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Clevane Pessoa (Outros Versos)

HAICAIS
( em Haicais, Clevane utiliza o pseudônimo Hana Haruko)

Os risos das crianças:
No cristal, bolas de gude
— luzes trepidantes ­

Pássaros canoros
Energia em expansão
Almas projetadas…

Gestação do arco-íris
Leveza atestando o efêmero
— Bolha de sabão.

Reflexo de prata:
Luar despeja-se no mar
— Espelho do céu

Leve borboleta
Vitória sobre a crisálida:
Pétalas aladas…

Sons de flauta doce:
Murmúrios edulcorantes
– Vento no bambual…

Órgãos musicais
De sonata progressiva:
Cigarra insistente

Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
– Destinação cruel

Força dos opostos
Espirais de eternidade
Yin e yang: você e eu

Pescoços de cisne
Transformam em corações
O espaço vazio…

Mini-borboletas
Orquídeas papilonáceas
– Só não podem voar

Violinista freme
Libélula com o arco
Vibrações no espaço…

Pássaros nos fios
Como notas musicais:
Celestiais canções…

A chuva pingando
Devassa o botão da flor
De / flora antes da hora…

Pele contra pele
Proximidade de cheiros:
Mistura de humores

POESIAS

De Anjos e de Pássaros

Ergo olhar deslumbramento
vejo anjos sobre cabeças humanas
dentro da catedral;
Anjos de ferro negro,
esculturas na arquitetura
de formas quase profanas
a romper tradição.

Não desabe ó figura
milenar, tu que estás
bem sobre mim ,
que não rezo orações prontas
e somente sei usar
o verbo molhado em pranto
ou a metáfora cheia de luar.

(…)
Que desabem
sobre as cabeças dos poetas
os passarinhos em alarido
dentro de um mercado,
a parecer kamikaze,
suicida em massa,
ao jogar-se do teto ao chão
apenas para bicar migalhas.

São nosso retrato:
livres, sem sermos canalhas,
videntes com olhos cheios de palhas
a pre/dizer os tempos,
cada fato envolvido
no pacote dos tesouros,
crianças e sábios a um mesmo tempo,
a chamar atenção pelos voos inusitados.

(…)

Prefiro os pássaros vagabundos
das ruas e das igrejas,
mercados e sinais.
Não são artes singulares e belas
nem enfeites de catedrais:
os anjos passarinhos
de Brasília
estão presos a cabos
e suspensos
sobre nossas cabeças
a lembrar talvez pecados ,
talento, criatividade embora.
Já os pássaros – anjos
desde o Egito antigo
têm a missão de carregar almas
entre a vida terrena
e a morada dos deuses.

ALEGORIA DAS PALAVRAS SOLTAS

Que as mãos dos poetas
libertem as palavras de conceitos e preconceitos antigos.
Que a voz dos poetas entoe cantos inusitados
e muitas vezes inaudíveis aos demais.
Mas que sejam sempre palavras oloROSAS,
a perfumar os poros dos amados e dos amigos.
O que vier a mais, será benesse e lucro, e dividendo
mais importante que a glória
e a libertação do proprio menestrel.
Que os versos sejam livres, com palavras soltas,
a resignificar todas as im/possíveis metáforas!

PALMEIRA SOLITÁRIA
para Luiz Lyrio, in memoriam

Do alto, para onde cresce
em busca do azul absoluto,
a palmeira (quase) antiga,
bela e conformada,
vê passar o tempo.
Suporta intempéries e poeira
rebrilha rocio ao sol,
na terra das gemas.
Um dia, voltará ao pó
e renascerá no ciclo da vida.

A ESSÊNCIA DOS POETAS

De metáforas alimenta-se o poeta
mas também dos olores mais fragrantes.
faz das eternidades,
meros instantes,
quando voa nas asas das alegorias…

Mas de denúncia também vivem os seus versos
pois sensível qual bolha de murano
destinada á beleza singular,
aquecido pelo fogo da justiça,
consome-se em seu próprio Gilbratar,
divino e humano,
mero e avatar.

O poeta tem nas mãos,
os segredos da sacra escrita,
consagrada aos deuses da Beleza,
mas também ergue o dedo acusatório:
brilha de indignação seu anular,
pois é humanista, artista, esteta
e sabe colocar-se no lugar
de seu semelhante…

O poeta escreve sobre seus sentires
e sobre os sentimentos alheios.
Sussurra ou brada, conforme a acontecência,
mas é sempre emissário da quintessência
que muitas vezes
nessa Terra não encontra lugar…

IMPRESSÃO

A terra é mais que amante-amada:
sem ela o tudo cotidiano
vira um quase nada…
Com ela, um mínimo amplia-se
parecendo a maior riqueza do universo
na transmutação dos ciclos…

DE UM SONHO

Do sonho entressonhado
entreaberta flor
de mil pétalas
holopetalar
traduz-me as sutilezas
e multiplicações
da Palavra…
Cheiro os cheiros,
coloro as cores,
abro o entreaberto
e chego ao self
das revelação.
Ao poeta é permitido sonhar
e sonhando desvendar
o segredo

CANÇÃO PARA ELIANE POTIGUARA

Sinringe canora,
avis rara,
Eliane Potiguara.

Maracá e pena,
“mejopotara”
cocar e urucum
caneta e papel
diploma e renome:
Eliane Potiguara.

Aluá,beiju,
mani-oca
ocara,
dança e canta
voz baixa e clara,
Eliane Portiguara.

Peixe boi e boto.
uirapuru e boitatá,
igarapé, igara,
o avô rio
peixes oferece,
no livro a letra
aparece, imagina/ação
floresce,
Eliane Potiguara.

Pacifista e guerreira,
um pé no atavismo,
outro no modernismo,
mas sempre fiel às raízes.
Defenda úteros
sagrados à terra
e ás lições de continuidade.
Quer a mata, mora na cidade,
no asfalto não de ara,
mas sua sabedoria dispara
lendas e crenças,
cerimoniais,
fitoterapia ancestral,
sempre atual.
Eliane Potiguara.

Mulher
que sabe o quer
e busca, sobe montanhas
ou busca clareiras
para ela nada ocorre à toa
tudo é vestido
de muito sentido.
Atenta, ouve, fala,
cheira, sente
vê.

Na natureza,
a verdade é muito simples,
nada no mundo para,
tudo é beleza e partilha.
Eliane Poti, Potiguara,
da floresta filha,
da cidade adotada,
adapta-se, jamais é uma ilha
defende as outras mulheres…

Eli, Eliane, Eliane Potiguara,
potiguar, potiguara, poti:
chama a deusa o sol e chama a deusa lua
essa Nação é mesmo tua,
por direito ancestral.
Descendente dos úteros sadios
das mães da Terra brasilis,
você é
andiroba, seringueira,
guaraná e açaí.
roçado e igara,
peneira,
tipi-tipi,paná -paná, ati-ati,
voa, ave,
voa borboleta,
o caldo da mandioca
coa, você é tudo isso e muito mais,
Eliane Potiguara,
mesmo se vestir vestidos citadinos
e aparecer em salões nas festas…
Mas os olhos de castanhas,
os cabelos lisos e escuros,
a cor da pele bonita,
sempre apontam que você
é onça nativa, arara.
Eliane Potiguara,

Pega o microfone, tecla e fala,
defende a mulher ,a criança, a idosa,
pede proteção á iara.
você é forte e poderosa,
Eliane Potiguara,
“Metade Máscara,
Metade Cara”…

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Clevane Pessoa (em pequenos frascos)

Fonte:
http://www.mgpoetasdelmundoempoesia.blogspot.com

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Eliana Ruiz Jimenez (Outros Versos)

HAICAIS E TERCETOS

Escritos na PRIMAVERA

Bem-te-vis em pares
preparam ninhos nos postes.
Em alta tensão.

Ah… o impressionismo…
Diante de mim, Monet
emoção etérea.

Rolinhas se enroscam
nas palmeiras do quintal.
Ovinhos à vista.

Trabalho, trabalho.
Formigas em carreirinha
levam folhas verdes.

Vida em tons pastéis
até encontrar seu olhar.
Paleta de cores.

Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.

Gorjeia em triversos
o trinca-ferro do sul.
Poeta do bosque.

Incessante chuva.
Em dia de escuridão
as luzes acesas.

Dissolve as estrelas
uma luz no firmamento.
O sol da manhã.

Estrelas do mar,
a maré nunca mais trouxe…
Detritos na areia.

Tantos professores
abriram nossos caminhos.
E quem abre os deles?

A sapa sapeca
sapeou pela lagoa.
E engirinou!

Teatro giratório.
Há lugar para sentar
em palco de sonhos?

Escritos no VERÃO

Deixar-se levar
é viajar sem e-tickets.
Pensamentos bons…

O verão, em férias,
acinzenta o céu e o mar.
Guarda-sóis guardados.

Moradas no morro.
Chove muito, chove mais,
morro abaixo, morte.

Boiando no rio
um sofá é entregue ao mar.
E quem vai sentar?

Escritos no OUTONO

Poeta na praia,
voyeur em noite encantada.
Excessos da lua.

Luona no mar
tinge de prata o horizonte.
Presente de maio.

Nuvens versus sol,
luta no ringue do céu.
E quem vencerá?

Lua em perigeu
gera preciosas saudades.
Reflexos no mar.

Voltaram as nuvens,
a luz cansou de brilhar.
Feriado solar.

Perigeu no mar
tinto de prata o horizonte
presente de maio.

Outono abre alas
para o sol quase verão.
Graça da estação.

A luz acanhada
dilui-se em serena alvura.
Procissão de nuvens.

Ameno domingo.
Bocejam as criaturas
na lenta manhã.

Doces caramelos.
Tantos sabores da infância
em tardes sem culpa.

Orgulhoso o sol
ostenta a pinta no rosto.
Passeio de Vênus.

Escritos no INVERNO

O frio de junho.
Casacos livres do armário
desfilam na rua.

Na tarde sisuda,
o vento arrepia as folhas
Chocolate quente.

Os balões no céu
já não são mais inocentes.
Florestas em chamas.

Dia em tons de cinza.
Num ninho de cobertores,
o calor das cores.

Marasmo diário.
Na rede do pescador,
garrafas e latas.

Fios por toda parte
levam notícias e sonhos.
As pessoas ficam.

Na história, o grito
lá nas margens do Ipiranga…
Hoje só detrito.

No carro de som
a propaganda política.
Vai ganhar no grito?
————-

POEMAS

ENCANTAMENTO

Encantamento.
Sobrevoo o mundo real
sem querer pousar.
A brisa leve me leva
sobre um mar de lembranças
da paisagem de sonho.
Dunas intocadas,
águas transparentes.
Verão.
A torre me dá instruções,
aterrissar é necessário.
Vou descendo
devagar, divagando.
Amenizo a reentrada
com um pensamento:
Vou voltar
sempre que puder
sempre que Deus quiser…

PERMITA-SE
O que é o presente
Senão o vão momento
Que o passado já engoliu?

O que é o futuro
Indelével destino
Que não se pode controlar?

Permita-se
Sentir a brisa,
Olhar o horizonte
Esperar a primeira estrela.

Permita-se
Beijar hoje
Não trabalhar
Esquecer as obrigações.

Permita-se
Sorver um bom vinho
Uma boa companhia,
Jogar conversa fora.

Permita-se
Acreditar no amor,
na sorte, no destino
e na bondade das pessoas.

Permita-se.

ESCRITÓRIO
Escritório
Sina de todo dia
Multidão comprimida
Na total monotonia.

A porta fecha
Deixando a vida lá fora
O relógio é moroso
E a saída demora.

Presos na caverna de luxo
Onde o sol não entra
Onde a chuva não molha
E até o ar é condicionado.

Escritório
Robôs de crachás
Sem pensamentos, sem vontade
Sem individualidade.

As melhores horas
De muitos dias
Em troca da breve alegria
Do dia dez.

O MURO

O muro gelado
Separa a cidade
De um lado a mentira
E de outro a verdade.

O muro mesquinho
Divide o amor
De um lado ele é puro
No outro é dor.

O muro pichado
Esconde a alegria
De um lado é noite
De outro é dia.

O muro maldito
Separa os humanos
De um lado carentes
De outro insanos.

O muro é eterno
E faz parte de nós
Deixando os homens
Isolados, a sós.

VEM E VAI

É a onda que vem
Vem e vai.

Como a cheia do rio
Que sobe e se esvai.

É a lua que surge
E depois se retrai.

Como o homem que nasce
Morre e “bye”.

É o ciclo da vida
Vem e vai.

Como o sol que nasceu
Sobe e decai.

É o amor que chegou
Entra e sai.

Mas a dor que deixou
Dói demais.

AGORA

Agora posso respirar
E sorrir
E jantar.

Agora posso ir
Pra um lugar
Divagar.

Agora posso ver
O meu eu
Renascer.

Agora posso parar
De sonhar
E lutar.

Agora estou livre
Para ser
E vencer.

Agora estou bem
Para o ano
Que vem.

MENINO POBRE

Menino pobre
Da noite quente
Abandonado
Menor carente.

Menino pobre
Da noite nua
Necessitado
No olho da rua.

Menino pobre
Do pé descalço
Chutando lata
Pela calçada.

Menino pobre
Menino sujo
Vagando triste
Um moribundo.

Menino inquieto
Girando o mundo
Sem casa e roupa
Sem mãe nem pai.

Menino triste
Pra onde vai
O que vai ser
Quando crescer?

MAR

Ventos
Valsando
Voltam
Vagando
Trazendo
O barulho
Do mar.

Brisas
Soprando
Ondas
Tragando
Fazendo
A beleza
Sem par.

Canários
Cantando
Aves
Voando
Planando
A leveza
Do ar.

Praias repletas
Luzes, atletas
Completam
Essa vida
No mar.

FOSSA

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

TALVEZ

Talvez seja esse
O amor que procurei por toda a vida
Que pedi às estrelas
Que pedi aos santos
Que procurei nos cantos.

Talvez seja esse
O amor que sonhei da despedida
Quando descobri o engano de um amor trocado
E senti o sofrimento sem pecado.

Talvez seja esse
O amor que me fará forte
E de tão forte me fará fraca
Por ter meu coração entregue à sorte.

Talvez seja esse
O amor que me fará feliz
E será firma e será tão sólido
Que poderemos formas nós dois
Um só tronco, uma só raiz.

Talvez seja esse, finalmente
O meu caminho, o meu destino
A chave que libertará do meu peito
Todo o amor que eu tenho para dar
A recompensa por querer tão somente
Partilhar de um sentimento sincero
A realização do simples, porém complexo
Desejo de amar.

Talvez seja esse, talvez…

Fonte:
poesiasurbanasetrovas.blogspot.com

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A. A. de Assis (Poeminhas à moda de haicais) Parte 2, final

51.
Tão miudinha a avenca.
Ao lado um coqueiro enorme
súbito despenca.

52.
Fácil se define:
lá distante uma araponga
tine… tine… tine…

53.
Petit à petit,
pombinhos tecem seus ninhos.
Em Paris e aqui.

54.
Vós que, sobrevivos,
a mais que os demais amais,
uni-vos, uni-vos.

55.
Repicam os sinos.
Os mesmos de nós meninos,
na velha matriz.

56.
Colibri esvoaça.
Tem rosa nova, solteira,
no jardim da praça.

57.
Voa, voa, voa,
faz a cera, faz o mel,
abelhinha boa.

58.
Um cisco no chão.
Ah, não era cisco não.
Era uma esperança.

59.
Menino de rua.
Protege-o, Dindinha Lua,
dá-lhe colo, dá!

60.
Pião da saudade.
De uma era em que era franca
a felicidade.

61.
Um vaso de avenca.
Minimíssima floresta.
Mas é verde, é festa.

62
Chocados os ovos,
há o choque dos seres novos.
E a vida prossegue.

63.
Levantar cedinho.
Mens sana in corpore sano.
Ouvir passarinho.

64.
Curvam-se as roseiras.
Jogam as rosas, felizes,
beijos às raízes.

65.
Rola a Lua, rola.
Os mísseis zumbindo ao lado
e ela nem dá bola.

66.
De amor são seus uis.
As lágrimas que ela chora
devem ser azuis.

67.
Lua na montanha.
Me faz um favor, me faz:
sobe lá e apanha.

68.
Crianças na praça
cantando canções de roda.
Volta a paz à moda.

69.
Leio no jardim.
Idéias há e azaléias
em redor de mim.

70.
É um impasse e tanto:
trabalho, o canto atrapalho.
Nesse caso, canto.

71.
Olá, senhor Sol.
Bem-vindo ao nosso domingo.
Praia e futebol.

72.
Ah, havia o espaço.
Ave havia e havia ação.
Ave… avi…ão.

73.
Contam casos… súbito,
Negrinho do Pastoreio
passa bem no meio.

74.
Onda e sol… Floripa.
Tem lugar para mais a um.
Pega a prancha e… tchum!

75.
Trenzinho da serra…
Pa… Pa-ra-ná… Pa-ra-ná…
pra Paranaguá.

76.
De perder a voz.
Água, água, água, água.
Cataratas – Foz.

77.
Presépio do Sul.
Curitiba dos pinheiros
e da gralha azul.

78.
É chegar e amar.
Ri o Rio o ano inteiro.
Samba, sol e mar.

