Arquivo da categoria: Imaginário Popular

Aventuras de Pedro Malasartes

De como Malasartes entrou no céu

Quando Malasartes morreu e chegou ao céu, disse a S. Pedro que queria entrar.

O santo porteiro respondeu:

– Estas louco! Pois ainda tens coragem de querer entrar no céu depois que tantas fizeste, lá pelo mundo?!

– Quero, S. Pedro pois o céu é dos arrependidos e tudo quanto acontece é por vontade de Deus.

– Mas o teu nome não está no livro dos justos e portanto, não entras.

– Mas então eu desejava falar com o Padre Eterno.

S. Pedro zangou-se só com aquela proposta. E disse:

– Não, para falares a Nosso Senhor, precisavas entrar no céu e quem entra no céu Dele não pode mais sair.

Malasartes se pôs a lamentar e pediu que o santo ao menos o deixasse espiar o céu só pela frestinha da porta para que tivesse uma idéia do que fosse o céu, e lamentasse o que havia perdido por causa das más artes.

S. Pedro já amolado, abriu uma fresta da porta e Pedro meteu por ela a cabeça. Mas de repente, gritou:

– Olha, S. Pedro Nosso Senhor que vem falar comigo. Eu não te dizia!!

S. Pedro voltou-se com todo o respeito para dentro do céu, a fim de render as suas homenagens ao Padre Eterno que supunha ali vir.

E Pedro Malasartes então pulou para dentro do céu.

O santo viu que tinha sido enganado. Quis pôr o Malasartes para fora, mas ele contrariou:

– Agora é tarde! S. Pedro lembre-se que me disse que do céu uma vez entrando, ninguém pode mais sair. É a eternidade!

E S. Pedro não teve outro remédio senão deixar o Malasartes lá ficar.
———————————————
Malasartes no céu – II

Cansado de vagar pelo mundo, Malasartes resolveu dar um passeio ao céu, onde chegou com três dias de viagem. Bateu no portão do paraíso e esperou. Pouco depois ouviu a voz de São Pedro:

– Quem é?

– Sou eu.

– Eu quem?

– Pedro Malasartes.

– Que vem você fazer aqui no céu?

– Vim dar um passeiozinho. Quero ver essas belezas aí de dentro.

– Não pode ser, moço. No céu não entra ninguém vivo.

– Tenha piedade, São Pedro, só quero dar uma espiadinha…

– Nada, não é possível!

– Ora, abra, São Pedro, abra por favor… é só um instante… Deixe-me ao menos botar a cabeça aí dentro…

E tanto pediu e rogou, que São Pedro, já abalado, ou caceteado, entreabriu-lhe a porta para que espiasse.

Malasartes deitou-se, mais que depressa, de barriga para baixo, com os pés voltados para a porta, e foi-se deslizando para dentro do céu.

São Pedro protestou, mas o Malasartes retrucou-lhe que o santo se havia comprometido a deixá-lo meter a cabeça no céu, e era o que estava fazendo.. O chaveiro celeste não teve remédio senão conformar-se, porque palavra de santo é como a de rei, não volta atrás; e o caso é que quando a cabeça de Malasartes penetrou no céu já estava o corpo dele inteirinho…

Malasartes no céu – III

Andando Malasartes por uma estrada, encontrou-se com um pobre, que lhe pediu esmola. Deu um vintém ao pobre, e este que não era outro senão Nosso Senhor fez-lhe presente de um gorro vermelho, declarando-lhe que só ele Malasartes e ninguém mais poderia pôr a mão naquele objeto.

Tempos depois, cansado de vaguear pelo mundo, entendeu Malasartes de dar um passeio ao céu. Para lá se encaminhou, e depois de três dias de viagem batia no portão de São Pedro.

O santo porteiro perguntou lá de dentro quem era, e ele respondeu; perguntou o que desejava, e respondeu. O santo negou-lhe a permissão pedida; mas o viajante tanto rogou, tanto chorou que ele sempre consentiu em entreabrir a porta para que espiasse um pouco. Mal vê a fresta, Malasartes atira o gorro pra dentro e começa a gritar:

– Quero o meu gorro, quero o meu gorro!

São Pedro prontifica-se a ir buscá-lo, mas o burlão protesta:

– Não pode ser, só eu posso pegar no meu gorro. Ninguém mais, só eu. São ordens de Nosso Senhor.

São Pedro tratou de certificar-se da verdade, e veio a saber que Malasartes não mentia. Não havia outro remédio: deixou-o entrar para apanhar o gorro.

Assim Malasartes conseguiu entrar no céu. Mas não se demorou lá muito tempo…

Malasartes no céu – IV

Um dia chegou para Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a esperteza; teve que marchar. Quando se viu no estradão da eternidade, pensou no que faria e resolveu, em primeiro lugar, ir bater à porta do céu.

