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Mensagens em Imagens n.4 – Antoine Saint-Exupery

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6 de setembro de 2013 · 23:21

Paul Verlaine (A Uma Mulher)

Pintura de Richard Johnson
França, 1844-1896
Pra vós são estes versos, pra consoladora
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho
Doce, pra vossa alma pura e sempre boa,
Versos do fundo desta aflição opressora.

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento,
Multiplica-se como um cortejo de lobos
E enforca-se com o meu destino que ensanguenta!

Ah! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido
Desse primeiro homem expulso do Paraíso
Não passar de uma écloga à vista do meu!

E os cuidados que vós podeis ter são apenas
Andorinhas voando à tarde pelo céu
— Querida — num belo dia de um Setembro ameno.

Fonte:
http://www.citador.pt/poemas/a-uma-mulher-paul-verlaine

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Charles Baudelaire (Perfume Exótico)

Pintura de Richard Johnson
França, 1821-1867

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d’um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulheres cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume sutil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh’alma à voz dos marinheiros.

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Jean Lorrain (Os Buracos da Máscara)

De Jean Lorrain (1855-1906), escritor maldito da Paris fim-de-século (homossexual e bebedor de éter — nos tempos em que a ostentação desses costumes era bem mais escandalosa do que hoje), este conto sobre as máscaras e sobre o nada tem uma força incomum de pesadelo, sobretudo porque o narrador consegue contemplar a desaparição de si mesmo.
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“Você quer ver”, meu amigo De Jakels me dissera, “está bem, arranje uma fantasia de dominó e uma máscara, um dominó bem elegante de cetim preto, calce uns escarpins e, desta vez, meias de seda preta, e espere-me em casa na terça-feira. Irei pegá-lo por volta das dez e meia.”

Na terça-feira seguinte, envolto nas pregas farfalhantes de uma longa cama-lha, com a máscara de veludo e barba de cetim presa atrás das orelhas, esperei meu amigo De Jakels na minha garçonnière da rua Taitbout, enquanto esquentava nas brasas da lareira meus pés arrepiados pelo contato irritante da seda; lá de fora, chegavam-me do bulevar, confusamente, o som das cometas e os gritos desesperados de uma noite de Carnaval.

Pensando bem, era um tanto estranha e até inquietante, a longo prazo aquela festa solitária de um homem mascarado afundado numa poltrona, no claro-escuro de um térreo atulhado de bibelôs, ensurdecido por tapeçarias, e com espelhos pendurados nas paredes, refletindo a chama alta de uma lamparina de querosene e o bruxulear de duas velas compridas muito brancas, esbeltas, como que funerárias; e De Jakels não chegava. Os gritos dos mascarados espocando ao longe agravavam mais ainda a hostilidade do silêncio, as duas velas queimavam tão retas que acabei tomado por um nervosismo e, de súbito apavorado com aquelas três luzes, levantei-me para ir soprar uma delas.

Nesse momento um dos cortinados da porta se abriu e De Jakels entrou.

De Jakels? Eu não tinha ouvido tocar a campainha nem alguém abrir. Como ele se introduzira no meu apartamento? Desde então pensei muito nisso; mas finalmente De Jakels ali estava, na minha frente. De Jakels? Bem, uma longa fantasia de dominó, uma grande forma escura, velada e mascarada como eu:

“Está pronto?”, interrogou sua voz, que não reconheci. “Meu carro está aí, vamos embora.”

Eu não tinha ouvido seu carro chegando nem parando defronte das minhas janelas.

Em que pesadelo, em que sombra e em que mistério eu começara a descer?

“É o capuz que está tapando os seus ouvidos, você não está acostumado com a máscara”, pensava em voz alta De Jakels, que havia penetrado no meu silêncio: ou seja, naquela noite ele tinha o dom da adivinhação. E, levantando meu dominó, verificava a delicadeza de minhas meias de seda e de meus finos sapatos.

Esse gesto me serenou, era mesmo De Jakels e não outra pessoa que, de dentro daquele dominó, falava comigo; um outro não estaria sabendo da recomendação que De Jakels me fizera uma semana antes.

“Pois bem, vamos embora”, a voz ordenava, e, num farfalhar de seda e de cetim sendo amassado, nos embrenhamos no corredor até a porta-cocheira, bastante parecidos, tive a impressão, com dois enormes morcegos, pelo esvoaçar de nossas camalhas subitamente levantadas acima de nossos dominós.

De onde vinha aquele vento forte? Aquele sopro do desconhecido? O clima naquela noite de terça-feira de Carnaval estava ao mesmo tempo tão úmido e tão ameno!

II.

Por onde andávamos agora, encolhidos no escuro daquele fiacre extraordinariamente silencioso, cujas rodas não faziam mais barulho do que os cascos do cavalo pelas ruas calçadas de madeira e pelo macadame das avenidas desertas?

