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Afonso Felix de Sousa / GO (As Engrenagens do Belo)

Afonso Félix de Sousa (GO)

dedicado a Rosário Fusco

I

Se a seta da beleza nos acerta
e em êxtase pairamos de repente,
Que mão ou que inefável nos desperta
da vida e sua lógica inclemente?

Cada manhã o mesmo sol nos cobre
e sempre o mesmo é o ar de que vivemos.
A alma se encolhe, cada vez mais pobre.
A boca, já nem sabe o que comemos.

Olhamos no jardim flores murchando
e no pomar nem nos importam frutos.
As horas morrem, nem sabemos quando.

Rendemos (e a que reis!) honra e tributos.
De súbito de nós nos ressurgimos:
O belo vem do sol do que já vimos.

II

O belo vem do sol do que já vimos,
em nós e sobre nós mantendo acesa
nossa alma a equilibrar-se em seus arrimos
de formas e quinhões da natureza.

Do núcleo desse sol descem imagens,
que expostas frente a nós e contrapostas
uma a outra desdobram-se em paisagens
de angras ou de vergéis, de céus, de encostas…

Imersos, a seguir esse cortejo
de imagens ora claras, ora em fumo,
no fim já nem sabemos a que ensejo

bebemos da emoção em febre o sumo.
E o belo vindo a nós como em sigilo,
Sentímo-lo, mas como transmiti-lo?

III

Sentímo-lo, mas como transmiti-lo,
esse frêmito, a alguém, se é regra termos
também ao ver e ouvir um nosso estilo
e projetarmos sombras de ilhas, de ermos?

Tanta coisa em comum: instintos, fala.
Vamos, um de outro, cada vez mais perto,
e ao nos calarmos, do silêncio exala
o hálito de quem prega no deserto.

Quão próximos um do outro, e quão distantes,
no abraçar, quão pouco o abraço abarca.
Tudo como se em grei de semelhantes

Cada um levasse à fronte a própria marca.
E mesmo o nosso ser, se o descobrimos,
Pisamos ora abismos, ora cimos.

IV

Pisamos ora abismos, ora cimos,
por mantermos nos pés pássaros tontos.
Um passo a mais – se não nos sucumbimos,
já o próximo hesita entre dois pontos.

Um pé pisando o sonho e o outro o provável,
do que há de vir adiante nos perdemos.
O mar convida com seu dorso instável
a singrá-lo, e ilusões são nossos remos.

Se subimos, aguardam-nos descidas
e o chão pode fugir aos nossos passos.
Descemos, o horizonte são subidas,

e no alto nos esmagam os espaços.
Mundo belo e falaz… Ao vê-lo e ouvi-lo,
o olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo.

V

O olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo,
que os olhos, nesse câmbio ou livre jogo,
sem nunca se deter nisto ou naquilo,
têm no seu centro essências de água e fogo.

Se eles fechamos, salta do invisível
e seus porões de adormecidas brasas,
um território a erguer-se ao plano, ao nível
daquele a que se vai com nossas asas.

E o invisível, no que será o centro
de nós, se mostra em formas, cenas, vultos
girando num caleidoscópio dentro

de nós, em planos claros, bem que ocultos.
Mas do que vemos e é por nós aceito,
pouco nos toca o inédito e o perfeito.

VI

Pouco nos toca o inédito e o perfeito
quando o que é novo é por si só o novo
sem ter com que ferir-nos a alma e o peito,
sem o pulsar de um túmulo ou de um ovo.

E o que é perfeito é como o fruto exausto
que cai da árvore mais do que maduro,
a si mesmo se dando em holocausto
por se bastar no seu esmero puro.

Mas nós, trazendo às costas nossa história
de erros a gerar erros; nós, expulsos
do Paraíso, nós somos a memória

de árduas jornadas, com grilhões nos pulsos.
E o perfeito não é da alma repasto,
se a perfeição se erige em templo gasto.

VII

Se a perfeição se erige em templo gasto
(gasto – que não se pense em tempo, danos –
gasto por nada mais dizer no vasto
domínio em que se erguera um dia, há anos),

acaba por cansar-nos… É que ilude
um céu de muito azul, onde encontramos
por instantes o gozo, a plenitude,
e em pouco mais, são outros os reclamos

do coração saciado. Que a nós venha
um outro céu de nuvens e tristezas,
e assim de nossas almas o céu tenha

as cismas e a linguagem a ele presas.
O antes não visto em nós não faz efeito,
se o inédito a si mesmo está sujeito.

VIII

Se o inédito a si mesmo está sujeito
e surge qual de planta sem raízes,
traz todos os sinais do que foi feito
e não do que se criou, nos seus matizes.

Terá do belo o tom, e até o canto
de música ritmada em sons forjados,
que ouvimos como a ouvir um contracanto
de pássaros sutis, mas ensinados.

Terá do belo a plástica, o contorno,
e nuanças de paisagens longe, belas,
a fazer-nos erguer um olhar morno

de quem olha miragens sem crer nelas.
Far-se-á do sonho lúbrico, mas casto,
além de ser a sua sombra e rasto.

IX

Além de ser a sua sombra e rasto,
tem de Narciso a converter-se em templo
de si mesmo, quem faz de espelho e pasto
o próprio ser e a si tem como exemplo.

O travo solitário, o de um eunuco,
sobre seu peito é vácuo, é tédio, é peso.
Da vida o que ele extrai é neutro suco
De acre ou nenhum sabor a que vai preso,

E seus passos, seus passos indo em torno
de si mesmo, ressoam no vazio.
Se ama, mesmo no amor o ardor é morno;

se abre-se em flor, é flor de hálito frio.
E a nós, de alma votada ao que é complexo,
pouco nos toca a rosa com seu nexo.

X

Pouco nos toca a rosa com seu nexo
se as pétalas não têm por alma gêmea
o viço das auroras e, em anexo,
as vibrações da pele de uma fêmea.

O que há por trás da rosa – a carnadura,
a seiva e os tons de arco-íris seqüestrados –
é que a mergulha em favos de doçura
e vida lhe insinua aos rendilhados.

Um corpo de mulher, se nele vemos
tantas formas captadas à beleza,
não baste o culto a esses dons supremos

de Deus-Consolação á natureza.
Nele busquemos mais que a aura vazia
de pétalas e cor em harmonia.

XI

De pétalas e cor em harmonia
forma-se a rosa, e nela o odor e a essência
são porções da peçonha em que se cria
já no contorno o breve da existência.

Um corpo de mulher, na área do busto
enroscam-se nos ombros, nas axilas
e entre os seios, serpentes que sem susto
seguimos, como ao charme das pupilas.

Que seus caminhos levem-nos ao ventre
e o silvo agudo ao deslizar no bosque
da redenção, ao fim do qual se adentre

o que em nós é serpente – e ali se enrosque.
Que ali se sagra o amor, mas desconexo
se não traz de outras rosas o reflexo.

XII

Se não traz de outras rosas o reflexo,
que pode a rosa dar de estrume ao homem?
Pensemos em Adão no Éden, perplexo
ante flores que os dias não consomem.

Rosa, rosa do sexo, as suas garras
de ventosas e céus de êxtase plenos,
movendo o homem prende-o nas amarras
de um barco que fundeou na onda de Vênus

– onda em que surge a súmula do belo
e onde ressoa o canto das sereias.
Dessas amarras parte o fio ou elo

de luz que vem buscar as nossas veias.
Rosa, rosa do amor, o amor esfria
se ela não se abre em rosas de outro dia.

XIII

Se ela não se abre em rosas de outro dia
seu existir efêmero é a morte
e nem ao neutro sol da geometria
o que a faz bela não terá suporte.

Falam-nos vozes, vozes do passado;
de quanto amamos queima-nos o fogo;
o coração no peito, aprisionado,
de baque a baque enfrenta a vida, ao jogo

em que se apraz, de impulso contra impulso.
A sermos nós, nós somos o que fomos,
embora pulse em nós um ser avulso

a dar ao nosso ser proibidos pomos.
Cegos podemos ver, surdos ouvimos,
se a tudo cobre o sol do que sentimos.

XIV

Se a tudo cobre o sol do que sentimos,
chegamos mesmo à zona mais sombria
que há em nós, e por nossa, compartimos
em formas, cores, música, poesia.

Cecília a sussurrar seu eu profundo,
Vinicius em seresta ao próprio enterro,
Drummond domando a máquina do mundo,
Darcy buscando em seus acertos o erro.

E assim nos vemos, deslumbrados, bobos,
frente a um Goeldi, Guinard, Santa, Pancetti
ou Portinari; ou quando Villa-Lobos

os sons imersos no seu ser repete.
Se a tudo cobre o sol e ao sol seguimos,
o belo está no belo que já vimos.

XV

O belo vem do sol do que já vimos.
Sentímo-lo, mas como transmiti-lo?
Pisamos ora abismos, ora cimos.
O olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo.

Pouco nos toca o inédito e o perfeito,
se a perfeição se erige em templo gasto,
se o inédito a si mesmo está sujeito
além de ser a sua sombra e rasto.

Pouco nos toca a rosa com seu nexo
de pétalas e cor em harmonia,
se não traz de outras rosas o reflexo,

se ela não se abre em rosas de outro dia.
Se a tudo cobre o sol do que sentimos,
o belo está no belo que já vimos.

Fonte:
Coroas de Sonetos.

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II Encontro Nacional de Escritores e Poetas em Caçu (21 e 22 de abril)


Tenho o prazer de convidá-lo para participar das atividades do II Encontro Nacional de Escritores e Poetas em Caçu dias 21 e 22 próximos (sábado e domingo), observando-se a seguinte programação:

I – Sábado, dia 21, às 19 horas:

– Confraternização dos escritores visitantes na Pizzaria Birosk, à Praça Joaquim Rodrigues, ao lado do Colégio Municipal. O fato marcará o décimo aniversário da Alesg-Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás;

II – Domingo, dia 22, às 8h:

– Visita e leitura de poemas da Árvore da Poesia do Lago, ao lado do conjunto Arco Iris;

III – Domingo, 22, em seguida à visita à Ávore da Poesia do Lago:

– Deslocamento para o Centro Cultural Rozenda Cândida Guimarães, para a visitação à exposição de artes plásticas (óleo sobre tela e retratos em grafite), obras de artistas cassuenses;

IV – Domingo, em continuidade à visitação à Galeria de Artes, no auditório do Centro Cultural:

– Momento de integração cultural dos participantes de Cassu com os convidados visitantes, incluindo a apresentação de números artísticos musicais e literários;

V – Domingo, 22, às 15h, no auditório do Centro Cultural:

– Solenidade de instalação da Governadoria da Associação Internacional de Poetas Del Mundo em Goiás, com posse da primeira diretoria.

A solenidade será dirigida pela presidente da Associação Internacional de Poetas Del Mundo, Delasnieve Daspet.

Na oportunidade haverá comunicações oficiais de interesse literário aos Poetas Del Mundo e comunidade em geral e serão prestadas algumas homenagens a personalidades benfeitoras da cultura em geral e da literatura em particular;

VI – Domingo, 22, às 18 horas:

– Deslocamento dos escritores e poetas para a cidade de Itarumã, saída do comboio da Praça Bianor Vicente de Souza, de frente para o Banco do Brasil e Câmara Municipal.

Para os escritores que preferirem, haverá um ônibus da Prefeitura de Cassu à disposição para conduzirem os escritores de ida para Itarumã e de regresso para Cassu;

VII – Domingo, dia 22, às 19h, em Itarumã:

– Solenidade de instalação da ALB, com diplomação e posse de novos acadêmicos de cidades goianas e de outros Estados do Brasil, já confirmados Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

– A solenidade será dirigida pelo presidente nacional da ALB, Prof. Dr. Mário Lopes Carabajal;

– Solenidade de instalação da Aloita-Academia de Letras e Ofícios de Itarumã, com diplomação e posse;

– Ao final da solenidade, retorno da Caravana de Cassu;

VIII – Segunda feira, dia 23, às 9h, em Aparecida do Rio Doce:

– Na Câmara Municipal, solenidade de instalação da ALB, com diplomação e posse de acadêmicos de Aparecida do Rio Doce;

– Solenidade de instalação da Aloard-Academia de Letras e Ofícios de Aparecida do Rio Doce.

José Faria Nunes
Presidente Estadual da Academia de Letras do Brasil/ Goiás

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Gabriel Nascente (Caldeirão Poético: Goiás)


A NINFA DA AMÉRICA

À cidade de Goiânia, meu berço.

Aqui
é a terra de costas para o mar,
das alvas e vermelhas casuarinas
debruçadas sobre os muros.

Aqui é Goiânia:
levante dos Ludovico
& dos Caiado.
Flor-menina
da América,
noiva do porvir.

Aqui é Goiânia:
cidade-brinco dos postais,
poema-sonho dos gerais.

O verde é o seu tesouro.
O crepúsculo, o seu ouro.

O sol se despetala
o ano inteiro.

A primavera é o glamour
de suas auroras.

Terremoto de exóticas belezas
nas esquinas e nos shoppings
Em cada praça, um rastro de perfume
enlouquece os ares.

A paisagem é bêbada de verão.
(Chuva é valsa de lumes
nas pálpebras da terra).

Goiânia, meu chapéu de bronze
dos cerrados,
odisséia das enxadas,
filha das carabinas
e do boi.

Galante estrela do Oeste,
eu te saúdo
das fraldas do meu leito:
aboios da minha terra.

MAR: A MAGIA DO ABISMO

I

Voragem de vagas
nos olhos: o mar
batendo.
Frêmito de ondas,
bátega de águas.
Chicote de salinas
no casco dos veleiros.
(Do tumulto dessas águas
já fui velho passageiro!)

II
Pela montanha (escarpa acima),
espíritos ruminam, indigestos.
Cheiro de formol nas narinas,
o mar batendo: tanque de monstros,
fantasmas de alumínio!

III
Sacudi as ancas na areia,
fui ao cinema com uns versos de
Petrarca na língua.
e a musa Nereida
dos arrecifes,
legislava (inobre e
sonora)
a fuga
das gaivotas.

AS FUGAS DO FUGAZ

É breve a pomba no bico da torre.
é breve a nuvem – o breve choro da
guitarra.

A paz
do conchoso rio,
de orlas cor de estanho.

É breve este sol nos juncos.
É breve a sombra atrás da casa,
no dorso das formigas.
a pálida flor,
carcomida.

A hora (de tão lenta),
também despenca.

Aqui
coloco minha pedra: sou breve.
E venho das turbas periféricas,
cheio de vascas e de mágoas,
à flor dos logos.

Reticência…
eu grifo os fados do mal fado. Oro,
e não me orno.

As donzelas eram breves.
Eram breves as goiabas.
Os dedos da natureza, a tarde,
nos fugines do breve – fúlmen

NO BEIRAL DE UM ADEUS ANÔNIMO

Do outro lado do meu nariz
está o morto. E o nariz do morto
engolindo bálsamo, tem cheiro
de velas danificadas.

O pávido pavio
derretia a luz:
o torso era
de cera.

E dançava, triste,
o lume da fumaça /
no cenho dos entes/
velando
a hora partida,
da vida ida?

O Sol ia chegando, com suas barbas
de prata,
na garupa de um bicicleteiro.

Pu, que lembrança mostodôntica.

Era o dia das mães.
—Ei moço, me dá essa rosa aí,
vestida de sangue!

A voz do bêbado
vibrava gongos.

E o morto,
encerrado na escuridão
de sua claridade,
ali, não (ou-via?) as pombas
no amanhecer,

nem a peleja dos garis
agarrados à varrição,

enquanto
lutuosos olhos
eram esfregados
pelos dedos da insônia,
fedendo a nicotina.

O VÔO DAS METÁFORAS

Havia um sol espatifado
entre as dores da ferragem.

Havia um picolezeiro
fabricando
vitrines de gelo.

Havia um strip-tease
de lua
na cabeça dos pára-raios.

E um tremor de caminhões
no bolo de aniversário

Havia um zumbir de abelhas
no cabo dos punhais.

E um navio encalhado
no coração das fragas.

Havia uma chuva
escondendo nuvens
dentro dos sapatos

Havia um rio que nunca
nadou entre as escamas.
E um adejo de pombos
na taça de Dionísio.

E um canivete de prata
no olho de Édipo.

E o haver do não-existir
havia.

Uma procissão de mortos
no ventre dos espelhos.

Um choro de piano
nas águas do
infinito.

AMARGO CANTO DA PRESENÇA

Estou sozinho, Drummond,
num país de oitenta
milhões de frustrados.

Nesta tarde de sexta,
23 de janeiro, dia tão vulgar,
confiro minhas rugas:
são vinte estigmas de sapo,
são vinte concílios de astros?
Não sei. Apenas permaneço fiel
à lucidez do compromisso:
o cão mais solitário
no final de cada rua
tem o rosto metafísico
assombrado deste mundo.

