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Agatha Christie (O Crime da Fita Métrica)

Politt segurou a argola da porta e bateu levemente. Após alguns segundos, tornou a bater. O embrulho que trazia no braço esquerdo ameaçou cair, e ela voltou a arrumá-lo. Este continha o vestido verde da Sra. Spenlow, que ela havia acabado de aprontar. Na mão esquerda, Politt carregava uma sacola de seda preta com uma fita métrica, uma almofada de alfinetes e uma tesoura.

Politt era alta e esquálida; possuía nariz e lábios finos, cabelos ralos e acobreados. Ela hesitou um pouco antes de bater pela terceira vez. Lançou os olhos pela rua e viu alguém que se aproximava a passos largos. Era a Srta. Hartnell — vinte e cinco anos, alegre, um tanto envelhecida — que cumprimentou-a com sua voz de contralto:

— Boa tarde, Politt!

— Boa tarde, Srta. Hartnell — respondeu a costureira. Sua voz era excessivamente fina, e o sotaque um pouco afetado. Seu primeiro trabalho tinha sido como dama-de-companhia de uma senhora.

— Por favor — continuou Politt —, sabe dizer se a Sra. Spenlow está em casa?

— Não faço a menor idéia — retrucou a Srta. Hartnell.

— Não sei o que fazer. Combinamos que hoje, às três e meia, ela experimentaria o vestido novo — disse Politt. A Srta. Hartnell consultou o relógio:

— Já passa um pouco das três e meia.

— É. Eu já bati três vezes, mas ninguém atendeu. Acho que a Sra. Spenlow precisou sair e esqueceu o combinado. É estranho, porque ela não tem o hábito de esquecer seus compromissos e ainda mais que ela precisa do vestido para depois de amanhã.

A Srta. Hartnell abriu o portão e aproximou-se de Politt.

— Por que será que Gladys não abre a porta? — perguntou. — Ah, já sei! Hoje é quinta-feira e ela está de folga. Provavelmente a Sra. Spenlow está dormindo. Creio que você não bateu o suficiente.

Dizendo isso, agarrou a argola e bateu violentamente na porta. Não satisfeita, bateu também com toda força nas almofadas da porta e gritou:

— O de casa! Há alguém aí? Não houve resposta.

Politt murmurou: — Acho mesmo que ela esqueceu e saiu. Eu volto outra hora. — E dirigiu-se para a saída.

— Tolice! — disse a Srta. Hartnell com firmeza. — Ela não pode ter saído. Encontrei-me com ela ainda há pouco. Vou olhar pela janela, e ver se ela dá algum sinal de vida.

Ela soltou uma risada para indicar que era brincadeira, e olhou, sem muito interesse, pela veneziana da janela mais próxima. -Digo sem muito interesse porque ela sabia que a sala da frente raramente era usada. O casal preferia a saleta dos fundos. Mesmo desinteressado, o olhar da Srta. Hartnell encontrou o que procurada. De fato, a Sra. Spenlow não deu sinal de vida, mas de morte, caída sobre o tapete ao lado da lareira.

— Sem dúvida — disse a Srta. Hartnell ao relatar o que se passara. — Eu tive que me controlar. Politt não saberia o que fazer. Disse-lhe que precisávamos manter a calma: ela ficaria lá e eu iria falar com o Investigador Palk. Ela disse que não queria ficar sozinha, mas não dei atenção. Era preciso ser firme com ela. Sempre achei que esse tipo de pessoa gostava de criar problemas. Assim eu já estava de saída quando o Sr. Spenlow surgiu de um dos lados da casa.

Neste ponto, a Srta. Hartnell fez uma pausa significativa que levou as pessoas que a ouviam a perguntar: — Como estava ele? A Srta. Hartnell prosseguiu:

— Sinceramente, eu suspeitei dele imediatamente. Estava calmo demais. Não parecia nem um pouco surpreso, e não creio que seja natural um homem saber que a esposa está morta e não demonstrar o menor sinal de emoção.

Todos concordaram.

A polícia também concordou. Tão desconfiados estavam do alheamento do Sr. Spenlow que nem perderam tempo em verificar em que situação ele ficara com a morte da mulher. Quando descobriram que ela era rica e que com sua morte o marido seria o único herdeiro, de acordo com um testamento feito pouco depois do casamento, as suspeitas aumentaram ainda mais.

Miss Marple, a doce — e, alguns diziam, um tanto maldizente velhinha que morava ao lado da igreja, foi chamada a depor cerca de meia hora após a descoberta do crime. Foi interrogada pelo Investigador Palk, que folheava um livro com ar de importante.

Se não se importa, senhora, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas.

— A respeito da morte da Sra. Spenlow? — disse Miss Marple. Palk ficou surpreso. — Desculpe, senhora, mas como soube disso?

— Um passarinho me contou… — disse Miss Marple.

Palk compreendeu logo a resposta. Provavelmente o filho do dono da pensão ter-lhe-ia contado, quando foi levar-lhe o jantar. Miss Marple prosseguiu calmamente:

— Deitada no chão da sala de estar, estrangulada — talvez com um cinto bastante estreito. Mas, com o que quer que tenha sido, já não estava lá.

Palk estava intrigado… Como é que o pequeno Fred sabe disso?…

Miss Marple interrompeu o investigador:

— Há um alfinete no seu paletó.

Palk não esperava o comentário, mas não perdeu a calma.

— Como diz o velho ditado, encontre um alfinete em sua roupa, retire-o e terá sorte o resto do dia.

— Espero que seja verdade. Mas… o que deseja saber? Palk pigarreou, esticou os ombros e consultou seu livro:

— De acordo com o que ouvi do Sr. Spenlow, marido da finada, às duas e meia ele atendeu a um telefonema de Miss Marple, que lhe perguntou se ele poderia ir até sua casa por volta das três e quinze, porque ela precisava muito falar com ele. Isto é verdade?

— Evidente que não! — disse Miss Marple.

— A senhora não telefonou para o Sr. Spenlow às duas e meia?

— Nem às duas e meia e nem em qualquer outra hora.

— Ah! — fez o investigador, passando a mão pelo bigode com grande satisfação.

— Que mais disse o Sr. Spenlow?

