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Clevane Pessoa (Outros Versos)

HAICAIS
( em Haicais, Clevane utiliza o pseudônimo Hana Haruko)

Os risos das crianças:
No cristal, bolas de gude
— luzes trepidantes ­

Pássaros canoros
Energia em expansão
Almas projetadas…

Gestação do arco-íris
Leveza atestando o efêmero
— Bolha de sabão.

Reflexo de prata:
Luar despeja-se no mar
— Espelho do céu

Leve borboleta
Vitória sobre a crisálida:
Pétalas aladas…

Sons de flauta doce:
Murmúrios edulcorantes
– Vento no bambual…

Órgãos musicais
De sonata progressiva:
Cigarra insistente

Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
– Destinação cruel

Força dos opostos
Espirais de eternidade
Yin e yang: você e eu

Pescoços de cisne
Transformam em corações
O espaço vazio…

Mini-borboletas
Orquídeas papilonáceas
– Só não podem voar

Violinista freme
Libélula com o arco
Vibrações no espaço…

Pássaros nos fios
Como notas musicais:
Celestiais canções…

A chuva pingando
Devassa o botão da flor
De / flora antes da hora…

Pele contra pele
Proximidade de cheiros:
Mistura de humores

POESIAS

De Anjos e de Pássaros

Ergo olhar deslumbramento
vejo anjos sobre cabeças humanas
dentro da catedral;
Anjos de ferro negro,
esculturas na arquitetura
de formas quase profanas
a romper tradição.

Não desabe ó figura
milenar, tu que estás
bem sobre mim ,
que não rezo orações prontas
e somente sei usar
o verbo molhado em pranto
ou a metáfora cheia de luar.

(…)
Que desabem
sobre as cabeças dos poetas
os passarinhos em alarido
dentro de um mercado,
a parecer kamikaze,
suicida em massa,
ao jogar-se do teto ao chão
apenas para bicar migalhas.

São nosso retrato:
livres, sem sermos canalhas,
videntes com olhos cheios de palhas
a pre/dizer os tempos,
cada fato envolvido
no pacote dos tesouros,
crianças e sábios a um mesmo tempo,
a chamar atenção pelos voos inusitados.

(…)

Prefiro os pássaros vagabundos
das ruas e das igrejas,
mercados e sinais.
Não são artes singulares e belas
nem enfeites de catedrais:
os anjos passarinhos
de Brasília
estão presos a cabos
e suspensos
sobre nossas cabeças
a lembrar talvez pecados ,
talento, criatividade embora.
Já os pássaros – anjos
desde o Egito antigo
têm a missão de carregar almas
entre a vida terrena
e a morada dos deuses.

ALEGORIA DAS PALAVRAS SOLTAS

Que as mãos dos poetas
libertem as palavras de conceitos e preconceitos antigos.
Que a voz dos poetas entoe cantos inusitados
e muitas vezes inaudíveis aos demais.
Mas que sejam sempre palavras oloROSAS,
a perfumar os poros dos amados e dos amigos.
O que vier a mais, será benesse e lucro, e dividendo
mais importante que a glória
e a libertação do proprio menestrel.
Que os versos sejam livres, com palavras soltas,
a resignificar todas as im/possíveis metáforas!

PALMEIRA SOLITÁRIA
para Luiz Lyrio, in memoriam

Do alto, para onde cresce
em busca do azul absoluto,
a palmeira (quase) antiga,
bela e conformada,
vê passar o tempo.
Suporta intempéries e poeira
rebrilha rocio ao sol,
na terra das gemas.
Um dia, voltará ao pó
e renascerá no ciclo da vida.

A ESSÊNCIA DOS POETAS

De metáforas alimenta-se o poeta
mas também dos olores mais fragrantes.
faz das eternidades,
meros instantes,
quando voa nas asas das alegorias…

Mas de denúncia também vivem os seus versos
pois sensível qual bolha de murano
destinada á beleza singular,
aquecido pelo fogo da justiça,
consome-se em seu próprio Gilbratar,
divino e humano,
mero e avatar.