Lá foi; mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na cara. Então deliberou ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava até os diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi correndo avisar o seu rei.

Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor e correrias por todos os cantos. O próprio Satanás tremeu; mas, recuperando o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se deixasse entrar o hóspede. E disse-lhe:

– Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do que já fez, ainda é capaz de vir aqui revolucionar a minha gente.

– Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui fico.

– Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino pela sorte do jogo. Aceita?

– Feito!

– Se você perder, irá diretinho para o caldeirão.

– Está dito. E se eu ganhar, você me paga com uma das almas que lá estão fervendo.

Começaram o jogo, e cada qual fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro Malasartes era mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras. Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas sobre almas, postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o insuportável para fora do inferno.

Malasartes andou vagando como alma penada, muito tempo, sem saber onde havia de se aboletar.. Até que um dia teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta do céu, tomou uns ares muito humildes, e bateu devagarinho. São Pedro abriu um postigo, enfiou a cabeça e perguntou:

– Quem bate a estas horas?

– Sou eu, meu santo…

– Eu, quem? Diga o que quer, e toca!

– Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça… Pois eu sou o Pedro Malasartes.

– Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe disse que o seu lugar não é aqui?

– Não se zangue, meu santo, meu grande santo… Sei muito bem que nunca entrarei neste lugar de glória…

– Então vamos ver, o que quer?

Malasartes, com muita brandura e muita lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a porta, um bocadinho, só para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto pediu e tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que depressa Malasartes atirou o chapéu pela fresta.

São Pedro bufou e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se magotes de anjos e de justos ali junto da porta.

Acontece que o chapéu era um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no céu lhe podia tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim, para encurtar, não houve jeito senão, permitir-lhe que entrasse. E o malandro, entrou, muito contente, com ar vitorioso.

Mas o atrevimento não ficou sem castigo. Levaram o tal para junto de um monte enorme de milho e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou a contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os grãozinhos para um lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um anjo e misturou tudo. E Malasartes teve de contar de novo… E até hoje lá está contando e recontando os grãos de milho, sem acabar nunca.

Fonte:
http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/pedromala.htm
Imagem = http://climashopping.jacotei.com.br

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular

Aventuras de Pedro Malasartes

De como Malasartes fingiu que se matava

Vendo que a vitima vinha em sua perseguição, deu tudo quanto tinha e, ao aproximar-se de um riacho, encontrou uma mulher a lavar roupa. Estava perdido, porque a lavadeira daria ao perseguidor a sua direção.

Mais que depressa tocou a carneirada a atravessar o riacho, e tomando um dos carneiros, tirou-lhe as tripas e meteu-as debaixo da camisa. Quando a manada passou, ele arrancou da faca, fingiu que abriu o ventre e deixou cair na água as tripas do carneiro, que ali levou ocultas.

A lavadeira deu um grito, caiu desmaiada ao presenciar tal cena e Malasartes desapareceu.

Quando o perseguidor chegou à toda, e perguntou à lavadeira se tinha visto passar um homem tocando uma carneirada, ela respondeu, quase sem poder falar, que Pedro Malasartes havia feito o que ficou dito.

E, porque Pedro já estava longe com o rebanho, o homem voltou soltando um milhão de pragas.

De como Malasartes passa adiante a carneirada

Já muito longe, encontrou um porqueiro que vinha tocando também. Pedro Malasartes que já previa que o fazendeiro havia de vir no seu rasto, propôs troca dos carneiros, (que valiam menos, pelos porcos, que valiam mais).

Fecharam o negócio, tendo o porqueiro feito uma volta em dinheiro.

Malasartes seguiu com a porcada e o outro com os carneiros, em direção oposta.

O porqueiro foi pousar em casa do dono dos carneiros. Ao ver o seu rebanho, o homem avançou para o porqueiro, e exigiu entrega do que era seu. O porqueiro quis resistir, mas vendo que o homem estava armado até os dentes e tinha muitos capangas, não teve outro remédio senão fazer a restituição, ficando no prejuízo, e tocou pra trás a ver se encontrava o Malasartes que já estava longe, tendo tomado por um atalho que foi dar numa fazenda. E, vai então, vendeu a porcada por um precinho barato, mas com a condição de o comprador deixar que ele cortasse a ponta do rabo de cada porco.

Fecharam o negócio e Pedro Malasartes meteu no embornal os rabinhos dos porcos e bateu o pé na estrada.

De como Malasartes rouba as jóias de uma família.