— Disse que veio até aqui, como lhe fora solicitado, tendo deixado sua casa às três e dez. Chegando aqui, foi informado pela criada de que Miss Marple não se encontrava em casa.

— Isso é verdade — disse Miss Marple. — Ele esteve aqui, mas eu estava numa reunião da Sociedade Feminina.

— Ah! — fez novamente o investigador.

— Diga-me, Sr. Palk: suspeita do Sr. Spenlow?

— Ainda é cedo para dizer, mas… é como se alguém, sem querer citar nomes, tivesse sido… bastante engenhoso.

Miss Marple disse quase que para si mesma:

— O Sr. Spenlow?

Ela gostava do Sr. Spenlow. Ele era baixo, magro, rígido e convencional — o máximo em respeitabilidade. Era estranho que ele tivesse vindo morar no interior, pois vivera a maior parte da sua vida na cidade. A Miss Marple ele contou por quê:

— Sempre pretendi, desde criança, ir viver no campo um dia, e cultivar um jardim. Sempre adorei flores. Minha esposa tinha uma floricultura. Foi lá que a conheci.

Esta frase, aparentemente seca, deixava entrever todo um romance. A Sra. Spenlow, jovem e bonita, rodeada de flores.

O Sr. Spenlow, entretanto, nada sabia a respeito de flores. Não entendia de sementes, de podas, de canteiros, de temporadas. Vislumbrava apenas a imagem de um jardinzinho em uma pequena casa de campo, repleto de flores perfumadas e coloridas. Havia pedido a Miss Marple algumas informações, e anotado todas elas cuidadosamente em um caderninho.

Era um homem metódico. Talvez por causa disso a polícia tenha se interessado tanto por ele quando sua esposa foi encontrada morta. Com paciência e perseverança, os homens da lei aprenderam muito a respeito da Sra. Spenlow — e logo toda a cidade de St. Mary Mead também.

A Sra. Spenlow começou a vida como criada em uma mansão. Deixou o emprego para casar-se com o jardineiro, e com ele montar uma floricultura em Londres. O negócio prosperou, mas o jardineiro, que há muito andava doente, morreu pouco depois. A viúva deu continuidade ao negócio, aumentou-o e fê-lo prosperar. Depois, vendeu-o por um bom preço e casou-se pela segunda vez — com o Sr. Spenlow, um joalheiro de meia-idade, que havia herdado uma pequena loja que não dava lucros. Algum tempo depois, venderam a joalheria e foram morar em St. Mary Mead.

A Sra. Spenlow tinha uma boa situação. Os lucros provenientes da venda da floricultura tinham sido investidos, sob orientação espiritual, como ela fazia questão de explicar. Os espíritos tinham-na aconselhado com surpreendente sagacidade. Todos os seus investimentos prosperaram, alguns de forma inesperada. Ao invés desse fato aumentar a sua crença no espiritualismo, o casal Spenlow praticamente abandonou os médiuns para envolver-se completamente com uma seita de inspiração hindu. Entretanto, quando a Sra. Spenlow chegou a St. Mary Mead, voltou-se por um certo tempo para a igreja ortodoxa inglesa. Estava sempre na paróquia, e ia aos cultos regularmente. Patrocinava obras sociais da cidade, interessava-se pelos acontecimentos do local e jogava bridge. Levava uma vida rotineira. E, de repente, foi assassinada.

Coronel Melchett, o delgado, chamou o Inspetor Slack. Slack um homem firme. Uma vez tendo formado uma opinião, tinha realmente certeza do que dizia; e desta vez já tinha vaticinado:

— Foi o marido!

— Você acha mesmo?

— Acho. Basta olhar para ele. Culpado dos pés à cabeça. Nunca demonstrou o menor sinal de pesar ou emoção. Voltou à casa sabendo que ela estava morta.

— Não acha que ele poderia ter representado o papel de marido desesperado?

— Ele não faria isso. Está muito contente. Há pessoas que não sabem fingir. São insensíveis demais.

— Havia alguma outra mulher em sua vida? — perguntou o Coronel Melchett.

— Não descobri nada a respeito. Ele é esperto. Evidentemente deve ter encoberto suas pistas. Acho que ele simplesmente estava farto de sua esposa. Ela tinha dinheiro, e creio que devia ser mesmo horrível viver com ela — sempre falando de religião. Então, decidiu livrar-se dela e viver confortavelmente sozinho.

— Isso pode muito bem ter acontecido.

— Foi o que aconteceu. Planejou tudo com cuidado. Fingiu receber um telefonema…

Melchett interrompeu-o: — Fingiu?

— Sim. E isso também quer dizer que ele mentiu ou que aquela chamada foi feita de um telefone público. Os únicos telefones públicos da cidade são o da estação e o do correio. Do correio não pode ter sido. A Srta. Blade vê todas as pessoas que entram lá. Da estação, sim. Há um trem que chega às duas e vinte e sete, e sempre se forma um certo tumulto. O principal é que ele disse que Miss Marple telefonou para ele e isso certamente não é verdade. A chamada não partiu de sua casa. Ela própria estava na Sociedade Feminina.

— Você não está considerando a possibilidade de o marido ter sido deliberadamente afastado da casa por alguém que desejasse assassinar a Sra. Spenlow, está?

— O senhor está pensando em Ted Gerard, eu sei. Já investiguei isso também. Não creio nessa possibilidade. Ele não ganharia nada com isso.

— Mas ele não presta. Já deu um desfalque uma vez.

— Não estou dizendo que ele preste, e sim que, de uma forma ou de outra, ele restituiu o dinheiro daquele desfalque. Seus chefes é que não tiveram bom senso.

— E está ligado ao tal Grupo Oxford — disse Melchett.

— Mas arrependeu-se e fez tudo o que pôde para emendar-se. Admito que ele tenha sido astuto. Devia saber que suspeitavam dele e resolveu bancar o penitente.

— Você é um céptico, Slack — disse o Coronel.

— Já falou com Miss Marple?

— E o que ela tem com isso?

— Nada. Mas ela sabe de tudo o que acontece na cidade. Por que não bate um papo com ela? E uma velhinha bastante esperta.