O poeta tem nas mãos,
os segredos da sacra escrita,
consagrada aos deuses da Beleza,
mas também ergue o dedo acusatório:
brilha de indignação seu anular,
pois é humanista, artista, esteta
e sabe colocar-se no lugar
de seu semelhante…

O poeta escreve sobre seus sentires
e sobre os sentimentos alheios.
Sussurra ou brada, conforme a acontecência,
mas é sempre emissário da quintessência
que muitas vezes
nessa Terra não encontra lugar…

IMPRESSÃO

A terra é mais que amante-amada:
sem ela o tudo cotidiano
vira um quase nada…
Com ela, um mínimo amplia-se
parecendo a maior riqueza do universo
na transmutação dos ciclos…

DE UM SONHO

Do sonho entressonhado
entreaberta flor
de mil pétalas
holopetalar
traduz-me as sutilezas
e multiplicações
da Palavra…
Cheiro os cheiros,
coloro as cores,
abro o entreaberto
e chego ao self
das revelação.
Ao poeta é permitido sonhar
e sonhando desvendar
o segredo

CANÇÃO PARA ELIANE POTIGUARA

Sinringe canora,
avis rara,
Eliane Potiguara.

Maracá e pena,
“mejopotara”
cocar e urucum
caneta e papel
diploma e renome:
Eliane Potiguara.

Aluá,beiju,
mani-oca
ocara,
dança e canta
voz baixa e clara,
Eliane Portiguara.

Peixe boi e boto.
uirapuru e boitatá,
igarapé, igara,
o avô rio
peixes oferece,
no livro a letra
aparece, imagina/ação
floresce,
Eliane Potiguara.

Pacifista e guerreira,
um pé no atavismo,
outro no modernismo,
mas sempre fiel às raízes.
Defenda úteros
sagrados à terra
e ás lições de continuidade.
Quer a mata, mora na cidade,
no asfalto não de ara,
mas sua sabedoria dispara
lendas e crenças,
cerimoniais,
fitoterapia ancestral,
sempre atual.
Eliane Potiguara.

Mulher
que sabe o quer
e busca, sobe montanhas
ou busca clareiras
para ela nada ocorre à toa
tudo é vestido
de muito sentido.
Atenta, ouve, fala,
cheira, sente
vê.

Na natureza,
a verdade é muito simples,
nada no mundo para,
tudo é beleza e partilha.
Eliane Poti, Potiguara,
da floresta filha,
da cidade adotada,
adapta-se, jamais é uma ilha
defende as outras mulheres…

Eli, Eliane, Eliane Potiguara,
potiguar, potiguara, poti:
chama a deusa o sol e chama a deusa lua
essa Nação é mesmo tua,
por direito ancestral.
Descendente dos úteros sadios
das mães da Terra brasilis,
você é
andiroba, seringueira,
guaraná e açaí.
roçado e igara,
peneira,
tipi-tipi,paná -paná, ati-ati,
voa, ave,
voa borboleta,
o caldo da mandioca
coa, você é tudo isso e muito mais,
Eliane Potiguara,
mesmo se vestir vestidos citadinos
e aparecer em salões nas festas…
Mas os olhos de castanhas,
os cabelos lisos e escuros,
a cor da pele bonita,
sempre apontam que você
é onça nativa, arara.
Eliane Potiguara,

Pega o microfone, tecla e fala,
defende a mulher ,a criança, a idosa,
pede proteção á iara.
você é forte e poderosa,
Eliane Potiguara,
“Metade Máscara,
Metade Cara”…

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Clevane Pessoa (em pequenos frascos)

Fonte:
http://www.mgpoetasdelmundoempoesia.blogspot.com

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Eliana Ruiz Jimenez (Outros Versos)

HAICAIS E TERCETOS

Escritos na PRIMAVERA

Bem-te-vis em pares
preparam ninhos nos postes.
Em alta tensão.

Ah… o impressionismo…
Diante de mim, Monet
emoção etérea.

Rolinhas se enroscam
nas palmeiras do quintal.
Ovinhos à vista.

Trabalho, trabalho.
Formigas em carreirinha
levam folhas verdes.

Vida em tons pastéis
até encontrar seu olhar.
Paleta de cores.

Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.

Gorjeia em triversos
o trinca-ferro do sul.
Poeta do bosque.

Incessante chuva.
Em dia de escuridão
as luzes acesas.

Dissolve as estrelas
uma luz no firmamento.
O sol da manhã.

Estrelas do mar,
a maré nunca mais trouxe…
Detritos na areia.

Tantos professores
abriram nossos caminhos.
E quem abre os deles?

A sapa sapeca
sapeou pela lagoa.
E engirinou!

Teatro giratório.
Há lugar para sentar
em palco de sonhos?