79.
Dim-dim-dão… dim-dão…
Os sinos de San-del-Rey
sempre em oração.

80
Bahia das festas.
De todos os sábios – tantos.
De todos os santos.

81
Aguinha de coco.
Areia, arara, caju.
Ah… é Aracaju.

82
Jangada ao luar.
Lagosta ao vinho depois.
Fortaleza a dois.

83.
Blem… Belém… blem-blem…
No Círio de Nazaré,
os sinos da fé.

84.
O tempo e a distância.
A festa de São Fidélis.
Transfusão de infância.

85
Armas e barões
muito além da Taprobana
ecoam Camões.

86.
Tela brasileira.
Um sabiá na palmeira
de Gonçalves Dias.

87.
Rosa, Rosa, Rosa,
ó Rosa das rosas ledas!
Dos sertões: veredas.

88.
Releio Pessoa.
Finjo tão completamente,
que a tristeza voa.

89.
Leoni, o poeta
da Petrópolis azul.
Alma azul. Raul.

90.
Luar no sertão.
Ah que falta faz Catulo
com seu violão!

91.
Bem-te-vi, Cecília,
nos ramos da madrugada.
Cantando, encantada.

92.
Mais do que Bandeira,
sobretudo Manuel.
Ou mais: man well.

93.
To you, tuiuiú.
Parabéns para você.
Happy bird are you.

94.
New York, New York,
make love, not work.
Ah, I love you!

95.
Passa a teoria
por debaixo do arco-íris.
Vira poesia.

96.
Pilhas de currículos.
Vencedor: o sabiá.
Sabia cantar.

97.
O sorriso é um dom.
Sorrindo você faz lindo
o seu lado bom.

98.
Aplainai as trilhas,
forrai-as de relva e flor.
Vai chegar o Amor.

99.
Brinquemos, irmãos.
Vamos dar as nossas mãos.
Brinquemos de paz.

100.
De braços abertos,
sobe o pinheiro. Subindo,
deixa o céu
m
a
i
s
l
i
n
d
o

Fonte:
A. A. de Assis. Poeminhas (à moda de haicais). Marinha Grande/Portugal: Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Outubro de 2004

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A. A. de Assis (Poeminhas à moda de haicais) Parte 1

01.
O haicai o que é?
Três passinhos de balé.
Leve, leve, leve.

02.
Repousa a lagoa.
Atira-lhe um beijo a Lua.
O poeta voa.

03.
Já não posso vê-la.
Some a gaivota no céu.
Foi virar estrela.

04.
Aguinha da bica.
Pousa o melro, beberica.
Louva a vida – canta.

05.
Florzinha caipira.
Até o girassol, tão nobre,
ao vê-la suspira.

06.
Pombinha no fio.
Horas e horas, de graça,
vigiando a praça.

07.
Lançada a semente,
tem sequência a permanente
criação do mundo.

08.
Se tivesse apoio,
quem sabe algum dia o joio
fosse pão também.

09.
A pombinha desce
numa imagem de Jesus.
Pousa a paz na luz.

10.
Mão de jardineiro.
Num leve toque de amor,
faz do esterco a flor.

11.
Beija o beija-flor.
Beija inteirinho o jardim.
Por ele e por mim.

12.
Tão miudinha a fonte.
E desce, e quanto mais desce,
mais serve e mais cresce.

13.
Velhinhos na grama
jogando conversa fora.
Também jogam dama.

14.
A pomba e a rolinha.
Uma é grande, outra é pequena.
Mas de paz é a cena.

15.
Cheirosa manhã.
Já de longe se adivinha.
Safra da maçã.

16.
Palmeiras solenes.
Guardais nas velhas cidades
saudades perenes.

17.
Ilhazinha branca.
A paineira na floresta
em traje de festa.

18.
Me desperta a neta:
– Olha, vô… é a do poeta.
Borboleta azul.

19.
Toda prosa e airosa,
brinca de vitória-régia
numa poça a rosa.

20.
Um ato de fé.
Lavrador, olhando o céu,
abana o café.

21.
No meu sonho vives.
Na pracinha um cavaquinho
trina o Autumn leaves.

22.
Um pingo… dois pingos…
não parou mais de pingar.
E se fez o mar.

23.
Acorda a esperança.
Nos quintais da vizinhança
dá a notícia o galo.

24.
Pari passu venho.
Paro. Com ternura abraço
o meu par e passo.

25.
Sujaram meu rio.
Ele, que lavava as gentes,
não lavou as mentes.

26.
Um pulo, medalha.
Milhões de cabeças boas
tão longe das loas.

27.
Livros à mão-cheia.
Saúde, alegria e pão.
Que revolução!

28.
Apress

a-se o mar.
No capricho, porque a noite
será de luar.

29.
Gostosa estação.
Teu beijo, fondue de queijo,
pipoca, pinhão.

30.
Cerração na serra.
Súbito some no espaço
o planeta Terra.

31.
La nieve en la noche.
Vino tinto, un viejo tango.
Sueño em Bariloche.

32.
O orvalho, na relva,
Nem nota que o rio enorme
vai rasgando a selva.

33.
A roda-gigante
roda, roda, roda, roda.
Me refaz infante.

34.
A Lua passeia
boêmia no cio e cheia.
Namorando o mar.

35.
Sempre assim supus.
Pirilampo ou vaga-lume,
tanto faz: é luz.

36.
Relampeja e… trooom!,
ronca forte a trovoada.
Estoura a boiada.

37.
A sibipiruna
seus fartos cachos derrama.
Deixa o asfalto em chama.

38.
Um pingo de chuva
brincando em cima da uva.
Rola e rega o chão.

39.
O tempo se foi.
Distante passa cantante
um carro de boi.

40.
Vento sobre o trigo.
Louro oceano ondulando.
O pão madurando.

41.
Levanta o avestruz
o pescoço. Periscópio
procurando luz.

42.
A semente grá-
vida leva a vida impá-
vida para a frente.

43.
Delicadas, belas,
rosas brancas, amarelas…
Que poeta é Deus!

44.
Cai, haicai, balão.
Traz o céu, o azul, a luz:
põe na minha mão.

45.
Desce o rio a serra.
Leva as lágrimas da terra
pra fazer o mar.

46.
Chocadeira elétrica.
Fornadas de pintainhos
sem colo, tadinhos.

47.
Quero-quero-quero.
A bem-querida aparece.
O amor acontece.

48.
Lua nova e meia.
Tão crescente, logo casa,
vira lua cheia.

49.
O boi e o arado.
Joga veneno o avião
por sobre o passado.

50.
Rude perobeira.
Dá-lhe a orquídea um leve toque
de namoradeira.

Fonte:
A. A. de Assis. Poeminhas (à moda de haicais). Marinha Grande/Portugal: Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Outubro de 2004

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Arquivado em haicais, Paraná

José Marins e Sérgio Pichorim (Fieira de Haicais) 651 a 700

ímpares: josé marins (jm)
pares: sérgio pichorim (sp)

651
sábado tem feira –
da gleba do lavrador
fartura de milho
jm-23-3-13

652
final do trabalho.
na montanha de sabugo
o gato descansa.
sp-25-3-13

653
um paiol antigo –
junto com a sacaria
o canto do grilo
jm-26-3-13

654
tarde de outono.
os pensamentos vagueiam
em pagos distantes.
sp-26-3-13

655
chuvisco outonal
andam rápidos meus pés
que apenas vagavam
jm-26-3-13

656
os meus passos lentos
na manhã ensolarada.
manacá-da-serra.
sp-2-4-13

657
já na cor de vinho
a fila de árvores de ácer
na longa avenida
jm-9-4-13

658
só na memória
o vermelho liquidâmbar.
a rua mais larga.
sp-10-4-13

659
ronco de motores –
o nevoeiro da rua
tem luzes vermelhas
jm-12-4-13

660
antes que o sol.
as tirivas barulhentas
atrás dos pinhões.
sp-15-4-13

661
o baque no chão –
lá de cima do pinheiro
a pinha madura
jm-14-4-13

662
preciso comprar
outro batom de cacau.
vento de outono.
sp-17-4-13

663
noitinha outonal –
para o pássaro sem nome
tento assoviar
jm-18-4-13

664
os dias se encurtam…
de repente eu me vejo
um ano mais velho.
sp-23-4-13

665
vinte e dois de abril
alguém se lembra também –
um brinde ao Brasil
jm-22-4-13

666
meia, meia, meia!
que São Jorge nos proteja
em nossa fieira.
sp-23-4-13

667
a tarde se vai –
também já foge o dragão
da nuvem de outono
jm-27-4-13

668
parece dormir
a cidade encoberta.
manhã de neblina.
sp-29-4-13

669
as fotos perdidas
sem uma câmera à mão
entre o nevoeiro
jm-29-4-13

670
Dia do trabalho
e um jardim pra limpar.
Dia de trabalho.
sp-1-5-13

671
Primeiro de maio –
esqueceram de tocar
o sino da igreja
jm-1-5-13

672
no altar lateral
vasos com flores de maio.
tudo em silêncio.
sp-8-5-13

673
acima da bruma –
a cruz de dois mil anos
lá no alto da torre
jm-8-5-13

674
Manhã especial
As filhas fazem o café
E levam pra ela
sp-12-5-13

675
Dia da Abolição –
alguém comenta notícias
de escravidão
jm-13-5-13

676
cinzenta manhã.
a leitura do jornal
e o poncho de lã.
sp-17-5-13

677
chuvinha de outono –
o sorvo de mate quente
ao bancar o dia
jm-17-5-13

678
depois do amargo
um forte café tropeiro.
o dia se encurta.
sp-17-5-13

679
um frio de outono –
o aroma de pão caseiro
tostado na chapa
jm-18-5-13

680
preciso tirar
os meus óculos de leitura.
pôr do sol de outono.
sp-6-6-13

681
prenúncio de inverno
com azulíssimo céu
sem passarinhos
jm-6-6-13

682
balanço do mar.
a lua segue e flutua
no meu balançar.
sp-7-6-13

683
noite de friúme –
na palmeira vibram palmas
juntas ao pretume
jm-8-6-13

684
o fim do outono.
no último entardecer
lembranças da vó.
sp-20-6-13

685
manifestações
esquentam mais uma noite
o inverno começa
jm-21-6-13

686
seis dias nublados.
neste solstício de inverno
sairá o sol?
sp-21-6-13

687
noite de fogueiras –
entre nuvens cinzentas
a lua crescente
jm-21-6-13

688
super lua cheia.
a brancura prediz a
primeira geada.
sp-23-6-13

689
Dia de São João –
amarelinho o pedaço
de bolo da infância
jm-24-6-13

690
a chuva encharcou
a lenha para a fogueira.
santo óleo diesel!
sp-24-6-13

691
enfim uma tarde
aquecendo-se de luz
solzinho de inverno
jm-4-7-13

692
a primeira vez!
cerejeira-de-okinawa
e o céu azul.
sp-4-7-13

693
as folhas rasgadas
da bananeira de inverno
afinal se dobram
jm-4-7-13

694
abrem-se os frutos.
o vento espalhou no parque
as painas branquinhas.
sp-5-7-13

695
relógio da XV
flores de pata-de-vaca
a quem o consulta
jm-5-7-13

696
o meu Hanami:
rua deserta de gente
Sakura florida.
sp-6-7-13

697
contemplar as pedras
também nuas do jardim
ah, visão de inverno
jm-7-7-13

698
circundar a Pedra
em um dia de jejum.
chega o Ramadã.
sp-11-7-13

699
noite de invernia –
a meia lua do oriente
contemplo em paz
jm-11-7-13

700
floquinhos de neve
nem se quer chegam ao chão.
janela embaçada.
sp-23-7-13

Fonte:
MARINS, José; PICHORIM, Sérgio. Fieira de Haicais. Disponível em: http://fieiradehaicais.blogspot.com/, Acesso em 17 setembro 2013.

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José Marins e Sérgio Pichorim (Fieira de Haicais) 601 a 650

ímpares: josé marins (jm)
pares: sérgio pichorim (sp)
—–

601
cessa a ventania –
só não para a sabiá
fazendo seu ninho
jm-20-9-12

602
Esta confusão
de harmônicos gorjeios –
Já é primavera!
sp-24-9-12

603
grita o bem-te-vi
sobre o muro do quintal –
pássaros em fuga
jm-23-9-12

604
agito de asas
na manhã de primavera.
um gato observa.
sp-9/10/12

605
apuro os ouvidos –
o canto dos sabiás
no final do dia
jm-7-10-12

606
olhares atentos.
o dourado sol poente
na tarde nublada.
sp-16-10-12

607
sem nuvens o céu
os jacarandás-mimosos
floridos no azul
jm-18-10-12

608
quando percebi
toda a avenida tinha
se jacarandado
sp-18-10-12

609
esquina do centro
os jacarandás-mimosos
cintilam lilás
jm-18-10-12

610
pela passarela.
flores de jacarandá
ao toque das mãos.
sp-19-10-12

611
em rua do bairro –
lançadas por todo canto
as mãos de sementes
jm-20-10-12

612
vendaval da tarde.
primeiro e último voo
do pequeno pássaro.
sp-21-10-12

613
o choro miúdo
um filhote de pardal
no beiral deixado
jm-21-10-12

614
Parque da cidade.
A chuva de ontem é
assunto dos sapos.
sp-30-10-12

615
o rio do bairro
continua silencioso –
nenhum som de rãs
jm-3-11-12

616
manhã de domingo.
na estação do metrô
ouço a corruíra.
sp-18-11-12

617
final de estação –
o sabiá do quintal
ainda cantando
jm-20-11-12

618
final de semana.
os quero-queros passeiam
com os seus filhotes.
sp-26-11-12

619
um a um se vão
os gatinhos para o ninho
na boca da gata
jm-25-11-12

620
Que aconteceu?
Este ano eu não vi
os gatos de rua.
sp-28-11-12

621
ah, essa primavera
a corruíra não para
de atiçar o gato
jm-28-11-12

622
dois bem-te-vis e
o gavião quiri-quiri.
fuga apressada.
sp-29-11-12

623
pequeno quintal –
passa com o seu filhote
a sabiá, enfim
jm-28-11-12

624
chuva de verão.
no quintal, não vão dar frutos
os galhos caídos.
sp-2-12-12

625
mas que rebuliço –
entre os restos do aguaceiro
a corruíra morta
jm-2-12-12

626
manhã de vingança.
matar pernilongos da
noite anterior.
sp-5-12-12

627
cinco de dezembro –
um livrinho de Niemeyer
releio na noite
jm-5-12-12

628
noites de dezembro.
eu contemplo em silêncio
distantes relâmpagos.
sp-7-12-12

629
um novo toró –
com outras tantas goteiras
o olhar no futuro
jm-8-12-12

630
Xii… é tudo doze!
Indica o relógio da
Igreja matriz.
sp-12-12-12

631
treze de dezembro
seu Luiz, pai da Asa branca,
no seu centenário
jm-13-12-12

632
chuvas abundantes.
a trilha recém roçada
coberta de verde.
sp-13-2-13

633
tão velha a roseira
antes da rosa vermelha
esse botão verde
jm-22-2-13

634
os galhos arqueados
de frutas e de sanhaços.
velha cuvitinga.
sp-25-2-13

635
os ramos dobrados
da pequena vinca-rósea
chuva de verão
jm-26-2-13

636
no portão de casa
os atrevidos beijinhos
dão as boas vindas
sp-27-2-13

637
adeus ao verão
ficam as sementes pretas,
caem as maravilhas
jm-27-2-13

638
da copa da árvore
pendem brincos-de-princesa.
de que reino são?
sp-28-2-13

639
inteira florida
a quaresmeira vizinha
inteira de roxo
jm-1-3-13

640
o balé das sombras
nas cortinas da sala.
preguiça da tarde.
sp-2-3-13

641
chega o vento sul
as caliandras vermelhas
roçam a janela
jm-4-3-13

642
as águas de março.
hoje eu acabei molhado
da cabeça aos pés.
sp-5-3-13

643
a chuva outonal
chega tão silenciosa –
roupas no varal
jm-5-3-13

644
mudança de ares.
as folhas amareladas
já estão caindo.
sp-6-3-13

645
o outono vem aí –
as verdes folhas da ginkgo
mudando de tom
jm-6-3-13

646
araças maduros
caídos no meu caminho.
um final de tarde.
sp-6-3-13

647
calçada do bairro –
vão os bichos das goiabas
sob pés distraídos
jm-7-3-13

648
não pude deixar
de olhar aquela casa.
uma quaresmeira.
sp-8-3-13

649
tempo de quaresma
a velhinha reza o terço
pelo novo Papa
jm-8-3-13

650
tempo de esperança.
a roça do Chico Bento
pronta pra colheita.
sp-13-3-13

Fontes:
MARINS, José; PICHORIM, Sérgio. Fieira de Haicais. 