Slack mudou de assunto:

— Gostaria de perguntar-lhe uma coisa: aquele primeiro emprego da falecida — a casa do Sr. Robert Abercrombie… Não foi lá que houve um roubo de jóias? Esmeraldas… Uma fortuna. Os ladrões nunca foram apanhados. Estive investigando isso. Deve ter acontecido quando a Sra. Spenlow ainda trabalhava lá, embora ela fosse quase uma menina na época. Ela não poderia estar metida nisso? Spenlow era um desses joalheiros pobretões — a pessoa indicada para isso.

Melchett abanou a cabeça:

— Não acredito nisso. Ela nem conhecia Spenlow naquela época. Lembro-me bem do caso. Na polícia, era voz corrente que um dos filhos de Abercrombie, Jim, estava envolvido no caso. Um perdulário! Nadava em dívidas e, logo depois do roubo, elas foram saldadas. Disseram que fora ajudado por uma mulher muito rica, mas eu não me convenci. Principalmente porque o velho Robert tentou afastar a polícia do caso.

— Foi apenas uma idéia — disse Slack.

Miss Marple recebeu o Inspetor Slack com alegria, principalmente quando soube que ele tinha sido enviado pelo Coronel Melchett.

— Foi uma gentileza do Coronel. Não sabia que ele se lembrava de mim.

— É claro que se lembra. Contou-me que aquilo que a senhora não sabe a respeito de St. Mary Mead não vale a pena procurar saber…

— Ele é realmente muito gentil, mas eu não sei mesmo nada a respeito desse assassinato.

A senhora sabe como se comenta sobre isso.

— Sim, claro! Mas de que adiantaria ficar repetindo fofocas? Slack tentou ser esperto:

— Isto não é um interrogatório. Ê uma conversa informal.

— Quer mesmo saber o que as pessoas estão dizendo, e se é verdade ou não?

— Isso mesmo!

— Bem, as pessoas sempre exageram muito as coisas. Além disso, há duas correntes de opinião: uma acredita que foi o marido. O companheiro é, de uma forma ou de outra, a primeira pessoa de quem se desconfia, não é mesmo?

— Pode ser — disse o inspetor, com cautela.

— Há também o lado financeiro. Soube que o dinheiro que possuíam era dela e que o Sr. Spenlow seria beneficiado com sua morte. Neste mundo corrompido, as piores maldades acabam tendo justificativa.

— Ele ficou com uma soma respeitável.

— Exatamente. Seria plausível que ele a tivesse estrangulado, deixado a casa pelos fundos, vindo pelo campo até minha casa, perguntado por mim, fingindo ter recebido um telefonema e voltado para casa, encontrando a esposa assassinada. Esperava, por certo, que o crime fosse atribuído a algum vagabundo ou ladrão.

O inspetor concordou:

— E o dinheiro? Eles poderiam não estar se entendendo bem ultimamente.

Miss Marple não o deixou continuar:

— Eles se entendiam muito bem!

— Como pode estar tão certa?

— Todos saberiam se eles brigassem! A criada, Gladys, teria espalhado o fato por toda a cidade.

O inspetor murmurou entre os dentes:

— Ela provavelmente não sabia… — e recebeu um olhar descrente como resposta.

Miss Marple prosseguiu:

— Há quem diga que foi Ted Gerard — um rapaz bem apessoado. Acho que o senhor sabe, a aparência às vezes influencia mais do que deve. Lembra-se do último vigário que tivemos? Foi um achado! Todas as moças compareciam à igreja, de manhã à noite, e muitas senhoras tornaram-se anormalmente diligentes no trabalho da paróquia. Isto sem contar os casacos e os cachecóis que faziam para ele. Muito embaraçoso para o rapaz!

— Mas, o que eu estava dizendo? Ah, sim! Esse tal Ted Gerard… Têm falado nele. Vinha vê-la com freqüência, embora a própria Sra. Spenlow tenha dito que ele era membro do tal Grupo Oxford — um movimento religioso. São bastante sinceros e fervorosos e a Sra. Spenlow estava muito impressionada com isso.

Miss Marple fez uma pausa e continuou:

— Eu estou convencida de que não havia nada além disso, mas sabe como é o povo. Muita gente acha que a senhora Spenlow estava encantada com o rapaz e que lhe havia emprestado uma soma considerável. Além disso, ele foi visto na estação naquele dia, saltando do trem das duas e vinte e sete. Mas é claro que seria mais fácil para ele pular para o outro lado da linha, entrar pelo atalho, saltar a cerca e contornar a sebe, sem passar pela estação. Assim, evitaria ser visto a caminho do sítio. E, logicamente, a roupa que a Sra. Spenlow estava usando era um tanto… imprópria.

— Imprópria?

— Um quimono, e não um vestido. — Miss Marple enrubesceu. — Esse tipo de coisas não deixa de ser sugestivo para algumas pessoas.

— A senhora também acha?

— Não, não. Eu não acho! Para mim, isso é perfeitamente normal.

— A senhora acha normal?

— De acordo com as circunstâncias, sim. — O olhar de Miss Marple era frio e pensativo.

O Inspetor Slack disse:

— Isso poderia ser mais uma prova contra o marido: ciúme.

— Não creio. O Sr. Spenlow nunca seria ciumento. Não é do tipo observador. Se sua esposa o tivesse abandonado e deixado um bilhete de despedida, esta seria a primeira vez que ele pensaria no assunto. — O Inspetor Slack estava intrigado com a maneira decidida pela qual ela o olhava. Tinha a impressão de que a conversa tinha por objetivo tocar em algum ponto que ele ainda não havia captado. Ela disse com firmeza:

— O senhor não tem nenhuma pista, inspetor?

— Ninguém deixa pegadas ou pontas de cigarro hoje em dia, Miss Marple.

— Mas esse eu tenho a impressão de ter sido um crime à antiga — sugeriu ela.

Slack retrucou:

— O que quer dizer com isso? Miss Marple respondeu calmamente:

— Acho que o Investigador Palk poderá ajudá-lo. Ele foi a primeira pessoa a chegar ao local do crime, como se costuma dizer.