E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha uma filha, e ofereceu-se para empregado. E foi aceito. Como era tempo de chuva, o chiqueiro estava que era mesmo um lameiro. E Malasartes teve logo uma idéia. De noite tocou para longe a porcada do ricaço e, voltando, espetou no lameiro as caudas dos porcos. E, quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada, Malasartes lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados, apenas com os rabos de fora.

O dono da casa mandou-o logo que fosse em casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais. Pedro Malasartes foi numa corrida e, lá chegando, viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse:

– O patrão mandou que as senhoras me acompanhem. Elas duvidaram, mas Malasartes gritou, perguntando ao patrão que estava lá embaixo:

– As duas, patrão?

– Sim, as duas, e sem demora! As duas, pateta!

E, então, as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore, tirou-lhes todas as jóias que eram de grande preço, fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro.

E, quando o ricaço, cansado de esperar, foi a casa e não encontrou a mulher e a filha, bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malasartes as havia deixado.

Quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos, que ele é que era um pateta de marca.

A muitas léguas dali, o Malasartes negociou a porcada, recebeu o cobre, comprou um bom terno de roupa e foi parar em certa cidade, onde, logo na entrada, havia uma bonita chácara que era do dr. Juiz de Direito.

De como Malasartes faz mais uma que parecia duas

Eram já por umas dez da noite. O Malasartes bateu à porta e pediu pousada, dando o nome de doutor Fulano, que vinha visitar aquela terra. O Juiz costumava entrar tarde, pois ficava até à meia-noite fora de casa, jogando marimbo com um seu compadre. E vai então o filho do Juiz na sua simplicidade, mandou entrar o hóspede e, depois de um bom chá, deu-lhe pousada, no quarto da sala, onde o Juiz costumava se vestir. E quando o Juiz chegou, o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem.

E vai então lá pela madrugada o Malasartes começou a sentir umas coisas na barriga…Procurou o vaso e, não o encontrando, abriu a janela… mas lá fora havia uma cachorrada, que foi um barulho de latidos que nunca se viu.

O Malasartes estava suando frio: Mas nisto avistou na prateleira uma caixa. Abriu, havia dentro uma cartola de pelo. Estava salvo! Tirou a cartola, fez nela o que quis, pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava.

De manhã, quando ouviu tropel dos criados saiu e… este mundo é meu!…

Quando vieram chamar o Malasartes para o café, não o acharam mais.

À hora do almoço, o Juiz saiu do quarto e foi para o cômodo em que se costumava vestir.

Era dia de júri. Vestiu a sobrecasaca, e, distraído, tirou a cartola que enterrou, de um golpe, na cabeça.

Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu um cheiro que quase o afogou. Começou então a gritar. A família veio toda, pensando que tinha acontecido alguma desgraça.

Ao vê-lo naquele estado, correram todos a buscar socorro. O filho trouxe-lhe um banho, a filha água florida, a mulher sabonete de cheiro.

E depois houve risada que não foi brinquedo, enquanto o Juiz bufava de raiva. E os jurados já estavam cansados de esperar por ele…

Mas o Malasartes já estava longe. Até parecia que tinha parte com Beizebum.

Fonte:
http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/pedromala.htm
Imagem =
http://climashopping.jacotei.com.br

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular

Artur Ramos (Os Contos de Quibungo)

O Quibungo e o homem

Quibungo é um bicho meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um grande buraco no meio das costas, que se abre, quando ele abaixa a cabeça, e fecha, quando levanta. Come os meninos, abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro as crianças.

Foi um dia, um homem que tinha três filhos, saiu de casa para o trabalho, deixando os três filhos e a mulher. Então apareceu o Quibungo que, chegando na porta, perguntou, cantando:

De que é esta casa,
auê
como gérê, como gérê,
como érá?

A mulher respondeu:

A casa é de meu marido,
auê
como gérê, como gérê,
com érá.

Fez a mesma pergunta em relação aos filhos e ela respondeu que eram dela. Ele então disse:

Então, quero comê-los
auê
como gérê, como gérê,
como érá?

Ela respondeu:

Pode comê-los, embora,
auê
como gérê, como gérê,
como érá.

E ele comeu todos os três, jogando-os no buraco das costas.

Depois, perguntou de quem era a mulher, e a mulher respondeu que era de seu marido. O Quibungo resolveu-se comê-la também, mas quando ia jogá-la no buraco, entrou o marido armado de uma espingarda de que o Quibungo tem muito medo. Aterrado, Quibungo corre para o centro da casa para sair pela porta do fundo, mas não achando, porque as casas dos negros só tem uma porta, cantou:

Arrenego desta casa,
auê
Que tem uma porta só,
auê
Como gérê, como gérê,
como érá.