Disponível em: http://fieiradehaicais.blogspot.com/, Acesso em 17 setembro 2013.
Imagem = formatação com imagens obtidas na internet, por José Feldman

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Concurso de Haikais – Toda Poesia (Resultado Final)

Alice Ruiz, Sofia Mariutti e Leandro Sarmatz avaliaram todos os haikais, e os 5 vencedores são:

Dois cães na rua
O solto faz festa
O preso protesta
— Luiz Andrioli

Flor de maio
presa ao vestido
trancado no armário
— Ana Clara Noronha

a pipa
se alinha
ao voo da andorinha
— Amyr

à meia-luz
água apitando no bule
gaita de blues
— Lucas Puntel Carrasco

Faro de breu
Farol do vaga-lume
Acendeu
— Márcio Januário Pereira

Fonte:
http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/03/resultado-do-concurso-de-haikais/

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Haicai 21 – José Marins (Curitiba/PR)

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10 de março de 2013 · 23:58

José Marins (Haicais, Nada Mais)


a cássia florida –
 o que foi mesmo que vim
 fazer no jardim? 

a letra bonita
 no cartão de Natal lembra
 a amizade antiga 

alto Pilarzinho –
 agita as folhas dos cedros
 esse vento verde
 céu de primavera – 
 as fendas para o azul
 no branco das nuvens
 dessa cerração
 só me lembro do apitar
 do trem indo longe
 Dia da Professora –
 aquele quadro de giz
 com letra bonita
 dois piás na fila
 tão brancos como o sorvete 
 sabor de baunilha
 domingo sem sol
 uma árvore de Natal
 ainda na caixa

escurece a tarde –
 entre raios e clarões
 os sons da trovoada

feliz Ano Novo –
 sem pressa divido o mate
 com este silêncio

fim de um ano fértil –
 grato à generosidade 
 dos caros amigos

início do ano –
 os bons votos com arco-íris
 no final da tarde

já no entardecer
 a andorinha de verão
 com a chuva fina

mas que noite curta –
 o sonho do fim do mundo
 ficou no começo

não estou sozinho –
 a lua cheia de outono
 me deu uma sombra
o anoitecer trouxe
 o canto dos sabiás
 que se vai com ele
 o casal arranja
 os enfeites de Natal
 histórias da infância

o gato desperta –
 a pequena lagartixa 
 no teto passeia
oh, noite nublada –
 da alvura de suas flores 
 a luz do alfeneiro

 o rio poluído –
 os frangos d´água seguem
 nas margens da vida
 o sol da manhã
 os ipês-roxos do bairro
 voltam a florir
 os olhos se voltam
 para o meio da folhagem
 antúrio vermelho
 passa o sol ao norte 
 a extremosa florescida
 só do lado leste
 pretume da nova –
 das árvores de alecrins
 o voo dos morcegos
requer atenção –
 os pêssegos verdolengos
 nas mãos da velhinha
 ruídos dos carros –
 esforço-me para ouvir
 a voz do canário
 sábado de tarde –
 na sombra das jucaínas 
 pétalas laranjas

sob o sol das três
 o sorriso do carteiro
 de chapéu azul

Fonte:
Haicais obtidos no facebook de Marins

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Gaveta de Haicais 5

Acende-se o fogo,
e ela pula de calor.
Pipocas! Pipocas!
Agostinho José de Souza

Pio solitário… alguém
diz que é mau agouro.
Coruja nem sabe…
Alba Christina

O inverno chegou.
Esta praia está deserta.
É praia de inverno.
Albertina C. G. dos Santos

Na noite tão fria,
passatempo predileto:
uma vaquejada!
Alda Corrêa M. Moreira

Dia da Saúde!
Entre frutas e verduras,
idosos rosados…
Amália Marie G. Bornheim

Uma água barrenta,
pássaros sobre o barranco.
Um rio minguante.
Analice Feitoza de Lima

Sardinhas pulando
em fuga desesperada…
grande peixe à vista.
Anita Thomaz Folmann

Em cima bonitos;
mas os debaixo, amassados.
Caixa de morangos.
Carlos Roque B. de Jesus

O estômago ronca,
momento desesperado.
Sardinha no prato!
Cassio Caio Prados

Um plástico preto
sobre um canteiro verdinho,
esconde os morangos.
Cecy Tupinambá Ulhôa

Nêsperas maduras…
O menino no telhado
alcança do vizinho…
Cícero Campos

De vestido verde
a romãzeira se enfeita
com brincos vermelhos…
Darly O. Barros

Acesa, a fogueira,
pipoca… batata-doce…
dança no terreiro!
Débora Novaes de Castro

Meu jardim branquinho
parece um conto de fadas.
Geou toda a noite…
Djalda Winter Santos

Cheirinho de bolo,
muitos presentes, abraços:
é Dia dos Pais.
Edel Costa

De um pequeno estojo
saltam brilhantes rubis…
Romãs bem maduras.
Elen de Novais Felix

Com tanta sardinha,
a garantia do pão…
Pescador sorri…
Ercy M. M. de Faria

Caboclo robusto!
Na vaquejada que corre
garrote teimoso.
Fernando Ribeiro da Cruz

Cheirosa manhã…
– No galho pende, rosada,
tão linda romã!
Fernando Soares

Fila de lembranças
acarinhando saudades,
no Dia dos Pais.
Fernando Vasconcelos

Aparados da Serra –
meninos gritam na estrada:
– Morángos! Morángos!
Guim Ga

O rio minguante,
corta terras, vai morrendo…
Nascente, não sente!
Haroldo R. de Castro

Chamas da fogueira
aquecendo o pessoal.
Rigoroso inverno.
Helvécio Durso

Rebrilhando ao sol
um cardume de sardinhas…
Moedas no mar!…
Hermoclydes S. Franco

Dia da Saúde.
Casal de idosos, sorrindo,
saindo da clínica.
Héron Patrício

Domingo bonito;
feira multicolorida:
– morangos nas bancas!
Humberto Del Maestro

Urubu por perto
carniça mal cheirosa
meu cavalo morreu…
Joana de Toledo Machado

Garoa insistente:
o céu, imenso coador
espremendo a chuva.
João Elias dos Santos

Bailam ao luar,
sobre a praia hibernal,
as ondas bravias.
José Neres Reis

Entre a poeira
depois da vaquejada
olhos ao longe.
Larissa Lacerda Menendez

Sardinha na brasa.
Banquete no acampamento
alegra o cansaço.
Lávia Lacerda Menendez

Ante o amor-perfeito,
lindos amores perfeitos.
Nos dois… o arco-íris.
Leonilda Hilgenberg Justus

A dona da casa
pega uma sardinha fresca.
Rabo em pé, miados.
Manoel F. Menendez

Contemplo o parque.
O inverno brinca de roda
entre folhas secas.
Maria de Jesus B. de Mello

Noite de Ano Novo…
– Nos gominhos da romã…
…novas esperanças!…
Maria Madalena Ferreira

Bem perto do barco…
sombra escura em movimento.
Sardinhas na rede.
Maria Reginato Labruciano

Que cheirinho bom!
Estão fritando sardinhas.
Oba! É lá em casa.
Nadyr Leme Ganzert

Na banca da feira
o aipim de estufa
saudades da roça.
Nilton Manoel

Bolo de aipim
acompanha um café forte
depois do churrasco.
Olga Amorim

Bichinho-do-pé
entrou bem no meu dedinho
coceira gostosa!
Olga dos Santos Bussade

Pescador sorri:
um enxame de sardinhas
caindo na rede.
Renata Paccola

Do chão revirado,
sai uma raiz divina…
– Aipim abençoado!
Roberto Resende Vilela

Peixes nem se escondem
na pouca água que restou
deste rio minguante…
Sandra Parana

Nos rudes currais
a vaquejada reúne
o gado disperso…
Santos Teodósio

Fruto azedinho.
Pitanga causa até zanga
com os passarinhos.
Sérgio Serra

O olfato acusa,
a relembrar a terrinha…
Sardinhas na brasa.
Yedda Ramos Maia Patrício

Fonte:
Manoel F. Menendez. Seleções em Folha. Ano 4, Nº 08 – AGOSTO 2000

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Gaveta de Haicais 4

Crianças espalham 
alpiste pelo quintal 
chamando o azulão. 
Alba Christina 

De repente um pio, mais 
um balanço nas folhas, 
e surge o azulão. 
Alba Christina 

Nas trevas da noite 
surge uma alvura de flores. 
É o mandacaru. 
Alda Corrêa M. Moreira 

Canta o azulão, 
entre as flores do jardim, 
despertando as rosas. 
Ailson Cardoso de Oliveira 

Na sálvia verdinha, 
passarinho faz a festa. 
Canteiro desfeito. 
Cecy Tupinambá Ulhôa 

Samambaia de metro 
sobre a menina. 
Longos cabelos. 
Carlos Roque B. de Jesus 

Entre verdes ramas a sálvia 
exibe os seus cachos 
vermelhos, exóticos… 
Darly O. Barros 

Mais além, a mata 
e um azulão na gaiola, 
cabisbaixo, mudo… 
Darly O. Barros 

Desabrocha a rosa 
uma formiga, castiga 
a flor melindrosa. 
Dercy de Freitas 

O menino chora… 
O azulão saiu voando 
perdido no azul! 
Ercy M. M. de Faria 

Canteiro aromado, 
florada rubra de sálvias, 
passante encantado. 
Fernando L. A. Soares 

Beleza e perfume. 
Deus desabrocha no galho 
da rosa vermelha. 
Fernando Vasconcelos 

Na borda do vaso 
joaninha agita as asas 
sacudindo o orvalho… 
Guim Ga 

Árvores caídas, 
riachos e rios transbordando. 
Chuva de verão. 
Helvécio Durso 

Na mata, em silêncio, 
pousa um bando de azulões… 
Pedaços do céu! 
Hermoclydes S. Franco 

Rumo à liberdade…
Abro a gaiola e se vai, 
em paz, o azulão!… 
Hermoclydes S. Franco 

Azulão gorjeia 
na gaiola do terreiro… 
– Matagal calado. 
Humberto Del Maestro 

Desaba um toró. 
As águas procuram rios 
e os rios, o mar. 
João Batista Serra 

Enfim, uma bússola. 
No emaranhado das trilhas 
surge um girassol. 
José N. Reis 

Pernilongo – incrível! – 
caiu na sopa do avô! 
A mais ninguém morde… 
Leonilda H. Justus 

Aranha descendo 
bem diante do meu nariz. 
– Mais respeito, heim? 
Manoel F. Menendez 

As sálvias vermelhas 
na floreira, junto à porta, 
convidam a entrar. 
Maria R. Labruciano 

Tarde ensolarada. 
Azulão pousa, enfeitando… 
velho galho seco. 
Maria R. Labruciano 

Gaiola vazia… Um 
canto a mais na floresta… 
– Azulão fugiu. 
Maria Madalena Ferreira 

Com muito apetite 
a traça comeu da manga 
do meu paletó… 
M. U. Moncam 

As formigas correm por 
entre os galhos das árvores 
folhas pelo chão. 
Nilton Manoel A. Teixeira 

Voa o beija-flor. 
Entre outras flores, a sálvia 
mostra seu rubor. 
Olga Amorim 

Dentro da gaiola, 
azulão olha tristonho, 
pássaros voando. 
Olga dos Santos Bussade 

Azulão pousado 
no pessegueiro florido, 
enfeita o pomar. 
Regina Célia de Andrade 

O céu cor de anil 
ficando mais belo ainda: 
azulão voando. 
Regina Célia de Andrade 

Trinta de setembro: 
junto às contas a pagar, 
caixa de bombons. 
Renata Paccola 

A brisa transporta, 
por toda parte, um perfume 
discreto… – É a sálvia! 
Roberto Resende Vilela 

Ouvidos atentos… 
Ciranda de pernilongos. 
Tortura noturna. 
Sergio de Jesus Luizato 

Por um fino fio, 
desliza suavemente 
a pequena aranha. 
Sueli Teixeira 

Mamão no terraço. 
Espreitando o sabiá 
– o guri e o gato… 
Teruko Oda 

Os fios trançando, 
a velha rendeira tece. 
Caprichosa aranha! 
Thereza Costa Val 

Bigornas brancas, 
leves, flutuam no azul – 
forja de relâmpagos. 
Yara Shimada Brotto 

Fonte:
Manoel Fernandes Menendes. Seleções em Folha. Ano 4. N.1 – janeiro 2000. São Paulo/SP

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Gaveta de Haicais 3

Crânios num ossuário.
As pedras brancas invejam-lhes
muito pouco as vidas.
 Alexei Bueno

Ano que termina
areia cheia
conchas mínimas
 Alice Ruiz 

Folha de jornal
vem no vento ao meu pescoço;
cachecol de letras.
 Anibal Beça

Nem uma brisa:
o gosto de sol quente
nas framboesas
 Betty Drevniok
Tradução de Carlos Seabra 

casa fantasma
cheia de habitantes
feitos de plasma
 Carlos Seabra 

folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal
 Carlos Seabra

todos aos abrigos:
a avó de novo
com o mata-moscas
 Elizabeth St. Jacques
Tradução de Carlos Seabra

nuvens no céu
a andorinha anuncia
a chuva de verão
Estrela Ruiz Leminski

Praia deserta
no rebentar da onda
a moça espera
 Eugénia Tabosa

Fiapos nos dentes
o rosto todo amarelo
É tempo de manga
 Eunice Arruda

Numa pressa insana,
o jato divide em quatro
o azul-porcelana.
 Flora Figueiredo

Alma que sente frio
distância que aprisiona
A saudade está no cio.
 Gabriela Marcondes

bolhas de soluço
ziguezagues no aquário
transparentes guelras
 Goulart Gomes

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?
 Guilherme de Almeida

A lua, cansada,
adormeceu por instantes
no leito do rio.
 Humberto del Maestro

da mulher na praia,
sobre a última maré,
espraia-se a noite
 Issa
Tradução de Décio Pignatari

Cerrados antigos,
E logo após a maré montante
Dos canaviais.
 Paulo Franchetti

Encontro fugaz.
Neblina abraça o velho
lampião de gás.
Rogério Viana

Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.
 Soares Feitosa

Cavalos de escamas,
em meio às algas marinhas,
escondem segredos.
 Urhacy Faustino

Ah! claro silêncio do campo,
marchetado de faiscantes
pigmentos de sons!
 Yeda Prates Bernis

Fonte:

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Gaveta de Haicais 2

Bom dia, verão.
Bem-vindo aos jardins e às praias
e ao meu coração.
A. A. de Assis
Tempo de saudade.
Sons e cores de Natal
me remeninizam.
A. A. de Assis
árvore seca
a lua é a mosca
em sua teia
 Aclyse de Mattos 
foi-se o verão
entre folhas secas
uma borboleta
 Alexandre Brito
Grito da sineta
na última aula. Alegria.
Depois o silêncio.
 Alexei Bueno
Ribeirão Preto
onde se ouve
cheiro de vagalumes
 Alice Ruiz 
Angelical o meu juízo
 Querer passar o inferno astral
 no paraíso
Alvaro Posselt
Esta página em branco
 vai parir um poema
 nem que seja no tranco
Alvaro Posselt
Quase desperdício.
Moscas sobre caquis podres
Só o sapo come.
 Anibal Beça
Ovos de Páscoa!
Alegria num dia, e no outro,
espinhas no rosto.
 Bianca T. Tsurumaki
lindo sorriso
imagem no espelho
seduz Narciso
 Carlos Seabra
louco desafio:
comer fubá e cantar
o sole mio!
 Carlos Seabra
Espanta o trovão
Abaixo dele o medo
Se faz oração
 David Anderson
A sapa sapeca
sapeou por toda a lagoa
– e engirinou!
Eliana Ruiz Jimenez
engano amigo
tenho a impressão
que a lua vem comigo
 Estrela Ruiz Leminski
Paz do inverno –
o interminável domingo
no campo.
 Eugenia Faraon
Tradução de Carlos Seabra 
No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo
 Eunice Arruda
Fica uma pergunta:
– teus lábios, flores molhadas
ou taça de cicuta?
 Evandro Moreira
Crepita a fogueira…
Entre nuvens mais estrelas.
Fogos de artifício.
 Fanny Dupré
Ouviu-se um estrondo
Baleia presa na teia?
Não! é marimbondo.
 Flora Figueiredo
verdes vindo à face da luz
na beirada de cada folha
a queda de uma gota
 Guimarães Rosa
O mar da vida varia
e altera as marés…
Maré alta… Maré baixa!…
Hermoclydes S. Franco
A neve está derretendo –
A aldeia
Está cheia de crianças!
 Issa
Queria ser o vento
Em vida, së-lo não pude
Fui ter ao relento.
Ivan Téo
pássaros cantando
no escuro
chuvoso amanhecer
 Jack Kerouac
Tradução de Alberto Marsicano
Semear estrelas
Diamante lapidado
Reflexo cristal
José Feldman
Escurece rápido.
Insistente, a corruíra
cisca no quintal.
 Jorge Fonseca Jr.
noite de primavera
 só me lembro ter deitado
 para ouvir a chuva
José Marins
no tempo do amor
meus sonhos de espaço vazio
mobiliado de fantasmas
 Lisa Carducci
Tradução de Carlos Seabra
Sempre perseguido
o grilo fica tranqüilo
cantando escondido.
 Luiz Bacellar
do orvalho
nunca esqueça
o branco gosto solitário
 Matsuo Bashô
Adaptação de Paulo Leminski
a cerca já era
coroa de rosas
entre chifres do touro
 Nenpuku Sato
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da minha mão.
Paulo Leminsky
A chuva passa
na rua, papel
que se amassa.
 Robert Melançon
Tradução de Carlos Seabra
silenciosamente
uma aragem enfuna
as cortinas enluaradas
 Rogério Martins
Pagar o mico.
O pobre banca
a conta do rico.
 Rogério Viana
O vento é o tempo:
sopra varre levanta lambe
desfaz o que foi feito.
 Thiago de Mello
Aperta meu peito
o inverno que não chegou:
amigo esperado.
 Yberê Líbera
o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã
 Zemaria Pinto
Fontes:
Alvaro Poselt, José Marins (Facebook)
Eliana, Leminsky e Ivan (trovas em imagens do pavilhão)
Assis (e-mail)

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José Maria de Almeida (Haicais)

Praia tranquila,
As gaivotas voando,
O peixe plóff…
Jangadas no mar,
Velas querendo bailar.
As redes caem.
Cachimbo na mão,
Olhar perdido no mar.
Pássaros…fiu…fiu…
Saia voando,
Pés na areia …andar.
As ondas…chuá.…
Ondas nas pedras,
Mar revolto agita.
Vento…Chuva…Chiii….
Ventos vadios,
Ondas na areia…Mar.
Mulher nadando.
Coqueiros bailam.
A jangada sai do mar.
corpos na chuva.
Saudade estou
Do canto de pássaros
De minha terra.
Saudade estou
Do barulho da água.
Rio ao lado.
Voa sabiá
Canta seu canto livre.
Tui tuiuí.
Vai cotovia
Pousa na flor da vida.
Flapi , flapi, piu.
Chorando por quê?
Hoje é outro dia.
Olhando fotos.
O passado foi,
O hoje é agora.
Vivendo feliz.
Sorriso largo,
Gargalhadas sonoras.
Circo alegre.
Palhaço no chão,
Trapezista sorrindo.
O show começou.
Palhaço feliz.
Trapezista caindo.
Palhaço que é.
Tudo nela é:
Amor e muita paixão.
Minha amada.
Entrega total,
É mulher e amante.
Minha perdição.
Amor latente,
É sensualidade.
É minha paixão
Lágrimas correm,
                   Olhar perdido no céu.
                   Alguém que partiu.
Rosa caindo
                    Das flores que balançam.
                    Vento que baila.
Rosa lilás
                    De sensual perfume.
                    Caída no chão.
Fonte:

