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Lenda dos Índios Sioux: Touro Bravo e Nuvem Azul

Conta uma lenda dos índios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, um jovem guerreiro, e Nuvem Azul, a filha do cacique, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo…

 – Nós nos amamos… e vamos nos casar – disse o jovem. E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã… alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos… que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?

 E o velho emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:

 – Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada… 

 Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte… e trazê-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. 

 E tu, Touro Bravo – continuou o feiticeiro – deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva!

 Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada… no dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.

 O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos… e viu eram verdadeiramente formosos exemplares…

 – E agora o que faremos? – perguntou o jovem 

 – Agora,disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro… quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres…

 O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram as aves… 

 A águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. 

Minutos depois, irritadas pela incapacidade do vôo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.

 E o velho disse:

 – Jamais esqueçam o que estão vendo… este é o meu conselho. 
 Vocês são como a águia e o falcão… se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro… Se quiserem que o amor entre vocês perdure… voem juntos… mas jamais amarrados.

Fonte:
SHINYASHIKI, Roberto. Poder da Solução.

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Lendas e Contos Populares do Paraná (CAMPO MOURÃO – A lenda de São Tomé (o caminho do Peabiru) )

Num dos dias mais frios do mês de junho, Nhô Juca, figura muito conhecida na região, por ser uma personagem enigmática e muito amável com todos que o conheciam, estava em seu rancho, às margens do rio Piquiri, acendendo uma pequena fogueira para se aquecer. Ia assar pinhão, fruto da Araucária. Era costume dos moradores dali comer pinhão e também saborear o chimarrão, a erva nativa. 

Nhô Juca tinha muitos compadres, pois sendo uma pessoa muito antiga no lugar, ajudava todos que o procuravam, com seus remédios caseiros, seus conselhos de ancião e seus belos causos. No rústico rancho onde vivia, nos finais de tarde, recebia seus amigos. Sentados em banquinhos, ou pedaços de troncos, ouviam e contavam histórias, principalmente causos de assombração, boitatá, saci-pererê e muitas outras. Além da iluminação da fogueira, no centro do rancho usava-se uma lamparina de querosene.

Então nesse final de tarde, como um ritual, seus companheiros, após um dia de lida na roça, vieram conversar com o compadre Juca e também ver se ele não estava precisando de nada, pois era sozinho na vida. Dele não se conhecia a existência nem de mulher, nem de filhos. A conversa estava tão animada que nem perceberam a tempestade que se aproximava. O vento era tão forte que atravessava de um lado para outro do rancho, ficando impossível manter a lamparina acesa.

Os visitantes estavam assustados, porém Nhô Juca, em sua calma, começou a lhes contar uma nova história. Disse que aquela região já havia pertencido aos índios e que estes haviam construído um caminho muito importante: o caminho do Peabiru. Era uma trilha muito antiga e comprida, começava no Oceano Atlântico e terminava no Oceano Pacífico, atravessando a América do Sul. Tinha mais ou menos 3 mil quilômetros de comprimento e cerca de 1,4 metro de largura, mais parecendo uma grande valeta no meio da floresta.

– E este caminho ainda existe? Perguntou Pedro, maravilhado.

– Pois bem, os índios, nossos antepassados, tinham a sua sabedoria, não eram bobos não. Eles plantavam nesse caminho uma grama miúda que evitava que a chuva lavasse a terra e, ao mesmo tempo, impedia que as ervas daninhas invadissem a valeta. Assim, o caminho ficaria sempre limpinho, mais parecendo um corredor encarpetado de verde, bem fofinho.

– Ah! Que espertos, hein, compadre? Disse Pedro, admirado.

– Pois bem, como eu lhes falei, os índios não eram burros não, essa grama era plantada em alguns trechos e ia se reproduzindo e avançando o caminho. E também soltava umas sementinhas gelatinosas que grudavam nos pés e pernas dos que por ali passavam e a levavam pelo caminho; dessa forma, as sementes iam caindo e novos trechos iam sendo formados.

E a conversa continuou, falaram dos índios, seus costumes e até da sua saída da região. Nhô Juca, então, resolveu contar-lhes sobre a lenda que envolve este caminho milenar.

– Sabem, compadres, dizem que por este caminho andava muita gente importante da nossa história. Ouvi, certa vez, um moço lá da capital, que tava cavoucando uns buracos na beira do rio, procurando sei lá o que, dizer que por aqui passou um homem branco, pois só existiam os índios e este homem fez muita coisa boa para eles. Dizem que ele veio das águas e que seu nome era Tomé ou Pai Zumé, como os índios o chamavam. Era um homem branco, alto, com longas barbas. Usava cabelos curtos com uma tonsura no alto da cabeça, igual às que os padres tinham. A roupa branca ia até os pés, amarrada por um fino cinturão de couro. Nas mãos trazia um livro semelhante ao Breviário dos sacerdotes e também uma cruz.

– Por todos os lugares onde passava, deixava seus ensinamentos, condenando a poligamia e a antropofagia. Ele evangelizava os índios falando sobre o único Deus. Também ensinou aos índios o cultivo de outras culturas como a cana-de-açúcar e o milho. Por pregar a palavra do bem e censurar a imoralidade, causou grande revolta nos chefes e pajés que, furiosos, mandaram persegui-lo, incendiando as cabanas onde se abrigava para descansar, disparando flechas e pedras no profeta. Ileso dos atentados sofridos, sempre fugia pelas águas dos rios ou do mar.

– Muitos dos antigos dizem que o homem branco era Tomé, apóstolo de Jesus Cristo, o mesmo que duvidou da ressurreição, pois pediu para colocar seus dedos nas chagas de Cristo para ver o sinal dos cravos em suas mãos. Como foi descrente, Jesus lhe deu a missão de pregar o evangelho nas terras mais longínquas do mundo. Naquela época, o mundo era apenas o Oriente, a Europa, África e a Ásia. Dizem que Tomé foi primeiro para a Pérsia. Assim que concluiu suas pregações, entrou num barco de mercadores rumo às Índias. Alcançou a Índia chegando até a China. Depois avançou no mar, indo parar em ilhas não determinadas. Como chegou ao Brasil, não se sabe, apenas alguns padres jesuítas relatam sua passagem por estas terras. Seu percurso começava no oceano Atlântico e terminava no Pacífico.

– Nossa, compadre, esse caboclo viajou muito, hein! Exclamou Pedro.

– Pois é, era a sua missão e nada o impedia. Porém, certo dia os inimigos conseguiram pegá-lo e o amarraram numa grande pedra. Furiosos, surraram-no e o largaram desmaiado. Então, três grandes águias desceram do céu, cortaram as amarras e o libertaram.

Ele fugiu pelas águas da mesma maneira que havia chegado e nunca mais ninguém soube
do seu paradeiro.

– E esse caminho do Peabiru ainda existe, compadre? Pergunta Pedro.

– Olha, eu escutei uns moços, lá no boteco do seu João-Pé-Grande, falando desse caminho, dizem que ainda existem alguns lugares dele. Mas ainda tem mais. O Apóstolo Tomé ou Pai Zumé, dizia que era para preservarem o caminho do Peabiru, e se um dia ele fosse destruído pelos gigantes de ferro e aço, haveria muita seca, as aves e animais iriam acabar e as águas dos rios se tornariam escuras.

Nhô Juca enche a cuia com a água fervente da chaleira preta de ferro e repassa para Pedro. Todos ficam em silêncio. Apenas a fumaça dos palheiros sobe no ar.

– É preciso ver para crer.

Fonte:
Renato Augusto Carneiro Jr. (coordenador). Lendas e Contos Populares do Paraná. 21. ed. Curitiba : Secretaria de Estado da Cultura , 2005. (Cadernos Paraná da Gente 3).

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Folclore Brasileiro (O Saci)

É um duende idealizado pelos indígenas brasileiros como apavorante guardião das florestas. A princípio ele era um curumim perneta, de cabelos avermelhados, encantador de crianças e adultos que pertubava o silêncio das matas.

Saci é o duende mais popular do Brasil. Sua lenda ocorre no Sul, no Centro e no Norte do Brasil.

Gozando da faculdade de se transformar, como todos os personagens elementais, ora é visto sob a forma de um pequeno tapuio, sozinho ou acompanhado por uma horrível megera, ora como um negrinho unípede, de barrete vermelho que aparecia aos viajantes extraviados na floresta, mas pode ainda, aparecer disfarçado de uma ave. Na maioria das lendas Tupis, o Saci é encontrado na forma de um pássaro. Distingue-se pelo canto, que consiste em duas sílabas: “sa-cim”.

O cântico dos pássaros sempre esteve ligado ao fato da crença greco-romana dos augúrios que se julgava poder tirar-se da aparição, do vôo ou do canto das aves.