Escritos no VERÃO

Deixar-se levar
é viajar sem e-tickets.
Pensamentos bons…

O verão, em férias,
acinzenta o céu e o mar.
Guarda-sóis guardados.

Moradas no morro.
Chove muito, chove mais,
morro abaixo, morte.

Boiando no rio
um sofá é entregue ao mar.
E quem vai sentar?

Escritos no OUTONO

Poeta na praia,
voyeur em noite encantada.
Excessos da lua.

Luona no mar
tinge de prata o horizonte.
Presente de maio.

Nuvens versus sol,
luta no ringue do céu.
E quem vencerá?

Lua em perigeu
gera preciosas saudades.
Reflexos no mar.

Voltaram as nuvens,
a luz cansou de brilhar.
Feriado solar.

Perigeu no mar
tinto de prata o horizonte
presente de maio.

Outono abre alas
para o sol quase verão.
Graça da estação.

A luz acanhada
dilui-se em serena alvura.
Procissão de nuvens.

Ameno domingo.
Bocejam as criaturas
na lenta manhã.

Doces caramelos.
Tantos sabores da infância
em tardes sem culpa.

Orgulhoso o sol
ostenta a pinta no rosto.
Passeio de Vênus.

Escritos no INVERNO

O frio de junho.
Casacos livres do armário
desfilam na rua.

Na tarde sisuda,
o vento arrepia as folhas
Chocolate quente.

Os balões no céu
já não são mais inocentes.
Florestas em chamas.

Dia em tons de cinza.
Num ninho de cobertores,
o calor das cores.

Marasmo diário.
Na rede do pescador,
garrafas e latas.

Fios por toda parte
levam notícias e sonhos.
As pessoas ficam.

Na história, o grito
lá nas margens do Ipiranga…
Hoje só detrito.

No carro de som
a propaganda política.
Vai ganhar no grito?
————-

POEMAS

ENCANTAMENTO

Encantamento.
Sobrevoo o mundo real
sem querer pousar.
A brisa leve me leva
sobre um mar de lembranças
da paisagem de sonho.
Dunas intocadas,
águas transparentes.
Verão.
A torre me dá instruções,
aterrissar é necessário.
Vou descendo
devagar, divagando.
Amenizo a reentrada
com um pensamento:
Vou voltar
sempre que puder
sempre que Deus quiser…

PERMITA-SE
O que é o presente
Senão o vão momento
Que o passado já engoliu?

O que é o futuro
Indelével destino
Que não se pode controlar?

Permita-se
Sentir a brisa,
Olhar o horizonte
Esperar a primeira estrela.

Permita-se
Beijar hoje
Não trabalhar
Esquecer as obrigações.

Permita-se
Sorver um bom vinho
Uma boa companhia,
Jogar conversa fora.

Permita-se
Acreditar no amor,
na sorte, no destino
e na bondade das pessoas.

Permita-se.

ESCRITÓRIO
Escritório
Sina de todo dia
Multidão comprimida
Na total monotonia.

A porta fecha
Deixando a vida lá fora
O relógio é moroso
E a saída demora.

Presos na caverna de luxo
Onde o sol não entra
Onde a chuva não molha
E até o ar é condicionado.

Escritório
Robôs de crachás
Sem pensamentos, sem vontade
Sem individualidade.

As melhores horas
De muitos dias
Em troca da breve alegria
Do dia dez.

O MURO

O muro gelado
Separa a cidade
De um lado a mentira
E de outro a verdade.

O muro mesquinho
Divide o amor
De um lado ele é puro
No outro é dor.

O muro pichado
Esconde a alegria
De um lado é noite
De outro é dia.

O muro maldito
Separa os humanos
De um lado carentes
De outro insanos.

O muro é eterno
E faz parte de nós
Deixando os homens
Isolados, a sós.

VEM E VAI

É a onda que vem
Vem e vai.

Como a cheia do rio
Que sobe e se esvai.

É a lua que surge
E depois se retrai.

Como o homem que nasce
Morre e “bye”.

É o ciclo da vida
Vem e vai.

Como o sol que nasceu
Sobe e decai.

É o amor que chegou
Entra e sai.

Mas a dor que deixou
Dói demais.

AGORA

Agora posso respirar
E sorrir
E jantar.

Agora posso ir
Pra um lugar
Divagar.

Agora posso ver
O meu eu
Renascer.

Agora posso parar
De sonhar
E lutar.