O homem entrou, atirou no Quibungo, matou-o e tirou os filhos pelo buraco das costas. Entrou por uma porta, saiu por um canivete, el-rei meu senhor, que me conte sete.

O Quibungo e a cachorra

Foi um dia uma cachorra cujos filhos, todas as vezes que ela paria, eram comidos pelo Quibungo.
Então, para poder livrar os novos filhos do Quibungo que queria comê-los, meteu-os num buraco e ficou sentada em cima, vestida com uma saia e um colar no pescoço. Chegando o Quibungo e vendo a cachorra assim vestida, a desconheceu e teve medo de aproximar-se. Então, passando o cágado, ele perguntou-lhe:

Otavi, ôtavi, longôzôê
ilá ponô êfan
i vê pondêrêmun
hôtô rômen i cós
ssenta ni ananá ogan
nê sô arôrô ale nuxá.

O Cágado resondeu: “Não sei, Quibungo”.

Passou a raposa. Quibungo fez a mesma pergunta cantando, e a raposa respondeu que não sabia. Passou, então, o coelho e o Quibungo fez-lhe a mesma pergunta; foi quando este disse:

– Ora, Quibungo, você não conhece a cachorra vestida de saia e colar no pescoço?

Aí, o Quibungo correu atrás da cachorra para matá-la, e esta atrás do coelho. Nesta carreira entraram pela cidade. Os homens mataram o Quibungo e a cachorra matou o coelho. Entrou por uma porta saiu pela outra, rei meu senhor, que me conte outra.
O Quibungo e o filho Janjão

Era uma vez um Quibungo que casou com uma negra, da qual teve uma porção de filhos. Mas ele comia todos os filhos. O último, que nasceu, a mulher escondeu num buraco, para que o Quibungo não o comesse. Tinha o nome de Janjão, e a mãe recomendou muito a ele que, quando o pai chegasse do mato e chamasse por ele, falando em voz muito grossa, ele não saisse do buraco. Que ela quando o chamava para lhe dar comidas, sempre falava com a sua voz fina de mulher, que ele conhecia. Ora, um dia, em que o Quibungo não achou bicho nenhum para comer no mato, nem menino para papar na cidade, onde também, às vezes, andava de noite, voltou muito fraco para casa, onde não havia outra carne senão a do filho, que estava escondido. Então, falando com voz fina, pela fraqueza, cantou:

Toma lá curiá, meu filho!
Toma lá curiá, meu filho!

Janjão, pensando que era a mãe, que voltava da cidade e lhe trazia a comida de que ele tanto gostava, saiu do buraco e o Quibungo o agarrou, para comê-lo.
O pobrezinho do Janjão, chorando, cantava:

Minha mãe sempre me dizia
Que o Quibungo me comeria
Minha mãe sempre me dizia
Que o Quibungo me comeria..

E o Quibungo comeu o último filho e a mulher morreu de desgosto. E por isso é que o Quibungo não tem mais mulher nem filhos.

A aranha caranguejeira e o Quibungo

A aranha caranguejeira tinha que atravessar um rio muito largo, a fim de alcançar uma árvore carregada de frutos doces e maduros. Para isso, a aranha procurou o auxílio de vários animais, o urubu, o jacaré, enganando-os depois. Por fim, encontrou o quibungo, “macacão todo peludo, que come crianças”, que pegava os peixes no rio, e atirava-os para trás das costas. A aranha chegou devagarinho e comeu os peixes um a um. Quando o quibungo procurou os peixes e não os encontrou, pegou uma discussão danada com a aranha.

Afinal saíram andando e a aranha conseguiu enganar o Quibungo, amarrando-o num toco de árvore com cipó grosso. O Quibungo ficou ali preso uma porção de tempo e quando conseguiu se soltar, jurou vingar-se da aranha. Escondeu-se próximo do bebedouro aonde todos os bichos iam beber água, à espera da aranha. Mas esta meteu-se num couro de veado, foi à fonte, bebeu água sem ser reconhecida pelo Quibungo .

O Quibungo e o menino do saco das penas

Um menino começou a juntar penas de vários animais, que ia guardando num saco. Um dia, a família toda foi pescar num lugar onde diziam haver quibungo. De fato, ao começarem a pescaria ouviram um ronco enorme dentro do mato. “É o quibungo!”- gritaram. Mas o menino não se importou. Distribuiu todos em fila, entregando a cada um uma pena da asa e outra do rabo de passarinho. Quando o quibungo chegou, que estendeu a mão para o primeiro da fila, o menino cantou:

– Esse é meu pai,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.

O quibungo deu um urro – exê! – encolheu a mão e procurou agarrar o segundo da fila. O menino cantou:

Essa é a minha mãe,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.

