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Folclore dos Bororós* (Lenda de Catira – a índia amaldiçoada)

Foi há muitos anos atrás…

No tempo em que a mamaurama se cobria de flores e os japins fabricavam seus ninhos feitos de fibras e cipós, finos, nas grimpas da maçaranduba gigantesca…

Ele era lindo, o mais lindo de todos os jovens de sua tribo.

Era forte e valente. Ninguém com mais destreza manejava a zarabatana temível, cuja flexa certeira cortava em meio o vôo da aracuã.

Somente ele sabia o segredo que lhe ensinava brandir o tacape pesado e duríssimo, desferir a flecha sibilante e traiçoeira.. .

Nunca o inimigo branco pisou a terra de seu pai que não levasse no corpo uma picada da sua uamiri. Nunca foi vencido; todos o temiam.

E o pai já velhinho sentia-se orgulhoso do filho que devia suceder-lhe na chefia da tribo, depois que o cunaua-raú gritasse pela quarta vez no tronco da tanari.

Uma tarde, o jovem bororó aprontou a sua veloz e pequena igara e pôs-se a “descer o riacho que serpeava um pouco distante de sua oca.

A tarde era bela, e o astro príncipe do universo, numa grande e triste apoteose, ia aos poucos inundando a terra de luz e de mistério.

Uma brisa soprava ciciante e fresca pela tarde a dentro e a igara pequenina, célere, ia cortando as águas ondulantes do riacho.. .
catira india do riacho

Era muito tarde quando ele voltou.

Já o lírio da noite havia fechado as suas pétalas rosadas e macias.

Sentou-se no tronco pesado de abiurana, à frente da cabana, e ficou ali durante quase toda a noite, silencioso, taciturno, olhando as estrelas piscolejar no azul claro, lavado. ..

A mãe bororó, vendo a tristeza imensa que invadia a alma perguntou-lhe:

— Filho, que tens? andas doente? O jovem bororó estremeceu.

Ergueu o olhar sombrio para a mãe e, quase de joelhos, meigo como uma criança, assim lhe falou:

— A igara, mãe, levada pela correnteza ia descendo… descendo… quando de repente ouvi, longinquamente, uma voz maviosa que cantava acompanhada por uma música dolente, tocada talvez por algum instrumento misterioso…

E eu não pude resistir… mãe… toquei a igara para lá e a vi, mãe, sentada numa grande pedra, os cabelos negros e compridos esvoaçando ao vento, e os olhos azuis como a flor da mancava a cantar, brincando com as plumas macias da enduape, uma mulher, mãe… bonita… como eu nunca tinha visto assim… Ela abriu os braços para mim, mãe, e me chamou, mas…, quando eu já estava bem próximo, as águas começaram a ferver… parei um pouco, ela olhou para mim sorriu e atirou-se na água e desapareceu …

A mãe bororó, que ouvia em silêncio a narração do filho, ergueu os olhos úmidos de pranto e falou-lhe:

— Filho, mulher bela que viste lá é Catira, ela é da tua raça, corre nas suas veias o sangue dos bororós. Ela era a mulher mais linda da tribo de seu avô. Mas um dia entregou-se a um homem branco, e o pajé achou que ela devia ser lançada ao rio para pagar a sua grande traição. As águas do riacho, porém, não quiseram receber seu corpo criminoso; jogaram-na sobre aquela pedra, onde ficou penando até hoje. Ela canta assim para atrair os bororós incautos ao lugar onde se encontra; a primeira vez foge como fugiu de ti, mas na segunda, fica ali sentada até ver as águas revoltadas, que guardam a sua caverna, tragar o corpo daquele que se atreveu a chegar até ali. É assim, meu filho, que ela se vinga dos bororós… Não volte nunca lá, meu filho nem tão pouco olhe para os olhos dela para que não sejas dominado pelo seu brilho traiçoeiro…

A mãe bororó calou-se, beijou a testa tostada do filho e retirou-se.

Era tarde já, atrás da serrania negrescente, com suas franjas de ouro, Sepi desaparecia.

Sentado no tronco pesado de abiurana, a fronte pensativa voltada para o chão, assim Sepi, o jovem bororó, amanheceu…

Mas nesse mesmo dia, ao anoitecer aprontou a sua veloz e pequena igara — esquecido da palavra de sua mãe

— rasgou as águas ondulantes — o apecuitá feito de pau vermelho — e começou a descer o riacho vagarosamente.

E foi descendo… descendo… até sumir-se na curva.

Hoje os velhos bororós dizem aos filhos a lenda de Catira a índia amaldiçoada.

— Foi Sepi o último que ali ficou…

Depois as águas se tornaram tranquilas.. . a pedra desapareceu … e nunca mais ninguém ouviu nem ninguém viu, sentada ali aquela mulher de cabelos negros e compridos esvoaçando ao vento, e de olhos azuis como a flor da mancava, a cantar… a cantar…

E os velhos bororós terminam:

E dizem que ela morreu de remorso…
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* Sobre os Bororós

Os bororos, são uma tribo indígena que habita o estado do Mato Grosso, no Brasil. Falam a língua bororo, autodenominada boe wadáru, que pertence ao tronco linguístico macro-jê2 .