Agora estou livre
Para ser
E vencer.

Agora estou bem
Para o ano
Que vem.

MENINO POBRE

Menino pobre
Da noite quente
Abandonado
Menor carente.

Menino pobre
Da noite nua
Necessitado
No olho da rua.

Menino pobre
Do pé descalço
Chutando lata
Pela calçada.

Menino pobre
Menino sujo
Vagando triste
Um moribundo.

Menino inquieto
Girando o mundo
Sem casa e roupa
Sem mãe nem pai.

Menino triste
Pra onde vai
O que vai ser
Quando crescer?

MAR

Ventos
Valsando
Voltam
Vagando
Trazendo
O barulho
Do mar.

Brisas
Soprando
Ondas
Tragando
Fazendo
A beleza
Sem par.

Canários
Cantando
Aves
Voando
Planando
A leveza
Do ar.

Praias repletas
Luzes, atletas
Completam
Essa vida
No mar.

FOSSA

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

TALVEZ

Talvez seja esse
O amor que procurei por toda a vida
Que pedi às estrelas
Que pedi aos santos
Que procurei nos cantos.

Talvez seja esse
O amor que sonhei da despedida
Quando descobri o engano de um amor trocado
E senti o sofrimento sem pecado.

Talvez seja esse
O amor que me fará forte
E de tão forte me fará fraca
Por ter meu coração entregue à sorte.

Talvez seja esse
O amor que me fará feliz
E será firma e será tão sólido
Que poderemos formas nós dois
Um só tronco, uma só raiz.

Talvez seja esse, finalmente
O meu caminho, o meu destino
A chave que libertará do meu peito
Todo o amor que eu tenho para dar
A recompensa por querer tão somente
Partilhar de um sentimento sincero
A realização do simples, porém complexo
Desejo de amar.

Talvez seja esse, talvez…

Fonte:
poesiasurbanasetrovas.blogspot.com

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A. A. de Assis (Poeminhas à moda de haicais) Parte 2, final

51.
Tão miudinha a avenca.
Ao lado um coqueiro enorme
súbito despenca.

52.
Fácil se define:
lá distante uma araponga
tine… tine… tine…

53.
Petit à petit,
pombinhos tecem seus ninhos.
Em Paris e aqui.

54.
Vós que, sobrevivos,
a mais que os demais amais,
uni-vos, uni-vos.

55.
Repicam os sinos.
Os mesmos de nós meninos,
na velha matriz.

56.
Colibri esvoaça.
Tem rosa nova, solteira,
no jardim da praça.

57.
Voa, voa, voa,
faz a cera, faz o mel,
abelhinha boa.

58.
Um cisco no chão.
Ah, não era cisco não.
Era uma esperança.

59.
Menino de rua.
Protege-o, Dindinha Lua,
dá-lhe colo, dá!

60.
Pião da saudade.
De uma era em que era franca
a felicidade.

61.
Um vaso de avenca.
Minimíssima floresta.
Mas é verde, é festa.

62
Chocados os ovos,
há o choque dos seres novos.
E a vida prossegue.

63.
Levantar cedinho.
Mens sana in corpore sano.
Ouvir passarinho.

64.
Curvam-se as roseiras.
Jogam as rosas, felizes,
beijos às raízes.

65.
Rola a Lua, rola.
Os mísseis zumbindo ao lado
e ela nem dá bola.

66.
De amor são seus uis.
As lágrimas que ela chora
devem ser azuis.

67.
Lua na montanha.
Me faz um favor, me faz:
sobe lá e apanha.

68.
Crianças na praça
cantando canções de roda.
Volta a paz à moda.

69.
Leio no jardim.
Idéias há e azaléias
em redor de mim.

70.
É um impasse e tanto:
trabalho, o canto atrapalho.
Nesse caso, canto.

71.
Olá, senhor Sol.
Bem-vindo ao nosso domingo.
Praia e futebol.

72.
Ah, havia o espaço.
Ave havia e havia ação.
Ave… avi…ão.

73.
Contam casos… súbito,
Negrinho do Pastoreio
passa bem no meio.

74.
Onda e sol… Floripa.
Tem lugar para mais a um.
Pega a prancha e… tchum!

75.
Trenzinho da serra…
Pa… Pa-ra-ná… Pa-ra-ná…
pra Paranaguá.

76.
De perder a voz.
Água, água, água, água.
Cataratas – Foz.

77.
Presépio do Sul.
Curitiba dos pinheiros
e da gralha azul.

78.
É chegar e amar.
Ri o Rio o ano inteiro.
Samba, sol e mar.

