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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Guiné-Bissau) Parte final

Guiné Bissau

1. A Lírica
Estamos perante o capítulo menos expressivo do espaço literário africano de expressão portuguesa. Praticamente até antes da independência nacional não foi possível ultrapassar a fase da literatura colonial. E esta mesmo de reduzida extensão. Um homem que ali viveu por largos anos, Artur Augusto, escritor dotado, de origem cabo-verdiana, colaborador do primeiro número de Claridade, em Portugal e com larga vivência na Guiné-Bissau, ficou-se, ao que sabemos, por escassos contos publicados n’0 Mundo Português (1935 a 1936). A obra romanesca de Fausto Duarte (1903-1955): Auá, 1934; O negro um alma, 1935; Rumo ao degredo, 1939; A revolta, 1945; Foram estes os vencidos, 1945, cabo-verdiano por dilatados anos radicado na Guiné-Bissau, merece uma palavra especial. Mas é difícil, não obstante o seu empenhamento humanístico e de certa objectividade social, libertá-lo do peso colonial e credenciá-lo como verdadeiro escritor guineense. Deixou um romance inédito sobre cabo-verdianos. Testemunhará ele uma nova face da romanesca de Fausto Duarte? (Benjamin Pinto-Bull defendeu ultimamente na Sorbonne tese de doutoramento, que desconhecemos, sobre Fausto Duarte).

Com efeito, da Guiné-Bissau, durante a dominação portuguesa, não veio um poeta ou um romancista de mérito. Ali foram edificadas durante esse período as condições suficientes ao entrave do desenvolvimento criativo.

Com um índice altíssimo de analfabetismo, até há cerca de duas décadas sem ensino secundário, e só nos últimos anos abrangendo o sétimo ano dos liceus, o seu primeiro jornal (Pró-Guiné) surgido apenas em 1924, as suas infra-estruturas não possibilitaram o aparecimento de gerações letradas de onde poderiam ter saído vocações capazes de se responsabilizarem pelo surto de uma literatura guineense de expressão portuguesa num país de cerca de meio milhão de habitantes.

Nas duas últimas décadas do domínio colonial apenas uma actividade cultural oficial se fez sentir, orientada, porém, para os sectores da investigação histórica e etnográfica (Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1946-1973), e sempre marcada, é evidente, pelo espírito oficial. Em nada ou pouco alteram este quadro empobrecido.

O livro de Carlos Semedo (Poemas, 1963) também não modifica os dados desta análise, até porque se trata de obra de modesta qualidade estética. Amilcar Cabral, o fundador da nacionalidade, autor de alguns poemas mas de substância cabo-verdiana, optámos por incluí-lo na parte dedicada a Cabo Verde [119].

Ainda em plena guerra colonial tinha surgido, no ano de 1973, em português, o folheto de poesia Poilão, iniciativa do Grupo Desportivo e Cultural do Banco Nacional Ultramarino. Alguns dos poetas incluídos são guineenses. As suas vozes, necessariamente resguardadas, ou desviadas, ficam insignificativas. Embora durante a guerra colonial, nas áreas libertadas pelo P. A. I. G. C, se tivesse procedido a uma profunda alfabetização, compreende-se que a sua juventude, essencialmente empenhada na luta da libertação nacional, ou então retraída que vivia na capital (Poi/ão, em certa medida, pode ser um exemplo), só agora encontre os meios necessários para se revelar no plano da criação e construir a autêntica literatura do seu país.

O primeiro sinal é dado em Janeiro de 1977, com Mantenhas para quem luta! — a nova poesia da Guiné-Bissau. Iivrinho de cento e três páginas, que reúne catorze jovens poetas, onde o mais novo tem dezanove anos e o mais velho trinta. Acompanha-o um breve prefácio onde se diz: «Hoje, somos jovens trabalhadores no campo da poesia: esta não se define para nós, em termos puramente estéticos. A forma, destinando-se a garantir a eficácia da obra, a fazê-la atingir os objectivos visados, impõe-se como elemento manifestamente importante, mas o que lhe determina a qualidade é a função, pelo valor social que possa representar». A seguir uma questão que tem a ver com o espaço linguístico da Guiné-Bissau, povoado pelas línguas-mãe, pelo crioulo e ainda pela língua oficial, o português: «Se é verdade que esta poesia se escreve actualmente em crioulo e em português, cabe-nos a tarefa da sua fixação nas línguas nacionais, enquanto depositárias dos verdadeiros valores africanos».

Agnelo Augusto Regalia desenvolve um tema comum a outros poetas africanos, como, por exemplo, Costa Andrade e Henrique Guerra: o tema do assimilado. «Fui levado/A   conhecer   a   nona   Sinfonia/Beethoven   e Mozart/Na música/Dante, Petrarca e Bocácio/Na literatura,/Fui levado a conhecer/A sua cultura…» para depois colocar a interrogação:

Mas ti, Mãe África?
Que conheço eu de ti?
Que conheço eu de ti?
A não ser o que me impingiram?
E a fome e a miséria
Como complementos…[120]

António Cabral (Mores Djassy), o tema de constância revolucionária:

Somos crianças do tempo da Revolução
Frutos das sementes de séculos de angústias
Somos crianças da luta
Restos da soma do napalm
Restos da soma do napalm e fósforo [121]

Hélder Proença, o da identidade poeta-povo:

Poema que será a arma dos oprimidos! Poema que confunde com os anseios do povo O MEU POEMA SERÁ A VOZ DO POVO [122]

E deste modo se definem algumas das linhas essenciais que nesta jovem poesia guineense se contêm. Por um lado, os poetas reencontram-se como cidadãos verdadeiramente africanos, por outro a Revolução está em marcha e a poesia (a arte), «arma dos oprimidos!», «voz do povo» vai assumir-se como parte integrante da Revolução.

Daí a denúncia, a determinada acusação: «Para onde vão/Estes troncos de íizmzo/estendidos em caixotes/Como se fossem cargas de porão» (António Sérgio Maria Davyes = Tony Davyes) [123].

«Pelo colonialista/Fui chamado Terrorista…/Como Digno Defensor da minha existência» mas «Pela história/o colonialista é o terrorista/Eis a crua verdade e realidade» (Jorge Ampla Cumelerbo = Jorge António da Costa) [124].

«Não sei quando começaste a bater-me/Em que idade/Em que eternidade/Em que revolução astral/Talvez no ventre da minha mãe» (Kôte = Norberto Tavares de Carvalho) [125].

Ou em Tomás Paquete: «A fome torcia-se, como as velas/dos barcos,/Onde os pais, por um punhado de peixe,/Deixavam viúvas/As jovens mães solteiras…/Onde os irmãos, por uma sorte de ilusão,/deixavam orfãos/os sobrinhos…» [126].

Acusação que tem como alvo imediato o colonialismo, a longa era da escravidão, feita «de dor e lágrimas», como diz António Lopes Jr.: «Prisões! Sacrifícios!/O peso da fome…/Da subalimentação/O peso da História/História de dor e lágrimas/Imposta pela violência repressiva».[127]

Ao contrário do que acontece, não só com a poesia de Cabo Verde, de S. Tomé e Príncipe como também com a de Angola e Moçambique, esta poesia da Guiné-Bissau toda ela nasce em pleno período da luta armada ou então já no período pós-libertação nacional. E natural, portanto, que alguns destes poetas se reencontrem na exaltação da «ÁFRICA MÁRTIR», dos chefes revolucionários e, sobretudo, de Amilcar Cabral. E daí também um profundo sentido gregário, uma real consciência colectiva, como em José Pedro Sequeira:

Encontramo-nos em toda a parte, / Em toda a parte irmãos: / Nos arrozais e no dendém / Nas savanas e nas hortas / Na tabanca e nos pântanos [128]

Ou ainda um largo sentido ecuménico, universal, na voz de Nagib Said:

«Quando o som do tam-tam/Levar o grito d’África/Ao cume mais alto das consciências/E os    processos    mentais    superiores    se conjugarem/Traduzidos      no      código      puro      da fraternidade» então O eco da revolução propagar-se-á Através das mil montanhas do Mundo [129]

Ou em Carlos Almada:

«Porque o sol que hoje arde/Brilha p’ra todos nós/E p’ra toda a África» [130].

Numa luta de libertação fatalmente há os que hesitam ou se destróem, mas a história o registará. Será isso mesmo que o verbo repousado, mas liricamente impressivo de José Carlos significa: «E vi na tabanca queimada devastada/As mesmas botas calcar o sangue, o corpo a morte inocente/De crianças da tua cor, do teu credo perdido/E soube que na terra em pranto pela tua afronta/Tu terias uma morte desenraizada» [131].

«[…] Contribuição militante a todo um processo de desenvolvimento cultural que decorre no nosso País», como se afirma no Prefácio, ela não podia deixar de ser também a expressão da libertação, da esperança, de uma colagem ao futuro, e aqui vem a propósito citar dois nomes, Armando Salvaterra: «Qu’importa que eu não venha/A saborear os frutos da própria árvore?/Que é isso/Ao pé da inabalável certeza desse dia admirável?!…[132]

E Justino Nunes Monteiro (fusten):

Libertar a África, / Libertar o Homem / Libertar o tam-tam e o Korá / Libertar o canto das crianças e o grito sufocado da esperança. / Uma esperança vermelho-sangue / Temperada na luta e na morte / Abrindo um caminho novo [133]

Em resumo,

«arma de combate, ferramenta de construção, ela [a poesia] forja-se no quotidiano árduo mas exaltante da Nação emergente, contribuição modesta no património da Humanidade, por uma Revolução Cultural», são ainda palavras do citado Prefácio.

