Arquivo da categoria: Folclore Brasileiro

Contos do Folclore Brasileiro (A Morte de Dom Ratinho)

Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 O passarinho depenou-se
 O cavalo perdeu o pelo
 O boi perdeu o chifre
 O rio secou a água
 O menino quebrou o pote
 E o mestre passou-lhe bolos
 O que tendes minha porta
 Perguntou a laranjeira
 Que estais abrindo e fechando?
 Pois não, minha laranjeira:
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou…
 E responde a laranjeira:
 E eu também de sentimento
 Deixo cair minhas folhas
 Vem o passarinho e pergunta:
 O que tendes, laranjeira
 Que estais tão desfolhada?
 Pois não, meu passarinho
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 E eu assim me desfolhei
 Respondeu o passarinho:
 E eu também de sentimento
 Deixarei as minhas penas
 Vem o cavalo e perguntou:
 O que tendes laranjeira
 Qu’inda ontem tão folhada
 E hoje tão desfolhada?
 E por que não, meu cavalo?
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 E o passarinho depenou-se
 Responde agora o cavalo:
 E eu também de sentimento
 Deixo cair o meu pelo
 Vem o boi e pergunta:
 O que tendes laranjeira
 Que estais tão desfolhada?
 E por que não, meu boi
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 E o passarinho depenou-se
 E o cavalo perdeu o pelo
 Respondeu então o boi:
 E eu também de sentimento
 Deixo cair o meu chifre
 Passa o rio e pergunta:
 O que tendes laranjeira
 Que estais tão desfolhada?
 E ela responde ao rio:
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 O passarinho depenou-se
 O cavalo perdeu o pelo
 E o boi perdeu o chifre
 Respondeu então o rio:
 E eu também de sentimento
 Secarei as minhas águas
 Vem o menino buscar água
 E não a vendo isto pergunta:
 O que tendes belo rio
 Que ainda ontem tão cheio
 E hoje assim tão sequinho?
 E o rio respondeu:
 Por que não, caro menino?
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 O passarinho depenou-se
 O cavalo perdeu o pelo
 O boi perdeu o chifre
 E o rio secou as águas
 Responde então o menino:
 E eu também de sentimento
 O meno pote vou quebrar
 Chega o menino à escola
 E não levando o pote d’água
 Por ele pergunta o mestre
 E o menino assim responde:
 Dom Ratinho morreu
 Dona Carochinha chorou
 A porta abriu e fechou
 A laranjeira desfolhou-se
 O passarinho depenou-se
 O cavalo perdeu o pelo
 O boi perdeu o chifre
 E o rio secou as águas
 E eu quebrei o meu pote
 Então respondeu o mestre
 Cheio de raiva e rancor:
 E eu também de sentimento
 Lasco-lhe as mãos de bolos

Fonte:
Costa, F. A. Pereira da. Folk-lore pernambucano. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974.
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Contos do Folclore Brasileiro (A Bota)

 Meus senhores, eu sou a bota
 Meus senhores, eu sou a bota
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou a porta
 Meus senhores, eu sou a porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou a corda
 Meus senhores, eu sou a corda
 Que marre a bota e botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o sebo
 Meus senhores, eu sou o sebo
 Que passe na corda, que marre a bota
 Que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o rato
 Meus senhores, eu sou o rato
 Que roeu o sebo, que passe na corda
 Que marre a bota, que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o gato
 Meus senhores, eu sou o gato
 Que comeu o rato, que roeu o sebo
 Que passe na corda, que marre a bota
 Que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o cachorro
 Meus senhores, eu sou o cachorro
 Que comeu o gato, que matou o rato
 Que roeu o sebo, que passe na corda
 Que marre a bota, que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o pau
 Meus senhores, eu sou o pau
 Que matou o cachorro, que comeu o gato
 Que matou o rato, que roeu o sebo
 Que passe na corda, que marre a bota
 Que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o facão
 Meus senhores, eu sou o facão
 Que cortô o pau, que mata o cachorro
 Que comeu o gato, que matou o rato
 Que roeu o sebo, que passe na corda
 Que marre a bota, que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou a mulher
 Meus senhores, eu sou a mulher
 Que pega o facão, que cortô o pau
 Que matou o cachorro, que comeu o gato
 Que matou o rato, que roeu o sebo
 Que passe na corda, que marre a bota
 Que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

 Meus senhores, eu sou o homem
 Meus senhores, eu sou o homem
 Que vou dar na mulher, que pegou o facão
 Que corto o pau, que mato o cachorro
 Que comeu o gato, que matou o rato
 Que roeu o sebo, que passe na corda
 Que marre a bota, que botei na porta
 Que leva a vidinha fazendo patota
 Que leva a vidinha fazendo patota

Fonte:
Lima, Rossini Tavares de. Abecê do folclore. 4ª ed. São Paulo, Ricordi, sd.