Estou sozinho, Drummond,
num planeta desonrado.

Nesta tarde de sexta
vejo a vida como um cágado:
prudente, sem desespero, ruga
agüentando quatrocentos anos de solidão
num casco espesso como chumbo.

O mundo está solto na rua,
vagabundo como demônio:
girando, girando,
crianças mofinas,
cartazes hediondos.

Estou sozinho, Drummond,
numa golada de uísque.

Uma palavra, um gesto:
a bomba está enxertada.

Nosso brinde na taverna
vale o troco-submundo:
pecados, beberrões,
putas & diplomatas.

Marilurde,
“quarenta horas de ternura”
na ação célere de um beijo.

Estou sozinho, Drummond,
à espera de um desastre.

TRÊS INDAGAÇÕES DOÍDAS DO VIVER

1.

Pai,
o quanto vale viver?
– Viver, meu filho,
tem sabor de azar
quando no tempo
a boca não come.
Tem gosto amargo
quando na véspera
apodrece o fruto.

– Viver, meu filho,
implica humildade
de um boi caminhando,
implica peso de sol
como ferramenta nos ombros,
implica alegria, gosto de menino,
pipoca rebentando, chuva.
Implica tudo, até solidariedade
de uma sombra no caminho.

– Viver, meu filho,
é a conjugação de um verbo
nos vários tempos de uma dor.

2.

Pai,
o quanto vale a vida?
– A vida, meu filho,
é como um rio querendo dormir
na retina de teus olhos:
um rio sexual, um rio imenso,

um rio com seus seios de barranco,
mais o sonho carnal de suas águas.
A vida como um rio.
A vida como um boi,
uma canoa, um remorso,
um remo quebrado,
um rio cheio de solidão,
um rio correndo para a noite
como se lá na frente
uma força puxasse
o silêncio de suas águas.

– A vida, meu filho,
é nada menos que a faísca desses sonhos.

3.

Pai,
o quanto vale a liberdade?
– A liberdade, meu filho,
é coisa difícil
que não se abraça,
é luz ardendo no peito,
é brasa queimando na mão.

A liberdade, meu filho,
é coisa só do vento.

MARCENEIRO

Irmão, que ofício é este
que o faz marceneiro,
se o serro te que ocupa
não faz mobília
pro mundo inteiro?

Peroba-rosa, angico
são matérias
de seu ofício?

Carne parida no chão, madeira:
enxó na mão. Que ofício, irmão,
de móveis e caixão?

O RIO É UMA FLAUTA

Ali é onde o rio
vai à forca.
O parto de suas águas
vem do oco das pedras.
E o rio, como um pulmão,
arma seus abismos
de vidas sem retorno.
O rio é estrela rolando
como o viver
é pesado e fundo e leve
na carne dos cardumes.

Manso como a sandália
ou a casca de uma fruta
o rio é ermo, espremido.
E suspira longo
num corredor de terra.
O mistério de suas águas
é tão leve como a cinza:
o rio é levado pelas asas
de outro rio.

Ninguém sabe
onde começa a história
desse rio:

se do barro ou do sangue,
se do anzol ou da pluma.

O rio é terra.
Logo é diamante
luzindo como a faca
e a morte.

Feito a fatia de uma maçã,
o rio cresce e lembra
a raiz do mar.

Suas águas eram verdes
como a laranja era verde.

Suas águas eram brandas
como a paina.
E doce como os lábios
de uma menina.
O rio já transbordou
pelos barrancos do sonho.
O rio outrora era lento
e viajava luas inteiras.

Já sem fôlego
o rio é pranto.
Já sem peixe
o rio é morte.

O rio vai jogar sua lama
no quintal do oceano.
Não é preciso medo.
O rio tem músculos:

a lua e o remo
o levam ao cortejo
das aves mortas.

O rio é um galo de escamas
na garganta de mil auroras.
Máquina movida
pelo óleo das chuvas.
A primavera abre o lençol das flores
no manso abismo de suas águas:
águas que dormem na panela
das assadas e do mundo.

Água no tanque
e no coração do homem.

Um brinquedo
que naufraga
entre as veias
do planeta,
o rio.

o rio se encalha
num oco de pedras: é turvo como a batalha
dos espermas.

A brisa sopra
a cabeleira do rio.
E no seio das águas
há um gesto de núpcias.

o rio tem jardins
subterrâneos
e sua voz
é um menino
bonito
como o coração
de uma flauta.

MOVIMENTOS DE UMA TARDE

A tarde se debruça sobre os ombros da cadeira.
Andorinha faz xixi no muro, ninguém aplaude.

o céu empurra seu quinhão de nuvens
para o sossego das varandas.

É caseiro esse fim de domingo
no olhar do povo, no perfil das árvores.

Maçã-de-amor, picolés, perfumes vagabundos:
o povo passeia livre dos onívoros da pátria.

E na varanda a folhagem (suprema lembrança
do verde) está suspensa:
será que o céu
lhe dá socorro?

Barão, o querençoso cão de casa,
entrevou-se na velhice e chora
como alguém de costas para a vida.

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Gabriel Nascente (1950)


1950
23 de janeiro, nasce em Goiânia, Goiás, Gabriel José Nascente, quarto filho de Antônio Estrela Nascente e de Antônia Barbosa Nascente.

A infância do menino Bié foi literalmente vivida em contato com a rudeza operária da marcenaria do seu pai Tunico Nascente (Seu Tunico), erguida sobre rijos troncos de aroeira, à rua 75, nº 3, defronte à Escola Técnica Federal de Goiás, no antigo Bairro Popular, de Goiânia, onde funcionou ao longo dos anos 50. Ambiente propiciado ao fluxo de operários e estudantes, principalmente, onde o pequeno vate desenvolveu sua infância ao lado dos seus sete irmãos. Antônio Estrela Nascente pertenceu à saga de pioneiros da construção da nova capital goiana.

1956
Matriculado no Instituto Araguaia de Goiânia, aos seis anos de idade, onde fez o jardim da infância e o primário.

1958
Morre, prematuramente, aos 36 anos, seu pai Antônio Estrela Nascente, a 28 de dezembro, vítima da doença de Chagas, deixando numerosa prole (de oito filhos) e esposa na orfandade. A partir daí, com a morte do pai, o cérebro do então garoto se transforma numa caixa de tumulto, buscando aventuras arrojadas à sua tenra idade. Passa a dividir o tempo entre serviços braçais na marcenaria do seu tio José de Paula Nascente, e peraltices esdrúxulas, na infância.

1962
Aos doze anos fabricou, em estrutura de madeira revestida com lâminas de duratex, um submarino, o qual conduziu em carrinho de rolimã até às turvas águas do rio Meia Ponte — cachoeirinha da Usina do Jaó — local onde atirou o submersível às águas, com um colega a bordo: Joãozinho, que anos mais tarde se suicidara com fortes doses de formicida, às margens do córrego João Leite, em pleno matagal. Experiência essa que, por um fio, acabaria em tragédia, caso não aparecesse um pescador, no preciso momento em que o “aparelho” ganhava profundidade, levando ao afogamento seu piloto. O que, felizmente, ele voltou à tona, a salvo. Por causa disso, e também por outras travessuras de rebeldia na adolescência, o Bié da 75, foi alcunhado de cientista louco.

1963
Arquiteta (e lidera) uma fuga para a África, aos 13 anos de idade, comprando uma cartucheira de dois canos, calibre 22; arma que foi experimentada, à plena luz do dia, no brejo do bosque do Botafogo, coberto de folhagens, regos d’água e lama. Projeto que culminou com a prisão de alguns de seus integrantes (todos menores), e a fuga do seu líder, o poeta, para a vizinha cidade de Anápolis, escondido na carroceria de um caminhão, munido apenas de alguns livros escolares, um canivete, uma lanterna e alguns centavos em dinheiro.

1964
Aprovado nos exames de Admissão ao Ginásio Industrial da Escola Técnica Federal de Goiás – ETFG.

1965
Escreve seus primeiros poemas e torna-se companheiro de classe do poeta Aidenor Aires. Um ano mais tarde, o etefegeano reúne material suficiente para sua estréia literária, e publica o livro de poesias Os gatos, em 1966. Por paixão a tão louco projeto, o departamento pedagógico da ETFG o encaminhou ao consultório psiquiátrico do dr. Walter Massi. Diagnóstico: a doença era mesmo a poesia. Inscreve-se numa corrida de bicicleta (categoria adulto) e chega vitorioso ao pódium, aplaudido pela multidão de populares, no dia 24 de outubro, data consagrada ao aniversário de Goiânia. Não percebendo os acenos do fim da competição ciclística, o arrebatado atleta continuou correndo, sem se dar conta de que já era campeão.

1966
Sobe, pela primeira vez, ao palco da Escola Técnica Federal de Goiás e interpreta o poema Nordeste, de sua autoria. Apresentação que lhe rendeu calorosos aplausos. Naquele mesmo ano, vive o papel de vice-bruxo na peça teatral “A bruxinha que era boa”, de Maria Clara Machado, e mergulha na ficção de Franz Kafka, lendo-o apaixonadamente.

1967
11 de janeiro, lançamento do seu primeiro livro de poemas Os gatos, na antiga livraria Bazar Oió, de Goiânia, quando reuniu numerosas autoridades, intelectuais e amigos, autografando mais de uma centena de exemplares. Primeiras leituras da poesia de Augusto dos Anjos, Guerra Junqueira, Antero de Quintal e Edgar Alan Poe. Conhece o professor, poeta e crítico literário Domingos Félix de Souza, o qual, a partir daquele ano, lhe orienta no caminho das letras, ajudando-o pessoalmente a publicar seus livros. Também é deste ano a viagem que o jovem poeta empreendeu sozinho, ao Rio de Janeiro, onde se fez hóspede do renomado poeta brasileiro Moacyr Félix — outro guia intelectual de sua obra poética ao longo dos anos futuros. Com ambos os Félix, sedimentou fidedigna amizade, que perdura. Em dezembro, recebe o diploma de formando do Ginásio Industrial da ETFG.

1968
Entra pela primeira vez na redação de um jornal, o semanário Cinco de Março, onde conhece e trava amizade com o jornalista Batista Custódio e tantos outros da linha de combate às atrocidades militares deflagradas contra a liberdade de imprensa em todo o país, durante o período da recessão imposto pelo Golpe de 64. Naquele ambiente de jornal impresso à base de linotipo, o poeta estreante aprende, na prática, suas primeiras noções de jornalismo. Tenta adaptar para o teatro o texto da novela A metamorfose, de Franz Kafka. Já enturmado à equipe de redatores daquele jornal, ensaia seus primeiros passos de repórter, escrevendo textos e matérias.

1970
Conhece os editores Irmãos Oriente (Taylor e José Modesto, o Zezinho, ambos falecidos) e publica pela Ed. Oriente o livro Reflexões do conflito, poemas em parceria com o poeta Aidenor Aires. Nesse mesmo ano, sai pela Imprensa da Universidade Federal de Goiás, o livro, também de poesias, Menino de rua — composto nas oficinas do jornal Cinco de Março, e impresso com papel cedido pela Ed. Oriente. Em novembro, o poeta Carlos Drummond de Andrade aplaude retumbante, por carta, o aparecimento do livro Reflexões do conflito, onde, segundo ele, encontrou “a marca de uma personalidade poética intensamente mergulhada no drama do mundo contemporâneo”.

1971
Deixa Goiás, numa espécie de auto-exílio, na busca de novas perspectivas para os seus planos de vida transferindo-se para a grande São Paulo em companhia do poeta e jornalista Brasigóis Felício. Ali, após meses de penúria e desempregado, é recebido pelo poeta Menotti Del Picchia, da Academia Brasileira de Letras, que lhe arranja emprego na hoje extinta Livraria Martins Editora; tornando-se amigos. Escreve os poemas de Colméia de anônimos. Nos meses em que viveu (sobreviveu) na paulicéia desvairada, partiu para o corpo a corpo, vendendo pessoalmente seus livros na Feira Hippie da Praça da República bem como em restaurantes, choperias e boates, da populosa capital. Retorna à Goiânia, em caráter de visita, durante os festejos dezembrinos, e decide não mais voltar para São Paulo. Novamente desempregado, refugia-se numa fazenda às margens do rio Claro, no sudoeste goiano, onde se entrega desesperadamente à leitura das obras de Albert Camus.

1972
É publicado pela Editora Oriente, Viola do povo (Cadernos de Poesia I), com patrocínio do Centro dos Professores de Goiás. Obra, inclusive, lançada no Bar do Mercado Central de Goiânia, com pastel e chope para o povo. Meses depois, veio à tona, pela mesma editora, o livro A Escalada Poética de Gabriel Nascente – seleção de estudos sobre a poesia de GN, organizada pelo professor Manuel Jesus de Oliveira. A revista Hispano-Americana, em sua edição de nº 15, publica o poema Reminiscências da terra, de sua autoria, na seção Un Minuto para la Poesia.

1973
Sai, pela Livraria Martins Editora, de SP, capital, o livro Colméia de anônimos, com prefácio de Menotti Del Picchia. É eleito Patrono do Clube de Leitura do Centro de Formação de Professores Primários de Morrinhos-CFPP, pelos bolsistas daquele Centro. Indicado pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado para representar Goiás no Primeiro Concurso Nacional de Poesia Falada, em Salvador-BA. E ali, no Teatro Castro Alves, interpreta o poema O dia do julgamento.

1974
Aparece a 1ª edição de Um balde cheio de flores pra Manuela não chorar, pela Editora Oriente. É homenageado pela Prefeitura de Goiânia, com o título de “Personalidade do Ano 74”. O jornal Rio Negro, o diário mais antigo e de maior circulação da Patagônia, General Roca, Argentina, de novembro de 1974, dedica meia página à poesia de Gabriel Nascente, com notas e traduções de Natalio Kisnerman. Conhece o poeta Vinícius de Moraes, em Goiânia, e o acompanha durante três dias, em sua digressão etílico-teatral. Entrevista o romancista Jorge Amado durante as filmagens de um documentário sobre sua obra, no Mercado Modelo de Salvador, cidade baixa. A convite do Cerimonial do Governo do Estado de Pernambuco, visita Recife, e tem como anfitrião o poeta Marcus Accioly. Foi chamado a integrar a comitiva que acompanhou um cônsul japonês, numa caçada de baleias pelos mares do nordeste. “Ora vejam: — noticiou o jornalista José Elias, em sua coluna Comunicações de O Popular, edição de 1º de dezembro de 1974 – nosso menino de rua, às voltas com os problemas existenciais, convocado a participar de aventura tão fantástica como a caça à baleia, em suntuosos barcos japoneses”.

1975
Sai, pela Pd. Araújo – Livaria e Editora Cultura Goiana, o livro Os passageiros, poemas. Atravessa o Mar del Plata em direção a Argentina, onde cumpre missão cultural no Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires e vê uma seleção de poemas de sua autoria vertidos para o castelhano pelo professor e poeta Dilermando Rocha. Trabalho este que resultou na publicação do livro El llanto de la tierra, 24 anos depois, na cidade de Concepción, no Chile. Em Buenos Aires, o poeta frequenta a sede da Agrupación Gremial de Escritores Argentinos. Sua passagem pela capital portenha foi saudada em versos pelo autor de El agua mansa, Dilermando Rocha. De volta ao Brasil, é recebido pelo poeta Carlos Nejar, em Porto Alegre-RS, e tornam-se amigos. Visita o escritor Érico Veríssimo, em sua casa, para entrevista jornalística. Participa, à convite do professor e poeta Gilberto Mendonça Teles, em agosto, no Rio de Janeiro, da tradicional reunião sabática, do sorvete com bolachas, na biblioteca do escritor Plínio Doyle, onde conhece Carlos Drummond de Andrade, Juscelino Kubitschek, Mário da Silva Brito, Homero Homem, Alfonsus de Guimaraens Filho, dentre outros.

1976
Nasce a 17 de janeiro sua filha Vanessa Rodrigues de Almeida Nascente. Candidata-se à cadeira de número 14 da Academia Goiana de Letras, aos 26 anos, e provoca polêmica entre os intelectuais goianos, na imprensa. Apesar de obter apenas um único voto, tumultuou a candidatura do seu concorrente. É publicado nas páginas 21 e 22 da Antologia, das ediciones Figaro, ano IV, nº 5, de Buenos Aires, como único figurante da poesia brasileira.

1977
Inicia correspondências com o poeta Ronald Cláver, de Belo Horizonte, MG; e com ele publica Exilados do sol — um livreto, em duplex, artesanalmente confeccionado. O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, em sua edição de 10 de junho, o chama de “um fenômeno literário”. Também o jornal O Aspep – Órgão da Associação dos Servidores Públicos do Estado da Paraíba, em sua edição de agosto, o trata como “um dos maiores fenômenos poéticos de Goiás”.