2.    A EXPRESSÃO EM CRIOULO

Entre as várias etnias circula o dialecto crioulo (semelhante ao de Cabo Verde: criado na Guiné ou levado para lá?) [133] e parece cada vez mais, a esse nível, tender a funcionar como língua de contacto, sobrepondo-se às línguas de várias etnias, até porque progressivamente aumenta o seu número de utentes. Só recentemente as tentativas poéticas em dialecto crioulo começam a ganhar o espaço textual. Não só nas canções, nos cantos revolucionários, gravados em disco, como também na lírica que desponta. Curiosamente, no entanto, em Mantenhas para quem luta! há apenas duas poesias em crioulo, e subscreve-as José Carlos.
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Notas:

119 Amílcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau, filho de pais cabo-verdianos. Viveu em Cabo Verde desde criança e ali concluiu o curso dos liceus. Isto explica a natureza da sua poesia.

120 Agnelo Augusto Regalia, «Poema de um assimilado» in Conselho Nacional de Cultura (Guiné-Bissau), Mantenhas para ai, 1977, p. 15.

121    António Cabral, «Somos crianças», idem, p. 22.

122    Hélder Proença, «Escreverei mais um poema», idem, p.51.

123    Tony Davyes, «Desespero», idem, p. 26.

124    Jorge Ampla Cumelerbo, «O julgar pertence à história», idem, p. 55.

125    Kôte, «Soba Quinty», idem, p. 86.

126    Tomás Paquete, «Ao acaso… no mar …», idem, p. 93.

127    António Simões Lopes Jr. «Abusivamente», idem, pp. 29-30.

128    José Pedro Sequeira, «A vida real dos homens nossos irmãos, idem, p. 67.

129    Nagib Said «A agonia dos impérios», idem, p. 80.

130    Carlos Almada, «Geba», idem, p. 46.

131    José Carlos, «Morte desenraizada», idem, p. 61.

132    Armando Salvaterra, «Depois de mim», idem, p. 39.

133    Justen, «Poema», idem, p. 73.

134 Foi sempre considerável a comunidade cabo-verdiana na Guiné-Bissau. Tenhamos presente que esta ex-colónia portuguesa esteve administrativamente vinculada a Cabo Verde até 1879.

FIM

BIBLIOGRAFIA PASSIVA
(selectiva)

Nota:
Dada a impossibilidade de irmos além de uma bibliografia selectiva, aceitamos correr o risco de qualquer omissão discutível ou involuntária.

Aconselhamos, porém, aos que estiverem interessados, a consulta com destaque para Alfredo Margarido, Mário Pinto de Andrade, Jaime de Figueiredo, António Aurélio Gonçalves, Mário António, Pires Laranjeira, Serafim Ferreira e Manuel Ferreira. Útil poderá ser também a leitura de prefácios a algumas das obras mencionadas, como as de Agostinho Neto, Costa Andrade, Manuel Rui, Bobella-Mota.

Por certo que a Bibliografia africana de expressão portuguesa de Gerald Moser e de Manuel Ferreira, no prelo, será um guia indispensável.

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Fonte:
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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (S. Tomé e Príncipe – 2. Narrativa, 3. A Expressão em Crioulo)

2.    NARRATIVA

Modestíssima, quantitativa e qualitativamente, é a narrativa de S. Tomé e Príncipe. As esporádicas experiências de Viana de Almeida (Maiá Pòçon, contos, 1937) e de Mário Domingues. (O menino entre gigantes, 1960) não chegam a ser uma contribuição relevante. O primeiro, nesse tempo, prejudicado ainda por um ponto de vista subsidiário de uma época colonial; o segundo (também natural de S. Tomé e Príncipe, mas tornado escritor português pela obra e pela radicação) talvez pela carência da dramatização da personagem principal, o mulato Zezinho, nado e criado em Lisboa. De acaso teria sido o conto «Os sapatos da irmã», sem qualquer relação com S. Tomé, que Francisco José Tenreiro, em 1962, publicou na colectânea Modernos Autores Portugueses (Lisboa). Acidentais ainda, mas já com uma visão ajustada a um real africano, foram também as experiências de Alves Preto, limitada, cremos, a dois contos: «Um homem igual a tantos» e «Aconteceu no morro» [118]. E ainda o caso de Sum Marky (i. e. José Ferreira Marques), branco nascido em S. Tomé, autor de vários romances, de importância discutível, alguns no entanto parcialmente com interesse, valendo citar Vila Flogá, 1963, como testemunho acusatório da exploração colonialista.

3.      A EXPRESSÃO EM CRIOULO

Não obstante ser bilingue, visto que a população utiliza, além da língua portuguesa, o crioulo de S. Tomé, a criação literária é reduzida em dialecto, domínio que a tradição oral vem monopolizando com substancial interesse. Praticamente conheciam-se as composições poéticas de Francisco Stockler e uma experiência de Tomaz Medeiros. No entanto, após a independência nacional, parece haver sintomas de uma revitalização no uso literário do crioulo, ao nível popular, pelo menos a partir de agrupamentos musicais. Exemplo são os casos dos caderninhos de Sangazuza e o caderno do Agrupamento da Ilha, 1976, compostos de músicas revolucionárias e, de um modo geral, vertidos em nimbas, sambas, marchas, valsas, boleros e sòcòpés.
––––––––-
Nota
[118] Alves Preto, «Um homem igual a tantos» in Mensagem. Lisboa, Casa dos Estudantes de Lisboa, ano II, n.° 2, fevereiro de 1959, pp. 21-23. «Aconteceu no morro», idem, ano II, n.°s 5-6,1960, pp. 2-6.

Continua…Guiné-Bissau

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (S. Tomé e Príncipe – 1. Lírica)

1.    LÍRICA

Em capítulo anterior assinalámos que Caetano da Costa Alegre, poeta oitocentista são-tomense, fora o primeiro, em todo o espaço africano de língua portuguesa, a dar ao tópico da cor um tratamento poético, embora numa visão marcadamente alienatória, constituindo-se como produtor de uma expressão de negrismo.

Curiosamente é também são-tomense o poeta que primeiro, em língua portuguesa, chamou a si a expressão da negritude. Trata-se de Francisco José Tenreiro (1921-1966), que irá assumir uma posição inversa à de Costa Alegre. Desalienado, liberto dos mitos da inferioridade social, identifica-se com a dor do homem negro e repõe-no no quadro que lhe cabe da sabedoria universal:

Mãos, mãos negras que em vós estou sentido!
Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a
[rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbila
[que é o mesmo dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em
[coração [103].

A sua voz é a voz real do homem africano, uma voz que vem das origens e ressoa no tempo: «cantando: nós não nascemos num dia sem sol!», e aí vamos com essa raça humilhada percorrendo a «estrada da escravatura», mas entretanto iluminada por «um rio» que «vem correndo e cantando/desde St. Louis e Mississipi.» (Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 100).

Poeta bivalente («Nasci do negro e do branco/e quem olhar para mim/é como que se olhasse/para um tabuleiro de xadrez») [104] na sua vocação para exprimir o mulato, que ele era, e o negro, que ele era, fundindo-se assim no poeta africano que ele foi, guinda-se à categoria de poeta da negritude de expressão portuguesa, e tão lucidamente que o surto da literatura angolana e moçambicana, que se impôs a partir de cinquenta, e muito lhe deve, o não teria ultrapassado na pertinência e na genuinidade dos temas.

Interessante notar que a estrutura externa da poesia de F. J. Tenreiro adquire características diferentes, consoante a substância manipulada: poemas longos de longos versos para a negritude, poemas curtos de curtos versos enquanto poeta mestiço:

Dona Jóia dona dona de lindo nome; tem um piano alemão desafinando de calor [105].

Ou então:

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas
[de Guillén de coração em África com a impetuosidade viril de I too
[am American
de coração em África contigo amigo Joaquim [106] quando
[em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do [Congo de coração em África [107]

Há uma distância solar, como se vê, entre a humilhação da Costa Alegre e a glorificação dos valores culturais africanos por parte de Francisco Tenreiro que obviamente corresponde à amplitude consciencializadora que vai do século XIX ao século XX.

O discurso de Alda do Espírito Santo descreve-se entre o relato quotidiano da ilha, impregnado de alusões simbólicas de esperança, ou do registo de anseios de transparência política: «uma história bela para os homens de todas as terras/ciciando em coro, canções melodiosas/numa toada universal» 108 até ao clamor da revolta de um povo oprimido como em «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura»:

Que fizeste do meu povo?…
Que respondeis?…
Onde está o meu povo?…
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça…
Um a um, todos em fila…
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome [109].

O mesmo clamor da revolta percorre o discurso de Maria Manuela Margarido:

A noite sangra no mato,
ferida por uma lança de cólera [110].

A cólera. A revolta. Duas constantes que, associadas ao movimento dialéctico da vida que tudo destrói e reconstrói, trazem a esperança: «Na beira do mar, nas águas,/estão acesas a esperança/o movimento/a revolta/do homem social, do homem integral», e é ainda o verbo de Maria Manuela Margarido. Daí a certeza inscrita no devir histórico:

No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.

Em meio da denúncia (do «cheiro da morte»), da acusação («eu te pergunto, Europa, eu te pergunto: AGORA?») [112] perpassa a certeza. Ou a esperança. Não mera esperança idealista. A esperança concretizada na dialéctica do real. Tomaz Medeiros:

Amanhã,
Quando as chuvas caírem, As folhas gritarem d’esperança Nos braços das árvores,
Irei
Desafiar os mais trágicos destinos,
à campa de Nhana, ressuscitar o meu amor.
Irei [113].

Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, mais do que a fala de cada poeta ela se consubstancia na voz colectiva do homem são-tomense. Mas não só poesia de signos, de símbolos, de imagística protestatária, aliás de descodificação facilitada. Não só poesia de anunciação e assunção. Não só. Poesia tocada pelo afago lírico das coisas da «Ilha Verde, rubra de sangue». As «palmeiras e cacoeiros», «o aroma dos mamoeiros», o «cajueiro»; as «modinhas da terra», os «murmúrios doces dos silêncios», «as canoas balouçando no mar», o «sòcòpé», os deuses e os mitos, «orações dos ocas», os «cazumbis».