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Contos do Folclore Brasileiro (A Casa que Pedro Fez)

Esta é a casa que Pedro fez.

 Este é o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Esta é a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Esta é a moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

 Este é o fazendeiro que espalhou o milho para o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Contos do Folclore Brasileiro (A Formiguinha)

 Diz que era um dia que era uma formiguinha, foi comer pela manhã. Quando ela estava comendo, a neve pegou o pé. Ela disse:

 — Neve, tu é tão valente
 Que o meu pé prende?

 A neve disse:

 — Mais valente é o sol
 Que me derrete

 Ela foi à procura do sol:

 — Ó, sol, tu é tão valente
 Que derrete a neve
 Que o meu pé prende?

 O sol disse:

 — Mais valente é a parede
 Que me encobre

 Ela foi para a parede:

 — Ô, parede, tu é tão valente
 Que encobre o sol
 O sol derrete a neve
 E a neve o meu pé prende?

 A parede disse:

 — Mais valente é o rato
 Que me rói

 Ela foi à procura do rato:

 — Ô, rato, tu é tão valente
 Que rói a parede
 A parede encobre o sol
 O sol derrete a neve
 E a neve o meu pé prende?

 O rato disse:

 — Mais valente é o gato
 Que me come

 A formiguinha disse:

 — Ô gato, tu é tão valente
 Que come o rato
 O rato rói a parede
 A parede encobre o sol
 O sol derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 Ele disse:

 — Mais valente é a cobra
 Que me morde

 — Ô, cobra, tu é tão valente
 Que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 — Mais valente é o pau
 Que me mata

 — Ô, pau, tu é tão valente
 Que mata a cobra
 A cobra que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 — Mais valente é o fogo
 Que me queima

 — Ô, fogo, tu é tão valente
 Que queima o pau
 O pau que mata a cobra
 A cobra que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 A neve que o meu pé prende

 — Mais valente é a água
 Que me apaga

 — Ô, água, tu é tão valente
 Que apaga o fogo
 O fogo queima o pau
 O pau que mata a cobra
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 A neve que o meu pé prende?

 — Mais valente é o boi
 Que me bebe

 — Ô, boi, tu é tão valente
 Que bebe a água
 A água apaga o fogo
 O fogo que queima o pau
 O pau que mata a cobra
 A cobra que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 — Mais valente é o homem
 Que me mata

 — Ô, homem, tu é tão valente
 Que mata o boi
 O boi que bebe a água
 A água que apaga o fogo
 O fogo que queima o pau
 O pau que mata a cobra
 A cobra que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 — Mais valente é Deus
 Que me criou

 — Ô, Deus, vós é tão valente
 Que mata o homem
 O homem que mata o boi
 O boi que bebe a água
 A água que apaga o fogo
 O fogo que queima o pau
 O pau que mata a cobra
 A cobra que morde o gato
 O gato que come o rato
 O rato que rói a parede
 A parede que encobre o sol
 O sol que derrete a neve
 E a neve que o meu pé prende?

 Ele disse:

 — Ô xente!… que desaforo você vir aqui…

 Aí Deus pegou, deu um cocorote — pá! — na cabeça da formiguinha… se retorceu toda, quando caiu em baixo… esses formigueiros todos que têm pelo mundo foi gerado dessa formiguinha. 

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Contos do Folclore Brasileiro (O Menino e a Vó Gulosa)

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

 Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

 — Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

 — Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

 O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

 O menino recomeçou a choradeira:

 — Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

 O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

 — Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

 — Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

 Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

 Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

 — Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

 — Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

 O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

 Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

 — Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

 — Oh! Menino! Me empresta essa corda.

 O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

 Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

 O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

 — Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

 — Oh! Menino! Me dê o seu boi!

 E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

 — Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

 A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

 — O boi foi pouco e vou comer você!