1978
Lança, em meio a móveis e eletrodomésticos, o livro A nova poesia em Goiás, antologia dos poetas goianos, editada pela Oriente. Nasce o seu filho Thiago Estrela Nascente. Viaja, em companhia do seu editor José Modesto Oriente, para João Pessoa, na PA, onde recebe da Academia Paraibana de Poesia o título de “Embaixador da Poesia Brasileira”.

1979
A revista Encontros com a Civilização Brasileira, número 13, da Editora Civilização Brasileira S/A, RJ, publica vários poemas seus. Lança a antologia dos poetas bissextos: Colheita (A Voz dos Inéditos), em edição da Unigraf.

1980
Publica, pela Editora Oriente, Pastoral, poemas, com prefácio de Moacyr Félix. É citado por Assis Brasil em O Livro de Ouro da Literatura Brasileira (400 Anos de História Literária), pág. 223, Grupo Ediouro / Editora Tecnoprint S.A., RJ.

1981
Sai, pela Civilização Brasileira – Massao Ohno / Editores, do Rio de Janeiro, Águas da meia ponte, também prefaciado por Moacyr Félix. Volume 48 da Coleção Poesia Hoje. Recebe o Troféu Tiokô, da União Brasileira de Escritores, Secção Goiás, como o autor que mais se destacou na área de literatura no ano de 1980. Entrevista, no Rio de Janeiro, os escritores Pedro Nava, José J. Veiga, Edilberto Coutinho e Moacyr Félix.

1982
Sai, pela Editora Civilização Brasileira S/A, RJ, Chão de espera, (segunda edição do livro Menino de rua, revisto e ampliado), volume 64 da Coleção Poesia Hoje, daquela editora. Conhece Maria D’Lourdes Silveira, com quem celebra união conjugal.

1984
Obtém premiação no I Concurso Nacional de Poesia Vinícius de Moraes para servidor público, e é publicado em antologia do referido certame, pela Editora Nova Fronteira. Recebe, ainda, o Troféu Júri Popular Vinícius de Moraes. Vence o Concurso Literário Cinquentenário de Goiânia, patrocinado pela Prefeitura. Concorre à presidência da União Brasileira de Escritores, liderando a chapa Combate; é derrotado.

1985
Crônica da manhã, poemas, é publicado pela Universidade Católica de Goiás.

1986
Aparece o seu primeiro livro de prosa, Um dia antes de mim, novela, publicado pela Universidade Católica de Goiás.

1987
Lança, pela Editora Líder, Madrugada nos muros, poemas. E ganha, pela segunda vez, o concurso de poesias promovido pela Prefeitura de Goiânia, no transcurso do aniversário da capital goiana. Conhece pessoalmente o líder do Partido Comunista Brasileiro, Luís Carlos Prestes.

1988
Publica Janelas da insônia, poemas, pela Editora O Popular. É eleito por aclamação o primeiro presidente-fundador do Conselho Municipal de Cultura, do qual ainda é membro. À convite do professor Ático Vilas Boas da Mota, empreende viagem à Macaúbas, no sertão da Bahia, onde é homenageado pela Fundação Cultural Professor Mota, ao lado do médico e artista plástico Getúlio P. Araújo. É selecionado pelo VII Prêmio Scortecci de Poesia e publicado na antologia Lauréis, volume IV, da João Scortecci Editora, São Paulo, 1989.

1989
A Editora Líder publica Trono de areia, poemas.

1990
Entrevista o poeta Ferreira Gullar.

1992
A Ediouro S/A, do Rio de Janeiro, publica Sentinelas do efêmero (Entrevistas Literárias). Participa da Antologia da Nova Poesia Brasileira, organizada por Olga Savary, Fundação Rio/Rio Arte, Editora Hipocampo. Distribui cerca de dez mil exemplares do livreto A valsa dos ratos, durante as eleições de 92, quando então disputou uma cadeira de vereador por Goiânia, e perdeu.

1993
A ponta do punhal, poemas, é publicado pelo Cerne/GO.

1994
Candidata-se à presidência da Associação Goiana de Imprensa-AGI, mas não chega a duelar o voto porque sua chapa não obteve registro.

1995
Sai, pela Fundação Cultural Pedro Ludovico / Cerne, Ventania, poemas. É antologiado, simultaneamente, por duas publicações de âmbito nacional: Poesia Sempre, revista semestral de poesia, ano 3, número 5, da Fundação Biblioteca Nacional / Departamento Nacional do Livro; e Sincretismo – A Poesia da Geração 60, com introdução e organização de Pedro Lyra. Fundação Cultural de Fortaleza / Fundação Rio Arte / Editora Topbooks, RJ. Lança, em caráter pioneiro em todo o país, a idéia de se publicar fragmentos de poesia, nas contracapas (parte interna) dos talões de cheques. O Banco do Estado de Goiás S/A aprovou e executou o projeto.

1996
É o primeiro goiano a ganhar o maior prêmio literário de poesia, de todo o país: o Prêmio Cruz e Souza de Literatura, da Fundação Catarinense de Cultura, Santa Catarina, com o livro de poemas A Lira da lida. Por esta premiação o poeta recebeu dez mil reais, mais a publicação da obra. E lança, pela Editora Kelps de Goiânia, Sandálias de pedra, uma incursão poética ao minimalismo.

1997
É premiado pelo concurso literário da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, com o livro de poemas Os aventais da púrpura. Recebe 20 salários mínimos, mais a publicação da obra. E lança, pela Editora Kelps, Goiás, meio século de poesia, antologia de poetas goianos. Participa, com substanciosa colaboração, da antologia A poesia goiana no século XX, organizada por Assis Brasil, publicada pela Imago Editora, do Rio de Janeiro.

1998
Pela Editora Kelps, publica mais dois novos títulos: A cova dos leões, romance e O anjo em chamas, poema dramático sobre a vida e a obra de Arthur Rimbaud.

1999
Lança, pela Editora Kelps, A taça derramada, poemas. É publicado, em Concepción, no Chile, o livro El llanto de la tierra (Prantos da Terra), seleção de poemas traduzidos para o castelhano pelo também poeta Dilermando Rocha, do Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, na década de 1970. Em edição de Sérgio Ramón Fuentealba e Cecília Zuñiga Sanhuesa. Por iniciativa do ministro Elias Bufaiçal, a Federação do Comércio em Goiás o homenageia, lavrando em monumento de aço escovado um poema de sua autoria. E a Assembléia Legislativa do Estado de Goiás lhe outorga a Comenda Prof. Colemar Natal e Silva, e o Troféu Cora Coralina, pelo seu conjunto de obras.

2000
É aprovado pelo Conselho Editorial do Centro Editorial e Gráfico da Universidade Federal de Goiás-Cegraf, com o livro inédito de poemas Boa-noite, crepúsculo, o qual será publicado pela Coleção Vertentes daquela editora.

Vence o concurso literário da Bolsa de Publicações Cora Coralina, com o livro de poemas O pão selvagem (inédito), promovido anualmente pela Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira. Também, neste mesmo ano, vence o concurso literário da Bolsa de Publicações Wilson Cavalcanti Nogueira, da prefeitura municipal de Pires do Rio, GO., com o livro inédito, A Dança do Relâmpago, poemas. “… os poemas de Gabriel Nascente, imprevistos e lucinantes, explodem como brados de protesto e irreverência. Uma espécie de Fernando Pessoa da quadra atômica, não raro pedestrenante demagogo, mas original, ingênuo, espontâneo e sempre artista”. Menotti del Picchia, 1973

“Sua poesia continua viva e atuante, e testemunho disto é Pastora, que recebi há pouco, e onde encontro muitas confirmações do seu engenho criador, sempre alerta diante da vida.” Carlos Drummond de Andrade, 1980

“Não se trata de um poeta de iniciação tribal. Neste sentido, aliás, é o poeta mais solitário de Goiás (“Eu sou/uma solidão/que anda”). Daí também a sua força produtiva: escreve para si, para a Poesia e para esse além de si que é o povo, na sua mais alta concepção antropológica da poesia”. Gilberto Mendonça Teles.

Fontes:
http://www.palavrarte.com/equipe/equipe_gnascente.htm
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/goias/gabriel_nascente.html

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Yêda Schmaltz (Poesias Avulsas)

POEMA BISSEXTO
Aos nascidos em 29 de fevereiro

Num ano não bissexto
de meses absurdos
e de horas escritas,
o teu dia não existe,
o teu dia absoluto.
Hoje é a véspera, mas amanhã acabou.
Agora, é cedo ainda
pra eu ir cantar na tua porta,
mas amanhã, é tarde, Inês é morta.

Uma interrogação escorre luminosa
sobre o imponderável
do teu dia não-dia,
mas eu dou uma rosa
pro teu dia não-dia,
ante-dia,
adversus,
carpe-diem.

No teu ante-aniversário
que não fazes este ano
porque amanhã é primeiro,
não será mais fevereiro,
quisera ver o teu rosto:
a face triste do baiano
e o riso largo do mineiro.

Perdido nas estrelas
de um zodíaco azul
ficou teu dia
nadando, peixenauta,
pelo espaço,
— olhando para o céu é que te abraço
enquanto estabilizas tua idade
de sempre criança,
de sem gravidade.

E nem temos taças para o ritual,
nem temos a nós mesmos
(dançamos um longínquo carnaval)
nem tenho teus braços
que o vento, que o tempo,
que a nave levou.
Mas um vidro parco
ou acrílico largo
tilinta: trim!
A festa acabou.

O DESVIO

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.

E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.

E me importa muito menos
se aceitas solenemente
a nossa vida parca e torta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.

E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.

E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

AMOR

Amor, se houve, eu tive.
De lembrar o amor
em poesia,
minha alma
sobrevive.

CAVALO DE PAU

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
— a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
minhas blusas de babados,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo esvoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

— O que de mais me lamento
e o que de mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.

(Nenhum amado me agüenta.)

OITANTE

Alguém fabricou para mim
Uma estrela particular;
Este calor sem-fim.

Receita para se fabricar
uma estrela: é só queimar
átomos de hidro/gênio
por meio da fusão do olhar,
isto é, nuclear.

Fórmula: Bill Gates
que é igual a Olavo Bilac,
ouvindo as janelas,
(E acreditar que vai brilhar, ter fé.)

Mas não se esqueça:
amai para entendê-la.
Quantos celulares fantasmas
há por aqui! Cibernéticos na linha.
Ai, que saudade que eu tenho
do tempo de Ivanhoé!

BACANTE A OESTE

A manhã mastiga
o canto do melro:
pão de trigo e mel.
Nossa vida é de sal
e de vinagre
apesar do passarinho
e o sal da terra.

Meu canto a Dionísio
é benfazejo
e o que desejo,
é amenizar os caminhos
do homem
com cristais de doçuras
de mulher.

E a poesia é doidivanas,
louca e séria
e vai arando
nossos caminhos de sede
e de torturas,
nossos caminhos de fome
e de miséria.

De noite
os pirilampos vagam
seus vagos lumes
pelos campos de buritis
e guarirobas.
— Cocos iluminados
de lantejoulas.

A POBREZA II
(DECLARAÇÃO DE BENS)

Escolhi para mim
— cabeça de poeta,
adolescência pura —
o que não deveria escolher
vivendo no Terceiro Mundo:
dediquei minha vida
à Educação e à Cultura.
Professora da Universidade Brasileira,
não pude comprar fazenda,
chácara, terreno ou boi,
( essa goiana maneira de ser ).
Eu só pude criar,
no meu curral de sonho,
o canto do cavalo,
o canto da boiada
em poesia aberta e hermética;
essa boiada que tanto aflige,
ruminando na janela
da minha aula de Estética.

Apenas com um salário de sucata,
sustentei o filho e as filhas
que partilhei ao gerar,
mas que não dividi na hora
dos divórcios, das partilhas.
(Apenas com o salário,
pois dispensei o tal “alimento”
da descasada profissional.)

Fiquei com a Poesia,
esse bagulho
terceiromundista,
este meu Bem;
fiquei com a Pobreza,
o meu orgulho:
nunca roubei ninguém.
Não fui grileira e nem
posseira de nada
e, se invadida,
como fui, certa vez,
por astutas fazendeiras,
ora, que bobagem!
A minha obra está datada.
A Poesia
é o meu Patrimônio:
a palavra certa,
a palavra dura.
A poesia canta
e eu fico muda,
de espanto.

Meu Patrimônio maior
é a Literatura.

A POETISA

Canto
o prazer e a esperança,
a loucura e a liberdade.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha jarra

de vinho.
Que Deus inventou a uva
e Baco inventou o vinho
com seus efeitos.

(Cabelos punk
eus de afanos
minha falta
e minha farra.)

Ao coração humano
medroso, dou alegria
e coragem.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha garra.

Fonte:
Antonio Miranda

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Yêda Schmaltz (1941 – 2003)

Nasceu em Tigipió (PE) a 8 de novembro de 1941. Recém-nascida foi levada para Goiás, passando a residir em Ipameri (GO), terra do seu pai. Faleceu a 10 de maio de 2003, em Goiânia.

Bacharel em Letras Vernáculas e em Direito. Professora da Universidade Federal de Goiás, Instituto de Artes.

Recebeu inúmeros prêmios e distinções, cabendo destacar o da Associação Paulista de Críticos de Arte, melhor livro de poesia, 1985 (Baco e Anas brasileiras); Remington de prosa e poesia, RJ/1980; Simon Bolivar, Fondi, Itália, 1998; prêmio nacional Itanhangá de poesia/1985; Simon Bolivar, Fondi, Itália, 1998; Hugo de Carvalho Ramos /1973-1975-1985 e 1995; IV Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural de Goiás/1979; José Décio Filho (GO), 1990; BEG de Literatura (GO), de 1996 e 97; Cora Coralina (GO), 1996, etc.

Yêda, com Cora Coralina, a voz feminina da poesia de Goiás ganhou altura insuspeitável.

Destacou-se igualmente como artista plástica.

Participou da fundação do GEN (Grupo de Escritores Novos).

Bibliografia:
Caminhos de mim (poesia), Goiânia, Escola Técnica Federal de Goiás, 1964;
Tempo de Semear (poesia), Goiânia, Cerne, 1969;
Secreta ária (poesia), Goiânia, Cultura Goiana, 1973;
Poesias e contos bacharéis II (antologia, c/ Teles, J. Mendonça e Jorge, Miguel) Goiânia, Oriente, 1976;
O peixenauta (poesia), 1ª edição, Goiânia, Oriente, 1975; 2ª edição, Goiânia, Anima, 1983;
A alquimia dos nós (poesia), Goiânia, Secretaria da Educação e Cultura, 1979;
Miserere (contos), Rio de Janeiro, Antares,1980;
Os procedimentos da arte (ensaio), Goiânia, UFG, 1983;
Anima mea (seleção de poemas), Goiânia, Anima, 1984;
Baco e Anas brasileiras (poesia), Rio de Janeiro, Achiamé, 1985;
Atalanta (contos), Rio de Janeiro, José Olympio, 1987;
A ti Áthis (poesia), Goiânia, Sec. Cultura e Prefeitura, 1988;
A forma do coração (poesia), Goiânia, Cerne, 1990;
Poesia(antologia poética) , Oficina Literária da Funpel,(xerox), Goiânia,1993;
Prometeu americano (poesia), Goiânia, Kelps, l966;
Ecos (poesia), Goiânia, Kelps, l966; Rayon (poesia), Goiânia, Cerne / Funpel, 1997;
Vrum (poesia), Goiânia, Edição da autora, 1999;
Chuva de ouro (poesia), Goiânia, Cegraf/UFG, 2000;
Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz , Goiânia, Cegraf/UFG,2002

O Peixenauta recebeu o Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos – Concurso da União Brasileira de Escritores de Prefeitura de Goiânia.

Fontes:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/goias/yeda_schmaltz.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Y%C3%AAda_Schmaltz

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Caldeirão Poético do Goiás I


Aidenor Aires

A ESPERA

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

meu rosto espera pronto

os dentes do teu arado.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

minhas mãos assistiram,

quais raízes,

a morte azul

das flores e dos ventos.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

antes que alguém

vibre na noite

gemidos de Chopin,

vem.

Tu, que hás de vir um dia,

o céu de maio é doloroso e belo,

as flores começam a morrer.

Vem, antes que o Scherzo

da agonia vibre

o amaríssimo clamor

dos seus acordes

e eu queira vida.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

É maio,

é belo o dia.

Aidenor Aires

PRESENÇA

Ter que ficar aqui

no meio da rua testemunhando a vida

quando todas as ruas estão mortas.

Vir para o meio do mundo

e dizer do alto das escadas

que a poesia é triste

e que a vida é feita de estradas.

Vir para o meio do mundo

quando já não cabe no mundo

a chave da sua porta.

