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Poesias Soltas ao Vento III

Walt Whitman (EUA, 1819-1892)
DO INQUIETO OCEANO DA MULTIDÃO

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

– Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

– Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorne em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olhe a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fique impaciente – um breve espaço –
e fique certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por sua amada causa, meu amor.

Jean Richepin (Argélia, 1849-1926)
TUAS PALAVRAS

Tuas palavras têm melodias divinas,
Acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
Dizendo-me um segredo o alvo pescoço inclinas…..
Então não me inebria o olor de balsaminas
De tua boca, é, mais o tom límpido e brando,
Que dás a uma palavra, a um simples “sim”, falando….
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!
Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
Ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
Qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!
E em pleno arrebatar duns êxtases radiosos
Sinto invisível mão percorrer-me a epiderme…
Tuas palavras, flor! Têm dedos cariciosos….

Elisabeth Barrett Browning (Inglaterra, 1806 – 1861)
QUATRO SONETOS


I
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minhalma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do Sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer da velhas pernas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te nas coisas mais pequenas
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse.
Ainda mais te amarei depois da morte.

II
As minhas cartas! Todas elas frio,
Mundo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
Da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me-era no estio-
Como amiga ao seu lado…Nesta implora
Vir e as mãos me tomar…tão simples!Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou:sou teu e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma…Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara
Se o que então me disseste eu repetisse…

III
Parte: Não te separas! Que jamais
Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante,
Juntos dois corações batem iguais.

Não ficarei mais só. Nem nunca mais
Dona de mim, a mão, quando a levante,
Deixarei de sentir o toque amante
Da tua-ao que fugi. Parte: não sais!

Como vinho, que às uvas donde flui
Deve saber, é quanto faça e, quanto
Sonho, que assim também todo te inclui.

A ti, amor! Minha outra vida, pois
Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.

IV
Ama-me por amor do amor somente
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua. Por que pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Yolanda Morazzo (Cabo Verde, 1926)
BARCOS


Nha terra é quel piquinino
É Sao Vicente é que di meu”

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos…
Canto e sorrio…
A embarcac,ão:
Para o mar!
É para o mar!…
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu…

———-
Alda Lara (Angola, 1930 – 1962)
Presença Africana

E apesar de tudo
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe – África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã – mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!
– A dos coqueiros,
de cabelos verdes,
e corpos arrojados
sobre o azul…
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras…
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas…
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas…
Sim! Ainda sou a mesma
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!… Rua 11!…)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…
Sem dores nem alegrias,
de tronco nú e corpo musculoso
a raça escreve a prumo,
a força destes dias…
E eu, revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente…
Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente… mansamente!…
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!…

Euclides Cavaco
AMOR…FEITO POESIA


.
AMOR
É um conceito divino
É dimensão sem medida
É viagem sem destino
É melodia da vida…

AMOR
É um caminho sem fim
É não ter que perdoar
É não querer e dizer sim
É dar tudo o que há p’ra dar !…

AMOR
É voz da razão que cala
É ter dôr e não sentir
É o silêncio que fala
É ver o mundo sorrir…

AMOR
É sopro de nostalgia
É canção leve e suave
É das trevas fazer dia
É saber de quem não sabe.

AMOR
É bem mais que sentimento
É sussurro de magia
É da alma o alimento…

AMOR
É hoje aqui…Feito poesia !…

Euclides Cavaco
PALAVRAS AO VENTO

.
Sou companheiro do vento
E conto ao vento que passa
Deste mundo o meu lamento
No tempo que se esvoaça …
Conto-lhe da injustiça
Neste mundo praticada
Da maldade e da cobiça
O vento não me diz nada.