Etimologia

O nome “bororo” é um nome dado pelo homem branco. Nome esse surgido quando os exploradores perguntaram qual o nome da tribo e o indígena teria entendido o nome do local onde estavam, e eles estavam no bororó, que, para a língua bororo, significa “pátio da aldeia”3 .
Características gerais

Os bororos habitam a região do planalto central de Mato Grosso e estão distribuídos em cinco terras indígenas demarcadas: Jarudore, Meruri, Tadarimana, Tereza Cristina e Perigara. Sua população atualmente é de cerca de 2 000 indivíduos, que são tradicionalmente caçadores e coletores, porém que adaptaram-se à agricultura, da qual extraem sua subsistência. Destacam-se pela confecção de seus artesanatos de plumagem (cocar e braçadeiras em pena) e também pela pintura corporal em argila.
História e distribuição

Os antigos bororos distribuíam-se por extensa região compreendida entre a Bolívia, a oeste; o rio Araguaia, o rio das Mortes, ao norte; e o rio Taquari, ao sul.

Os bororos ocidentais, extintos no fim do século passado, viviam na margem leste do rio Paraguai, onde os jesuítas espanhóis fundaram missões. Muito amigáveis, serviam de guia aos brancos, trabalhavam nas fazendas da região e eram aliados dos bandeirantes. Desapareceram como povo tanto pelas moléstias contraídas quanto pelos casamentos com não-índios.

Os bororos orientais habitavam tradicionalmente vasto território que ia da Bolívia, a oeste, ao rio Araguaia, a leste e do rio das Mortes, ao norte, ao rio Taquari, ao sul. Ao contrário dos bororos ocidentais, eram citados nos relatórios dos presidentes da província de Cuiabá como nômades bravios e indomáveis, que dificultavam a colonização. Foram organizadas várias expedições de extermínio. Estimados na época em dez mil índios, os bororos sofreram várias guerras e epidemias, com uma história de muita resistência ao avanço das frentes e expansão de territórios, até sua pacificação, no fim do século XIX, quando foram reunidos nas colônias militares de Teresa Cristina e Isabel e estimados pelas autoridades em cinco mil pessoas. Entregues aos salesianos para catequese, em 1910, os bororos somavam dois mil índios. Em 1990, com uma população de aproximadamente 930 pessoas, vivem no estado do Mato Grosso. A sua relação com pessoas não-indígenas é de extremo desprezo,pois eles estão sempre querendo as terras indígenas das duas partes saem mortes.
Organização social

A tribo obedece a uma organização social rígida. A aldeia é dividida em duas partes – exare e tugaregue – que, por suavez, se subdividem em clãs com deveres muito bem definidos. Eles reconhecem a liderança de dois chefes hereditários que sempre pertencem à metade exare, conforme determinam seus mitos. Dentro de cada clã, há uma comunhão de bens culturais (nomes, cantos, pinturas, adornos, enfeites, seres da natureza) que só podem ser usados pelos membros desse determinado clã, a não ser que este direito seja participado a outras pessoas em “pagamento” por favores recebidos.

Praticam diversos rituais, como:

    a “Festa do Milho”, para celebrar a colheita do cereal, que é um alimento importante na nutrição dos índios;
    a “Perfuração de Orelha e Lábios”;
    o “Ritual do Funeral”, uma celebração sagrada para todos que se consideram índios.

O funeral dos bororos é o que mais chama atenção pela complexidade, podendo durar até dois meses. A morte de alguém pode provocar mudanças ou reforçar as alianças.
 

Fontes:
Seleção de Regina Lacerda. Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Ed. Iracema.
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Lendas Indígenas

O guaraná para o homem civilizado significa apenas uma simples bebida. Muitos o chamam até de boke-moko. Mas para os índios do vale dos rios Andirá e Maués (AM), tinha valor de um precioso tesouro. Servia de alimento e remédio. Como o bago do guaraná é parecido com o olho humano, surgiu a lenda que correu de boca em boca por toda a região amazônica.

Outrora, vivia na selva um casal de índios muito estimado pela tribo. Apesar da felicidade que o unia, faltava-lhe um filho para ser completamente feliz. Tupã (Deus supremo) com pena, deu ao casal um menino que logo passou a ser adorado pelos indígenas.

Um dia, Jurupari, o invejoso gênio do mal, ao ver o indiozinho brincando com os animais, ficou furioso, transformando-se numa grande cobra. Os animais, quando o notaram, fugiram apavorados. O garoto continuou na floresta sem perceber a presença do invisível Jurupari que mordeu o menino, matando-o imediatamente.

A tribo ficou aos prantos. De repente, um raio interrompeu as lágrimas. Em seguida, fez-se silêncio. Só a mãe do pequeno entendera o sinal:

— Tupã deseja que plantemos os olhos do meu filho. Deles brotarão uma planta milagrosa que dará muitos frutos e nos farão felizes para sempre!

Os índios enterraram os olhos da criança. Pouco depois, surgia o guaraná. Guará, na língua indígena significa o que tem vida, gente; e ná, igual, semelhante. A palavra guaraná, assim traduzida, quer dizer bagos iguais a olho de gente.

Fenômenos da natureza sempre atraíram a atenção dos indígenas que procuraram dar, a seu modo, as mais diversas interpretações, surgindo, assim, inúmeras lendas.

Os índios Cauaiua-Parintins, do Vale do Rio Madeira, contam uma história ingênua sobre o aparecimento da noite, mostrando o alto grau imaginativo do silvícola brasileiro.

Um velho querendo dormir perguntou à coruja:

— Como é que a gente dorme?

A coruja respondeu-lhe que só ela conhecia a noite e se ele a quisesse teria de arranjar-lhe milho preto.