79.
Dim-dim-dão… dim-dão…
Os sinos de San-del-Rey
sempre em oração.

80
Bahia das festas.
De todos os sábios – tantos.
De todos os santos.

81
Aguinha de coco.
Areia, arara, caju.
Ah… é Aracaju.

82
Jangada ao luar.
Lagosta ao vinho depois.
Fortaleza a dois.

83.
Blem… Belém… blem-blem…
No Círio de Nazaré,
os sinos da fé.

84.
O tempo e a distância.
A festa de São Fidélis.
Transfusão de infância.

85
Armas e barões
muito além da Taprobana
ecoam Camões.

86.
Tela brasileira.
Um sabiá na palmeira
de Gonçalves Dias.

87.
Rosa, Rosa, Rosa,
ó Rosa das rosas ledas!
Dos sertões: veredas.

88.
Releio Pessoa.
Finjo tão completamente,
que a tristeza voa.

89.
Leoni, o poeta
da Petrópolis azul.
Alma azul. Raul.

90.
Luar no sertão.
Ah que falta faz Catulo
com seu violão!

91.
Bem-te-vi, Cecília,
nos ramos da madrugada.
Cantando, encantada.

92.
Mais do que Bandeira,
sobretudo Manuel.
Ou mais: man well.

93.
To you, tuiuiú.
Parabéns para você.
Happy bird are you.

94.
New York, New York,
make love, not work.
Ah, I love you!

95.
Passa a teoria
por debaixo do arco-íris.
Vira poesia.

96.
Pilhas de currículos.
Vencedor: o sabiá.
Sabia cantar.

97.
O sorriso é um dom.
Sorrindo você faz lindo
o seu lado bom.

98.
Aplainai as trilhas,
forrai-as de relva e flor.
Vai chegar o Amor.

99.
Brinquemos, irmãos.
Vamos dar as nossas mãos.
Brinquemos de paz.

100.
De braços abertos,
sobe o pinheiro. Subindo,
deixa o céu
m
a
i
s
l
i
n
d
o

Fonte:
A. A. de Assis. Poeminhas (à moda de haicais). Marinha Grande/Portugal: Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Outubro de 2004

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A. A. de Assis (Poeminhas à moda de haicais) Parte 1

01.
O haicai o que é?
Três passinhos de balé.
Leve, leve, leve.

02.
Repousa a lagoa.
Atira-lhe um beijo a Lua.
O poeta voa.

03.
Já não posso vê-la.
Some a gaivota no céu.
Foi virar estrela.

04.
Aguinha da bica.
Pousa o melro, beberica.
Louva a vida – canta.

05.
Florzinha caipira.
Até o girassol, tão nobre,
ao vê-la suspira.

06.
Pombinha no fio.
Horas e horas, de graça,
vigiando a praça.

07.
Lançada a semente,
tem sequência a permanente
criação do mundo.

08.
Se tivesse apoio,
quem sabe algum dia o joio
fosse pão também.

09.
A pombinha desce
numa imagem de Jesus.
Pousa a paz na luz.

10.
Mão de jardineiro.
Num leve toque de amor,
faz do esterco a flor.

11.
Beija o beija-flor.
Beija inteirinho o jardim.
Por ele e por mim.

12.
Tão miudinha a fonte.
E desce, e quanto mais desce,
mais serve e mais cresce.

13.
Velhinhos na grama
jogando conversa fora.
Também jogam dama.

14.
A pomba e a rolinha.
Uma é grande, outra é pequena.
Mas de paz é a cena.

15.
Cheirosa manhã.
Já de longe se adivinha.
Safra da maçã.

16.
Palmeiras solenes.
Guardais nas velhas cidades
saudades perenes.

17.
Ilhazinha branca.
A paineira na floresta
em traje de festa.

18.
Me desperta a neta:
– Olha, vô… é a do poeta.
Borboleta azul.

19.
Toda prosa e airosa,
brinca de vitória-régia
numa poça a rosa.

20.
Um ato de fé.
Lavrador, olhando o céu,
abana o café.

21.
No meu sonho vives.
Na pracinha um cavaquinho
trina o Autumn leaves.

22.
Um pingo… dois pingos…
não parou mais de pingar.
E se fez o mar.

23.
Acorda a esperança.
Nos quintais da vizinhança
dá a notícia o galo.

24.
Pari passu venho.
Paro. Com ternura abraço
o meu par e passo.

25.
Sujaram meu rio.
Ele, que lavava as gentes,
não lavou as mentes.

26.
Um pulo, medalha.
Milhões de cabeças boas
tão longe das loas.

27.
Livros à mão-cheia.
Saúde, alegria e pão.
Que revolução!

28.
Apress

a-se o mar.
No capricho, porque a noite
será de luar.