Por derradeiro, Marcelo Veiga. Numa ordem cronológica Marcelo Veiga (1892-1976) deveria ter sido considerado logo após Costa Alegre. Marcelo Veiga, pequeno proprietário da ilha do Príncipe, estudou no liceu em Lisboa, aqui viveu por períodos intermitentes, foi amigo de Almada-Negreiros, Mário Eloy, Mário Domingues, José Monteiro de Castro, Hernâni Cidade. Passou despercebido até ao momento em que Alfredo Margarido o incluiu na antologia por ele organizada e publicada, da Casa dos Estudantes do Império, Poetas de S. Tomé e Prínrípe (1963). Ultimamente obtivemos alguns poemas seus, inéditos, datados a partir de 1920, cedidos pelo poeta, pouco antes de falecer na sua ilha. Ele dá, assim, antes de F. J. Tenreiro, o sinal do «regresso do homem negro», o sinal da negritude não só em S. Tomé e Príncipe como em toda a área africana da língua portuguesa: «África não é terra de ninguém,/De qualquer que sabe de onde vem, […] A África é nossa!/É nossa! é nossa!» [114].

Eis, nítida e insofismável, a consciência da revolta:

Filhos! a pé! a pé! que éjá manhã!
Esta África em que quem quer dá co’o pé,
Esta negra África escarumba, olé!
Não a q’remos mais sob jugo de alguém,
Ela é nossa mãe! [115]

Irónico,   mordaz,   a   língua   destravada   e   rebelde, associada ao veneno lúcido da desafronta:

«Sou preto — o que ninguém escuta;
O que não tem socorro;
O — olá, tu rapaz!
O — ó meu merda! O cachorro!
O — ó seu filho da puta!
E outros mimos mais…[116]

Ou

O preto é bola, É pim-pam-pum! Vem um:
Zás! na cachola…
Outro — um chut — bum! [117]

A terminar, diríamos que a poesia de S. Tomé e Príncipe constitui uma expressão africana mais uniforme do que a de Moçambique ou mesmo de Angola, ainda considerando a franja de mestiçagem que a percorre. Construída apenas por negros ou mestiços, este punhado de poetas baliza a área temática no centro do universo da(s) sua(s) ilha(s) e organiza um signo cuja polissemia é de uma África violentada, inchada de cólera, a esperança feita revolta.
–––––––––
Notas

103    Francisco José Tenreiro,  Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 90.

104    Idem, idem, p. 48.

105    Idem, idem, p. 120.

106    Trata-se  de Joaquim  Namorado.  Autor  do  poema «África», publicado n’0 Diabo, n.° 309, 24 de agosto de 1940, a primeira expressão literária duma visão dialéctica de África, enquanto   continente  explorado,  por  parte  de  um  poeta português que nunca viveu no continente africano.

107    Francisco José Tenreiro,  Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 11.

108    Alda do Espírito Santo, «Em torno da minha baía» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 64. Tem como referência o massacre de Batepá ocorrido em S. Tomé, em fevereiro   de   1953,   sendo   governador   o   tenente-coronel Gorgulho.

109    Idem, «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura», idem, pp. 65-66.

110    Maria Manuela Margarido, «Roça» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 81.

111    Idem, «Paisagem», idem, p. 81.

112    Tomaz Medeiros, «Meu canto Europa» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 76.

113    Idem, «Caminhos» in «Cultura» (II), n.°s 9-10. Luanda, dezembro de 1959.

114    Marcelo Veiga, «África é nossa» in M. Ferreira No reino de Caliban, 2.° vol., 1976, pp. 466-467.

115    Idem, idem, p. 466.

116    Idem, «Regresso do homem negro» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1964, p. 87.

117    Idem, «A João Santa Rosa», idem, p. 89.

Continua…

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Cabo Verde – 3. Drama, 4. Biunguismo Cabo-Verdiano)

3.    DRAMA

Uma das formas menos expressivas desta literatura é a área do teatro. O que não deixa de encontrar um correspondente histórico na formação da literatura portuguesa e também brasileira. Isto, de uma maneira geral, aplica-se a todas as ex-colónias portuguesas. Pode dizer-se que, em Cabo Verde, no domínio da arte teatral, há apenas «Terra de sôdade — argumento para bailado folclórico», de Jaime de Figueiredo, publicado na revista Atlântico, em 1946, [98] até hoje à espera de merecer as atenções de uma encenação.

4.    BIUNGUISMO CABO-VERDIANO

É bilingue o povo cabo-verdiano, já anteriormente o dissemos.   Além   da   língua   portuguesa   exprime-se também através do seu dialecto ou da língua crioula que, no plano das relações quotidianas, possui uma total implantação que falece à língua portuguesa.

E se foi longo o tempo necessário para o escritor cabo-verdiano alcançar uma consciência regional enquanto autor de língua portuguesa, cedo porém ele a revelou intuitivamente enquanto autor dialectal, facto que o distingue dos outros povos dos novos países africanos. Vem de tempos recuados e desenvolve-se no século XIX, paralelamente às criações em língua portuguesa, a produção popular em dialecto crioulo, sobretudo veiculada através da morna (mais de dois séculos de existência?) — a grande expressão artística do homem crioulo — das canções populares, das finançons (canções de batuque), do curcutiçans (canções de desafio — ilha do Fogo), de que se podem encontrar alguns exemplos na revista Claridade. Há, assim, um importante substracto dialectal popular que estimularia a produção literária, hoje também enriquecida com a recente exploração da coladeira.

Um dos pioneiros, o cónego António Manuel Teixeira, do Seminário-Liceu da ilha de S. Nicolau, responsável pelo Almanache Luso-Africano, (2 volumes: 1894 e 1899) neste fez publicar algumas tentativas literárias dialectais. Em 1910 José Bernardo Alfama publica Canções crioulas. Saliente-se, no entanto, um Eugênio Tavares (Momos — cantigas crioulas, 1932) [99], um Pedro Cardoso (poeta bilingue), Folcolore cabo-verdeano (1933), de facto dos primeiros a elegerem o crioulo à dignidade de língua literária. Mais perto do nosso tempo, apontam-se Sérgio Frusoni (1901-1975), um caso interessante de aculturação, já que é filho de italianos; Mário Macedo Barbosa, Jorge Pedro, Ovídio Martins (Caminhada, 1962: parte em dialecto crioulo), Luís Romano (Ljçimparim-Negrume, 1973), Gabriel Mariano, Kaoberdiano Dambará (Notí, s/d, [1968?]), Artur Vieira, Sukre D’sal, Tacalhe, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Arménio Vieira, etc.

Instrumento essencialmente afeiçoado à recriação de manifestações de índole lírica, o caso de Beleza, um dos mais populares troveiros do Arquipélago, nestes últimos anos é notório o esforço para a sua utilização cada vez mais ampla. No fundo, a produção literária em crioulo, do ponto de vista ideológico, descreve sensivelmente uma curva evolutiva próxima da língua portuguesa; a uma fase lírica e, por vezes, de conotação social sucede uma fase marcadamente ideológica: protesto e intervenção política. «Ca tem nada na es bida/Más grande que amor» ” diz Eugênio Tavares. Ou Pedro Cardoso na apropriação de raiz popular, com intencionalidade social: «Coitado quem dixâ sê terra,/Sêl dixâ nél sê coraçam» 10°. Sérgio Frusoni, uma voz apaixonada do quotidiano ínfimo, adensado por recursos de subtil ironia: «Exe spancadura que bo titã uvi,/ca ê roncadura de pomba, nem vôo de pardal.» (in Claridade, n.° 9, 1960, p. 77).

Com Ovídio Martins o corte ideológico é de vez: «Hora titã tchgá/nhas gente», que Kaoberdiano Dambará persegue em Noii, num deliberado apelo à revolução, e vamos encontrar ainda em Kwame Kondá (Kordá Kaobardi, 1974). Veiculando quase exclusivamente a poesia, cabe a Luís Romano, um dos que de modo apaixonado reclamam a integral cidadania do dialecto, ensaiar com pertinácia a primeira experiência de tomo: L^mparim-Negrume (1973), já citado, que reúne não só poesias como vários contos em crioulo de Santo Antão, acompanhados da tradução livre em português.

Acrescentaríamos ainda que, apesar de tudo quanto dissemos sobre o que aproxima ou afasta Claridade e Certeza, enquanto a primeira logo no seu primeiro número abre a primeira página com uma canção de Beleza, numa evidente preocupação de consagrar o dialecto crioulo, e em números posteriores essa preocupação ganha volume, Certeza desconhece o dialecto crioulo. Travado e combatido pelas entidades coloniais, nem por isso esta raiz vivaz feneceu. Acreditamos estar-lhe reservado, no futuro, papel de relevo na representação de muitos aspectos do homem cabo-verdiano. E mais: estamos, de consciência, convictos de que a longa e radiosa caminhada do dialecto crioulo, com ou sem escolaridade, irá provocar uma correcção, nos domínios da sociolinguística e da psicolinguística que parecem admitir ou predizer o desaparecimento de uma língua quando ela, não sendo ensinada, tem de suportar a concorrência falada de outra ou outras que o são [101].

Se o dialecto crioulo é, como se sabe, a língua-mãe do cabo-verdiano e a língua portuguesa, em muitos casos, a língua aprendida supletivamente, seria de admitir que, ao nível da competência, o escritor cabo-verdiano se sentisse mais seguro na expressão literária dialectal. Porém, isso só acontece, em termos gerais, e com algumas excepções (Eugênio Tavares e Sérgio Frusoni podem ser dois exemplos), no plano da poesia popular. Tal paradoxo (aparente? ou provisório?) provém não só da carência de organização estrutural teórica da língua cabo-verdiana, como também de uma prolongada e fecunda tradição literária escrita sem a qual uma língua não alcança a maleabilidade e a ductilidade que a autêntica criação literária exige [102].

