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Maria Rosa Moreira Lima (A Lenda dos Tatus Brancos)

A lenda dos tatus brancos, na opinião de Afonso Arinos, pertence ao folclore paulista e teve início da seguinte maneira:

Alguns bandeirantes audaciosos, buscando novos descobrimentos acompanhavam o traçado do rio Tietê e depois de longa jornada resolveram adentrar a mata bravia. Caminharam dias seguidos quando lhes veio a idéia de procurar ouro e pedras preciosas. Dirigiram-se, então, para as terras das Minas Gerais. Desta maneira chegaram a um local desconhecido, onde os campos ficavam perto de cavernas e furnas imensas, escuras, tenebrosas. Apesar do local agreste, as tendas foram armadas para repouso merecido. Acocorados em torno do lume, saboreando alguma bebida, os viajantes escutavam as mais curiosas e absurdas histórias contadas pelos caboclos nativos embora, ao mesmo tempo, insistissem para que levantassem acampamento o quanto antes pelo fato daquela região ser dominada por uma espécie de índios conhecidos como tatus brancos, habitantes das cavernas adjacentes e, enxergando tão bem dentro da escuridão como se tivessem olhos de coruja. Além desta qualidade excepcional, havia uma outra e esta verdadeiramente de apavorar pois as citadas criaturas davam um valor inestimável à carne humana, preferindo-a mesmo a qualquer caça ao alcance de suas flechas. Além da predileção absurda, tinham um faro especial sentiam o cheiro do alimento favorito, logo se aprestavam para caçá-lo.

O chefe paulista, sendo o mais interessado nos relatos concernentes à sanha antropófaga dos vampiros da tribo dos tatus brancos, prometeu a si mesmo desvendar o mistério. Daí não querer escutar os conselhos do mais experimentado caboclo, cujas palavras eram endossadas pelos outros guias também confirmando casos de pessoas sumidas, provavelmente levadas para as vastidões sombrias e jamais tornaram a aparecer. Mesmo assim, o moço insistia em ficar no local, dizendo somente partir depois de certificar-se quanto à veracidade das histórias contadas por aqueles homens que, embora reconhecidamente valentes, manifestavam grande pavor ao ouvir o menor ruído. Audacioso, o chefe da expedição sozinho começou investigando e, para isso penetrava nas furnas mais tenebrosas, examinando rastros, atento ao mais insignificante rumor.

Certa noite de escuridão cerrada, a tropa descansava numa clareira. O silêncio era profundo, perturbado apenas pelo bater de asas de algum pássaro retardatário buscando o aconchego do ninho. Pouco a pouco os homens foram percebendo um clamor estranho. Eram muitas vozes juntas, inicialmente confusas pela distância mas, aproximando-se rapidamente, enquanto um tropel diferente como se incalculável quantidade de animais pequeninos corressem desenfreados pelas quebradas em direção ao acampamento e, suas vozes, foram discernidas à medida que se aproximavam. Os componentes do grupo paulista puseram-se de sobreaviso com as armas engatilhadas. Súbito, uma horda de pigmeus, saindo da escuridão, iniciou o ataque. O imprevisto do acontecimento impossibilitou uma defensiva eficiente.

Mesmo assim a luta foi renhida mas rápida. Era a força dos homens grandes contra a astúcia e agilidade assombrosa dos assaltantes. Os pequenos seres arrastavam para as trevas os corpos dilacerados e sem vida dos vencidos inclusive os agonizantes e, nem escapou ao massacre o chefe da escolta. Este, ferido levemente, em companhia dos subalternos foi levado para uma das cavernas dos agressores. Mas aconteceu o seguinte: A princesa da tribo já vira o moço paulista e por ele se apaixonara, propiciando-lhe este fato, o direito de dispor da vida do prisioneiro.