Quando os Tapuias ouviam o canto do Saci, os velhos o esconjuravam, as crianças procuravam o aconchego do colo de suas mães, os pais tremem, mas não negam o fumo que espalham pelas cercas dos quintais, para que o Saci se cale e se retire, levando com que satisfazer o vício de fumar.

Em contato com o elemento africano e a superstição dos brancos, recebeu o cognome de Taperê, Pererê Sá Pereira, etc. Tornou-se negro, ganhou um gorro vermelho e um cachimbo na boca. Em alguns lugares, como às margens do rio São Francisco, adquiriu duas penas e a personalidade de um demônio rural que faz travessuras e gosta de enganar pessoas. É o famoso Romão ou Romãozinho.

Na zona fronteiriça ao Paraguai ele é um anão do tamanho de um menino de 7 a 8 anos, que gosta de roubar criaturas dos povoados e largá-las em lugar de difícil acesso. Talvez devido aos vestígios culturais trazidos pelos bandeirantes em suas andanças pelo sul do Brasil, o saci mineiro recebeu, além dessas qualidades do “Yaci-Yaterê” guarani, um bastão, laço ou cinto, que usa como a “vara de condão” das fadas européias. Sincretizado freqüentemente como o capeta, tem medo de rosários e de imagens de santos. Quando quer desaparecer, transforma-se num corrupio de vento.
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Através de Tio Barnabé, um dos seus personagens, Monteiro Lobato descreve o Saci-Pererê:

O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça.

Tio Barnabé continua:

– Tinha anoitecido e eu estava sozinho em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, e depois me deu vontade de comer pipoca. Fui ali no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus a caçarola no fogo e vim para este canto picar fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro um barulhinho que não me engana. “Vai ver que é saci!” – pensei comigo. – E era mesmo. Dali a pouco um saci preto que nem carvão, de carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu na janela. Eu imediatamente me encolhi no meu canto e fingi que estava dormindo. Ele espiou de um lado e de outro e por fim pulou para dentro. Veio vindo, chegou pertinho de mim, escutou os meus roncos e convenceu-se de que eu estava mesmo dormindo. Então começou a reinar na casa. Remexeu tudo, que nem mulher velha, sempre farejando o ar com o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-se para o fogão. Ficou de cócoras no cabo da caçarola, fazendo micagens. Estava “rezando” o milho, como se diz. E adeus pipoca! Cada grão que o saci reza não rebenta mais, vira piruá.

Dali saiu para bulir numa ninhada de ovos que a minha carijó calçuda estava chocando num balaio velho, naquele canto. A pobre galinha quase que morreu de susto. Fez cró, cró, cró… e voou do ninho feito uma louca, mais arrepiada que um ouriço-cacheiro. Resultado: o saci rezou os ovos e todos goraram.

Em seguida pôs-se a procurar o meu pito de barro. Achou o pito naquela mesa, pôs uma brasinha dentro e paque, paque, paque… tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta multo do número sete.

Eu disse cá camigo: “Deixe estar, coisa-ruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para você. Você há de voltar outro dia e eu te curo.”

E assim aconteceu. Depois de muito virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu fiquei armando o meu plano para assim que ele voltasse.

Na sexta-feira seguinte apareceu aqui outra vez às mesmas horas. Espiou da janela, ouviu os meus roncos fingidos, pulou para dentro. Remexeu em tudo, como da primeira vez, e depois foi atrás do pito que eu tinha guardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxe dançando nas mãos.

Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa, pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas cruzadas para fumar com todo o seu sossego.

Quando quer cruza as pernas como se tivesse duas! São coisas que só ele entende e ninguém pode explicar. Cruzou as pernas e começou a tirar baforadas, uma atrás da outra, muito satisfeito da vida. Mas de repente, puf! aquele estouro e aquela fumaceira!… O saci deu tamanho pinote que foi parar lá longe, e saiu ventando pela janela fora.

Eu tinha socado pólvora no fundo do pito – exclamou tio Barnabé, dando uma risada gostosa. – A pólvora explodiu justamente quando ele estava dando a fumaçada número sete, e o saci, com a cara toda sapecada, raspou-se para nunca mais voltar.
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LENDA DA ORIGEM INDÍGENA DO SACI

Um tuixaua tinha dois filhos. O tio odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá-lo em uma derrubada de árvores para fazer um plantio. Os dois sobrinhos aceitaram.

Chegando na floresta, o tio embriagou os jovens e os assassinou por pura maldade.

Depois um dos assassinados perguntou ao outro:

-“Eu tive um sonho muito estranho e tu o que sonhaste?”

-“Sonhei, diz o outro, que nos lavávamos com carajuru”.

-“O mesmo sonhei eu”.

E resolveram voltar para a casa da avó. Vendo-os, a velha já ia aquecer o jantar, mas os dois netos disseram:

-“Ah! nossa avó, nós não somos mais gente, e sim só espíritos. Assim, sendo, nós teremos que te deixar, mas quando ouvires cantar: Tincauan…Tincauan!…foge para casa. Mas quando cantarmos: Ti….Ti…Ti…., então nos reconhecerás.

Ficaram os jovens, desde então, mudados em dois pássaros de agouro, de mistério e de morte. Um é Saci, o outro é o Matintaperera. Ambos nascidos de uma tragédia, só espalham desgraças e semeiam pavores.
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Impondo-se à crendice popular como um pássaro possuído pelo demônio, o Saci, adquiriu feições de gente e à noite vagueava pelas estradas, cantando e assobiando.

Contam que nos tempos coloniais, quando se avistava uma moça magra, triste, pálida, logo diziam:

– “Isso é obra de Saci”, porque, segundo os velhos colonos, as moças se apaixonavam por ele, sendo a morte a conseqüência inevitável desta paixão. Daí as quadrinhas consagradas no folclore popular:

“Menina, minha menina,
Quem te fez tão triste assim?
De certo foi Saci
Que flor te fez do seu jardim.”

Sua imagem e sua lenda, sofreram transformações quando em contato com elementos africanos e europeus. Suas características comportaram muitas variantes. Cada qual o vê a seu modo. De suas diabruras foram narradas coisas espantosas. Não se têm conta do número de molecagens e sortilégios que o diabinho infantil praticou. À noite dava nó na crina dos cavalos, roubava os ninhos das galinhas, cuspia nas panelas quando a cozinheira era preta, deixava as porteiras abertas, assobiava como o vento nas janelas e nas portas, etc.

O cavalo era uma das suas vítimas preferidas. Segundo a crendice popular, o Saci corre as pastagens, lança um cipó no animal escolhido e nunca errou, trança-lhe a crina para amarrar com ela o estribo e, de um salto, ei-lo montado. O cavalo toma-se de pânico e deita a corcovear campo a fora, enquanto o Saci lhe finca o dente no pescoço e chupa seu sangue.

Uma curiosidade em relação ao Saci-Pererê é que ele pode tornar-se invisível com o uso do sua carapuça vermelha. Contam alguns, que onde se forma um redemoinho de vento que levanta muito poeira (pé de vento), é certo que dentro dele há um Saci. Para capturá-lo, deve-se jogar dentro dele um rosário ou uma peneira. Todo o Saci, como todo o diabinho, tem horror de cruz. Já outros, afirmam que ele usa um barrete feito de marrequinhas (flores da corticeira) e é o Saci que governa as moscas importunas, as mutucas e os mosquitos.

Mas porque nosso Saci tem uma perna só?

O Saci é considerado um fiel representante de um período social da história do Brasil: a época da escravidão. Portanto, não é por acaso que o Saci apresenta-se com uma perna só, pois todos os escravos fugidos que eram recapturados passavam por muitas torturas e muitas vezes eram esquartejados. O Saci retrata este negro escravo em sua luta contra o dominador e o discriminador. A falta da perna não é só metáfora, mas sim algo que realmente acontecia nesta época e passou para o folclore a partir das amas negras, ao contarem suas estórias para embalar os sonhos das crianças brancas.

Com o passar do tempo, a imagem do Saci rebelde e desordeiro, foi amenizada, forçosamente controlada e passou então para estória brasileira como um símbolo nacional, um mestiço que une classes sociais e as etnias. Mas sabemos que a verdade não é bem essa….!

O valioso livro “Contos Populares” de Lindolfo Gomes, conta-nos um curioso caso, em que domina o Saci. E, das eruditas notas explicativas, transcrevemos:

“A respeito do Saci, há uns que afirmam ser um negrinho de uma banda, ou de uma perna só, gênio em alguns casos benfazejo e protetor e em outros, perverso e malfazejo, que vaga à noite pelas estradas a perseguir os viajantes ou penetrar nos lares para praticar toda a sorte de malefícios e acender seu cachimbo, sempre armado de um cacetinho, pronto a descarregá-lo no lombo alheio. Já para outros, o Saci é um passarinho cabuloso e maléfico. Percebe-se logo que este mito saci foi com o decorrer dos tempos se ampliando de elementos míticos estranhos, como por exemplo, os da Escócia, com os quis, segundo Ramiz Galvão, muito se assemelha o “Trilby”, do conto de Nodier e o diabrete “Robin”, de que nos fala Shakespeare, ora tão prestativo e ora tão perverso para com a gente da casa em que se instala.”