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Gaveta de Haicais I

No prato com leite

a língua rosada
faz chap chap
 Eugénia Tabosa
Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos.
Qual virá no séquito?
 Anibal Beça
Vento de primavera:
Sobre uma antena, um pardal
Trina e defeca
 Edson Kenji Iura
Entre as ruas, eu,
e em mim, eu em outras ruas,
sob a mesma noite.
 Alexei Bueno
mostro o passaporte
minha sombra espera
depois da fronteira
 George Swede
Tradução de Carlos Seabra
serra nevada,
cumes tocam o céu –
nuvem furada
 Carlos Seabra
Vento de inverno:
O gato de olho vazado
Procura seu dono
 Edson Kenji Iura
De uma casa branca
No meio da encosta da montanha
Sobe um fio de fumaça.
 Paulo Franchetti
panela velha
no avarandado novo
vaso de avencas
 Alexandre Brito
Me comovem
tuas mãos limpas
e tua boca suja
 Eliane Pantoja Vaidya
o ruído
de um rato sobre o prato
como resulta frio!
 Buson
Tradução de Olga Savary
Voa bem-te-vi,
enquanto o sol é promessa
e eu tenho as janelas.
 Yberê Líbera
e um vaga-lume
lanterneiro que riscou
um psiu de luz
 Guimarães Rosa
A jabuticabeira.
Através de líquida cortina
olhos negros espiam.
 Yeda Prates Bernis
lua crescente
na sua barriga
uma estrela
 Ricardo Portugal
O corpo é um caminho:
ponte, e neste efêmero abraço
busco transpor o abismo.
 Thiago de Mello
o vento lambe teu corpo,
ainda morno o bebo:
parece vapor de licor
 Alaor Chaves
Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe…
 Gustavo Alberto Corrêa Pinto
briga de gatos
na sala de jantar –
vaso em cacos
 Carlos Seabra
Que outra lua anda
mais lua do que a nua
lua de Luanda?
 Luciano Maia
Longa chuvarada…
Nos matos e nas lagoas,
um canto de vida.
 Humberto del Maestro
A lua passa pelos pinheiros
e o olhar de súbito detêm
uma outra imóvel lua.
 Hokushi
A abelha voa vai
vem volta pesada
dourada de pólen
 Eugénia Tabosa
Sobe a piracema –
ano que vem outros peixes
nadarão de novo.
 Anibal Beça
pote virado –
a terra e o gato bebem
o leite derramado
 Milijan Despotovic
Tradução de Carlos Seabra
uma pétala de rosa
no vento
ah, uma borboleta
 Rogério Martins
As nuvens do céu –
o céu do infinito
eu de nenhum lugar
 Stefan Theodoru
Tradução de Carlos Seabra
Gotas de sangue
estão prestes a pingar:
pitangas maduras.
 José N. Reis
O silêncio, sim,
interrompendo o canto
dos pássaros.
 María Pilar Alberdi
lua de setembro
lá fora o vento claro
varre as estrelas
 Rogério Martins
Caminha a folha
morta,
pálio sobre formigas.
 Yeda Prates Bernis
Crescem mais pêlos
Nas minhas orelhas –
Mais um ano chega ao fim…
 Paulo Franchetti
há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?
 Millôr Fernandes
Fonte:

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Yana Moura (Haicais)

Yana é de Picos/PI
SER(VEJA)
etílico olhos
salivando os corpos
solidão em goles
PROTOCOLO
paginam-se os olhos
rodapés em branco
destinatário refúgio
COLIBRI
polinizando a flor
lambuzou o néctar
deixou seu cheiro
SERTÃO GUARIBAS
secos sorrisos
esfarelando o verde
comendo as cinzas
LAPA

descalço no samba
meus olhos levados
alísios das rosas
ACIMA DA CHUVA
quando fui chuva,
olhos fizeram água
desbotaram arco-íris
FOLHAS SECAS
feito cacto resisto
esfarelando as horas
adubando o tempo
SECA
silêncio das cores
folhas secando
olhares de prece
VERNISSAGE
Como uma madeira polida
versos e arte envernizados
na escultura de um poetar
DEVIR
Muda o fluxo
estações e rios
correnteza da essência
SARA-ME
na febre do corte
cicatriz e mertiolate
uma dor de saudade.
SERPENTINAS
Folia de Colombina
no sabor do carnaval
são batuques de samba.
BAÚ
Guarneço nossos recortes
Em palavras que versam o mar
Dentro de paginas fechadas.
BOLAS DE SABÃO
Cores de Nefertite
fantasias de primavera
digerindo amores de outono.
OS BARCOS
Velho olhar anda sobre a luz
derivam os olhos
no fluxo do adeus.
HAIKAI DA SAUDADE SUBITA
Meus passos respiram
saudade terrena
súbita vontade de ti.
Fonte:

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Chris Herrmann (Haicais)

PÁSSARO
Leve como um pássaro,
atravessando o meu sonho;
Pássaro de mim.
RISINHO
Criança é graça,
risinho que contagia
– dor do mundo passa.
OLHOS DE GATO
os olhos do gato
hipnotizam a paisagem
até desbotá-la.
GATO ESCALDADO
O gato escaldado
sacode-se pra lamber
as gotas que ficam.
BARQUINHO
Barquinho revela
seus deslizes mais profundos
nas ondas do mar.
DE QUEM SÃO AS ASAS?
De quem são as asas
a entorpecer o arco-íris?
– das flores que voam.
BORBOLETAS NÃO CHORAM
As borboletas
nunca choram. Olhem-nas:
elas orvalham.
EU-FELINO
Gato no espelho:
seu verdadeiro eu-felino
está de qual lado?
HAIGATOS
I
Gato escorrega
sabão daqui e de lá
: por que a pressa?
II
Bota preguiça,
bagunça é precisa…
Gato de botas.
III
Novelo de lã
desenrolando a cor
gatamarelo.
IV
Espreguiçando
gato acorda, pensa…
volta a dormir!
V
Ronrona baixo,
abaixo do bigode
– farra na sala.
VI
Miando alto
miau, miao and meow: 
fome estrangeira
VII
Gato sonhando,
gatas comemorando: 
As sete vidas.
Fonte:

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Clevane Pessoa (Haicais)

Os risos das crianças: 
 No cristal, bolas de gude 
 — luzes trepidantes ­ 
  
Pássaros canoros 
 Energia em expansão 
 Almas projetadas… 
Gestação do arco-íris 
 Leveza atestando o efêmero 
 — Bolha de sabão. 
  
Reflexo de prata: 
 Luar despeja-se no mar 
 — Espelho do céu 
  
Leve borboleta 
 Vitória sobre a crisálida: 
 Pétalas aladas…
Sons de flauta doce:
 Murmúrios edulcorantes
 – Vento no bambual…
 Órgãos musicais
 De sonata progressiva:
 Cigarra insistente
Armadilha bela:
 Luz atraindo mariposa
 – Destinação cruel
Força dos opostos
 Espirais de eternidade
 Yin e yang: você e eu
Pescoços de cisne
 Transformam em corações
 O espaço vazio…
Mini-borboletas
 Orquídeas papilonáceas
 – Só não podem voar
Violinista freme
 Libélula com o arco
 Vibrações no espaço…
Pássaros nos fios
 Como notas musicais:
 Celestiais canções…
  
A chuva pingando
 Devassa o botão da flor
 De / flora antes da hora…
Pele contra pele
 Proximidade de cheiros:
 Mistura de humores
Fonte:
Clevane Pessoa de Araujo Lopes. Mix de Haikais e Poetrix. Editora: AVBL,  www.avbl.com.br, 2005

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Álvaro Posselt (Tão Breve Quanto o Agora)

Esta semana recebi o livro “Tâo Breve Quanto o Agora”, do poeta paranaense, de Curitiba, Alvaro Posselt, lançado recentemente. 
São poemas em forma de haicais de uma forma humorística. Leves e com muito humor nos leva a devorá-lo de uma bocada só, e ao finaliza-lo, fica a pergunta ao autor: “onde tem mais esta delícia?”

(José Feldman)
—–

Abaixo uma amostra para deixar o navegante com água na boca:
A vida é o agora
Se alguém chegar atrasado
vai ficar de fora
Aqui tudo pode
Até a cabra
fica de bode
Choveu tanto aqui
que até caiu
outro pingo no i
Noite de espanto
Fui baixar um arquivo
baixou-me um santo
Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento
Entre arranhões e lambidas
para cuidar de tanto gato
precisarei sete vidas
Essa tá no papo
A mosca pousou
na sopa do sapo
Temporal divino
Para ir a algum lugar
só de submarino
Ninguém me liga
nem desliga
Ando meio stand by
Sentado no banco
o gato finge
que é uma esfinge
Meu violão me intriga
Morre de tanto rir
quando lhe coço a barriga
Meu Deus, que desânimo!
Hoje quem vai trabalhar
é o meu heterônimo
Curitiba não nos poupa
Ontem eu tomei sorvete
Hoje eu tomo sopa
Para adquirir o livro, contate o autor no Facebook.
Fonte:
POSSELT, Alvaro. Tão Breve Quanto o Agora. Curitiba: Blanche, 2012.

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Otávio Coral (Caderno de Haicais)

1
na noite dos ventos
sopra a mensagem dos céus:
gira catavento!
2
rubro se derrama
pelo mar de primavera
o sol medalhão
3
abrindo-se em pétalas
a alcachofra se desfolha
tal qual uma rosa
4
sol, taça tombada,
derrama na tarde finda
seu rubor final
5
mar de primavera:
ao vento crepuscular
se arrepia todo
6
almoço nissei:
nos sushis e sashimis
calor tropical
7
dos galhos tão secos
folhas tostadas caem:
sonhos são colhidos
8
na morna penumbra
ao som da doce canção
um buquê de rosas
9
branca poesia
vai escorrendo pelo verde
do papaia solto
10
uma labareda
feita só de nuvem branca
desfaz-se no céu
11
as pequenas flores
iluminam-se bem alegres
inda que na sombra
12
a noite traz a chuva-
em seu bojo uma saudade
rebenta-se em pingos
13
toma para ti
a suavidade branca
de uma bela orquídea
14
triste fim de tarde-
trancado numa arapuca
o canto do pássaro
15
o vento farfalha
tantas folhas de saudades
na noite sem lua
16
flor de pessegueiro
és bela demais na tela-
quisera tocar-te
17
estrela que passas
livre lâmina de luz
viajas para onde?
18
dispersar das cores
das asas das borboletas:
o sopro do vento
19
os cachos de acácias
desafiam-me amarelos
pênseis lá no sonho
20
na teia tão frágil
a mosca se debatendo:
vida por um fio
21
no céu, semi-lua
aconselha muito sábia
uma contemplação
22
caminho vazio:
soltas pelo chão, as pétalas
azuis dos jacintos
23
As cores de Abril,
das libélulas em vôo,
pintam suas sombras!
24
o vôo dos corvos
no amarelado trigal:
cores de Van Gogh
25
pelo entardecer
as sombras e claridades:
uma pausa cúmplice
26
Morada do haikai
Penumbra no entardecer:
Cai uma folha seca.
Fonte:

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Jose Marins (Haicais entre A Lâmpada e as Estrelas)

José Marins é de Curitiba/PR
árvores do outono –
dão cores ao vento sul
folhas de mil tons
o branco flutua
na lonjura do horizontes –
campo de algodão
por que tanto pia?
o gaviãozinho no azul
na manhã de outono
céu de lua cheia –
ondas se quebram na praia
espalhando brilho
maio que se vai –
a mulher reclama do
breve veranico
sem nenhuma folha
os galhos da magnólia
floridos de roxo
o rigor do inverno
o pigarro que peguei
é feito o do pai
a noite mais longa –
o gato dorme no colo
alheio à leitura
o Dia dos Pais –
nas duas pontas da linha
as vozes fraquejam
o olhar do menino –
um pouquinho de amarelo
na flor de ipê-rosa
o velho tropeiro –
o pé de ipê na campina
marelou de frô
ouve-se de longe
o velho trator vermelho
começa a aração
Praça da Bandeira
só a grama rebrotada
lembra o verde pátrio
gramado do parque –
entre o bando de chopins
canário-da-terra
corre a menininha
atrás do joão-de-barro –
asas e pernas
noite sem estrelas –
ao morcego o néctar das
flores amarelas
chegaram os gozos
das férias de verão –
um mate gelado
sob o guarda-sol
a velhinha diz ao velho –
que moço sarado
céu de Curitiba –
o branco da garça passa
no meio da tarde.
o fim do verão
o riacho do meu bairro
chegará ao mar?
Fonte:
José Marins (organizador). A Lâmpada e as Estrelas: coletânea de haicais. Curitiba: Araucária Cultural, 2012.

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A. A. de Assis (Haicais Quentinhos)

Vinha quente o tempo.
De repente vira o vento,
volte o vinho então.

De novo se vestem
de verde as sibipirunas.
A vida de volta.

No meio das flores,
asas leves revoejam.
Borboletas brancas.

Meninos na praça
brincando de soltar pipas.
Soltos no gramado.

Procuro o meu norte.
Sigo o voo de uma andorinha
que chilreando passa.

É janeiro, seis.
Traz o vento a cantoria
de um terno de reis.

Velhinho na praia
se esbalda vendo as moçoilas.
Dando pasto à vista.

Caras lambuzadas.
Crianças voltam da feira
mastigando mangas.

Como nos bons tempos.
No verde se esconde e canta,
ainda, a cigarra.

Solitária rosa
num quintal abandonado.
Pequenino oásis.

Fotos amarelas
achadas dentro de um livro.
Que saudades guardam?

Tem calor e frio,
sol e chuva, chuva e sol.
Abril brasileiro.

Vovó faz pamonha.
O vovô acende ao lado
o pito de palha.

Domingo de ramos.
Palmas para quem preserva
o verde das palmas.

Luona de maio.
A que os antigos diziam
que trazia o frio.

Já caem as folhas.
Tapete para a chegada
da nova estação.

Fogueiras acesas.
Para as moças casadoiras,
reacesos os sonhos.

Velhinha tricota
na cadeira de balanço.
Roupinhas de lã.

Fila na feirinha
na tenda das artesãs.
Cachecóis baratos.

Xô, inverno, xô,
estação borocoxô…
Ora, viva o sol.

Fontes:
do livro cedido a mim por Assis. A Lâmpada e as Estrelas: coletânea de haicais. Organizador: José Marins. Curitiba: Araucária Cultural, 2012.
Imagem = formatação por J. Feldman

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José Marins e Sérgio Pichorim (Fieira de Haicais)


Fieira de Haicais, de José Marins & Sérgio Pichorim, haicais encadeados, é uma adaptação lúdico-poética do renga (poema ligado em estrofes), sem nenhuma pretensão. “Fieira” é ´fio´, e um dos significados é “encadeamento”. Essa “fieira” segue a idéia do renga (sem o dístico após o terceto, mas sim outro haicai), faz ligação com o anterior, traz o kigo quando possível e retrata as estações). Em Curitiba, as estações são definidas, ou não. Nossas vivências se dão nessa geografia. JM


Pares: sp (Sérgio Pichorim)
Impares: jm (José Marins)

551
final de colheita –
com seus trapos ao vento
o velho espantalho
jm-21-5-12

552
fiquei espantado!
toda a vida na roça
e não o conheço.
sp-22-5-12

553
plantação de milho –
nem os tiros de espingarda
espantam as aves 
jm-22-5-12

554
crianças brincando
de esconde-esconde na roça.
quanto pico-pico!
sp-23-5-12

555
brincam as meninas 
porongos maduros viram
 bonecas e filhas
jm-23-5-12

556
massa de biscuit.
entre as frutas coloridas
também um caqui.
sp-27-5-12

557
aula na tevê
nas unhas da mulher
as frutas de outono
jm-28-5-12

558
eu hoje aprendi
a preparar o jiló.
Afro também sou.
sp-28-5-12

559
a nova receita
segue a tradição colona –
pudim de pinhão
jm-27-5-12

560
do modo antigo
ainda é bem melhor.
pinhão sapecado.
sp-29-5-12

561
o outono se vai –
na velha cuia a erva mate
cabocla da grossa
jm-29-5-12

562
descanço à sombra
no veranico de maio.
tererê gelado.
sp-30-5-12

563
que tarde cinzenta
um café com cardamomo
para me animar
jm-30-5-12

564
a pouca luz de
um longo dia chuvoso.
notas ao piano.
sp-5-6-12

565
o gato também
quer dormir até mais tarde
ê, chuva de inverno
jm-5-6-12

566
ah, chuva sem fim.
o aroma do quentão
vem lá da cozinha.
sp-6-6-12

567
que manhã de inverno
o leite bem quente com
chá mate tostado
jm-6-6-12

568
um pequeno brinde
na fatia do bolo.
viva Santo Antônio!
sp-13-6-12

569
a moça sorri –
a imagem de Santo Antônio
de ponta cabeça
jm-13.6.12

570
na festa junina,
um cachorro-quente pro
cachorro-de-rua.
sp-16.6.12

571
chuvinha de inverno
o gato ronrona no colo
que já foi do filho
jm-18-6-12

572
solstício de inverno.
a noite no guardamento
ainda mais longa.
sp-21-6-12

573
um dia de inverno –
tempo de tranquilidade,
diz o mestre Goga
jm-25-6-12

574
noite de são João.
o silêncio é quebrado
pelo foguetório.
sp-24-6-12

575
ah, meu velho bairro
cadê as festas juninas
dos tempos de outrora?
jm-24-6-12

576
festa de são Pedro.
a fogueira é uma
lâmpada vermelha!
sp-29-6-12

577
dia de São Pedro
as sementes de erva-doce
no naco de bolo
jm-29-6-12

578
uma manhã fria.
o chá de gengibre com
casca de laranja.
sp-9-7-12

579
que vento gelado
só o gato de companhia
nessa manhã
jm-9-7-12

580
férias de julho.
a casa mais triste com
a família ausente.
sp-11-7-12

581
cinzenta manhã
por pouco fui acordar
o filho ausente
jm-11-7-12

582
em frente a TV
com tocas e cobertor.
programa da tarde.
sp-27-7-12

583
manhãzinha fria
a garoa não molha o gato
no ninho de lã
jm-27-7-12

584
o vento gelado
me encontrou distraído.
batida de porta.
sp-4-8-12

585
o idoso contempla
o vermelho da suinã –
o ônibus se vai
jm-13-8-12

586
última geada?
não… é a pitangueira
toda florida.
sp-14-8-12

587
ao sopro do vento
espalha-se pela grama
o branco da paina
jm-16-8-12

588
secura de agosto.
o banho dos passarinhos
na água do cachorro.
sp-17-8-12

589
ipês-roxos floridos –
ao cão que puxa o velho
não importa as flores
jm-17-8-12

590
as cores da praça
se escondem com a noite.
pia a coruja.
sp-28-8-12

591
Praça da Bandeira
o vermelho da suinã
agora no chão
jm-28-8-12

592
o mês de agosto
com duas luas cheias.
qual será a cor?
sp-31-8-12

593
lá vem a lua azul –
segunda lua de agosto
de alvura cheia
jm-30-8-12

594
verde e amarelo
são as cores do ipê.
lembrança da Pátria.
sp-4-9-12

595
o sol já no oeste –
de luz amarela acesas
as flores do ipê
jm-5-9-12

596
Parreiral florido
na minguante de setembro.
Não posso podar.
sp-9-9-12

597
cresce a bougainville
do vizinho que morreu –
quem irá podá-la?
jm-11-9-12

598
brincos-de-princesa
 pendentes até o chão.
 brinca a menina.
sp-18-9-12

 599
risos entre folhas –
a mulher que colhe amoras
volta a ser criança
jm-15-9-12

600
na amoreira
 namoram os passarinhos.
 amor e amoras.
sp-19-9-12

Fonte:
http://fieiradehaicais.blogspot.com.br/

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Eliana Jimenez (Haicais de Primavera)

Primavera em Camboriu (Arthur Moser/RBS)

Banhista ressurge
na pressa de ser feliz.
Sol de primavera.
Bem-te-vis em pares
preparam ninhos nos postes.
Em alta tensão.
Chega a primavera.
Em pleno alvoroço, os pássaros
revoam a vida.