Alberto Vilela Chaer

CAFÉ

mil anos depois

a porcelana

toca teus lábios

é lá

onde vou buscar

a nova especiaria

ferver

os grãos mais nativos

na infusão de teu vestido

revelar uma Gazela

te levar embora para a Abissínia

lá sou amigo das cabras

vou coar o oriente

pelos teus poros

teu brilho perderá o sono

Bandeira passou perto

Abissínia fica depois de Pasárgada

Alberto Vilela Chaer

SANDÁLIAS

sejam as pedras

portuguesas

de São Tomé

ou de Pirenópolis

todas as calçadas

cochicham

os teus passos

aprendi com elas

a escutar os sussurros

das tuas pernas

para abafar

a espera acústica

desta alma mascate

um coração estendido

tapete persa

mosaicos do descompasso

teus pés sempre estarão nus

nas cerâmicas

das minhas mãos frias

os ladrilhos

se esta rua

se esta rua fosse minha

Alexandre Bonafim

QUARESMEIRAS

Por entre as paredes

da memória

desenhado a giz

um menino teima

em brincar

com as sombras

do silêncio.

Quaresmeiras

latejantes de cor

também insistem

em fincar raízes

no que se perdeu.

ao adentrares a brancura

dessa página

folhas e húmus

hão de enredar

o teu nome

o teu passado.

A brancura desse poema

há de mergulhar

a tua voz

nas origens

de todo

esquecimento.

Por entre os muros

da palavra

uma criança teima

em desenhar

na existência

um rosto de chuva

para sempre iluminado.

Alexandre Bonafim

O PAVÃO

As penas do pavão

guardam as entranhas

da luz

as raízes da água.

Olhos do inominado

pupilas do silêncio

as penas do pavão

desvelam a lua

na arquitetura

do arco-íris.

E tudo se silencia

tudo se cala

ante a fulguração

do mistério:

a estranheza

o susto

toda a perplexidade

se petrificam

ante a cintilação

do real.

Aos pés

daquela esfinge

tombam perguntas

ocas

ecos de ecos

sem voz.

As penas do pavão

abrem o ministério

como um leque

de brisas insanas.

Alice Spíndola

SEMPRE BUSCANDO A CANÇÃO ESQUECIDA

No frêmito da ventura,

a fuga e o retorno da imagem

do pequeno barco.

Imagem — fonte e oráculo —

mergulhada na insularidade

do mar de gestos e de palavras.

Com a alma seqüestrada

pela beleza do rio

e pelo rumor de suas águas,

o menino procura a canção esquecida.

Menino parisiense voga nas milhas do sol.

Alice Spíndola

A CHAVE

No meio da noite, configura

a fragrância das palavras mágicas

Na chave da noite, a ternura,

pluma que verte enigmas

Nas mãos do tempo,

o arado que rasga os mistérios

do sentimento que define

O homem da meia noite,

em seu caminho de volta

que faz

ao adentrar a meia lua

das unhas dos enigmas.

A mão da noite destrava a chave

da fragrância das palavras mágicas

Angélica Torres Lima

DE LOBOS E ANJOS II

O que é que eu faço, Anjo?

Quer que eu corra, que eu dance

que eu morra? que me levante

e cante uma ode à insõnia?

Não vê que o crepúsculo

já faz muito se desfez?

Que a lua é selada

em céu negro-martírio?

E não guarda o meu sono

nem me faz companhia,

Cruel, que só me inspira

elegias!

Angélica Torres Lima

TRILHAS PARA O ALTAR

Face de maçã trincada na manhã de louça.

Lâminas de agulhas negras fatiam

o altiplano azul no sonho das cabeças

A pedra engastada em prateleiras

oculta o segredo de gestos e passos

: corpos estagnados de anseio.

Antonio Carlos Machado

ANUNCIAÇÃO

Urubús em vôo altaneiro

— quem os sabe —

Planando em tarde estival

(morte consumada!)

Andorinhas prenunciadoras

— quem as esperava —

o verão tão distante

as esperanças sepultadas.

Antonio Carlos Machado

AMOR QUE SE ESCOA LENTO

Que eu durma,

enquanto repousas!

Que a memória permaneça,

enquanto passamos!

Que a dor silencie,

enquanto não partimos!

Que os cães ladrem,

é noite, apenas!

Que a neblina as adormeça,

vagas estrelas testemunhas.

E a lua, o cavalo, o êxtase,

o silêncio solidário?

Antonio Geraldo Ramos Jubé

BURITI

Buriti, buriti da verde várzea.

A saudade é paisagem, água quérula.

O céu, redoma azul sobre a planura,

no espaço claro de manhã de pérola.

Buriti, buriti ancião, decrépita

testemunha de coisas e mudanças.

Que fizeram contigo? Edifícios

te afogaram, em sombras e lembranças.

Foram-se os anos te deixando, apenas,

nos campos invadidos, espectral.

Antes, a água bebida nas raízes,

agora, um pranto podre no canal.

Buriti, buriti da verde várzea,

testemunha calada da mudança.

Ainda estás de pé em meio ao tráfego.

Em volta a fúria, a fúria urbana avança.

Antonio Geraldo Ramos Jubé

AS SEARAS

I

Arrozal, verde vento, verdes chuvas

plantadas nesta água verdemente.

A esperança cavalga aéreas nuvens,

germina nos segredos da semente.

Veranicos dardejam sóis, presente

o dinamismo oculto das saúvas.

Nos cachos do arrozal o dia acende

seu coração de luz sob áureas luvas.

Deus vê crescer a planta: ela precisa

de iguais rações de sol e chuva. E o tempo

amadurece o grão na mão da brisa.

Agora ei-lo saudoso de sua haste

chino cristal de leite simplesmente.

Dando graças à terra em que o plantaste.

II

Em fila o milharal ergue cocares

cor de ouro na manhã de papagaio.

E as folhas lanceoladas de guerreiros

armados para a guerra, perfilados.

O verde milharal sobe da terra

para o espaço de sol, todo lavado.

Em torno gira a festa buliçosa

das jandaias e dos maracanãs.

Rebentam as bonecas promissoras

com seu cabelo ruivo, de entre a palha.

— Doce milho que chega à nossa mesa

envolvido nas palhas da pamonha.

III

Do canavial as verdes lanças

e o verde mel nos colmos acondicionado.

A doçura do caldo a ferver nas tachas,

depois no alambique, elaborando

a cachaça e a rapadura.

De onde vem essa essência doce,

essa seiva nutriz?

Do suor do lavrador no eito?

Da mansidão do boi na canga?

Do carro moroso a gemer no eixo?

Da tortura da engrenagem no engenho

gira-girando no sereno da madrugada?

Esse gosto de mel de moenda…

Fonte:

Antonio Miranda

Imagem = criação por José Feldman

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Arquivado em Caldeirão de Poesias, Goiás

Podium dos Imortais da Academia de Letras do Brasil/Goiás


Empossados em Brasília:

Cadeira numeradas com respectivas titulares e patronos:

Cadeira n° 1 – Anápolis – Ridamar Batista – Eurípedes Gomes de Melo

Cadeira n°1 – S.Cruz – Aparecida Teixeira Fátima Paraguassu – Mário de Andrade

Empossados em Cassu:

Cadeira numeradas com respectivos(as) titulares e patronos/patronesses:

CIDADE DE CACHOEIRA ALTA

1 – ALBM/C. Alta escritora Terezinha Moreira Alves – patrono

CIDADE DE CASSU

Cadeira n° 1 –José Faria Nunes – Anatole Ramos
Cadeira n° 2 – Dauro Guimarães – José de Alencar.
Cadeira n° 3 – Eliene Aparecida Ferreira – Yeda Schamaltz.
Cadeira n° 4 –Elvis Souza Nascimento – Manoel Lopesde Carvalho Ramos
Cadeira n° 5 – Joana D’Arque de Freitas. – Maria do Rosário Fleury
Cadeira n° 6 – Lázara Ambrósia – Cruz e Sousa
Cadeira n° 7 – Lionizia Pereira Martins – José Godoy Garcia
Cadeira n° 8 – Maria Aparecida Gama de Almeida – Monteiro Lobato
Cadeira n° 9 – Ravel Giordano de Lima Faria Paz – José Veríssimo
Cadeira n° 10 – Rozaíres Guimarães de Lima Nunes – Cecília Meireles
Cadeira n° 11 – Diác. Valdir Alves da Costa – José de Anchieta
Cadeira n° 12 –Maria da Silva Barrinha –

CIDADE DE GOIÂNIA

Cadeira n° 1 – Adelice da Silveira Barros
Cadeira n° 2 – Aidenor Aires – Crispiniano Tavares
Cadeira n° 5 – Elizabeth Caldeira Brito – Regina Lacerda
Cadeira 8 – Hélio Moreira – Dr. José Normanha de Oliveira;
Cadeira 13 – Leonardo Teixeira – Eugênia Sereno

CIDADE DE ITARUMÃ

Cadeira 1 –Josenildo Gomes

CIDADE DE JATAÍ

Cadeira 1 – Cássia Maria Vicente Teixeira – Florbela Espanca
Cadeira 2 – Dinair Pereira de Assis – Machado de Assis

CIDADE DE PORANGATU

Cadeira n°1 – Adejar Vicente dos Santos.- Bernardo Elis

CIDADE DE QUIRINÓPOLIS

Cadeira n°1- Agostinho de Almeida Moreira – Augusto dos Anjos
Cadeira n° 2 – Elzi M. La Guárdia – Humberto de Campos
Cadeira n° 3 – Jacinto Euzebio Ferreira – Jaime Câmara
Cadeira n° 4 – Janete Martins Medeiros – Ligia Fagundes Teles
Cadeira n° 5 – ALB/Goiás – Joelma Gonçalves Rocha – Clarice Lispector
Cadeira n° 6 – ALB/Goiás – Jonan de Castro Reis – Guimarães Rosa

CIDADE DE RIO VERDE-

Cadeira n° 1 – ALB/Goiás – Ana Luiza de Lima – Cora Coralina.

Para a solenidade de Goiânia encontram-se habilitados os(as), alguns deles dependendo de confirmação por parte do(a) próprio(a) acadêmico(a), que são os(as) seguintes:

A SEREM EMPOSSADOS EM GOIÂNIA

Cadeira numeradas com respectivos(as) titulares e patronos/patronesses:

CIDADE DE ANÁPOLIS

Cadeira n° 2 – Paulo Nunes Batista, patrono Afonso Shmith.

CIDADE DE GOIÂNIA

Cadeira n° 3 – Brasigóis Felício Carneiro –
Cadeira n° 4 – Delermando Vieira –
Cadeira n° 5 – Edival Lourenço –
Cadeira n° 7 – Geraldo Coelho Vaz –
Cadeira n° 9 – Iuri Rincon Godinho – Venerando de Freitas Borges
Cadeira n° 10 – José Mendonça Teles – José J. Veiga
Cadeira n° 11 – José Ubirajara Galli – Pio Vargas
Cadeira n° 12 –Leda Selma – Hugo de Carvalho Ramos
Cadeira n° 14 – Maria do Rosário Cassimiro –
Cadeira n° 15 – Miguel Jorge –
Cadeira n° 16 – Ney Teles de Paula –
Cadeira n° 17 – Waldomiro Bariani Ortêncio
Cadeira n° 18 – Ataualpa Alves de Lima

CIDADE DE IPAMERI

Cadeira n° 1 – Lupércio Mundim – Manoel Bandeira.

CIDADE DE ITARUMÃ

Cadeira n° 2 – Valdivino Barbosa dos Santos
Cadeira n° 3 – Rômulo Darc Fonseca –

CIDADE DE MINEIROS

Cadeira n°1 – Martiniano José da Silva –

CIDADE DE PARANAIGUARA

Cadeira n° 1 – José Sebastião de Carvalho Carvalho –

ALB RIO VERDE –

Cadeira n° 2 – Zilda Pires –

CIDADE DE SANTA CRUZ DE GOIÁS

Cadeira n° 3 – Maria Loussa –
Cadeira n° 4 – Iranilda Divina Resende Paes

PRESIDENTES DE ALBMs EMPOSSADOS:

Empossaram-se como presidentes das ALBMs, (Academias de Letras do Brasil em cada Município, todos os titulares vitalícios fundadores das cadeiras de número 1, ficando o quadro de presidentes das ALBMs/GO já empossados assim constituído:

ANÁPOLIS:

Escritora Ridamar Batista – Patrono Eurípedes Gomes de Melo

CACHOEIRA ALTA

Escritora Terezinha Moreira Alves

CASSU

Escritora Eliene Aparecida Ferreira

GOIÂNIA

Escritora Adelice da Silveira Barros

ITARUMÃ

Escritor Josenildo Gomes

JATAÍ

Escritora Cássia Vicente

PORANGATU

Escritor Adejar Vicente dos Santos.

QUIRINÓPOLIS

Escritora Janete Martins Medeiros

RIO VERDE

Escritora Ana Luiza de Lima

SANTA CRUZ DE GOIÁS

Escritora Fátima Paraguassu.

SANTO ANTÔNIO DE GOIÁS

Escritora Nazareth Batista

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Arquivado em Academia de Letras do Brasil, Goiás

Afonso Félix de Sousa (1925 – 2002)


Afonso Félix de Sousa (Jaraguá/GO, 5 de julho de 1925 – Rio de Janeiro, 7 de setembro de 2002) foi um poeta, cronista, jornalista e tradutor brasileiro.

Aos nove anos se mudou para Pires do Rio (GO), onde seu pai foi exercer o cargo de agente fiscal de rendas estaduais.

Em 1942 publicou os primeiros poemas no jornal Voz Juvenil do Ginásio Anchieta, da cidade de Silvânia, onde estudava. No ano seguinte, mudou-se para Goiânia, onde iniciou sua atividade literária, colaborando em jornais como O Popular e a Folha de Goiaz e na revista Oeste.

Em 1944 matriculou-se no curso de Comércio e Contabilidade do Ateneu Dom Bosco e ingressou, por concurso, no quadro de funcionários do Banco do Brasil. Com outros escritores goianos fundou, em 1946, a Associação Brasileira de Escritores — Seção de Goiás. Um ano depois, transferido para a Direção Geral do Banco do Brasil, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Foi contemplado, em 1953, com bolsa de estudos para um curso de especialização em Economia na École Pratique des Hautes Études, da Sorbonne, em Paris. Dois anos depois, terminado o curso, retornou ao Brasil.

Em 1959, casou-se com a poetisa Astrid Cabral, com quem teria cinco filhos.

Mudou-se para Brasília em 1962.

Designado, em 1970, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Banco do Brasil, serviu como assistente de promoção comercial na Embaixada Brasileira em Beirute por dois anos e meio, regressando ao fim da missão para o Rio de Janeiro.

Em 1975, aposentou-se no Banco do Brasil, onde trabalhou por muitos anos nos setores de câmbio e comércio exterior. Passou a residir em Chicago a partir de 1986.

A estréia em livro foi com O túnel, coletânea de poemas editada pela revista Orfeu, em 1948.

Em 1991, foi agraciado com o Diploma de Mérito de Goianidade, da Associação Goiana de Imprensa.

Afonso Felix e Sousa é um poeta da chamada terceira fase do Modernismo Brasileiro, ao lado de João Cabral de Melo Neto. Estes autores, sem deixar de ser modernos, cultivam uma poesia tradicional na forma e no conteúdo, resgatando uma tradição que as fases anteriores do Modernismo se esforçaram por esquecer. Não é à-toa que a memória é uma das principais fontes de criação desses artistas. Afonso Felix faz uma poesia lúcida, policiada pela razão, despida do subjetivismo exacerbado e do sentimentalismo piegas, resgatando, especialmente o soneto, a balada, o vilancete e a canção, dentre as formas da lírica, ao lado de elementos básicos do épico de fundo social, como se vê em poemas como “A moça de Goiatuba” e “A nau do Comboja”. Poeta-crítico, Afonso Felix faz uma poesia para se ler e refletir. (Humberto Milhomem)

Atividades profissionais

Funcionário concursado do Banco do Brasil, aposentado em 1975;
Jornalista do Diário Carioca;
Adido comercial na Embaixada do Brasil em Beirute.

Atividades literárias

Fundador da Revista Agora;
Fundador da Revista Ensaio;
Fundador da Associação Brasileira de Escritores;
Fundador da Associação Nacional de Escritores.

Livros publicados

O túnel, 1948;
Do sonho e da esfinge, 1950;
O amoroso e a terra, 1953;
O memorial do errante, 1956;
Íntima parábola, 1960;
Caminhos de Belém, 1962;
Do ouro ao urânio, 1969;
Pretérito imperfeito, 1976;
Chão básico & itinerário leste, 1978;
Antologia poética, 1979;
As engrenagens do belo (Coroa de sonetos), 1981;
Rio das almas, 1984;
Quinquagésima hora & horas anteriores, 1987;
À beira do teu corpo, 1990;
Nova antologia poética, 1991;
Chamados e escolhidos, 2001.

