que ganhava modestamente a vida produzindo laudas e mais laudas de lixo variado. Não tantas quanto você, nem tão imprestáveis, e é por isso que eu disse que só se parecia um pouco com você. Para ser honesto, às vezes o que ele escrevia chegava a ser razoável. Sem querer ferir seus sentimentos, você jamais chegou a esse ponto. Pelo menos pelo que me contaram, porque ainda não baixei meus padrões a ponto de ler pessoalmente o que você escreve.

Mordecai era diferente de você em outra coisa: era terrivelmente impaciente. Mire-se naquele espelho, se é que não se importa de ser cruelmente lembrado de sua aparência, e veja como está sentado displicentemente, com um braço jogado nas costas da cadeira e o resto do corpo em total abandono. Olhando para você, ninguém diria que está preocupado em entregar a tempo sua cota diária de caracteres digitados ao acaso.

Mordecai não era assim. Vivia preocupado com os prazos, que pareciam estar sempre para vencer. Naquela época, eu almoçava com ele toda terça-feira, mas ele tirava toda a graça da refeição com suas lamúrias.

– Tenho de colocar este artigo no correio amanhã de manhã, o mais tardar – dizia ele -, mas primeiro tenho de rever outro artigo, e simplesmente não vai dar tempo. Quando é que vai chegar a comida? Por que o garçom não aparece? O que eles estão fazendo na cozinha? Batendo papo?

Ele se mostrava particularmente irrequieto na hora de pagar a conta, e mais de uma vez temi que fosse embora, deixando para mim a triste incumbência. A bem da verdade, isso nunca aconteceu, mas a simples possibilidade era suficiente para me estragar o apetite.

Olhe para aquele ponto de ônibus. Estive a observá-lo durante os últimos quinze minutos. Não passou nenhum ônibus, e hoje é um dia frio e ventoso. O que vemos são casacos abotoados, mãos nos bolsos, narizes vermelhos ou arroxeados, pés se arrastando no chão em [1]busca de calor. O que não vemos é nenhum sinal de revolta, nenhum punho cerrado levantado para o céu. As injustiças da vida tornaram aquelas pessoas totalmente passivas.

Mordecai Sims não era assim. Se estivesse naquela fila de ônibus, ficaria no meio da rua para espreitar o horizonte à procura do primeiro sinal de um veículo; estaria resmungando, rosnando e agitando os braços; comandaria uma passeata em direção à prefeitura. Seu sangue, para resumir, estaria carregado de adrenalina.

Mais de uma vez, ele me procurou para se queixar, atraído, como tantos outros, pelo meu ar sereno de competência e compreensão.

– Sou um homem ocupado, George – afirmava, atropelando as palavras. Ele sempre atropelava as palavras. – É uma vergonha, um escândalo e um crime a forma como o mundo conspira contra mim. Tive de passar no hospital para alguns exames de rotina, só Deus sabe por quê. Acho que meu médico resolveu justificar o dinheiro que eu lhe pago. Disseram-me para me apresentar na sala de espera às 9:40.

“Cheguei lá exatamente às 9:40, é claro, e havia um cartaz na parede que dizia: “Aberto a partir das 9:30.” Era exatamente isso que o cartaz dizia, George, para quem quisesse ver. Na mesa da recepcionista, porém, não havia ninguém.

“Consultei o relógio e disse para uma faxineira que passava: “Onde se encontra a funcionária relapsa que devia estar atrás dessa mesa?”

“”Ainda não chegou”, respondeu a faxineira.

“”Aqui diz que o lugar funciona a partir das 9:30.”

“”Mais cedo ou mais tarde, alguém vai aparecer”, observou a faxineira, com irritante indiferença.

“Afinal de contas, eu me encontrava em um hospital. Podia estar à morte. Alguém se importava com isso? Não! Eu tinha prazo para entregar um trabalho importante, que me havia custado muito esforço e me renderia dinheiro suficiente para pagar a conta do médico (supondo que eu não tivesse uma forma melhor de gastá-lo, o que não era provável). Alguém estava se incomodando? Não! A recepcionista só apareceu às 10:04, e quando me aproximei da mesa, aquela maldita retardatária olhou para mim de cara feia e disse: “Vai ter de esperar a sua vez!

Mordecai vivia contando histórias como aquela; falava de edifícios nos quais todos os elevadores estavam subindo ao mesmo tempo, parando em todos os andares, enquanto ele esperava na portaria; de pessoas que almoçavam do meio-dia às 15:30 e começavam o fim de semana na quarta-feira sempre que precisava falar com elas.

Não sei por que alguém se deu o trabalho de inventar o tempo, George – dizia para mim. – Não passa de um artifício para tornar possível a formação de novos métodos de desperdício. Se eu pudesse transformar as horas que passei esperando esses imbecis em tempo de trabalho, minha produção aumentaria de dez a vinte por cento. O que, apesar da sovinice criminosa dos editores, resultaria em um aumento substancial da minha renda… a comida vai chegar ou não?

Eu não podia deixar de pensar que ajudá-lo a aumentar a renda seria uma boa ação, principalmente porque ele tinha o bom gosto de gastar parte dela comigo. Além disso, costumava escolher os melhores restaurantes para jantarmos juntos, o que me deixava comovido… Não, não como este aqui, amigo velho. Coisa muito melhor. O seu gosto deixa muito a desejar, o que combina, pelo que ouço dizer, com o que você escreve.

Comecei, portanto, a dar tratos à bola para encontrar uma maneira de ajudá-lo.

Não me lembrei imediatamente de Azazel. Naquela época, ainda não estava acostumado com ele; afinal de contas, um demônio de dois centímetros de altura é uma coisa relativamente incomum.

Afinal, porém, ocorreu-me que talvez Azazel pudesse fazer qualquer coisa para aumentar o tempo de que meu amigo dispunha para escrever. Não parecia provável e talvez eu o estivesse fazendo perder tempo; para que serve o tempo para uma criatura de outro mundo?

Passei pela rotina de antigos feitiços e encantamentos que uso para invocá-lo, e ele chegou dormindo. Seus olhinhos estavam fechados e emitia um som agudo e desagradável que devia ser o equivalente a um ronco humano.

Eu não sabia ao certo como acordá-lo, e finalmente decidi pingar um pouco de água no seu estômago. Ele tem abdome perfeitamente esférico, você sabe, como se tivesse engolido uma bilha. Não tenho a menor idéia se isso é comum no planeta dele, mas quando falei no assunto, ele fez questão de saber o que era uma bilha. Quando expliquei, disse que estava com vontade de me zapulniclar. Não sei o que é isso, mas pelo seu tom de voz não deve ser nada agradável.

A água realmente o acordou, mas também o deixou muito aborrecido. Disse que eu quase o havia afogado e começou a explicar, com detalhes irrelevantes, como se fazia para acordar alguém no seu mundo. Tinha algo a ver com danças, pétalas de rosa, instrumentos musicais e o toque dos dedos de lindas donzelas. Eu lhe disse que no nosso mundo éramos mais práticos e ele nos chamou de bárbaros ignorantes antes de se acalmar o suficiente para que eu pudesse lhe explicar o que queria.

Contei-lhe o meu problema, convencido de que, na melhor das hipóteses, ele me daria algum conselho trivial antes de ir embora.

Estava enganado. Azazel olhou para mim, muito sério, e disse:

– Escute aqui, você está me pedindo para interferir nas leis das probabilidades?

Fiquei satisfeito por ele ter compreendido tão depressa a questão.

– Exatamente.

– Mais isso não é nada fácil!

– Claro que não. Se fosse fácil eu pediria a você? Se fosse fácil eu mesmo faria. Só quando não é fácil é que tenho de recorrer a um ser superior como você.

Nauseante, é claro, mas essencial quando se está lidando com um demônio que se envergonha do seu tamanho e de sua barriga em forma de bilha.

Ele pareceu gostar do meu argumento e disse:

– Bom, eu não disse que era impossível.

– Ótimo.

– Eu teria de ajustar o contínuo psicalóbico do seu planeta.

– Tirou as palavras da minha boca.

– O que vou fazer é introduzir alguns nós na ligação entre o contínuo e o seu amigo, esse que tem prazos a cumprir. A propósito: que são prazos?

Quando tentei explicar, ele observou, com um suspiro fundo:

– Ah, sim, temos coisas parecidas em nossas demonstrações mais etéreas de afeição. Se você deixa um prazo passar, as adoráveis criaturinhas não o perdoam. Lembro-me de uma vez…

Mas vou poupar-lhe os detalhes sórdidos da vida sexual de Azazel.

– O único problema – disse ele, afinal – é que depois que eu introduzir os nós não poderei mais desfazê-los.

– Por que não?

– É teoricamente impossível – declarou Azazel, em tom deliberadamente casual.

Não acreditei nele. Para mim, aquele demônio incompetente simplesmente não sabia como. Entretanto, já que ele era competente o bastante para tornar a vida impossível para mim, não lhe revelei o que estava pensando, mas disse, simplesmente:

– Você não vai ter de desfazer nada. Mordecai precisa de mais tempo para escrever, e quando o conseguir ficará satisfeito para o resto da vida.

– Nesse caso, vou começar.

Ficou fazendo passes durante muito tempo. Parecia um mágico no palco, exceto pelo fato de que de vez em quando eu tinha a impressão de que suas mãos ficavam invisíveis. Entretanto, eram tão pequenas que às vezes era difícil dizer se estavam ou não visíveis, mesmo em circunstâncias normais.

