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Conto Tradicional do Algarve/Portugal (As Tres Nuvens)

Era uma vez um lavrador muito rico e tinha três filhos: dois, os mais velhos, eram muito estimados pelos seus pais e andavam ricamente vestidos; o mais novo era desprezado. 
 Tinha o lavrador uma rica propriedade, onde aparecia um medo. 
 Caseiro que lá se deixava dormir numa noite era encontrado morto no dia seguinte. Vendo o pai que a propriedade estava muito estragada, porque os vizinhos metiam nela os seus gados, resolveu mandar o filho mais novo guardá-la. Aceitou o mancebo a incumbência, pois era muito bom e obediente, mas pediu ao pai que mandasse no dia seguinte buscar o seu cadáver para não permanecer por muito tempo insepulto. 
 Despediu-se do pai e dos irmãos e foi para o seu desterro, levando consigo uma cítara, seu instrumento favorito. 
 O prédio onde o caseiro costumava dormir ficava no centro da propriedade. O rapaz chegou ali e tirou do prédio uma cama que colocou sobre um parque, de bonita vista, através do prédio. Logo que escureceu foi deitar-se, entretendo-se muito tempo a tocar o seu instrumento. Alta noite adormeceu. Tinha pegado no sono, sentiu-se afogado sob um grande peso; sentou-se na cama, pegou na cítara e disse em voz alta: 
 – Que peso é o que sinto? Olhem que parto a cabeça seja a quem  for. 
 E pôs-se a fazer um grande sarilho com a cítara, como se fora um alfange. 
 Então ouviu o mancebo uma voz: 
 – Não me mates, dizia a voz, porque te faço bem. Eu sou a nuvem negra, e, quando tiveres necessidade de alguma coisa, chama por mim. 
 No dia seguinte ergueu-se ele da cama e dirigiu-se para casa, onde era esperado por quatro homens com uma tumba para o levar ao cemitério. 
 – Podem retirar-se: ainda não foi desta, disse o mancebo. 
 Na noite seguinte repetiu-se a mesma cena com a diferença da resposta: 
 – Não me mates: eu sou a nuvem parda e, quando queiras alguma coisa, chama por mim. 
 Na terceira noite, e depois da mesma cena das noites antecedentes, ouviu: 
 – Não me mates: sou a nuvem branca. Sempre que te seja preciso, chama por mim. Eu e as minhas irmãs estávamos aqui encantadas, foste tu que nos desencantaste com os maviosos sons do teu instrumento. 
 E a nuvem branca desapareceu como tinham desaparecido as outras. 
 Conservou-se o mancebo por algum tempo na propriedade, sendo raríssimas vezes visitado pelo pai e isso no mero intuito de examinar como o filho a administrava. 
 Um dia teve saudades da família e foi visitá-la. Logo que entrou na casa paterna viu muitos alfaiates ocupados em talhar e fazer riquíssimos fatos de homem; soube então que o rei mandara anunciar que casaria com a princesa o cavalheiro que se saísse vitorioso de três torneios a seguir. 
 Entretida a família nos arranjos dos dois irmãos, que aspiravam à mão da princesa, nenhum caso fizeram do irmão mais novo. Este demorou-se pouco tempo em casa dos seus e retirou-se para a propriedade. 
 Nessa noite pensou que ele poderia entrar nos torneios, e quando foram marcados os dias para as lutas já tinha formada a tenção de lá se apresentar. 
 Na manhã do dia do primeiro torneio disse o mancebo: – Valha-me a nuvem preta. 
 Apareceu logo uma nuvem e dela saiu uma jovem. – O que me queres? perguntou. 
 – Entrar no torneio e sair vencedor. 
 A jovem ergueu uma pequena vara, proferiu algumas palavras, e apareceu um cavalo negro, trazendo pequena mala, onde vinham riquíssimas vestes e armas de cavaleiro da mesma cor do cavalo. 
 O mancebo vestiu-se, empunhou as armas, montou no cavalo e entrou no torneio, saindo vencedor. Logo que saiu da cidade desapareceram o cavalo, as vestes e as armas. 
 No dia seguinte disse: 
 – Valha-me a nuvem parda. 
 Apareceu outra nuvem, de onde saiu uma Jovem que perguntou ao mancebo o que queria. 
 – Entrar no torneio e sair vencedor. 
 E sucedeu como no dia antecedente. Quando ele entrou na praça percebeu que a princesa o atendia com especial agrado. Ainda outra vez saiu vencedor, retirando-se logo para fora da cidade e desaparecendo o cavalo, as vestes e as armas. 
 No terceiro dia invocou a nuvem branca e entrou no torneio montado em cavalo branco e com armas brancas bordadas a ouro. Ficou vencedor, e então viu-se cercado das pessoas da corte que o convidaram a ir à presença do rei. O mancebo foi. 
 Na presença do rei e da princesa, tirou a viseira. E o rei e a princesa agradaram-se do jovem e logo foi ali resolvido o seu casamento. 
 Os dois irmãos do mancebo conservavam-se a certa distância e, quando viram que estava resolvido o casamento com o seu irmão, tiveram grande desespero. Um deles lançou-se da janela à rua, morrendo despedaçado, o outro atravessou-se no próprio alfange. 
 Houve grandes festas no palácio e em todo o reino por ocasião daquele casamento. 
Fonte:
Xavier Ataíde de Oliveira. Contos tradicionais do Algarve. edição Vega. Disponível no Estudio Raposa. 