O velho trouxe o milho preto, colocou-o numa cabaça e levou à coruja.

Esta, ao recebê-la, tratou de tapar a boca da vasilha com barro e cantou:

Nós andamos a noite toda, caçando
E de dia dormimos
Tu já viste coruja de dia?
Mas tu dormirás durante a noite
Acordarás de madrugada
E trabalharás todo o dia.

Quando acabou de cantar a cabaça partiu e a noite apareceu.

Cinco Cauaiua-Parintins foram viajar por terras desconhecidas. Iam munidos de arco e flechas, um atrás do outro.

Ao chegarem à beira de um lago, pararam para descansar. Um deles resolveu separar-se do grupo para ver como era a noite. Armou a rede e dormiu profundamente. No dia seguinte, os companheiros foram chamá-lo e lá estava ele morto no fundo da rede.

Os companheiros falaram:

— Bem feito. E continuaram a viagem.

Mais adiante viram uma árvore alta e ouviram vozes de mulheres banhando-se no porto e o toque-toque de pica-pau, mordendo o tronco de uma árvore.

Um dos companheiros disse:

— Ninguém deve espiar as mulheres e os pica-paus. Vamos de cabeça baixa, em fila.

Um deles quis espiar o pica-pau e as mulheres. Os outros continuaram andando. De repente, a árvore grande caiu em cima do curioso.

Os companheiros ouviram os gritos, entendendo o que acontecera.

— Bem feito, comentaram.

E continuaram a viagem. Mais à frente, ouviram o inhambu cantar. Um deles falou:

— Ninguém deve espiar o inhambu cantar.

O homem foi espiar e acabou ficando doido. Andava desnorteado de um lado para o outro até que morreu. O corpo dele ficou seco e de baixo da pele lhe saía um pó esbranquiçado, como o que tem a pele do inhambu.

— Bem feito, concluíram os outros.

A essa altura só havia dois Cauaiua-Parintins. Eles andavam sem parar, durante todo o dia.

À tardinha um disse:

Vamos buscar bastante lenha para fazer uma boa fogueira para espantar os bichos que este lugar deve ter. Foram para o mato. Mas apenas um trouxe paus para a fogueira. O outro só apanhou ramos e gravetos. Não queria fogueira grande porque fazia muito calor e ele queria ver como eram os morcegos do local.

O outro deitou-se sozinho, bem perto de uma grande fogueira.

Mais tarde vieram muitos morcegos-grandes. Apagaram o fogo e chuparam o sangue do pescoço do curioso.

No dia seguinte, bem cedo, o companheiro foi chamar o amigo, encontrando-o morto. Então, voltou sozinho para sua maloca.

Para esses índios, os curiosos deveriam morrer.

Havia três irmãos: dois solteiros e um casado, contam os índios makuchys, do território de Rio Branco, atual Roraima. Daqueles dois, um era feio e o outro, bonito. O casado e o bonito não gostavam do feio, sendo que o segundo procurava a todo custo matar o irmão feio. Em determinada ocasião, aguçou um pau, apontou-o bem e depois de preparar um plano, chamou o feio.

— Meu mano, vamos apanhar urucu (substância de tinta) para pintar nosso corpo?

— Vamos, respondeu o outro.

Eles foram ao urucueiro e o bonito falou:

— Sobe para apanhar urucu para nós.

O feio subiu e o irmão matou-o com o pau. Cortou as pernas, deixou o cadáver e foi embora.

Logo depois chegava a cunhada.

— Como estás, meu cunhado?

— Como hei de estar? Bem.

— Como está o outro meu cunhado?

— Está lá fora, passeando.

— Ah! Pode ser.

A cunhada indo passear atrás da casa, achou o corpo com as pernas cortadas e separadas.

Em seguida, apareceu o irmão bonito.

— Para que me servem estas pernas cortadas? Para nada. Agora só estão boas para os peixes comerem.

O irmão pegou as pernas e as colocou no rio. Elas viraram surubim (peixe). O corpo ficou na terra, mas a alma subiu ao céu. Chegando lá transformou-se em estrela. O corpo ficou no centro e as pernas postas uma de cada lado. O irmão assassino, por sua vez, transformou-se na estrela Caiuanon (Vênus) e o irmão casa na estrela Itenha (Sírius). Ficaram os dois fronteiros ao irmão morto por castigo, a fim de serem obrigados a olharem sempre o irmão.

Assim nasceu Vênus e Sírius.

Segundo os índios Tucuna e Uitoto (AM), antigamente havia um moço forte e bonito naquela região. Sua tia preparava o urucu para pintar os tucunas nos dias de festa de Moça-Nova.

O sobrinho partia a lenha para a fogueira, onde a velha punha a panela para ferver urucu.

A velha estava sempre aborrecida, pedindo ao sobrinho cada vez mais lenha. Um dia o rapaz trouxe muita muirapiranga (madeira parecida com o pau-brasil) e para acabar com aquele trabalho pediu a tia que o deixasse beber todo o urucu.

A velha pensando que ele morreria disse:

— Bebe, bebe logo.

O rapaz bebeu e foi ficando vermelho como o urucu e a muirapiranga. Depois subiu ao céu, meteu-se entre as nuvens, transformando-se no Sol, o índio vermelho.

Fonte:
Quatro séculos de lendas. Revista Petrobras, Rio de Janeiro, setembro/outubro de 1972.
Disponível em Jangada Brasil. Revista Almanaque. Abril 2010 – Ano XII – nº 135.