Há também ainda, quem lhe pinte com feições mais perversas, descrevendo-o como o “terror dos caçadores”, que salta à garupa dos cavaleiros, chibatando-os e torturando-os.

Foi Monteiro Lobato em seu livro “O Saci”, quem mais popularizou este personagem, como uma entidade travessa. Conta-nos que ele nascia em um local da floresta conhecida como “sacizeiros”, constituída de bambuzais. Desse local só sairá quando completar 7 anos e viverá até os 77.

Mas mesmo Lobato não conseguiu com sua obra apagar os traços estigmatizantes do Saci, pois a mentalidade da escravidão ainda era muito forte. Tais marcas só desaparecem bem mais tarde, quando a indústria cultural consegue domesticar o Saci e torná-lo tão somente um molequinho arteiro, que perdeu seus poderes mágicos e sua agressividade.

Serão suas travessura que lhe garantirão popularidade em todo o País e fora dele também. Conheça um pouco da sua estória….

O SACI E A PERNA DE PAU

Conta-se que numa noite, há muito tempo atrás, em que outros homens se divertiam jogando e bebendo, um deles, chamado Felício, resolveu dar umas voltar e se deliciar com o luar. Sentou-se num grosso tronco de ipê, a beira do riacho e começou a preparar um “pito”. Foi quando ouviu uma vozinha:

– “Moço, tem um pouco de fumo aí?”.

Pensando que fosse um de seus amigos, virou-se para responder, quando deu com o Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinho vazio.

Felício, ficou branco, depois verde, um arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quis gritar, mas sua voz sumiu por encanto, ou medo mesmo. O Saci chegou mais perto e disse:

– “Não tenha medo, meu amigo. Só quero um pouco de fumo.”

Felício faz um esforço danado e tira do bolso um pedaço de fumo.

– “Aqui está!”. Diz ele ao Saci, mal conseguindo balbuciar as palavras.

– “Assim não serve. Respondeu o diabinho. “Tem que ser picado, pois não tenho canivete”.

Com medo de irritar o Saci, o pobre homem tratou de fazer rapidinho o que ele lhe pediu. Depois, com muito sacrifício, Felício deu o fumo ao Saci.

– “Encha o pito!”

– “Agora acenda!”. Ordenou ele.

O Saci passou então, a dar baforadas de satisfação. Passados alguns minutos, o danadinho chegou mais perto e perguntou a Felício o que estava fazendo tão longe de casa. Felício explicou então que trabalhava com madeiras e foi contando sua história… No final o Saci deu uma grande risada e disse:

– “Madeira, não é mesmo? Pois é justamente o que eu estava procurando…”

– “Mas para que?” Pergunta Felício.

– “Olhe, pois vou lhe confessar uma coisa, as vezes tenho muita vontade de ser como as outras pessoas e ter duas pernas, entende?

– “Ah!”. Respondeu, compreendendo a intenção do Saci. “Você quer que eu lhe faça uma perna de pau, não é mesmo?”

– “Pois é isso mesmo e te darei três dias para que esteja pronta, senão não darei sossego a você e seus companheiros!” Em seguida saiu pulando e sumiu no meio do mato.

Felício voltou ao seu barracão e contou aos companheiros o acontecido. Uns acreditaram ,outros acharam que tinha bebido demais.. Até que Felício acabou esquecendo o caso. No terceiro dia, conforme prometido, quando os homens estavam em pleno trabalho, eis que um menino de gorro vermelho surgi à porta do barracão. Quando deram com ele..vocês nem podem imaginar..uns empurravam os outros, caiam, levantavam-se e acabaram saindo todos pela abertura da janela. Apenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí perguntou:

– “O que você quer?”

– “Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar minha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer que ainda não está pronta?”

Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até que consegui dizer que ainda não estava pronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou indo embora com a promessa que tudo estaria pronto dentro de mais três dias.

Felício saiu atrás dos homens. Gritou um tempão até conseguir reunir todos. Eles não queriam ficar mais no barracão. Não queriam nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele? Nem sonhando! Mas acabaram concordando, pois era a única maneira de se livrar do diabinho.

Trabalharam com afinco. No dia marcado, o Saci voltou e ficou muito contente. Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a estória acaba assim? Que nada! Ele falou que desejava uma perna para cada Saci de sua família. Não esperou resposta, deu um assobio e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claro que Felício ficou sozinho! Não vendo outra saída, ele concordou em fazer as pernas de pau, mas ia levar anos. Quis saber então quais os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim o tumulto foi grande, ninguém queria ser o último.

Foi quando Felício teve uma idéia. Ele viu uma enorme arca que haviam trazido para deixar no rancho e mentalmente resolveu a situação.
Dirigiu-se ao Saci-chefe:

– “O melhor modo de resolver quais serão os primeiros é este…” Pegou um punhado de feijão e esparramou no fundo da arca. Depois disse que quem pegasse mais grãos seriam os primeiros. Todos os Sacis concordaram e mergulharam na arca. Mas Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi quando então tirou-lhe da mão a perna de pau e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou e também se jogou dentro da arca. O Felício então fechou-a. Chamou os homens e levaram a arca o mais longe possível. Desde então nenhum Saci apareceu mais por aquelas bandas.
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Em seu O Sacy-Perêrê – Resultado de um inquerito , Monteiro Lobato faz um retrato falado do Saci, conforme lhe foi passado por entendidos no assunto:

Só no convívio do sertanejo, valente de dia e medroso de noite, ao som da viola num rancho de tropeiros, vendo bruxolear a fogueirinha e, fóra, na imprimadura da escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que um artista poderá “ouvir e entender” sacys.

O medinho contagioso abrir-lhe-á todas as valvulas da comprehensão. E saberá pela boca ingenuamente credula do Geca Tatu que tempéra a viola que o Sacy é um molecote damninho, cabrinha malvado, amigo de montar em pêllo nos “animaes” soltos no pasto e sugar-lhes o sangue emquanto os pobres bichos se exhaurem em correria desapoderada, às tontas, loucos de pavor. E que em dias de vento elle passa pinoteando nos remoinhos de poeira. E que nessa ocasião basta lançar no turbilhão um rosario de caiapiá para tel-o captivo e a seu serviço como um criadinho invisível. E saberá mil particularidades mais, ouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos, ou dentro de casa se uma cruz na porta principal não a proteje do capeta. E ficará encantado com a psychologia do pernetinha, cuja mania é atazanar a vida do sertanejo com molecagens de todo o genero sem entretanto cahir em excessos de perversidade. Não tem maus bofes, o Sacy. O que quer é divertir-se a custa do caboclo e quebrar a vida monótona do sertão.

Mas há controvérsias.

Na Geografia dos Mitos Brasileiros , Câmara Cascudo cita uma passagem de Poranduba Amazonense em que Barbosa Rodrigues vê a identidade do insigne perneta se sobrepor à de uma ave, o popularíssimo “Pássaro-Saci”:

… no Sul é Saci tapereré, no Centro Caipora e no Norte Maty-taperê.

O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um nome português, o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva” ou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso porque, quando procura vê-lo pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim, iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.

Um adendo. Gabriel Esquerra, um saciólogo argentino, diz existir uma dúvida polêmica, entre a população de Misiones, na região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, quanto à questão levantada por Barbosa Rodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o pássaro-Saci se convertem um no outro ou se trabalham em sociedade…

Já Alceu Maynard Araújo, no primeiro volume de Folclore Nacional , cita o major Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz do Paraitinga, evidentemente:

Conhecemos três espécies de Saci: trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontrado por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho de uma perna só, capuz vermelho na cabeça e que, segundo alguns, usa cachimbo, mas eu nunca vi. É comum ouvir-se no mato um “trique”isso é sinal que por ali deve estar um Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só de fazer certas brincadeiras como, por exemplo, amarrar o rabo de animais.

O saçurá é um negrinho de olhos vermelhos; o trique é moreninho e com uma perna só; o pererê é um pretinho que, quando quer se esconder, vira um corrupio de vento e desaparece no espaço. Para se apanhar o pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio de vento.

Quando se perde qualquer objeto, pega-se uma palha e dá-se três nós, pois se está amarrando o “pinto” do Saci. Enquanto ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele logo faz a gente encontrar o que se perdeu porque fica com vontade de mijar. Quando se vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Saci quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci-pererê, ele trará para quem o devolva tudo o que quiser.

Quando passar o redemoinho de vento, jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci. Há outras versões: dizem que jogando-se um rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-se uma peneira, fica nela.