RAÍZES (nota final)

Por fim, uma palavra para a revista Raízes, 1977 *. E porque se trata de um acontecimento na vida cultural do Cabo Verde libertado se transcreve a nota de abertura: «De um encontro de intelectuais cabo-verdianos, irmanados pelo ideal da libertação, da independência e do progresso da sua Pátria, e vivificados pela seiva haurida de raízes comuns aprofundadas no seu chão, nasceu a ideia da publicação que hoje se apresenta, limitada pelo condicionalismo do meio mas aberta pelo espírito generoso dos seus colaboradores, vindos das tendências mais díspares mas unidos pelo ideal comum que da revista é signo: — uma condição cabo-verdiana, africana e de cidadania do Mundo; uma autenticidade nascida da liberdade dessa condição; uma independência assente nas comuns RAÍZES».

A novidade está em que o ideário de Raízes se cumpre na isotopia de uma longa jornada já nossa conhecida: Claridade, Certeza, Suplemento Cultural, «Sèló». Os cabo-verdianos que neste número se inscrevem, com excepção para Tacalhe e Jorge Carlos da Fonseca, foram colaboradores de uma ou de outra daquelas publicações. Neste espaço breve diremos, em jeito de síntese que, tudo quanto enunciámos, de um modo geral se confirma em relação aos autores agora presentes em Raízes (e de novo chamamos a atenção para Arménio Vieira e Mário Fonseca).

Que a Revolução, obviamente, é enunciado de muitos textos. Que Ovídio Martins, atento à mudança da «situação de discurso», transfere a prática poética, que se centrava no contexto violentado e repressivo, para a reconstrução nacional («Devagar a reconstrução nacional avança. Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a amor») na opção de uma prática pedagógica (Guillén do após a revolução cubana é o nome que nos ocorre). Que Osvaldo Alcântara nos parece ter agora a seu lado um companheiro de jornada (estética): Jorge Carlos da Fonseca, pelo menos um certo Osvaldo Alcântara e um certo J. Carlos da Fonseca. Que um novo poeta se anuncia: Pedro Duarte, e um novo narrador se vai confirmando: Osvaldo Osório. Que o drama continua à espera de dramaturgos. Que dos vinte e três poemas publicados, apenas um é em crioulo. Que Raízes, sendo um acto de qualidade e inteligência é, também, uma decisão revolucionária.

* Chega-nos às mãos em cima da revisão das provas deste trabalho. Editada na cidade da Praia, ilha de Santiago, dirigida por Arnaldo França, tem como colaboradores: ensaio — Mário de Andrade e Arnaldo França, Jaime de Figueiredo; ficção — António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Oswaldo Alcântara, Ovídio Martins, Corsino Fortes, Mário Fonseca, Tacalhe, Arménio Vieira, Jorge Carlos da Fonseca, Pedro Duarte e Jorge Miranda Alfama. Ilustração de Manuel Figueira e Osvaldo Azevedo. Capa de Pedro Gregório.
––––––––––-
Notas:
98 Jaime de Figueiredo, Terra de sôdade — argumento para bailado folclórico em quatro quadros, in Atlântico, nova série, n.° 3. Lisboa, 1946, pp. 24-42.

99    Eugênio Tavares, Mornas — cantigas crioulas, 1932, p. 27.

100    Pedro Cardoso, Folclore caboverdiano, 1933, p. 71.

101    Os principais trabalhos de autores cabo-verdianos sobre o dialecto  crioulo  são:  Baltasar Lopes:  «Uma experiência românica nos trópicos», I e II in Claridade, n.° 4, 1947, pp. 15-22, e n.° 5, 1947, pp. 1-10; O dialecto crioulo de Cabo Verde, 1957; Maria Dulce de Oliveira Almada; Cabo Verde — Contribuição
para o estudo do dialecto falado no seu Arquipélago, 1961.

102    Após a independência, nos dois actuais jornais cabo-verdianos: Voz di Vovô (Santiago) e Nossa Terra (Fogo), para além de inúmeros versos em dialecto, vêm sendo publicados vários   textos   em   prosa,   deixando-nos   a   impressão   de subscritos, uns e outros, na generalidade, por quem pela primeira vez experimenta a mão. De qualquer modo, o facto surpreende    e    exige    ser    acompanhado    com    atenção. Surpreende, mas relativamente, claro. Deverá ter-se em conta a circunstância de anteriormente à independência, o mensário Repique do Sino (ilha da Brava) ter sido durante muito tempo repositório de textos dialectais, sobretudo em verso.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Cabo Verde – 2. Narrativa)

2.     NARRATIVA

Embora o primeiro texto ficcional da moderna literatura cabo-verdiana se deva a Manuel Lopes («Um galo que cantou na baía» in Claridade, n.° 2, excerto do conto mais tarde inserido no livro, sensivelmente com o mesmo título (1959), é com o romance Chiquinho (1947) de Baltazar Lopes que se abre a série da ficção cabo-verdiana. Narrativa a todos os títulos importante como expressão do mundo insular e ainda pela reinvenção da escrita   que   se   organiza,   em   parte,   a   partir   da incorporação na linguagem de signos, expressões ou formas sintácticas dialectais. Longe, é certo, da ruptura abissal que o brasileiro Guimarães Rosa ou o angolano Luandino Vieira mais tarde levariam às últimas consequências.

É legítimo, no entanto, considerá-lo pioneiro na busca de processos para a construção de novas línguas no espaço africano de expressão portuguesa; e, para melhor se poder avaliar deste mérito, há que ter em conta que a sua experiência data de 1938, altura em que aquele romance foi acabado. Isto se pode aplicar enquanto contista disperso por revistas, incluindo Claridade. E se é legítimo adiantar-se que a ruptura iniciada por este narrador é ponto corrente em quase toda a narrativa cabo-verdiana, não menos legítimo é dizer que nenhum outro autor logrou ir tão longe nem tão conseguida pesquisa foi obtida em qualquer outro como em Baltazar Lopes. Alguns, mesmo, preferiram a utilização do português fundamental, com o recurso normal a signos dialectais, embora os diálogos das personagens de extracção social popular (são a maioria) se construam de harmonia com a sua fala e, neste caso, as interferências do dialecto crioulo sejam notáveis e constantes.

Não nos esqueçamos de que se trata de um espaço bilingue e que o dialecto crioulo pode ser considerado uma língua novi-latina (a língua cabo-verdiana) de léxico na sua quase totalidade (noventa e sete por cento) oriundo da língua portuguesa, e naturalmente a reapropriação (com tudo quanto a palavra implica: reelaboração fonética, morfológica, sintáctica e semântica) continuada de palavras (sintagmas) portuguesas por parte do dialecto crioulo que são depois devolvidas, já modificadas, à escrita em português. Eis assim um português cabo-verdianizado onde, inclusive, por vezes, o eixo sintagmático é alterado. Quer a narrativa quer a lírica se enriquecem pelos mais variados processos de reconstrução linguística: convivência, hibridismo, neologismo s e daí a novidade, a invenção permanentemente revelada do insupeitado lastro de uma linguagem de recursos inesgotáveis.

Com obra ficcional publicada, além dos autores assinalados, são António Aurélio Gonçalves, Teixeira de Sousa, Teobaldo Virgínio, Luís Romano, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Onésimo Silveira, Nuno Miranda, João Rodrigues (Montes Verde-Cabo, 1974), Artur Carvalho (Um natal em S. Miguel, 1975), Orlanda Amarilis. Isto sem a exclusão de outros nomes, como Virgílio Pires, estreado em 1958 (n.° 8 de Claridade) e tido como revelação incontestável; Maria Margarida Mascarenhas, que participou em «Sèló» e com larga colaboração no Cabo-Verde e Presença crioula (Lisboa), evidenciando qualidades de mérito real; Pedro Duarte, Francisco Lopes, Manuel Serra, Leitão Graça, Aydeia Avelino Pires, mas estes últimos quase episodicamente, através do Cabo Verde, sem terem dado a medida exacta do seu talento; e também a recente amostra de Oswaldo Osório (vide excertos de romance in Voz di Povo, 1976), demasiado exígua para que possamos formular um juízo consciente.

Já há largos anos, Oscar Lopes, a propósito da Antologia de ficção cabo-verdiana contemporânea (1960) [94] e de outras obras da ficção cabo-verdiana, pronunciava-se nestes termos: «Eu agradeço à literatura de autoria ou temática cabo-verdianas umas horas de leitura vivamente interessada: o prazer de tantas pequenas ou grandes obras (refiro-me a dimensões gráficas) surpreendentemente bem consumadas» [95].

Com efeito, os narradores cabo-verdianos a partir de Claridade souberam centrar-se no mundo específico insular e procederam a uma denúncia muito viva da sociedade a que pertenciam. Nesta primeira fase era natural que estivessem todos eles sensíveis aos dramáticos problemas do Arquipélago: a seca, a fome, a emigração. (Pode mesmo dizer-se que a fome, é a grande personagem da narrativa cabo-verdiana). São elas algumas das grandes linhas temáticas da ficção cabo-verdiana. Mas na certeza de que a partir dessas motivações se desencadearia e, por vezes, de modo seguramente logrado, o tratamento de muitos dados e aspectos da vida social, económica, cultural. Níveis de vida, níveis de língua, níveis de cultura, personagens várias, populares ou não, de miséria ou grandeza, ali se fixaram, mercê da capacidade de análise social e psicológica, capacidade criadora, diríamos invulgar. Se a uma literatura do terceiro mundo buscarmos a expressão da sua própria mundividência, a expressão do seu universo específico, a resposta cabo-verdiana é positiva.