29.
Gostosa estação.
Teu beijo, fondue de queijo,
pipoca, pinhão.

30.
Cerração na serra.
Súbito some no espaço
o planeta Terra.

31.
La nieve en la noche.
Vino tinto, un viejo tango.
Sueño em Bariloche.

32.
O orvalho, na relva,
Nem nota que o rio enorme
vai rasgando a selva.

33.
A roda-gigante
roda, roda, roda, roda.
Me refaz infante.

34.
A Lua passeia
boêmia no cio e cheia.
Namorando o mar.

35.
Sempre assim supus.
Pirilampo ou vaga-lume,
tanto faz: é luz.

36.
Relampeja e… trooom!,
ronca forte a trovoada.
Estoura a boiada.

37.
A sibipiruna
seus fartos cachos derrama.
Deixa o asfalto em chama.

38.
Um pingo de chuva
brincando em cima da uva.
Rola e rega o chão.

39.
O tempo se foi.
Distante passa cantante
um carro de boi.

40.
Vento sobre o trigo.
Louro oceano ondulando.
O pão madurando.

41.
Levanta o avestruz
o pescoço. Periscópio
procurando luz.

42.
A semente grá-
vida leva a vida impá-
vida para a frente.

43.
Delicadas, belas,
rosas brancas, amarelas…
Que poeta é Deus!

44.
Cai, haicai, balão.
Traz o céu, o azul, a luz:
põe na minha mão.

45.
Desce o rio a serra.
Leva as lágrimas da terra
pra fazer o mar.

46.
Chocadeira elétrica.
Fornadas de pintainhos
sem colo, tadinhos.

47.
Quero-quero-quero.
A bem-querida aparece.
O amor acontece.

48.
Lua nova e meia.
Tão crescente, logo casa,
vira lua cheia.

49.
O boi e o arado.
Joga veneno o avião
por sobre o passado.

50.
Rude perobeira.
Dá-lhe a orquídea um leve toque
de namoradeira.

Fonte:
A. A. de Assis. Poeminhas (à moda de haicais). Marinha Grande/Portugal: Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Outubro de 2004

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Arquivado em haicais, Paraná

José Marins e Sérgio Pichorim (Fieira de Haicais) 651 a 700

ímpares: josé marins (jm)
pares: sérgio pichorim (sp)

651
sábado tem feira –
da gleba do lavrador
fartura de milho
jm-23-3-13

652
final do trabalho.
na montanha de sabugo
o gato descansa.
sp-25-3-13

653
um paiol antigo –
junto com a sacaria
o canto do grilo
jm-26-3-13

654
tarde de outono.
os pensamentos vagueiam
em pagos distantes.
sp-26-3-13

655
chuvisco outonal
andam rápidos meus pés
que apenas vagavam
jm-26-3-13

656
os meus passos lentos
na manhã ensolarada.
manacá-da-serra.
sp-2-4-13

657
já na cor de vinho
a fila de árvores de ácer
na longa avenida
jm-9-4-13

658
só na memória
o vermelho liquidâmbar.
a rua mais larga.
sp-10-4-13

659
ronco de motores –
o nevoeiro da rua
tem luzes vermelhas
jm-12-4-13

660
antes que o sol.
as tirivas barulhentas
atrás dos pinhões.
sp-15-4-13

661
o baque no chão –
lá de cima do pinheiro
a pinha madura
jm-14-4-13

662
preciso comprar
outro batom de cacau.
vento de outono.
sp-17-4-13

663
noitinha outonal –
para o pássaro sem nome
tento assoviar
jm-18-4-13

664
os dias se encurtam…
de repente eu me vejo
um ano mais velho.
sp-23-4-13

665
vinte e dois de abril
alguém se lembra também –
um brinde ao Brasil
jm-22-4-13