Prêmios

Prêmio Olavo Bilac, do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do então Distrito Federal, em 1957, com o livro Íntima parábola;
Prêmio Álvares de Azevedo, da Academia Paulista de Letras, em 1960, com o livro Íntimas parábolas;
Prêmio Tiocô, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 1979, com o livro Antologia poética;
Prêmio de poesia do Pen Club do Brasil, em 1981, com a coroa de sonetos As engrenagens do belo;
Troféu Jaburu, do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, em 1990, como Personalidade do ano.
Prêmio Nacional de Poesia 2001 da Academia Brasileira de Letras.

Fontes:
Wikipedia
Vestibulendo

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Arquivado em Biografia, Goiás

José Faria Nunes (A Pessoinha)


Borgelândia, cidade histórica dos tempos do império. A rodoviária mais parece cena de filme de terror. Tudo velho e sujo: dependências de administração, guichês e uma lanchonete em cima, com acesso por mal conservadas escadarias. Embaixo, os boxes dos ônibus e estacionamento. Chega ônibus, sai ônibus, menos o que vem da capital. Impaciente, Danilo caminha de um lado para outro. Vai ao bar do outro lado da rua, volta, vai ao banheiro, aos boxes de embarque e desembarque. O ônibus já tem mais de hora de atraso. A passageira que Danilo espera é gente importante, cunhada do senador amigo do prefeito. Danilo tem que fazer das tripas, coração, e esperar. Levá-la para Carneirópolis, pequena cidade a umas duas horas dali. Sendo quem é a passageira, o prefeito jamais permitiria que ela fizesse aquele trajeto de ônibus, chão batido em boa parte da estrada.

Emprego difícil, Danilo reconhece que em suas condições tem que agüentar todo tipo de imposição. Até sujeitar-se, mesmo fora do horário de trabalho, a ficar ali parado, a esperar por alguém de quem apenas sabe o nome.

– Dona Rosenilda – disse o prefeito.

Danilo sabe que foi ele o escolhido para buscar a preciosa encomenda por ser, na equipe de motoristas, o de mais fino trato. Concluiu o ensino médio pelo projeto EJA. Se parece privilégio, para ele é mais castigo. Preferiria estar em casa com a família ou no Bar do Guim jogando uma canastrinha.

Na Prefeitura todos têm horário de chegar e de sair do trabalho. Os motoristas, assim como Danilo, não. Pior! Não recebem horas extras. Reclamar à Justiça do Trabalho? Nem pensar. Vai pra rua e ainda fica queimado. Ninguém mais lhe daria emprego.

– Ufa! Até que enfim! – Exclama Danilo, aliviado com a chegada do ônibus.

O carro, um Santana herdado da administração anterior, desliza suave e rápido pelo asfalto recapeado na véspera das eleições do primeiro domingo de outubro. Ao lado do motorista, a passageira permanece calada, desde a rodoviária. Poucas palavras trocaram.

– O prefeito disse que a senhora se chama Rosenilda.

– Roseni. Pode me chamar Roseni. Acho melhor. E não precisa me chamar “senhora”. Gosto de respeito, mas pode me chamar apenas Roseni.

Fala em tom terminativo e de autoridade. Danilo percebe a conveniência de permanecer calado. Como lhe ensinou o pai, deve-se falar com estranhos apenas quando tiver algo para dizer melhor que o silêncio. Vale a receita do velho.

Mudos, olham para o asfalto à frente descortinando-se pelo farol alto do carro que corta a escuridão. Ao longe, fagulhas de luz acendem fdaíscas de luz no céu. Daqui a pouco serão labaredas, prenúncio de tempestade.

Embora plantações e pastagens estejam necessitando de chuva, Danilo torce para que ela espere que eles cheguem primeiro. No asfalto, a chuva não seria problema. Na estrada de chão, a situação é outra. Há uns trechos críticos. Poderão encravar.

Os raios riscam o céu com mais intensidade e agora mais perto. Os trovões ressoam, como se o seu controlador estivesse nervoso. O motorista imagina o pior, a chuva deve chegar logo. E depois só Deus sabe do que poderá acontecer.

Enquanto a passageira dorme – ou finge dormir – Danilo percebe, pelo retrovisor, a luz alta dos faróis de outro veículo. Ele avança rápido e, em segundos, como um raio ou uma nave espacial, ultrapassa-os e some de vista à frente.

A placa de sinalização anuncia a proximidade da entrada para Carneirópolis. Danilo desacelera o veículo que perde velocidade. Seta para a esquerda, o carro quase parando, adentra-se pela estrada de chão que, na campanha eleitoral, ganhou promessa de asfaltamento pelo governador que se reelegeu.

Agora acordada a passageira ilustre reclama das bacadas:

– O senhor não pode ter mais cuidado?

– Tô fazendo o possível, dona. É que os buracos são grandes e muitos.

Ela fica a resmungar. Danilo finge nada ouvir, até porque nada tem a dizer e nem a ver com aquela situação. Ele mesmo tem suas críticas aos políticos, mas não as exterioriza fora da intimidade dos amigos. Questão mais de prudência e um pouco de respeito e reconhecimento pelo emprego. O mísero emprego que lha garante o aluguel do barraco, água, luz e o alimento para a mulher e três filhos. Lazer? Dinheiro não sobra.

Pela estrada de chão, agora já a alguns quilômetros da rodovia asfaltada, sem mais e sem menos o carro perde força do motor. Danilo reluta mas o motor apaga. E o carro pára.

Em volta o cerrado ermo que ele conhece bem. Estão pertos do cemitério dos heróis da guerra do Paraguai. O cemitério não o incomoda. Se tiver que ter medo, tem dos vivos, não dos mortos. Mortos não voltam para fazer mal a ninguém. Nem mal nem bem. Eles estão na deles, bem ou mal, onde quer que estejam. Danilo até duvida se há outra vida após a morte. Ainda que haja, nada tem a temer. Não faz mal a ninguém, vive em paz com todos. Alguns probleminhas com os credores, mas nada sério. Verdade que matou um homem, porém em legítima defesa. Até o promotor pediu sua absolvição. Ganhou só bolas brancas. Até a família da vítima reconheceu que ele, Danilo, era o menor culpado. Por que, então, se preocupar?

Chave de ignição e pés no acelerador. Nada consegue. Tem que dar um jeito. Ali parado no meio do cerrado é que não podem ficar. Ainda mais com aquela mulher importante, cunhada do senador. O que o prefeito iria dizer? Talvez até pudesse custar-lhe o emprego. Não, o emprego não. Ele não tinha culpa. Fez revisão no carro antes de sair de viagem, tudo nos conformes. E o prefeito iria acreditar nele? O que aquela mulher poderia dizer? Ali parados no cerrado, sem água, sem comida. Não comeram na rodoviária, preferiram ganhar tempo, chegar logo em casa. Sede não vão passar, o córrego está perto. O que não pode é ficar ali no mato sem cachorro.

Pega a lanterna no porta luvas, desce, vai ver o motor. Abre o capô, tudo lhe parece normal. Ainda inclinado sobre o motor, sente um toque em suas costas. Deve ser a passageira querendo lhe dizer algo, talvez pedir um tempinho para fazer xixi. Vira para dar-lhe atenção. Com a luz da lanterna vê em sua frente uma criança com jeito e trejeitos estranhos. A cara, uma mistura de chinês, coreano, japonês e de extra-terrestre. Talvez nada disso. Lembra-se da personagem que ele viu no filme da TV.

Perde a voz e as forças. Sem ação fita aquela pessoinha. Ato contínuo a pessoinha começa a mudar de cor, ganha uma áurea de luz e ele se sente como se adormecesse. Ao retornar-se à consciência, libertando-se da hipnose, percebe estar em um ambiente estranho com máquinas estranhas, pessoas estranhas, fazendo-lhe lembrar um laboratório. As pessoas, algumas como a Pessoinha, outras pareciam pessoas normais e falantes lusófonos. Ele próprio, Danilo, se sente estranho. Roupas diferentes das suas. O corpo, a princípio bambo, aos poucos ganha energia, uma energia que antes desconhecia. Ação do laser vindo de um ponto no teto direto a um botão de seu estranho casaco, mais parecido uma camisola de hospital.

Sente-se bem quando surge novamente a Pessoinha à porta e, com gesto, indica-lhe que o acompanhe. Ele segue a Pessoinha e, sem nada entender. Mal sente os passos. Como em um sonho. Mas convicto de que é real, segue como se em uma onda rumo à praia. Desliza suave, tranqüilo, apenas a mente percebe a transição. Como se levitasse.

Vê-se novamente junto ao carro. Â Pessoinha desapareceu como uma sombra ao chegar a luz. Entra, liga-o. A passageira ilustre nada percebe. Imagina ter sido uma simples parada para o motorista tirar água do joelho. E prosseguem para Carneirópolis.

Uma aeronave a esbanjar luz corta o espaço sobre eles. Velocidade escomunal. Seria um Miraje da base de Anápolis?

No veículo a caminho de Marte a tripulação comenta o êxito da pesquisa em curso na Terra. Em Carneirópolis o prefeito espera a convidada com uma festa. Danilo vai para casa jantar na companhia da esposa e dos filhos.

A pessoinha continua em sua memória como em um sonho.

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem obtida na Universidade Federal de Juiz de Fora

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Arquivado em Goiás, O Escritor com a Palavra

Jesus Barros Boquady (Poesias Avulsas)

PAISAGEM

Pode um cego descrever
uma paisagem, já que
lhe falta, não vou negar,
a vantagem de enxergar?
Tentarei, pois cego sou,
descrever uma paisagem,
segundo alguém me narrou.
Disse-me Clara que havia
estrada longa subindo
a velha cerca de varas
uma colina subindo,
prendendo bois na pastagem,
quanto mais longe da estrada.
Lento regato passava
sob a ponte ali plantada
por cima da qual passavam
muitos homens e mulheres,
como Clara me contava.
Paisagem em movimento,
cena se desenrolando:
era Clara quem dizia.
Não se trata de um quadro
onde tudo fixo estava,
pois a paisagem de Clara
tinha noite e tinha dia,
tinha tarde e madrugada,
como Clara me contava.
Uma paisagem de Clara
é simples. Pergunto a Clara:
Por que não falas das cores:
Será que um cego não tem
o privilégio das cores?
Clara me diz que entre as cores
da paisagem que ela avista
há uma bem espalhada
que os bois mansos vão comendo,
além da que o vento leva
recolhendo-a das estradas.
A nesga do céu que cobre
a paisagem, não importa,
muda de cor à distância,
como Clara me contava.
Por isso Clara, que diz
ser clara, mas amor não
tem cor, sem deixar de ser
real, esconde-me cores,
com o que não faz um mal.
Não se esquece de contar
que a paisagem é mui bela.
Assim descrita por Clara,
pois conforme ela me conta
há pouca coisa mais linda
do que dizer a um cego
a linguagem da paisagem de Clara,
enquanto nós nos amamos,
é paisagem sem igual.
Clara é toda uma paisagem
que minhas mãos descobriram.

MATURIDADE

(fragmento)

A maturidade chega-se
acompanhada de bombas
de hidrogênio unindo os homens.

Vem com bombas de cobalto
curando os homens irmãos.

E novas formas tomando
as velhas coisas do mundo.

E com velhos sentimentos
aos novos cedendo passo.

Maturidade de cego,
cego desde o nascimento,
é uma etapa construída
sobre campo de sofreres.

Preso a raízes profundas
avancei no campo oposto,
com asas de vôo cego,
feito anjo que foi deposto.

MORTE EM TRABALHO CONSIDERADA

em qualquer que seja a lida
há lances de queda, ritmo
que se perde em segmentos,
choque de aço no crescer
dos edifícios,
polias
fervilhantes,
com as lixas
percorrendo as faces ásperas
da madeira não mais virgem,
nervos,
sangue,
coração
de repente pára a vida,
um gesto que se interrompe,
o corpo tomba no espaço,
os braços vibram na luz
que subtrai silhuetas
e,
no declive,
paisagens
correm enquanto crescendo
o chão aguarda calado
o fruto que se desprende
dos galhos com parafusos
e soldagens de oxigênio
ligados ao tronco alado
do edifício em construção,
que sobe,
buscando as tardes
onde quer que elas se escondem,
pois as tardes vêm de cima,
envoltas em cinza e brasa,

ou só cinza quando chove
há caminhos que se traçam
no aclive, na descoberta
do espaço,
as vigas montadas
na invasão do quase vácuo,
mundo onde existem a brisas,
esses alimentos de pássaros
irmãos em asas dos anjos

os olhos, voltando vêem
lembranças de seus estágios
nos andares construídos,
onde se urdiram os sonhos
nas escaladas do céu,
o terraço,
a sombra,
a fome
sentida na hora do almoço,
a vontade de ir além
do andaime,
no elevador,
tocar as nuvens lá em cima,
olhar a cidade,
chão
em que deslizam os homens

dentro de instantes é a morte,
o baque surdo no asfalto,
a morte melhor que é,
morte em tempo passado,
e já — porque veio — aceita,
por isso considerada
em trabalho, mais nada

os olhos se comprimiram,
ao duro encontro da morte
as retinas se partiram

o verde dos olhos desce
agora mesmo da vida:
derrama-se pelo chão,
confunde-se com a grama
entre cal,
terra e cascalho,
em verde humano,
mas verde.

GAGÁRIN E SHEPARD
COMBATEREMOS O SOL

(Fragmento)

e tu Gagárin
darás o braço a Shepard
vossos rostos
finda a viagem
cosmo pontilhado
de luz
retornarão
iluminados de azul

tu gagárin
de asas leves
leve teu corpo
marcharás no tempo
e Shepard contigo
erguerá uma bandeira
porque o homem
fez

nós caminharemos
juntos
o homem
do brilho dos astros
construiremos escudos
e combateremos o sol
o sol
em missão de paz
porque o sol
é (será) próximo

nossas asas
gagárin e shepard
resistirão ao sol
e ícaro será
finalmente
vingado

a bandeira
que um dia plantaremos
na área isolada
do sol
terá seu nome

depois
iremos além
os homens
somos assim

RIOS

Fim de tarde, anoitecer
nas margens do rio goiano,
pequenina luz brilhando
de canoa que se vai,
o casco molhado e frio.

Canoeiro desce o rio,
num soluço que contém
lembranças do amor deixado
lá em cima, no povoado.

Quem olha o rio descendo,
rio lento ou violento,
nas corredeiras das pedras
pintadas na flor das águas
cortadas pela tristeza
do canoeiro saudoso,

nem lembra que há pouco instante
tinha ele o corpo da amante,
um corpo que dava gosto…

BOI-DE-CARRO

Mas um boi está guardado:
é boi de carro-de-boi
ou vai rodar as moendas
do engenho que lembra o tempo.

Não inteiro, esse foi sonso
vive no mundo vagando.
Os olhos e o coração
de boi castrado, que são?

Nas nuvens desaparece
o equilíbrio do carro
que vem do grito das rodas,
girando pelo infinito.

Fonte:
Antonio Miranda

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Arquivado em Goiás, Poesias Avulsas

Jesus Barros Boquady (1929 – 2002)

Nasceu em Crateús (CE), em 22 de abril de 1929, mas foi em Goiás que passou a maior parte de sua vida e onde cristalizou a parte mais importante de sua obra. Os últimos anos de sua vida foram passados em Brasília, cidade em que se aposentou por serviços prestados à Câmara dos Deputados e em que veio a falecer, em Brasília, 8 de dezembro de 2002.

Nasceu em Crateús (CE), em 22 de abril de 1929, filho de Alexandre Lucas Boquady e Albertina Vieira Boquady.

Transferiu-se para Goiás, morando em Filadélfia, Araguacema e Miracema do Tocantins, municípios hoje pertencentes ao estado do Tocantins.

Em Miracema, em 1934, começou seus estudos primários. Chegou em Goiânia em 1941, onde bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás (1954) e licenciou-se em Letras Modernas pela Faculdade de Filosofia.

Na mesma cidade, atuou no jornalismo como redator e secretário de redação da Folha de Goiás, redator do Diário da Tarde e do Diário do Oeste, dirigindo suplementos literários desses jornais antes citados e do Jornal de Notícias. Com os jornalistas Genaro Maltez e Antônio Geraldo Ramos Jubé, fundou em Brasília, em 1959, os jornais Primeira Hora e Hora de Brasília.

Por concurso público, tornou-se fiscal e inspetor do trabalho. Foi professor de literatura brasileira, na Faculdade de Filosofia, da Universidade Católica de Goiás.
Em Brasília, foi membro da Associação Nacional de Escritores, trabalhou como delegado de polícia, professor da Secretaria de Educação do Governo do Distrito Federal, professor do Centro Universitário de Brasília (CEUB), e finalmente como Analista Legislativo da Câmara dos Deputados Federal, por onde se aposentou.