Aonde íamos ao longo daqueles cais e daquelas margens desconhecidas mal iluminadas aqui e ali pela lanterna embaçada de um velho poste? Já havia muito tempo que tínhamos perdido de vista a fantástica silhueta da Notre-Dame delineando-se do outro lado do rio contra um céu de chumbo. Quai Saint-Michel, Quai de la Tournelle, e até mesmo Quai de Bercy, estávamos longe da avenida de l’Opéra, das ruas Drouot, Le Peletier e do centro. Não íamos nem sequer ao Bullier, onde os vícios vergonhosos costumam fazer suas assembléias, e, escapando de trás das máscaras, turbilhonam quase demoníacos e cinicamente às claras nas noites de Terça-Feira Gorda. E meu companheiro mantinha-se calado.

À beira daquele Sena taciturno e pálido, sob o arco de pontes cada vez mais raras, ao longo daqueles cais com grandes árvores mirradas de galhos afastados como os dedos da morte, invadia-me um medo insensato, um medo agravado pelo silêncio inexplicável de De Jakels; cheguei a duvidar de sua presença e a acreditar que estava ao lado de um desconhecido. A mão de meu amigo havia segurado a minha, e, ainda que mole e sem força, agarrava-a num tornilho que esmigalhava meus dedos… Essa mão de força e vontade imobilizava minhas palavras na garganta e sob seu aperto eu sentia se derreter e dissolver qualquer veleidade de revolta; agora rodávamos fora das fortificações, por estradas largas margeadas de cercas e de lúgubres vitrines de vendedores de vinho, biroscas havia muito tempo fechadas, nos arredores da cidade; andávamos à luz da lua que, finalmente, acabava de morder um bando de nuvens e parecia espalhar na ambígua paisagem de subúrbio uma camada crepitante de mercúrio e de sal; nesse momento tive a impressão de que as rodas do fiacre, deixando de ser fantasmas, gritavam entre as pedras do calçamento e o cascalho do caminho.

“É aqui”, murmurou a voz de meu companheiro, “chegamos, podemos descer.” 

E quando balbuciei um tímido: “Onde estamos?” 

“Barreira d’Italie, fora das fortificações, pegamos o caminho mais longo, mas o mais seguro, amanhã voltaremos por outro.” 

Os cavalos pararam e De Jakels me largou para abrir a portinhola e me dar a mão.

III.

Uma ampla sala muito alta, de paredes caiadas, e nas janelas postigos internos hermeticamente fechados; em todo o comprimento da sala, mesas com copinhos de estanho presos por correntes, e, no fundo, três degraus acima, o balcão de zinco abarrotado de licores e garrafas com os rótulos coloridos dos lendários comerciantes de vinho; ali em cima o gás assobiando alto e claro. Em suma, a sala banal, se não mais espaçosa e mais limpa, de uma taverna das barreiras, cujos negócios iriam bem.

“Acima de tudo, nem uma palavra com quem quer que seja, não fale com ninguém e responda menos ainda; eles veriam que você não é dos deles e poderíamos passar por um mau momento. A mim, eles conhecem.” E De Jakels me empurrou para a sala.

Algumas pessoas com máscaras ali bebiam, espalhadas. Quando entramos, o dono do estabelecimento se levantou e, pesadamente, arrastando os pés, veio até a nossa frente como para impedir nossa passagem. Sem uma palavra, De Jakels levantou a barra de nossos dois dominós e lhe mostrou nossos pés calçando finos escarpins!

Com certeza era o “abre-te sésamo” daquele estranho estabelecimento; o patrão voltou pesadamente para o seu balcão e percebi, coisa estranha, que também usava máscara, mas uma feita de papelão grosseiro burlescamente iluminada, imitando um rosto humano.

Os dois garçons, dois colossos peludos com as mangas de camisa arregaçadas até seus bíceps de boxeadores, circulavam calados, eles também invisíveis, com a mesma máscara horrorosa.

Os raros fantasiados, que bebiam sentados em volta das mesas, estavam com máscaras de cetim e veludo, com exceção de um enorme couraceiro fardado, espécie de brutamontes de maxilar pesado e bigode fulvo, sentado à mesa perto de dois elegantes dominós de seda malva, e que bebia de rosto descoberto, com os olhos azuis já vagos; nenhuma criatura que ali se encontrava tinha um rosto humano.

Num canto, dois grandalhões com blusas e bonés de veludo, máscaras de cetim preto, intrigavam por sua elegância suspeita; pois suas blusas eram de seda azul-clara e, de suas calças novas em folha, escapuliam dedos finos de mulher, envoltos em seda e dentro de escarpins. E, como que hipnotizado, eu ainda estaria contemplando aquele espetáculo se De Jakels não tivesse me arrastado para o fundo da sala, para uma porta envidraçada fechada por uma cortina vermelha. “Entrada do baile” estava escrito no alto dessa porta, em letras rebuscadas de um aprendiz de pintura; aliás, um vigia municipal montava guarda ali do lado. Era, quando nada, uma garantia, mas, ao passar, esbarrei na mão dele e percebi que era de cera, de cera assim como seu rosto rosa eriçado por bigodes postiços, e tive a horrível certeza de que a única criatura cuja presença iria me sossegar naquele local de mistério era um simples manequim.