– Que está fazendo? – perguntei, mas Azazel sacudiu a cabeça e seus lábios se moveram como se estivesse contando.

Depois, ele se apoiou na mesa e suspirou.

– Terminou? – perguntei.

Ele fez que sim com a cabeça e disse:

– Espero que você compreenda que eu tive de reduzir o quociente de entropia do seu amigo de forma mais ou menos permanente.

– Que significa isso?

– Significa que a partir de agora as coisas serão mais regulares nas proximidades do seu amigo do que costumavam ser.

– Não há nada de errado com a regularidade – disse eu. (Você talvez não acredite, amigo velho, mas sempre gostei de organização. Tenho um registro de todo o dinheiro que lhe devo, até o último centavo. As quantias estão anotadas em pedaços de papel, aqui e no meu apartamento. Se quiser, posso mostrar-lhe…)

Azazel disse:

– Claro que não há nada de errado com a regularidade. Só que é impossível violar a segunda lei da termodinâmica. Para manter o equilíbrio, as coisas serão um pouco menos regulares longe do seu amigo.

– De que forma? – perguntei, verificando se o meu zíper estava aberto.

– De várias formas, quase todas difíceis de notar. Espalhei o efeito por todo o sistema solar, de modo que haverá um número um pouco maior de colisões entre asteróides, um número um pouco maior de erupções vulcânicas etc. O maior efeito, porém, será sobre o sol.

– Que vai acontecer com o sol?

– Calculo que ele ficará quente o bastante para tornar a vida impossível na Terra dois milhões e meio de anos mais cedo do que se eu não tivesse introduzido os nós no contínuo.

Dei de ombros. Que importam uns poucos milhões de anos quando é uma questão de arranjar alguém para pagar de boa vontade as minhas refeições?

Só voltei a jantar com Mordecai uma semana depois. Ele parecia muito animado ao entrar no restaurante, e quando chegou à mesa onde eu o esperava pacientemente com o meu drinque, sorriu para mim.

– George, tive uma semana incrível! – exclamou. Estendeu a mão sem olhar e não pareceu nem um pouco surpreso quando alguém lhe passou um cardápio. Logo naquele restaurante, em que os garçons eram tão prepotentes que exigiam um requerimento em três vias, assinado pelo gerente, para entregar um cardápio!

“George, parece que estou no paraíso! Disfarcei um sorriso.

– Verdade?

– Quando entro no banco, há sempre um guichê vazio e um caixa sorridente. Quando entro no correio, há sempre um guichê vazio e… bem, acho que esperar um sorriso de um funcionário dos correios seria demais, mas pelo menos eles registram minhas cartas sem fazer cara feia. Chego no ponto de ônibus e há sempre um à minha espera. Outro dia, na hora de maior movimento, levantei a mão e imediatamente um táxi encostou para me pegar. Quando disse que queria ir para a esquina da Quinta com a Quarenta e Nove, ele me levou até lá pelo caminho mais curto. E falava a minha língua! Que é que você vai querer, George?

Uma consulta rápida ao cardápio foi suficiente. Parecia que tudo estava arranjado para que ninguém pudesse atrasar o meu amigo. Mordecai pôs o cardápio de lado e fez os pedidos para nós dois. Observei que não se deu o trabalho de levantar os olhos para ver se havia um garçom à espera. Já se acostumara a esperar que houvesse.

E havia.

O garçom esfregou as mãos, fez uma mesura e nos atendeu com presteza, cortesia e eficiência.

Eu disse a ele:

– Você parece estar passando por uma fantástica maré de sorte, Mordecai, meu amigo. Como explica isso? (Devo admitir que por um momento tive a tentação de revelar a ele que eu em o responsável. Afinal, se soubesse disso, não teria vontade de me cobrir de ouro, ou, em nossos dias prosaicos, de papel?)

– É muito simples – disse ele, pendurando o guardanapo no pescoço e agarrando a faca e o garfo como se quisesse estrangulá-los, porque Mordecai, com todas as suas qualidades, não é exatamente o que se chamaria de um homem refinado. – Não tem nada a ver com a sorte. É a conseqüência inevitável das leis das probabilidades.

– Das probabilidades? – repeti, com indignação.

– Claro! Passei a vida inteira tendo de suportar a série mais revoltante de atrasos fortuitos que já ocorreu neste planeta. De acordo com as leis das probabilidades, é preciso que esta seqüência infeliz de eventos seja compensada. E o que está acontecendo agora, e espero que continue a ocorrer durante o resto de minha vida. Espero, não, tenho certeza. As coisas têm de se equilibrar. – Inclinou-se na minha direção e espetou o dedo no meu peito. – Acredite nisso. É impossível desafiar as leis das probabilidades.

Passou o resto do jantar discorrendo sobre as leis das probabilidades, a respeito das quais, tenho certeza, conhecia tão pouco quanto você.

Afinal, eu perguntei:

– Agora você não tem mais tempo para escrever?

– Claro que tenho. Calculo que o meu tempo para escrever deve ter aumentado uns vinte por cento.

– E a sua produção aumentou na mesma proporção, imagino.

– Ainda não – disse ele, parecendo meio constrangido. – Ainda não. Naturalmente, preciso me adaptar. Não estou acostumado com tanta facilidade. Fui apanhado de surpresa.

Na verdade, ele não parecia nem um pouquinho surpreso. Levantou a mão e, sem olhar, tirou a conta dos dedos de um garçom que se aproximava cora ela. Examinou-a rapidamente e devolveu-a, com um cartão de crédito, ao garçom, que, para meu espanto, tinha ficado esperando e, ao recebê-la, levou imediatamente à caixa.

O jantar inteiro tinha levado pouco mais de trinta minutos. Não vou esconder de você o fato de que teria preferido um jantar civilizado de duas horas e meia, precedido por champanha, seguido por conhaque, cora um ou dois vinhos finos separando os pratos e uma conversa civilizada preenchendo todos os interstícios. Entretanto, consolei-me com o fato de que Mordecai havia economizado duas horas que poderia passar ganhando dinheiro para si mesmo e, até certo ponto, para mim também.

Depois daquele jantar, passei três semanas sem me encontrar com Mordecai. Não me lembro por quê; acho que nós dois viajamos em semanas diferentes.

Seja como for, certa manhã eu estava saindo de uma lanchonete onde às vezes como um ovo mexido com torrada quando vi Mordecai de pé na esquina, cerca de meio quarteirão de distância.

Tinha acabado de nevar e estava tudo molhado. Era o tipo de dia em que os táxis vazios se aproximam de você apenas para jogar respingos de neve suja nas pernas das suas calças antes de baixarem o sinal de livre e se afastarem rapidamente.

Mordecai estava de costas para mim e acabava de levantar a mão quando um táxi vazio reduziu a marcha e se aproximou dele. Para minha surpresa, Mordecai olhou para outro lado. O motorista esperou um pouco e depois foi embora, desapontado.

Mordecai levantou a mão pela segunda vez e, aparentemente surgido do nada, um segundo táxi apareceu e parou para ele. Meu amigo entrou no carro, mas, como pude ouvir claramente, embora estivesse a uma distância de uns quarenta metros, brindou o motorista com uma torrente de impropérios que fariam corar uma pessoa de respeito, se ainda houvesse alguma em nossa cidade.

Telefonei para ele naquela mesma manha e marquei um encontro para mais tarde em um bar que costumávamos freqüentar, que oferecia uma “Happy Hour” após outra durante o dia inteiro. Eu mal podia esperar pela explicação de Mordecai.

O que eu queria saber era o significado dos palavrões que ele havia usado. Não, amigo velho, não estou me referindo à definição desses vocábulos no dicionário, se é que eles constam de algum dicionário. Estou falando da razão pela qual ele ofendera o motorista de táxi. Pela lógica, deveria agradecer-lhe efusivamente por haver parado.

Quando ele entrou no bar, não parecia muito satisfeito. Na verdade, tinha um ar preocupado.

Disse para mim:

– George, quer chamar a garçonete para mim?

Era um desses bares em que as garçonetes se vestem sem nenhuma preocupação de se manter aquecidas, o que, naturalmente, ajudava a me manter aquecido. Chamei uma delas com todo o prazer, embora soubesse que interpretaria meus gestos simplesmente como representando o desejo de pedir um drinque.

Na verdade, ela não interpretou coisa alguma, pois me ignorou totalmente, mantendo-se de costas para mim.

Eu disse para o meu amigo:

– Mordecai, se você quer ser atendido, é melhor chamá-la pessoalmente. As leis da probabilidade ainda não começaram a agir a meu favor, o que é uma pena, porque já era mais do que tempo de o meu tio rico morrer e deserdar seu único filho, deixando toda a fortuna para mim.

– Você tem um tio rico? – perguntou Mordecai, com uma ponta de interesse.

– Não! O que torna as coisas ainda mais injustas. Peça um drinque para nós, está bem, Mordecai?

– Por que a pressa? Deixe que eles esperem – resmungou Mordecai, de cara feia.

Eu não tinha nenhum interesse em deixá-los esperando, é claro, mas minha curiosidade foi maior que a minha sede.

– Mordecai, você parece infeliz. Hoje de manhã, você não me viu, mas eu o vi. Você ignorou um táxi vazio em um dia em que eles valem seu peso em ouro e depois, quando tomou um segundo táxi, xingou o motorista.