E assim por diante, sem que o quibungo pudesse alcançar ninguém. Quando chegou junto do menino, este prendeu as penas de modo que todos criaram asas e saíram voando até a casa. Lá fizeram um grande buraco e ficaram à espera do quibungo. Quando este chegou, caiu dentro do buraco e lá o mataram.

A menina e o quibungo

Uma menina gostava muito de sair de noite. A mãe ralhava com ela, chamando-lhe a atenção para o quibungo que pega os meninos de noite. A menina não se importou e uma noite, o quibungo agarrou-a e ia levando-a para comer. A menina começou a cantar:

Minha mãezinha
Quibungo tererê,
Do meu coração
Quibungo tererê
Acudi-me depressa,
Quibungo tererê,
Quibungo quer me comer

Ao que a mãe da menina respondeu:

Eu bem te dizia
Quibungo tererê
Que não andasse de noite
Quibungo tererê

A menina continuou gritando, mas ninguém quis acudi-la. Mas a avó preparou um tacho com água fervente e quando o quibungo ia passando, sacudiu-lhe a água em cima. O quibungo deu um pulo e a velha acabou matando-o com um espeto em brasa, e salvando a neta.

Fonte:
RAMOS, Artur. O folclore negro do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1935. Disponível em
http://www.jangadabrasil.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular

Imaginário Popular (História do Jesus mendigo)

Eram dois homens que viviam naquela cidade, um pobre e o outro rico, mas ambos muito religiosos e tementes a Deus.

Ora, Jesus querendo experimentar qual deles o amava verdadeiramente com maior veneração, anunciou-lhes que em certo dia iria jantar em companhia de cada um.

O homem rico mandou preparar mesas lautas, acepipes delicados e abundantes, frutas cheirosas e raras, e as festas começaram a ser participadas com uma solenidade de espantar.

O pobre, que apenas possuía uma galinha, mandou matá-la e assá-la no espeto. Preparou modestamente a sua mesa e esperou Cristo.

À tarde apresentou-se um mendigo à porta do homem rico, pedindo esmola, e o dono da casa despediu-o brutalmente, dizendo:

— Espero hoje o Nosso Senhor Jesus Cristo para jantar comigo, e não quero desmanchar minha mesa.

O mendigo voltou ainda pela segunda e pela terceira vez, com outros trajes e feições, e foi sempre despedido do mesmo modo grosseiro e mau.

Então apareceu ele à porta do homem pobre, bateu e pediu uma esmolinha pelo amor de Deus, que estava a morrer de fome. Ficou o pobre sem saber o que fazer, e a mulher lembrou-lhe por fim que poderiam tirar uma asa da galinha e dá-la ao mendigo, sem que Cristo reparasse naquela falta, pois a galinha seria colocada no prato de modo que o lado da asa cortada se achasse virado para baixo. Assim fizeram.

Eis porém que pouco depois surge outro mendigo pedindo outra esmola, pois morria de fome. Novas dúvidas e hesitações, novos cálculos e nova asa de galinha cortada para não deixar o pobre ir sem nada para comer.

Mas aparece o terceiro mendigo e a perplexidade dessa vez cresce de um modo terrível. Como haviam eles de fazer, se já não havia mais asas a cortar?

O marido e a mulher puseram-se a coçar desanimadamente a cabeça, enquanto o mendigo gemia, sentado do lado de fora da porta, mas nem um nem outro tinham coragem de enxotar o pobre sem nada lhe dar. Resolveram finalmente cortar uma coxa da galinha, e levaram-na com toda a delicadeza. Imediatamente o pobre levantou-se da soleira, transformado e belo; caíram no chão os andrajos que lhe cobriam o corpo e a mais fina túnica de lã, alva como o leite, envolveu-lhes as formas.

Era o próprio Cristo, que penetrou no humilde lar, chegou-se à mesa do homem pobre, ergueu a mão sobre a galinha. No mesmo instante reapareceram no seu lugar as duas asas e a coxa cortadas, e delas voou uma bonita pomba branca, que foi pairar sobre a cabeça dos donos da casa, atônitos e reverentes.

Então Jesus lhes disse:

— Cumpristes a minha lei, que ordena a caridade para com os pobres, e por isso sereis felizes, na terra e no céu, como o quer a minha vontade.

Assim sucedeu. Eles foram venturosos em vida e Deus os levou depois da morte para o paraíso dos justos e caridosos.

O homem rico foi para o inferno.