Um ancestral do Saci

Pesquisando sobre a origem e abrangência geográfica do saci, me aventurei por livros e enciclopédias de folclore. Embora todos os continentes tenham duendes protetores das florestas, nenhum tem as características de nosso simpático unípede. Nem mesmo na África negra descobri parentes do saci, o que delimita seu habitat natural à América do Sul.

Os guaranis contam histórias de um pequeno índio meio mágico, com o poder de ficar invisível, que vive nos bosques e protege os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu nome é Cambai ou Cambay, e curiosamente ele tem uma perna torta, e anda manquitolando. Vem daí a expressão cambaio, que significa manco, em português. Cambai pode ser considerado um ancestral do saci moderno, que adquire a cor preta por influência da cultura afro trazida para o Brasil.

Nas lendas amazônicas ou litorâneas (aruaques, tupinambás) não há registros de saci, o que nos leva à conclusão de que ele é originário do Centro-Sul do país – área guarani – tendo como centro de irradiação o Vale do Paraíba, onde registramos a maior parte das ocorrências.

Quando já considerava encerrada a pesquisa deparei com um fato assombroso, que passo agora a relatar. Viajantes do século XVII, explorando o extremo sul do continente, chegaram às terras geladas da Terra do Fogo, onde encontraram uns poucos índios, altos e fortes, habituados à aridez do solo e à inclemência do tempo. Uma rara ilustração da época, encontrada num livro espanhol, revela um pequeno homem, nu, barbado, deitado no chão com sua única perna erguida e um enorme pé sobre a cabeça.

Um saci estranhíssimo! Diz o texto, um relato dos primeiros desbravadores, que ele assim agia para se proteger do sol naquela região desértica. Foi chamado de “patagon” (grande pata, pezão), e daí deriva o nome da região: Patagônia. Como hoje não há mais relatos sobre sua presença, podemos supor que está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança com o nosso saci revela que foi um parente próximo, um antepassado igualmente sul-americano.

Fontes:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendasaci1.htm
http://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/3contos/saci.html
MEGALE, Nilza B. Folclore Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1999.
LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, s/d.
http://www.sosaci.org/historias/historia11.htm

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Lendas Indigenas (Kuadê – Jurun mata o sol ; Poronominaré; Sinaá; Begorotire; Kuát e Iaê; Iamulumulu)

Kuadê – Jurun mata o sol

Jurun mata o Sol Kuadê, o Sol, era gente também. Morava longe e falava outra língua. Os Juruna costumavam passear na casa dele. Perto de onde morava o Sol tinha um buraco na pedra que estava sempre cheio de água. Era uma armadilha para pegar bicho. Bicho que enfiava a cabeça no buraco para beber água ficava preso. Todos os dias o Sol ia ver se havia caça presa. Quando encontrava, matava e levava pra casa para comer. A pesca, ele só fazia à noite, clareando a água com uma luz que ele tinha no traseiro. Ele zangava e matava quem dizia ter visto a sua luz. Havia um moço Juruna que não sabia da armadilha do Sol, o buraco na pedra.

Passando perto um dia, com sede, foi beber e ficou preso pela mão. Quando no outro dia viu o Sol que se vinha aproximando na sua visita diária, o moço fingiu de morto. Deitou e ficou imóvel, com o coração parado também, de tanto medo. O Sol chegou e começou a examiná-lo. Abriu a boca, os olhos, apalpou o peito e verificou que estava tudo parado como gente morta. Aí o Sol desprendeu o moço Juruna do buraco e o colocou dentro de um cesto para ser transportado. Mas antes de pôr o cesto nas costas, para ver se o moço estava bem morto mesmo, jogou formiga em cima dele. O Juruna aguentou as formigas, sem se mexer, mas quando elas morderam nos olhos, ele se mexeu um pouquinho.

A borduna do Sol, que estava perto, percebendo o movimento, quis logo bater, mas o dono não deixou, dizendo que o Juruna estava bem morto. Em seguida, o Sol levou o cesto com o corpo para perto da casa dele, pendurando-o no galho de uma árvore. No dia seguinte, pediu ao filho que trouxesse o cesto para dentro de casa. O filho do Sol foi mas não encontrou mais o Juruna. Ele tinha fugido de noite. O Sol sabendo disso, na mesma hora jogou a sua borduna atrás dele. a borduna saiu voando e logo adiante bateu num veado.

O Sol disse que não era aquilo que ele queria, e saiu em perseguição, até que encontrou o fugitivo escondido na raiz oca de um pau. A borduna chegou e começou logo a bater no tronco. Vendo que isso não dava resultado, cortou uma vara e passou a chuçar o buraco. O Juruna ficou todo machucado, mas continuou dentro da toca. Como já estava muito tarde, o Sol tapou a boca do buraco com uma pedra e disse para a borduna: “Amanhã nós voltamos para acabar de matar”. De noite, na ausência do Sol, todo tipo de bicho – anta, porco, veado, macaco, paca, cutia – apareceu para ajudar o moço Juruna a sair de dentro da toca onde se tinha enfiado.

Lá dentro, ele pedia: “Cavem esse pau para eu sair”. Os bichos começaram a cavar. Quando os seus dentes quebravam, iam à procura de outros bichos para continuar a escavação. a anta conseguiu abrir uma pequena saída. O moço Juruna pôs a cabeça para fora e pediu que cavassem mais um pouco. Com o alargamento que a cutia e a paca, por último, fizeram, ele pôde sair de uma vez para fora. Quando o sol chegou, não o encontrou mais. O moço a essa hora já estava chegando em casa. Lá, contou para os parentes o que havia acontecido com ele, dizendo que quase tinha sido morto pelo Sol.

Três dias depois foi dizer à mãe que ia sair novamente para colher coco. A mãe, chorando, pediu a ele que não fosse. “Não vá, meu filho, que o Sol vai matar você”. O moço, depois de cortar todo o cabelo e se pintar de jenipapo, foi dizer à mãe que assim como estava não ia ser reconhecido pelo Sol. “Não tenha medo, que o Sol não me vai conhecer. Agora estou diferente”. Falou isso e entrou mata adentro. Subiu no primeiro inajá que encontrou e ficou lá em cima colhendo coco.

Certo jovem, não muito belo, era admirado e desejado por todas as moças de sua tribo por tocar flauta maravilhosamente bem. Deram-lhe então o nome de Catuboré, (flauta encantada). Entre elas, a bela Mainá conseguiu o seu amor; casar-se-iam durante a primavera. Certo dia, já próximo do grande dia, Catuboré foi à pesca e de lá não mais voltou. Saindo a tribo inteira à sua procura, encontraram-no sem vida à sombra de uma árvore, mordido por uma cobra venenosa. Sepultaram-no no próprio local. Mainá, desconsolada, passava várias horas a chorar sua grande perda. A alma de Catuboré, sentindo o sofrimento de sua noiva, lamentava-se profundamente pelo seu infortúnio. Não podendo encontrar paz pediu ajuda ao Deus Tupã. Este então transformou a alma do jovem no pássaro Irapuru, que mesmo com escassa beleza possui um canto maravilhoso, semelhante ao som da flauta, para alegrar a alma de Mainá. O cantar do Irapuru ainda hoje contagia com seu amor os outros pássaros e todos os seres da Natureza.

Irapuru = pássaro
Catuboré = nome índio – masculino
Mainá = nome índio – feminino

O Sol, que passava por perto, pensou que era macaco que estava no alto da palmeira. Quando viu que era gente e reconheceu o Juruna, disse assim: -Quase matei você naquele dia, mas agora você vai morrer. -Eu não sou quem você está pensando. Sou outro – disse o moço lá do alto. Mas o Sol sabia, e replicou: – É você mesmo. Desça daí que você vai morrer agora mesmo. O Juruna, então, lá da copa da palmeira, pediu ao sol que parasse primeiro um cacho de coco que ele ia jogar. -Pega primeiro este cacho que eu vou jogar. -Joga – disse o Sol. O moço jogou o cacho e o Sol pegou. Era um cacho pequeno, esse primeiro jogado.

O moço lá de cima tornou a pedir: Pega mais este. E lá de cima jogou um cacho pesado, muito grande. O Sol estava esperando com os braços estendidos para o alto. O cacho caiu direito no peito dele e o matou na hora. Ao morrer o Sol, tudo ficou escuro. A borduna, com a morte do dono, no mesmo instante correu e se transformou em cobra, a salamanta (uandáre-borduna do Sol).

O sangue que escorria do Sol ia-se transformando em aranha, formiga, cobra, lacraia e outros bichos. Essas cobras e aranhas que forravam o chão não deixavam o moço Juruna descer da palmeira. ele, então, como os macacos, foi passando de árvore para árvore. Só desceu quando viu o chão limpo. Uma vez em baixo, procurou o caminho e voltou para a aldeia. Lá chegando, disse para a mãe: -Matei o Sol. -Por que você fêz isso? eu bem não queria que você saísse. Agora está tudo escuro – a mãe, assustada, lamentou. As crianças todas começaram a morrer com a escuridão, porque ninguém podia pescar, caçar, ou trabalhar. Lá na aldeia do Sol, a mulher dele já sabia da sua morte.