– É mesmo? Acontece que estou farto desses filhos da mãe. Os táxis me perseguem. Eles me seguem em longas filas. Não posso nem olhar para a rua sem que um deles pare. Quando chego a um restaurante, sou cercado por hordas de garçons. Lojas já fechadas são abertas por minha causa. No momento em que entro em um edifício, todos os elevadores estão no térreo. Salto em um andar, e eles esperam pacientemente por mim. Quando marco uma consulta médica, sou atendido imediatamente. Se preciso de um documento em uma repartição pública…

Àquela altura, porém, eu tinha recuperado a voz.

– Mordecai – protestei -, não compreende que isso é ótimo para você? As leis das probabilidades…

O que sugeriu que eu fizesse com as leis das probabilidades é totalmente impossível, é claro, já que elas não passam de abstrações.

– Mordecai – insisti -, tudo isso lhe dá mais tempo para escrever.

– Está muito enganado. Parei de escrever.

– Por quê?

– Porque não tenho mais tempo para pensar.

– Como assim?

– O tempo que eu passava esperando, nas filas de banco, nos pontos de ônibus, nas salas de espera… era esse o tempo que eu usava para pensar, para planejar o que eu iria escrever quando chegasse em casa. Essa preparação era essencial para o meu trabalho.

– Eu não sabia disso.

– Nem eu, mas agora já sei.

– Pensei que você passasse todo o tempo de espera reclamando, xingando e se aborrecendo.

– Parte do tempo eu passava assim. O resto do tempo, passava pensando. E mesmo o tempo que eu passava me queixando das injustiças do universo era útil, porque eu me exaltava, a adrenalina no meu sangue ia lá em cima e quando eu finalmente chegava em casa usava o teclado da máquina de escrever para descarregar todas as minhas frustrações. Meus pensamentos forneciam a motivação intelectual e minha raiva a motivação emocional. Juntos, faziam com que os fogos sombrios e infernais de minha alma despejassem grandes blocos de excelente literatura. E agora? Como vou fazer? Observe!

Estalou os dedos e imediatamente uma garçonete sumariamente vestida estava a seu lado, perguntando:

– Que posso fazer pelo senhor?

Eu podia imaginar várias coisas, mas Mordecai se limitou a pedir drinques para nós dois.

– Pensei que precisava apenas me acostumar com a nova situação, mas agora compreendo que não é tão simples assim.

– Pode se recusar a tirar vantagem das facilidades que os outros oferecem a você.

– Posso mesmo? Você me viu esta manhã. Se recuso um táxi, logo aparece outro. Se eu recusar cinqüenta vezes, haverá um qüinquagésimo primeiro esperando por mim na primeira esquina. Eles me vencem pelo cansaço.

– Nesse caso, por que não reserva uma hora ou duas por dia para pensar, no conforto do seu escritório?

– Exatamente! No conforto do meu escritório! Só consigo pensar direito quando estou roendo as unhas em uma fila de banco, sentado no banco duro de uma sala de espera ou morrendo de fome em uma mesa de restaurante. É a revolta que me dá inspiração para escrever.

– Mas você não está revoltado no momento?

– Não é a mesma coisa. Posso me revoltar com uma injustiça, mas como posso me revoltar com as pessoas que me tratam com tanta consideração? Não, não estou revoltado; estou apenas triste, e quando estou triste não consigo escrever. Acho que nunca passei uma “Happy Hour” tão infeliz como naquele dia.

– Juro para você, George – disse Mordecai -, que tenho a impressão de que fui amaldiçoado. Acho que alguma fada madrinha, aborrecida por não ter sido convidada para o meu batizado, descobriu finalmente alguma coisa pior do que ser forçado a esperar em filas. É a maldição de se poder fazer imediatamente tudo que se deseja.

Ao ouvir aquele triste relato, meus olhos ficaram úmidos, pois me dei conta de que a fada madrinha a que ele se referia era na verdade a minha pessoa, e talvez um dia ele viesse a descobrir esse fato. Se Mordecai soubesse a verdade, poderia muito bem, em um ato de desespero, tirar a própria vida, ou, pior ainda, tirar a minha.

Mas o pior ainda não tinha chegado. Depois de pedir a conta e, naturalmente, recebê-la sem demora, examinou-a sem interesse, passou-a para mim e disse, com voz rouca:

– Tome, pode pagar. Vou para casa.

Paguei. Que remédio? Mas isso me deixou uma ferida que ainda me incomoda quando o tempo está para mudar. Afinal, é justo que eu tenha encurtado a vida do sol em dois milhões e meio de anos e acabe tendo de pagar, não só o meu drinque, mas também o do meu amigo? É justo?

Nunca mais tornei a ver Mordecai. Ouvi dizer que deixou o país e se tornou um vagabundo de praia nos Mares do Sul.

Não sei exatamente o que faz um vagabundo de praia, mas desconfio que eles não ficam ricos. Seja como for, tenho certeza de que se ele estiver na praia e quiser uma onda, ela não demorará a aparecer.

– Então você não vai fazer nada por mim?

– Não.

– Ótimo. Então eu pago a conta.

É o mínimo que você pode fazer – disse George.

Aquela altura, um garçom já havia trazido a conta e a colocara entre nós, enquanto George a ignorava com a desenvoltura de sempre.

– Você não está pensando em pedir a Azazel para fazer alguma coisa por mim, está? – perguntei.

– Acho que não – disse George. – Infelizmente, amigo velho, você não é o tipo de pessoa em que a gente pensa quando sente vontade de fazer boas ações.

Fonte:
ASIMOV, Isaac. Azazel. RJ: Record, 1988

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Isaac Asimov (Versos na Luz)

A última pessoa deste mundo que alguém julgaria um criminoso era a sra. Avis Lardner. Viúva do grande mártir da Astronáutica, era filantropa, colecionadora de arte, uma extraordinária anfitriã e, todos concordavam, um gênio artístico. Acima de tudo, era o mais gentil e bondoso ser humano que se podia imaginar.

O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiaçío da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.

Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.

Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.

Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.

Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.

E havia também, é claro, sua escultura-luz.

Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.

Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.

Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.

Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso – Não, não – dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. – Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” – e todos sorriam da sutil tirada de espírito.

Embora fosse solicitada freqüentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.

– Seria comercialização – costumava dizer.

Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.

– Eu não teria coragem de cobrar um centavo – dizia ela, abrindo bem os braços. – É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.

Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.

Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.

– Por favor, Courtney – quer ter a bondade de ajustar a escadinha?

Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.

Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:

– Não pode fazer isto – disse ele severamente. – Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.

A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:

– Não exijo rapidez e eficiência – disse ela. – Peço boa vontade. Meus robôs me amam.

O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.

Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.

A sra. Lardner sacudiu a cabeça:

– A partir do momento em que o robô está em minha casa – disse – e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.

Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:

– Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.

E pronto!

Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:

– Absolutamente – dizia firmemente – ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.

– Mas por que não manda regulá-lo? – perguntou um amigo, certa ocasião.

– Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.

– Mas, se ele está mal regulado – disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner – não poderá ser perigoso?

– Nunca – a sra. Lardner deu uma risada. – Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.

Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.

Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.

Como poderia cometer um crime?

A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.

Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.

Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.

No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.

Era a única razão de infelicidade em sua vida tranqüila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”…

Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? – mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.

O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desa-lentador.

Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:

– Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.

– Aquele é Max – disse a sra. Lardner.

– Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?

– Oh, não – disse a sra. Lardner. – Seria demasiado trabalho.

– De modo nenhum, sra. Lardner – disse Travis. – A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.

Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.

– Ajustou-o? – perguntou com voz aguda. – Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar… aquele…

Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.

A fisionomia de Travis também se distorceu:

– A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido…

Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele – como se quisesse morrer.
—————————
Conto do livro Nós, Robôs (The Complete Robot). É uma coletânea de 31 contos sobre os robôs publicados entre 1939 a 1977, inclusive as histórias reunidas na primeira coletânea, I, Robot(1950) (Eu, Robô).

Contém todas as histórias com a participação de Susan Calvin, e histórias, como por exemplo, ‘O Homem Bicentenário’, ‘Pobre Robô Perdido’ e ‘Robbie’. ‘Robbie’ é a primeira história de robôs escrita por Asimov.
Os contos são:

Robôs não humanos
O melhor amigo de um garoto – Um garoto tem um robô cachorro
Sally – Um carro robô
Um dia – Um computador contador de Histórias

Robôs Imóveis

Contos com computadores
Ponto de vista
Pense!
Amor verdadeiro

Robôs Metálicos
Robô AL-76 extraviado
Vitória involuntária
Estranho no paraíso
Versos na luz
Segregacionista
Robbie

Robôs humanóides
Vamos nos Unir
Imagem Especular (Uma história com Elias Baley e Daniel)
O incidente do tricentenário

Powell e Donovan
Primeira Lei
Corre-corre
Razão
Pegue aquele coelho

Susan Calvin
Mentiroso
Satisfação garantida
Lenny
Escravo
O robozinho perdido
Risco
Fuga
Evidência
O conflito evitável
Intuição feminina

Dois clímax
…Para que vos ocupeis dele
O homem bicentenário

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Fontes:
ASIMOV, Isaac. Nós, Robôs. SP: Hemus Editora, 1982.
– Sobre o livro = Wikipedia

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Literatura em Luto (Falecimento de Arthur C. Clarke)

ARTHUR CHARLES

CLARKE

( 1917 – 2008)

O escritor e inventor britânico Arthur C. Clarke morreu aos 90 anos, em sua casa em Colombo, capital do Sri Lanka, em 19 de março de 2008, onde será enterrado, sem rito religioso, a seu pedido.