Baltazar Lopes abriu o caminho e como que muitas das propostas dos escritores que vieram depois por ele tinham já sido postuladas. Mas os segmentos sociais foram-se alargando, desenvolvendo, enriquecendo. Ao mundo da fome, da tragédia, de germinação da consciência política e da miséria social — à emigração, por exemplo, e ao mundo mítico que a envolve, com incidência na ilha de São Nicolau da parte de Baltazar Lopes — sucede o mundo epopaico de Manuel Lopes (Chuva brava, 1956; os contos O galo que cantou na baía, 1959; Os flagelados do vento leste, 1960) na ilha de Santo Antão, atravessado também pela fome, mas colocando o grande dilema de ter necessidade de partir, querendo ficar, terminando por ficar, o que contraria a tese da radicalização do evasionismo atribuído a Claridade.

Pretendeu-se, infundadamente, acusar de «paisagística» (e de muitas outras coisas más) a ficção cabo-verdiana subscrita pelos «claridosos», não sabemos se, em grande parte, com o pensamento em Manuel Lopes. Acusação estranha e injusta, chegando a dar a impressão de que Onésimo Silveira, autor de Consciencialização na literatura cabo-verdiana (1963), onde o fenómeno foi desencadeado, teria falado daquilo que não conhecia ou conhecia mal, pelo menos naquela altura. Os romances de Manuel Lopes constituem uma inserção vigorosa no real cabo-verdiano, profundamente desagregado em tempo de fome provocada pela estiagem. Podemos lamentar que aos seus romances faleça uma perspectiva aberta ao futuro. O drama cabo-verdiano surge, por assim dizer, como uma fatalidade e por isso limitado na visão estática do autor-narrador. Mas, de um ou de outro modo, é inegável a sua significação literária e a importância capital que preenche na ficção cabo-verdiana.

Luís Romano (Famintos, 1962) vem situar a acção também na ilha de Santo Antão, juntando ao mundo destruído pela fome o mundo da repressão administrativa e laborai. Pensamos, no entanto, que um certo verbalismo, na fala das personagens funciona como interferências longas do narrador que prejudica o equilíbrio da estrutura romanesca. Documento generoso e libelo acusatório, virtude é, certeza, o largo recurso do léxico dialectal, inesgotável em Luís Romano. Onésimo Silveira da sua permanência em S. Tomé trouxe a experiência do homem cabo-verdiano em tempo de fome emigrado para as roças daquele Arquipélago, de que e testemunho o conto longo Toda a gente fala: sim senhor (1960).

Teobaldo Virgínio, irmão de Luís Romano, situando o desenvolvimento das suas narrativas no espaço social da mesma ilha de Santo Antão, primeiro em Distância (1963) e Beira do Cais (1963), inclui naquele uma expressão telúrica, sensual, em que os elementos líricos e romantizados se fundem na coexistência de um humor irreverente, ao mesmo tempo que uma aderência ao drama real do homem cabo-verdiano se desenvolve no dom da invenção de uma linguagem de carácter poético, muito viva. Em Vida crioula (1967), escrito em Luanda, transita para uma visão de apelo teórico e sentimental às raízes da crioulidade e para a adesão universal, um tanto como aconteceu com a sua última poesia. Ovídio Martins (Tcòucòinòa, 1962) procede à abordagem da amorabilidade e do sentimento profundo do envolvimento lírico e social da terra, abandonando, depois, pelos vistos, a narrativa.

Gabriel Mariano (O rapaz doente, 1963) acaba, porém, de reunir em volume (Vida e morte de João Cabafume, 1977) a quase totalidade dos seus contos dispersos por várias publicações, com relevo para o Cabo Verde. Agora sujeitos a cuidada revisão, dão-nos a medida inteira de um contador de histórias grudado ao real significativo do homem cabo-verdiano. Narrador, personagens, ambientes se identificam através de uma linguagem cabo-verdianizada, sabiamente estruturada para a expressão da epopeia quotidiana feita de sofrimentos, anseios, frustrações, desencontros e grandezas, e onde também o drama da subalimentação crónica tem a sua fala expressiva. Avança por vezes na exploração de comportamentos sociais diversificados, incluindo a pequena burguesia cabo-verdiana residindo em Iisboa. O picaresco se introduz neste espaço textual não como intenção gratuita, mas relevando de um campo semântico autêntico. Além do mais, o drama da emigração para S. Tomé, a tradução oral colada à intimidade social cabo-verdiana, figuras moduladas na corajosa dignidade de afrontar os abusos e as prepotências. Com este Vida e morte de João Cabafume (um título e raiz) de Gabriel Mariano a narrativa cabo-verdiana continua a revelar-se na sua inegável originalidade.

Em Nuno Miranda (Gente da ilha, 1961; Caminho longe, romance, s/d [1975]), de há muito radicado em Iisboa, a escrita verte uma certa nostalgia da terra de origem e do passado. Mas ele é um exemplo acabado de como um autor, à partida dotado, não alcança ultrapassar o jogo de contradições que ele em si próprio criou e assumiu. Isto se aplica sobretudo em relação a alguns contos e se insinua em muitas páginas do romance que reflectem a angústia do desencontro numa identificação do narrador com o autor. No romance, de estrutura um tanto ou quanto desequilibrada, há momentos de real interesse que são aqueles em que o narrador se concilia numa linguagem adequada. Mas certos diálogos por demais artificiosos, sobretudo quando se pontua filosoficamente, empobrecem o texto caracterizado por um estilo pretensioso e visivelmente untuoso que torna a leitura penosa. É nossa convicção que o autor pode, se quiser, no futuro, vencer as debilidades através de uma severa auto-crítica (de autor e de narrador). Ao cabo, «o que é preciso é coragem!» como diz o narrador no fechamento do romance.

Teixeira de Sousa, nos anos quarenta ligado aos neo-realistas portugueses e, deste modo, um dos pioneiros da ficção cabo-verdiana, só recentemente reuniu os seus contos em Contra mar e vento (1972). Histórias centradas no quadro da ilha do Fogo, lá onde se tornaram resistentes conflitos e tensões decorrentes de uma estrutura social sedimentada sob o signo do latifúndio. A infância, certos aspectos da confrontação social de classes, a desesperada luta pela sobrevivência, o heroísmo quotidiano, a honradez, ressonâncias da labuta aventurosa do cabo-verdiano pela América, são alguns dos segmentos incisivos que estruturaram esta obra. Picaras, dramáticas, poéticas, ou impregnadas de um certo humor ou de uma certa ironia, ou ainda às vezes de uma fina melancolia, mas sempre profundamente significativas, num estilo caracterizado pela limpidez, incisivo, com este discurso, Teixeira de Sousa dá-nos um dos enunciados mais equilibrados e autênticos da narrativa cabo-verdiana, revelando um fôlego de narrador excepcional.

Em meio deste panorama, encontramos o nome de António Aurélio Gonçalves. Uma espécie de outsider. De um tempo anterior aos homens de Claridade, uma larga permanência em Iisboa, onde conviveu com alguns intelectuais africanos (Castro Soromenho, Viana de Almeida) e portugueses (Castelo Branco Chaves e Álvaro Salema que tem dedicado, através do seu longo exercício da crítica, entusiastas e excelentes palavras à literatura cabo-verdiana) regressa à ilha de S. Vicente e aí partilha da aventura do grupo de Claridade na qual se estrearia como novelista. Alguns dos seus textos, que faz e refaz, e sempre arrancados das suas mãos à força, aparecem no Cabo Verde e, entretanto, espaçadamente, são-lhe editadas quatro noveletas (a designação é sua): Pródiga (1956); O enterro de nha Candinha Sena (1957); Noite de vento (197 0);Vitgens loucas (1971).

O tempo histórico é o dos nossos dias; o espaço, exclusivamente o da ilha de S. Vicente. Dotado de uma capacidade notável para a análise subjectiva e elaboração dos diálogos, organiza o seu espaço literário numa relação muito íntima entre o aprofundamento psicológico e o meio social em que as personagens estão concretamente inseridas. Com um conhecimento firme e atento do micro-universo da cidade do Mindelo, revela um raro dom de manipulação de ingredientes, aparentemente ínfimos, para uma significação larga desse real, não raro num trajecto mítico. No gosto da exploração de parábolas bíblicas (filho pródigo: Pródiga; virgens imprudentes: Virgens loucas) «sóbrio e sucinto, o texto toca o lírico, o dramático e o trágico, apresentando uma galeria de tipos caboverdianos que nos chegaram cheios de vida e de verdade», nas palavras de Maria Lúcia Lepecki [97]. Textos abertos que surpreendem e fazem o leitor participar e continuar o desenvolvimento do seu processo inventivo.

A última revelação vem com o livro de contos Caes-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarilis, que esteve ligada ao grupo de Certeza. Orlanda Amarilis sagra-se como a primeira narradora cabo-verdiana com livro publicado. Histórias tecidas de uma experiência cabo-verdiana e ecuménica, o espaço literário repartido entre a ilha de S. Vicente e a cidade de Lisboa, é assim um pouco também sobre a diáspora cabo-verdiana. De um lado, um certo «desencanto» (título de um dos contos), ou a mal contida amargura, ou a nostalgia no exílio em terra onde aos protagonistas fazem sentir que são estranhos; por outra, a inserção no mundo de carências da terra natal ou o reencontro possível com as raízes e uma penetração no fantástico adequado a certos níveis mentais do arquipélago. Texto de excelentes recursos estilísticos, uma reapropriação do lastro dialectal de inegável rigor e sugestivo efeito, eis-nos na fruição (barthiana) de uma linguagem cabo-verdianizada, das mais bem conseguidas da ficção crioula. Sensibilidade marcadamente feminina, cativa dos gestos, das falas, das apetências quotidianas, o seu discurso alarga o tecido de análise social e psicológica e aprofunda a perspectiva do drama na narrativa cabo-verdiana.
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Notas

94 Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, selecção e notas de Baltasar Lopes, introdução de Manuel Ferreira e comentário de António Aurélio Gonçalves. Praia, Cabo Verde, 1960.