 E comeu o menino.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Contos do Folclore Brasileiro (O Macaco e o Confeito)

 Ilustração: Macé
Macaco guariba foi lavar a casa e achou um vintém. Comprou um vintém de confeito, subiu no pau, e lá ficou comendo. Mas macaco não tem modos, pula daqui, pula dali, acabou derrubando o confeitinho dentro de um oco da árvore. Enfiou a mão, pelejou para tirar, não conseguiu, foi direto dali para o ferreiro e pediu que lhe fizesse um machado, para tirar o confeito do buraco.

 — Sem dinheiro não faço machado nenhum.

 — Faz — gritou o macaco — Vou contar ao rei.

 Foi. Entrou no palácio, dando pulos e fazendo micagens e tropelias.

 — Senhor rei — pediu —, mande o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau para tirar o confeito que caiu no oco.

 O rei, nem como coisa. O macaco foi falar com a rainha:

 — Senhora rainha, mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeito que caiu no oco.

 — Mas é petulante esse macaco — disse a rainha, e não fez caso dele.

 O macaco foi falar com o rato.

 — Rato, roa a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

 — Macaco mais bobo! — comentou o rato. Estava comendo queijo e nem se incomodou.

 O macaco foi falar com o gato.

 — Gato, mande o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

 — Que besteira! — disse o gato, e nem se mexeu.

 O macaco foi falar com o cachorro.

 — Cachorro, mande o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 O cachorro deu um latido de impaciência e nem se incomodou.

 O macaco foi falar com o cacete.

 — Cacete, mande o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeito que caiu no oco.

 — Ah! Ah! — fez o cacete.

 O macaco foi falar com o fogo.

 — Fogo, mande o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Saia daqui — disse o fogo.

 — O macaco foi falar com a água.

 — Água, mande o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Bicho impertinente! — xingou a água.

 O macaco foi falar com o boi.

 — Boi, mande a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 — Suma da minha vista — disse o boi, e continuou ruminando o seu capim.

 O macaco foi falar com o homem.

 — Homem, mande o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 O homem resmungou:

 — Hum!

 O macaco foi falar com a morte. Lá estava ela no seu trono de ossos, pavorosa.

 — Morte, mande o homem mandar o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

 A morte, que não estava de bom humor, pegou a foice e avançou no homem.

 — Não me mate!

 — Então abata o boi!

 O homem foi pra cima do boi.

 — Não me abata, homem!

 — Então beba a água.

 — Não me beba — disse a água.

 — Então apague o fogo.

 — Não me apague — disse o fogo.

 — Então queime o cacete.

 — Não me queime — disse o cacete.

 — Então bata no cachorro.

 — Não me bata — uivou o cachorro.

 — Então morda o gato.

 — Não me morda — miou o gato.

 — Então morda o rato.

 — Não me morda — guinchou o rato.

 — Então roa a roupa da rainha.

 O ratinho subiu no guarda-roupa da rainha e foi no vestido mais bonito: roquerroquerroque…

 A rainha gritou:

 — Não roa a minha roupa!

 — Então mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado para o macaco cortar o pau e tirar o confeitinho que caiu no oco.

 A rainha mandou o rei, o rei mandou o ferreiro, o ferreiro fez o machado. O macaco derrubou a árvore, abriu o tronco, achou o confeitinho e foi embora dando pulos e fazendo trejeitos.

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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Conto do Folclore Brasileiro (História da Coca)

Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparou e comeu.

 Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

 Minha vó, me dê minha coca
 Coca que o mato me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.

 O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

 Parede, me dê meu angu
 Angu que minha vó me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.

 O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.

 Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

 Lavadeira, me dê meu sabão
 Sabão que a parede me deu
 Parede comeu meu angu
 Angu que minha vó me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A lavdeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.

 Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.

 O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.

 No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

 Cesteiro me dê minha navalha
 Navalha que lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto. 

 Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?

 No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

 Padeiro me dê meu cesto
 Cesto que o cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.

 Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.

 Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

 Moça me dê meu pão
 Pão que o padeiro me deu
 O padeiro vendeu meu cesto
 Cesto que cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

 A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.

 O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

 De uma coca fiz angu
 De angu fiz sabão
 De sabão fiz uma navalha
 Duma navalha fiz um cesto
 De um cesto fiz um pão
 De um pão fiz uma viola
 Dinguelingue que eu vou para Angola

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.

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