Disse aos três filhos que já estavam passando fome: – IO pai de vocês morreu porque gostava de matar gente. Qual de vocês quer ficar no lugar dele? Experimentou primeiro o mais velho dos três. Este, logo que pôs na cabeça o penacho do pai, achou-o muito quente. Foi subindo, subindo, quando estava quase amanhecendo não aguentou mais o calor e voltou. Aí foi a vez do outro, o do meio. Colocou o penacho na cabeça e começou a subir. Passou um pouco da altura a que chegou o primeiro, mas não aguentou também e voltou dizendo que o calor era demais. Restava o mais novo. A mãe perguntou se ele queria ficar no lugar do pai. Ele disse que sim. Adornou-se com o penacho e subiu, mas como o calor era muito grande, andou depressa e se escondeu logo do outro lado.

De regresso à casa, a mãe lhe disse: -Você aguentou um pouco,mas é preciso andar mais devagar da outra vez, para o pessoal poder matar peixe, caçar e trabalhar. Não corre não. O filho mais moço do Sol voltou a fazer a caminhada, e fez toda ela devagar, desta vez. A mãe havia recomendado a ele que parasse um pouco quando estivesse bem no alto, no meio do caminho, e que começasse a descer bem devagar depois, parando um pouquinho também, antes de entrar duma vez do outro lado. Quando a mãe viu o filho fazer todo o caminho, como devia ser feito, chorou dizendo: -Você agora está no lugar de seu pai, e não vai voltar mais para mim. O filho lá do alto por sua vez falou: -Agora não posso mais voltar para morar com você. Vou ficar sempre aqui em cima. A mãe, ao ouvir isso, chorou outra vez.

Poronominaré – O Dono da Terra

O velho pajé Cauará saiu para pescar, demorando muito a voltar. A filha preocupada resolveu procurá-lo perto das águas mansas do rio. Após muito andar, sentou-se na relva para descansar. Anoitecia e a lua surgiu atrás das montanhas, ficando a jovem a contemplá-la. Subitamente, destacou-se do astro um vulto muito estranho que vinha em sua direção. A índia parecia hipnotizada, sendo em seguida tomada de profunda sonolência. Neste momento o pajé, que havia retornado a aldeia, preocupou-se com a ausência da filha. Tomou então um pote com paricá, pó alucinógeno que, inalado, lhe despertava os poderes de pajé, entrando assim em transe.

Muitas sombras desfilaram a sua frente e entre elas surgiu a silhueta de um homem que subia aos céus em direção à lua. Aos poucos, outras imagens foram tomando formas humanas com cabeça de pássaros, anunciando ao pajé que sua filha estava numa ilha, não muito distante dali. Imediatamente Cauará dirigiu-se ao local revelado, encontrando a moça enfraquecida e faminta. Voltaram à aldeia. Passados alguns dias, a jovem, preocupada contou ao pai um sonho impressionante: no alto da montanha ela dava à luz uma criança muito clara, quase transparente. Não havia leite em seus seios, sendo o seu filhinho alimentado por uma revoada de beija-flores e borboletas.

À sua volta, outros animais que também se encantaram com o bebê, lambiam-no carinhosamente. lgum tempo depois, a filha de Cauará notou que, embora virgem, esperava uma criança. O pajé, estranhando o fato, entrou novamente em transe. As alucinações lhe mostraram ser o homem que ele vira subir à lua, o pai de seu neto. Numa madrugada em que os animais, as aves e os insetos pareciam agitados e felizes, nasceu na serra de Jacamin o neto do pajé, Poronominaré, o dono da terra. Ao ser informado do feliz acontecimento, Cauará seguiu para a montanha para conhecer o herdeiro. Surpreso, encontrou a criança com uma barbatana nas mãos, indicando a cada animal o seu lugar na Natureza. Ao cair da tarde, quando tudo já estava em pleno silêncio, ouviu-se uma cantiga feliz. Era a mãe do dono da terra que subia aos céus, levada por pássaros e borboletas.

Sinaá – Inundação e Fim do Mundo

Sinaá, o mais poderoso pajé da tribo Juruna, era filho de mãe índia e pai onça. Do felino herdara o poder de enxergar também pelas costas, o que lhe permitia observar tudo o que se passava ao seu redor. Caminhava com sua gente por toda a região, ensinando a seus companheiros serem bons e bravos. Seu povo alimentava-se de farinha de mandioca, raspa de madeira, jabutis e sucuris, cobras imensas que habitavam na água. Certa vez, uma enorme sucuri foi capturada e queimada por haver devorado diversos índios. Inesperadamente brotaram de suas cinzas diversas espécies de vegetais, como a mandioca, o milho, o cará, a abóbora, a pimenta, e algumas plantas frutíferas, até então desconhecidas para aquela tribo.

Foi um pássaro surgido do céu que os ensinou a utilizar e preparar tais alimentos e também a fazê-los multiplicar-se. A partir daquele dia, fartas roças se formaram. Para garantir o sustento de seu povo, Sinaá, face às fortes chuvas e à ameaça de grande inundação, construiu uma imensa canoa, onde plantou mudas de cada espécie. Em poucos dias o rio transbordou e a enchente cobriu toda a região, mas o grande pajé livrou seu povo da fome. Já mais velho, Sinaá casou-se com uma aranha, que lhe teceu novas vestes pra melhor abrigá-lo. Chegando a atingir idade bastante avançada, já ostentava longas barbas brancas. Seus poderes, porém, permitiam-lhe remoçar a cada banho de cachoeira, para que pudesse viver até o fim de seu povo, como tanto queria. Quando isso ocorresse, Sinaá derrubaria a forquilha de uma enorme árvore que apontava para o céu, sustentando-o. O céu desabaria sobre todos os povos e o mundo teria o seu fim.

Begorotire – O Homem Chuva

Begorotire era um índio feliz. Certo dia, porém, havendo sido injustiçado na divisão da caça, ficou furioso, decidindo que sairia à procura de outro lugar para viver. Cortou os cabelos da esposa e da filha, pintando toda a família com uma tintura preta que havia retirado do fruto do jenipapo. Pegou um pedaço de madeira pesada e resistente, fazendo a primeira borduna Caiapó, com o cabo trançado em preto e a ponta tingida com sangue da caça. Chegou então ao alto de uma montanha, levando sua arma, e começou a gritar. Seus gritos soaram como fortes trovões. Girou fortemente a borduna no ar e de suas pontas saíram relâmpagos. Em meio ao barulho e às luzes, Begorotire subiu aos céus. Os índios assustados atiraram suas flechas, mas nada conseguiu impedir que o índio desaparecesse no firmamento.

As nuvens, também assustadas, derramaram chuva. Por isso Begorotire tornou-se o homem chuva. Tempos depois, levou toda a família para o céu, onde nada lhes faltava, e de lá muito fez para ajudar os que na terra ficaram. Juntos sementes de suas fartas roças, secou-as sobre o girau, entregando-as a uma filha para trazê-las. A índia desceu dentro de uma cabaça enorme amarrada a uma longa corda, tecida com as próprias ramas do vegetal. Caminhando pela floresta, um jovem encontrou a cabaça, amarrou-a com os cipós e pedaços de madeira e, com ajuda dos amigos levou-a para a aldeia. A mãe, abrindo a cabaça, encontrou a índia, a filha da chuva, que estava magra e com longos cabelos, por lá haver permanecido muito tempo.

A jovem foi retirada e alimentada, e teve seus cabelos aparados. Ao ser indagada, a filha da chuva explicou por que viera, entregando-lhes as sementes enviadas por seu pai e deixando a todos muito felizes. O jovem que encontrou a cabaça casou-se com a moça, passando esta a morar novamente na terra. Com o tempo, resolveu visitar os pais. Pediu ao esposo vergasse um pé de Pindaíba, trazendo a copa até o chão. Sentou-se sobre ela e, ao soltarem a árvore, a índia foi lançada ao céu. Ao retornar, trouxe consigo toda a família e cestos repletos de bananas e outros frutos silvestres. Begorotire ensinou a todos como cultivar as sementes e cuidar das roças, regressando depois ao seu novo lar. Ate hoje, quando as plantas necessitam de água, o homem chuva provoca trovões, fazendo-a cair sobre as roças para mantê-las sempre verdes e fartas.

Kuát e Iaê – A Conquista do Dia

No principio só havia a noite. Os irmãos Kuát e Iaê – o Sol e a Lua – já haviam sido criados, mas não sabiam como conquistar o dia. Este pertencia a Urubutsim (Urubu-rei), o chefe dos pássaros. Certo dia os irmãos elaboraram um plano para captura-lo. Construíram um boneco de palha em forma de uma anta, onde depositaram detritos para a criação de algumas larvas. Conforme seu pedido, as moscas voaram até as aves, anunciando o grande banquete que havia por lá, levando também a elas um pouco daquelas larvas, seu alimento preferido, para convencê-las. E tudo ocorreu conforme Kuát e Iaê haviam previsto.