“Ele teve um ataque cardiorrespiratório”, disse Rohan de Silva, secretário pessoal de Clarke, segundo a Reuters.

Sir Arthur Charles Clarke morreu à 1h30 de quarta-feira (18h de Brasília desta terça-feira, 19 de março de 2008) de insuficiência respiratória.

Entre suas obras, “A Sentinela” é um grande destaque. O texto serviu de inspiração para o roteiro do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999). O roteiro do filme é assinado por Kubrick e Clarke.

Clarke escreveu mais de 80 livros e centenas de contos e artigos durante sua carreira. O escritor mencionou nos anos 40 que o homem chegaria à Lua por volta do ano 2000, algo que especialistas afirmaram ser um absurdo na época.

Quando Neil Armstrong pisou no satélite em 1969, os Estados Unidos divulgaram que Clarke providenciou a direção intelectual que levou o país à Lua.

No último dezembro, Clarke afirmou que gostaria de ver sinais de extraterrestres ainda enquanto estivesse vivo. O escritor nasceu em 16 de dezembro de 1917.

Últimos desejos

Em dezembro de 2007, o escritor listou três desejos para o seu aniversário de 90 anos: que o mundo adotasse fontes de energia limpas, que a paz fosse estabelecida no lugar onde ele vivia, o Sri Lanka, e que fossem apresentadas evidências de seres extraterrestres.

“Eu sempre acreditei que nós não estamos sozinhos no universo”, disse ele na época, em um discurso para um pequeno grupo de cientistas, astronautas e oficiais, na cidade de Colombo, no Sri Lanka. Os humanos estão à espera de que seres extraterrestres “nos chamem ou nos dêem um sinal”, disse o escritor. “Não temos como adivinhar quando isso vai acontecer. Espero que aconteça antes que seja tarde demais.”
Clarke também é creditado como um dos pioneiros no uso do conceito de satélites de comunicação, falando deles em 1945, anos antes de a tecnologia ter sido inventada. Ele se juntou ao jornalista Walter Cronkite como comentarista da expedição lunar da Apollo no final dos anos 60.

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Arthur Charles Clarke (1917 – 2008)

Arthur Charles Clarke nasceu em Minehead em Somerset, Inglaterra em 16 de dezembro de 1917. Em 1936 junto com a família mudou para Londres, onde ingressou na Sociedade Interplanetária Britânica (BIS-British Interplanetary Society), no BIS ele começou seus experimentos com astronáutica e tudo que envolvia o assunto espaço e comunicações, ele também começou a escrever boletins para a Sociedade Interplanetária, tanto científicos como de ficção.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi oficial da RAF (Força Aérea Real), e foi encarregado do primeiro radar de transmissão de rádio , ele tinha o cargo de controlador e era responsável por seu funcionamento, durante os experimentos com esse radar ele desenvolveu paralelamente seu dom de escrever e criou uma tese científica em forma de novela chamada (Glide Path) “Trajeto do Planador”, inspirado nestes anos de trabalho com o radar de comunicação terra-ar.

Em 1945 volta a Londres e ao BIS, onde foi presidente de 1946 a 1947 e depois em 1950 a 1953. Ele publica nesta época (Extraterrestrial Relays), “Reles Extraterrestres”, que fala sobre o papel técnico dos princípios da comunicação de satélites com órbitas geoestacionárias numerosas, ele estudou muito este assunto e foi um dos pioneiros em criações de satélites de comunicação deste tipo esta sua descoberta lhe rendeu várias honras científicas. Hoje a órbita geoestacionária em 42.000 km é nomeada a Órbita de Clarke pela União de Astronômica Internacional.
Cronologia de sua vida:

1927 – Faz seu primeiro vôo com sua mãe em um biplano British Avro 504.
1930 – Construiu um transmissor de ondas junto com seu Tio George.
1931 – Seu pai morre em um hospital em Bristol.
1934 – Entra para o BIS fundado por Phillip E. Cleator e outros em Liverpool.
1941 – Engajado na RAF (Royal Air Force) (Segunda Guerra Mundial)
1945 – Em março deste ano ele escreve “Rescue Party”, que apareceria em maio de 1946 na Astouding Science.
1948 – Obteve honras de primeiro aluno no King’s College em Londrês em sua turma de Física e Matemática , se formando com méritos.
1953 – Casou-se com Marilyn Mayfield em 15 de junho deste ano, para se separar seis meses depois, isso era prova para ele dizer que não era homem de casar.
1954 – Clarke visita pela primeira vez o Sri Lanka conhecendo a capital, Colombo onde vive atualmente.
Neste ano também ele troca sua paixão pelo espaço se entregando ao mar com sessões de mergulho e descobertas submarinas.
1961 – Passa um final de semana em Boston em companhia de Jacques Cousteau. Neste ano também em dezembro recebe a visita de Yury Gagarin em sua casa no Ceilão atual Sri Lanka.
1962 – Escreve (Profiles of the future), “Perfis do Futuro”, neste livro ele descreve suas três leis científicas.
Primeira lei : Quando um distinto e experiente cientísta diz que algo é possível, ele está praticamente certo, quando ele diz que algo é impossível, ele esta muito provavelmente errado.
Segunda lei: O único caminho para desvendar os limites do possível e através do impossível.
Terceira lei : Qualquer avanço tecnologico é indistinguível da mágica.
1964 – Neste ano começa a trabalhar com Stanley Kubric em um filme que revolucionária a Ficção Científica no cinema. 2001: Uma Odisséia no Espaço.
1985 – Publicou a sequência de 2001. 2010 a Odisséia II e trabalhou com Peter Hyams na versão do filme, mas não obteve tanto sucesso quanto 2001.
Clarke é famoso por muitas outras obras de Ficção Científica e também é considerado um dos Grandes Mestres da Ficção Científica junto com Asimov, Heinlein e Herbert. Suas obras mais famosas são “Childhood’s End”, “2001: A Sapce Odyssey” e “The Nine Billion Names of God”. Foi ganhador dos prêmios Hugo em 1956, 1974, 1980 e Nebula em 1972,1973, 1979 e Ganhador do Prêmio Nebula para os Grandes Mestres em 1985.

Bibliografia apenas das obras de Ficção.

1951 – As Areias de Marte.
1952 – Ilhas no Céu.
1953 – O Fim da Infância (Childhood’s End)
1953 – Contra a Sombra da Noite.
1953 – Expedição para a Terra.
1955 – Luz terrestre
1956 – Cidade das Estrelas.
1956 – Ao alcance do amanhã.
1957 – Caminho Profundo.
1958 – O outro lado do céu.
1959 – Através de um mar de Estrelas.
1961 – A queda da poeira lunar.
1962 – Do oceano e das Estrelas.
1962 – Lendas de dez mundos.
1963 – Ilha do Golfinho.
1964 – 2001 : Uma Odisséia no Espaço (Início da obra)
1965 – Prelúdio Marciano (Prelúdio Espacial e As areias de Marte)
1967 – Nove Bilhões de Nomes de Deus.
1972 – O tempo e as Estrelas.
1972 – O Vento do Sol (revisada em 1987)
1973 – Rendezvous com Rama (Hugo e Nebula)
1975 – Terra Imperial
1979 – As fontes do paraíso (Hugo e Nebula)
1982 – 2010: A Odisséia II
1983 – O Sentinela.
1986 – As músicas da Terra Distante.
1988 – Encontro com Medusa.
1988 – 2061: Odisséia III
1990 – Lendas do Planeta Terra.
1991 – O fantasma que vem da grande barreira.
1991 – Mais do que um Universo.
1993 – O Martelo de Deus.
1997 – 3001: A Odisséia Final.

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Arthur C. Clarke (Entrevista para a Revista Veja)

Entrevista com Arthur C. Clarke na Revista Veja de 13/11/96

O Futuro Está Aí
por Fabíola de Oliveira

Aos 78 anos, o inglês Arthur C. Clarke é um dos mais populares autores de ficção científica deste século. Já escreveu cerca de oitenta livros. O mais novo, 3001 – A Odisséia Final, chega às livrarias no começo do ano. É uma seqüência do roteiro do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, que o tornou mundialmente famoso em 1968. Entre os cientistas, Clarke é respeitado por um outro motivo. Em 1945, com apenas 28 anos, ele escreveu um artigo que é considerado a base teórica para os modernos satélites de comunicação.

Clarke vive no Sri Lanka, antiga colônia britânica ao sul da Índia, para onde se mudou há quarenta anos em busca de sossego. Não conseguiu. Sua casa vive sitiada por turistas. O escritor paga 1000 dólares mensais só de fax recebidos e enviados para o mundo todo. “Sou um recluso fracassado”, diz. Hoje sofre de uma doença conhecida como síndrome de pós-polio, que o obriga a andar em cadeira de rodas. Semanas atrás, ao participar de uma conferência em Pequim, ele falou a VEJA:

Veja – Na época em que o senhor escreveu 2001 – Uma Odisséia no Espaço, parecia que na virada do século as viagens interplanetárias seriam uma rotina. O que deu errado com seu futuro?