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Daniel Mundukuru (Do Fundo do Mundo pro Mundo de Cima)

Contam os velhos que, no antigo tempo da criação do mundo, Karú-Sakaibê fez as montanhas e as rochas soprando em penas fincadas no chão. Foi ele também que criou os rios, as árvores, os bichos do céu, das águas e da terra – e também criou o homem.

Karú-Sakaibê, o grande criador, ao perceber que o povo que ele tinha criado para enfeitar a terra e cuidar de toda a sua obra estava brigando muito, decidiu voltar e lembrá-lo de como havia sido trazido lá do fundo da terra.

Assim contam os velhos sobre a vinda dos Munduruku pro mundo de cima:

Karú-Sakaibê, andava pelo mundo sempre com seu amigo fiel, Rairu, que embora fosse muito poderoso, gostava de brincar e se divertir. Um dia, Rairu fez um tatu com folhas, galhos e cipós. Ficou tão igual ao tatu de verdade que Rairu resolveu cobri-lo com uma resina feita de mel de abelha pra que ele nunca desaparecesse. Pra que a resina secasse, Rairu enterrou o tatu e deixou apenas o rabo de fora. Mas, ao tentar tirar sua mão, viu que ela tinha ficado grudada no rabo do tatu!

Como era poderoso, Rairu deu vida à imagem de tatu que, em vez de sair do buraco, foi se enterrando cada vez mais, cada vez mais, levando com ele Rairu, preso ao rabo. O tatu foi cavando cada vez mais fundo, cada vez mais fundo… Quando chegou ao fundo do fundo do mundo, Rairu viu muita gente, gente de tudo quanto era jeito: bonita, feia, boa, má, preguiçosa… Rairu ficou tão impressionado que decidiu voltar rapidamente pro mundo de cima e contar tudo pra Karú-Sakaibê, que já devia estar preocupado com seu sumiço.

Karú-Sakaibê ficou tão bravo com seu amigo que bateu nele com um pedaço de pau. Rairu, pra se defender, falou da aventura ao centro da terra e das gentes que viu por lá.

Karú resolveu então trazer toda essa gente pro mundo de cima. Começou a fazer uma pelota e a enrolá-la na mão. Depois, jogou a pelota no chão. Imediatamente, nasceu um pé de algodão. Karú colheu o algodão e com ele fez uma corda que amarrou na cintura de Rairu, ordenando-lhe que fosse ao centro da terra buscar as gentes que viu por lá.

Rairu desceu pelo buraco do tatu. Lá embaixo, reuniu todas as gentes e falou das maravilhas do mundo de cima, convencendo todos a subir pela corda. Os primeiros que subiram foram os feios e os preguiçosos, pois achavam que iam encontrar comida com muita facilidade e nunca mais precisariam trabalhar. Depois subiram os bonitos. Mas quando eles estavam quase chegando lá em cima, a corda arrebentou e muita gente bonita caiu no buraco e ficou pra sempre lá embaixo, no fundo da terra.

Como era muita gente, Karú-Sakaibê resolveu diferenciar cada povo, pintando uns de verde, outros de vermelho, outros de amarelo e outros de preto. Mas enquanto Karú pintava um por um, os feios e preguiçosos caíram no sono.

Isso fez com que Karú ficasse muito bravo. E o grande criador resolveu transformá-los em passarinhos, porcos-do-mato, borboletas, bichos-preguiça e outros bichos da floresta.

Mas, aos que não eram preguiçosos, ele disse:

– Vocês serão o começo de novos tempos e seus filhos e os filhos dos seus filhos serão valentes e fortes.

E deu-lhes um presente: preparou um campo, semeou e mandou chuva pra regá-lo. E assim que a chuva caiu, nasceram a mandioca, o milho, o cará, a batata-doce, o algodão, as plantas medicinais e muitas outras que até hoje alimentam essa gente.

Contam os velhos que foi assim que Karú-Sakaibê transformou a grande nação Munduruku num povo forte, valente e poderoso.

Fonte:
Munduruku, Daniel. Contos indígenas brasileiros. 2ª ed. São Paulo: Global; 2005. Versão: Roda de Histórias Indígenas

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Folclore Indigena (A Dança do Arco-Íris)

Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens uma tribo muito feliz. Como não havia solo para plantar, só um emaranhado de fios branquinhos e fofos como algodão-doce, as pessoas se alimentavam da carne de aves abatidas com flechas, que faziam amarrando em feixe uma porção dos fios que formavam o chão. De vez em quando, o chão dava umas sacudidelas, a planície inteira corcoveava e diminuía de tamanho, como se alguém abocanhasse parte dela.

Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador errou a pontaria e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele viu que se abrira uma fenda, através da qual pôde ver que lá embaixo havia outro mundo.

Espantado, o caçador tampou o buraco e foi embora. Não contou sua descoberta a ninguém.

Na manhã seguinte, voltou ao local da passagem, trançou uma longa corda com os fios do chão e desceu até o outro mundo. Foi parar no meio de uma aldeia onde uma linda índia lhe deu as boas-vindas, tão surpresa em vê-lo descer do céu quanto ele de encontrar criatura tão bela e amável. Conversaram longo tempo e o caçador soube que a região onde ele vivia era conhecida por ela e seu povo como “o mundo das nuvens”, formado pelas águas que evaporavam dos rios, lagos e oceanos da terra. As águas caíam de volta como uma cortina líquida, que eles chamavam de chuva. “Vai ver, é por isso que o chão lá de cima treme e encolhe”, ele pensou. Ao fim da tarde, o caçador despediu-se da moça, agarrou-se à corda e subiu de volta para casa. Dali em diante, todos os dias ele escapava para encontrar-se com a jovem. Ela descreveu
para ele os animais ferozes que havia lá embaixo. Ele disse a ela que lá no alto as coisas materiais não tinham valor nenhum.