No âmago da caverna o valente bandeirante passa algum tempo desacordado e quando recupera os sentidos vê, junto de si, um pequeno vulto de mulher. Quando seus olhos vão se acostumando às trevas nota e com horror o restante dos companheiros devorados pela horda sinistra que, comemorando a vitória dançavam satisfeitos dando por terminado o banquete macabro. Naquele antro escuro, o detido permaneceu por muito tempo sempre vigiado pela jovem apaixonada. Certa noite a malta assassina parte para os cerrados buscando alimento humano. Aproveitando a oportunidade, o moço deixa-se envolver pela turba apressada dos pigmeus e, sem ser notado, consegue sair também das cavernas mas, sempre vigiado pela amorosa companheira. Enfraquecido, não consegue chegar a saída da gruta e, exausto pela falta de alimentação, sentindo-se desfalecer, faz um sinal para descansar. Deitam-se no chão. Ele apesar de tudo, alimentando a esperança de alcançar a liberdade, finge adormecer, enquanto a jovem a seu lado, é, na verdade dominada pelo sono. Disfarçadamente o prisioneiro atento, aguarda o nascer do sol para ver onde se encontrava e quando os clarões da madrugada iluminaram a terra, levanta-se com muito cuidado e tenta fugir. No mesmo instante a moça acorda e, mal desperta, atordoada com a claridade, num esforço tenta arrastar o homem para o negrume da caverna. E naquele momento de aflição ele conseguiu observá-la. Era uma pequenina mulher e como os seus irmãos, mal atingindo a metade da altura de um homem de baixa estatura, pele clara de quem nunca sentiu os raios solares, os cabelos longos de um louro sem vida. Quanto aos olhos eram de um azul esbranquiçado e ela gemendo procurava conservá-los fechados ou protegê-los da claridade com uma das mãos, enquanto com a outra buscava o companheiro, desta maneira caminhando às tontas como se fosse inteiramente cega. O moço desvencilhando-se da criatura que fazia ingentes esforços para detê-lo, foge em desabalada carreira, daquele local maldito dominado pela tribo dos tatus brancos, considerados os mais ferozes canibais que infestavam aquela região do ouro.

Fonte
LIMA, Maria Rosa Moreira. A lenda dos tatus brancos. Diário de São Paulo, São Paulo, 09 de agosto de 1975.

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Folclore de São Paulo (A Mulher da Meia Noite)

A Mulher da Meia Noite, também Dama de Vermelho, Dama de Branco, é um mito universal. Ocorre nas Américas e em toda Europa.

É uma aparição, na forma de uma bela mulher, normalmente vestida de vermelho, mas pode ser também de branco. Alguns dizem, que é uma alma penada que não sabe que já morreu; outros afirmam que é o fantasma de uma jovem assassinada que desde então vaga sem rumo.

Na verdade ela não aparece à meia-noite, e sim, desaparece nessa hora. Muito bela, parece uma jovem normal. Gosta de se aproximar de homens solitários nas mesas de bares noturnos. Senta com eles, e logo os convida para que a leve para casa.

Encantado com tamanha beleza, todos topam na hora. Entretidos, logo chegam ao destino. Parando ao lado de um muro alto, ela então diz ao acompanhante: “É aqui que eu moro…”. É nesse momento que a pessoa se dá conta que está ao lado de um cemitério, e antes que diga alguma coisa, ela já desapareceu. Nessa hora, o sino da igreja anuncia que é meia noite.

Outras vezes, ela surge nas estradas desertas, pedindo carona. Então pede ao motorista que a acompanhe até sua casa. E, mais uma vez, a pessoa só percebe que está diante do cemitério, quando ela com sua voz suave e encantadora diz: “É aqui que eu moro, não quer entrar comigo?”. Gelado, da cabeça aos pés, a única coisa que a pessoa vê, é que ela acabou de sumir diante dos seus olhos, à meia-noite em ponto.

Notas complementares:

Nomes comuns: Moça de Branco, Noiva de Branco, Mulher de Branco, Fantasma da Estrada, Sapatos Vermelhos, Mulher de Duas Cores (Minas e São Paulo), Alamoa (Fernando de Noronha), La Llorona (México), Paquita Munhoz (Região dos Andes), La Sayona (Venezuela), etc.

Origem Provável: É um Mito universal. Na América Hispânica, no tempo da colonização Espanhola já era conhecido. Existem versões semelhantes, Na América do Norte e Europa. Em São Paulo e Minas, há relatos que mencionam uma aparição que veste sempre roupas de duas cores. Branco com Preto, Vermelho com Azul, Azul com Amarelo, etc. Em Fernando de Noronha é uma Loura que, depois de atrair suas vítimas, diante delas, se transforma em um horrível esqueleto.

No México há uma versão local, La Llorona, que é uma mulher que afogou seus dois filhos e depois se suicidou. Então perambula chorando, ora pelas beiras de rios em busca deles, ora pelas estradas pedindo carona com um bebê no colo. Quando entra no carro, dá para ver que é uma assombração com o seu rosto de caveira.

Para muitos trata-se de uma noiva, que na noite do seu casamento, quando se dirigia à igreja, foi atropelada. Era uma noite de sexta-feira. Então nas noites de sexta, ela volta à estrada vestida de noiva e pedindo carona. Já dentro da cabine do carro, ela se dissolve, vezes como cera derretida, vezes como fumaça.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

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