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Benedita Azevedo (Haicais: Primavera)

Manhã cinzenta –
Só o canto do sabiá
Lembra a estação.

Penedo vazado
ao vento de setembro –
Canta a natureza.

Luz da primavera –
Brilhando sobre as montanhas
as primeiras flores.

Na mata distante,
flores de jacarandá –
Festa da natureza.

Manhã perfumada –
O chão salpicado de pétalas
e o zum-zum de abelhas.

Ao romper da aurora
o sabiá dobra seu canto – 
Só isso me basta.

Luz do amanhecer –
Beija-flor invade a sala
e pousa em um livro.

Dia da Árvore –
No pátio a criançada
faz seu plantio.

Na estante da copa
o chiado dos filhotes –
Ninho de pardais.

O sol já se foi –
Nuvens negras sobre o céu
e o brilho do ipê.

Nuvens escuras
antecipam o fim do dia –
Primavera nublada.

As cores do céu 
espelhadas na água do mar,
Atmosfera suave.

Voeja em festa,
mergulhando no quintal –
Bando de andorinhas.

No Dia da Criança
vovó não sai da cozinha.
Cheiro de pastel.

Meados de outubro –
Da velha árvore tombada
surge um broto novo.

Suave perfume
na leve brisa que passa – 
Manhã de domingo.

Dois ninhos de pássaros
no galho da laranjeira –
Festa das crianças.

O guapuruvu
debruçado sobre a estrada…
Flores no asfalto.

Em noite nublada
eclode o primeiro ovo –
Ninho de pássaro.

Vento de novembro – 
Ao rumor de ondas agitadas
um barco à deriva.

Última caminhada –
Lembrança da primavera
junto ao mestre Goga.

Sabiá-da-praia –
Canta, canta o dia inteiro,
preso na gaiola.

Brisa da manhã –
Uma trepadeira cobre
escombros do muro.

Rio de primavera –
Ao sabor da correnteza,
o homem lança o anzol.

Final da estação – 
Na chuva que não para
vai-se a primavera.

Fonte:
AZEVEDO, Benedita. Silencio da tarde. Curitiba: Araucária Cultural, 2010

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Nilton Manoel (O Poema de Três Versos)

Aproveitei-me deste final de semana chuvoso, para colocar em ordem minha estante de arte-poética, separando os volumes que me servirão de ponto de referência no correr deste ano ímpar. Em meio desta tarefa encontrei o “Itinerário”- livro de autoria de Jacy Pacheco, premiado em 1972, pela secretaria da Cultura, Esporte e Turismo da Guanabara e, editado no ano seguinte elo Instituto Niteroiense de Cultura. O volume foi-me ofertado pelo autor, durante a minha estada em Nova Friburgo-RJ, participando dos Jogos Florais da localidade. O Itinerário tem 66 páginas, sendo que 51 estão divididas entre trovas, sonetos, poemas e haicais. No verso de uma das páginas de apresentação, encontrei um haicai de Luiz Antônio Pimentel:

“Que é um haicai?
É o cintilar das estrelas,
Num pingo de orvalho!”

Daí resolvi envolver-me um pouco mais neste poema e parti para a mineração da arte indo até Hêni Tavares (“Teoria Literária”, Ed.Itatiaia, BH,1971) onde consegui a afirmação de que “poema é o nome genérico de toda composição com intenção poética”. Folheando Aurélio B. Holanda encontrei: “ Haicai – poema japonês formado de três versos dos quais dois de cinco sílabas e um (o 2º) de sete sílabas poéticas”.
 

Além, na “Antologia Luso Brasileira de Wagner Ribeiro”- FTD, Adelino R. Ricciardi (irmão do Sílvio Ricciardi, da ARL) diz-me que Guilherme de Almeida jurava que esse gênero tinha sido criado especialmente para
nós. Eis um exemplo:

“Noite. Um silvo no ar;
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar” (Guilherme)

Na mesma antologia, em crônica extraída do jornal dos Municípios, 1959, Altino de Castro informa que, coube a Guilherme de Almeida, a introduzir rimas (1º e 3º) na composição. Adiante escreve: “Quando foi eleita em Long Beach, miss Universo, a japonesa Akiko Kojima – nome que significa – alegre pequena ilha -, eu me lembrei que não existia melhor modo de homenageá-la, do que compondo, à feição do Oriente, um colar de haicais, para o seu lindo pescoço pagão”. Do colar prendo-me em duas das sete contas:

“Agora são ricos
quimponos, leques, o sonho,
os olhos oblíquos…”

“Na concha do verso
alegre pequena ilha,
o sol do Universo.”

Voltando ao Itinerário de Jacy Pacheco releio alguns deles com rimas ou sem elas:

“Livre é o pensamento,
é porém à flor dos lábios
pássaro detento”.

No exemplo acima o primeiro verso rima com o terceiro e, neste outro, há rima paralela no primeiro com o segundo verso:

“Com sabedoria,
tu pouparás alegria,
para as horas más”.
Já este outro não tem rimas:


“Lagartas e tanques,
apagam sulcos de arados
e semeiam sangue”.

“Uma folha morta,
um galho no céu grisalho.
Fecho a minha porta”.

O verso leonino, como o segundo deste haicai, é o que tem rima nos hemistíquios ou nos membros métricos. Sendo o haicai pequeníssimo poema, o poeta se obriga a um grande poder de síntese para que dentro dessa forma possa revelar com originalidade, mensagem poética que cative o leitor e, perpetue-se através dos tempos.

Fonte:
O Autor

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Guilherme de Almeida (Os Meus Haicais)

Ao poeta Itige (“Neve do Crepúsculo”), meu amigo

Ocidentalmente – ou acidentalmente, se quiserem – o velho Pierre Louys teve razão: – “La poèsie est une fleur d’Orient qui ne vit pas dans nos serres cahudes. La Grèce elle – mêne l’a recue d’Ionic et c’est de la aussi qu’Andre Chenier ou Keats l’aont transplantée parmi nous, dans le désert poètique de leur époque, mais elle meurt avec chaque poete qui nous la rapporte d’Asie. Il fault toujours aller la chercher à la source du soleil”.

Lá, onde nasce a luz, nasceram a humanidade e a sabedoria, e com elas, a sua mais luminosa, mais humana e mais sábia forma: a poesia. E, como o sol, vem ela vindo para o ocidente, e, como ele, talvez, brilhando mais, tanto mesmo que obrigou os homens a fechar os olhos que não puderam resistir ao clarão. Incapazes de a contemplarem, dizem eles, agora, nestas longitudes, que “a poesia morreu”. Não morreu: continuou a descer, com o sol; teve o seu crepúsculo; e está agora, estará sempre renascendo no Levante.

Olho para aí e aí descubro, no seu aspecto mais simples e, pois, mais exato, a poesia: toda consubstanciada no haicai.

Mas, o que é haicai? – Criada por Bashô (sec. XVII) e humanizada por Issa (sec XVIII), o haicai é a poesia reduzida à expressão mais simples. Um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas uma pura emoção colhida ao vôo furtivo das estações que passam, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno… Emoção concentrada numa síntese fina, poeticamente apresentada em dezessete sons, repartidos por três versos: o primeiro de cinco sílabas, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Impressão breve, mas tão extensível, desdobrável: “pastille fumante”… Assim por exemplo:

Furu ike ya

Kawazu tobi komu
Mizu no oto”

que é a muito citada e recitada “Solidão”, de Bashô, e que traduzida em prosa e livremente dá isto: – “No tanque morto/ o ruído de uma/rã que mergulha”.

Vinte anos de poesia – uns trinta livros de versos escritos e uns vinte publicados – levam-me hoje à conclusão calma (que não é uma negação à minha nem um sarcasmo à obra dos outros) de que não há idéia poética, por mais complexa, que, despida de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrecência, expurgada de qualquer impureza, não caiba estrita e suficientemente, em última análise, nas dezessete sílabas de um haicai. “O Melro”, “O Navio Negreiro”, “A Vingança da Porta”, o “Ouvir Estrelas”, os trinta e três sonetos do meu “Nós” (no caso, não é pretensão, senão mero estoicismo, o colocar-me em tão superior companhia) poderiam ter sido reduzidos a simples haicais.

Questões, apenas, de coragem: coragem de renunciar a si mesmo, a uma porção de enfeites, de supérfluos mais ou menos bonitos, para só manter um essencial. Ao descrever o primeiro, maravilhoso verso da sua “Brise Marine”, Mallarmé fez um haicai: “La chair est triste, helas! et j’ais la tous les livres!” Mas, não teve coragem de parar aí: sob esse essencial, alinhou quinze supérfluos. É a poesia dispersiva do Ocidente.

Uma tarde, há pouco tempo, eu me perguntei: – será possível o haicai em outra língua que não a japonesa? Franceses de hoje, como Jules Supervielle, Tristan Derime, Robert de Souza, Fernand Lot; alemães, como Ernst Wohlfarth, Otto Thonak, F. Rumpf; e ingleses, e italianos e até já alguns patrícios meus, têm tentado o haicai, mas sem disciplina, sem um eficiente trabalho de aclimatação, uma justa observância e adaptação dos processos e ritmos originais: apenas li-vre-men-te. Referindo-se a tais tentativas, declarou um grande espírito do Japão, na noite de 5 de maio de 1936, quando conviva de honra do jantar do P.E.N. Club de Londres, rematando o seu discurso no Pagani’s Restaurant: “Penso que não é possível tentar a forma de dezessete sons em língua alguma que não a japonesa. O Poeta, que quisesse escrever poemas como os haicais, bem andaria em escolher uma pequena forma poética que melhor se adaptasse à sua língua materna”…

Ora, eu quero até certo ponto contrariar – e contrariar é sempre a maneira mais evidente de admirar – a absoluta autoridade do grande Takahama Kyoshi. Todos os elementos e todos os processos do haicai podem ser encontrados e empregados na poesia nossa, geograficamente antípoda da sua. Antípoda… “Os extremos se tocam” – este é, para mim, um dos únicos provérbios que, até hoje, conseguiram “acontecer”.

As mesmas analogias plásticas que Georges Bonneau (o verdadeiro revelador do haicai no Ocidente) notou entre a poesia japonesa e francesa, descubro, e mais estreitas aind, entre aquela e a nossa, a luso-brasileira. Estas, por exemplo:

1) A poesia é silábica (isto é, conta sílabas e não acentos) como a nossa.

2) São comuns a ambas as línguas as “sonoridades elementares” ou “vogais”: a,e,i,o,u.

3) Os ritmos ímpares “elementares” (de 5 e de 7 sílabas), peculiares à língua japonesa, também o são à nossa. O verso segundo do haicai, o de 7 sílabas, é a redondilha, que nasceu com a nossa poesia na Galiza, fez se a medida clássica de todos os nossos importados “romances”, a música natural da nossa “trova popular”, o diapasão da modinha capadócia, a nossa expressão folclórica por excelência, e mesmo a medida inconsciente, automática, da nossa fala. Diz-se até que nós falamos, sem o querer, por septissílabos. Os provérbios, os ditados plebeus, são exemplos disso: – “Nem tudo o que é luz é ouro”; “água mole em pedra dura – tanto dá até que fura”, etc… Outro ritmo do haicai – o verso de 5 sílabas – é também velho habitual na nossa língua. Vem dos estribilhos medievais, dos refrões dos “Cancioneiros”: “D’amores ei mal” (Ruy Paesde Ribella);”Os amores ei” (Pero Alcobo), etc; tornou-se a toada musical nas serraninhas brasileiras:

“Papagaio louro

Do bico dourado
Leva-me esta carta
Ao mesmo namorado”

das nossas tradicionais “Pastorelas”:

“Bela Pastorinha.

Que fazeis aqui?
– Pastoreando o gado
Que eu aqui perdi”

foi o verso das “Trayeras”, sob a “ação burlesca da raça negra” (Sílvio Romero):

“Virgem do Rosário

Senhora da mundo,
Dai-me uma coco d’água
Senão vou ao fundo”;

foi a cadência favorita das nossas “rondas” infantis:

“Tutu’Marambaia.

Saia do telhado.
Deixe este menino
Dormir sossegado”.

Servindo-se de todos esses recursos técnicos; e ainda das mesmas onomatopéias, aliterações, etc., que caracterizam os epigramas japoneses dos dezessete sons, e mais, procurando assimilar aquele “senso do símbolo” que possui, como nenhuma outra, a gente do outro-lado-do-mundo (senso esse que é a grande lição levantina, e tão extremado que faz, como diz Bonneau, com que, no haicai, “o sentido profundo do poema não tenha, às vezes, qualquer analogia com as palavras que o compõe”); e, afinal, acrescentando à minúscula pastilha nipônica um dourado todo nosso – a rima – a única corda que conseguimos acrescentar à lira dos gregos, essa

“Rime, qui donnes leurs sons
Aux chansons” (Banuille);

chego a estabelecer a fórmula do “meu” haicai. Esta fórmula:

– os três versos japoneses, na sua ordem original: 5 – 7 – 5;

– o primeiro, rimando com o terceiro;

– o segundo – septissílabo – com uma rima interna: a segunda sílaba rimando com a sétima – o que não se pode dizer que seja uma extravagância numa língua em que tal artifício freqüentemente aparece, como nos provérbios populares: “Por fora, bela viola, – por dentro, pão bolorento” (“fora” com “viola”; “dentro” com “bolorento”); e processo esse que cria um verso também de 5 sílabas pela subtração de 2 sílabas a que a rima força (7 – 2 = 5), verso esse que se integra facilmente na música dominante da pequena estrofe, que é a música do pentassílabo; sentir, pensar e não dizer: somente insinuar.

Mas… “res, non verba”; alguns exemplos, agora, desse haicai. (Dizem os japoneses que o haicai não deve ser explicado. Nós, porém, apenas iniciados, ainda não familiarizados com o espírito e a forma da exígua novidade, não podemos, por enquanto, dispensar algumas explicações).

A flor, que se desfolha, é bem uma lição moral de alta caridade: dir-se-ia que ela se despe do que é seu, que ela toda se dá à terra humilde, para que o pobre chão, a seus pés, pense que também é capaz de florir:

CARIDADE

Desfolha-se a rosa
parece até que floresce
o chão cor-de-rosa.

Um dia do passado – céu azul varado de sol fino de ouro – que ficou numa vida, sugere a idéia da borboleta que os colecionadores espetam no quadro melancólico. Colorida e linda ainda, parece viva: mas está morta, bem morta:

AQUELE DIA

Borboleta anil
que um louro alfinete de ouro
espeta em Abril

O haicai japonês acompanha o processo: está sempre “a la page”, explora freqüentemente temas modernos (a aviação, o cinema, o rádio…). Aqui está um de inspiração mecânica, atual: todo um romance – o das imperceptíveis criaturas pelas quais a vida parece que passa sem nada deixar nem levar, como os trens-de-ferro pelas estaçõezinhas insignificantes onde ninguém embarca nem desembarca:

HISTÓRIA DE ALGUMAS VIDAS

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém, na estação. E o trem
passa sem parar.

Uma definição do amor: uma ave, voa alto, entre a terra e o sol; a sua sombra projeta-se no chão, assustando-o, movimentando-o todo, e vai-se. Ela é a ave. Ele, o chão extático:

NÓS DOIS

Chão humilde. Então
riscou-o a sombra de um vôo.
“Sou céu” – disse o chão

É das nossas lágrimas muitas vezes, que nascem as mais brilhantes alegrias. Pois não é nas gotinhas de orvalho, de manhã, que o sol mais brilha? Desse pensamento derivou este haicai:

N.W.

Dilaceramentos.
Pois tem espinhos também
a rosa-dos-ventos.