Em 1990, ganhou o 2º lugar do Prêmio Serzedello Corrêa, de monografias do Tribunal de Contas da União – TCU, com o título O Tribunal de Contas da União e a República.

Foi um dos primeiros a fazer experiências concretistas em Goiás, e parte de sua obra está inserida conceitualmente na Geração de 45, sobretudo pelo seu livro de estréia, que traz traços cabralinos. Trata-se de uma poesia que, inegavelmente, contribuiu, pela ousadia de abarcar avanços estilísticos em prática em outras regiões, para oxigenar com o ar da modernidade a poesia goiana.

Bibliografia:
O cego, Bolsa de Publicações da Associação Brasileira de Escritores/seção de Goiás, 1959;
Goiânia: sonho & argamassa, Companhia Editora Social Indústria e Comércio, 1959;
Gagárin e Shepard/combateremos o sol, s/editora, 1961;
Canções do adivinho, 1968; e
Romanceiro Goiano, s/editora, 1971.

Fontes:
Wikipedia.
Antonio Miranda.

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Arquivado em Biografia, Goiás

J. Castro (Antologia Poética)

DORES DE PARTO

Entre a colcha acetinada
e os alvos lençóis,
geme com dores de parto a madre donzela.
Lágrimas silentes,
sussurros contidos,
face enternecida:
— Salve, agraciada!
— Bendito o fruto do teu ventre!
Ao sorriso cúmplice do pai,
uma criança de olhos fugazes
canta ao mundo a sua liberdade.
— Amém! — louva o poeta com fervor.

MÁGOA DE UM POETA

Procuro nas mais belas canções um som que me embale
E na natureza, uma imagem que me inspire.
Devasso as águas, as profundezas dos oceanos
Com seus mistérios, os pássaros, os animais, o céu.
Vejo uma estrela: de estrela, de mulher.
Os olhos turmalíneos são talhados num rosto de traços angelicais.
Um demônio. Bela.
Os lábios sensuais de morango emolduram com graça
A boca maliforme – a medida exata do pecado.
Ela desfila seu encanto na relva granítica
Os passantes esquecem o queixo ao vê-la passar.
Sigo sem rumo. Sozinho.
Com a mente despida,
Os olhos sem viço,
Amaldiçôo a minha existência.
O relógio biológico me censura:
Dezesseis horas. Em jejum.
Na esquina um quiosque.
Procuro uma moeda, a última.
Paro na porta, indeciso.
Ao lado um verme.
Sim, maltrapilho, sobre um vaso de detritos debruçado.
Em volta de seu corpo,
Centenas de moscas zumbem furiosamente,
Disputando a mesma porção.
Então os lábios se me abrem
Numa prece arrependida:
– Oh, Deus, por que me fizeste Poeta?!

Fonte:
– O Autor
– Poetas del Mundo

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J. Castro (1962)

Jonan de Castro Reis, conhecido também como ‘J. Castro’ nasceu a 14 de setembro de 1962, em Jandaia-GO, onde viveu a sua infância. Filho de Manoel Libório dos Reis* e de Maria Benedita de Castro, é graduado em Letras pela UEG – Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Quirinópolis, em 2003.

Sendo o oitavo filho de uma numerosa família de quinze irmãos, é o primeiro a concluir o curso de nível superior. Professor de Língua Portuguesa [Redação], é um dos imortais, membro-fundador da ALESG – Academia de Letras e Artes do Extremo Sudoeste de Goiás, tendo como patrono o grande escritor Guimarães Rosa.

Tendo participado de alguns concursos, obteve:

 Menção honrosa no VI Concurso Nacional de Contos e Poesias ‘Poeta Nuno Álvaro Pereira’ com os poemas ‘Infância’ e ‘Confissões de Omar’, na cidade de Valença – RJ.

 Premiado no II Concurso Nacional de Literatura Revelação do Terceiro Milênio, na cidade de Caçu – GO, obtendo o Prêmio Ana Luiza de Lima, com o poema ‘Castelo de Roma’, classificado em 1º lugar na categoria Regional;

 Prêmio Adelice da Silveira Barros, com o conto ‘A primeira calça comprida’, classificado em 3º lugar na categoria Regional;

 Prêmio Adelice da Silveira Barros, com o conto ‘Por um triz’, classificado em 1º lugar na categoria Local, cujas obras integram o II Volume da ‘Antologia Revelações do Terceiro Milênio’ em 2004.

Participa também das antologias ‘O que os homens estão escrevendo’, da Litteris Editora – RJ., e ‘Pegadas’, esta, organizada pela ALESG – Academia de Letras e Artes do Extremo Sudoeste de Goiás.

Autor de vários textos, entre crônicas, contos e poemas. Tem contos e poemas publicados em jornais, mas o sua maior alegria foi a publicação do romance ‘Marcas do infortúnio.

Imortal da Academia de Letras do Brasil/GO, representante da cidade de Quirinópolis

Fonte:
Academia de Letras do Brasil

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José Faria Nunes (Solenidade de Posse da ALB/Goiás e Academia de Letras do Brasil/ Mato Grosso do Sul, hoje as 19h30)

A Academia de Letras do Brasil-ALB instala-se em Goiás dia 29 de outubro de 2010, com a participação de mais de 50 escritores da capital, Goiânia, e representantes das cidades de Anápolis, Cachoeira Alta, Caçu (sede), Ipameri, Itarumã, Jataí, Mineiros, Paranaiguara, Porangatu, Quirinópolis, Rio Verde, Santa Cruz de Goiás e Santo Antônio de Goiás.

A solenidade, que terá lugar no Centro Cultural Rozenda Cândida Guimarães, a partir das 19 horas, será presidida pelo presidente nacional da ALB, professor doutor PhD Mário Carabajal. A solenidade contará com presenças de escritores e poetas de diversos Estados do Brasil, da França, Suécia, Chile e Colômbia, entre eles dirigentes de entidades literárias nacionais e do exterior, além de autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, de entidades de classe, religiosas, empresariais e de instituições não governamentais, entre outras.

ALB/Mato Grosso do Sul

Além da instalação da ALB/Goiás, diplomação e posse de acadêmicos goianos, na oportunidade será formalizada também a criação da ALB/MS-Academia de Letras de Mato Grosso do Sul, com a posse de sua Presidente Executiva, poeta Nena Sarti e os poetasReginaldo Sans e Vanda Ferreira.

Os imortais de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foram indicados pelo presidente executivo da ALB/Goiás, imortal José Faria Nunes. Os três acadêmicos da “Cidade Morena” são também membros da Associação Internacional de Poetas Del Mundo, que está promovendo, por meio do seu Consulado de Goiás, o I Encontro Nacional de Poetas Del Mundo do Brasil, de 28 a 31 de outubro, na cidade de Caçu.

Os presidentes Mundial e Internacional dos Poetas Del Mundo, Luiz Arias Manzo e Delasnieve Daspet, estarão presentes na solenidade daALB/Goiás em Caçu. Os dois foram homenageados recentemente no Rio deJaneiro pelo presidente Nacional da ALB com o título de PH.I -Doutores em Philosofia Univérsica” – Ph.I. Filósofo Imortal “HonorisCausa”. Arias Manzo foi homenageado também pelo presidente prof. dr.Mario Carabajal com a cadeira honorifica nº 3 da ALB, e a Presidente Executiva Delasnieve Daspet, com a cadeira honorifica nº 4.

Escritores da ALB/GO a serem diplomados e empossados

Dos 59 poetas e escritores habilitados para a ALB/Goiás nem todos vão tomar posse em Caçu. Alguns, por motivos de saúde ou compromissos anteriormente assumidos, outros por questões de trabalho, a exemplo do escritor e poeta Ney Teles de Paula, desembargador presidente do TRE de Goiás, responsável pela presidência do pleito eleitoral em Goiás.

Na solenidade serão também empossados outros membros de direção da ALB/Goiás, seu Conselho Superior e alguns presidentes de ALBMs-Academias de Letras do Brasil Municipais. Além dos Acadêmicos goianos, segundo os estatutos da ALB, poderão também ser diplomados eempossados, na ocasião, acadêmicos de outros Estados que já estejam devidamente habilitados para diplomação e posse e requeiram a efetivação desse direito até 15 dias antes da solenidade, ou seja, até o dia 14 de outubro. Há informação de que um escritor do Pará já manifestou interesse em ser diplomado e empossado na solenidade de Caçu.

A seguir, relação completa dos escritores titulares de cadeiras vitalícias da ALB/Goiás, das 14 cidades já presentes na história da ALB em Goiás, por ordem alfabética de cidades, acadêmicos e respectivas cadeiras. Para concluir, a relação dos imortais da ALB/MS, com suas respectivas cadeiras.

I – ANÁPOLIS:
1 – Ridamar Batista (já empossada em Brasília)
2 – Paulo Nunes Batista

II – CACHOEIRA ALTA:
1 – Terezinha Moreira Alves

III – CAÇU:
1 – José Faria Nunes
2 – Dauro Divino Guimarães
3 – Eliene Aparecida Ferreira
4 – Elvis Souza Nascimento
5 – Joana D’Arque de Freitas
6 – Lázara Ambrósia de Souza
7 – Lionízia Pereira Martins
8 – Maria Aparecida Gama de Almeida
9 – Ravel Giordano de Lima Faria Paz
10 -Rone Sólon Fideles
11 -Rozaíres Guimarães de Lima Nunes
12 -Valdir Alves da Costa

IV – GOIÂNIA
1 – Adelice da Silveira Barros
2 – Aidenor Aires Pereira.
3 – Brasigóis Felício Carneiro.
4 – Delermando Vieira
5 – Edival Lourenço
6 – Elizabeth Caldeira Brito
7 – Geraldo Coelho Vaz
8 – Hélio Moreira
9 – Iuri Rincon Godinho
10 – José Mendonça Teles
11 – José Ubirajara Galli
12 – Lêda Selma
13 – Leonardo Teixeira
14 – Maria do Rosário Cassimiro
15 – Miguel Jorge
16 – Ney Teles de Paula
17 – Valdivino Brás
18 – Waldomiro Bariani Ortêncio

V – IPAMERI
1 – Lupércio Mundim

VI – ITARUMÃ
1 – Josenildo Gomes dos Santos
2 – Rômulo Darc Fonseca Santos
3 – Valdivino Barbosa dos Santos

VII – JATAÍ
1 – Cássia Vicente
2 – Dinair Pereira de Assis
3 – Nicodemus Souza Miranda
4 – Gênio Eurípedes Assis

VIII – MINEIROS
1 – Martiniano José da Silva

IX – PARANAIGUARA
1 – José Carvalho

X – PORANGATU
1 – Adejar Vicente dos Santos

XI – QUIRINÓPOLIS
1 – Agostinho de Almeida Moreira
2 – Elzi M. La Guárdia
3 – Jacinto Euzebio Ferreira
4 – Janete Martins Medeiros
5 – Joelma Gonçalves Rocha
6 – Jonan de Castro Reis

XII – RIO VERDE
1 – Ana Luiza de Lima,
2 – Zilda Pires

XIII – SANTACRUZ DE GOIÁS
1 – Fátima Paraguassu (Já empossada em Brasília)
2 – Arádia Raymon
3 – Maria Loussa

XIV – SANTO ANTÔNIO DE GOIÁS
1 – Nazareth Batista

XV – CAMPO GRANDE – SECCIONAL DE MATO GROSSO DO SUL
1 –Nena Sarti – Com indicação para a Presidente Executiva de Mato Grosso do Sul
2 – Reginaldo Sans
3 – Vanda Ferreira
_________________________
Faria Nunes é Escritor Presidente da ALB/GO. Presidente do Conselho Superior Estadual da ALB/GO. Membro do Conselho Superior Nacional da ALB.

Fonte:
Portal Vania Diniz

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Tagore Biram (Goiás Poético)

PRÓLOGO

Chegou a hora de incendiar as palavras
e atiçar fogo na noite escura.
Ah, erga-se o facho das estrelas
nesta noite de puro abril:
eu quero a luz derramada
sobre a chaga do meu peito
e a sangria de minhas mãos à mostra.
E não me venham dizer que não é tempo
de falar de flores e que
passou-se o tempo de falar de amores.
Eu, do meu lado, não me cansei ainda
de amar com o meu amor desesperado
(Mesmo não havendo intervalo
no calendário de minhas dores).

Mesmo que me digam: “Não é tempo de falar de amores”,
eu viro as costas e não me importo
e abro as portas dos meus tumores.

Tudo que habita na retina do meu olhar
são os passos largos do barco fundo
no mar imenso do procurar.

Esta noite, sob o manto das estrelas,
erguerei o incêndio das palavras!
Venham todos assistir o grande espetáculo.
Não vês, na vidraça dos meus olhos,
uma colméia de abelhas? Uma centelha
desesperada, debulhando raios de luz?

Eis o prenúncio de um grande acontecimento.
(Não haverá gozo nem sofrimento,
mas a explosão da lucidez de um louco).

Venham todos! Vou incendiar o mundo
com um só dos meus olhares.
(Eu mesmo sou uma aldeia
e o meu coração pode matar a sede
de todos os mares).

Ah, eu peço pelo amor de Deus ou do demônio:
Abram as comportas do mundo.
Façam silêncio por um segundo:
aqui existe um homem incendiado
de amor e um coração que vai saltar
pela janela do peito!

ÚLTIMO ATO

Com um tiro no crânio
o gigante Maiakovski
disse adeus à estupidez.
Com uma navalha
acariciando o pulso,
Iessenin, angelical,
despediu-se do tédio,
escreveu com sangue seu último suspiro.
Há também os que tomam cianureto,
e ainda, mais comumente,
os que saltam dos edifícios.
Quanto a mim, será mais terrível.
Comigo será diferente.
Farei meu ato-de-fé,
dançarei um ballet invisível
e cantarei a invenção da cigarra.
Ah, seguirei cantando e cantando.

Não. Não tenha pena da minha voz,
nem é preciso me dar a mão.
Apenas seguirei cantando
(e ninguém pode impedir que eu cante)
até que você se espante
com a última sílaba do meu coração.

A NAVALHA DOS ANOS

A noite chegou lambendo
minha juventude
com sua língua tristíssima
E como se fosse
uma navalha,
a noite me sangrou
por mais de vinte vezes
Com sua
longa calda de solidão.
Esta noite
mais de vinte
séculos
Ficaram por terra
como o golpe inevitável
da navalha
noturna e tristíssima
dos meus anos

“O RÍO TIRÚA”

Que trágica é a vida dos rios
Que trágica é a vida dos mananciais
Com sua voz mineral
Cheia de peixes e pedras
E também um olhar de esperança.

Os rios arrependidos
Que viajam tantas voltas entre selvas,
Costas montanhosas,
Para voltar sem cansaço
Á sua fonte original.

E há rios tranquilos e sinuosos,
Rios tranquilos y sinuosos
como serpentes,
silenciosos rios,
rios indiferentes aos crimes dos homens.

Que conformada é a vida deste veios,
Estes veios que sangram a terra
E alimentam de batatas os semeados,
De milho, amor, vinho,
Todos os elementos possíveis.

A voz musical desta agua,
Que o homem insiste em calar para sempre.

Dizem que há rios que se lamentam.
Sim, há rios que se lamentam.

Eis sentido o coração
Que esgota suas últimas lágrimas,
As últimas de um rio sedento.

Estes rios generosos não se lamentam por si,
Sim pelos seus próprios assassinos.

Tenho visto rios e lagos,
Rios e lagos cadavéricos,
Rios que se cansaram de ser rios,
Rios que se foram ao exílio,
Rios que se esconderam debaixo da terra,

Aguas que deviam abandonar a seus filhos.

Sim,
Tenho conhecido rios que retornaram a ser nuvens,
Mananciais de aguas que não retornaram nunca mais.

Se foram para sempre estas aguas,
Estas aguas que persistem nos olhos,
Estas aguas, estas aguas.

(tradução: José Feldman)
———————

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Tagore Biram (1958-1998)

Tagore Biram era pseudônimo de Ubiratan Moreira, em homenagem ao poeta indiano Rabindranath Tagore.

Ubiratan Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1958, em Olho D´Àgua, antigo distrito de Anicuns (Goiás) e hoje município de Americano do Brasil.

Sua estréia literária foi em 1981 com o livro Flauta Noturna.

Em 1985, publicou Poemas do Amor e da Ausência e viajou para Moscou, como delegado do Festival Mundial da Juventude. Na União Soviética, participou do Encontro Internacional de Jovens Escritores. Fez recitais e falou sobre o Brasil.

Teve poemas seus traduzidos para o russo e publicados em Moscou.

Em 1986, criou e presidiu o Comitê Pablo Neruda de Solidariedade ao Povo Chileno.