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Folclore Portugues ( A Lenda "Aninha-a-Pastora")

Conta a lenda que há muito tempo, talvez no tempo dos afonsinhos, apareceu no vale do Jamor uma pastorinha com o seu rebanho. Ninguém sabia donde ela viera, mas também a ninguém interessava saber. E a pastora por ali ficou, achando o local propício para si e para as suas ovelhas. 

 Todas as manhãs pela alba banhava-se a pastora na ribeira que atravessava o vale, límpida e cantante. Depois, o resto do dia, entretinha-se ora cantando, ora correndo atrás dos borregos. Por vezes, quedava-se horas a fio olhando o ramejar das árvores ou observando os pardais a construir os ninhos ou a alimentar as crias. 

 No Inverno, quando o tempo custava mais a suportar, a pastora alapava-se com o rebanho sob as fragas, esperando que a chuva passasse, agarrada às suas ovelhas preferidas para manter algum calor. 

 Assim passava o tempo a pastorinha que um dia chegou ao vale do Jamor com um rebanho de ovelhas. 

 Certo dia, porém, passou por ali um cavaleiro – que alguns dizem que era o rei – em vistosa cavalgada, acompanhado de alguns moços de armas que com ele iam montear no vale. Os olhos do cavaleiro deram subitamente com os da pequena pastora, que, encostada a uma árvore, bebia tranquilamente uma gamela de leite. Surpreendido com a inesperada visão, o cavaleiro exclamou: 

 – Meu Deus, como será possível que tal beleza exista assim perdida neste vale?! 

 E, encantado, o cavaleiro tentou saber da pastora tudo quanto lhe dizia respeito: 

 – Onde vives, pastora? – perguntou o cavaleiro.

 – Por aí, senhor. 

 – Na aldeia, queres tu dizer? 

 – Não. Vivo aqui, no vale, com estas poucas ovelhas. 

 – A quem pertence o rebanho, pastora? 

 – Ninguém, meu senhor. Encontrei-o no caminho e seguiu-me até aqui. 

 – Não vais querer que eu acredite nessa história, mulher?! Diz a verdade! 

 – Senhor, esta é a verdade, acreditai! 

 O velho aio do cavaleiro, que ouvia a conversa, inquieto com o que parecia simples de mais, interveio: 

 – Tende cuidado, meu amo. A pastora mais parece o demónio a tentar-vos! 