Falo da fome e da guerra
Da miséria que se esconde
E dos crimes que há na terra
O vento não me responde…
Quero que leve um recado
De quem ajuda implora
E de quem sofre calado
O vento tudo ignora …

Peço ao vento que se agite
Em prol da humanidade
E que com direito grite
Para os homens liberdade.
Se o vento não me ouvir
Nesta minha petição
Então eu irei pedir
Para o vento maldição !…

Fontes:
http://www.euclidescavaco.com/
http://escritas.paginas.sapo.pt/

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Poesias Soltas ao Vento II

Maria Petronilho
(Como flor à primavera)

Num círculo se fundem
o mar e o céu
num círculo me vejo eu
pequenina no imenso
derivando

nas gotas de orvalho
orlando os gomos fechados
singeleza que conserva
no cerne a folha e a pétala
esperando a primavera
Sol quente ao raiar da aurora
estendo meus braços na espera
de um amor que me transcenda
em mim se abra e eu contenha

Como a flor à primavera!
*****
Maria Thereza Neves
(Alamedas)

nesta orla de verdes em verdes
no silêncio dos passos-pensamentos
sozinha volto a caminhar na placidez do orvalho
na manhã que em mim desponta
no vício das cores do eterno olhar
ecos que minha alma entoa
na grama que rasga as pedras
na chuva que lava a terra
alamedas do meu sentir
nos sentidos que respira a memória
crio as minhas telas
sinfonias em aquarelas
poemas
gravados nas entranhas
que voam como pássaros
ao espaço como as folhas
livres das minhas mãos
regando outras emoções
como flechas espalhadas pelo chão .
******
Marcial Salaverry

(Chamas que chamam)

Assim são as chamas…
Pela água chamam…
E todos a Deus clamam,
e delas reclamam…
Uma floresta em chamas,
ateadas por alguém,
arde sem destino…
Um coração em chamas,
ateadas pelo amor,
arde em desatino…
***
Marcial Salaverry
(O sonho da folha)

E a folha caindo,
viu assim se esvaindo
seu sonho de ser flor,
e com sua cor,
o mundo embelezar…

Fonte:
Varandas das Estrelícias –
http://www.joaquimevonio.com
Colaboração de Douglas Lara. In
www.sorocaba.com.br/acontece

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Poesias Soltas ao Vento

Gruta da Poesia

Alba Albarello (É tempo de vencer)

Tens vergonha
de chorar,
sofrer
dar um sorriso.
Frágil?
Mas quem não é…
Ser como um cristal!
Que pode estilhaçar.
Pense…
Enquanto não quebrar
Brilhe…
Lute!
Mergulhe?
Para se molhar!
Todos procuram
Carinho e afeição.
Sabem…ou
Estão buscando
Vagueiam..a paz
Descendo aos corações.

Gislaine Canales (Liberdade)

Me sinto livre, porque sou amada,
pertenço aos céus e corro como os ventos,
vou flutuando na noite enluarada,
nas doces asas dos meus sentimentos!

Faço da liberdade, a minha estrada,
e dou amor em todos os momentos,
transformando em meu tudo, um quase nada,
e em nada, todos os meus sofrimentos!

No azul do mar, a imagem refletida,
a imagem do meu próprio coração,
num renascer eterno de emoção!

Livre e feliz, eu sigo pela vida,
com mil estrelas a brilhar, converso,
plantando os sonhos meus pelo Universo!

Lígia Antunes Leivas (Os beijos que não esqueci)

Dentro de mim vive o consolo da saudade sentida.

Saudade de teu beijo ardente
de nossos beijos loucos
que nos cansaram o corpo
nos fizeram tolos
na certeza pouca
de que o nunca mais
um dia chegaria.

Ah! teus beijos!.
Adrenalina pura!
Lânguidos
insanos
feitos de romance
de bem, de mal, de tudo;
de sonhos de paixão
de toques de ousadia
do fogo da emoção
do ardor da euforia.

Dentro de mim resta o consolo de sentir saudade.

Vem!
Volta!
Esgota-me com teu beijo!
Renova-me com teu beijo!
Me faz viver de novo
em meio a nossos beijos
desejos tão sentidos!

Deus se faz…

Luiz Eduardo Caminha (Contrastes)

A cor azul turquesa
Faz o contraponto,
Com a palidez
Da linha do horizonte.

Acima de mim, o céu,
Vestido de azul claro,
Espera o manto dourado,
Dos raios vindos do Leste.

A última estrela da manhã
Vê, aos poucos, brilho apagado,
O nascer de um novo dia.