666
meia, meia, meia!
que São Jorge nos proteja
em nossa fieira.
sp-23-4-13

667
a tarde se vai –
também já foge o dragão
da nuvem de outono
jm-27-4-13

668
parece dormir
a cidade encoberta.
manhã de neblina.
sp-29-4-13

669
as fotos perdidas
sem uma câmera à mão
entre o nevoeiro
jm-29-4-13

670
Dia do trabalho
e um jardim pra limpar.
Dia de trabalho.
sp-1-5-13

671
Primeiro de maio –
esqueceram de tocar
o sino da igreja
jm-1-5-13

672
no altar lateral
vasos com flores de maio.
tudo em silêncio.
sp-8-5-13

673
acima da bruma –
a cruz de dois mil anos
lá no alto da torre
jm-8-5-13

674
Manhã especial
As filhas fazem o café
E levam pra ela
sp-12-5-13

675
Dia da Abolição –
alguém comenta notícias
de escravidão
jm-13-5-13

676
cinzenta manhã.
a leitura do jornal
e o poncho de lã.
sp-17-5-13

677
chuvinha de outono –
o sorvo de mate quente
ao bancar o dia
jm-17-5-13

678
depois do amargo
um forte café tropeiro.
o dia se encurta.
sp-17-5-13

679
um frio de outono –
o aroma de pão caseiro
tostado na chapa
jm-18-5-13

680
preciso tirar
os meus óculos de leitura.
pôr do sol de outono.
sp-6-6-13

681
prenúncio de inverno
com azulíssimo céu
sem passarinhos
jm-6-6-13

682
balanço do mar.
a lua segue e flutua
no meu balançar.
sp-7-6-13

683
noite de friúme –
na palmeira vibram palmas
juntas ao pretume
jm-8-6-13

684
o fim do outono.
no último entardecer
lembranças da vó.
sp-20-6-13

685
manifestações
esquentam mais uma noite
o inverno começa
jm-21-6-13

686
seis dias nublados.
neste solstício de inverno
sairá o sol?
sp-21-6-13

687
noite de fogueiras –
entre nuvens cinzentas
a lua crescente
jm-21-6-13

688
super lua cheia.
a brancura prediz a
primeira geada.
sp-23-6-13

689
Dia de São João –
amarelinho o pedaço
de bolo da infância
jm-24-6-13

690
a chuva encharcou
a lenha para a fogueira.
santo óleo diesel!
sp-24-6-13

691
enfim uma tarde
aquecendo-se de luz
solzinho de inverno
jm-4-7-13

692
a primeira vez!
cerejeira-de-okinawa
e o céu azul.
sp-4-7-13

693
as folhas rasgadas
da bananeira de inverno
afinal se dobram
jm-4-7-13

694
abrem-se os frutos.
o vento espalhou no parque
as painas branquinhas.
sp-5-7-13

695
relógio da XV
flores de pata-de-vaca
a quem o consulta
jm-5-7-13

696
o meu Hanami:
rua deserta de gente
Sakura florida.
sp-6-7-13

697
contemplar as pedras
também nuas do jardim
ah, visão de inverno
jm-7-7-13

698
circundar a Pedra
em um dia de jejum.
chega o Ramadã.
sp-11-7-13

699
noite de invernia –
a meia lua do oriente
contemplo em paz
jm-11-7-13

700
floquinhos de neve
nem se quer chegam ao chão.
janela embaçada.
sp-23-7-13

Fonte:
MARINS, José; PICHORIM, Sérgio. Fieira de Haicais. Disponível em: http://fieiradehaicais.blogspot.com/, Acesso em 17 setembro 2013.

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José Marins e Sérgio Pichorim (Fieira de Haicais) 601 a 650