Clarke – Em primeiro lugar, eu nunca previ o futuro. Tudo o que fiz foi escrever ficção. Seis de minhas histórias tratam do fim do mundo. Ainda bem que esse futuro não aconteceu, não é? As viagens interplanetárias só não ocorreram até hoje por culpa de eventos como a Guerra do Vietnã, o caso Watergate e tantas outras crises políticas e econômicas que têm destruído o desejo americano de investir mais na exploração do espaço. Além disso, o fim da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, embora tenha sido um acontecimento bom para a humanidade, derrubou um elemento essencial na corrida ao espaço, que era a competição entre as duas potências. É inacreditável que tenhamos chegado à Lua e abandonado esse projeto cinco anos mais tarde.

Veja – A paz é ruim para o avanço da ciência e da tecnologia?

Clarke – Em alguns casos, sim. A I Guerra Mundial tornou a aviação possível e abriu caminho para que em pouco tempo ela se tornasse comercialmente viável. A II Guerra foi a porta de entrada para a conquista espacial. Os foguetes V1 e V2, desenvolvidos pelos alemães para o lançamento de bombas no início dos anos 40, antecederam os foguetes lançadores até hoje utilizados para a colocação de satélites em órbita da Terra. A Guerra Fria trouxe os satélites artificiais, as primeiras viagens de astronautas e cosmonautas e a chegada do homem à Lua.

Veja – O senhor quer dizer que um novo grande conflito mundial seria bom para a retomada das viagens espaciais?

Clarke – Absolutamente não. Agora, é preciso demonstrar que o espaço também pode trazer grandes retornos econômicos. Vôos espaciais custam muito dinheiro Por essa razão, a humanidade precisa ter um bom motivo para viajar para outros planetas. No passado, foi a competição entre as potências. Hoje, pode ser puramente econômico. Atualmente, as atividades que giram em torno dos satélites de aplicação comercial movimentam cerca de 50 bilhões de dólares por ano. É por isso que o mercado de satélites de uso civil cresce cada vez mais, enquanto o de satélites militares tende a ser desativado. No momento em que se descobrir que aplicações práticas podem resultar das viagens e pesquisas em outros planetas, a exploração espacial acontecerá num piscar de olhos.

Veja – Como será a exploração comercial do espaço?

Clarke – As possibilidades são quase infinitas. O problema por enquanto é o custo dos foguetes para a colocação de naves fora do campo gravitacional da Terra. A boa notícia vem da Finlândia e do Instituto Max Plank, da Alemanha, onde alguns cientistas conseguiram, quase por acaso, realizar um experimento que criou um campo antigravitacional. Os fãs da série Jornada nas Estrelas sabem que é essa a fonte de energia usada para deslocar a nave Enterprise. Se isso for confirmado, poderemos estar na trilha de um novo tipo de veículo que, em vez de usar combustível de propulsão, como os foguetes atuais, vença a barreira gravitacional e se desprenda da Terra com grande facilidade e a custos baixíssimos. Aí, tudo vai fluir automaticamente.

Veja – Que tipo de mudanças o senhor prevê?

Clarke – A principal é o advento do turismo espacial, algo inimaginável aos custos atuais. Acredito que isso acontecerá em algum momento do início do próximo século, e então teremos o envolvimento do público em geral com o espaço. Nas viagens espaciais, os foguetes lançadores representarão o mesmo papel que os balões tiveram no início da aviação. Antigamente, especulava-se sobre a possibilidade de levar passageiros em longas viagens com balões. Era comum no século passado as revistas publicarem desenhos malucos de balões enormes carregando centenas de pessoas, mas é claro que os aviões chegaram e acabaram com o sonho do balonismo comercial. Da mesma forma, algum tipo de veículo espacial apropriado para passageiros deverá surgir no início do século XXI, tornando as viagens espaciais acessíveis a quase todo mundo. Marte vai ser um grande destino turístico no próximo século.

Veja – Países em desenvolvimento, como o Brasil, devem investir em atividades espaciais ou deixar esse assunto para as potências mais ricas?

Clarke – Nações em desenvolvimento podem tirar proveitos até maiores da tecnologia espacial do que os países ricos. Investir em atividades espaciais não é só tentar ir à Lua ou a Marte. É também produzir melhorias concretas na vida das pessoas aqui na Terra mesmo. As aplicações espaciais são imprescindíveis nas áreas de comunicação, monitoramento de recursos terrestres e previsões meteorológicas. Os satélites já ajudaram a salvar milhares de pessoas em lugares como Bangladesh e outras regiões da Ásia e da África que sofrem com fenômenos da natureza. No caso das comunicações, sabemos que atualmente cinqüenta países com metade da população do planeta ainda não tem acesso a uma linha de telefone. No mundo de hoje é praticamente impossível o desenvolvimento cultural, educacional e comercial sem um sistema eficiente de comunicações. Para tanto, é preciso ter satélites.

Veja – Em agosto, cientistas da NASA anunciaram ter encontrado sinais de vida bacteriana num meteorito de Marte que caiu na Antártica. Qual sua opinião sobre essa descoberta?

Clarke – Estou levando essa pesquisa muito a sério. Certamente não é uma prova decisiva da existência de vida em Marte, mas é uma possibilidade bastante sugestiva. Se eu tivesse 1 dólar para apostar, colocaria 75 centavos na mesa. Esse índice de probabilidade é mais do que suficiente para que a descoberta seja investigada a fundo. Outra sugestão interessante seria observar os meteoritos oriundos de Europa, uma das luas de Júpiter, que é coberta por uma camada de gelo. A possibilidade de vida nos oceanos de Europa é um dos temas dos meus três livros sobre odisséias no espaço. Fico fascinado com as imagens maravilhosas desse satélite de Júpiter enviadas pelas sondas espaciais Voyager e Galileu.

Veja – Seu próximo livro vai-se chamar 3001 – A Odisséia Final. Por que final?

Clarke – Porque eu não quero continuar nesse assunto. A história se passa em Júpiter e suas luas. Lá encontramos velhos amigos, como o HAL 9000, o computador que, na primeira odisséia, a de 2001, enlouquece e mata os tripulantes da nave espacial Discovery. Na nova história, HAL aparece agora como um herói. Só não vou contar em que circunstâncias para não estragar a surpresa de meus leitores.

Veja – Por que 3001 e não uma outra data qualquer?

Clarke – A idéia original era escrever uma odisséia espacial para o ano 20001. O problema é que, mesmo no campo da ficção científica, fica difícil imaginar como estará o mundo até lá. Mas em 1000 anos acho que algumas coisas poderão ser reconhecidas. Eu me diverti bastante escrevendo esse livro.

Veja – O senhor acha que a ciência um dia será capaz de resolver mistérios como a origem do universo e da vida?

Clarke – No passado havia questões que pareciam jamais ter explicação e hoje estão bem respondidas pela ciência. Um bom exemplo é a forma como a vida evoluiu na Terra. A ciência também consegue explicar quase todos os fenômenos celestes e meteorológicos que antigamente eram considerados mistérios. Ainda assim, acredito que existem questões para as quais a ciência nunca terá respostas. Acho difícil, por exemplo, que um cientista consiga explicar por que o universo está aqui e qual é a razão da vida. Gosto muito de uma frase escrita por J.B.S. Haldane: “O universo não é apenas mais estranho do que imaginamos; ele é mais estranho do que podemos imaginar”.

Veja – O senhor acredita em Deus?

Clarke – De um ponto de vista científico, acreditar em Deus é tão inócuo quanto não acreditar. É questão puramente de fé. O que posso dizer é que não rejeito por completo a idéia de Deus. Uma vez eu disse a um representante do Papa que não acredito em Deus, mas sou muito interessado Nela. Quem garante que Deus não seja uma entidade feminina?

Veja – para o senhor qual é o maior de todos os mistérios?

Clarke – Sem dúvida, os ETs. Não consigo imaginar nada mais desafiador do que investigar a possibilidade de vida extraterrestre. Se de fato nós estivermos sós, significa que não somos apenas os herdeiros do universo. Somos também os seus únicos guardiões. Seria inacreditável. Portanto, as duas possibilidades, a de estarmos sós ou não, são igualmente fascinantes.

Veja – O senhor se preocupa muito com a própria morte?

Clarke – É óbvio que, aos 78 anos, eu tenho pensado mais nesse assunto do que antes. Mas não é minha maior preocupação. Só espero que eu não sofra muito quando a hora chegar. Estou mais preocupado hoje com as pessoas e os animais que amo do que comigo mesmo.

Veja – Pelo que o senhor mais gostaria de ser lembrado?

Clarke – Fico muito feliz ao ver que hoje as pessoas chamam a órbita estacionária dos satélites de “Órbita Clarke”, em razão de um artigo que escrevi em 1945. Para mim, já é mais do que suficiente.

Veja – O artigo a que o senhor se refere enunciava a teoria básica dos atuais satélites de comunicação. O senhor se arrepende de nunca ter patenteado essa idéia, que poderia fazê-lo milionário?

Clarke – Gosto muito de uma frase segundo a qual “uma patente é apenas uma licença para ser processado pela Justiça”. E eu não gostaria de passar a vida correndo atrás de advogados. Além disso, se eu tivesse adquirido a patente, ela provavelmente já estaria caduca no ano em que foi lançado o primeiro satélite de comunicação, no início da década de 60, embora eu deva admitir que não imaginei que isto ocorreria tão cedo.