Fonte
(Carmen Dolores. Lendas brasileiras; coleção de 27 contos para crianças. São Paulo, Sá Editora, 2006, p.81-83). Disponível me http://www.jangadabrasil.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular

Imaginário Popular (Estórias de João Alfaia)

Com a finalidade de registrar algum material sobre estórias, causos ou contos folclóricos, gravamos em diferentes coletividades da região investigada, para a Campanha de Defesa ao Folclore, exemplares desses relatos orais narrados por contadores conhecidos como tais nas mencionadas coletividades. Dessas gravações releva notar, pelo caráter dramático que assumiu a narrativa, a que teve lugar em Cabelo Gordo, um bairro de São Sebastião (SP).

Lá havíamos ido de barco pensando em pesquisar um fandango, que tínhamos programado de acordo com João Ramos de Morais, mas que por razões ignoradas ou pelo menos não explicadas suficientemente deixou de se realizar. Passamos então, a tarde a andar de lá para cá, tratando de ver se ainda conseguiríamos algo, para aproveitarmos a viagem. E ao cair da noite, enquanto esperávamos o caminhão que nos levaria de volta a São Francisco, onde estávamos hospedados, ficamos conversando com João Ramos de Morais, apelidado de João Alfaia, que se revelou para nós um extraordinário contador de estórias.

João Alfaia, como é mais conhecido, é um homem de perto de 70 anos, de cor branca, crestada de sol, que trabalha como pescador e também exerce as funções de zelador de um laboratório de pesquisas montado em Cabelo Gordo pela faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo. Forte, enxuto, muito vivo e inteligente, é capaz de ficar horas a contar estórias, dramatizando-as na voz, nos gestos e na máscara facial e assumindo, por isso, importante função social no meio em que vive pela força aglutinadora da sua narrativa.

Conhecidíssimo na região e participando inclusive com o próprio nome de pasquins, João Alfaia nos ofereceu a primeira oportunidade de gravar importante documentário, pelos espécimes de literatura folclórica em prosa da região, pelo caráter da narrativa e também como exemplos da linguagem de um autêntico caiçara que ele é, com antiga ascendência portuguesa.

O breve do lenho de Cristo

Um homem caiu doente, né? com reumatismo. Entrevou na cama. Não podia trabalhar. Então, foi indo, foi indo, mais ele com muita amizade com o compadre. O compadre podia, era rico, e a mulher, num sei lá, um sofrimento que teve que foi preciso fazer uma promessa à Itália, a romaria né. E ela ficou boa. Então foi a rimaria.

Então, daí, o compadre veio na casa dele:

— Compadre, olhe aí, eu vou pra Itália. Vou fazê uma romaria.

Então ele disse assim:

— Compadre, eu vou lhe pedi um favor, me traga um pedacinho da cruz de Cristo, do lenho de Cristo, num é, pra eu fazer um breve pra vê se eu fico bem.

Chegou lá, fez a romaria dela, cumpriu a promessa dele, quando ele veio imbora, esqueceu-se do pedacinho, de pedir lá o pedacinho do pau, do lenho de Cristo. Quando ele viu, disse à mulher:

— Mais que esquecimento.

A mulher:

— Do que você se esqueceu?

— Me isquici.

— Se esqueceu de arguma coisa que num pôs na mala?

— Não é, me isquici da encomenda de meu compadre. Um pedacinho do lenho de Cristo. Eu num truxe. Mais num tem nada, ele fica servido da mesma forma. Eu vou cortá um pedacinho do barco.

Tava cum canivete, cortou.

E havia fantasma nesse lugar que eles morava, né? Aí, ele chegou, descansou, esse dia foi lá.

— Compadre, bom dia.

— Bom dia, compadre, como vai o sinhô?

— Ah, compadre, eu aqui todo encorcolado. Todo danado, mesmo, num posso me levantar. Trouxe minha encomenda?

— Ah, tá aqui, compadre, ah tá aqui, olha aí, um pedacinho da cruz de Cristo. Eu pedi ao padre e o padre me mandou cortar. Está aqui.

— Oi mulher, venha cá. Oi mulher, me faz um breve.

Então, ela fez um breve, cortou um pedacinho de pau, fez o breve, costurou no pescoço. Logo noutro dia foi sintino a melhorar, e sintino, e sintino, e sintino, que era de hora em hora, de passo em passo aqui antes de dois meses ele apruma-se. Aprumou-se.

Ele morava num lugar, num subúrbio, mas pra ele ir lá na freguesia passava na serra, né? E ele tudos os sábados ia fazer o negócio dele. Carregava o burrinho de mercadoria e ia fazer a compra dele lá. E assim foi indo, quando foi um dia ele foi, de tarde. Chegou lá e fez a compra dele. Anoiteceu, pegou os amigo dele:

— Pois é, mas você vai agora?