Ao notarem a chegada de Urubutsim, os irmãos agarraram-no pelos pés e o prenderam, exigindo que este lhes entregasse o dia em troca de sua liberdade. O prisioneiro resistiu por muito tempo, mas acabou cedendo. Solicitou então ao amigo Jacu que este se enfeitasse com penas de araras vermelhas, canitar e brincos, voasse à aldeia dos pássaros e trouxesse o que os irmãos queriam. Pouco tempo depois, descia o Jacu com o dia, deixando atrás de si um magnífico rastro de luz, que aos poucos tudo iluminou. O chefe dos pássaros foi libertado e desde então, pela manhã, surge radiante o dia e à tarde vai se esvaindo, até o anoitecer.

Iamulumulu – A formação dos rios

Savuru era um espírito que possuía duas esposas. A pedido dos irmãos Sol e Lua, que as cobiçavam, as ariranhas o mataram, ficando sua esposa mais velha com o sol e a outra com a lua. Seguiram então os casais em direção à aldeia de Kanutsipei. Durante o caminho, os irmãos encontraram dificuldades e necessitaram da ajuda de outros espíritos: Iumulumulu lhes curou a impotência, Ierêp fez com que neles nascesse o ciúme das esposas e, uma vez cansados, pediram a Uiaó algo que os fizessem adormecer. No dia seguinte, dispostos, retomaram a caminhada. Chegando ao local pretendido, estavam sedentos e pediram água a Kanutsipei.

A água, porém, estava suja. O irmão Lua, tomando a forma de um beija-flor, voou rapidamente à procura de boa água. Ao voltar contou-lhes que o espírito os enganara, mantendo escondidos muitos potes com a mais pura água. Contrariados, os casais retornaram a sua aldeia, contando a todos o que ocorrera. O Sol e a Lua uniram-se a vários espíritos, Vanivani, Iananá, Kanaratê, os zunidores Hori-hori, invocando também os espíritos das águas que habitavam a copa do Jatobá. Chamaram ainda as máscaras Jakui-katu, Mearatsim, Ivat, Jakuiaép e Tauari. Reunidos, dançaram e resolveram voltar à aldeia de Kanutsipei para tomarem posse de sua água, quebrando todos os potes, conduzindo-a a outras regiões. Mearatsim, o primeiro a chegar, cantou para espantar o dono do local.

Chegaram então os outros espíritos, à medida que os potes foram quebrados, formou-se ali uma grande lagoa, de onde cada um dos espíritos criou um rio. Assim, o Sol criou o Rio Ronuro; Vani-vani formou o Rio Maritsauá; Kanaratê, o Paranajuva; Tracajá, o Kuluene e Iananá, um afluente do Ronuro. A formação dos rios não agradou ao Sol, pois todos corriam para o Morena, a região sagrada dos espíritos. Iniciou-se ali uma grande confusão, em meio à qual a Lua foi engolida por um grande peixe. O Sol, desesperado, saiu à procura do irmão, no ventre dos peixes que encontrava. Chegou a capturar o Tucunaré, o Matrinxã, o Pirarara e a Piranha. Mas havia sido o Jacunaum que a engolira, informou o Acará. E ambos, unidos, partiram à caça do peixe.

Pediram a Tapera (andorinha do campo) que lhes conseguisse um grande anzol, ocultando-o num charuto. O Acará nadou à procura de Jacunaum, oferecendo-lhe fumo. Desta maneira, o Sol conseguiu fisgá-lo. Entretanto, dentro do peixe, restavam apenas os ossos de seu irmão. Desejando ardentemente que a Lua revivesse, o Sol arrumou no chão seu esqueleto, cobrindo-o com as folhas perfumadas do Enemeóp. Aos poucos, como por encanto, a carne foi surgindo, revestindo os ossos até formar um novo corpo. Faltava-lhe ainda a vida. O Sol então introduziu um mosquitinho em sua narina, provocando-lhe um espirro, que a fez finalmente despertar. Assim foram criados os rios e, a partir daí, iniciou-se a prática da pajelança, tendo sido o Sol o primeiro pajé.

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Fonte:
PINTO, Wilson. As Mais Belas Lendas Brasileiras. Santa Catarina: Excelsus.
http://www.desvendar.com/especiais/indio/lendas.asp

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Folclore Indígena (Origem da Música)

No começo, nada existia sobre o mundo terrestre, que produzisse a doce melodia ou suave harmonia. Ninguém celebrava com alegres vozes os feitos mortais, ou tocava qualquer instrumento musical. A melodiosa arte e a divina ciência na combinação de sons, era desconhecida, nenhum conjunto de orquestra havia sido organizado. Homem algum exercia a sacra arte da música e não compunha nem executavam peças musicais.

Um dia, o imortal Anhum, deus do canto e neto de Tupã, o Criador, desceu dos céus e veio passear no lendário Eldorado, as margens do rio Araguaia, em companhia da deusa Solfa, sua noiva e ao entardecer, o deus ficou muito triste, porque a vida dos homens era envolvida em um tenebroso silêncio.

O próprio deus Polo passava sem ruído e Tainacam vivia sem brilho. No alto do monte sagrado, as reuniões dos divinos eram realizadas em grande quietude e as canoras aves, pouco soltavam os seus límpidos gorjeios.

Então, Anhum, desejando manifestar os diversos afetos de sua alma à amada e divina Solfa, convocou no Ibiapaba os deuses, os semi-deuses, os homens e depois de muito discutirem, resolveram sob a orientação do deus melódico, erigir a Tupã, três altares de pedra e celebrar suave dança.

Feito isso, Anhum chamou a semi-deusa Araci, em primeiro lugar, e ela desenhou na madeira uma pauta composta de cinco linhas e quatro espaços, e além destas, outras linhas e outros espaços, pondo o nome nas primeiras, de naturais e nas segundas, de suplementares superiores e inferiores.

Em segundo lugar, convocou Vapuaçú deus dos sonhos amenos e das suaves ilusões, que crioo as sete claves, representadas por três interessantes figuras às quais deu os nomes de Sol, Fá e de Dó.

Em terceiro lugar, chamou Abeguar que rapidamente colocou sobre as linhas, sete pontos que foram chamados notas. Determinou que cada clave daria seu nome à nota que fosse assinada sobre a mesma linha e conseqüentemente, determinaria os nomes de todas as demais notas que estivesses na outras linhas e espaços. Finalmente o próprio Anhum deu nome às notas que subindo são: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.

E descendo são: si, lá, sol, fá, mi, ré dó.

Depois Manati formou a primeira Harmonia, aplaudido por todos.

Em seguida, o poderoso Guarací, executou o primeiro ritmo cadente e a primeira canção.

Tujubá, o poderoso mortal apresentou os primeiros acidentes, Sustenidos e Bemóis; formou as escalas; e criou os tons, os semi-tons e os intervalos. Solfã criou o primeiro cântico divino. Saci pintou as notas de preto e deu valor à cada uma.

Quando tudo estava concluído, Tupã ficou muito satisfeito e abençoou a música que tornou-se divina.

O povo unindo suas vozes aos imortais, louvou o amorável Zéfiro, a fresca aragem e terminada a curta e bela oração que Tujubá ofereceu a Tupã, os deuses, tendo à frente o divino Inochiue (deus protetor das virgens), regressaram aos céus e nas verdejantes campinas que circundavam o Eldorado, Anhum e Solfá, louvaram em um grande e solene canto, “O sagrado Tupã e sua poderosa filha Caupé”.

E foi assim minha gente….que nasceu e estendeu-se por toda esta imensa e bela pátria, a mais bela de todas as artes: a MÚSICA.

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/Deuses%20Musica.html

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Lenda Indígena (A Chefe Naruna: A Rebelião das Mulheres)

Naruna foi eleita governante de sua tribo por ser a mais bonita.

Governava seu povo com a altivez de uma rainha, quando chegaram à aldeia uns estrangeiros de uma tribo dispersa, da qual Jurupari era o chefe.

Naruna, apesar de sua rara beleza, ainda estava solteira, não por opção, mas porque seu coração não havia palpitado mais forte por nenhum guerreiro de sua tribo.

Sendo assim, acolheu os estrangeiros e entre eles, encontrava-se Date, o mais lindo e forte dos estrangeiros que mexeu com suas entranhas de mulher. Escolheu-o então, para ser seu marido.

Date, que também tinha ficado sensibilizado com a beleza e inteligência de Naruna, aceitou-a como esposa.