Uma imagem do silêncio das nossas caatingas – o silêncio agudo, todo aliterado em “ii”, feito todo de tinidos de insetos sutis:

QUIRIRI

Calor. Nos tapetes
tranquilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.

Descrição da velhice – a partida das ilusões como folhas de outono; o gesto sem verdes, sem esperanças, para o céu; os cabelos grisalhos; a solidão e o egoísmo dos velhos:

VELHICE

Uma folha morta.
Um galho no céu grisalho.
Fecho a minha porta.

Um último exemplo: a definição do haicai num haicai. Que é ele, afinal? – o grãozinho de ouro que os lavageiros pacientes descobrem lavando a terra aurífera e deixando escorrer a ganga impura:

O HAICAI

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na batéia,
fica uma pepita.

Os Meus Haicais

(Extraídos do livro Poesia Vária)


O PENSAMENTO

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

HORA DE TER SAUDADE

Houve aquele tempo…
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

CARIDADE

Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.

SILÊNCIO

Uma tosse rouca,
Lã male. O “store” que bole,
A noite opaca e oca.

A INSÔNIA

Furo a terro fria.
No fundo, em baixo do mundo,
trabalha-se: é dia.

MOCIDADE

Do beiral dacasa
(ó telhas novas, vermelhas!)
vai-se embora uma asa.

HISTÓRIAS DE ALGUMAS VIDAS

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passasem parar.

INFÂNCIA

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.

LEMBRANÇA

Confete. E um havia
de se ir esconder, e eu vir
a encontrá-lo, um dia.

O POETA

Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las!

CIGARRA

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

GAROA

Por um mundo quase
aéreo, há um vago mistério.
Passa o Anjo de Gaze.

CIGARRO

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acenda uma estrela.

NÓS DOIS

Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um vôo.
“Sou céu!” disse o chão.

CONSOLO

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

VELHICE

Uma folha morta.
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta.

CHUVA DE PRIMAVERA

Ve como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

MEIO-DIA

Sombras redondinhas
Soldados de pau fincados
sobre rodelinhas.

NOTURNO

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.

MERCADO DE FLORES

Fios. Alarido.
Assaltos de pedra. Asfaltos.
E um lenço perdido.

N. W.

Dilaceramentos.
Pois tem espinhos também
a rosa-dos-ventos.

EQUINÓCIO

No fim da alameda
há raios e papagaios
de papel de seda.

O SONO

Um corpo que é um trapo.
Na cara, as pálpebras claras
são de esparadrapo.

JANEIRO

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

DE NOITE

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

QUIRIRI

Calor. Nos tapetes
tranqüilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.

PASSADO

Esse olhar ferido,
tão contra a flor que ele encontra
no livro já lido!

FILOSOFIA

Lutar? Para quê?
De que vive a rosa? Em que
pensa? Faz o quê?

UM SALGUEIRO

A asa. A luz que pousa.
O vento… É o estremecimento
vão por qualquer cousa.

UM RITMO DA VIDA

O berço vai e vem.
Mas vai com a quê? – Um ai.
E vem? – Sem ninguém.

OS ANDAIMES

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?

PERNILONGO

Funga, emaranhada
na trama que envolve a cama,
uma alma penada.

PESCARIA

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

OUTONO

Sistema nervoso,
que eu vi, da folha sorvida
pelo chão poroso.

VENTO DE MAIO

Risco branco e teso
que eu traço a giz, quando passo.
Meu cigarro aceso.

FRIO

Neblina? ou vidraça
que o quente alento da gente,
que olha a rua, embaça?

OUTUBRO

Cessou o aguaceiro.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salgueiro.

O BOÊMIO

Cigarro apagado
no canto da boca, enquanto
passa o seu passado.

FESTA MÓVEL

Nós dois? – Nao me lembro.
Quando era que a primavera
caía em setembro?

ROMANCE

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas maos nas minhas.

O HAIKAI

Lava, escorre, agita
A areia. E, enfim, na bateia
Fica uma pepita.

NOROESTE

Dilaceramentos…
Pois tem espinhos também
A rosa-dos-ventos.

Haicais da colina

(extraídos do livro O Anjo de Sal)


PACAEMBU

Chuva e sol. Repara
nas giestas atrás das frestas
das persianas claras.

PROGRESSO?

Enorme canhão,
o arranha-céu acompanha
o vôo do avião.

CARRILHÃO

Assusta-se e foge o
enorme tempo que dorme
no velho relógio.

SABEDORIA

Uma ave, pousada
no pára-raio, olha para
o céu. E há trovoada.

INTERIOR

Havia uma rosa
no vaso. Veio do ocaso
a hora silenciosa.

BOLHA DE SABÃO

Dirás, quando a vires:
“A bola de vidro rola
debaixo do arco- íris”.

POETAS

Tive uma irmã gêmea.
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvenzinha boêmia.

SEIS HAICAIS PARA CAMPOS DO JORDÃO

(extraídos do livro O Anjo de Sal)


CAMPOS DO JORDÃO

Vão duas meninas
de suéter de lã. Cheira a éter.
Ondas de colinas.

O “LOGO DAS HAICAIS”

Esvoaça a libélula.
Esponja verde. Uma concha.
O logo é uma pérola.

MARCHA NUPCIAL

Ventos leves bolem.
Têm lerdos gestos os cedros
ao vôo do pólen.

ÁRVORES NO OUTUBRO

Na casca, a ferida
é como mercurocromo.
A folha esquecida.

PRESENÇA

Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alguém.

Fontes:
Almeida, Guilherme – Poesia Vária, São Paulo, Editora Cultrix, 1976
Almeida, Guilherme – Toda Poesia – Guilherme de Almeida, São Paulo, Livraria Martins, Editora, 1952
Almeida, Guilherme – O Anjo de Sal, São Paulo, Alarico, 1951
Pereira Filho, Genésio – Haikai, Poesia de Estação, São Paulo, Gazeta Magazine, 1941
Almeida, Guilherme – Os meus haicais, São Paulo, O Estado de S. Paulo, 1937

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Mário Zamataro (Haicais)

Faz frio, muito frio,
nesta noite, na cidade…
Água quente e mate.

 O que a noite oculta
 em  poemas e mistérios.
 O verso da lua.

 Lume a escuridão:
 lua cheia, em perigeu…
 Uiva uma ilusão!

Chove devagar
e divaga o pensamento
em torno do alento…

 Dia cinza, assim,
 à noite tem lençol frio
 e um calor em mim!

 Vento sul… esfria.
 O dia acorda mais tarde
 e nem é domingo!

 Na minha janela,
um fim de tarde anoitece
com gritos de sol.

 Para ser poesia,
é preciso algum deserto
e o ser… todo dia…

 Vento e movimento:
nada está parado agora…
Uma folha dança.

 Cheiro de chuva
entre nuvens carregadas.
Essência do vento!

 Chuva passageira
 escorre no meio-fio…
 Barco de papel.

 Chove em minha rua.
Passarinho toma banho,
lá no fio de luz.

 A gota de chuva
 encontra a janela, para…
 e distorce a vista.

 Um rastro fugaz
 denuncia o vaga-lume:
 Segredos da noite.

 Procuro um “haimi”…
 Adentro na mata densa,
 pia um bem-te-vi…

 Hoje o tempo é bom.
 O vento é livre do tempo?
 Formigas trabalham…

 Dia anunciado
 em canto de sabiá
 já nasce encantado.

 Gato atocaiado,
 olhos firmes, logo à frente:
 pássaro em perigo!

 Escrevi na terra
 o mesmo que li nas nuvens…
 O vento espalhou!

 Quando a primavera?
 Os ipês já não têm flores!
 Beija-flor à espera…

Noutro dia havia
enfeites na minha rua:
um fio de andorinhas!

Uma terra estranha
Palavras que não se entende
Chuva conhecida

Galo e madrugada:
um grito de bicho aflito,
chamando a alvorada.

Fraco sol de inverno 
quebra o gelo da estação.
Cachorro na grama.

Chuva, cai gelada:
cada gota é um arrepio!
Pinga, pinga, pinga…

O chá no tatame…
Alguns versos murmurados…
Um silêncio: shi…

Sopra um vento frio,
casaco que tem buraco
conserva o arrepio.

 Brilha o sol na lua.
 Brilha a lua a noite inteira.
 Brilha o chão de orvalho.

Não há sol à noite
enquanto a canção não diz.
Lalari lalá…

Sei que a volta é certa,
mas, quando migra a andorinha,
a saudade aperta!

Os que vêm e vão
Todo o mundo pra encontrar
Gente amiga e não

Sem saber se ia,
escrevi este poeminha:
descobri que vinha!

Nuvens no horizonte…
Tanta coisa há por aí…
E depois do monte?

Barulho de chuva
em janela mal fechada
assusta e fascina!

Silêncio da noite
que ensurdece a luz da lua:
tarde emancipada!

Zune a carretilha
e uma linha risca o céu,
logo o peixe brilha!

Deitada na areia,
cor do sol na pele aflita,
dormita a sereia.

Incansável mar
que faz carícias na areia:
tem sede de amar.

O mar agitado
no fundo quer ser amado:
vaivém ondulado.

Verão no horizonte:
férias pra matar o tempo
que se vingará.

Verão no horizonte:
férias pra matar o tempo
que nos matará.

Chuva de arrastão
vem forte e faz tanta morte!
Será danação?

Chuva de verão:
ameniza o sol que foi:
sol de solidão.

Um novo ano aqui,
uma esperança acolá.
Vida revivida!

Fogo no estopim,
lampejos de tradição;
madrugada em mim.

Chove de manhã,
 soa um canto de sabiá,
 gritos de cã-cã.

Fonte:

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Clevane Pessoa (Haicais 1)

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20 de fevereiro de 2012 · 21:33

Colcha de Haicais 1


Tão pequena
E desbotada de chuva
A casa da infância!…
PAULO FRANCHETTI

o rio ondulando
a figueira frondosa
no espelho da Água.
ALAOR CHAVES

Flor de cerejeira,
cuco, lua e neve:
já lá se vai um ano!
SANPU

o futuro do presente
repousa em movimento
no teu ventre
ELIAKIN RUFINO

Rosa branca se diverte
Pétalas no vento
Imitam a neve.
VINÍCIUS C. RODRIGUES

Se deu mal na praia:
menino distraído
pisa numa arraia.
ANIBAL BEÇA

Sob o caramanchão
o céu,
noturna renda.
YEDA PRATES BERNIS

Venha colibri:
dentro do meu coração
já é primavera.
URHACY FAUSTINO

fim de tarde
depois do trovão
o silêncio é maior
ALICE RUIZ

A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
FERNANDES SOARES

para quem haicais?
para mim, para o que faz
para o menos mais
BITH

Um só pirilampo
ofusca o pisca-pisca
das luzes do campo.
SÉRGIO M. SERRA

vou-me embora
e tu ficas:
dois outonos
BUSON
Tradução de Olga Savary

dia muito frio
o vento desalinha
a plumagem do passarinho
JOÃO ANGELO SALVADORI

para onde
nos atrai
o azul?
GUIMARÃES ROSA

o fogo partiu saciado
a floresta de luto
soluça
EUGÉNIA TABOSA

Na laranja e na couve
picada – as cores brasileiras
da feijoada.
LUIZ BACELLAR

há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?
MILLÔR FERNANDES

Plaft! Duas moscas
sobre o caderno de álgebra
fazem o infinito
MANUELA MIGA
Tradução de Carlos Seabra

dia de sol –
até o canto do passarinho
tem cor
JANDIRA MINGARELLi

no mesmo banco
dois velhos silenciam
no parque deserto
CAROL LEBEL
Tradução de Carlos Seabra

Fonte:
Caixa de Haicai. http://www.seabra.com/cgi-seabra/haikai/randtxt.pl/haikai.html

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Paulo Leminski (Haicais)

O critério básico de minha seleção é o alto teor de balacobaco. Ou seja, os poemas que, sob uma ótica própria que Paulo Leminski teve do haicai, têm uma força criativa tão grande que deixam todas as discussões menores. O mesmo critério vale para haicais de outras vertentes e princípios. Não me basta que estejam corretos. Têm que dar barato. Um abraço e boa leitura.
Ricardo Silvestrin

—–

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

confira
tudo que respira
conspira

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece

passa e volta
a cada gole
uma revolta

bateu na patente
batata
tem gente

verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

nada me demove
ainda vou ser o pai
dos irmãos karamazov

na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir

casa com cachorro brabo
meu anjo da guarda
abana o rabo

cabelos que me caem
em cada um
mil anos de haikai

as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas

a chuva vem de cima
correm
como se viesse atrás

amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

meiodia três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores

abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno

o mar o azul o sábado
liguei pro céu
mas dava sempre ocupado

primeiro frio do ano
fui feliz
se não me engano

ano novo
anos buscando
um ânimo novo

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

lua à vista
brilhavas assim
sobre auschwitz?

tudo dito,
nada feito,
fito e deito

tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro

tudo claro
ainda não era o dia
era apenas o raio

essa vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

longo o caminho
até uma flor
só de espinho

nadando num mar de gente
deixei lá atrás
meu passo à frente

noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa

nu como um grego
ouço um músico negro
e me desagrego

a noite – enorme
tudo dorme
menos teu nome

tatami-o ou deite-o

de colchão em colchão
chego à conclusão
meu lar é no chão

madrugada bar aberto
deve haver algum engano
por perto

acabou a farra
formigas mascam
restos da cigarra

minha alma breve breve
o elemento mais leve
da tabela de mendeleiev

essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

Fonte:
http://www.kakinet.com/caqui/leminsha.htm

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4º Concurso de Haicai “Masuda Goga” (Resultado Final)

A Associação Cultural Nikkei Bungaku do Brasil, em parceria com o Grêmio Haicai Ipê, promoveu o 4º CONCURSO DE HAICAI “MASUDA GOGA”, aberto ao público em geral, com o objetivo de divulgar o haicai. Os haicais vencedores do concurso estão relacionados aqui.

Masuda Goga (1911-2008) foi mestre de haicai em japonês e português. Jornalista, escritor e artista plástico, ajudou a fundar, em 1987, o Grêmio Haicai Ipê. Em 2004, recebeu o “Masaoka Shiki International Haiku Prize”, por seu esforço na divulgação do haicai no Brasil. Como forma de celebrar sua memória, foi instituído o Concurso de Haicai “Masuda Goga”. A edição de 2011 revestiu-se de especial significado, ao comemorar o centenário de nascimento do mestre.

O concurso foi dividido nas categorias Adulta (15 anos ou mais) e Infanto-juvenil (14 anos ou menos). Foram aceitas inscrições pelo correio e também durante o 24º Festival do Japão, no estande da Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. O prazo final para as inscrições recebidas pelo correio foi 1 de agosto de 2011.

Os jurados foram os haicaístas Edson Kenji Iura e Teruko Oda.

Participaram 67 adultos e 40 jovens, perfazendo um total de 107 inscrições.

Os vencedores da categoria adulta foram:

1º lugar
Francisco Assis dos Santos
Santos, SP

Caminhos da infância…
As patas do cavalo
Na geada do campo.

2º lugar
José Alves da Silva
Santos, SP

Brancas de geada
As plantas deste jardim.
E a flor desabrocha…

3º lugar
Ricardo Rutigliano Roque
Santos, SP

o vento nas folhas—
um nariz vermelho aponta
geada no caminho

4º lugar
Sergio Francisco Pichorim
S. José dos Pinhais, PR

Geada no campo.
Ao recolhê-la nas mãos,
Não existe mais.

5º lugar
Carlos Viegas
Brasília, DF

Ando entre sorrisos
E o murmurinho bilíngue—
Festival do Japão

Os vencedores da categoria infanto-juvenil foram:

1º lugar
Josué Rooder Salomão
São Paulo, SP

Manhã de geada
Sob o banco da pracinha
Cão todo enrolado

2º lugar
Guilherme Guimarães
São Paulo, SP

Ao amanhecer
O passarinho canta
Na relva, geada!

3º lugar
William Venâncio da Silva
São Paulo, SP

Acordo de manhã
Observo até o horizonte
Campo de geada

4º lugar
Bárbara Vieira Batista
São Paulo, SP

Caminhada matinal
Geada por todo lado
Na praça vazia

5º lugar
Jefferson Henrique Modesto
São Paulo, SP

Vovô na varanda
Só tem um pensamento–
Mais uma geada!

Fonte:
http://www.kakinet.com/cms/?p=919

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Goga Masuda (Os Dez Mandamentos do Haicai)


I – O Haicai é poema conciso, formado de 17 sílabas, ou melhor, sons, distribuídas em três versos (5-7-5), sem rima nem título e com o termo-de-estação do ano (kigô).

II – O kigô é a palavra que representa uma das quatro estações, primavera, verão, outono e inverno; p. ex., IPÊ (flor de primavera), CALOR (fenômeno ambiental de verão), LIBÉLULA (inseto de outono) e FESTA JUNINA (evento de inverno).

III – Cada estação do ano tem o próprio caráter, do ponto de vista da sensibilidade do poeta; p. ex., Primavera (alegria), Verão (vivacidade), Outono (melancolia) e inverno (tranqüilidade).

IV – O haicai é poema que expressa fielmente a sensibilidade do autor. Por isso,

respeitar a simplicidade;

evitar o “enfeite” de “termos poéticos”;

captar um instante em seu núcleo de eternidade, ou melhor, um momento de transitoriedade;

evitar o raciocínio.

V – A métrica ideal do haicai é a seguinte: 5 sílabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro; mas não há exigência rigorosa, obedecida a regra de não ultrapassar 17 sílabas ao todo, e também não muito menos que isso. E a contagem das sílabas termina sempre na sílaba tônica da última palavra de cada verso.

VI – O haicai é poemeto popular; por isso usa-se palavras quotidianas e de fácil compreensão.

VII – O dono do haicai é o próprio autor; por isso, deve-se evitar imitação de qualquer forma, procurando sempre a verdade do espírito haicaísta, que exige consciência e realidade.