O Sr. Spenlow estava sentado em sua espreguiçadeira. Parecia perplexo. Após algum tempo, disse, com um fio de voz:

— Posso imaginar o que ocorreu. Já não escuto tão bem quanto escutava antes, mas ouvi distintamente um garotinho dizer na rua: “Quem é o assassino?” Isso… Isso me deu a impressão de que ele estava querendo dizer que eu matei minha querida esposa.

Miss Marple, despetalando delicadamente uma rosa, disse:

— Essa era a impressão que ele queria dar, sem dúvida.

— Mas o que poderia ter sugerido essa idéia a um menino? Miss Marple pigarreou:

— Sem dúvida, a opinião dos pais.

— A senhora realmente acredita que outras pessoas pensem assim?

— Quase a metade do povo de St. Mary Mead.

— Mas, minha senhora, o que poderia ter dado ensejo a essa suposição? Eu gostava muito da minha esposa. De fato, ela não se adaptou tão bem à vida no campo quanto eu gostaria, mas ninguém pode concordar em tudo. Isso é um ideal impossível. Asseguro-lhe que senti muito perdê-la.

— E provável. Mas, se o senhor me desculpar a indiscrição, não parece.

O Sr. Spenlow ergueu-se e disse:

— Minha senhora há alguns anos li que um filósofo chinês, quando perdeu sua esposa, continuou calmamente a tocar um gongo pela rua — um costume chinês, eu acho — como se nada houvesse acontecido. O povo da cidade ficou muito impressionado com isso.

— Mas — disse Miss Marple — o povo de St. Mary Mead reage de maneira um pouco diferente. A filosofia chinesa não tem muito prestígio por aqui.

— E a senhora? Entende? Miss Marple fez que sim:

— Meu tio Henry — explicou — possuía um autocontrole fora do comum. Seu lema era nunca demonstrar emoção e também gostava muito de flores.

— Eu estava pensando — disse o Sr. Spenlow com certo entusiasmo — que poderia cultivar ramadas no lado oeste do sítio. Rosas vermelhas e glicínias também. E há um tipo de flor estrelada, cujo nome não me lembro agora e que…

Usando o mesmo tom com que falava com seu sobrinho-neto de três anos, Miss Marple disse:

— Tenho um catálogo de flores ilustrado, que é muito interessante. Gostaria de dar uma olhada? Preciso ir até à cidade.

Deixando o Sr. Spenlow no jardim a examinar o catálogo, Miss Marple subiu até seu quarto, embrulhou rapidamente um vestido num pedaço de papel pardo e saiu em direção ao correio. A Srta. Politt, a costureira, morava num pequeno apartamento, no segundo andar do edifício.

Todavia, Miss Marple não subiu imediatamente até lá. Eram duas e trinta, e uma perua estacionou na porta do correio. Isso acontecia todos os dias em St. Mary Mead. A funcionária do correio andava de um lado para outro, despachando pacotes, porque, além de cuidar do correio, ela vendia balas, livros de bolso e brinquedos.

Por alguns minutos, Miss Marple viu-se sozinha nas dependências do correio.

Antes que a funcionária retornasse, Miss Marple subiu até o apartamento da Srta. Politt e explicou que gostaria de reformar seu vestido cinza — torná-lo um pouco mais moderno, se fosse possível. A Sta. Politt disse que ia ver o que podia fazer.

O delegado ficou surpreso quando soube que Miss Marple desejava vê-lo. Ela entrou na sala e foi logo pedindo desculpas:

— Desculpe incomodá-lo. Eu sei que o senhor é um homem muito ocupado, mas tem sido sempre tão atencioso, que eu preferi vir falar diretamente com o senhor ao invés de procurar o Inspetor Slack. Eu não gostaria de criar problemas para o Investigador Palk. Quero dizer: acho que ele não deveria cuidar desse caso.

O Coronel Melchett olhou-a espantado:

— Palk? Mas ele é o investigador de St. Mary Mead! O que foi que ele fez?

— O senhor não se lembra? Havia um alfinete no seu paletó no dia do crime. Ocorreu-me que o alfinete poderia ter ido parar lá porque ele estivera na casa da Sra. Spenlow.

— É possível. Mas, afinal, o que representa um alfinete? Ele pode ter ficado preso na roupa dele quando ele estava examinando o corpo. Ele veio aqui ontem e contou isso a Slack. Acredito que ele o tenha feito falar. Não deveria ter agido assim, é claro, mas como eu já disse, o que pode representar um alfinete? Era um alfinete comum — o tipo da coisa que qualquer mulher usa.

— Não, não, Coronel Melchett. Aí é que o senhor está enganado. Um homem não saberia distinguir um alfinete comum de um especial, e aquele era especial, muito fino, geralmente usado por costureiras.

Melchett ficou paralisado. Aos poucos, parecia ir compreendendo tudo. Miss Marple sacudia a cabeça veementemente.

— Mas é claro! Para mim está claro como água! A Sra. Spenlow estava usando um quimono porque ia experimentar um vestido novo. Ela foi até a sala de estar e a Srta. Politt disse alguma coisa a respeito de tirar medidas e colocou a fita métrica em torno do seu pescoço. Depois, foi só puxar a fita. Fácil, não parece? Então ela saiu e ficou do lado de fora batendo a porta como se tivesse acabado de chegar. O alfinete prova, no entanto, que ela já havia estado lá.

— E foi Politt quem telefonou para Spenlow?

— Sim. Do Correio, às duas e meia. Exatamente na hora em que a perua chega e o local fica vazio.

— Minha cara Miss Marple, por que motivo ela faria isso? Por Deus! Não se pode assassinar alguém sem motivo.

— Eu acho, Coronel, que isso é uma velha história. Fez-me lembrar meus dois irmãos: Anthony e Gordon. Tudo o que Anthony fazia dava certo, o que não acontecia com Gordon. Cavalos adoeciam, a lavoura não progredia e a propriedade ia cada vez pior. Acho que isso deve ter acontecido com as duas mulheres. Elas devem ter trabalhado juntas no passado.

— Em quê?