Veja – Depois dos satélites de comunicação, qual será o próximo grande passo tecnológico da humanidade?

Clarke – Ele já está acontecendo. É o telefone pessoal. O fim do telefone como um instrumento fixo vai provocar uma das maiores revoluções na vida das pessoas neste século. Começou com o celular, mas extrapolará todos os limites com a chegada do telefone que se comunica diretamente com o satélite não importa em que lugar do planeta a pessoa estiver.

Veja – Na semana passada, havia 60000 referências ao seu nome na Internet, a rede mundial dos computadores. Mas o senhor não gosta de divulgar seu endereço eletrônico. Por que?

Clarke – Eu tenho evitado entrar na Internet como se foge de uma praga. É como você tentar beber toda a água das Cataratas de Niágara. Diante de tantas informações e possibilidades, é preciso ser seletivo e controlar a ansiedade.

Veja – Se o senhor tivesse nascido depois da chegada do homem à Lua e fosse hoje um jovem de vinte e poucos anos, o que estaria fazendo?

Clarke – Eu provavelmente estaria ansioso para chegar a Marte. É uma viagem que, na minha idade, eu provavelmente nunca farei. Se tivesse nascido em 1970, talvez tivesse uma chance.

Veja – Na sua opinião, quais são os grandes problemas da humanidade atualmente?

Clarke – O maior de todos é o excesso de população. Já há pessoas demais para os recursos limitados do planeta. O resultado é a poluição e a rápida degradação do meio ambiente. Há bilhões de pessoas vivendo na miséria, sem acesso às mais elementares conquistas da ciência e da tecnologia neste século. Acredito que a população ideal do planeta seja inferior a 1 bilhão de pessoas. Outro problema que muito preocupa é o da educação.

Veja – O que está errado com a educação?

Clarke – No futuro, não muito distante, haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem-preparadas. Não haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo inteiro e isso terá graves conseqüências. Em especial, a educação científica é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um dos piores problemas que enfrentamos atualmente, causador de muitas desgraças. No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que “o futuro será uma corrida entre a educação e a catástrofe”. No momento, acho que estamos perdendo a corrida.

Fonte:
http://galaxiabr.vilabol.uol.com.br/

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Arthur C. Clarke (Previsões além de 2001)

NINGUÉM pode ver o futuro. O que tento fazer é esboçar “futuros” possíveis, embora invenções e acontecimentos completamente inesperados possam tornar absurdas as previsões depois de apenas alguns anos. Exemplo clássico é a declaração feita no fim dos anos 40, pelo então presidente da IBM, de o mercado mundial de computadores seria de apenas cinco unidades. Só no meu escritório, tenho mais do que isso.
Talvez eu não esteja em condições de criticar: em 1971, previ o primeiro pouso em Marte para 1994; hoje, será sorte se conseguirmos até 2010. No entanto, em 1951, achei que estava sendo muito otimista ao sugerir uma missão à Lua em 1978. Neil Armstrong e Edwin Aldrin me surpreenderam quase uma década antes. Mas me sinto orgulhoso pelo fato de os satélites comunicações terem sido postos nos locais que sugeri em 1945, e de nome “Órbita Clarke” ser empregado com freqüência (mesmo que apenas por ser mais fácil de dizer do que “órbita geostacionária”). Alguns dos episódios relacionados aqui – as missões espaciais, em particular – já estão programados. Acredito que todos os outros possam acontecer, embora muitos esperam que não.

AS PREVISÕES DE ARTHUR C. CLARKE
2001 – A sonda espacial ‘Cassini’ (lançada em 1977) começa a exploração dos satélites e anéis de Saturno. A sonda Galileu (lançada em 1989 continua as inspeções de Júpiter e suas luas. Parece cada vez mais provável que haja vida nos oceanos cobertos de gelo de uma delas, Europa.
2002 – O primeiro dispositivo comercial que gera energia limpa e segura por meio de reações nucleares de baixa temperatura entra no mercado, anunciando o fim da Era do Combustível Fóssil.
2003 – São concedidos cinco anos para que a indústria motriz substitua todos os instrumentos que queimam combustível pelo novo dispositivo energético. Neste mesmo ano, é lançada a nave Mars Surveyor, da NASA.
2004 – Primeiro clone humano (admitido publicamente).
2005 – Primeira amostra enviada à Terra pela Mars Surveyor.
2006 – Fechada a última mina de carvão.
2008 – Uma cidade num país do Terceiro Mundo é devastada pela explosão acidental de uma bomba atômica em seu arsenal. Após breve discussão na ONU, todas as armas nucleares são destruídas.
2009 – Criados os primeiros geradores de ‘quantum’ (para processar energia espacial). Disponíveis em modelos portáteis e domésticos – a partir de alguns quilowatts -, podem gerar eletricidade sem limite. Estações centrais de energia são fechadas: termina a era das torres de transmissão.
A monitorização eletrônica praticamente elimina da sociedade os criminosos profissionais
2011 – Filmado o maior animal vivo: um polvo de 75 metros, próximo às Ilhas Marianas. Por curiosa coincidência, animais ainda maiores são descobertos quando as primeiras sondas por controle remoto perfuram o gelo da lua Europa.
2012 – Aviões aeroespaciais começam a operar na área comercial.
2013 – O príncipe Harry é o primeiro membro da Família Real britânica a voar no espaço.
2014 – A construção do Hotel Hilton Orbital começa com a adaptação dos gigantescos tanques de combustível abandonados pelos ônibus espaciais – tanques que, originalmente, deveriam cair de volta na Terra.
2015 – Um subproduto inevitável do gerador de quantum é o controle absoluto da matéria no nível atômico. Em poucos anos, por serem mais úteis, o chumbo e o cobre passam a custar duas vezes mais do que o ouro.
2016 – As moedas vigentes são abolidas. O “megawatt-hora” torna-se a unidade de troca.
2017 – Ao completar 100 anos no dia 16 de dezembro, sir Arthur C. Clarke é um dos primeiros hóspedes do Hilton Orbital.
2019 – Ocorre um grande impacto meteórico na calota de gelo do pólo norte. As enormes ondas resultantes causam danos consideráveis nas costas da Groelândia e do Canadá. O tão discutido “Projeto Guarda Espacial”, que serviria para indentificar e desviar cometas e asteróides potencialmente perigosos, é enfim ativado.
2020 – A inteligência artificial chega ao nível humano. De agora em diante, há duas espécies inteligentes na Terra, uma delas evoluindo de modo muito mais acelerado do que a biologia jamais permitiria.
2021 – O homem chega a Marte.
2023 – Fac-símiles de dinossauros são clonados a partir de DNAs criados em computador. Apesar de alguns lamentáveis acidentes iniciais, ferozes minidinossauros começam a substituir os cães de guarda.
2024 – São detectados sinais infravermelhos vindos do centro da Galáxia, produto evidente de uma civilização tecnologicamente avançada. Falham todas as tentativas de decifrá-los.
2025 – Pesquisas no campo neurológico enfim permitem compreender os nossos cinco sentidos, tornando possível a “ligação direta”, que dispensa a intermediação de ouvidos, olhos, pele, etc. O resultado é um capacete metálico, o “chapéu cerebral”. Qualquer pessoa que coloque na cabeça esse apertado capacete pode desfrutar de todo um universo de experiências – reais e imaginárias – e até interagir com outras mentes. O chapéu cerebral é uma dádiva para os médicos, que agora podem vivenciar (apropriadamente atenuados) os sintomas do paciente. Também é um avanço no campo jurídico, pois a mentira deliberada não é mais possível.
2040 – O ‘replicador universal’, baseado na nanotecnologia, é aperfeiçoado: qualquer objeto, por mais complexo que pareça, pode ser criado – desde que se disponha da matéria-prima necessária. Diamantes e delícias culinárias podem ser, literalmente, feitos do barro. Como resultado, a indústria e a agricultura chegam ao fim – assim como o trabalho. Há uma explosão nas artes, no lazer e na educação. Sociedades primitivas, baseadas na caça e na coleta, são recriadas, uma vez que enormes áreas do planeta – agora não mais necessárias para a produção de alimentos – podem retomar seu estado natural.
2045 – A casa móvel totalmente auto-suficiente (imaginada quase um século antes por Buckminster Fuller) é consumada. Qualquer suplemento de carbono necessário para síntese dos alimentos pode ser obtido extraindo-se gás carbônico do ar.
2050 – Entediadas com a vida nesses tempos de tanta paz, milhões de pessoas resolvem usar a preservação criônica com vistas a emigrar para o futuro em busca de aventura. Grandes “hibernáculos” são criados na Antártida e em regiões de noite eterna nos pólos lunares.
2057 – No dia 4 de outubro – centenário do Sputnik 1 -, a aurora da era espacial é comemorada pelo homem na Terra, na Lua, em Marte, Europa, Ganimedes e Titã, além de na órbita de Vênus, Netuno e Plutão.
2061 – O Cometa Halley volta e o homem pousa nele pela primeira vez. A sensacional descoberta de formas de vida tanto ativas quanto latentes comprova a centenária hipótese, de Wickramasinghe e Hoylem, de que existe vida no espaço.
2090 – A queima de combustíveis fósseis realizada em grande escala é retomada, a fim de restituir o gás carbônico extraído do ar e, por intermédio do aquecimento do planeta, tentar retardar a Era Glacial que se aproxima.
2095 – A criação de uma verdadeira ‘força espacial’ – um sistema de propulsão que reage contra a estrutura do espaço-tempo – torna obsoleto o foguete e garante velocidades próximas à da luz. Exploradores terráqueos partem para galáxias vizinhas.
2100 – Começa a História…