VIII – O haicaísta atento capta a instantaneidade, qual apertar o botão da câmera.

IX – O haicai é considerado como uma espécie de diálogo entre autor e apreciador; por isso, não se deve explicar tudo por tudo. A emoção ou a sensação sentida pelo autor deve apenas sugerida, a fim de permitir ao leitor o re-acontecer dessa emoção, para que ele possa concluir, à sua maneira, o poema assim apresentado. Em outras palavras, o haicai não deve ser um poema discursivo e acabado.

X – O haicai é um produto de imaginação emanada da sensibilidade do haicaísta; por isso, deve-se evitar expressões de causalidade, sentimentalismo vazio ou pieguice.

Fonte:
http://www.kakinet.com/caqui/dezmand.shtml

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Teruko Oda (Algumas Sugestões para Compor Haicai)


1. Escreva o poema sempre em três versos (linhas).

2. Quanto à métrica, a contagem da sílaba gramatical e da sílaba poética não segue a mesma regra. A sílaba poética é contada pelos sons que emitirmos quando lemos ou falarmos o poema. Considerando que a poesia é a principal qualidade do haicai e não a métrica, não perca muito tempo tentando enquadrar os seus versos dentro de cinco, sete e cinco sílabas. Use o seu bom senso e evite os extremos: versos nem muito curtos, nem muito longos.

3. O momento do haicai é o que está acontecendo agora; então, use sempre o verbo no tempo presente.

4. Escreva sobre a natureza exatamente como ela é: de forma clara, simples e objetiva (quem, o quê, quando, onde).

5. Evite pré-conceitos, metáforas, comparações, julgamentos, conclusões.

6. Por mais fantástica que lhe pareça a idéia, não invente, não “ache”, não tente passar lições de moral, filosofia, religião.

7. Evite explicações, descrições fúteis, expressões redundantes que nada acrescentam ao seu poema.

8. Seja fiel a você mesmo: evite imitações não condizentes com a sua realidade.

9. Observe atentamente a natureza : “captura a luz que emana das coisas antes que ela se apague” (Bashô).

10. Veja se o seu poema apresenta no mínimo dois destes quesitos: um agente, uma ação, uma descoberta, um acontecimento, referência à estação do ano.

Fonte:
http://www.kakinet.com/cms/

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Haicais Premiados em Concursos

Pé d’água na serra.
Sob a quaresmeira em flor,
berram os cabritos.
FRANKLIN MAGALHÃES – RJ

Cachorro vadio
À sombra da quaresmeira
Dorme sobre flores.
ANTONIO MOREIRA MARQUES – MG

Mausoléu antigo —
Pétalas da quaresmeira
Pousam nos Kanjis.
NEIDE MARIA ROCHA PORTUGAL – PR

Parque dos meninos
Limo e sombras sobre as pedras
Sabiá em silêncio.
CARLOS ROQUE BARBOSA DE JESUS – SP

Pausa pro descanso —
Na sombra da quaresmeira
Almoço dos garis.
JOÃO TOLOI – SP

Inda faz escuro.
Sabiás afinam o canto
à espera do sol.
CYRO MASCARENHAS RODRIGUES – DF

Bem perto de mim,
O canto do sabiá —
Janela enfeitada.
CLÍCIE MARIA ANGÉLICA PONTES – SP

Descida da serra.
Enfeita o retrovisor
flor de quaresmeira.
LÚCIA HELENA MARTINS GONÇALVES – SP

No meio da aula,
canto livre dos sabiás
distrai os alunos.
RENATA PACCOLA – SP

Entre as laranjeiras,
anunciando o alvorecer,
Canta o sabiá.
ALBERTO MURATA – SP

Seguram a enxada
As mãos que escrevem haicais —
Chuva criadeira
NEIVA MARIA PAVESI – SP

Mar de Primavera
O velho cochicha o nome
de Urashima Taro
EDUARD TARA – ROMÊNIA

Solzinho de inverno
Usando todo o sofá
Os gatos se espicham
LUIZA NELMA FILLUS – PR

No ventre da terra
Repousa o velho imigrante
Cala-se a cigarra
NEIVA MARIA PAVESI – SP

Haicai: Compondo haicais
Pesquisa sobre Nempuku
Em noite alongada
BENEDITA SILVA DE AZEVEDO – RJ

De todos os lados
O grito das maritacas
E o frescor da tarde
PAULO FRANCHETTI – SP

Tarde de verão —
Saltitanto sobre poças,
Um gato passeia
ROSANE MARTA ZANINI – PR

Início de outono.
Nuvens passeiam devagar
No azul da lagoa.
JOSÉ MARINS (PR)

Neste breve instante
O vento carrega a chuva.
Cafezal em flor.
ANDRÉA MOTTA PAREDES – PR

Mesmo com a chuva
Passarada em alvoroço
Pêssegos maduros.
TEREZA DELONG – PR

O amor foi embora.
E na festa Tanabata
Um novo pedido…
ANALICE FEITOZA – SP

No dia da festa
Também sonho um encontro
Ah! Vega e Altair!
EUNICE ARRUDA – SP

Bem devagarinho
Mãos trêmulas e manchadas
Amarram Tanzaku.
NEIDE ROCHA PORTUGAL – PR

Meu olhar errante
No Festival das estrelas.
De repente, o príncipe.
ZULEIKA DOS REIS – SP

Solteirona lança
Em tanzaku cor-de-rosa.
Sua última cartada.
ALBERTO MURATA – SP

Fonte:
http://www.kakinet.com/

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José Zokner (Constatações e Dúvidas)


CONSTATAÇÃO XV

De amor sedento,
Ele, com ar pachorrento,
Pediu ela em casamento.
E já se imaginou com um rebento
Corado, lindo, um portento,
Fruto de um amor puro, isento.
Ela pensou um momento.
Aí, ele, ficou atento
E tomou novo alento
Já que, antes, de tal intento,
Ele recebera um “não” meio lento,
Sob alegação de “palavras ao vento”.
Os minutos da resposta, um tormento
Como uns se sentem em dia cinzento.
E ela: “Sim, meu futuro sargento.
Só que haverá, de lugares, um aumento
Pois minha mãe terá direito a um assento”.
Ele, se sentiu pestilento,
Engulhento,
Enjoamento,
Sonolento,
O corpo todo, suarento,
Nunca sentira tanto sofrimento,
Tanto lamento.
E nunca se sentira tão espoliado,
Tão aviltado,
Desconsolado
Mas, com tanto amor, acabou conformado,
Resignado,
Acomodado.
Coitado!

CONSTATAÇÃO XXI (PARA QUE INIMIGA?)

Depois de fazer,
Com todo prazer,
Para desfazer
Um amorico,
Um namorico
Da melhor amiga
Bolou,
Criou
Um mexerico,
Um futrico,
Um fuxico,
Uma intriga,
Doída como urtiga,
E vibrou
Com a briga
Que disso resultou.

DÚVIDAS CRUCIAIS VIA PSEUDO-HAICAIS

Dúvida I
Foram os nubentes
Que de tanto se beijarem
Ficaram sem dentes ?

Dúvida II
Jogar com determinação
É inclusive segurar
O adversário pelo calção ?

Dúvida III
Linguajar sofisticado
Também é bom pra deixar
O cara enrolado ?

Dúvida IV
Não houve testemunha,
Na queima de arquivo
Como se supunha ?

Dúvida V
Dependendo do lugar,
Você até paga
Para não se incomodar ?

Dúvida VI
Em alto e bom som,
Era ela que dava,
Em casa, o tom ?

Dúvida VII
A gente, pra não ser assaltado,
Deve colocar grades no muro
E viver se sentindo aprisionado ?

Dúvida VIII
Foi um cardápio sofisticado,
No fim de ano, que o deixou,
Na hora do bem-bom, apurado ?

Dúvida IX
Pra ser oposição
Basta ser do contra
Quando der sua opinião ?

Dúvida X
Só porque apareceu um vulto
Estranho na escuridão
Se armou um tumulto ?

Dúvida XI
Por ter um rompante
Ela se pôs a bronquear
A todo instante ?

Dúvida XII
Foi no palanque armado
Que um eleitor gritou algo que
Deixou o político desarmado ?

Dúvida XIII
Ele armou o maior sarilho
Quando ela falou: “quando
Você faz a barba só sai cepilho” ?

Dúvida XIV
Do mineiro, a solidariedade
É só no câncer ou também
Em outra enfermidade ?

Dúvida XV
Diante da conquista
Fracassada, gorada,
Ele fez a pista ?

Dúvida XVI
Colete a prova de bala
Vai virar moda ou é
A necessidade que fala ?

Dúvida XVII
Tuas propostas, porventura,
São sérias, são lérias
Ou são mais uma aventura ?

Dúvida XVIII
A distorção salarial
Não deveria fazer parte
Do Código Penal ?

Dúvida XIX
Quem deu carta branca
Para o meu time do coração
Só jogar na retranca ?

Dúvida XX
Ela fez uma baita fofoca
Por ele não tê-la levado ao motel
E o chamou de nhambibororoca*?

*Nhambibororoca = veado (Mazama gouazoubira) encontrado do Panamá ao Uruguai, semelhante ao veado-mateiro, mas um pouco menor e de pelagem marrom-acinzentada (Houaiss).

Dúvida XXI
Já no começo da disputa foi premonitório
Que o Paraná iria cair pra Segundona regional
Ou foi apenas um maldoso falatório?

Dúvida XXII
Notícia chinfrim
É aquela que diz
Que a crise ta no fim?

Dúvida XXIII
Você acha uma lacuna
Esses políticos todos
Não entrarem numa borduna*?

*Borduna = porrete grosso e pesado (Houaiss).

Dúvida XXIV
Quem entra numa mumunha
Jamais poderia participar,
Em juízo, como testemunha?

Dúvida XXV
Foi o galante pica-pau
Que prometeu à namorada
Um bolo de macacacacau*?

*Macacacacau = substantivo masculino
Rubrica: angiospermas. Árvore de até 10 m (Theobroma microcarpa) da família das esterculiáceas, nativa da Amazônia, de boa madeira, de que se extraem fibras, folhas oblongas, lanceoladas, flores axilares e cápsulas elipsóides e escamosas, com sementes que substituem as do verdadeiro cacau (Houaiss).

Dúvida XXVI
Sentir um forte apego
Por si mesmo é uma solução
Ou um problema do ego?

Fonte:
http://rimasprimas.blogspot.com/
Imagem = Surreal Paradise, por Eclipsy

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José Feldman (Haicais)


POETA

Viajar no espaço
Coração do amanhecer
Delírio eterno

AMOR

Suspira o corvo,
Evoca rios de ternura
Musgo do amanhã.

DESEJO

Semear estrelas
Diamante lapidado
Reflexo cristal.

MORTE

Ponte da verdade
Córregos da Memória
Castelos da ilusão.

CHUVA

Gotas de vidro
Espelho da penumbra
Alívio da manhã.

LÁGRIMAS

Riacho de emoções
Vulcão da desilusão
Erupção ternura.

EPILÉPTICO

Ser imperfeito
Peregrino de sonhos
Cão vira-lata.

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Pedro Ornellas (As Artes do Pedro III)


TROVAS

Quando, à noite, em quantidade,
voltam lembranças de outrora,
eu posso ouvir a saudade
batendo palmas lá fora!

Por natureza, enganosa;
meiga e boa, quando quer…
Fogo e gelo, espinho e rosa;
anjo e demônio: mulher!

Na vida, imensa coxilha,
zombando do meu fracasso,
felicidade é novilha
mais ligeira que o meu laço!

Tive a noção do fracasso
quando o tempo, em desvario,
encheu de ausências o espaço
que o sonho deixou vazio!

Falham medidas extremas,
mesmo calando o argumento;
porque ninguém põe algemas
nos pulsos do pensamento!

“Vá lá ver se chove ou não”
E o filho (também deitado):
“Ir lá, prá que? Chame o cão,
e vê se ele tá molhado!”

Matuto explica o defeito
da TV que teve um ‘curto’:
– Ela proseia dereito,
mas não aparece o vurto”

Chegou tarde, a vista torta
do boteco, o Zé Morais…
viu DUAS SOGRAS na porta
– e não bebeu nunca mais!

* * * * * * * * * * *

PENSAMENTO

“Conheço o verdadeiro amigo pelo número de vezes que me diz: Cuidado!”

PROVÉRBIO
Pedreiro sem prumo, parede sem rumo.

HAICAI

Arroz cacheando
chuveirada repentina
sorrisos molhados.

S O N E T O

Lição

Tantas lições ela ensinou-me enfim
que perco a conta! E no entretanto, aquela
tão grande efeito teve sobre mim
que me enterneço quando penso nela!

Era pequeno, e olhando da janela
tive a noção real do amor sem fim
ante a beleza da visão singela:
Mamãe plantando flores no jardim.

Já não a tenho… mas evoco ainda
para conter-me, aquela imagem linda
que um pensamento ou gesto rude amansa.

E volta a cena, nítida, real,
que poderia ser talvez banal
não fosse aquele o dia da mudança!

Fonte:
Pedro Ornellas

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Sandra Santos (Livro de Haicais)

1
haicai é vício
no ábaco dos dedos
versos paridos

2
treme um haicai
na ponta da espada
de um Samurai

3
chão de outono
amarelo pêssego
deu pé de vento

4
vovó sentada
geada na cabeça
Já é inverno

5
se há o gosto
há o gozo, e afinal
já é agosto

6
barco de papel
perdeu-se das palavras
águas caladas

7
olhar vadio
sem a pressa das horas
pousa na rosa

8
foge um gato
pelo buraco negro
céu de Alice

9
plátanos mortos
sustentando videiras
vivem ainda

10
no chão voando
lá vai o leitor tão só
Leminskiando

11
como girassol
o sol se estende à leste
solenemente

12
bocal de poço
rendado de avencas
cortinas da rã

13
na primavera
gato furta cor passa
e se espreguiça

14
vaso de rosas
no orvalho do olhar
tristes memórias

Fonte:
A Autora

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Carnaval em Versos (organização de Heloisa Crespo) Parte I

Carnaval em Versos
Organização e Programação Visual: Heloisa Crespo
Campos dos Goytacazes/RJ.
heloisacrespo@gmail.com

Poetas participantes:

Ademar Macedo – Agostinho Rodrigues – Alberto Paco – Anna Servelhere – Armonia Gimenes de Salvo Domingues – Carlos Augusto Souto de Alencar – Carolina Ramos – Célia Lamounier de Araújo – Cidinha Frigeri – Dalinha Catunda – Francisco Neves Macedo – Gislaine Canales – Heloisa Crespo – Hermoclydes S. Franco – José Fabiano – José Lucas de Barros – José Moreira Monteiro – Laérson Quaresma – Larissa Loretti – Leda Montanari – Lóla Prata – Maria Virgínia Claudino – Marina Valente – Marisa Vieira Olivaes – Neoly Vargas – Nilton Manoel – Olympio Coutinho – Paulo Walbach Prestes Pessoa – Sérgio Luís da Silva Vargas – Sinclair Pozza Casemiro – Sonia Ditzel Martelo – Sonia Vasconcelos – Vânia Maria Souza Ennes

Marisa Vieira Olivaes
CARNAVAL

Outra vez, é Carnaval…
E eu, em minha fantasia,
volto à infância, angelical,
onde tudo era alegria!…

Doces bailes infantis…
serpentinas e confete…
Meus pais… eu era feliz…
mas nada mais se repete…

As “marchinhas”, a magia,
blocos de rua, “cordões”…
numa inocente folia
que embalava os corações…
––––––––––––––––––––––-

Alberto Paco
FRUTO DO CARNAVAL

A bela Maria;
Loira, olhos verdes, esguia,
tem em seus braços uma linda criança,
negra.
Fruto do carnaval passado.
Do terraço da mansão, em São Conrado,
Maria
vê o povo passar apressado,
a caminho da folia.
Sente saudade!
Um ano atrás, exuberante de alegria,
no meio do salão,
viu um belo rapaz, alto, forte,
negro como carvão.
Dançou com ele a noite inteira.
Beberam, fumaram.
Ao romper do dia se esgueiraram.
Na areia úmida se deitaram,
se abraçaram, esquecidos das diferenças sociais.
Não pensaram em gravidez
nem AIDS.
Transaram sem camisinha,
livres como os animais.
Cansados, adormeceram.
Ao acordar,
Maria estava sozinha!
___________________

Ademar Macedo
CARNAVAL

Nos Carnavais sempre eu sofro
do princípio até o fim,
pois sou aquele palhaço
travestido de arlequim,
e envolto na multidão
sinto um mundo de ilusão
sambando dentro de mim…
__________________

Gislaine Canales
CARNAVAL FANTASIA

Glosando Elisabeth Souza Cruz
MOTE:
Meu carnaval mais risonho,
foi aquele em que eu vesti
as fantasias de um sonho
que até hoje eu não vivi…

GLOSA:
Meu carnaval mais risonho,
cheio de felicidade,
eu lembro hoje entressonho,
numa forma de saudade.

Foi um tempo de alegria,
foi aquele em que eu vesti
a minha alma de poesia…
Disso, nunca me esqueci!

A todos, hoje eu proponho
viver muitas fantasias…
as fantasias de um sonho
não deixam as mãos vazias…

Quisera realizar
tudo aquilo que senti
e a grande emoção de amar
que até hoje eu não vivi…
_________________________

Agostinho Rodrigues
Se folia tem riqueza
provinda do carnaval,
folclore que pesa.

Lóla Prata
Sambando ao som do “Abre-alas”,
pisou agruras da vida
na pretensão de apagá-las
e não se dar por vencida.