Em 1987, conquistou, em Goiânia, o Prêmio Cora Coralina de Poesia, com o livro O Anjo Desafinado, seu divisor de águas poéticas.

Na década de 1990, transferiu-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde viveu por vários anos e trabalhou como editor cultural (Caderno B, do Jornal do Brasil Central) e redator-criador em agências de publicidade. Conheceu o poeta pantaneiro Manoel de Barros e dele se tornou amigo.

Em 1996 mudou-se para o Chile e ganhou o prêmio literário Cidade de Concepción, onde publicou os livros El Enderezador de Vientos e Poesia Pasajera.

O poeta rebelde e saudoso de casa faleceu em Tirúa (Chile), em 13 de junho de 1998, dez anos depois da publicação de seu segundo livro, O Anjo Desafinado.

Em Campo Grande (MS), o auditório na sede da TV Educativa foi inaugurado com o nome de Tagore Biram. Em Tirúa (Chile) um centro cultural também leva seu nome. Quando morreu em 1998, Tagore Biram deixou, inéditos, os livros, Muro de Berlim e Poemas de Santiago, dos quais, até o momento, não se sabe o paradeiro. (Valdivino Braz)

Se fosse hoje, eu não teria deixado Tagore Biram cair tão facilmente. Mas nunca conseguimos impedir uma queda, pois, quando vamos notar, a derrota já alcançou a todos nós. Mas a história humana carece de algumas quedas precoces para termos presentes a nossa fragilidade. Também quanto mais intenso o fogo mais rápido o destroçar da madeira. E ele que seria uma renovação total da poesia goiana! Dois livros que editou foram suficientes para deixar um clarão intenso. Dormi uma vez no apartamento dele em Goiânia, e umas duas noites ele passou em minha casa. É do poeta Valdivino Braz — seu mais fiel amigo, tanto em vida como de sua memória — o texto que o apresenta, publicado recentemente no Jornal Opção . O poema “El rio Tirúa”, que se encontra numa página chilena, talvez tenha sido escrito no período final de sua vida, quando ele morava naquele país. (Salomão Sousa)

Fonte:
Antonio Miranda

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Genaura Tormin (1945)

Picuí, Paraiba (03 de julho de 1945)

Filha de José Patrício da Costa e Angelina Muribeca da Costa.

Após os estudos primários em sua terra natal, fez o ginásio no Colégio Santo Agostinho e o Técnico de Contabilidade, na Escola de Comércio de Goiânia.

Formou-se em Direito, pela Faculdade Anhanguera.

Advogada, Ex-Delegada de Polícia. Serventuária do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, em Goiânia.

Professora da Academia de Polícia de Goiás.

Escritora, Poetisa, Ensaísta. Pesquisadora, Memorialista, Intelectual. Pensadora, Ativista, Produtora Cultual. Literata, Cronista, Contista. Administradora, Educadora, Ficcionista.

Membro da União Brasileira de Escritores de Goiás, da Ordem dos Advogados do Brasil, da Associação dos Delegados de Polícia, além de diferentes entidades sociais, culturais e de classe, entre as quais, Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica.

Presente na Estante do Escritor Goiano, do Serviço Social do Comércio e em diferentes antologias de poesia e prosa. Biografada no Dicionário Biobibliográfico de Goiás, de Mário Ribeiro Martins, Master, Rio de Janeiro, 1999.

Genaura Maria Da Costa Tormin, é o meu nome. Nasci ao amanhecer de um domingo de julho, embalada pela sinfonia do vento e pelo cantar de pássaros. Filha de pais camponeses, tenho por lema a coragem, a fé por legado e o amor por escudo. Já vivi meio século, conheço bem a jornada. Fui menina, rebelde, barulhenta, traquina. O colégio de freiras me fez moça educada, comportada, bem intencionada. Sou casada e tenho filhos.

Nasci no nordeste brasileiro, mas reputo-me goianiense, pois aqui resido desde os nove anos de idade. Aqui conclui os meus estudos. Fiz o curso Direito e especializei-me em algumas áreas. Sou Delegada de Polícia. O tempo legou-me a aposentadoria. Irreverente que sou, arranjei outra ocupação. Estudei e prestei concurso. Sou Analista Judicário do Tribunal Regional do rabalho de Goiás.

Fui poeta, como toda adolescente, porém essa marca não passou por mim. Retenho-a até hoje. Não me importa se canto o amor, a vida, a morte… O que importa é cantar, extravasar, curtir as palavras lindas, tristes ou fortes.

Sou escritora: meu livro Pássaro Sem Asas estreou em 1991 e já está em 50 edição. A 6ª já está a caminho. Afinal, a vida é dinâmica. Tenho, ainda outro: Apenas uma flor, de poemas para acalentar a alma, colorir os momentos desbotados e falar de amor.

Em versos vou levando a vida, desnudando anseios e deixando jorrar todas as emoções de viver. No meu caminhar tenho pressa. Vivo o hoje, o agora. Sou poeta.

Fontes:
Poetas del Mundo.
Usina de Letras

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Paulo Nunes Batista (Goiás Poético)

LIÇÃO DA PEDRA

Não basta olhar a pedra.
O importante é saber
que ela também nos vê
com seus mil e um olhinhos de pedra.
Já pensaste em sentir a alma de cada pedra?
Já buscaste saber – antes de usá-la –
se ela quer ser só pedra de alicerce
ou se prefere ser estátua?
João Cabral nos falou sobre a Educação pela pedra.
É que a pedra tem vida e sabe muitas coisas
quer da Esfinge, das Pirâmides do Egito,
das ruínas de Machu Picchu, de Stonehenge,
dos Himalaias com seu Pico do Everest,
das estátuas da Ilha da Páscoa e da Muralha da China
e dos tempos que vêm desd a Idade da Pedra
e antes, do muito antes, quando neste planeta
só ela – a pedra – águas e areias havia…
Não. Não basta ver a pedra.
É preciso aprender cada Lição da Pedra.

MINHA FILHA

Em memória de minha querida
neta Euliana

Darei a minha filha
o nome de Poesia
É incrível, mas não conheço
ninguém com esse nome
Um nome tão humano
tão cheio de sonho e sugestões.
E minha filha será
bela como a Verdade
e equânime como a Justiça.
Outro nome que nunca
vi aplicado a ninguém.

Ensinarei a minha filha
a deitar-se com o Amor
e a erguer-se com a Harmonia.
E lhe darei as ferramentas
para lapidar seus desejos
os brutos diamantes do instinto
para que brilhantes sejam
entre as mais límpidas estrelas.

Seus seios verterão flores
e sua boca música
e ela perfumará com seus dedos
o que quer que alcancebr> com seu manso toque mágico.
Dos olhos de minha filha nascerão auroras
A Noite dormirá em seu sexo
e anjos bailarão ao ritmo de seus passos.

Seus beijos serão vôos místicos
beija-florindo as manhãs
abrindo asas na tarde
antes que o sol se despeça.
Farei de minha filha o meu melhor poema.
E quando eu me mudar de mim
nas inexoráveis ondas do tempo
ainda ficarei por muito espaço
dançando nas esquinas da vida
porque minha filha se chamará
POESIA.

CANTO DOS CRISTOS DA TERRA
OU
COMO NASCE UM CANGACEIRO

A Maria do Socorro C. Xavier

Cristos da terra, nascidos
na Manjedoura do NÃO:
não têm terra nem saúde,
justiça nem instrução.
Só conhecem 3 reis magos
– que sempre lhes causam estragos – :
Polícia, Imposto e Patrão.

São filhos de Zé Ninguém
e de Maria Qualquer…
Naturais de algum ‘Belém’
que não se sabe onde é
e onde, entre espinhos e grota,
‘o Judas perdeu as botas’
jogando mais Lucifer…

Frutos do chão duro e seco
como um rio que já foi…
Vidas de pedras agudas…
Terras de ‘Deus me perdoe!’…
Essa terra, aquela vida
têm a tristeza doída
de uma caveira de boi…

Irriga as maçãs do rosto
com o chuvisco da Esperança:
luta e sofre! Sofre e espera
na Fome que a dor amansa…
Num prato – pesa a Pobreza;
no outro – o peso é da Tristeza
que sua vida balança…

Pega um fiapo de Sonho
e tece a própria mortalha.
Toca o carro… mas, encalha
nas Pedras da Solidão…
seu canto traz a Amargura
dos lamentos de um Aboio…
da cicatriz de um arroio
na Face da Sequidão!

Planta um Pé de Sacrifício
– nasce uma Flor de Saúva!
Estende a Mão para a Chuva
– e alcança o Olho do Sol…
Só lhe dão, como presente:
Pobreza… falta de escola…
Leva mais chute que bola
em campo de futebol…

Mora num rancho de palha,
dorme num jirau de vara.deixa, um dia, o ‘seu’ Sertão…
Seu, uma vírgula, que, dele,
não possui nem mesmo os Braços
que são, apenas, pedaços
das posses de algum Patrão…

O Patrão manda no velho,
manda na velha, na filha.
E na quadra. E na quadrilha…
na quadrinha… no quadrão…
Entonce, o Cristo da Enxada,
cansado do mandonismo,
muda o nome de batismo
pra Silvino ou Lampião…

Cristo da terra, pregado
na cruz de um cabo de Enxada,
sua alma está calejada
pelos séculos de Dor…
Traz dois olhos bem abertos
– mas anda cego de tudo:
cego, cabisbaixo e mudo
pelas terras do Senhor!

Belo dia, um desses cristos
humilhados, oprimidos,
forma no rol dos Bandidos
contra a Opressão Social…
E – é Jesuíno Brilhante,
Corisco, Antônio Silvino
ou o ‘Capitão Virgulino’
– ‘Justiça’ escrita a Punhal!

É – Liberato, Jurema,
Moita Braba, Pitombeira,
Zé Sereno, Mão Foveira
ou ‘Quelé do Pajeú’…
É – abareda – vingando
a honra da irmã sertaneja
que ficou nos ‘Ora, veja’
de um ‘cabo’ de instinto cru…

Vai acender as fogueiras
da rebeldia matuta
– contra a força absoluta
dos senhores ‘coronéis’.
É – mais um, que troca a Enxada
pela ‘lei’ de um pau-de-fogo,
onde a Morte ganha o Jogo
cheio de lances cruéis!

Seu ‘coroné’ manda-chuva
manda na vida e na morte,
no Sul, no Centro, no Norte,
no litoral, no Sertão…
Manda – porque tem dinheiro,
tem nome, poder e terra:
promove a Injustiça e a Guerra
e até ‘Deus’ lhe dá razão!…

Almas de lama e de aço
vivem no chão Nordestino
tentando o nó do destino
de algum modo desatar. . .
Muitos escravos da gleba,
num passado ainda recente,
tinham dois rumos, somente:
um – morrer. . . o outro – matar. . .

Com Corisco terminou
o tempo dos cangaceiros.
Mas agora os pistoleiros
fazem o que manda o patrão.
Quantas vidas são ceifadas
na base da morte paga
motivado a dura saga
do sangue ensopando o chão.

Acabou-se Lampião –
entrou em campo outro time:
o Sindicato do Crime
tomou conta do País.
No Nordeste, Norte ou Centro
cangaceiro de gravata
pra ganhar dinheiro – mata,
no seu ofício infeliz.

Quando a JUSTIÇA mandar
no Seu Coroné Mandão
– nesse Dia há de acabar
a Desgraça do Sertão:
nunca mais o brasileiro
terá outro Cangaceiro
Virgulino Lampião!

Na Injustiça Social
repousa a causa do mal.

SÊ COMO O LÓTUS

Ao amigo Paulo Jaime

Sê como o lótus, que, a raiz, afunda,
lá, na abjeta escuridão do lodo
e, ao contato da luz, abre-se todo,
só fragrância e pureza, em flor jucunda.

A flor do lótus, na matéria imunda,
no milagre da flor, põe luz a rodo.
Transmuta, pois, a escuridão do engodo,
na Verdade — que é Deus e a tudo inunda.

Às trevas, como o lótus, não maldigas.
Acende a tua humílima velinha
e aguarda a ajuda de outras mãos amigas.

Em vez de blasfemares, vai, caminha.
Ama e serve, que lótus, na alma abrigas
e o Amor de Deus não deixa a alma sozinha…

VELHAS PRAIAS

A Francisco Miguel de Moura

Ó minhas alvas praias nordestinas,
enfeitadas com velas de jangadas,
que, sobre o mar, vão leves, enfunadas
ao vento bom das ilusões meninas.

Praias perdidas na longínqua infância,
mas que retornam na sutil fragrância,
no adeus dos coqueirais, que o ser me invade…

Praias de brisas mansas soluçando…
Os olhos do Menino marejando…
E o coração chorando de saudade…

A ASA DA NOITE

A asa da noite vem, devagarinho,
adormecendo os seres, no abandono
desse torpor onírico do sono,
que deixa o ser humano mais sozinho;

e traz, no manto, a embriaguez do vinho;
da música do sonho, traz o abono.
O seu poder, de nós, se faz o dono
e abre caminhos para o descaminho.

A asa da noite, ungida de segredo,
se, às vezes, traz a sensação de medo,
é dádiva dos céus, óbolo santo:

— Ao vir da sombra, o corpo se enlanguece,
mas a alma sai de nós tal como prece,
agradecendo a Deus por todo canto.

MEU DIA

Meu dia, às vezes, passa tão de manso,
que nem lhe noto os fatos e acidentes.
Comparo esses meus dias a repentes,
que vou compondo e de que não me canso.

É como água de rio sem remanso,
que desliza no leito suavemente.
Borboletas pousando docemente
ou valsa lenta que sonhando danço.

De repente, lá surge a tempestade.
E o dia, que era calmo, então se agita
em cachoeiras de intranqüilidade.

Mas, depois disso, volta a santa calma.
E vou rolando assim, face bendita,
a refletir a paz que sinto na alma.
—————–

Fontes:
Poetas del Mundo.
Antonio Miranda.

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Paulo Nunes Batista (1924)

Paulo Nunes Batista [João Pessoa-PB, 2/8/1924], poeta e escritor paraibano radicado em Anápolis-GO, é autor, entre outros, dos livros: Canto Presente [1969], Cantigas da Paz [1971], A Caminho do Azul [1979], De Mãos Acesas [1981], ABC de Carlos Drummond de Andrade e Outros abecês [1986], O Sal do Tempo [1996], O Vôo inVerso [2001], Alguns Poemas/Algemas [2003] e Sonetos Seletos [2005] – poesia -; Anápolis em Tempo de Música [parceria com Jarbas de Oliveira, 1993] – ensaio; e Chamego, o urubu [1997] – contos.

Bacharel em Direito, repentista, cronista e jornalista, escreve na imprensa do Brasil e Portugal desde 1940.

Em 1994 representou o Brasil nos Encontros de Improviso em Lisboa.

Membro da Academia Goiana de Letras [Cadeira nº 8] e de várias entidades culturais.

Consta de antologias e é citado por diversos autores.

Fonte:
Poetas del Mundo. http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?

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José Faria Nunes (Goiás Poético)

QUERO INDIGNAR-ME

Quero indignar-me
com a mãe que se submete
ao aborto de uma vida.
Mas como indignar-me
se a própria vida dessa mãe
já foi abortada?
Quero indignar-me
com uma criança que na rua
assalta à mão armada.
Mas como indignar-me
se essa criança jamais
conheceu o afago da mãe
ou o valor de ser gente?
Quero indignar-me
com a fome
a miséria
a deseducação.
Mas como indignar-me
se me falta tempo
até de ver como gente?
Quero indignar-me
com o desamparo de crianças e idosos
de filhos sem pais e de pais sem filhos.
Mas como indignar-me
se a vida neste mundo global
colocou uma cifra
no lugar do meu coração

* * * * * * * * *

O SONHO DE UM POVO

Um dia um povo sonhou com a liberdade
e esse povo acreditou no sonho e lutou por ele.
Houve até quem por ele morresse.
O sonho deste povo foi objeto do sonho
de tantos outros.
Mas o sonho deste povo foi um sonho
diferente dos outros sonhos.
Enquanto o sonho de além-mar
era um sonho de ambição e dominação
o sonho deste povo era de libertação.
O sonho deste povo era sonho de amor à terra;
terra já irrigada pelo suor
até de sangue de filhos deste povo.
O sonho deste povo foi um sonho de amor
e no ato de amar até parceiros de além-mar
a este sonho vieram se somar.
E no somar dos sonhos eis que ecoou o grito
de independência deste povo. E aquele grito
do sonho deste povo ainda ecoa no ar.
Ecoa aos ouvidos de geração a geração
que ainda insiste em sonhar.

* * * * * * * * *

POESIA E LIBERDADE

A caneta do poeta
rebela-se
ante a injustiça
do poder.
E faz-se podr
na liberdade
do ato de pensar.
Quando o poder
em seu império de força
impõe-se
sobre a caneta do poeta
então este carece
de ser mais que poeta:
dele se exige
a engenharia dos deuses
na construção mágica
do amor.