Um dia, a jovem deu ao caçador um cristal que havia achado perto de uma cachoeira. E pediu para visitar o mundo dele. O rapaz a ajudou a subir pela corda. Mal tinham chegado lá nas alturas, descobriram que haviam sido seguidos pelos parentes dela, curiosos para ver como se vivia tão perto do céu.

Foram todos recebidos com uma grande festa, que selou a amizade entre as duas nações. A partir de então, começou um grande sobe-e-desce entre céu e terra. A corda não resistiu a tanto trânsito e se partiu. Uma larga escada foi então construída e o movimento se tornou ainda mais intenso. O povo lá de baixo, indo a toda a hora divertir-se nas nuvens, deixou de lavrar a terra e de cuidar do gado. Os habitantes lá de cima pararam de caçar pássaros e começaram a se apegar às coisas que as pessoas de baixo lhes levavam de presente ou que eles mesmos desciam para buscar.

Vendo a desarmonia instalar-se entre sua gente, o caçador destruiu a escada e fechou a passagem entre os dois mundos. Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal, tanto na terra como nas nuvens. Mas a jovem índia, que ficara lá em cima com seu amado, tinha saudade de sua família e de seu mundo Sem poder vê-los, começou a ficar cada vez mais triste. Aborrecido, o caçador fazia tudo para alegrá-la. Só não concordava em reabrir a comunicação entre os dois mundos: o sobe-e-desce recomeçaria e a sobrevivência de todos estaria ameaçada.

Certa tarde, o caçador brincava com o cristal que ganhara da mulher. As nuvens começaram a sacudir sob seus pés, sinal de que lá embaixo estava chovendo. De repente, um raio de sol passou pelo cristal e se abriu num maravilhoso arco-íris que ligava o céu e a terra. Trocando o cristal de uma mão para outra, o rapaz viu que o arco-íris mudava de lugar.

– Iuupii! – gritou ele. – Descobri a solução para meus problemas!

Daquele dia em diante, quando aparecia o sol depois da chuva, sua jovem mulher escorregava pelo arco-íris abaixo e ia matar a saudade de sua gente. Se alguém lá de baixo se metia a querer visitar o mundo das nuvens, o caçador mudava a posição do cristal e o arco-íris saltava para outro lado. Até hoje, ele só permite a subida de sua amada. Que sempre volta, feliz, para seus braços.

Fonte:
Lenda indígena recontada por João Anzanello Carrascoza, ilustrada por Alarcão. Disponível na Revista Nova Escola. Edição Especial. Agosto de 2004.

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Folclore Indigena (Irapuru, o Flautista)

Certo jovem, não muito belo, era admirado e desejado por todas as moças de sua tribo por tocar flauta maravilhosamente bem. Deram-lhe então o nome de Catuboré, (flauta encantada).

Entre elas, a bela Mainá conseguiu o seu amor; casar-se-iam durante a primavera. Certo dia, já próximo do grande dia, Catuboré foi à pesca e de lá não mais voltou. Saindo a tribo inteira à sua procura, encontraram-no sem vida à sombra de uma árvore, mordido por uma cobra venenosa.

Sepultaram-no no próprio local. Mainá, desconsolada, passava várias horas a chorar sua grande perda.

A alma de Catuboré, sentindo o sofrimento de sua noiva, lamentava-se profundamente pelo seu infortúnio. Não podendo encontrar paz pediu ajuda ao Deus Tupã. Este então transformou a alma do jovem no pássaro Irapuru, que mesmo com escassa beleza possui um canto maravilhoso, semelhante ao som da flauta, para alegrar a alma de Mainá.

O cantar do Irapuru ainda hoje contagia com seu amor os outros pássaros e todos os seres da Natureza.

Fontes:
Covil do Orc
– Imagem = http://edukbr.com.br

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Folclore Indigena (Origem do Fogo)

LENDA KAINGANG

No inicio do mundo, a única fonte de calor era o sol. Os homens não podiam defender-se do frio e os alimentos eram comidos crus. Só Minarã, um estranho índio, conhecia os segredos do fogo e os guardava só para si. A cabana de Minarã, onde o fogo era guardado sempre aceso, era vigiada por sua filha Iaravi. Para descobrir o segredo do fogo, o guerreiro Fiietó transformou-se numa gralha branca e voou até a cabana de Minarã.

Iaravi estava no rio banhando-se. A gralha caiu na água e deixou a correnteza levá-la para perto da jovem. Iaravi pegou a gralha, levou-a para dentro da cabana e colocou ao lado do fogo para que secasse. Quando as penas secaram, a gralha roubou um carvão em brasa e fugiu.

Minarã perseguiu Fiietó mas não o encontrou pois ele se escondera numa caverna. Quando saiu do esconderijo, ainda como gralha, Fiietó voou até um pinheiro e, com a brasa, incendiou um ramo de sapé. Depois, voou na direção de sua aldeia, levando o ramo no bico. Como o ramo era pesado e o vento soprava aumentando sua chama, era difícil transportá-lo. Fieetó, então, decidiu arrastá-lo pelo mato e acabou provocando um grande incêndio. A floresta ardeu em chamas durante muitos dias.