José Moreira Monteiro
Sem máscara e fantasia
cuca cheia, já doidão,
lá se vai o Zé Maria
no bloco do garrafão…

Sinclair Pozza Casemiro
O espetáculo da massa
ou retiro do fiel:
importa é que o céu abraça
os corações em cordel…

Sonia Ditzel Martelo
E chegou o Carnaval,
vamos brindar a magia
de uma festa sem igual
em acordes de alegria ! …
____________________

Célia Lamounier de Araújo
MALANDRAGEM

No burburinho de um carnaval
Metamorfose afinal
Rosto jovem fica velho
Velho rosto fica jovem.
Sentimentos malandragem
Trazem ao dia coragem
Perna jovem fica firme
Velha perna fica forte.
Mal expira tal momento
Resta só o juramento
Alma jovem mais madura
Velha alma sorridente.
Haja carnaval!…
_________________

Carolina Ramos
O CARNAVAL COMEÇA…

Rompem-se os diques da alma. Nas retinas,
confundem-se as visões do Bem e o Mal.
Momo sacode os guizos! Nas esquinas,
e nos salões, estronda a bacanal!

No entanto, há mais Pierrôs e Colombinas,
Palhaços e Arlequins, na vida real,
que os que atiram confetes, serpentinas,
alegria a fingir no Carnaval!

Cinzas! Máscaras rolam. Mas, só a morte,
a derradeira máscara é quem tira.
Momo sorri – talvez da própria sorte…

O amargor, numa dúvida, se expressa:
– O Carnaval findou?! – Mordaz mentira!
– A vida marcha… e o Carnaval começa!…

Fonte:
Heloisa Crespo

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Concurso de Haicais 1996, da Academia Ribeiraopretana de Poesia

Em 1.996, realizou importante concurso nacional de Haicai sob os temas: Luz e Noite. Foram vencedores:
.

LUZ – NACIONAL/INTERNACIONAL

1-Arthur Francisco Baptista

A luz do farol
no mar sem ter quem buscar
adormece ao sol.

2- Geraldo Lyra

Balão colorido
qual esteira de fogueira
vai de luz vestido.

3-Dercy Alonso de Freitas

Um raio de luz
carinho em nosso caminho
o amor de Jesus.

4-Sérgio Bernardo

Na luz da manhã
O inseto se olhou no espelho
da gota de orvalho.

5- Darly O. Barros

À luz da manhã
a borboleta amarela
leva o sol nas asas.

Menções Honrosas:

1- Morais Lopes -(Portugal)

Eis a luz e a vida;
ser primavera é ser luz,
ser luz é ser vida.

2-Maria Thereza Cavalheiro

Deus apaga o sol,
e acende luzes de estrelas
em todas as árvores.

3-Arthur Francisco Baptista

Encontro no mar.
O abraço nosso é um pedaço
da luz do luar.

4-Napoleão Valadares

Eu quero sonhar
enquanto tiver o encanto
da luz desse olhar.

5- Sérgio Bernardo

No infinito, o sol
chora lágrimas de luz
dando adeus ao dia.

6-Arthur Francisco Baptista

O sol do poente
da vidraça, a luz embaça
desejo dormente.

7- Izo Goldman

Olho arregalado
no escuro do azul profundo,
a luz de lua cheia.

Menções especiais:

1- Darly O.Barros

Sobre a Bíblia aberta,
a branca luz de luar
faz sua oração.

2- Neide Rocha Portugal

Sem discriminar
o raio de luz penetra
na velha tapera.

3- Darly O. Barros

A luz da lareira…
Coreografia perfeita
de um baile de sombras…

4- Dercy Alonso de Freitas

A fome rodeia,
falta comida na mesa
à luz da candeia.

5- Edmar Japiassu Maia

As luzes do dia
varrem com raios de sol
as sombras da noite.

NOITE – MUNICIPAL

vencedores:

1- Lila Ricciardi Fontes

É chuva sem fim!
É goteira, a noite inteira,
solfejando em mim!

2- Lila Ricciardi Fontes

Na noite silente
da mata,o luar de prata,
passeia imponente!

3– Silvio Ricciardi

Foi a noite embora…
e a passarada acordada
já festeja a aurora.

Menções Honrosas:

1- Branca Marilene Mora de Oliveira

Lá vem a saudade!
Junto com a noite chegando.
esta dor me invade

2– Lila Ricciardi Fontes

O vento em açoite,
martela minha janela,
assustando a noite.

3- Sílvio Ricciardi

Um preito ao luar!…
A dama da noite emana
perfume invulgar.

4– Sílvio Ricciardi

Que “show” de pernoite!
Quantas estrelas…êm vê-las
enfeitando a noite.

5– Rita Marcianp Mourão

Noite.Mil segredos!
Surge a luz bela e nua
a enganar os medos.

6– Lila Ricciardi Fontes

A luz que irradia
do luar,faz singular,
noite de poesia.

7- Silvio Ricciardi

Que noite!…E o cansaço
é tanto…eu busco acalanto
no teu meigo abraço.

Fonte:
Nilton Manoel

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João Justiniano da Fonseca (50 Haicais + 3)

1
É ter paciência
Para deixar que a tormenta
Ceda à calmaria.
2
Reabrindo o sol
A gente tem segurança
E pode voar.
3
Jamais espera
A dependência da terra,
Da água e do sol.
4
Quero crer que a sorte
Não nos dispensa o trabalho
Que oferece o pão.
5
Tenho sempre em mente
Que chuva, sol e semente
Dão sustento a vida.
6
A prosperidade
Sempre acompanha o trabalho
Se este é inteligente.
7
Nenhum luxo vale
Se falta a mulher amada,
Que preenche a vida.
8
O lar sem mulher
Vem a ser quatro paredes
De prisão e fel.
9
Ora, meu amigo,
Não faz mal bater a cara,
Se fica a lição!
10
Acerca da vida
Foi o tempo que ensinou
Tudo quanto sei.
11
No jogo da vida
A inteligência só vence
Se mantém a calma.
12
Levanta com o sol
Estica as pernas, caminha,
Para ser longevo.
13
Os deuses do sonho
Fazem parelha comigo
No vôo infinito.
14
É sábia a manhã.
Caminha o dia inteirinho,
Descansa à tardinha.
15
Já sei. Demorou.
Mas aprendi direitinho!
A insônia é um grilo.
16
Que coisa fatal!
O mundo sempre desaba
nas costas do pobre?…
17
Meu grande inimigo
Tem sido o excesso de papo.
Amigo? O silêncio.
18
Se o bem que te faço
Me pagas em inversão,
O mal não é meu.
19
Quem põe cobra em casa,
Pode esperar que algum dia
Recebe a picada.
20
A luz do arrebol
Batendo sobre a semente,
Muda o sol em planta.
21
Vidrada no brilho
E na ovação das platéias,
Esqueces de ti…
22
Exercito a mente
pensando e compondo haicais,
sem pressa nenhuma.
23
A morte do sonho
é o pior dos tormentos
do homem, suponho.
24
Tenha firme o leme,
e deixe, que o barco vá,
aos ventos do sonho…
25
Cuidado, que a intriga,
da mulher não te conduza
da amizade à briga!
26
Quem lamenta a dor
De não ser o bem amado,
Mata o próprio amor.
27
Se o ódio atrai ódio,
E a maldição maldição,
O perdão perdoa…
28
Quem pensa que a vida
É o simples hoje e o agora,
Não ganha a partida.
29
O fulgor dos olhos
Sendo azul verde, céu mar,
Tem brilho de estrelas!
30
Eu queria ver
A Providência Divina
Dando espaço a todos.
31
Que o diabo invente
Coisa pior que política,
Eu estou por ver.
32
Foi superciente
quem inventou a ilusão
que segura a gente.
33
Morrerás de mágoa,
Se o que queres é a igualdade,
Antes de alcançá-la.
34
O pão que te sobra,
com certeza está faltando
à mesa de alguém.
35
Repare a formiga,
Depois o boi e o elefante.
Que é o homem, me diga?
36
Por que isso agora?
Levantar de madrugada,
Escrever haicai?
37
Dois dedos de prosa,
um de mel, três de cachaça,
espírito forte.
38
A poça de sangue
é uma faixa colorindo
o negro do asfalto.
39
Quem quer que ofereça,
exatamente por isso
um dia recebe.
40
Um guarda, o apito,
atrito de ferros, gritos
a morte anda solta.
41
Solta a brida, as rédeas,
deixa o ginete ir à frente.
A vitória ou a morte.
42
Só um grão de areia
bastará a quem pretenda
construir seu mundo.
43
A erva daninha
na roça do preguiçoso
acabou com tudo.
44
Se tens a verdade,
falarás só, ninguém mais.
Outro, para quê?
45
O tempo que passa
encarquilhando meu rosto,
é igualzinho a traça.
46
Assim como o sol
pertence a todos os homens,
a terra também.
47
O que dói no outro,
se fosse em você doeria
muito mais que nele.
48
Toda sina é boa
se lhe ajuda o portador
a vencer o mau.
49
Não maldigo a sorte,
mas trabalho, sonho, espero
sem pensar na morte.
50
Quem muito conversa,
acaba não tendo tempo
de pensar em si.

Fonte:
http://www.joaojustiniano.net

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Afrânio Peixoto ( Haicais)

Arte de Resumir

O ipê florido,
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.

Crítica à Criação

O boi come a grama
E nós o boi. Deus não teve
Imaginação.

Disparidade

Derrete-se o gelo.
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo…

Herança

Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.

Perfume Silvestre

As coisas humildes
Têm seu encanto discreto:
O capim melado…

[Pétala caída]

Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!

[Na alcova desfeita]

Na alcova desfeita,
Onde não há mais ninguém,
Uma flor caída…

[Na poça de Lama]

Na poça de lama
como no divino céu,
Também passa a lua

Fonte:
PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931

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Carlos Seabra (Haicais)

Haicais da natureza

o vento afaga
o cabelo das velas
que apaga

folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira

sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda

chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora

Haicais dos prazeres

que delícia –
um decote aberto
com malícia

nuvem parada
beijada pela brisa
fica molhada

beijo roubado
é o butim do ladrão
apaixonado

brasa do tempo
acende quando passas
no pensamento

ao te adorar
não sei mais se tens
corpo ou altar…

Haicais dos olhares

grama nos trilhos
composições mudas
sem estribilhos

patins no gelo –
riscos que se cruzam
como novelo

velho jornal
levado pelo vento
prevê temporal

no despenhadeiro
a sombra da pedra
cai primeiro

o vento afaga
o cabelo das velas
que apaga

Haicais das pessoas

cuco dá horas
mas não conta
por que demoras

casa quieta –
cochila o avô e
dorme a neta

mulher aflita
telefone toca
cafeteira apita

pardal no fio
ouve o telefone
mas não dá um pio

criado mudo
fica quieto
mas vê tudo

Haicais do mundo

brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

pinta no nariz –
era uma pulga que
fugiu por um triz

dia de eleição
primeiro o seu voto
depois a traição

ágil pivete
brinca como se fosse
zero zero sete

crianças mortas –
mundo que escreve mal
por linhas tortas
———

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Renata Paccola (Livro de Trovas e Haicais)

Clique sobre a imagem para ampliar

Teve um chilique tão forte
que logo tomou vacina,
e se mandou para o Norte
temendo a gripe sulina…

Deu chilique no garoto
ao saborear seu prato,
e o tempero “Ajinomoto”
bem depressa “agiu no mato”

Solteira por convicção
só quero um “galho” inconstante:
quem gosta de amarração
é corda, fita e barbante!

Para o furacão filmar,
a TV saiu-se bem:
a matéria foi ao ar
e o repórter foi também!

Ao chegar em Portugal depois
da grande conquista, vendo a
sogra em seu quintal, diz
Cabral: – Encrenca à vista!

Não há bicho que não deixe
suas marcas na Julinha:
no pé, tem olho de peixe;
no olho, tem pé de galinha!

Esqueço o redemoinho
de frases soltas ao vento
quando, em silêncio, sozinho,
falo com meu pensamento…

No meio da escuridão,
um facho de luz me invade,
quando um velho lampião
acende minha saudade…

Quanta beleza irradia
um sorriso verdadeiro,
onde, com luz e magia,
os olhos riem primeiro!

HAICAIS

O clarão da lua
por uma fresta ilumina
a casa sem luz.

Bucha pendurada
no espelho retrovisor —
carro de fazenda

Entre os pratos frios
do restaurante por quilo,
couve-flor reluz.

Cozinheiro espalha
pedaços de couve-flor
sobre o yakissoba
—–

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Débora Novaes de Castro (Haicais ao Sol)

BENEDITA AZEVEDO
(Benedita Silva Azevedo, Itapecuru-Mirim, Maranhão, reside em Magé, RJ)

Manhã de janeiro —
Por cima do muro a flor
do hibisco vermelho.
*
Retalhos de sol
na trilha da caminhada —
Canta o bem-te-vi
*
Na grama do sítio,
o pisca-pisca festivo —
Voam vaga-lume.

CYRO ARMANDO CATTA PRETA
(São Paulo, 1922)

Chuva dourada.
O ipê em floração,
atapeta a calçada…
*
Ondulada cascata
reveste ribanceira.
Cabeleira de prata.
*
O canavial arde.
Fumaça turva o horizonte
incendiando a tarde…
*
Corpo presente.
Ao longo da longevidade,l
mente ausente!

DÉBORA NOVAES DE CASTRO
(Bento de Abreu, Araçatuba, 1935)

noitinha no sítio
pernilongo azucrinando
luz de lamparina
*
de madrugadinha
chuva fina no telhado
chaleira chiando
*
genuflexa a tarde
e triste a juriti insiste
o horizonte arte
*
baú de lembranças
os laços ternos abraços
menina de tranças
*
do nosso galinho
penas apenas
casa do vizinho

JOSÉ NOGUEIRA DA COSTA
(Piranguçu, MG, 1929)

Da estante no abrigo
os poetas de almas inquietas
conversam comigo.
*
A folha caída,
levada pela enxurrada
traduz minha vida.
*
Domingo na praça.
Bonita jovem faz fita
repleta de graça.

TERUKO ODA
(Pereira Barreto, SP, reside em Cotia, SP)

Quietude profunda—
De quando em quando uma brisa
queda de pétalas.
*
Sopra o vento seco —
Responde ao mugir de um boi
um mugir distante.
*
Braços preguiçosos —
Araucária ao pé da serra
em banho de sol.

ARTHUR FRANCISCO BAPTISTA
(Bauru, SP) (em memória)

Poeira da estrada.
O andante leva distante
sua alma cansada.
*
Manhã sonolenta.
O enredo da vida, cedo
o dia reinventa.
*
Sob um sol de estio
desperto… a amada por perto
aquece o meu frio.

BERECIL GARAY
(Passo Fundo, RS) (em memória). Livreiro, residiu em Brasília.

Usa teu minuto.
Plantada, a árvore faz
maturar o fruto.
*
A mão incontida
ligou a chave do amor
e acendeu a vida.

Fonte:
CASTRO, Débora Novaes de (coordenação). Haicais ao Sol. II Antologia Haicais. São Paulo: Vip Editora, 2008

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Christiana Nóvoa (Haicais)

ÁGUA NA BOCA
garoa pinga
gotas da sua sede
na minha língua

CALENDÁRIO
mês morto, mês posto:
a césar o que é de julho,
agosto pra tudo.

CLARABÓIA
a lua clara
bóia como abertura
no teto do mundo

COMO MANDA O FIGURINO
traje de chuva:
roupa de cama me cai
como uma luva.

MOSKTUB
estava escrito:
se tudo está tudo perfeito,
vai ter mosquito.

PLASTICISMO
gotas na folha…
cada instante uma estoura:
plástico bolha.
==============

Christiana Nóvoa é arteterapeuta e poeta.
Formada em Psicologia pela PUC-Rio (2000) e em Artes Cênicas pela Faculdade da Cidade – RJ (1989).
Escritora premiada com a Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão da Fundação Biblioteca Nacional (2007).
Trabalha como redatora e webwriter.
Publica seus poemas no blog Nóvoa em Folha.

Fonte:
http://www.novoaemfolha.com/

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Carlos Seabra (Haicais e Que Tais)

GOTAS
pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

FAROL
os raios de sol
iluminam de manhã
o velho farol

CONTO
era uma vez
um sapo que beijado
poeta se fez

PULGA
pinta no nariz –
era uma pulga que
fugiu por um triz

FLORESTA
que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?

ALTAR
ao te adorar
não sei mais se tens
corpo ou altar…

FONTE
velha na fonte –
os cântaros se enchem
o sol se esconde

MADRUGADA
ave calada –
ninho em silêncio
na madrugada

ONDAS
as ondas beijam
os lábios da praia –
bocas do mar

BRIGA
briga de gatos
na sala de jantar –
vaso em cacos

MORTO
caído, um corpo
acabado, um sonho
imóvel, um morto

ALICATE
com alicate
abre o maluco
um abacate

CEREJA
sabor cereja –
minha boca
a tua deseja

BRASA
brasa do tempo
acende quando passas
no pensamento

FERA
fera ferida
nunca desiste –
luta pela vida

DESPEDIDA
fruta mordida –
saudade de teu beijo
na despedida

AVENTURA
pardal sozinho –
primeira aventura
fora do ninho

PALHAÇO
palhaço triste
é como pássaro preso
sem alpiste

TRIGO
trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado

PALAVRAS
letras no papel
trazem tuas palavras
com sabor de mel

PATINS
patins no gelo –
riscos que se cruzam
como novelo

KIGÔ
haicai sem kigô
é de quem bebe saquê
e pisa na fulô

PIRILAMPO
brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

NUVEM
nuvem parada
beijada pela brisa
fica molhada

SACI
Saci Pererê
fuma seu cachimbo
à sombra do ipê

FANTASMA
casa fantasma
cheia de habitantes
feitos de plasma

TENOR
pássaro tenor
afina a garganta
ao sol se pôr

VARANDA
sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda
————–

Fonte:
SEABRA, Carlos. Haicais e Que Tais. Massao Ohno, 2005. http://haicaisequetais.blogspot.com/

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Anibal Beça (Haicais Encadeados: O Câo)

Ao chegar da rua
os olhos do cão me dizem –
entre com ternura.

Nos olhos do cão
eu recomponho essa calma
que só ele conhece.

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