— Vou, vou porque tenho medo de ficar aqui, porque minha mulher tem cuidado. Sou obrigado a ir. E foi. Chegou no meio da serra, olha a bicha pra frente: a fantasma. Apareceu, foi crescendo e ele:

— Olha lá, tô perdido. E foi indo, foi enfrentando, enfrentando. Quando chegou foi quase, chegou pertinho, ela foi dobrando, e veio vindo, veio vindo, quando estava meia braça pra chegar em cima dele, pra esbagaçar com ele, ele tirou o breve e afirmou-se contra a visão, a visão chegou e respondeu pra ele:

— É, tás salvo, mais vale a tua fé, porque o pau é do barco.

Pedra de cevar

Tem samambaia também. Conhece a pedra de cevar, que faz casar velho com moça, moça com velho, eles casam que a pedra de cevar obriga.

É arte do diabo em diabólica. Ele quer ser vintorioso, faz casamento, né? E faz um preto casar com branca, uma branca casar com preto, a pedra de cevar é do diabo. Porque Sexta-feira da Paixão tem a samambaia. A samambaia é um arvoredo que dá no mato. Ela então faz assim. Sexta-feira da Paixão de manhã, ela dá o botão, às 10 horas do dia ela vinga a flor, num é? às 4 horas, ela tá ali, ela tá verdulenga, querendo amadurecer, num é? Quando chega às 10 hora pra meia-noite, meia-noite ela amadurece, tá podre. Agora, o sinhor quer ter a pedra de cevar: é aquela fruta. É o diabo, né? Agora, abre em baixo do pé da samambaia, abre uma toalha e acende quatro vela. Está ali quando chegar meia noite, antes da frô cair, a fruta cai, tem uma voz que responde. Quando a fruta cai que chega na toalha, ele pergunta: — Quem pega!

O senhor tem coragem: — Pego eu.

Segura. Aí, ele vem brigar. Uma briga pá danado, né? É rastera, é cabeçada até outro dia. E vá se desviando dele, né? Vá se desviando, porque quando o galo canta ele desaparece. Aí está a pedra de cevar. Aí dá sorte. Ele come uma agulha por dia, uma agulha de aço. Porque é diabólica. Faz um breve, bota ela e pega aquela agulha põe dentro do breve ela chupa. Outra de vinte em vinte e quatro hora. Assim conserva que ela fica vinturosa. A samambaia a que ele se refere é um pé de jiçara, como um palmito, é samambaia da jiçara. A jiçara o senhor nunca vê com fruta. A fruta da jiçara só dá na sexta-feira da Paixão, a jiçara floresce e aí é a pedra de cevar.

O diabo ensina a tocar viola

Os tocadores que não sabem tocar, então eles espera pela Sexta-feira da Paixão. Sexta-feira da Paixão, ele vai na venda, de manhã, compra uma viola, que nunca ninguém pegasse. Compra na venda um encordoamento, encordoa aquelas dozes cordas, deixa direitinho e quando chega essas horas, assim, põe numa encruzilhada. Quando chega lá pela meia-noite, afina aquela viola que deixa que nem um sino, deixa direitinha, começa a tocar e cantar todas as espécie de música e o sujeito tá ali, espiando, né? Agora, quando antes do galo cantar, que vê que ele num pode, num pode está ali, ele pega na viola e vem brigar co home, né? Briga, luta daqui, luta dali, quando o galo canta a primeira vez ele larga e vai embora. Quando é outro dia tá o tocador. O moço vai tocar, tá tocando que nem o diabo.

Fonte:
Estória de João Alfaias. In LIMA, Rossini Tavares de (e outros). O folclore do litoral norte de São Paulo; Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular

Imaginario Popular (Quero-Quero)

Nos velhos tempos, passados, quando estas coxilhas, estes campos, estas várzeas, não eram de ninguém havia um índio dos Tapes, chefe de tribo, valente, que tinha um filho pequeno, guri assombro da idade.

Vai um dia, o indiozito se chega ao pai e lhe pede:

— Pai, eu quero lutá na primeira peleia que gente nossa peleá…

O índio velho mirou o filho de cima a baixo e lhe respondeu com ar carrancudo:

— Filho, muito pequeno! Guri não é pra peles!

— Pai, eu já sei montá cabaiú… eu quero peleá!

— Guri não é pra peleia!

E o piazito insistente, já com borbolhas nos olhos, quase explodindo num choro, tornava a implorar ao pai:

— Pai… eu já sei atirá incupuiá! Eu quero… eu quero peleá!

— Guri não pensa em peleia… Guri vai ajudá prantá abati!

E o velho chefe, erguendo o braço com firmeza, indicou o mandiocal, para onde o piazito se foi correndo, dizendo sempre a chorar…

— Eu quero… eu quero peleá!