 A rir, o cavaleiro respondeu-lhe: 

 – Ora, velho aio! Se o demónio fosse tão belo como esta mulher, fácil lhe seria tentar o mundo! Deixai-vos disso!. .. 

 Pois, meu amo, vamos ver se o que digo não é verdade! 

 E virando-se para a pastora, que tremia, perguntou: 

 – Onde está a tua família, rapariga? 

 – Não tenho ninguém. 

 – Como te chamas? 

 – Não sei, nunca ninguém me chamou .. 

 – E as ovelhas, encontraste-as! 

 – É verdade, senhor. 

 Pois vede, meu amo, se tudo isto não é muito estranho!.. Por mim, acho que deveis ter cuidado! 

 – Ora, velho medroso! Que há de estranho numa pastora que vive sozinha e não tem família. Depois .. é tão bonita! 

 Enquanto dizia isto, o cavaleiro olhava a pastora, sentindo crescer em si uma ternura magoada e dolorida por haver quem fosse obrigado a viver em tal solidão. E num repente, como quem sente uma necessidade súbita e insuportável de suprir os desamores da vida, o cavaleiro disse suavemente à pastora: 

 – A partir de hoje nunca mais viverás só! Vou levar-te para a corte! 

 – Não quero sair daqui, senhor! – murmurou perentória a rapariga. 

 Pois então, virei eu viver contigo! Mandarei construir uma casa para ti e um redil para as ovelhas.

 E, virando-se para os acompanhantes, ordenou: 

 – Senhores, trazei vestidos e joias, mandai vir pedreiros e artífices que quero uma casa aqui! E tu – acrescentando, virando-se para um deles – tu que sabes vestir e pentear, aninha a pastora! 

 Sem mais uma réplica, obedeceram os companheiros ao cavaleiro – ou seria rei? No vale do Jamor cresceu uma casa onde viveu o cavaleiro com a pastora que mandara aninhar. E à volta dessa casa surgiu, pouco a pouco, uma povoação que durante muito tempo se chamou Aninha-a-Pastora. 

 Hoje, passaram-se os anos, esqueceu-se a lenda, e Aninha-a-Pastora chama-se Linda-a-Pastora. 

Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estudio Raposa

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Folclore Portugues (A Moura do Castelo de Tavira)

A noite de S. João é, como toda a gente sabe, noite de mouras encantadas. Segundo uma antiga tradição, vinda do tempo longínquo da conquista do Algarve, há em Tavira uma moura que, à meia-noite da noite de S. João, aparece nas ameias do castelo chorando a sua triste sina de encantada. 

 Quem sabe não será essa moura a filha de Aben-Fabila, o célebre governador de Tavira, que no dia da tomada do castelo se não encontrou nem entre os vivos, nem entre os mortos? Alguns dizem mesmo que naquele momento que se seguiu ao terrível combate, Aben-Fabila, súbdito do grande Almansor, desapareceu para poder encantar a sua filha querida no Alcácer, esperando, mais tarde, tornar vitorioso ao seu castelo e desencantar a mourinha. Porém, a verdade é que nem D. Paio Peres Correia, nem ninguém em todo o Algarve, voltou a pôr os olhos no bravo Aben-Fabila. 

 A tradição conta-nos esta lenda, como muitas outras, em verso, e por isso vou recitá-la tal como a cantam: 

Meia noite além ressoa 
 Cerca das ribas do mar 
 Meia noite já é dada 
 E o povo ainda a folgar. 
 Em meio de tal folguedo 
 Todos quedam sem falar 
 Olhos voltam ao castelo 
 Para ver, para avistar 
 A linda moura encantada 
 Que era triste a suspirar. 