95    Oscar Lopes, Lm- e depois. Porto, Editorial Inova, 1969. Recolha de críticas publicadas no suplemento «Cultura e Arte» de O Coméráo do Porto.

96    Um dos tópicos da literatura cabo-verdiana é a «partida». Teria cabido a Eugênio Tavares glosar pela primeira vez o drama da emigração no poema «Hora di bai»: hora da partida, hora   da   despedida,   «hora   di   dor».   Partida   que   é   uma consequência da seca, da fome: emigração. Paralelamente, há uma outra atitude que se insinua e depois se define: o desejo de partir pela necessidade de ver outras terras, outras gentes. Necessidade    de    compensar,    em   meios    de    acentuado desenvolvimento social e intelectual, a vida estreita das ilhas. Estado de espírito este de natureza cultural e sentimental. E às vezes mais «literário» do que real. A isto se chamou, depois, evasiomsmo.   Querendo-se  significar a fuga,  o  abandono,  a desresponsabilização. O nosso esquema seria este:
emigração:      origem      económica      — motivação real
Terralongismo — evasionismo:      origem      intelectual      — motivação real ou não Onésimo da Silveira, no ensaio citado, desencadeou um ataque directo à literatura cabo-verdiana subscrita pelos homens da Claridade e de alguns outros que vieram depois, acusando-a de vários males e um deles seria o de «evasionismo». Isto levar-nos-ia longe. Mas desejaríamos aqui deixar consignado o seguinte:
a) — Nos anos 30-40, de um modo geral, os escritores sentiam a necessidade de alargar os seus horizontes e isso não pressupunha de modo nenhum um desenraizamento;
b) — No discurso da «evasão» não estava explícito o abandono e sim implícito o regresso;
c) — Se virtude possui a literatura cabo-verdiana dessa época é exactamente a do elevado grau de responsabilização que os autores demonstraram no empenhamento de se inserirem no centro do universo crioulo, rompendo, de vez, com um passado de alienação literária.

97   Maria  Lúcia  Lepecki  —   crítica   a   Virgens  loucas  in COLÓQUIO /Letras, n.° 11. Lisboa, janeiro de 1975, p. 77.

Continua…3. Drama

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 5: Cabo Verde – 1. Lírica, final)

Outro companheiro de jornada é Oswaldo Osório (Caboverdeamadamente construção meu amor, 1975). «(…) Porque desmontámos os mitos e no regresso à pureza original/possuídos nos achamos de amor e construção», são dois versos do poema «Batuque» [79]. E neles se contém um projecto que se adequa à fala de Oswaldo Osório. Desmontados são por ele os mitos da linguagem esgotada, possuído (ou achado) está o poeta no amor da construção de uma linguagem descartada, através de rupturas morfológicas, neologismos, justaposições, de que o próprio título pode dar uma ideia: Caboverdeamadamente construção meu amor. Por amor se constroe uma vida nova e essa vida nova só poderá ser expressa poeticamente através de uma escrita nova:

cantalutando caboverdeamamos caboverdeamadamente construímos a nossa terra cantalutando caboverdeano os nossos sonhos descem às mãos
a esse acto caboverdeamor
cantaluta cantaluta cantaluta caboverdeamadamente [80]

Poetas de recursos estilísticos diferentes, mas todos apostados num corte definitivo (se é possível), cônscios de que a primeira condição para a poesia exercer a sua função social, terá que começar por sê-lo. Procedem a uma destruição da língua para reconstruir outras, e cada um com a sua gramática própria, integrando-se assim num processo de re-actualização, de pesquisa e invenção, desbloqueando a poesia de Cabo-Verde de um certo percurso repetitivo. Deixa de ser íntima, exclamativa, interrogativa, torna-se irónica, mordaz, epopeia. À saga quotidiana sucede a saga histórica. A este respeito, o do enriquecimento estilístico, não se pode dizer que os mais jovens poetas, como Armando lima Júnior, Tacalhe ou mesmo Dante Mariano, todos sem livro publicado, ou Sukre D’Sal (Horizonte aberto, 1976); Amdjers, 1977 ou Kwame Kondé (Kordá Kaoberdi, 1974) tivessem trazido qualquer novidade. A poesia deste grupo, de um modo geral, surge sob o signo da «véspera de amanhã», na inscrição de Dante Mariano de quem tarda o livro prometido:

«A notícia que trará o povo inteiro/para as ruas em avalanche/Esta, sim/HÁ MUITO   QUE  CHEGOU»  [81].  

Ou nas  palavras  de Kwame Kondé, por largos anos exilado:

«De mãos vazias te deixei, terra amada./O coração de dor sangrando» [82] para quem a Revolução «se alastra, viva, majestosa» e «rebelde como o desejo», «dominando o gesto, o olhar e a vida» [83].

O ponto de encontro é na «África! África independente» na «terra rica que herdámos», «mãe do futuro/irradiando felicidade» M (Sukre D’Sal).[84] O espaço cabo-verdiano de Tacalhe, o «Lar» por ele concebido é também, e só, na luta armada:

«É aqui meu amor/É aqui que fica/O lar do nosso sonho/Na boca vermelha desta espingarda….» [85]. O tempo nos dirá do futuro de cada um deles. Tacalhe, no entanto, persistentemente vem colaborando na página «Cultura» da Voz di Povo, diversificando a sua poesia com a consciência de que «as palavras «são loucas na busca do sentido!»[86].

Seja como for, de Arménio Vieira, Mário Fonseca, impublicados em livro, deles se aguarda (e há notícia concreta) uma palavra, já que, justamente com Oswaldo Osório, Corsino Fortes e Timóteo Tio Tiofe, são dos que possuem o fôlego necessário para dar à actual poesia cabo-verdiana uma solidez indiscutível. E alguns dos mais novos que neles atentem. E agora — e isto não significa nenhum juízo de valor, é uma arrumação, sempre tão difícil, diríamos uma «leitura histórica» como outras que admitimos — chamamos a atenção para um certo grupo de poetas: os poetas da diáspora cabo-verdiana.

Suponhamos António Mendes Cardoso, Jorge Pedro, Virgílio Pires, sem livro publicado, e de escassíssima produção poética, dando mesmo a impressão de a terem abandonado. Luís Romano, {Clima, 1963), revelando-se no Brasil e aí tornado autor bilingue, defendendo nos últimos anos, com persistência, uma literatura de língua nacional (o dialecto) há nele um olhar enternecido lançado sobre o homem crioulo, um gesto de solidariedade com o homem negro e um apelo ao «Irmão branco»:

«Branco:/escuta-me um momento/ainda é tempo/porque te falo de irmão para irmão/No mistério daquilo que nos formou/— considera-me —/Só isso nos basta/Só isso/e estende-me tua mão.» [87]

 Teobaldo Virgínio (Poemas cabo-verdianas, 1960; Viagem para além da fronteira, 1973), estreando-se em Cabo Verde, mas desde há muito vivendo em Angola, repensa-se num lirismo algo cristão e num impulso alado na solidariedade cabo-verdiana, numa visão universalista. «Sejam ferramentas solitárias/cada boca fale seu grito/reprimido/cada braço corte/seu caminho livre» e cada olhar reflicta seu caminho claro Um fulgor de esperança em cada humilde [88]

Daniel Filipe, consagrado autor repartido entre duas poéticas: inicialmente a cabo-verdiana e depois a portuguesa, o seu nome retém-se aqui como um acto de justiça. Cabo-verdiano de origem, de nascimento e etnicamente, apesar da sua radicação em Portugal desde criança, três livros, pelo menos, são de motivação cabo-verdiana: Missiva (1946), Marinheiro em terra (1949) e A. ilha e a solidão (1957). Se quisermos encontrar-lhe um ponto de encontro, devemos buscá-lo ao grupo de Claridade: a insularidade da terra pequena metida nas grades   das   suas   contradições,  avara  ao   futuro  dos homens e úbere aos sonhos e anseios:

Ah, esta ânsia de partir, de ser
Um barco mais na imensidão do mar…
De ir sempre além, sem saber
A rota certa para regressar… [89]

Com excepção de Virgílio Pires e Jorge Pedro, todos os outros se revelaram poetas fora da sua terra ou então ausentes dela foi que se confirmaram como tal.

Em 1961, organizada e prefaciada com inteligência por Jaime de Figueiredo, é publicada em Cabo Verde a antologia Modernos poetas cabo-verdianos e, com ela, nesse tempo, se dá o panorama essencial da moderna poesia de Cabo Verde. Por motivos metodológicos (ou outros) ficaram de fora apenas António Pedro e Daniel Filipe, ambos, e de longe, profundamente radicados em Portugal e o seu nome ligado à literatura portuguesa. No entanto, afigura-se-nos — e atrás quisemos justificá-lo — que Daniel Filipe exige a sua recuperação cabo-verdiana. Estes dois poetas terminaram, depois, por ser incluídos, bem como outros, juntamente com os seleccionados por Jaime de Figueiredo, no primeiro volume de No reino de Caliban — antologia panorâmica da poesia africana de expressão portuguesa (1975), que o autor destas linhas organizou, anotou e prefaciou.

A rematar citamos o nome de Amílcar Cabral, fundador do P. A. I. G. C. e um dos ideólogos mais prestigiosos da revolução africana. Dos poemas que dele agora conhecemos, dois aspectos da sua personalidade se podem enunciar: o de uma comunhão telúrica e, simultaneamente, o de uma adesão colectiva ao destino trágico  do  seu povo — mas  o  afago  da esperança germinando, como no poema «Regresso…»:

«Venha Comigo, Mamãe Velha, venha,/recobre a força e chegue-se só ao portão./A chuva amiga já falou mantenha/e bate dentro do meu coração» [90]; ou como em «Ilha»: «Rochas escarpadas tapando os horizontes,/ mar aos quatro cantos prendendo as nossas ânsias!» (in Ilha, ano VII Ponta Delgada, 22-6-1946; republicado noutros, inclusive Seara Nova, dezembro 1974);

A outra atitude, o outro ponto de vista, é o da representação duma consciência dialéctica da vida, como em «Segue o teu rumo Irmão:» «Que amanhã na planície conquistada/da terra redimida/libertada/os Homens irmanados colherão/o saboroso Pão» [91]. Ou em «Quem é que não se lembra»: «Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra/atravessou os mares e os/oceanos» [92].