— No roubo. Há muito tempo. Eram esmeraldas valiosíssimas, pelo que eu sei. A dama-de-companhia e a criada. Porque… uma coisa não está clara. Como a criada casou-se com o jardineiro e logo montou uma floricultura? Logicamente, com a sua parte do roubo. No final tudo deu certo. O dinheiro foi bem aplicado — rendeu. Mas a outra moça não deve ter sido bem-sucedida e acabou se tornando apenas uma costureira de cidade do interior. Aí novamente se encontraram. Tudo parecia ir bem até Gerard aparecer. A Sra. Spenlow tinha crises de remorso, tornara-se fervorosamente religiosa. O rapaz, sem dúvida, instigava-a a purificar-se, e não duvido que ela própria estivesse realmente inclinada a fazê-lo. Miss Politt, porém, não pensava assim. Começou a achar que poderia ir para a cadeia por um roubo que praticara há muito tempo e resolveu acabar com a Sra. Spenlow. Acredito que ela sempre tenha sido um pouco fraca. Provavelmente não moveria uma palha se o Sr. Spenlow fosse incriminado. O Coronel Melchett disse bem devagar:

— Há um dado da sua hipótese que podemos verificar: o fato de a dama-de-companhia dos Abercrombie e a Srta. Politt serem a mesma pessoa, mas…

Miss Marple insistiu:

— Não será difícil. Ela é o tipo da mulher que confessará tudo no momento em que for acusada. Além disso… ontem eu apanhei sua fita métrica quando fui experimentar uma roupa. Ela vai dar falta do objeto e pensar que poderá ir parar nas mãos da policia. É uma pessoa ignorante e pensará que isso é uma prova decisiva contra ela.

Miss Marple sorriu encorajando-o:

— O senhor não terá trabalho, pode estar certo.

Falou como lhe falara sua tia, dando-lhe certeza de que iria passar na prova para a Academia de Polícia. E ele passou.
Fonte:
Christie, Agatha(1891-1976). Os Três ratos cegos e outras histórias (tradução de Regina Saboya de Santa Cruz Abreu). Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1979.

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Agatha Christie (Estranha Charada)

— E esta — disse Jane Helier, terminando as apresentações — é Miss Marple!

Como toda atriz, conseguiu o seu intento. Aquilo era realmente o clímax, o triunfante final! O tom de sua voz era igualmente respeitoso.

O estranho é que a pessoa tão efusivamente apresentada não passava de uma solteirona afável e bisbilhoteira. No olhar dos dois jovens a quem Jane, tão gentil, a tinha apresentado, havia incredulidade e uma certa decepção. Eram ambos bonitos; a moça, Charmian Stroud, morena e elegante, e o rapaz, Edward Rossiter, louro, alto e amável.

— É um prazer enorme conhecê-la — disse Charmian, um pouco ofegante. Mas lançou um rápido olhar, cheio de dúvidas, para Jane Helier.

— Querida — disse Jane, em resposta a seu olhar —, ela é uma pessoa maravilhosa. Deixe tudo por conta dela. Prometi que a traria e cumpri a promessa. — E voltando-se para Miss Marple: — Você resolverá tudo para eles, tenho certeza. Não será difícil.

Miss Marple volveu os calmos olhos azuis para Edward: — Poderia dizer-me do que se trata?

— Jane é uma grande amiga nossa — disse Charmian, impaciente. — Edward e eu estamos com um problema sério. Então, Jane nos convidou para esta festa, dizendo que nos apresentaria a alguém que poderia… bem, que talvez pudesse…

— Jane nos disse que a senhora é uma excelente detetive, Miss Marple — completou Edward.

Os olhinhos da solteirona piscaram, mas ela protestou, humilde: — Não, Não! De forma alguma. É que quem mora em uma cidadezinha como essa sempre acaba conhecendo um pouco melhor a natureza humana. Mas agora vocês me deixaram curiosa. Qual é o problema?

— Acho que é algo terrivelmente corriqueiro… um tesouro enterrado — informou Edward.

— É mesmo? Isso parece muito interessante!

— Pois é. Como a Ilha do Tesouro. Pena que no nosso caso falte o romantismo de costume. Não há mapas marcados com uma caveira ou um fêmur, nem indicações como “quatro passos à esquerda, a oeste pelo noroeste”. É bastante prosaico o lugar onde devemos procurá-lo.

— Vocês já tentaram?

— Nós cavamos cerca de dois acres. O local foi preparado para virar uma horta. Agora estamos decidindo se devemos plantar verduras ou batatas.

— Será que, realmente, devemos falar-lhe a respeito disso? — interrompeu Charmian.

— Mas é claro, minha querida!

— Então, só precisamos encontrar um lugar tranqüilo. Venha, Edward. — Ela saiu da sala apinhada e sufocante de fumaça e dirigiu-se a uma saleta no segundo pavimento.

Sentaram-se, e Charmian disse, de chofre:

— Bom, é o seguinte. Tudo começou com tio Mathew, quer dizer, um tio de nosso avô, meu e de Edward. Ele era muito velhinho, gostava bastante de nós e sempre dizia que, quando morresse, nos deixaria todo o seu dinheiro. Tio Mathew morreu em março e deixou tudo o que tinha para ser dividido igualmente entre Edward e eu. Pode até pensar que é mentira, mas sua morte não me alegrou absolutamente. Gostava dele, de verdade. Mas já estava doente há algum tempo.

— O problema é que tudo o que ele deixou era praticamente nada. Isso, francamente, foi um choque para nós, não foi, Edward?

Edward concordou, dizendo: — Sabe… nós estávamos contando com isso. Quando se espera receber uma bolada, não se faz muito esforço pra ganhá-la… de outra forma. Sou da Marinha e só tenho o meu soldo, e Charmian não possui nada. Trabalha como assistente de diretor num teatro de segunda categoria. É um trabalho interessante que ela gosta de fazer, mas não ganha quase nada. Pretendíamos nos casar e não estávamos preocupados com dinheiro porque sabíamos que, algum dia, ficaríamos bem.

— E como vê, não estamos! — disse Charmian. — E, o que é pior, Ansteys, a propriedade da nossa família, provavelmente terá que ser vendida. Edward e eu a amamos tanto! Acho que não suportaríamos isso! Se não encontrarmos o dinheiro de tio Mathew, é o que teremos de fazer.

— Charmian, ainda não tocamos no X do problema — disse Edward.

— Fale, então.