IV.

Quantas horas fazia que eu perambulava sozinho no meio das máscaras silenciosas, naquele galpão abobadado como uma igreja? E era de fato uma igreja, uma igreja abandonada e secularizada, aquela vasta sala de janelas ogivais, a maioria delas muradas até o meio, entre suas colunas de arabescos pincelados com um reboco espesso amarelado, no qual se afundavam as flores esculpidas dos capitéis.

Estranho baile, onde não se dançava e onde não havia orquestra. De Jakels tinha desaparecido, eu estava sozinho, abandonado no meio daquela turba desconhecida.

Um lustre velho de ferro batido flamejava forte no alto, pendurado na abóbada, iluminando as lajes empoeiradas, algumas das quais, cheias de inscrições, talvez cobrissem túmulos. Ao fundo, no lugar onde certamente devia ter reinado o altar, havia, penduradas a meia altura na parede, manjedouras e grades, e nos cantos, pilhas de arneses e cabrestos esquecidos; o salão de baile era uma estrebaria.

Aqui e ali grandes espelhos de barbearias emoldurados de papel dourado refletiam um no outro o silencioso passeio das máscaras, bem, quer dizer, já não refletiam, pois agora todos estavam sentados, enfileirados e imóveis dos dois lados da igreja, enterrados até os ombros nas velhas estalas do coro.

Ali ficavam, mudos, sem um gesto, como que recolhidos no mistério debaixo de cogulas compridas de lã prateada, um prateado fosco sem reflexos; pois não havia mais dominós, nem blusas de seda azul, nem Arlequins nem Colombinas, nem fantasias grotescas. Mas todas aquelas máscaras eram parecidas, envoltas no mesmo traje de um verde-desbotado tirante ao amarelo-enxofre, com grandes mangas pretas, e todos encapuzados de verde-escuro, e no capuz de suas cogulas prateadas, os dois buracos para os olhos.

Davam a impressão de faces de leprosos, cor de giz, e suas mãos enluvadas de preto erguiam uma longa haste de lírios pretos com folhas verde-claras, e seus capuzes, como o de Dante, eram coroados de flores-de-lis pretas.

E todas aquelas cogulas se calavam numa imobilidade de fantasmas, e, acima de suas coroas fúnebres, a ogiva das janelas recortando-se claramente contra o céu branco do luar cobria-os como uma mitra de bispo.

Eu sentia minha razão soçobrar no pavor; o sobrenatural me embrulhava! A rigidez, o silêncio de todos aqueles seres mascarados. O que eram? Um minuto de incerteza a mais, seria a loucura! Eu já não agüentava, e, com a mão crispada de angústia, adiantei-me para uma das máscaras e levantei abruptamente sua cogula.

Horror! Não havia nada, nada. Meus olhos apavorados só encontraram o oco do capuz; a túnica e a camalha estavam vazias. Aquele ser que outrora viveu não era mais que sombra e nada.

Alucinado de terror, arranquei a túnica do mascarado que se sentava na estala vizinha, o capuz de veludo verde estava vazio, vazio o capuz das outras máscaras sentadas ao longo das paredes. Todos tinham faces de sombra, todos eram nada.

E o gás queimava mais forte, quase assobiando na sala alta; pelas vidraças quebradas das ogivas o luar cegava; então me invadiu um horror no meio de todos aqueles seres vazios, de aparências vãs, diante de todas aquelas máscaras vazias uma dúvida atroz confrangeu meu coração.

E se eu também fosse parecido com eles, se também tivesse deixado de existir, e se sob a minha máscara não houvesse nada, nada senão o nada! Precipitei-me para um dos espelhos. Uma criatura de sonho ergueu-se diante de mim, encapuzada de verde-escuro, com uma máscara de prata, coroada de flores-de-lis pretas.

E aquela máscara era eu, pois reconheci meu gesto na mão que levantava o capuz e, boquiaberto de pavor, dei um grito imenso, pois não havia nada sob a máscara de tela prateada, nada no oval do capuz, a não ser o buraco de tecido arredondado no espaço vazio. Eu estava morto e eu…

“E você bebeu éter novamente”, repreendia em meu ouvido a voz de De Jakels.

“Curiosa idéia para enganar o tédio enquanto me esperava.” Eu estava estirado no meio de meu quarto, meu corpo arrastado para o tapete, a cabeça encostada numa poltrona, e De Jakels, de traje a rigor debaixo de uma túnica de monge, dava ordens febris a meu mordomo horrorizado; em cima da lareira as duas velas acesas, chegando ao fim, estalavam nas arandelas e me acordaram… Já era tempo.

Fonte:
CALVINO, Ítalo (organizador). Contos fantásticos do século XIX : o fantástico visionário e o fantástico cotidiano. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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