Tudo leva a crer que não haverá razão para se optar pela existência de duas fases, correspondendo a escrita dos poemas a um mesmo período e, assim, uns e outros se completam dando a globalidade poética de Amílcar Cabral [93].
––––––––
Notas:
79    Osvaldo Osório, Caboverdeamadamente construção meu amor, 1975, p. 43.

80    Idem, idem, 1975, p. 46.

81    Dante Mariano, «Comunicado n.° 1» in M. Ferreira, No nino de Caliban, 1.° vol., 1975, p. 252.

82    Kwame Kondé, Kordá kaoberdi, 1974, p. 59.

83    Idem, idem, p. 83.

84    Sukre D’Sal, Horizonte aberto, 1976, p. 29.

85    Tacalhe «Lar», in M. Ferreira, No reino de Caliban, 1.° vol., 1975, p. 258.

86    Idem, «Poema para depois» in «Cultura» de Voz di Povo, Praia, Cabo Verde, 29-11-1977, p. 8.

87    Luís Romano, Clima, 1963, p. 236.

88    Teobaldo, Virgínio, Viagem para além da fronteira, 1973, P.39.

89    Daniel Filipe, Missiva, 1946, p. 43.

90    Amílcar Cabral, «Ilha«, in Cabo Verde, ano I, n.° 2, 1949, p.ll.

91    Idem, «Segue o teu rumo irmão» in Vozes, n.° 1, 1974, p.19.

92    Idem, «Quem é que não se lembra», idem, p. 19.

93    Amílcar Cabral na sua juventude, pelo menos, mesmo antes de assumir as responsabilidades políticas que veio a assumir, andou pelas lides literárias. Escreveu um ou outro ensaio («Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana» — in Cabo Verde ano n.° 28, 1952) e publicou escassos poemas. Ouvimo-lo, inclusive, ler um conto em 1943 ou 1944, em S. Vicente de Cabo Verde, apresentado ao grupo da Academia Cultivar, de onde saiu o projecto da Certeza. Acentue-se que, até há bem pouco tempo, sabíamos da existência de uns três poemas: «Ilha», publicado no jornal Ilha, ano VII, Ponta Delgada — Açores, 22-VI-1946; «Regresso», no Cabo Verde, ano I, n.° 2, Praia, Cabo Verde, 1949; e posteriormente «Para ti, mãe Iva», publicado no seu livro de curso, republicado, depois do seu assassinato, no jornal Expresso (Lisboa). Após a independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Luís Romano junta sete poemas ao seu artigo «Amílcar Cabral. Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana», (in Vozes, n.° 1, Brasil, 1976, pp. 15-21). Mais recentemente Mário Pinto de Andrade reúne três poemas ao artigo «Amílcar Cabral e a reafricanização dos espíritos», publicado em Nâ Pintcha, Bissau, 12-IX-76, aquando das comemorações do XX aniversário do P. A. I. G. C. Entretanto Mário de Andrade e Arnaldo França transcrevem um novo poema (sem título) no ensaio «A cultura na problemática da libertação nacional e do desenvolvimento, à luz do pensamento de Amílcar Cabral» in ‘Raízes, ano I, n.° 1. Praia, Cabo Verde, 1977, p. 4. Alguns destes poemas repetem-se nas publicações que referimos e, assim, do nosso conhecimento, são ao todo dez poemas. Os três poemas publicados por M. Andrade vêm acompanhados da indicação da fonte: «Mensagem. Boletim da Casa dos Estudantes do Império, ano II, maio a dezembro, n.° 11», desconhecendo-se o ano e se é a fonte apenas do último poema se dos três.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 5: Cabo Verde – 1. Lírica, continuação)

A década de cinquenta abre com Unha do horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, quando já se encontrava em Portugal e havia publicado alguns poemas soltos. Poesia marcada, em muitos lances, pela angústia da «secura calada na garganta», e daí o avanço para a denúncia do drama cabo-verdiano, entendido não só no presente como que ainda diacronicamente, enquanto grava, com insistência, o seu «grito», um grito imperfeito, «porque não sai/do poço desta angústia amordaçada». A novidade de Aguinaldo Fonseca está em ter sido ele o primeiro a utilizar a «África» como substância poética cabo-verdiana, facto inédito se dermos à expressão de Pedro Cardoso — «África minha, das Esfinges berço/Já foste grande, poderosa e livre» [61] — uma conotação sentimental e não necessariamente política. No texto de A. Fonseca há, pelo menos, duas alusões a África. Uma delas, em «Magia negra»:

Das estrelas e dos grilos, Arrasta-se o vão lamento Da África dos meus Avós, Do coração desta noite, Ferido, sangrando ainda Entre suores e chicotes [62].

Do «(…) vão lamento/Da África de meus avós» instalado no «coração ferido» que ainda sangra «entre suores e chicotes» se procede a um enunciado de sofrimento inculpado a uma situação colonial.

É um tanto nesta linha que vai prosseguir, com todas as variantes possíveis, a produção poética daqueles que, tal corno A. Fonseca se associaram ao Suplemento Cultural (1958): Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Terêncio Anahory, Yolanda Morazzo. Todos, ou quase todos, bem como os elementos do grupo da Certeza, terminaram por colaborar na Claridade.

O projecto da geração da Claridade descola-se pela transgressão, pelo deslocamento da visão europeia para uma visão cabo-verdiana. Daí o rompimento com os modelos temáticos europeus e uma radical consciência regional. O ideário de Certeza enriquece a tomada de posição de Claridade pela introdução de uma visão dialéctica dada pelo marxismo. Este grupo do Suplemento Cultural, mercê da participação de alguns dos seus membros, enceta a substituição do conceito regional pelo conceito nacional. É assim que uma nova perspectiva em relação à situação colonial surge já próxima da década de sessenta, e nesta se vai prolongar e aprofundar.

Acentue-se: menos nuns que noutros; ou antes: evidente nuns e não em todos. Mas, no que à maioria é comum será o travo amargo da dominação. Vejamos em Gabriel Mariano (12 poemas de círcunstâncía, 1965).

Não, Amigos, já vos disse não!
Mais uma vez minha resposta é
Não!
Não insistam mais!
Que me importa o doce
que só a mim me dais?
Nada me separa dos meus companheiros!… [63]

Onésimo Silveira (Hora grande, 1962), um dos que primeiro ensaiaram o «convívio linguístico»: «Caba vapor — caba carvom… /Restam praias vazias e botes agonizantes» […] «Caba vapor — caba carvom…/Nos campos dantescos de S. Vicente» M no propósito da eficaz expressão de uma sofrida realidade cabo-verdiana, demarca-se também dos poetas da Claridade pelo carácter de intervenção poética, ao jeito vocativo-imperativo.

Atrás dos ferros da prisão
É preciso levantar os braços algemados
Contra a prepotência! [65]

Ou na forma interrogativa, mas ainda subjacentemente a recusa:

Para quê chorar Se as suas mãos são limpas A sua culpa inocente E a nudez das suas vozes Bandeiras desfraldadas? [66]

E o mais determinado dos poetas cabo-verdianos, aquele que, desde cedo, envolveu o seu verbo de signos directamente combatidos, Ovídio Martins (Caminhada, 1962; Gritarei berrarei matarei/Não vou para Pasárgada (1973), partidário, consciente e obstinado, de uma poesia de confrontação, empenha-se na contestação do chamado evasionismo («Não vou para Pasárgada») e ironiza:

Mordaças
A um Poeta?
Não me façam rir!…
Experimentem primeiro Deixar de respirar Ou rimar… mordaças Com Liberdade [67] dando-se numa entrega cerrada, ao «tempo cabo-verdiano», tempo «de se entupir/de raiva/de explodir em raiva».

Ainda quando da sua linguagem se verte um lirismo amorável (e isto aplica-se à quase totalidade dos poetas não só cabo-verdianos como angolanos ou moçambicanos) o poema se organiza numa intencionalidade desmistificadora. Bem iríamos sublinhando: aqui, o signo poemático é o «grito quotidiano» de quem se assume, ao nível da escrita, como militante:

No meu grito quotidiano
canto
a madrugada
a mim mesmo
renovado na terra renovada
pela nossa luta [68]

Diríamos então que à poesia declamatória, veemente, de Ovídio Martins ou de um Onésimo Silveira, responde Gabriel Mariano com um exercício de linguagem repousada, mas com um amplo efeito sugestivo, às vezes no lanço da insinuação:

Depois ninguém me acuse
de ter sido misterioso…
Apenas guardei comigo
a calma verde da terra
e a certa repetição
das madrugadas sem sono… [69]

Mesmo quando o seu discurso penetra no espaço declamativo, aí ainda o retórico se disciplina. Como no «Capitão Ambrósio», longo poema épico, em que, por transferência dis simuladora, o «Ambrósio», herói popular em tempo de fome, personifica o libertador que há-de ser festejado: «em mãos seguras erguidas/Em trilhos verdeluzindo/Luzindo a negra bandeira/Clara bandeira na frente/Na frente segue o Ambrósio!/Meu pai: manda o povo cantar/Manda o povo cantar na madrugada limpa./Manda o povo cantar com tambores e búzios/Quando Ambrósio chegar.» [70].