Edward encarou Miss Marple. — À medida que tio Mathew envelhecia, ia-se tornando cada vez mais desconfiado. Suspeitava de tudo e de todos.

— Muito sensato de sua parte — retrucou Miss Marple. — A ambição dos homens pode chegar a limites inacreditáveis.

— É. Tem razão. Era o que tio Mathew também pensava. Ele tinha um amigo que perdera todo o dinheiro em negociatas bancárias, e outro que fora arruinado por um advogado desonesto e ele próprio já havia perdido o dinheiro que investira em uma companhia fraudulenta. Tio Mathew ficou tão impressionado com esses acontecimentos que decidiu de uma vez por todas, transformar o dinheiro em tesouro, e enterrá-lo.

— Ah — disse Miss Marple. — Começo a compreender.

— Os amigos argumentaram com ele, fazendo-o ver que não obteria nenhum lucro desta forma, mas ele estava irredutível. Dizia que seu dinheiro deveria ser guardado em uma caixa debaixo da cama ou ser enterrado no jardim.

— E, quando morreu, deixou muito pouco em ações, apesar de ser muito rico. Por isso acreditamos que tenha, realmente, feito o que dizia — concluiu Charmian.

Edward continuou a explicação. — Descobrimos que tinha vendido algumas ações e retirado grandes somas em dinheiro, mas ninguém sabe o que fez dele. É provável que tenha agido de acordo com seus princípios, ou seja, comprado ouro e enterrado.

— Ele não disse nada antes de morrer? Não deixou nada escrito? Um documento, uma carta…?

— É isso o que nos deixa loucos. Ele não deixou nada. Ficou inconsciente por alguns dias, mas voltou a si pouco antes de morrer. Olhou-nos e suspirou levemente. Depois disse: — Vocês estarão bem, meus queridos pombinhos. — Então piscou o olho direito e morreu. Pobre Tio Mathew!

— Ele piscou o olho… — repetiu Miss Marple, pensativa. Edward replicou ansioso: — Isso lhe diz alguma coisa? Fez-me lembrar de uma história de Arsène Lupin. Havia alguma coisa escondida no olho de vidro de um homem. Mas tio Mathew não tinha olho de vidro.

Miss Marple abanou a cabeça. — Não… Não me ocorre nada no momento.

Charmian estava desapontada. — Jane jurou que você diria logo onde deveríamos cavar.

Miss Marple sorriu. — Bem, não sou mágica. Não conheci seu tio, não sei que tipo de homem era ele e não conheço nem a casa nem o solo.

— E se o conhecesse? — perguntou Charmian.

— Talvez fosse fácil dizer alguma coisa — respondeu Miss Marple.

— Ótimo — disse Charmian. — Venha conosco a Ansteys para ver o que pode fazer.

Ê possível que Charmian não imaginasse que Miss Marple fosse levar o convite a sério; porém, ela disse logo: — É muita gentileza sua, minha querida. Sempre desejei procurar um tesouro escondido, e — continuou olhando para eles com um jeito romântico e cúmplice — ainda mais havendo amor em jogo!

— Aqui estamos — disse Charmian, gesticulando vivamente. Acabavam de visitar as dependências de Ansteys. Estiveram no jardim (que mais parecia uma trincheira), andaram pelo pequeno bosque, onde, em volta de cada árvore, havia uma escavação, e olharam tristemente para as alamedas outrora limpas e belas. Estiveram também no sótão, onde velhos baús e cômodas foram esvaziados. Entraram em porões onde lajes foram retiradas à força dos suportes. Mediram e deram tapas nas paredes e mostraram a Miss Marple todas as peças do antigo mobiliário que pudessem abrigar uma gaveta falsa.

Uma pilha de papéis jazia sobre uma mesa do escritório — todos os documentos deixados pelo finado Mathew Stroud. Nenhum fora destruído e Charmian e Edward sempre voltavam a relê-los, examinando cuidadosamente cada promissória, convite ou correspondência, na esperança de se deparar com uma pista que, até então, tivesse passado despercebida.

— Será que sobrou ainda algum lugar? — perguntou Charmian, ansiosa.

Miss Marple abanou a cabeça. — Parece que nada foi esquecido, minha querida. Talvez tudo tenha sido vasculhado demais. Sempre achei que se devia ter um plano. É como diz uma amiga minha, a Sra. Eldritch, cuja criada era especialista em polir assoalhos. Um dia ela tanto se esmerou em polir o chão do banheiro que a Sra. Eldritch, ao sair do banho, escorregou, caiu e quebrou a perna. Foi um lamentável acidente porque a porta do banheiro, como era de se esperar, estava fechada e o jardineiro teve que subir numa escada e entrar pela janela, situação muito embaraçosa para a Sra. Eldritch, uma mulher de respeito.

Edward mexia-se na cadeira impacientemente.

Desculpem-me, por favor. Estou sempre me desviando do assunto. E que uma coisa lembra outra, e isso, às vezes, ajuda. O que quis dizer é que se tentássemos imaginar um lugar…

Edward interrompeu. — Pense, Miss Marple. O meu cérebro e o de Charmian não são mais capazes disso!

— É claro, meu querido! É muito cansativo para vocês. Se não se importam, gostaria de examinar tudo isso — e apontou os documentos que estavam sobre a mesa. — Isto é, se não forem confidenciais. Não quero parecer bisbilhoteira.

— Esteja à vontade. Mas acho que não vai encontrar nada. Miss Marple sentou-se e começou a examinar aquele amontoado de papéis. Ã medida que os examinava, ia organizando-os em pequenas pilhas. Quando terminou, ficou olhando para elas por alguns minutos.

Edward perguntou, com um toque de malícia na voz: — Então, Miss Marple?

Ela sobressaltou-se. — Desculpe-me. Estava distraída.

— Encontrou alguma coisa importante?

— Não, não. Mas acho que descobri que tipo de pessoa era seu tio Mathew. Bem parecido com meu tio Henry — amigo de brincadeiras óbvias. Um solteirão, evidentemente, não sei bem por que, talvez uma desilusão na juventude… metódico, não gostava de se sentir preso; poucos solteirões gostam!

Por trás das costas de Miss Marple, Charmian fez um sinal para Edward indicando que Miss Marple estava ficando gagá.