Fonte:
© 1999 ARTHUR C. CLARKE. CONDENSADO DE THE DAYLY TELEGRAPH (21 DE FEVEREIRO DE 1999
http://galaxiabr.vilabol.uol.com.br/

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Arthur C. Clarke (Resumo de Alguns Livros)

Expedição para a Terra

Durante a Segunda Guerra Mundial, Arthur C. Clarke trabalhou na operação dos primeiros radares desenvolvidos pelos Aliados e pouco mais tarde escreveu o artigo “Extraterrestrial relays”, que lançaria a idéia por detrás do satélite de comunicações geosincrônico – uma das bases da moderna rede de telecomunicações. Ao mesmo tempo que ajudava ao Aliados a detectar a chegada dos foguetes V-2 do Eixo, ele sonhava com o desenvolvimento da viagem espacial. A mistura de conhecimento tecnológico prático, o sonho de explorar as Estrelas e a percepção aguda da época em que vivia daria origem na década de 50 aos contos que fazem parte de “Expedição para a Terra”. Contos em que o pesadelo da guerra nuclear divide espaço com a esperança e os perigos da exploração espacial.

No primeiro conto, “Second Dawn (Segunda Aurora)”, nós visitamos um mundo alienígena, onde a guerra entre duas raças inteligentes dotadas de grande inteligência e poderes mentais, os Atheleni e os Mithraneans, chegou ao fim com a vitória dos Atheleni… ao custo do desenvolvimento de uma técnica de destruição da mente tão poderosa e ao mesmo tempo tão simples que mais cedo ou mais tarde os antigos inimigos a descobririam e uma guerra definitiva ocorreria… a não ser que algo mudasse suas civilizações tão radicalmente que tornaria a própria guerra absurda. A resposta vêm de uma raça atrasada, os Pheleni, mas dotados de algo que as poderosas mentes dos dois povos não podem ter devido as limitações de seu próprio corpo: habilidade manual e a capacidade de moldar o mundo ao seu redor. Guiados pelos Atheleni, os Pheleni começam a desenvolver uma tecnologia surpreendente… mas será que a mesma capacidade de mudar o mundo para melhor não descobriria algo tão terrível quando a técnica da Loucura: o Poder Atômico?

Um garoto acompanha seu pai em uma peregrinação pela Lua no lírico “If I Forget Thee, Oh Earth …” (Se eu esquece-la, Oh Terra…), quando a lembrança do antigo planeta, agora destruído por uma guerra nuclear, e o desejo de retornar para casa, se tornam a razão da humanidade continuar em frente.

Com uma temática parecida com o futuro “Maelstrom II”, porém com desenvolvimento completamente diferente, “Breaking Strain” (filmado com o titulo de “Acidente Espacial” (Trapped in Space)) narra o duelo psicológico e emocional entre os dois tripulantes da nave Star Queen, o capitão Grant e o engenheiro de bordo McNeil, quando um meteoro atinge os reservatórios de oxigênio da nave, deixando com apenas 20 dias de ar, quando ainda faltam trinta dias para chegar em Vênus. As leis da mecânica celeste não permitem quaisquer mudanças no ritmo da viagem… ambos estarão mortos em vinte dias. Mas espere um pouco, o ar durará vinte dias para *dois* homens, mas se houve apenas *um*… A realização desse fato levará tanto o rigido Grant quanto o hedonistico McNeil a pensarem o impensável… e talvez tentarem o inconcebível.

Em “History Lesson” (Lição de História), Clarke narra o desaparecimento de nossa civilização devido a uma futura Era Glacial e as descobertas feitas por arqueólogos venusianos ao examinar talvez o único registro que eles poderiam entender: um rolo de filme… mas qual filme? Nós descobrimos isso ao final, numa tremenda brincadeira com as nossas tentativas de entender nosso próprio passado.

Um conto de space-opera que critica a lógica da Guerra Fria e a tendência humana de não questionar as conseqüências de suas tecnologias, “Superiority” (Superioridade) é o relato do comandante das forças armadas de um império estelar derrotado, explicando que sua derrota não ocorreu devido as virtudes de seu adversário, mas devido a própria superioridade militar de seu império. Como tal paradoxo é possível? O comandante explica muito bem, terminando com um pedido para Corte, que devido ao relato se torna hilário.

Em “Exile of the Eons”, um ditador tenta fugir de seus inimigos usando a técnica da animação suspensa para restabelecer seu império cem anos no futuro. Porém com uma ajudinha da Lei de Murphy e de um filosofo com poderes telepáticos exilados nos últimos dias do Sistema Solar, a justiça tarda… mas não falha, ironizando a ambição e a sede de poder.

Após uma caçada, um homem começa a contar, em “Hide and Seek” (esconde-esconde) um caso que é rir para não chorar: quando o misterioso agente K.15, em uma roupa espacial, escapa da mais poderosa nave do inimigo, ao brincar uma versão planetária de esconde-esconde…

Cientistas de um império estelar que se destruindo encontram um planeta com seres idênticos a eles mesmos, se bem que em um estado extremamente primitivo. As questões que o contato traz, assim como se esses seres que só agora começam a erguer uma civilização, seram capazes de evitar os erros cometidos por seus visitantes dá a “Expedição para a Terra” um toque lírico e melancólico ao conto.

A civilização marciana percebe que os terráqueos começam a desenvolver a tecnologia espacial e o poder atômico. Preocupados que aqueles seres atrasados poderiam ser uma ameaça para sua civilização, os marcianos lançam um ultimato para que a humanidade abandone a pesquisa espacial… só que eles não contavam com uma brecha legal nas Leis da Fisica em “Loophole” (Fenda).

Em “Inheritance” (Herança), descobre-se a razão da confiança de um piloto de teste num fenômeno que lembra muito uma das peças do enredo de “O Fim da Infância”… só que talvez o piloto não tenha entendido muito bem o que sua visão queria dizer…

Durante as primeiras explorações lunares, um geólogo – ou melhor, um selenogista – encontra algo incrível, um artefato claramente artificial, uma pirâmide protegida por um campo de força. Obra de uma antiga civilização selenita ou de alienígenas bem mais antigos e avançados que nós? O descobridor da pirâmide nos conta as suas próprias idéias sobre a função da pirâmide… parece familiar?

Os contos do livro são claramente inspirados na space-opera que dominava o gênero da Ficção Científica na época, só que ao mesmo tempo, mostram um humor e uma critica sutil à sociedade e as tendências da humanidade, raramente vistas na space-opera de então. São contos escritos em uma época que um homem podia temer o amanhã e ao mesmo sonhar com as Estrelas…

A ESTRELA

A Estrela é um conto de ficção científica de Arthur Charles Clarke datado de 1956, que se desenrola depois de uma expedição em visita de uma estrela transformada em supernova milhares de anos antes.

Após observarem o astro percebem um planeta girando a sua volta numa órbita muito distante o que o teria preservado do pior da explosão, e notam os restos de algumas construções artificiais em sua superfície. Ao analisarem de perto estes restos, os pesquisadores concluem que são os últimos vestígios de uma antiga civilização que existia antes da estrela explodir e que, incapazes de escapar do destino fatal, deixaram no último planeta o máximo de informações possíveis a respeito de sua cultura.

Um padre que vai na expedição, se impressiona com a humanidade dos indivíduos daquela civilização e presume que estes seriam seres pacíficos que tiveram um cruel destino, sua compaixão porém se transforma em desespero quando, após vários cálculos, descobre que a estrela em questão era a estrela de Belém, fazendo com que o anunciamento do messias no qual ele acreditava e devotou a vida fosse um ato de genocídio de toda uma espécie inteligente. O conto foi considerado o melhor de 1956.

O SENTINELA
Publicada em 1951 que inspirou 2001 – Uma odisséia no Espaço.

O livro conta a história de uma estrutura piramidal descoberta na Lua que se revela ser uma espécie de radiotransmissor deixado por uma raça alienígena em tempos remotos, a qual havia percebido a possibilidade de se desenvolver na Terra vida inteligente e civilização. Devido à resistência de seus materiais, os terráqueos são obrigados a destruí-la para poderem analisá-la, o que faz com que ela pare de enviar sinais para seus construtores, revelando para estes a presença de mais uma espécie inteligente no universo: os seres humanos (VEJA O CONTO COMPLETO NA POSTAGEM ABAIXO)

A Muralha das Trevas
Escrito em 1949, que narra uma história passada num estranho universo composto de apenas um sol e um planeta.

Este planeta possui uma face tórrida eternamente voltada para o sol e outra, gelada, eternamente na escuridão, na fronteira entre os dois lados, numa estreita faixa de terra circundando o planeta, o clima possibilita a vida de uma civilização onde habita um homem intrigado desde a juventude com o maior mistério de seu mundo: uma imensa muralha negra que circunda todo o planeta impedindo sequer a visão do seu lado escuro, quanto mais o acesso a ele.