No meio do oceano,
Como uma casca de noz,
Flutuando na lagoa,
Eu sinto o Universo gigante.

Na madrugada de instantes atrás
Relâmpagos e trovoadas,
Faziam da chuva, tormenta
Contrastes da aurora iluminada.

Tantas forças que se opõem!
De noite o vendaval,
De dia, a serena paz.

Não há como negar:
Deus existe! E SE FAZ!!!

Maria Nascimento Santos Carvalho (Excesso de amor)

Amo o sol, amo a lua, o firmamento,
amo os montes, as serras, e arrebóis,
amo a terra, a beleza, o pensamento …
Eu amo loucamente os rouxinóis.

Amo prados, colinas e amo os ventos,
e tudo desta vida passageira,
eu aprendi a amar os sofrimentos
e até mesmo a vizinha faladeira …

Amo as flores, as aves, as florestas,
amo praias, jardins, e os coqueirais,
eu amo a solidão, bem como as festas,
também amo o frescor dos matagais.

Amo a sombra, o silêncio e a harmonia,
amo tudo o que traz felicidade,
o sereno, o ciúme, a cortesia,
amo a cor, amo o amor, e amo a saudade !

Amo o frio da noite enluarada,
amo os rios, o espelho e a amplidão,
amo a vida, sem mesmo ser amada,
porque amo ouvir a voz do coração …

Eu amo o bem – estar da Humanidade,
seguindo o que me ensina a Lei Cristã…
Amo plantar, feliz, na mocidade
uma esperança a mais para o amanhã !

Amo a noite, amo o dia, a madrugada,
a chuva que dá viço a flor do agreste,
o sublime cantar da passarada,
e a vida sossegada do Nordeste…

Amo a fonte, os desertos, os rochedos,
amo a areia e amo a espuma do oceano,
o clarão, amo a réstia, amo os degredos,
e amo as quatro estações de cada ano …

Amo o sonho, o talento, amo a pintura,
a igreja com seu sino a repicar …
Amo o riso depois da desventura
e amo o barulho ouvido à beira – mar …

Amo o som, a ternura, amo a nobreza,
e o pranto quando fruto de emoção,
amo todo o esplendor da Natureza,
eu amo tudo, enfim, sem distinção…

Amo as nuvens com arte e com mesuras,
quando formam no espaço um longo véu …
e as estrelas fazendo travessuras,
mudando de lugar, mesmo no céu …

Eu amo os vegetais, toda a folhagem,
a garra da cigarra cantadeira,
as notas musicais, amo a friagem
e o calor insistente da lareira…

Eu amo o despertar da simpatia,
a velhice e também a juventude,
um semblante que vibra de alegria,
a força de vontade, amo a virtude !

Amo o lirismo, a paz, amo a cultura,
amo o trabalho, a luz e a inteligência,
amo as benesses da literatura,
amo a sabedoria da Ciência …

Eu amo o campo santo, a nostalgia,
E o lazer no descanso após a lida,
e fervorosamente amo poesia …
e amando o Ser Humano … Eu amo a Vida !

Eu amo este Universo imenso e bom
com todo o amor que Deus me concedeu,
pois nem toda Mulher possui o dom
de Amar, com tanto excesso, assim com eu …

Marisa Cajado (Sou a Música)

No contexto do universo
Sou voz em tom expresso
Do som da divindade
Toco os acordes da alma
Que estimula e acalma
O cerne da humanidade

Onde o concerto Divino,
Profundo e Cristalino,
Exprime-se naturalmente,
Alcançando árvores ninhos
As vozes dos passarinhos
No som do eternamente.

Estou na voz do vento,
Suave ou em tormento,
Acompanhando a vida
Desde o princípio da Terra,
Nas lutas que ela encerra,
A dar-lhe paz e guarida.

Inspirei o guerreiro iludido
Também o homem vencido
Porque, a minha missão
É de acordar a grandeza
Que dormita na fraqueza
Dos pobres de coração.

Em tantos hinos de glórias,
Exaltei muitas vitórias,
Nas ilusões que traduzem.
Até, o homem encontrar
O vórtice angular
Representado nas cruzes.