Miss Marple continuou a falar animadamente de seu tio Henry. — Gostava de charadas. Algumas pessoas sentem-se mal com charadas; um simples jogo de palavras pode ser irritante. Era desconfiado também. Estava definitivamente convencido de que os criados o estavam roubando. E, às vezes, eles estavam mesmo, é claro. Isso tomou conta dele de tal maneira — pobre homem! — que, no final, desconfiava de que estivessem envenenando sua comida. Passou a só comer ovos quentes. Costumava dizer que ninguém pode envenenar um ovo quente. Querido tio Henry! Eu o conheci tão alegre… gostava tanto de um cafezinho depois do jantar… Costumava dizer: — Este café está muito frio — o que se podia traduzir por: — Quero mais um.

Edward sentiu que se ouvisse mais alguma coisa a respeito do tio Henry iria enlouquecer.

— Gostava dos jovens — continuou Miss Marple —, mas tinha certa tendência a instigá-los. Costumava colocar sacos de balas fora do alcance das crianças.

Deixando a educação de lado, Charmian disse: — Ele me parece horrível!

— Ah, não, querida! Era apenas um velho solteirão não muito ligado a crianças. Até que ele não era de todo ruim. Guardava uma boa quantia em dinheiro em casa, dentro de um cofre seguro, e fazia muito alarde sobre isso. Por causa de todo o seu falatório, uma noite ladrões entraram em sua casa e arrombaram o cofre.

— Bem feito! — disse Edward.

— Ah, mas não havia nada no cofre — disse Miss Marple. — Ele guardava o dinheiro em outro lugar — atrás de algumas obras religiosas na biblioteca. Dizia que ninguém retirava um livro desse tipo da prateleira!

Edward interrompeu. — É uma idéia! Que W olharmos na biblioteca?

Charmian sacudiu a cabeça com desdém.

— Você acha que ainda não tinha pensado nisso? Procurei atrás de todos os livros. Foi terça-feira passada, quando você foi a Portsmouth. Tirei todos os livros das prateleiras. Sacudi-os. Nada!

Edward suspirou. Depois levantou-se e tratou de livrar-se estrategicamente de sua indesejável hóspede. — Foi muito gentil de sua parte ter vindo e tentado nos ajudar. Sentimos muito desapontá-la e tomar seu precioso tempo. Vou tirar o carro e a senhora poderá apanhar o trem das 15 e 30…

– Mas… — disse Miss Marple — precisamos encontrar o dinheiro! Você não pode desistir, Edward. Se não conseguir a princípio, tente, uma, duas, três vezes, mas tente novamente!

— Quer dizer que devemos continuar tentando?

— Exatamente — disse Miss Marple. — Eu ainda nem comecei. “Primeiro cace sua lebre…” como ensina aquele famoso livro de receitas. Um livro maravilhoso, mas caríssimo e a maioria das receitas começa assim: “Tome meio litro de leite e uma dúzia de ovos”.Mas onde é que estava mesmo? Ah, sim. Acho que nós, de alguma forma, caçamos nossa lebre, ou seja, seu tio Mathew, e só nos falta descobrir onde ele escondeu o dinheiro. E isso deve ser bastante simples.

— Simples? — exclamou Charmian.

— Sim, querida. Estou certa de que ele teria feito o óbvio. Uma gaveta secreta, este é meu palpite.

— Ninguém poderia esconder barras de ouro em uma gaveta secreta — disse Edward, secamente.

— Não, não, é claro que não. Mas não há razão para crermos que o dinheiro esteja em ouro.

— Mas ele sempre dizia…

— Meu tio Henry também. Lembra-se do cofre? Eis por que acredito que aquilo fosse uma pista falsa. Diamantes, por exemplo, poderiam estar em uma gaveta secreta.

— Mas nós procuramos em todas as gavetas secretas! Clamamos um carpinteiro para examinar a mobília.

— Verdade? Você é esperta. Eu sugeriria… a gaveta da escrivaninha de seu tio. É aquela ali, perto da parede?

— É. Vou mostrar. — Charmian foi até ela. Retirou a tampa. Dentro dela havia caixilhos e pequenas gavetas. Abriu uma portinhola central e tocou uma mola por dentro da gaveta da esquerda. O fundo da parte central soltou-se. Charmian retirou-o, revelando uma cavidade vazia.

— Isso não é uma coincidência? — exclamou Miss Marple. — Tio Henry tinha uma escrivaninha semelhante a esta; apenas a madeira era diferente.

— De qualquer forma — disse Charmian —, não há nada lá, como se pode ver.

— Acredito — disse Miss Marple — que o carpinteiro fosse muito jovem para conhecer tudo a respeito de sua profissão. Antigamente, os carpinteiros eram mais engenhosos quando fabricavam esses esconderijos. Há segredos dentro de segredos.

Ela apanhou um grampo do coque dos cabelos grisalhos e impecáveis; espetou em um orifício quase imperceptível, que havia num dos lados do segredo. Com um certo esforço, puxou uma gavetinha dentro da qual se via um maço de cartas amareladas e um papel dobrado.

Edward e Charmian debruçaram-se sobre o achado, ao mesmo tempo. Com os dedos trêmulos, Edward desdobrou o papel para logo deixá-lo cair com um grito de decepção.

— Uma receita! Presunto ao forno.

Enquanto isso, Charmian desatava a fita do maço de cartas. Escolheu uma e leu-a rapidamente. — Cartas de amor!

Miss Marple exclamou romanticamente: — Que lindo! Talvez esteja aí a razão por que seu tio nunca se casou.

Charmian lia:

— “Meu querido Mathew: Devo confessar que parece ter passado muito tempo desde que recebi sua última carta. Tento ocupar-me com minhas tarefas e sempre penso que sou mesmo muito feliz por ter a oportunidade de conhecer o mundo e que nunca poderia imaginar que viajaria tanto por essas ilhas, desde que cheguei à América”.