Vendo o incêndio, índios de todas as tribos foram buscar brasas e tições e levaram para suas casas que, desde então, passaram a ter suas próprias fogueiras sempre acesas.

LENDA TAULIPANG

Palenosamó era uma velha feiticeira que não gostava dos outros índios, por isso, vivia sozinha no fundo da floresta, numa clareira, longe da tribo. Naquele tempo, os homens ainda não conheciam o fogo. Os seus beijus eram secos ao sol e tinham um gosto meio ruim. Palenosamó também só podia comer as coisas cruas.

Certo dia, ela saiu de casa para apanhar alguns ramos. Juntou a lenha e arrumou-a como para uma fogueira, cuspiu em cima e a madeira pegou fogo. “Ah! Disse ela, esfregando as mãos. Agora vou ter comida quente.” Preparou um moquém (grelha de varas), fez beijus, caxiri e regalou-se. Estava contente da vida.

Numa tarde, quando o sol tostava a terra e todos repousavam debaixo das cabanas, uma jovem índia entrou na floresta. Foi andando até dar com a casa da feiticeira. Subiu numa árvore e ficou a olhar. Tudo estava silencioso. O vento tinha parado. Nenhuma folha se mexia. Daí a pouco, apareceu a velha no terreiro. Pegou um pouco de lenha, juntou-a e fez fogo outra vez. A moça ficou muito espantada. Desceu da árvore, afastou-se devagar para não ser percebida, e, quando já estava a uma boa distância, deitou a correr o mais que podia. Chegou na taba quase sem fôlego. Contou aos companheiros o que vira; como a velha índia fizera fogo.

Ao receber a notícia, os homens ficaram satisfeitíssimos. “Vamos para lá! Precisamos de fogo também.” Foram. A moça, na frente, ia-lhes mostrando o caminho. Finalmente, chegaram.

Falaram a Palenosamó: “Sabemos que tens fogo. Dá-nos!” A feiticeira ria-se, negando-se a atendê-los. “Se não nos dás o fogo, nós te obrigaremos!” Gritaram os índios. Agarrando-a, prenderam-na consigo, voltando a tribo. No meio da taba, amarram-na num poste. Juntaram, em torno dela, bastante lenha. Em seguida, apertaram o ventre da velha feiticeira, até que não agüentou mais e cuspiu sobre a madeira. O fogo apareceu, vivo e forte. Queimou a terra, em baixo, transformando-a numa pedra – “wato”.

Essa pedra, quando é batida em outra igual, solta faíscas. Desse modo, os índios aprenderam a fazer fogueiras e não tiveram mais de comer os alimentos crus.

LENDA XAVANTE

A onça originalmente tinha o fogo. Um dia o neto e o cunhado foram procurar filhote de arara. O neto subiu numa escada e jogou uma pedra no cunhado. O cunhado ficou bravo e deixou o neto lá em cima, no penhasco. A onça chegou e fez o garoto descer e levou ele para sua toca. Na toca a onça assou carne de queixada para o neto e o neto viu o fogo pela primeira vez. Depois, o neto foi embora da toca da onça levando um pouco de carvão, como prova do fogo. Na comunidade, contou que a onça era a dona do fogo. A comunidade toda combinou de roubar o fogo da onça.

Assim, vários Xavantes se transformaram em animais para poder roubar o fogo. A primeira que roubou da onça foi a anta, que passou para o cervo, que passou para o veado campeiro, que passou para o veado mateiro que passou para a seriema, que passou para a capivara. A capivara deu um pulo na água, mas antes, um passarinho passou e pegou o fogo levando este para a aldeia. Tendo fogo e mais caça para comer, começou a se desenvolver o povo Xavante nascendo mais crianças e ficando mais fortes.

LENDA KUIKÚRU

Os índios kuikúru não tinham fogo. Kanassa, um herói demiurgo, resolveu procurar. Levava na mão fechada um vaga-lume. Cansado da caminhada, resolveu dormir. Abriu a mão, tirou o vaga-lume e pôs no chão. Como estava com frio, se acocorou para se aquentar à luz do vaga-lume. Quando Kanassa e a saracura chegaram ao outro lado da lagoa, ele desenhou no barro uma arraia, mas com o escuro não viu o próprio desenho e foi ferrado. Kanassa pediu, então, o fogo à saracura, para poder enxergar. Esta lhe disse que só o ugúvu-cuengo (urubu-rei) é que tinha fogo. “Como é esse ugúvu-cuengo?” “É um tipo de uruágui (urubu comum), muito grande, com duas cabeças e difícil de ser encontrado. Fica em lugar bem alto e só desce para comer.” “Como é que a gente faz para segurar ele?” “O único jeito é matar um veado grande, esconder-se embaixo da unha dele até ele apodrecer. E, quando o urubu-rei chegar, segurar a perna dele e só soltar quando ele der o fogo.”