A presença feminina na moderna poesia cabo-verdiana é preenchida por Yolanda Morazzo que aparece integrada no grupo do Suplemento Cultural. A sua lírica de então tende a enraizar-se numa poética caracterizadamente cabo-verdiana. Mas a uma estadia em Iisboa sucede-se uma longa permanência, diríamos mesmo uma radicação em Angola. E o seu discurso tende a diversificar-se em jeito de «velas soltas» (título de um livro inédito), «velas brancas» soltas no «vento a galope» numa ansiosa determinação que alias já estava inscrita em poemas seus dos anos cinquenta: «Amanhã será uma nova Aurora» [71]. Mas é agora em Cântico de ferro (1976), que reúne alguns dos seus versos que vão desde 1956 a 1975, onde o espaço angolano é a semântica por excelência:

«Um dia se escreverá nas tuas veias/uma história de sangue triste triste/história de ódio dos algozes/cadastro rasgando o útero fértil/do café do algodão e do sisal/tentáculos de manhas e de garras/unhas envenenadas unhas verdes»[72].

Ficou-se pelo caminho, parece, um destes poetas, Terêncio Anahory (Caminho longe, 1962), na época dramática do trânsito glorioso do seu povo, ele que em 1962 se havia associado ao junta-mom: « no meio da baía um galo canta a sua canção de aurora» [73].

O discurso da revolta prolonga-se e generaliza-se com o grupo dos poetas do suplemento «Sèló» (1962), do Notícias de Cabo Verde, nascidos entre 1937 a 1941: Arménio Vieira, Jorge Miranda Alfama, Mário Fonseca, Osvaldo Osório, Rolando Vera-Cruz Martins, todos ainda sem livro publicado, com excepção para Oswaldo Osório, como adiante se regista. O universo da poesia destes poetas continua a ser o espaço cabo-verdiano. Mas à medida que o tempo avança a tendência é para a interpretação dialéctica da situação social marcada pelo colonialismo e a transparência de uma sistemática recusa.

Fala-se de «Ilhas renascidas/nuvens libertas…/Talvez um continente/À medida dos nossos desejos» (Arménio Vieira) [74].

Fala-se de «Quando a vida nascer…» e então «Rasgarei as grades/Rasgarei os açaimes/Enterrarei a dor, /Gritarei bem alto/A minha sede de viver…» (Mário Fonseca in Cabo Verde, n.° 126,1960). Parte deste grupo, durante anos silencioso (ou silenciado), ressurge mais tarde com poemas construídos no recato enganoso e publicados na revista Vértice (Coimbra).

O caso de Arménio Vieira que aí inicia, em cruel ironia, o ciclo da «animalização»:
Pensamos:

lá fora…
Isto é que fazem de nós quando nos inquirem:
— estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
— dormimos. ISTO É QUE FAZEM DE NÓS!
(in Vértice, n.° 334-345,1971, p. 845)

Estamos em 1971, em África o derradeiro império apodrece. Os homens no reino da clandestinidade, a vida cresce e está prestes a romper na «manhã inflor», ao sopro de uma «coragem renovada de todos nós», na «veemente ressurreição!» (Osvaldo Osório). Os poetas sentem o halo próximo da «aurora de vitórias» e um deles, Rolando Vera-Cruz, pode num «gesto» colectivo, afirmar: «Ah! Que reflorir de sorrisos ocultos no tempo!/Um outro gesto/cálido como vontade de criança,/um outro querer/veemente de ressurreição!». Ou Jorge Miranda Alfama: «… Eu me semeei na argila/com sangue e tempo para florir». («Sèló», n.°l, 1962). [75]

É na verdade, o tempo da «ressurreição!» E com a ressurreição, que é a da liberdade, a da libertação, se organiza um novo espaço: o de uma nova escrita, o de uma nova língua, várias gramáticas. Os primeiros indícios vêm de Claridade, avolumam-se na poética das gerações seguintes, com Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Onésimo Silveira — mas ainda aqui a presença de Jorge Barbosa, a influência do grupo da Claridade é soberana. O primeiro sinal dessa libertação definitiva vem com Timóteo Tio Tiofe (heterónimo de João Manuel Varela, a ajuntar ao de João Vário) [76] com fragmentos de poemas que faria publicar no jornal Letras e Artes (1963 e 1964) e Nós Vida (Roterdão, 1972) depois incorporados em O primeiro livro de Notcha (1975) no qual Timóteo recorta o destino histórico do arquipélago:

«O nosso destino, o destino político do arquipélago é inconcebível fora do contexto africano» (palavras da sua introdução).

Longo poema, de oitenta e nove páginas, seccionado em três «partes», as partes em «discursos», recorrendo à intertextualidade, à convivência linguística, aos dados da história, da botânica, da economia, da geografia, evocando os vultos da literatura cabo-verdiana, os heróis populares, os heróis nacionais africanos, afrontando a enumeração estatística, inserindo dezenas e dezenas de palavras do espaço cabo-verdiano até então ignoradas pela poética cabo-verdiana, caldeando grandezas e misérias, mitos, revoltas, fomes, esperanças, ao modo de evocação e narração bíblica. Timóteo Tio Tiofe abala as estruturas poéticas tradicionais do Arquipélago, e organiza um discurso sereno, veemente, ao ritmo caudaloso, e assim reconstroe a gesta cabo-verdiana, a narrativa poética da epopeia histórica do ser cabo-verdiano, desde as origens até aos nossos dias:

Mas que não venham mais fomes sobre nós,
sobre nossas casas, nossos estábulos e apriscos
sobre nossas escolas e asilos.
Que não venham corvos, gafanhotos,
lestados, nordeste, harmatão ou tempestades, marés bravas,
[chuvas que danifiquem estes cereais, estas oleaginosas,
[estas árvores de fruta.
Que não venha fogo sobre nossos leitos de madeira, nossos colchões de palha, nossos lençóis de linho, sobre nossos campos de cultivo e nossas alfaias agrícolas. Nem varíola ou cólera ou epidemias de outro teor sobre nossos pais, nossas mulheres, nossas crianças. E estes canavais, estas aves de criação, estes porcos de ceva, oh  que  tenhamos   o  gozo   deles   ou  a  alegria  da   sua
[multiplicação [77].

Corsino Fortes, após a estreia no Boletim dos Alunos do Uceu Gil Eanes (1959), a seguir participa na Claridade, e no Cabo Verde, mas ainda aqui a estrutura da sua poesia é símile da dos «claridosos». O salto qualitativo (e significativo) vem com Pão <ò” fonema (1975) que objectiva a ruptura total com a tradição jorge-barbosiana. São próximas no tempo, embora de características diferentes, as experiências de um e de outro: de Corsino e Timóteo. «Encontro» natural no tempo histórico e cultural? Influências de um no outro, ou recíprocas, já que ambos, parece, teriam vivido, em comum, anseios novos? Do ponto de vista da poesia cabo-verdiana isso não será importante. Importante é fazer o registo destas duas perspectivas inéditas e, ao cabo, marcadas por características poéticas próprias, até porque no domínio da «gramática» tão afastados estão um do outro. A um certo discursivismo, a um certo barroquismo se contrapõe uma contenção visivelmente trabalhada de Corsino. Neste, numa elaboração, verso a verso, cingida ao tropo, também à convivência linguística, estrutura da linguagem ao nível mítico, metabolizada no recurso metonímico estrofe a estrofe —, a sua proposta é a de uma grande parábola: a terra do sofrimento engravidou e a sua dor agora é a dor da parturiente: a vida nova vai surgir. Ritmo repousado, na feição de lenga-lenga popular intelectualizada, a espessura de poema ganha um brilho inusitado:

Ouve-me! primogénito da ilha
Ontem
fui lenha e lastro para navio Hoje
sol semente para sementeira
Devolvo às ondas
A evocação de ser viagem E fico pão à porta das padarias
Onde
o bolor da terra
é sangue e trigo E o milho que amamos
É nosso irmão uterino
Onde
os corvos sangram do alto bibliotecas de tantas sílabas
Onde
o osso é cada vez mais espiga
a espiga cada vez mais osso Aqui Ergo a minha aliança
De pão & fonema Enquanto o vento bebe E o vento bebe meu sangue a barlavento [78]

NOTAS:
61    Pedro Cardoso, Jardim das Hespérides, 1926, p. 11.

62    Aguinaldo Fonseca, Unha do horizonte, 1951, p. 61.

63    Gabriel Mariano, «Nada nos separa» in Cabo Verde, n.°109 p. 19.

64    Onésimo Silveira, «Saga» in Claridade, n.° 8,1958, p. 70.

65    Idem, Hora grande, 1962, p. 41.

66    Idem, p. 26.

67    Ovídio Martins, Caminhada, 1962, p. 12.

68    Idem, Gritarei berrarei matarei/Não vou para Pasárgada, s/d, 1973, p. 76.

69    Gabriel Mariano, «Cantiga da minha ilha» in Mário Pinto de Andrade, Antologia da poesia africana de expressão portuguesa, 1968, p. 6.

70    Idem, «Capitão Ambrósio», 1975, p. 13.

71    Yolanda Morazzo, Cântico de ferro, 1977, p. 63

72    Idem, idem, p. 11.

73    Terêncio Anahory, Caminho longe, 1962, p. 19.

74    Arménio Vieira, «Poema» in Mákua 1,1962, p. 22.

75    Rolando Vera-Cruz, «Poema sem tempo» in Vértice, n.°s 334-335,1971, p. 849.

76    João Vário é autor de quatro livros, o primeiro dos quais Horas sem carne, 1958, retirado da sua bibliografia pelo próprio. Os outros são: Exemplo geral,  1966; Exemplo relativo, 1968; Exemplo   dúbio,   1975.  João   Vário   participou   também  na iniciativa coimbrã Êxodo (1961).

77    Timóteo Tio Tiofe, O primeiro livro de Notcha, 1975, pp. 88-89.

78    Corsino Fortes, Pão & fonema, 1974, p. 60.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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