Charmian interrompeu bruscamente a leitura:

— De onde é esta carta? Do Havaí! — E prosseguiu:

Por incrível que pareça, esses nativos são mesmo de um primitivismo incrível. Não se vestem, são selvagens e passam a maior parte do tempo nadando, dançando e adornando-se com guirlandas de flores. O pastor Gray já fez algumas conversões, mas o trabalho é quase sempre inútil, e tanto ele quanto sua esposa estão muito desmotivados. Tenho feito o que posso para encorajá-los, mas também às vezes me sinto triste por um motivo que você conhece, meu querido. A distância é uma prova muito severa para um coração apaixonado. As suas sinceras manifestações de carinho e afeto animaram-me muito. Agora e sempre você é dono de meu devoto e fiel coração, querido Mathew. Seu verdadeiro amor, Betty Martin.

P.S. — Esta está endereçada à nossa amiga Matilda Graves, como sempre. Espero que Deus me perdoe este pequeno subterfúgio.

Edward assoviou. — Uma missionária! Eis o romance de Tio Mathew! Por que será que nunca se casaram?

— Ela parece ter viajado pelo mundo inteiro — disse Charmian, examinando o resto das cartas. — Mauritânia, toda espécie de lugares. Provavelmente morreu de febre amarela ou coisa parecida.

Um leve suspiro chamou-lhes a atenção. Miss Marple estava muito intrigada. — Muito bem — disse ela. — Vejam isto agora.

Ela lia a receita de presunto ao forno. Sentindo seus olhares inquiridores, começou a ler em voz alta: “Presunto ao forno com espinafre. Tome um bom pedaço de presunto defumado, recheie com cravo-da-índia e cubra com açúcar mascavo. Assem em forno morno e sirva com purê de espinafre”.O que acham disso?

— Que estranho — disse Edward.

— Não, talvez fosse até gostoso. Mas o que acham disso tudo? De repente o rosto de Edward iluminou-se. — Acha que isso pode ser um código? — Apanhou o papel. — Olhe, Charmian. É evidente! Por qual outro motivo ele guardaria esta receita numa gaveta secreta?

— Exatamente — disse Miss Marple. — Isto é muito significativo.

— Quem sabe não é o truque da tinta invisível? Vamos aquecer o papel. Acenda o fogo — disse Charmian.

Edward assim o fez mas não havia sinal de tinta invisível.

Miss Marple pigarreou. — Realmente acho que vocês estão tornando tudo muito difícil. A receita deve ser apenas uma pista. As cartas é que devem ser importantes.

— As cartas?

— Sim, especialmente a assinatura.

Mas Edward nem a ouviu. Gritava, animado:

— Charmian, venha cá! Ela está certa! Veja, os envelopes são antigos, sim. mas as cartas foram escritas há pouco tempo.

— Exatamente — disse Miss Marple.

Elas foram envelhecidas. Aposto como foi o próprio tio Mat quem as envelheceu!

— Exatamente — disse Miss Marple.

— Tudo deve ser código. Nunca houve missionária alguma! -Minhas queridas crianças! Não há razão para dificultar as brincadeiras. Realmente um homem muito simples. Quis apenas brincar.

Pela primeira vez os dois jovens deram total atenção a Miss Marple.

— O que quer dizer com isso, Miss Marple? — perguntou Charmian.

— Quero dizer, querida, que você tem o dinheiro em suas mãos neste momento.

Charmian fitou as próprias mãos.

— A assinatura, querida! É a chave de tudo. A receita é apenas uma pista. Cravos-da-índia, açúcar mascavo e tudo o mais, o que significa? Ora, presunto e espinafre. Presunto e espinafre! Significam… nada! Está claro, então, que as cartas, sim, são importantes. Principalmente se levarmos em consideração tudo o que seu tio fez pouco antes de morrer. Ele piscou o olho, não foi o que disse? Muito bem. Eis a pista!

— Quem está louco aqui, nós ou a senhora? — perguntou Charmian.

— Sem dúvida, minha querida, você já deve ter ouvido uma expressão que indica que alguma coisa não é o que parece, ou será que já não é mais usada? numa situação como esta costumava-se dizer: “um piscar de olhos e Betty Martin”.

Edward ficou sem ação. Seus olhos estavam fixos no papel que tinha nas mãos. — Betty Martin…

— É claro, Edward. Como você mesmo disse, não existe ou não existiram tais pessoas. As cartas foram escritas por seu tio e acredito que ele se tenha divertido muito com isso. Os envelopes são bem mais antigos; não poderiam pertencer às cartas porque o selo postal data de 1851.

Ela estacou e repetiu bem devagar. — 1851. Isso explica tudo, não?

— Não para mim — disse Edward.

— Claro! — exclamou Miss Marple. — Também não faria sentido para mim se não fosse meu sobrinho-neto, Lionel. Um menino maravilhoso e um apaixonado filatelista. Sabe tudo sobre selos. Foi ele quem me contou a respeito de um tipo de selo raro e valiosíssimo. Um deles foi achado recentemente e leiloado. Era um selo de dois centavos, datado de 1851. Foi arrebatado por 25.000 libras, se bem me lembro. Imagino que os outros selos também devam ser raros e valiosos. Sem dúvida seu tio os comprou através de intermediários e tomou todo cuidado para não deixar pistas, como se diz nas histórias policiais.

Edward resmungou alguma coisa, sentou-se e escondeu o rosto nas mãos.

— O que houve? — perguntou Charmian.

— Nada. Apenas um mau pensamento. Se não fosse por Miss Marple, nós teríamos queimado essas cartas sem dar-lhes maior atenção.

— Ah! É isso que esses velhinhos espirituosos nunca imaginam. Meu tio Henry, por exemplo, certo Natal enviou uma nota de cinco libras para sua sobrinha favorita. Colocou a nota dentro de um cartão de Boas Festas, fechou-o e escreveu: “Todo o meu amor e votos de felicidades. Sinto só poder enviar-lhe isso este ano”.

— A moça, desiludida com a mensagem, atirou o cartão na lareira sem ao menos abri-lo. E ele acabou tendo que enviar-lhe outra nota.

A impressão de Edward a respeito de tio Henry sofreu uma completa transformação.

— Miss Marple — disse ele — vou abrir uma garrafa de champanha. Vamos beber à saúde de seu tio Henry.

Fonte:
Christie, Agatha(1891-1976). Os Três ratos cegos e outras histórias (tradução de Regina Saboya de Santa Cruz Abreu). Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1979.

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