– Quem se atreve, ai quem se atreve 
 Ir ao castelo e trepar 
 Para vencer o encanto 
 Que tanto sabe encantar? 
 – Ninguém há que a tal se atreva 
Não há quem em mouros fiar
 Quem lá fosse a tais desoras 
 Para só desencantar 
 Grande risco assim correra 
 De não mais de lá voltar. 
 Ai que linda formosura 
 Quem a pudera salvar! 
 O alvor dos seus vestidos 
 Tem mais brilho que o luar 
 Doces, tão doces suspiros 
 Onde ouvi-los suspirar … ? 
 Assim um bom cavaleiro 
 Só se estava a delatar 
 Em amor lhe ardia o peito 
 Em desejos seu olhar. 
 Três horas eram passadas 
 Neste continuo anceiar 
 Cavaleiro de armas brancas 
 Nunca soube arreceiar 
 Invoca a linda mourinha 
 Mas não ouve o seu falar 
 Nada importa a D. Ramiro 
 Mais que a moura conquistar 
 Vai subir por muro acima 
 Sente os pés a resvalar 
 Ai que era passada a hora 
 De a poder desencantar! .. 

Já lá vinha a estrela d’alva 
 Com seus brilhos a raiar 
 No mais alto do castelo 
 Já mal se via alvejar 
 A fina branca roupagem 
 Da linda filha de Agar. 
 Ao romper do claro dia 
 Para mais bem se pasmar 
 Sobre o castelo uma nuvem 
 Era apenas a pairar 
 Jurava o povo, jurava 
 E teimava em afirmar 
 Que dentro daquela nuvem 
 Vira a donzela entrar. 
 D. Ramiro d’enraívado 
 De não poder-lhe chegar 
 Dali parte e contra os mouros 
 Grande briga vai armar, 
 Por fim ganha um bom castelo 
 Mas. .. sem moura para amar. 

Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estudio Raposa

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Lenda Portuguesa (A Lenda do Santo Servo)

Na Câmara de Lobos, na ilha da Madeira, existe um antigo convento de franciscanos, o primeiro a ser construído fora do Funchal, conhecido como Convento de S. Bernardino.

Conta uma lenda que, em 1485, entrou nesse convento um monge humílimo que tomou por nome frei Pedro da Guarda. Foi-lhe distribuído como encargo o serviço da cozinha conventual, ofício que frequentemente se esquecia por anseio místico de oração no coro da igreja, onde ficava horas sem fim mergulhado em profundíssima meditação.

Acontecia, porém, que, apesar do esquecimento constante dos seus deveres comunitários, nunca faltava uma refeição nas escudelas dos monges às horas devidas, de tal modo que se gerou entre os franciscanos a ideia de que eram os anjos do Céu quem vinha cozinhar as refeições para que frei Pedro pudesse entregar-se à oração. E durante muitos anos se prolongou este maravilhoso viver do frade, ao qual começaram a chamar Santo Servo de Deus.

A sua figura tornou-se lendária aos olhos dos contemporâneos e conforme o tempo ia passando ia aumentando a sua aura de mistério. Assim, em breve o povo assegurava que o popular frei Pedro era profeta e por isso tinha conhecimento das mortes dos conterrâneos que morriam longe de Câmara de Lobos, ao que constava por conversar com as almas dos mortos que vinham pedir-lhe remédio para o que haviam deixado por fazer na sua terra.

Um outro dom maravilhoso deste homem era o de domar e reter consigo não só aves como animais bravios.

Quando, vinte anos depois de ter recolhido ao convento de S. Bernardino, o Santo Servo morreu, eram-lhe atribuídos, já então, muitos milagres. Diz-se que na hora da sua morte os sinos do mosteiro repicaram sem que mãos humanas lhes tocassem.

Frei Pedro, entretanto, havia previsto o dia e hora da sua morte. O seu cadáver, ao contrário do que seria natural, não exalou qualquer cheiro putrefacto e assim, muitos anos passados, mercê de umas luminárias estranhas que apareciam sobre o seu túmulo, abriram-no e encontraram corpo e hábito incorruptos, tal como, há perto de meio século, fora enterrado.

