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Nilto Maciel (Contos Reunidos)

Artigo por Taize Odelli

É estranho começar a ler uma reunião de contos de determinado autor a partir de seu segundo volume, assim como se começasse a ler uma saga da metade da história em diante. Mas não tenho culpa alguma se os livros nunca me aparecem na ordem correta.Nilto Maciel me enviou seus Contos Reunidos: Volume II, e assim tive contato com mais um trabalho partindo da metade. Mas isso deve ser normal para muitos outros leitores. Publicado em 2010 pela editora Bestiário, o livro reúne textos de três outras publicações do autor cearense: As Insolentes Patas do Cão(1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).

Em textos geralmente curtos e lineares, Nilto Maciel aborda histórias corriqueiras e também fantasias simples que fazem parte do imaginário popular das pequenas cidades. O autor vai dos desejos de homens feitos e suas frustrações sexuais à descoberta inocente da sexualidade de jovens adolescentes (às vezes não tão inocentes assim). Narra uma história inteira pelos olhos de um cão ou outro animal. Conta as investidas intelectuais de escritores e professores, cria personagens perdidas no mundo dos sonhos, encerramento de muitos de seus contos. Seus textos oscilam entre a malícia e a inocência, mas sempre com um toque melancólico.

Em alguns textos, Nilto Maciel confunde o leitor quanto ao tempo ou lugar de suas histórias. Um conto passado em São Paulo, cidade grande, nos tempos atuais pode parecer estar ambientado no interior do estado, em uma cidadezinha minúscula ou também em épocas passadas, onde as pessoas se falavam mais e se importavam mais com a vida das outras. As ruas secas e empoeiradas do interior nordestino também são evocadas pelo autor, lembrando personagens cômicas e caricatas que costumamos ver nas adaptações para a TV. Personagens que por vezes se repetem, pois suas histórias não cabem apenas em um conto só – é o caso da beata que, em um segundo conto, tem um filho e emplaca mais um mistério em sua cidade. E há espaço para aqueles que já existiam, protagonistas de momentos históricos ou outros romances – como Dalila, um inusitado encontro entre Ícaro e Santos Dumont, um pesadelo de Pôncio Pilatos e muitos outros casos de personagens conhecidas.

Vários gêneros se misturam nos três livros reunidos neste único volume: policial, ficção científica, fantasia, história, mas todos abordados de maneira a identificar o autor. Então o leitor percebe que a história da criança que se assusta com o cão, do homem que aprende a ser ventríloquo para passar cantadas, do faxineiro que dorme no confessionário, o que cria um tigre para matar a mulher e do professor que nunca terminou de escrever um livro são, apesar de personagens e temas totalmente distintos, frutos da cabeça da mesma pessoa. Ele criou uma gama tão abrangente de histórias que é impossível numerar todas aqui, ainda mais porque ele resolveu experimentar diversos caminhos para determinado tema, às vezes fantásticos, irreais ou estranhos, outras mais concretos, com o pé no chão.

Contos Reunidos traz um apanhado vasto de histórias para serem lidas, com ou sem ordem. O leitor escolhe a melhor maneira de ler os contos de Nilto Maciel, de uma vez só ou em pequenas doses, tanto faz. Essa coletânea apresenta em cada virada de página uma nova história, um novo universo, e apesar de reconhecer o autor em cada uma delas – algo que acontece depois de certas páginas lidas – pode ser complicado memorizar cada conto lido, lembrar de todos os detalhes. Mas justamente essa fragmentação de histórias faz dos textos de Maciel fáceis de retornar, reler e armazenar a informação.

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