Marcaram o casamento para a próxima lua. Date temia desgostar à Jurupari, mas estava perdidamente apaixonado por Naruna. Jurupari soube o que se passava pela Mãe do Sono (seu próprio sono). Então partiu com pressa para a aldeia de Naruna, mas só chegou lá no dia do casamento.

Quando começou a entrega dos presentes, Naruna ficou admirada e ao mesmo tempo fascinada com a imponente presença de Jurupari. Como ainda não estava casada com Date, num impulso pediu-o em casamento. Jurupari recusou e se ofendeu. Naruna, cheia de ódio, mandou que seus guerreiros castigassem Jurupari. Naruna, seus guerreiros e todos os índios adormeceram, ficando como que petrificados com o poder de Jurupari.

Jurupari dirige-se a Date e diz:

-“Toma esta puçanga, governa este povo e submete-o às nossas leis. Quando Naruna acordar não se lembrará que foi chefe.” A seguir desaparece na floresta.

Date colocou a puçanga, ordenou a Naruna que acordasse e fosse banhar-se no rio.

Naruna sentiu que havia perdido tudo, mas principalmente o poder de governar e então meteu-se em uma talha de cachiri e acabar de vez com seu sofrimento.

À hora da refeição, Date procurou em vão por Naruna. Colocou a puçanga no nariz e chamou-a. A talha, como se tivesse pernas parou junto dele. Date quebrou a talha e encontrou o corpo de Naruna, morta pelos vapores da fermentação do cachiri. Date enterrou-a e todas as noites ia chorar sobre sua sepultura.

Um dia, encontraram-no morto e ali mesmo foi enterrado junto a Naruna. A tribo pintou-se de urucum e maldisse Jurupari!

Na lenda, estamos diante de uma ginecocracia, isto é, um governo de uma mulher, no nosso caso, Naruna. Portanto, é possível afirmar, que já houve épocas, na Amazônia, que imperava o matriarcado, mas que esse direito foi perdido, com o aparecimento de Jurupari, o “Filho do Sol”, que instituiu novas leis sociais. Todas as mulheres então, passaram a uma condição de inferioridade.

Não satisfeitas com a nova condição e tendo em vista à forte repressão masculina, muitas fugiram e outras, como é o caso de Naruna, que não conseguiu retomar o poder, preferiu matar-se.

Date, na lenda, é considerado um dos “Filhos do Sol”, ou seja, pertencia a uma comunidade de homens, que respeitavam as duras leis de Jurupari.

O Jurupari, foi o responsável pela instituição secreta “Casa dos Homens”, que nada mais é do que um divisor de águas entre homens e mulheres, ou seja, servia para impor o caráter patriarcal no seio das tribos.

SITUAÇÃO DAS MULHERES ENTRE OS KAIAPÓS

As mulheres indígenas também são feministas, conhecem seu valor e sabem se impor diante de seus maridos e companheiros.

Na nossa sociedade indígena, em quase todas as tribos conhecidas, há igualdade entre os sexos. As restrições a certos tipos de afazeres possuem raízes mitológicas e não preconceito em relação ao sexo.

Entre os Kaiapós, do grupo Jê, as meninas chegam a puberdade por volta dos onze anos e já recebem instruções de suas mães para a utilização da planta conhecida como “mehrã-kendiô” (gente não deixa gerar), um anticoncepcional natural, com a qual fazem chás que as esterilizam por mais de um ano.

Também fazem uso de pinturas e “arapê kamrik” (bandoleira de fios de algodão na cor vermelha), para mostrar que já estão na idade de iniciar-se sexualmente. Depois elas passeiam pela tribo e arredores, para serem perseguidas pelos homens solteiros e serem desvirginadas. Quando a situação é concretizada, elas relatam aos seus pais e o acontecimento é comemorado.

Daí em diante, passam a ser consideradas adultas e vão pertencer à categoria “mekraytuk”, mulheres que possuem as coxas pintadas de preto, com direito a fazer amor com quem quiserem.

Os rapazes também passam por uma situação semelhante e são agarrados pelas mulheres. Depois de serem desvirginados, passam a pertencer à categoria menõrõnu e devem usar proteção peniana. Quando as duas categorias se encontram, praticam relações sexuais livremente.

TIPOS DE CASAMENTO ENTRE KAIAPÓS

Já o casamento entre os Kaiapós são de dois tipos. No “me-prõ-printi” (o casamento prometido ou de virgens). A cerimônia é chamada de “abénmó djuuó ngo”, que significa “gente, uns aos outros, pão dá”. Nela é realizada uma grande festa, onde são servidos beijus com castanha do pará. Durante a festa o casal recolhe-se a uma choça reservada aos nubentes, onde acontece o defloramento. Em seguida, o jovem marido deverá exibir seu pênis sujo de sangue ao Conselho dos Velhos. Caso não haja sangue, fica comprovado que o casal teria tido relações antes do casamento.

O outro tipo de casamento é o que ocorre entre aqueles que já foram iniciados sexualmente. É organizada também uma grande festa para os jovens casadouros formam semi-círculos em frente um do outro, e uma pajé manda uma moça escolher seu marido. Ela aponta o rapaz que mais lhe agradar e, esse não poderá recusar, pois caso contrário, será ridicularizado por seus companheiros. Nesse tipo de casamento não há pacto de fidelidade conjugal até que resolvam consolidar a relação com um filho.

As índias Yanomami casam-se após a segunda menstruação, o que ocorre com a idade de onze à treze anos. Com doze anos, muitas delas já têm filhos. As mulheres também participam das guerras, com medo de servirem de troféus para os vencedores.

A infidelidade feminina, muito constante nessa tribo, é perdoada em troca de uma punição: o irmão aplica uma surra nos amantes. Essa punição redime o adultério e a sociedade não condena mais a mulher.

Também o homem que gosta de se ausentar da tribo e sua mulher não fica contente com a situação, corre o risco de quando voltar já encontrar outro em seu lugar. E a mulher é sempre considerada herdeira inconteste e jamais perde a guarda de seus filhos.

RITUAL DAS AMAZONAS (MEBIÔK)

Apesar de toda essa liberdade feminina os Kaiapós, realizam uma vez ao ano o Mebiôk, o Ritual das Amazonas.

Durante sete dias, ou o período de uma lua, as mulheres se tornam donas da aldeia e instalam-se na “ngobe”, ou seja, na Casa dos Homens, proibida às mulheres. Cabe aos homens realizar as tarefas femininas, preparando os alimentos e cuidando dos filhos. À noite, eles são chamados para atender as necessidades das mulheres e provarem que são viris. É como se a época do matriarcado retornasse. Na última noite, no encontro na “ngobe” completamente às escuras, sem mostrar quem realmente são, fazem sexo até o pajé anunciar a aurora. Elas vão tomar banho e depois voltam às suas casas e a sua vida normal.

Através desse ritual, as mulheres relembram a seus maridos de que, se não as tratarem bem, elas podem se rebelar, como já fizeram suas antigas ancestrais, as amazonas.

As lendas das Amazonas não estão presentes apenas na cultura Kaiapó. Enquanto os homens xinguanos (Kamayurá, Ywalapiti, Mehinaku ou Waurá) realizam rituais como Karytu, Yawari ou Kuarup, no qual, além da mensagem mítica, pretendem reafirmar seu poder na sociedade, valorizando a beleza, a força e o vigor dos homens, as mulheres, em oposição, celebram o Yamarikumã, o ritual das Amazonas.

Esse ritual representa a rebelião coletiva contra o desprezo e a humilhação de permanecerem como simples espectadoras, assistindo às demonstrações que consideram machistas. Reagindo, elas fazem o “moitará” (o comércio de troca intertribal), batem nos maridos, apropriam-se dos seus artesanatos e das flautas sagradas, cantam, dançam e lutam “huka-huka” e promovem uma festa tão grande quanto a masculina. Essa é a forma de demonstrarem que a qualquer momento podem repetir o episódio das amazonas guerreiras e viver isoladamente.