Durante toda sua juventude coletou histórias sobre o que existiria além da mesma e porque foi construída, mas encontrava apenas relatos míticos e lendários, como por exemplo, que lá era onde todos iriam após a morte ou onde ficavam antes de nascer, e ainda que fora feito para encerrar algum horror terrível. Já na idade adulta decide por fim junto com um amigo seu arquiteto, construir uma escadaria que levaria até o topo da muralha permitindo ver o que havia atrás dela. Após o término da construção ele chega ao alto da mesma e controlando o medo começa a caminhar em direção a outra borda, no caminho existe uma névoa que impede de ver além e faz com que com o seu avanço o sol atrás dele vá sumindo também até desaparecer de todo, mas quando isso acontece um outro sol idêntico ao que havia sido deixado para trás aparece na sua frente em meio a neblina e conforme vai andando, este novo astro fica mais nítido até aparecer por completo junto com o outro lado, e o protagonista para sua enorme surpresa descobre que é o mesmo lado de onde havia partido, o seu mundo na verdade é uma superfície de um lado só, mesmo sendo de três dimensões, não havendo portanto um outro lado da muralha, que foi construída para proteger da loucura todos os que fossem até aquele ponto, impedindo de verem diretamente um paradoxo espacial.

As Canções da Terra Distante
Conto onde narra o encontro entre os habitantes de uma isolada colônia terrestre no planeta Thalassa e os passageiros de uma imensa nave espacial que aporta no planeta devido a um defeito técnico.

Na história uma jovem de Thalassa apaixona-se de um dos ocupantes da nave, que promovem um choque cultural, porém seu amor é sem esperança por causa do comprometimento do rapaz com uma mulher que jaz congelada dentro da nave a espera do destino final da viagem, 200 anos-luz de distância.

2001: A Space Odyssey, ou 2001: Uma odisséia no espaço
É para muitos críticos, um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos. Foi realizado em 1968 pelo cineasta Stanley Kubrick, natural dos Estados Unidos da América.
Este filme, com uma duração total de 139 minutos e apenas 40 de diálogo, analisa a evolução do Homem, desde os primeiros hominídeos capazes de usar instrumentos, até à era espacial e para além disso. Foi baseado nas obras de Arthur C. Clarke The Sentinel e 2001: A Space Odyssey, esta última escrita simultaneamente com as filmagens.

Uma das personagens principais do filme é o computador inteligente HAL 9000, uma das máquinas mais famosas da História do Cinema. A crítica viu no nome do computador uma referência velada à IBM, pois as letras da sigla precedem em uma casa a denominação da conhecida empresa estado-unidense do sector informático. Kubrick, no entanto, desmentiu essa tese, dizendo que isso não passou de uma coincidência.

Outros destaques do filme são os seus efeitos especiais pioneiros, e a sua trilha sonora, composta entre outras por obras de Richard Strauss (Assim Falou Zaratustra), e Gyorgy Ligeti (Lux Aeterna), sendo este último repetente nos filmes de Kubrick. Uma curiosidade sobre a trilha sonora do filme: Kubrick solicitou ao seu colaborador em Spartacus, Alex North, que compusesse a trilha sonora para a película. Depois de escutar o resultado, o diretor de “2001…” não ficou satisfeito e optou pela música clássica para dar vida às famosas cenas no espaço. North só soube que sua trilha tinha sido jogada no lixo no dia da estréia do filme, e ficou furioso.

Posteriormente foi lançado o livro “Mundos Perdidos de 2001” (The Lost Worlds of 2001), no qual Clarke conta a história do filme, a do livro e outras inéditas. No Brasil foi lançado pela editora Expressão e Cultura em 1972. Em 1984 foi lançada a sequência 2010: O ano que faremos contato, baseado na obra homônima de Arthur C. Clarke, lançada em 1982.

2010 – Uma Odisséia no Espaço II (2010: Odyssey Two)
Também levado às telas. Com o título de 2010 – O Ano em que faremos contato, Na verdade uma continuação do filme e não do livro. O ambiente para a narração é uma missão binacional (soviéticos e americanos) a bordo da nave espacial Cosmonauta Alexei Leonov que parte em direção a Júpiter, a bordo encontra-se o cientista Heywood Floyd. Propõe-e a responder algumas das questões deixadas em aberto em 2001. Tais como: Quais são os objetivo ocultos por trás do monolito? O que aconteceu com a Discovery e sua tripulação? O que aconteceu em especial a David Bowman? Quem, ou o que, era a criança-estrela do final do filme? O climáx ocorre com a tranformação de Júpiter em um mini-sol e o início de um novo tempo para a Humanidade num mundo sem noite.

2061 – Uma Odisséia no Espaço III (2061: Odyssey Three)
Heywood Floyd, agora com 103 anos, volta a cena. Ele parte numa nave em missão turística ao Cometa de Halley, mas acaba indo parar em Europa, o satélite proibido quando uma nave cai alí com seu neto a bordo. O monolito volta a mostrar seu poder a serviço de uma suprema força alienígena que decidiu que a Humanidade terá que, forçosamente, desempenhar um papel fundamental na evolução da Galáxia.

3001 – A Odisséia Final. (3001 – The Final Odissey)
Lançado em 1997, é aquele que pretende encerrar a saga iniciada em 2001 e dar as respostas finais. Principia com a descoberta do corpo do astronauta Frank Poole, que havia sido abandonado no espaço por uma manobra do computador HAL-9000. Poole é ressuscitado com as técnicas da época, onde a rigor a morte não existe mais.

O fim da Infância (Childhood’s End – 1953)
A chegada de seres alienígidas na Terra é seguida com o próximo passo na evolução humana em direção a “inteligência cósmica”. Esta raça alienígena tem uma incrível semelhança com demônios (vermelhos, chifres, caudas em seta…) e vem para anunciar o fim da infância para a espécie humana.

O Outro Lado do Céu (The other side of the sky – 1958)
Coletânea de contos onde estão incluídos dois dos maiores clássicos em matéria de contos de ficção científica: Os Nove Trilhões de Nomes de Deus e A Estrela.

Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust – 1961)
Selene é uma nave de turismo que, devido a um acidente na poeira lunar, submerge no Mar da Sede. Em seu interior vinte pessoas lutam para sobreviver à custa de todas as possiblidades.

Sobre o Tempo e as Estrelas (Of Time and Stars – 1972)
Coletânea de contos que reune contos publicados entre 1949 e 1962.

Encontro com Rama (Rendez-vous with Rama – 1973)
No final do século XXI após uma tragédia ocorrida com a queda de um meteoro, a Terra cria um sistema de proteção que em 2130 a Terra, detecta uma nave espacial alienígena de 50 quilômetros de extensão penetrando no sistema solar e aproximando-se de nosso planeta. Uma nave é enviada com missão de interceptar e explorar a gigantesca nave e descobrir quais são os desígnios por trás de sua aparição. Serão hostis invasores ou arautos de uma nova era para a espécie humana? Mistério e beleza se fundem neste maravilhoso livro que nos leva a refletir sobre a importância do homem e da espécie humana como um todo na ordem do universo. Um clássico vencedor dos prêmios Hugo e Nebula.

O Enigma de Rama (Rama II)

Continuação de Encontro com Rama, narra as aventuras de uma nova expedição destinada a descobrir qual os propósitos ocultos atrás da segunda aparição de Rama.

O Jardim de Rama (The Garden of Rama)
Dando seguimento a saga de Rama, o livro narra a viagem dos tripulantes da segunda expedição (O Enigma de Rama) que são deixados para trás quando o resto da tripulação abandona Rama às pressas. Parte dos propósitos de Rama é finalmente revelado.

A Revelação de Rama
Último livro da série, aqui finalmente os propósitos dos construtores de Rama é decifrado.

O berço dos Super-Humanos (Cradle – 1988)
Escrito a duas mãos por Arthur C. Clarke e Gentry Lee, narra a história de três aventureiros em busca de um míssil secreto desaparecido encontram uma gruta submarina vigiada por baleias que parecem drogadas. Inicia-se assim uma aventura que o conduzirá pelos mistérios de um planeta com dois sóis, três luas, fantásticas criações e uma assombrosa revelação sobre o destino reservado para a humanidade.

Terra Imperial (Imperial Earth)
A narrativa se passa em Titã uma das luas de Saturno e colônia da terra e conta a história de um homem nascido na era interplanetária. Sua primeira peculiaridade é ter nascido sob um novo processo, já que não teve mãe, apenas pai. Já homem retorna à Terra. A ação de passa no século XXIII e decorre em ambiente cheio de enigmas e mistérios.

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars)
Passaram-se um bilhão de anos, o homem alcançou as estrelas, constituíu um império galático, mas vieram os invasores e o homem foi obrigado a abandonar todas as suas conquistas e refugiar no seu planeta de origem, e assim o homem volta e passa a habitar na última cidade do mundo, Diaspar. Uma sociedade fechada e imutável, com um bilhão de anos.

O Vento Solar
Coletânea de contos. Inclui o premiado conto Encontro com Medusa.
O Terceiro Planeta
Coletânea de artigos e crônicas, que se inicia com um conto bastante interessante e elucidativo quanto aos parâmetros que são adotados pela ciência, intitulado Relatório Sobre o Planeta Três, onde tal documento é encontrado numa expedição arqueológica a Marte, revelando as razões para a não existência de vida na Terra.
As fontes do paraíso
Considerado pelo próprio Arthur Clarke como seu melhor romance.

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