Durante os cerca de noventa e dois anos em que o corpo do Santo Servo esteve sepultado em S. Bernardino, nunca lhe faltaram fiéis, e diz-se que nesse prazo lhe atribuiu o povo para cima de seiscentos milagres.
Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estúdio Raposa 

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Lenda Portuguesa (O Penedo do Sino)

A pequena aldeia de Bustelo, que, como se sabe, fica no alto do monte a dois passos da Citânia, viveu em tempos idos um cabaneiro que possuía um enorme rebanho de ovelhas, entre as quais existia também uma preciosa cabrinha leiteira. Rebanho e cabra eram apascentados na serra pela sua única filha, que, diz a lenda, era um encanto de menina. Aconteceu que, uma manhã, quando a pastorinha foi abrir a porta do redil para sair com o gado a pastar, viu sobre um penedo que havia no recinto um enorme sardão. Tinha um ar muito vivo e parecia ter o corpo coberto de pedras preciosas, tal o colorido reluzente das pintas que o cobriam. Nem a presença da menina nem o movimento do rebanho o assustaram e, a partir de então, a pastora nunca mais entrou no redil sem que visse sobre aquela pedra o sardão bonito, que parecia sorrir-lhe mansamente. Tanto se familiarizaram um com o outro que a pastora acabou por considerá-lo e amá-lo como a cada ovelha do seu rebanho.

 Uma vez que estava mungindo a cabrinha, a rapariga viu o sardão aproximar-se como quem tem fome, e pegando numa escudela cheia de leite pô-la à frente do bicho. O sardão sorveu tudo com sofreguidão, ficando tão alegre e satisfeito que a moça compreendeu imediatamente que lhe prestara um grande serviço. Assim, daí para a frente guardava sempre uma escudela de leite para aquele amigo.

 Estranhamente, porém, a rapariga começou a notar que desde que dava o leite ao sardão a cabra ia secando pouco a pouco, até ameaçar secar de todo. E se este facto entristecia a pastora, não parecia, contudo, aborrecer o sardão, que se mantinha alegre como dantes. Ela atribuía essa alegria ao reconhecimento do animalzinho e um dia, falando para ele como era seu costume, disse-lhe:

 — Ai, meu bichinho! O leite da cabrinha está quase seco e qualquer dia não tenho com que te alimentar!

 Ao ouvir isto, o bicho, em vez de mostrar tristeza, redobrou de corridas até que parou na frente da menina como que sorrindo muito contente.

 A determinada altura, o leite secou totalmente. Pela manhã, a pastora dirigiu-se ao redil muito acabrunhada, pensando no que daria de comer ao sardão nesse dia. Mas, ao abrir a porta ao gado, qual não foi o seu espanto, quando, em vez do sardão, viu sentado no mesmo penedo um rapaz muito bonito e bem vestido.

 Carinhosamente, ele disse-lhe então:

 — Entra, minha amiga, que sou ainda o mesmo! Não tenhas medo! O sardão que alimentavas não era senão eu, um pobre filho da Moirama que seus pais, ao serem expulsos de Portugal, aqui deixaram encantado naquele animalzinho. Foram os teus cuidados que quebraram o encanto e cativeiro a que estava votado. Há tempos e tempos que esperava a minha liberdade, que estava pendente do leite de noventa dias de uma cabrinha do monte da Citânia. Desde que o meu encanto se quebrou, secou o leite da cabra, mas descansa, que mal eu pise a terra da Moirama o leite há-de voltar. Antes, porém, vou deixar-te uma lembrança minha, como testemunho da minha gratidão e amizade.

 E puxando por um objecto muito brilhante, com forma de um X, que trazia na algibeira, acrescentou:

 — Toma isto que te dou. É um talismã com o qual conseguirás seduzir quem tu quiseres. Trá-lo sempre contigo durante três meses, ao fim dos quais devo ter chegado à Moirama, para onde vou partir. Nessa altura,

 volta aqui e coloca o talismã sobre este penedo, que é o cofre dos meus tesouros. O talismã há-de transformar-se numa chave debaixo da qual encontrarás uma fechadura. Abre, e tudo o que encontrares é teu. Mas atenta bem que até lá tens de guardar segredo absoluto de tudo isto que connosco se passou, senão perderei de novo a liberdade e voltarei à condição de réptil, como me encontraste.