* * * * * * * *

TRANSCENDÊNCIA

Qual bisturi a extrair o cisto
arranco minhas angústias
e as deposito, amorfas,
em um tubo de ensaio
como um troféu de batalha.
Agora quero rir da tristeza
e dizer que o amor pode mais
que a mágoa secular
cristalizada no peito.
A partir desta hora
a poesia transcenda os limites
da cibernética
seja esta humanitária
e se dilua etérea sobre seres mal-nascidos.
Mesmo que a vida tenha sido negada
e o futuro um sonho precocemente abortado
não maldigo o poema: com meus sentidos despertos
faço caminho no espaço
enlaço o céu num abraço
arranco os olhos do sol
e faço meu firmamento.

* * * * * * * *

ORAÇÃO DO EDUCADOR

Inspirai-me
oh! Mestre dos Mestres
para que o mister a que me proponho
ilumine as mentes a mim confiadas
nessa jornada. Daí-me sabedoria
Oh mestre, para que mais que professor
seja eu educador, condutor de esperanças
para um novo amanhã. Tenha eu
complacência para com aqueles
que de mim mais necessitam. Como orientador
de vidas jamais a intolerância consiga
meu domínio e me force a trilhar
o cômodo caminho do descompromisso.
Esteja eu mais para Apóstolos que para Pilatos
com um assumir constante da Divina
Missão de educar, criar vidas, reinventar mundos.
Possa eu educar para a vida
longe da discriminação sem marginalizar ninguém,
pois todos da luz são herdeiros e merecedores.
Tenha eu sempre na alma a imagem,
a lembrança do Mestre-Amor, Mestre-Perdão
e jamais expulse meu aluno
que merece ser mais gente,
jamais um desviado na marginalidade da vida.
Jamais me deixe esquecer
de que a palavra orienta, mas o amor
e o exemplo constroem, dignificam para a vida
para o mundo
e para Deus.

* * * * * * *

AUSENTE PRESENÇA

Presença ausente no universo
da saudade. Presença
etérea de alma anônima
mesmo sufocada pela multidão.
Solidão não ausência
do ponderável. É ausência
da alma gêmea.
De repente a solidão
esmaga-me na multidão
e se dilui no imponderável.
Ela esvai-se
de mim no instante
em que, mesmo só,
sacia-me o âmago
da alma na interação
de imaginada presença.
O poeta mesmo só
nunca fica á sós.
Acompanha-se-lhe
sempre a presença
do ente sonhado.
O poeta só está só
se perdido na multidão
do inimaginável.
O poeta só está só
se tiver a alma
vazia de sonhos para sonhar.

* * * * * * *

ESSÊNCIA

Toda criança tem, um dia,
a fantasia
de crescer logo, libertar.
Mas cedo, cedo ela constata
a sina ingrata
de vir pra vida pra lutar.
Se nasce pobre, é pior.
Mais dói a dor
de sempre ter que obedecer.
Por que uns nascem pra mandar,
para gozar,
e outros nascem pra sofrer?
Foi o que vi desde criança:
insegurança,
poucos motivos pra sonhar.
Orvalho, espinho, dura lida.
Mas vi na vida
maior motivo pra lutar.
Hoje aprendi que o futuro
é jogo duro,
sem muito tempo pra viver.
Cada momento que se vive,
como os que tive,
é o prêmio que se pode ter.
Importa menos a vitória.
A maior glória
é ter mais força pra lutar.
O que mais vale é a esperança,
perseverança
em ter mais sonho pra sonhar.

* * * * * * * * *

A LINGUAGEM DO SILÊNCIO

No brincar com as palavras
Perco-me no exercício do discurso.
Saltitam-se-me à frente palavras e palavras
[palavras pequenas, palavrões].
De um salto caio sobre elas que, brincalhonas e lépidas,
fogem-se-me das mãos.
E eu, no desalento busco
no canto um encanto – desencanto.
Perco-me nos axiomas, nas polissemias
nos sintagmas e, na busca do assujeitamento
do sujeito, alternam-se-me possibilidades
na promessa de um encontro paradisíaco.
O pretendido torna-se invisível. Descubro
que a vida é um ensaio, o primeiro ensaio
o rascunho sem tempo de se passar a limpo.
A memória do futuro se constrói agora
com o desejo do sonhado.
O futuro se constrói no sonho do poeta
sonho que não se tem.
Dos versos escolhidos vários se me desenharam proibidos
para uma comunhão de linguagens
na universalidade das mensagens.
O superego submete o ID – paradoxo –
discurso do candidato e do eleito,
do religioso-cético-pecador-herege-santo.
Eis que soa a trombeta e o mundo
do poeta se desperta. Só então percebo
que a verbalização de meu discurso
não se encontra nas palavras
mas no silêncio existente entre elas.

* * * * * * *

DESAMOR

Análoga lâmina
Fina
Frio corte
Silente ação
No profundo do aço.

Navalha
Valha noite
Lâmina ferina
Felina
De sequioso corte

Sangra a alma
Cota o sono
O sonho
Assanha
A sanha de fria lápide
Em profundo talho.

Tangidos cartilagem e osso
Dilacerado universo
Entalhe
Do profundo corte.

Detalhe
Negada premissa.

O certo
Prova-se no contexto
Pretexto.
Arrimado parasito
Antítese do amor.

* * * * * * * *

SONHO E VIDA

Brilhe o sol ou caia a chuva, seja inverno ou primavera
Hei de levar meu canto por onde quer que caminhe.
É um canto de vida que sonhei ‘inda criança
Talvez de quando nasci naquele sete de dezembro.
Meu canto é alegre como um riso de criança
Na festa de aniversario – mas por vezes meu canto
É triste – triste como uma flor esmagada sob pés indiferentes
Ingratos – mas eu canto, canto a dor de uma criança
que um dia conheci…
A criança que vivi o desalento da dor
tocou-me forte na infância
Ao quebrar-me o antebraço na brincadeira de pique
em uma noite qualquer.
Com meus pais aprendi que a crueza da vida
e pode romper com luta
Mais amor e trabalho.
Este exemplo segui: Inobstante a dor,
dos pés no quente da areia
Em diuturnas caminhadas para a roça eu ia.
Boné na cabeça, aos ombros o bornal com garrafa de café
O caldeirão de almoço que minha mãe
preparava para a fome de meu pai.
Comida gostosa aquela: Arroz, feijão e farinha,
outra vez frango, verdura
Mandioca, batata frita… Banana madura.
Criança franzina, deficiência no braço,
mesmo assim eu seguia.
Sob o sol escaldante capinava a erva daninha
da roça ou do quintal
Ajudava no plantio e na colheita do arroz.
Eis que um dia o sonho explodiu forte na mente
E em tempo descobri não bastar-me o limite
Da produção de alimento para o corpo vegetar.
Um passo, outro passo, busquei
uma seara de alimento pra alma.
Na escola busquei alimentar-me o bastante, beber sabedoria
Na fonte da experiência dos produtores da história.

A escolinha de meu tio, depois o grupo escolar.
Nem a chuva ou o sol, nem orvalho das manhãs
Nada fez-me recuar das primeiras lições.
Chegou o fim do primário, não mais pude estudar
E no recesso da escola fui viver outras histórias:
A do servente de pedreiro, do balconista de bar,
Do vendedor de verduras, do lenhador com meu pai
Mas também a do garoto que nadava na barrinha
Ou no campinho aos domingos com os companheiros jogava.
Outra fase do sonho amanheceu em meu ser:
Na fazenda soledade vi-me, súbito, professor.
O tempo – ah! O tempo!
Jamais faz concessões e em suas ondas voltei.
Minha cidade, cidades outras, cheguei até à capital.
O admissão ao ginásio, a madureza, o supletivo
Vestibulares, faculdades de Jornalismo, Direito
Licenciatura plena em Economia e Legislação
Aplicada e cursos de extensão,
especialização em psicopedagopgia.
Neste caminhar vivi o bibliotecário publico,
o auxiliar de escritório
Correspondente de jornal, locutor de rádio, repórter…
Assessor de imprensa de secretaria de Estado.
Fiz poemas, contos, artigos…
publiquei-os em livros, jornais e revistas.
Tive a ventura de ser divulgador de minha terra
por onde quer que passasse:
nas faculdades, nos clubes, nas entidades culturais,
jamais neguei as raízes do campônio que sou.

O sonho não findou: Eis-me de volta às raízes
onde a vida me espera.
Quero a união dos amigos, dos inimigos
a paz para um mundo fraterno
Podermos, juntos, buscar.
De minha vida faço lema a educação, cultura, a justiça social
O progresso do homem em dimensão integral.
Busco o futuro – conquista e tempos de liberdade,
de amor e de paz.

* * * * *

NOS CAMPOS DE PARNASO

Ser livre, leve, solto
o que sempre sonhei
no caminhar pela vida.

O cupido, em seu capricho
aproveitou-se do instante
de uma incauta distração
e sorrateiro, pertinaz
fisgou-me fundo no peito
latejante e ardente o amor.

Em sonho transportar-me-ei
até os campos de Parnaso
onde as musas me habitarão e amar-te-ei como Eros.

Em sonho hei de cravar
minha lança na gruta doce
de teu triângulo de Vênus.

Amar-te-ei com tal arte
que só um Deus Faria
e em teu triângulo de Vênus
cravarei minha lança.

Até o âmago de teu ser
hei de levar meu amor
faze-la Deusa da Vida
e eu da vida Senhor.
———

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José Faria Nunes (1948)

José Faria Nunes é natural de Caçu-GO, onde nasceu aos 7/12/1948.

É Licenciado em Direito e Legislação, em Legislação Aplicada e em Economia e Mercados, pelo CEFETE de Belo Horizonte, Pós-graduado em psicopedagogia pela UEMG, Bacharel em Direito, pela UFG, e Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, Rádio e TV, pela UFG.

Homenageado pelo Ministério Público do Estado de Goiás, pelo Conselho Estadual de Cultura de Goiás, pela Associação Goiana de Imprensa, Diretoria Regional dos Correios Goiás e Tocantins e pela União Brasileira dos Escritores de Goiás.

Diretor e Editor do Jornal da Terra.

Atual presidente da ALESG-Academia de Letras e rtes do Extremo Sudoeste de Goiás, mandato 2005/2006;

Membro do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, e da Academia Mineirense de Letras.

Livros publicados, entre outros: Plantio, poemas, Editora Kelps, Goiânia, 1992; Água Fria do Rio Claro, ensaio, Editora de O Popular, Goiânia, 2001; A Reprise, romance, Litteris Editora, Rio, 2003.

Este último participou, em outubro de 2004, da Feira Internacional de Livros de Frankfurt, na Alemanha.

Fonte:
Poetas del Mundo.

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Safia dos Pireneus de Goiás ( Goiás Poético)

Alguma poesia oral de Safia

NASCI NOS PIRENEUS

Nasci nos Pireneus
junto com meu pai eterno
numa campina tão bonita
no meio de muitas emas
num ranchinho na beira-córrego
rebuçado de sapé,
cobertinha de algodão
tomando chazinho de mé,
num colchãozinho pequeno
num caquinho de buriti,
parecendo ninho de rolinha
ninho de juriti.

Um dia de garoa
já tava pra dar o inverno
eu tava perdida
no meio de muitas emas.

Minha mãe deu um grito
eu respondi.
Ela me encontrou
e me deu um tapa.
Meu pai também xingou.
Eu então respondi:
mas eu não gosto de vocês!
só das ema e do meu avô!

Depois, papai teve idéia de mudar,
nós se mandou.
Eu fiquei apaixonada,
porque as ema ficou.

MALEITA

É terreno do sertão
nem dado não aceita,
a gente compra um sítio
fica alegre e satisfeita.
Espera boa colheita
pode dar bom mantimento.
Mas bem pouco aproveita.
Quando a febre vem
o caboclo deita
chama o curador
e dá a receita,
purgante de tal
purgante de azeita
toma surufato
não pode beber leite,
quando for daí um pouco
o caboclo purga preto
eu falo porque sei
porque passei
por este aperto

Quem sofreu maleita
não tem mais conserto
ainda que cura de um
o peito.

VOZ DE PÁSSARO

Macuã e anúm preto
dizem que cantam assim:

“Minha mulher não presta
– não presta por que?
é com um e com outro
é com um e com outro”

“Finca, finca, eu ranço
pinico, pinico, jogo fora
primo com prima
se casá fazerá má.
Quá, pode casá!
Chica, cê vai, eu fico
cê fica, eu vou.
Fico, ficô”
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Safia dos Pireneus de Goiás (1929)

SAFIA nasceu Celestina Teixeira Siqueira, a 8 de junho de 1929, no Morro do Pireneus, em Goiás, onde desliza o córrego chamado Gostoso. Habitava a vizinhança da família uma tribo de emas, entre as quais a menina cresceu brincando e correndo pelo cenário deslumbrante da Serra que volteia Pirenópolis.Tinha sete anos, quando os pais camponeses Anjo Teixeira Martins e Leduvina Rosa Venucci decidiram descer o morro com os três filhos pra viver na cidade.

Lá, Celestina continuaria a dar sinais do futuro que a aguardava. Arteira, independente e sabedora do que queria de seu caminho, enveredava os brejos à cata de argila, matéria-prima de suas primeiras criações em forma de potes, bichos e bonecas. Volta e meia se queixavam ao pai: sua fia é danada de levada… sua fia fez isto… sa fia fez aquilo…. sua fia… safia… E assim consagrou-se o nome com que passaria a se distinguir no universo da arte popular brasileira.

No entanto, escola só freqüentou quando foi trabalhar em casa de família. Casou-se com um boiadeiro, voltou a morar na roça e o estudo virou matéria encerrada. Mas nem por falta de lápis, livros e professores sua genialidade de artista engaiolou-se. Ao contrário, o sobrevôo livre da menina entre as emas nos Pireneus de Goiás assentou-se em múltiplas expressões. Esculturas e telas em poética de cândida sensualidade, além de um manancial de poesias, histórias, canções e anedotas cultuadas oralmente, Safia cria com desmesurado talento.

Gênio e origem somados explicam a qualidade que sua obra alcançou. Safia herdou dos dois lados da família o gosto pela arte, trazendo no inconsciente o classicismo da estética européia. Bruno Teixeira, seu avô paterno, era tecelão, filho de portugueses; a avó, Escolasta Tavares, fazedora de panelas, potes, jarros, candeeiros, ensinou a arte da panelagem à sua mãe, cujo pai, descendente de italianos, era pintor de quadros.

Matriarca respeitada e admirada pelos seis filhos que criou sozinha (dos quais, três são também artistas populares), e pelos 14 netos e sete bisnetos, Safia não pratica arte sacra embora sua religiosidade seja visceral, e ao modo dela. “Não rezo, mas gosto de me sentar na Igreja e ficar lá”.

Segreda que talvez aceitasse se convidada a pintar um mural, ou o que fosse, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, patrimônio histórico da colonial Pirenópolis. “Mas”, reconsidera com humor, “gosto mesmo é de pintar moça dançando, menino pelado… eu ia ofender os santos”.

Artista reverenciada por quem quer que conheça seu trabalho, ela, no entanto, permanece em anonimato, vivendo sozinha numa casa humilde, em Pirenópolis. Ao completar 80 anos em junho de 2009, lá, um grupo de admiradores de suas artes prepara-lhe grande celebração. Querem que em sua terra natal, sobretudo, Safia mereça reconhecimento e assuma o seu lugar na trindade goiana, ao lado de Cora Coralina e de Antonio Poteiro.

FORTUNA CRÍTICA

João Evangelista, especialista em história da arte, ex-diretor dos museus de Arte de Brasília e de Santa Catarina: “Safia é um gênio da arte. Eu colocaria sua obra no capitulo do classicismo, mas teria uma certa dificuldade nisso, porque a arte de Safia é complexa”.

Ziraldo Alves Pinto conceitua Safia como a maior escultora de arte popular do Brasil, e aponta para o que ele chama de “o gesto culto” na poesia dos seus personagens de cenas rurais e urbanas, como cavalheiro e dama, casais em pista de dança, madonas com crianças à volta e no colo, jovens mulheres em lânguidas posições. “Ela é o máximo, é a maior”, vibra o multi-Ziraldo.

José Mindlin, ao visitar uma mostra de arte popular brasileira no MAB, onde estavam expostas peças de Safia, classificou: “Esta peça é a Vênus De Milo brasileira”

NT.: Material de pesquisa e fotos do arquivo pessoal do advogado Eduardo Nogueira da Gama, colecionador, amigo e divulgador do trabalho de Safia. Texto de abertura escrito originalmente para documentário do cineasta Armando Lacerda sobre a artista.

Fonte:
Antonio Miranda

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Arquivado em Biografia, Goiás