Kanassa desenhou um veado morto, escondeu-se na unha da carniça, e ficou esperando o dono do fogo se aproximar. Quando este começou a comer a carne podre, agarrou-o pelo pé. O urubu-rei só ficou um pouquinho zangado, chamou um passarinho preto e mandou buscar o fogo lá do céu. O passarinho trouxe uma brasa, assoprou e acendeu o fogo. Kanassa, na mesma hora soltou o urubu-rei. Quando o fogo já estava aceso e quente, vieram os sapos, sopraram água nele e fugiram para a água. Mas o fogo não chegou a apagar e, o urubu-rei, então, disse: “Kanassa, quando o fogo apagar, quebra uma flecha em pedaços, racha no meio, amarra bem uma sobre a outra e firma bem no chão. Feito isso, procura uma varinha de urucum e com ela, apoiando uma das pontas nos pedaços da flecha, tira com força até o fogo surgir. E, procura um cipó da beira da água, abre e deixa secar. É muito bom para ajudar a acender fogo.” Para levar o fogo para o outro lado do rio, Kanassa chamou as cobras. Só uma, muito ligeira, conseguiu chegar até o outro lado: a itóto. Kanassa também atravessou a água e lá no outro lado deu bebida, mingau e beiju para itóto – a cobra que conduziu o fogo.

LENDA PARINTINTINS

Os parintintins, que também se chamavam kagwahiva, nunca tinham visto fogo. Para obter comida quente, armavam um moquém (grelha de varas) com caça e deixavam-no ao sol. Pediram então ao semideus Bahira, que lhes desse um pedaço do sol. Prometendo atendê-los, Bahira entrou na floresta e fez um “onimbó-é”, um ardil para enganar os outros. Deitou-se, fingindo-se morto. Vendo-o, a mosca varejeira voou em sua direção; cheirou-o e partiu a toda pressa em busca do urubu-rei, exatamente como o *tuixauá desejava. Esse pássaro era, naquele tempo, o dono do fogo. Veio depressa, pensando em regalar o estômago com o índio. Pegou-o e pôs fogo embaixo. Tão contente estava que Bahira aproveitou-se do seu descuido para roubar o fogo e fugir.

Percebendo o que acontecera, o urubu-rei reuniu sua gente e saiu em perseguição ao índio. Este, ouvindo o barulho dos perseguidores, ocultou-se num tronco oco, os urubus entraram atrás dele. Bahira escapou pelo outro lado e tornou a esconder-se, agora numa moita de taquara. Respirou fundo… Tinha conseguido. Chegando à beira de um rio, chamou a cobra e pôs-lhe fogo nas costas, para que ela o levasse a sua gente, que estava na outra margem. Inteiramente queimada, a cobra morreu. Chamou o camarão e, tomando o fogo, fez a mesma coisa. O camarão, ficou muito vermelho e também morreu. Colocou ainda o fogo nas costas do caranguejo e o infeliz teve a sorte dos seus companheiros. Bahira já estava começando a ficar preocupado. Tentou uma vez mais com a saracura, e a pobre ave ficou como os outros. Quando Bahira já não sabia o que fazer, apareceu o sapo cururu, que tem o costume de engolir brasas, julgando que são vagalumes. Engoliu o fogo e carregou-o até onde estavam os parintintins. Em seguida, o “Tuixauá-Bahira” quis pular para junto dos seus amigos. Achando o rio muito largo, gritou-lhe e ele imediatamente ficou estreito. Saltou-o e foi-se com os índios da sua tribo. Como recompensa ao sapo cururu por ter levado o fogo, Bahira nomeou-o pajé dos parintintins.

Fonte:
http://www.lendorelendogabi.com/

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Folclore Indigena (A Mandioca)

Lenda Baré

A filha de um poderoso tuxaua (chefe) foi expulsa de sua tribo, por ter engravidado misteriosamente. Foi viver em uma velha cabana distante. Parentes iam levar-lhe comida para seu sustento. E, assim, a índia viveu até dar a luz a uma linda menina, muito branca, que chamou de Mani.

A notícia do nascimento espalhou-se por toda aldeia, fez o grande chefe esquecer os rancores e, cruzar os rios, para ver sua filha. O avô se rendeu aos encantos da criança que se tornou muito amada. No entanto, ao completar 3 anos, Mani morreu de forma misteriosa, sem nunca ter adoecido. A mãe ficou desolada e sepultou a filha de acordo com o costume, no meio da oca. Ao amanhecer, viu uma plantinha brotar da terra que molhara com suas lágrimas. A plantinha começou imediatamente a crescer e furou o teto da oca, onde floriu e deu pequenos frutos.

A tribo acorreu, maravilhada. Ao revolverem a terra, observaram que a planta saía do ouvido de Mani e mostrava raízes grossas e brancas em forma de chifre. “Manihua!” exclamaram os índios. Então, muitos passarinhos vieram, comeram as frutinhas e saíram semeando a maniva (manihua). Os pássaros de goela branca semearam a maniva branca e os de goela amarela, a maniva amarela. A raiz por ser semelhante a um chifre (aca), foi denominada mandioca (manihuaca).