 A rapariguinha ainda não conseguira sair do seu espanto quando o mouro desapareceu e a deixou ali de boca aberta e talismã na mão.

 Daí por diante, a pastorinha da Citânia tornou-se o enlevo e a sedução de quantos a conheciam. Principalmente, diz a lenda, não havia rapaz que a olhasse e não ficasse perdido de amores por ela.

 Isto tornou-se tão escandaloso que o pai da rapariga, vendo-a dar tanto nas vistas, a chamou para que lhe explicasse as razões do seu condão.

 Como resposta, a pastora perguntou:

 Meu pai, há quantos meses secou o leite da nossa cabra?

 Já lá vão uns quatro meses. Porquê? – perguntou o pai.

 Venha então comigo! – disse ela.

 De caminho até ao redil, ela foi-lhe contando tudo o que se passara e que levara ao seu poder encantatório junto das pessoas. Por fim, já junto ao penedo onde aparecera o sardão, pousou o talismã e tudo se passou como o mouro lhe predissera.

 Abriram a rocha e, maravilhados, encontraram lá dentro uma tão imensa fortuna que passado pouco tempo se tornaram fidalgos e grandes senhores da corte do nosso Rei. Eram grades, arados, cadeados, cordões, grilhões e meadas, tudo do mais puro ouro, tudo cravejado de pérolas e diamantes de todas as cores, tudo nunca visto!

 O penedo, assim que se viu vazio daquela riqueza, fechou-se para não tornar a abrir-se. Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperamos que para sempre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele.

Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estúdio Raposa

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Lenda Portuguesa (A Lenda dos Távoras)

Os dois irmãos D. Tedo e D. Rausendo, que segundo a tradição eram descendentes de Ramiro II de Leão, são protagonistas de um ciclo lendário que busca as suas bases na reconquista cristã anterior à formação do reino de Portucale. A História porém não dá crédito à existência destes dois cavaleiros pelos quais frei Bernardo de Brito mostra um especial carinho na sua Monarquia Lusitana.

Em Paredes da Beira possuía o emir de Lamego, em 1037, um castelo bem provido de tudo e repleto de excelentes guerreiros. Bem protegido pelas penedias, o castelo revelava-se inexpugnável num ataque de tipo clássico.

Efetivamente, os dois irmãos estavam cansados de perder homens contra aquelas muralhas e, assim, decidiram tentar a conquista de Paredes pela astúcia.

Sabendo que em manhã de S. João os mouros saíam do castelo para festejar, banhando-se nas águas do Távora, o final do ciclo primaveril, D. Tedo e D. Rausendo cobriram as cotas com vestes mouras e foram emboscar-se com os seus guerreiros nas proximidades do castelo.

Era madrugada quando os mouros começaram a sair alegres e sem preocupações. Atrás das rochas, os cristãos aguardavam que passasse o tempo suficiente para que a distância se alongasse o bastante entre eles e os mouros em festa. Depois entraram pelas portas escancaradas, sem resistência dos poucos muçulmanos que se haviam quedado intramuros.

Alguns, que conseguiram escapar ao morticínio de Paredes, dirigiram-se correndo ao Távora a dar a má nova, alertando desse modo os despreocupados festeiros.

Entretanto, D. Tedo tomou conta do alcácer e distribuiu os seus guerreiros pelos pontos de defesa, enquanto D. Rausendo descia até ao rio com os restantes homens.

Preparados, no rio, os mouros defenderam caro as suas vidas e D. Rausendo teria sido derrotado se o irmão não acorresse rápido ao aperceber-se do que acontecia.

Diz-se que nesse dia as águas do Távora correram vermelhas: D. Tedo a cavalo, no meio do rio, vibrava golpes ferozes no inimigo. Tanto espadeirou que quando conseguiu chegar junto do irmão mais de metade dos mouros jaziam mortos por terra ou boiando nas águas.