ímpares: josé marins (jm)
pares: sérgio pichorim (sp)
—–

601
cessa a ventania –
só não para a sabiá
fazendo seu ninho
jm-20-9-12

602
Esta confusão
de harmônicos gorjeios –
Já é primavera!
sp-24-9-12

603
grita o bem-te-vi
sobre o muro do quintal –
pássaros em fuga
jm-23-9-12

604
agito de asas
na manhã de primavera.
um gato observa.
sp-9/10/12

605
apuro os ouvidos –
o canto dos sabiás
no final do dia
jm-7-10-12

606
olhares atentos.
o dourado sol poente
na tarde nublada.
sp-16-10-12

607
sem nuvens o céu
os jacarandás-mimosos
floridos no azul
jm-18-10-12

608
quando percebi
toda a avenida tinha
se jacarandado
sp-18-10-12

609
esquina do centro
os jacarandás-mimosos
cintilam lilás
jm-18-10-12

610
pela passarela.
flores de jacarandá
ao toque das mãos.
sp-19-10-12

611
em rua do bairro –
lançadas por todo canto
as mãos de sementes
jm-20-10-12

612
vendaval da tarde.
primeiro e último voo
do pequeno pássaro.
sp-21-10-12

613
o choro miúdo
um filhote de pardal
no beiral deixado
jm-21-10-12

614
Parque da cidade.
A chuva de ontem é
assunto dos sapos.
sp-30-10-12

615
o rio do bairro
continua silencioso –
nenhum som de rãs
jm-3-11-12

616
manhã de domingo.
na estação do metrô
ouço a corruíra.
sp-18-11-12

617
final de estação –
o sabiá do quintal
ainda cantando
jm-20-11-12

618
final de semana.
os quero-queros passeiam
com os seus filhotes.
sp-26-11-12

619
um a um se vão
os gatinhos para o ninho
na boca da gata
jm-25-11-12

620
Que aconteceu?
Este ano eu não vi
os gatos de rua.
sp-28-11-12

621
ah, essa primavera
a corruíra não para
de atiçar o gato
jm-28-11-12

622
dois bem-te-vis e
o gavião quiri-quiri.
fuga apressada.
sp-29-11-12

623
pequeno quintal –
passa com o seu filhote
a sabiá, enfim
jm-28-11-12

624
chuva de verão.
no quintal, não vão dar frutos
os galhos caídos.
sp-2-12-12

625
mas que rebuliço –
entre os restos do aguaceiro
a corruíra morta
jm-2-12-12

626
manhã de vingança.
matar pernilongos da
noite anterior.
sp-5-12-12

627
cinco de dezembro –
um livrinho de Niemeyer
releio na noite
jm-5-12-12

628
noites de dezembro.
eu contemplo em silêncio
distantes relâmpagos.
sp-7-12-12

629
um novo toró –
com outras tantas goteiras
o olhar no futuro
jm-8-12-12

630
Xii… é tudo doze!
Indica o relógio da
Igreja matriz.
sp-12-12-12

631
treze de dezembro
seu Luiz, pai da Asa branca,
no seu centenário
jm-13-12-12

632
chuvas abundantes.
a trilha recém roçada
coberta de verde.
sp-13-2-13

633
tão velha a roseira
antes da rosa vermelha
esse botão verde
jm-22-2-13

634
os galhos arqueados
de frutas e de sanhaços.
velha cuvitinga.
sp-25-2-13

635
os ramos dobrados
da pequena vinca-rósea
chuva de verão
jm-26-2-13

636
no portão de casa
os atrevidos beijinhos
dão as boas vindas
sp-27-2-13

637
adeus ao verão
ficam as sementes pretas,
caem as maravilhas
jm-27-2-13

638
da copa da árvore
pendem brincos-de-princesa.
de que reino são?
sp-28-2-13

639
inteira florida
a quaresmeira vizinha
inteira de roxo
jm-1-3-13

640
o balé das sombras
nas cortinas da sala.
preguiça da tarde.
sp-2-3-13

641
chega o vento sul
as caliandras vermelhas
roçam a janela
jm-4-3-13

642
as águas de março.
hoje eu acabei molhado
da cabeça aos pés.
sp-5-3-13

643
a chuva outonal
chega tão silenciosa –
roupas no varal
jm-5-3-13

644
mudança de ares.
as folhas amareladas
já estão caindo.
sp-6-3-13

645
o outono vem aí –
as verdes folhas da ginkgo
mudando de tom
jm-6-3-13

646
araças maduros
caídos no meu caminho.
um final de tarde.
sp-6-3-13

647
calçada do bairro –
vão os bichos das goiabas
sob pés distraídos
jm-7-3-13

648
não pude deixar
de olhar aquela casa.
uma quaresmeira.
sp-8-3-13

649
tempo de quaresma
a velhinha reza o terço
pelo novo Papa
jm-8-3-13

650
tempo de esperança.
a roça do Chico Bento
pronta pra colheita.
sp-13-3-13

Fontes:
MARINS, José; PICHORIM, Sérgio. Fieira de Haicais. 

Disponível em: http://fieiradehaicais.blogspot.com/, Acesso em 17 setembro 2013.
Imagem = formatação com imagens obtidas na internet, por José Feldman

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