Eu quero! Eu quero! E o indiozito, na sua obsessão guerreira, voltava por vezes a implorar, para que o pai lhe deixasse um dia tomar parte, num intreveiro sangrento. — Eu quero! Eu quero! E de tal forma repetia este pedido, que acabou grangeando o apelido de quero-quero, entre os índios irmãos da tribo, que achavam graça ao vê-lo tentando convencer o velho pai, a deixá-lo um dia pelear.

Mas, vejam só como são as coisas:

Um dia, gente estranha invadiu o pampa, e fio então, que a indiada revoltada, alçou a perna no pingo e se atirou na luta, em defesa de seus direitos, que só Deus lhe poderia quitar! E impeçou refregas… as refregas medonhas, seu! E foi numa dessas heróicas e fatais refregas, que o causo se deu.

Seguindo a pista do inimigo, a horda havia acampado numa várzea estreita, para um descanso ligeiro. Há muitas luas a guerrilha era constante. O inimigo já em fuga… alquebrado… quase derrotado… seria fácil alcançá-lo e liquidá-lo de vez. Toda a tribo então dormia, inclusive as sentinelas, que fatigadas e de certo confiantes na calma da noite e fiados na fraqueza do inimigo, se haviam entregado ao sono profundo. Foi quando a lua, destapando na coxilha, estendeu pela beira da encosta, a silhueta de um vulto. Era… era o gurizito… o indiozito… o mania de peleador… o Quero-Quero.

Sim, senhor. Pois não é que o teimoso, que havia ficado nas “casa”, por ordem do pai que vinha em luta e lhe proibira de segui-lo, não pôde resistir às ganas e mal a oportunidade lhe sobrou, largou-se atrás da horda guerreira. Não lhe foi difícil alcançá-la, pois já montava muito bem o cavalo, como ele próprio dizia, assim foi que, gineteando um alazão fogoso, chegou a borda da colina, e, apeando, pra não alarmá ninguém, vinha se chegando a los passitos, rumo ao acampamento adormecido. Mas, veja só! Foi, parece, o destino, quem trouxe o diabinho ali. O inimigo astucioso e traiçoeiro, voltando cautelosamente, vinha surpreender os índios descuidados, numa emboscada fatal. E foi justamente quando o piazito chegava e ao olhar para trás, como a medir a distância, avistou de relancina, aquilo que lhe fez gelar o sangue nas veias: a força traiçoeira que já vinha em riba, na iminência do golpe.

O indiozito não vacilou. Pulando ao lado do pingo, abriu a boca e gritou… gritou com toda a força da goela:

– Pai! Irmãos! Alerta! O inimigo!… O inimigo!

Amigo, foi água na fervura! O inimigo cruel, impiedoso, atacou! A primeira vítima foi o guri.

Depois… bueno, depois quando as barras do dia impeçaram a surgir, aquela várzea tava que era uma sanga de sangue! O descuido da horda, proporcionou ao inimigo uma oportunidade tremenda. Só se via no campo da batalha, índios estendidos, mortos… outros agonizando. E, apontando aqueles corpos sangrentos, haviam pontas de lanças, coloriando de sangue indígena. E isso que os índios pelearam, seu! Mas, ali, bem na beira da coxilha, estirado na relva úmida, de braços abertos, cara virada pro céu, tava o gurizito valente… o Quero-Quero, dentro duma poça de sangue, morto… com a boca entreaberta, como se um grito de luta, lhe pairasse ainda nos lábios.
E é aí que conta que o mistério se deu. — Quando o sol apontou os primeiro raios dourados, o corpito que parecia sem vida, foi aos pouquitos se mexendo… se mexendo e, daí a alguns instantes, o gurizito valente, ia aos poucos se firmando de pé. Depois, passando a mão pelos olhos, como quem sente fumaça, olhou a coxilha, olhou a várzea e aí, com o olhar reascendido numa gana feroz, desceu, meio de arrasto, pra várzea e, chegando junto ao pai morto, agarrou duas pontas de lança coloradas de sangue, botou-as debaixo dos braços e, mirando a ponta da coxilha, com voz moribunda, mas firme, gritou com fero entusiasmo:

— Eu quero! Eu quero pelear! Eu quero!

E ao último grito de quero, tombou… tombou pra sempre. E de seu corpito inerte, elevou-se então uma sombra enfumaçada que aos poucos foi se tornando clara até tomar a forma perfeita de um pássaro que abrindo as asas elevou-se soltando gritos de Quero! Quero! — Vontade talvez que lhe ficou de lutar, aviso, quem sabe, pra que o gaúcho, sempre alerta, não fosse nunca mais atraiçoado.

Fonte:
Costa, Dimas. “Quero-quero”. O Dia. Porto Alegre, 17 de fevereiro de 1957

Deixe um comentário

Arquivado em Imaginário Popular