Lenda Tupi

Há muitos anos passados apareceu grávida a filha de um cacique. Querendo punir o autor da infelicidade de sua filha, o cacique usou de todos os meios para saber quem havia sido o autor da desonra de sua filha que, apesar dos castigos recebidos, nunca disse quem lhe havia tirado a virgindade e que também nunca havia mantido relações sexuais com nenhum homem. O pai resolveu, então, matar, sacrificar a filha, quando, num sonho, lhe apareceu um homem branco que lhe disse para não matar a moça, que ela era inocente. Passados os nove meses nasceu uma menina muito bonita e, para surpresa de todos, de cor branca. A menina que recebeu o nome de Mani, morreu após um ano sem haver adoecido nem sofrido nenhuma dor. Mani foi enterrada na sua própria casa e, de sua sepultura, nasceu uma planta que, por ser desconhecida, nunca foi arrancada. Um dia, a sepultura se abriu e, nas suas raízes, brancas como Mani, os indígenas encontraram alimento para matar a fome. Mandioca, na língua tupi, vem de Mani-oca, que significa casa de Mani. (Dicionário de Folclore para Estudantes)

Lenda Apurinã

Saíra, a filha do chefe Cauré, era a mais bela da tribo. Um dia, porém, ela engravidou sem ter sido dada em casamento a nenhum guerreiro. O desgosto de Cauré foi imenso. Chamou a filha e questionou-a sobre o pai da criança. Saíra emudeceu. A decisão de Cauré foi inexorável. Ela seria banida da tribo e viveria confinada em uma oca no centro da mata. Ela deu a luz a uma linda menina de pele alva e olhos azuis. Ao ver a beleza da neta, Cauré caiu de amores pela menina. Regressou para a tribo com a filha Saíra e a neta Mani. No entanto, ao completar 4 anos, a menina morreu de forma misteriosa. Era costume da tribo Ipurinã cremar seus mortos mas, desolado, Cauré quebrou a tradição e enterrou Mani na entrada de sua oca. Passaram-se quatro luas e da terra em que Mani foi enterrada nasceu uma planta que, depois de um certo tempo, desnudou-se das folhas. Cauré julgava que as folhas fossem eternas e ficou triste pois a planta havia morrido. Resolveu arrancá-la e, ao fazê-lo, viu surgir, à guisa de raízes, grandes tubérculos radiculares. Curioso, resolveu mordê-la e, ao mastigá-la, achou-a deliciosa. Desde então a mandioca passou a ser um importante alimento para os índios.

Lenda Pareci

Zatinaré e sua mulher, Kokoterô, tiveram dois filhos: Atiolô e Zokooiê. Atiolô era menina. Por esta razão o pai não lhe dava a menor importância; tratava-a displicentemente e, se ela dizia alguma coisa, respondia-lhe assobiando. A pobrezinha não se lembrava de uma só vez que tivesse obtido dele uma resposta em palavras. Por isso, vivia triste e acabrunhada, pelos cantos da ocara; não sorria, não brincava… Um dia, tomou uma resolução. Foi a sua mãe e pediu-lhe que a enterrasse viva:

“Talvez desse modo, mamãe, eu possa fazer algo de bom por nosso povo.”
“Não fales assim!” Replicou a mãe, aterrorizada com a idéia. “Tremo só de pensar…”

Finalmente, após vários dias de insistência, Atiolô conseguiu convencê-la. A mãe tomou a filha e levou-a até um cerrado. Sepultou-a ali. Mas o sol estava muito quente. A menina sentia muito calor. Queria outro lugar. Novamente, tomou-a Kokoterô; desta vez, escolheu o campo, aberto e de capim verde e macio. Enterrou-a. O calor, porém, era ainda maior. Atiolô não quis ficar ali. Enfim, acharam um bom local. Era o bosque, escuro, silencioso, calmo. Lá, a menininha não sofreria; lá poderia descansar sossegada. Atiolô rogou à mãe que se afastasse. Atendendo-a, a mulher foi-se retirando. Contudo, não pode resistir e voltou-se. Do túmulo, saía uma plantinha que ia crescendo vagarosamente. Correu para a sepultura; a plantinha diminuiu.

Desde esse dia, começou a tratá-la. Todas as tardes, regava-a com água fresca. A arvorezinha desenvolveu-se. Passaram-se várias luas. Quando ninguém esperava, um grito irrompeu do solo. A índia tremeu de medo. Agarrou o arbusto pelo caule e arrancou-o. Que surpresa! A raiz era grande e grossa; a casca era morena, da cor da pele das jovens da taba; a polpa era branca e gostosa. Kokoterô colocou-a nas costas e carregou-a para casa. Mostrou-a aos índios. Estavam todos espantados.

“Nunca vimos isso antes!” Diziam uns para os outros. Provaram-na e gostaram. Era a mandioca, um dos melhores alimentos que tem os índios até hoje. Eis porque a mandioca não cresce bem no campo ou no cerrado. Prefere sempre a sombra da floresta.

Lenda Bakairi

O veado foi beber água e o peixe bagadu (pirara), espécie de bagre brasileiro comum nas Amazônia, que estava preso num regato quase seco, pediu-lhe ajuda: “Faz uma corda de embira e puxa-me até o rio.” Lá chegando, o peixe convidou o veado para ir até sua casa no fundo do rio, onde lhe serviu mingau (pogü) e beiju.

O veado, que desconhecia aquelas iguarias, ficou encantado e o peixe levou-o até sua roça de mandioca. Quando o veado foi embora, o peixe presenteou-o com mudas de mandioca, para que as plantasse também. Em casa, o veado fez uma roça de mandioca. E, tornou-se o senhor da mandioca, pois só a sua família a consumia. Um dia, Keri o encontrou e pediu-lhe mandioca. O veado negou, Keri ficou bravo, segurou o veado pelo pescoço e assoprou na sua cabeça, onde surgiu uma galhada. Keri levou a muda de mandioca, deu de presente as mulheres Bakairi e mostrou-lhes, conforme o veado lhe ensinou, o que deviam fazer para não morrer com o veneno.

Fonte:
http://www.lendorelendogabi.com/

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