O resto da batalha foi fácil, e se algum mouro sobrou para contar aquela carnificina, foi um homem feliz. Por isso, o povo de Paredes da Beira chamou ao local daquela sangrenta luta Vale d’Amil, em memória dos corpos que juncavam o chão e as águas, mouros mortos aos mil.

Diz a tradição que depois desta batalha os dois irmãos adoptaram o apelido Távora, como recordação da vitória alcançada, e tomaram por armas um golfinho sobre as ondas para que sempre se rememorasse D. Tedo espadeirando nas águas sobre o seu ginete de guerra.

Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estúdio Raposa 

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Lenda Portuguesa (Maria Mantela)

Na igreja matriz de Chaves existiu, em tempos, uma lápide, no colateral direito, com o seguinte epitáfio: «Aqui jaz Maria Mantela Com sete filhos ao redor dela».

Diz a lenda que rememora Maria Mantela que certa vez, era ela ainda menina, criticou severamente uma pobre que lhe pediu esmola, levando ao colo dois gémeos. Anos mais tarde Maria Mantela casou e, passado tempo, engravidou.

Iniciado o trabalho do parto, quando a parteira lhe disse, depois de ter nascido o primeiro filho, que se esforçasse para sair o segundo, e o terceiro, e o quarto, e por aí fora até ao sétimo, a mulher ficou louca de vergonha.

Assim que recuperou o ânimo, pagou muito bem à parteira para que escondesse o facto de ter tido sete filhos gémeos e entregou os recém-nascidos à serva que assistira aos nascimentos para que os deitasse ao rio. A criada, cheia de pena dos meninos, meteu-os num cesto e pôs-se a caminho do rio para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. Não replicou ante a desumanidade do seu mandado porque bem sabia que isso só lhe podia valer aborrecimentos. Além de que a ama, no estado de espírito em que se encontrava, não lhe daria ouvidos, sendo provável até que lhe desse o mesmo fim que aos meninos.

Perto das Caldas de Chaves, assim entregue a estes pensamentos e com a asa do cabaz enfiada no braço, a serva encontrou o marido da sua senhora Maria Mantela, o qual lhe perguntou o que levava no cesto. Apanhada de surpresa, a pobre rapariga, depois de titubear umas palavras incompreensíveis, acabou por achar a solução:

— São cachorrinhos que eu vou deitar ao rio, senhor.

O amo, ou por curiosidade ou por já desconfiar de qualquer coisa, levantou a cobertura e percebeu. Pegou no cesto, pô-lo sobre o cavalo e disse à rapariga que fosse dizer à ama que estava cumprida a ordem.

Dali partiu com os filhos em busca de amas que os criassem. Deixou cada um em sua aldeia e durante muito tempo Maria Mantela não desconfiou que os meninos estavam vivos e se iam criando e educando.

Diz a lenda, ao mesmo tempo que especifica os nomes das igrejas, que estes sete meninos foram ordenados padres e viveram a sua vida em sete aldeias circunvizinhas de Chaves. E Maria Mantela viveu o resto da sua vida grata ao marido por ter aceite aqueles sete filhos de um só parto. E tanto os amou que exigiu descansar juntamente com os sete, no seu leito de eternidade:

«Aqui jaz Maria Mantela Com sete filhos ao redor dela.»

Poderá parecer estranho ao nosso entendimento de homens do século XX o problema posto nesta lenda em que se fala de gémeos que por serem devem morrer. Creio não errar ao dizer que o problema se funda em antigas crenças segundo as quais as mulheres honestas só podiam, e deviam, ter um filho de cada vez do seu marido. O facto de lhes nascer mais do que um filho no mesmo parto deveria pressupor desonestidade no seu comportamento e consequente desonra do marido.

Fonte:
Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Fernanda Frazão, disponível em Estúdio Raposa

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