Então, em elevação
A alma sem divisão,
Retornará ao seu lar.
Sou a música que embala
Enquanto à sua alma fala:
Amigo, Viver é amar!

Tchello d’Barros (A flor da pele)

O Amor-perfeito veio
Nascer na tela do artista
E nasceu em nossos olhos
Amor à primeira-vista

As Avencas hoje dançam
Ao vento que vem soprar
Essa brisa diz-me algo
Vem teu nome sussurrar

As Azaléias formosas
Fazem sombra pro besouro
E sem sombra de dúvida
Nosso amor é um tesouro

As Acácias abraçadas
Tão juntinhas neste ramo
Olho dentro dos teus olhos
Então digo que te amo

As Adálias tão formosas
Parecem obras de arte
E bate forte o meu peito
Simplesmente por amar-te

Os Antúrios corações
Lá no jardim à crescer
Bate-bate e faz tum-tum
Cada vez que vou te ver

Os Agapantos ao vento
Como azuis olhos de Venus
Com afagos e carícias
Assim nós nos amaremos

As Begônias são a causa
De um jardim tão colorido

Sem teu amor minha vida
Não teria algum sentido

As Bromélias são encanto
Magia de belos matizes
Essa paixão é o feitiço
Que nos faz sorrir felizes

As Camélias tem um ar
De quem vibra de paixão
Escrevo hoje teu nome
No livro do coração

Oh Crisântemos divinos
São as flores de um adeus
Jamais morre esta chama
Que me une aos olhos teus

Os Cravos estavam tristes
Pois o sol havia se posto
Vi nas nuvens deste céu
O desenho do teu rosto

A Flor-de-Liz e suas cores
São matizes da beleza
Mantemos em nosso peito
A chama do amor acesa

Os Gerânios nos jardins
Ornamentam a cidade
Assim é o nosso amor
Jardim de felicidade

A Gérbera apaixonada
Na primavera nascia
Em mim nasceu o amor
Que renasce à cada dia

Os Girassóis apaixonados
Sorriam ao astro-rei
Te amarei eternamente
Jamais te esquecerei

Os Hibyscus perfumavam
O vento do entardecer
Meu coração será teu
Cada vez que ele bater

As Hortências tão sublimes
De fragrância tão pura
Mais sublime é nosso amor
Puro afeto e ternura

Os Ipês na primavera
Vestem traje amarelo
Teu amor vestiu meu mundo
De um sonho doce e belo

O Jasmin enamorado
Floresceu até que enfim
O romance de nós dois
Tem começo e não tem fim

Os Lírios perto do mar
Inesquecível paisagem
Assim é o teu semblante
Em sonho vi tua imagem

Nos Lisiantus do jardim
Pisca-pisca um vagalume
O teu amor me completa
Como a flor e seu perfume

As Margaridas não mentem
Respondem à quem quiser
Perguntei de nosso amor
Terminou em bem-me-quer

A Miosótis tão singela
Sempre me enterneceu
Estarei junto de ti
Sempre sempre ao lado teu

As Orquídeas com seu néctar
Onde pousa o beija-flôr
Nesses lábios pousam beijos
Também a palavra amor

As Petúnias se destacam
No céu de azul profundo
Te quero muito meu amor
Mais que tudo neste mundo

As Prímulas elegantes
Como asas de querubim
No céu brilha o arco-íris
Como este amor sem fim

A Rosa disse ter visto
Borboletas no jardim
E falou do teu amor
A melhor parte de mim

As Tulipas são tão raras
Tão difíceis de encontrar
Encontrei o meu amor
E meu destino é te amar

As Violetas violácias
Ou da mesma cor do céu
Não acaba este beijo
Com doce sabor de mel

Fonte:

Colaboração de Iara Melo
Gruta da Poesia – Nº 07 da 2ª série – Abril de 2008
http://www.caestamosnos.org/Revista_A_Gruta_da_Poesia/08.html

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Folhas Avulsas (Redação de Aluna do Curso de Letras)

Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco – (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida.

E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.

O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fonte:

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