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendanaruna.htm

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Lenda Indígena (Em Busca da Terra Sem Mal)

“Singular e assombroso o destino de um povo como os Guarani! Marginalizados e periféricos, nos obrigam a pensar sem fronteiras Tidos como parcialidades, desafiam a totalidade do sistema. Reduzidos, reclamam cada dia espaços de liberdade sem limites Pequenos, exigem ser pensados com grandeza. São aqueles primitivos cujo centro de gravitação já está no futuro. Minorias, que estão presentes na maior parte do mundo.” (Bartomeu Meliá)

Pressionada pelo avanço da colonização européia, a população Guarani que permaneceu fora das reduções e do âmbito de ação de encomendeiros e bandeirantes foi sendo paulatinamente empurrada para as matas adjacentes ao Rio Paraná. Ali permaneceu escondida e, por isso mesmo, preservada. Somente com os transtornos causados pela Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai versus Paraguai), de 1865 a 1850, esses grupos que até então viveram relativamente isolados iniciaram uma reocupação dos territórios antigamente habitados por outros grupos Guarani. Muitos criaram pequenas aldeias do Oeste brasileiro. Outros deslocaram-se em direção ao centro do país e do litoral atlântico em busca da “Terra Sem Males”. Uma dessas migrações foi acompanhada pelo indigenista alemão Kurt Unkel, batizado “Nimunedaju” pelos indígenas. Ele registrou o discurso fundador desta mobilização:

“Ñanderuvusu (Nosso Grande Pai) veio à terra e faliu a Guyrapotý(nome do xamã incubido de liderar a partida): ‘Procurem dançar!, a terra quer piorar!’ Eles dançaram durante três anos quando ouviram o trovão da destruição. A terra desabava pelo oeste. E Guyrapotý disse aos seus filhos: ‘Vamos! O trovão da destruição causa temor’. E eles caminharam, caminharam para o leste, para beira mar. E eles caminharam. E os filhos de Guyrapotý lhe perguntaram: ‘Aqui não vai surgir de imediato a ruína?’ – ‘Nâo, aqui a ruína vai surgir após um ano, dizem’ . E seus filhos fizeram roça.” (Nimuendaju, 1987, p.155).

Movimentos como esse foram consideravelmente intensificados com o avanço das colonizações brasileira e paraguaia sobre a mata contígua ao rio Paraná. O caminho percorrido por esses novos “viandantes” foi o seguinte: do Paraguai passaram para a Argentina e de lá, na busca da costa Atlântica, para o Brasil. Hoje encontram-se e pequenas comunidades desde o Rio Grande do Sul até o Pará, em terras pertencentes a outros grupos étnicos, em moradias improvisadas a beira de estradas, em terras cedidas por prefeituras ou em territórios administradas por entidades ambientalistas.

Causas do Êxodo

Na motivação que os impulsiona a caminhar aparece claramente a necessidade de ter um lugar onde lhes seja possível viver em segurança seu antigo modo de ser. A causa ultima de seu “nomadismo” deve à busca da “Terra-Sem-Males”, que, na orientação espacial do grupo, fica do Atlântico, como pode ser verificado nos seguintes cantos:

Che kyvy’i, Che kyvy’i, ereo rire Meu irmãozinho, meu irmãozinho, você se foi
Ejevy voi jaa aguã, ejevy voi jaa aguã Retorne logo, retorne logo
Jaa mavy, jaa mavy joupive’i Para irmos juntos, para irmos juntos
Para rovaí jajerojy, para rovaí jajerojy Reverenciando a Deus, no outro lado do Oceano.
(Memória Viva Guarani – Canto 04)

Ore ru, rembo’e katu ne amba roupity aguã Nosso Pai ensina-nos a chegar a tua morada.
Ñañembo’e, nãñembo’e e’i Rezemos, rezemos
Pra rovái jajapyra aguã Para atravessarmos o outro lado do oceano
ajerory, jajerovy Reverenciamos ao Pai
ajapyra aguã Para atravessar para o outro lado do oceano
(Memória Viva Guarani – Canto 04)

A causa penúltima do êxodo indígena, porém, se encontra no Oeste. Poucos anos depois

do término da “Guerra do Paraguai” ou “Guerra Grande”, o governo paraguaio outorgou ao cientista suíço Moisés S. Bertoni (1857-1929) uma superfície de 10.000 hectares de marta virgem, alienando assim uma parte da terra habitada pelos Mbyá-Guarani (Burri, 1993, p.28). Semelhantemente, outras pessoas e empresas adquiriam enormes propriedades na região. Valha como exemplo “La Industrial Paraguaya S.A”, que concentrou uma área correspondente a 17% das terras da região oriental do Paraguai (3.502.727) e dedicou-se a exploração de erva-mate (Garlet, 1997, p.41).

A causa mais gritante da atual dispersão, porém, é sem dúvida a colonização que se intensificou, na segunda metade deste século, na região de fronteira entre o Paraguai e Brasil. Uma das características da ocupação das terras dessa região é a violência com a qual a natureza foi subjugada e posta a serviço do “progresso”. A monocultura avançou derrubando matas, expulsando os indígenas que nelas habitavam ou sujeitando-os como peões baratos ‘as novas fazendas, cujos proprietários são, na maioria, brasileiros.

História nada exemplar

É curioso e “irônico” constatar que, enquanto os Mbyá-Guarani que percorrem o litoral e a região Sul do Brasil são considerados “índios paraguaios” por órgãos do Estado brasileiro – que tentam, desse modo, evadir-se da responsabilidade frente a esses indígenas -, a

terra que eles e seus ascendentes habitavam no Paraguai está, em grande parte, sob o poder dos “brasileiros de Stroessner”. Esses proprietários são chamados assim pelos paraguaios por terem adquirido a partir de 1962, no tempo do Ditador do Paraguai, grandes extensões de terra a preço baixíssimo. Nem o Brasil tampouco o Paraguai levaram em conta que, ao lotear essas terras, não estavam só se aliando para o “progresso”, mas desbaratando a fonte que abastece a economia, a sociedade e a religião de uma cultura milenar.

A vida dos Mbyá-Guarani que permaneceram na região como mão de-obra barata nas fazendas é comentada como “uma história nada exemplar” por Stefanie Burri. Vivendo já na quarta geração quase exclusivamente da “changa” (serviço esporádico remunerado), a autora nota entre esses indígenas: desintegração social e religiosa, individualismo, solidão e consumo excessivo de bebida alcoólica. Para ela, o pessimismo é maior, quando, além de saber que a “Terra-Sem-Males” já não existe, ninguém a procura.

Mas voltemos aos Mbyá-Guarani retrados por Paulo Porto Borges, esses que falam do yvy marae’y como uma terra preservada para eles e que alcançarão em breve.

A busca da “Terra Sem-Males” tem sido interpretada, erroneamente, como algo utópico, como um não-lugar. Como se, para aperfeiçoar a vida e se aperfeiçoarem, os indígenas pudessem prescindir de espaços concretos.

A Terra Sem-Males

Essa interpretação tem favorecido um certo descompromisso dos agentes indigenistas

que atuam entre os Mbyá-Guarani, no sentido de intermediar as reivindicações dos indígenas perante as instâncias decisórias do Estado. Se essa atitude persistir e não for revertida a situação atual (das 63 áreas de ocupação hoje existentes na região Sul do Brasil, pouquíssimas são demarcadas ou mesmo homologadas) para Garlet e a Assis não resta dúvida de que “o único espaço que restará aos Mbyá-Guarani será projetado para o além”.

Em parte, essa postura pode ter sido influenciada pelos próprios indígenas. No passado, estes foram contrários a demarcação de seus espaços específicos para eles, por negarem o direito à apropriação individual de bens comuns e por entenderem que a demarcação de espaços poderia obriga-los a uma sujeição ao Estado Brasileiro. Nos últimos anos, porém, os Mbyá-Guarani tem reivindicado para si o direito a terra, como é cantado na canção 09 do CD recentemente gravado por eles:

Peme’e jevy, peme’e jevy Restituam, restituam
Ore yvy peraa va’ekue A nossa terra que vocês tomaram
Roiko’i aguã Para que a gente continue vivendo

O discurso religioso que sustenta a reivindicação é a convicção de que, para alcançar a “Terra Sem-Males”, é preciso viver conforme o sistema Guarani: caçar, plantar e celebrar como um Guarani. Para tal, é imprescindível a terra (tekoha), pois, sem ela não há cultura (teko).

Particularmente, a situação fundiária dos Mbyá-Guarani acampados à beira de estradas e mais periclitante. Esses acampamentos estão situados ao longo das rodovias públicas dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Garlet e Assis escrevem a este respeito:

A preferência é por locais onde seja possível encontrar faixas de mata e alguma oferta de matéria prima para a confecção de artesanato (…). Conseqüentemente, as famílias (…) dependentes estão continuamente expostas a mais gritante miséria, enfrentando a fome, alta incidência de doenças, impossibilidade de manter ativadas práticas culturais importantes como os rituais religiosos e morando em insalubres barracos cobertos de lona plástica” (1999, p. 13)

A atitude que predomina, porém, não de desespero. Assim, quando os Guarani ouvem o branco dirigir-se a eles como quem não tem mais cultura por não ter mais tradição, eles reagem e afirmam que os Guarani existem e que existirão sempre. É o que eles tentam dizer ao mundo ao publicar suas músicas no CD “Memória Viva Guarani”. Mesmo ameaçados pelo “Mal-Sem-Terra”, têm dado um belo testemunho de amor à vida, de que vale a pena interromper a falta de esperança e entoar um canto!

Fontes:
Graciela Chamorro
Extraído do livro:Cadernos do COMIN. Os Guarani:sua trajetória e seu modo de ser.
http://www.djweb.com.br/historia/textos/terrasemmal.htm

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