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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Guiné-Bissau) Parte final

Guiné Bissau

1. A Lírica
Estamos perante o capítulo menos expressivo do espaço literário africano de expressão portuguesa. Praticamente até antes da independência nacional não foi possível ultrapassar a fase da literatura colonial. E esta mesmo de reduzida extensão. Um homem que ali viveu por largos anos, Artur Augusto, escritor dotado, de origem cabo-verdiana, colaborador do primeiro número de Claridade, em Portugal e com larga vivência na Guiné-Bissau, ficou-se, ao que sabemos, por escassos contos publicados n’0 Mundo Português (1935 a 1936). A obra romanesca de Fausto Duarte (1903-1955): Auá, 1934; O negro um alma, 1935; Rumo ao degredo, 1939; A revolta, 1945; Foram estes os vencidos, 1945, cabo-verdiano por dilatados anos radicado na Guiné-Bissau, merece uma palavra especial. Mas é difícil, não obstante o seu empenhamento humanístico e de certa objectividade social, libertá-lo do peso colonial e credenciá-lo como verdadeiro escritor guineense. Deixou um romance inédito sobre cabo-verdianos. Testemunhará ele uma nova face da romanesca de Fausto Duarte? (Benjamin Pinto-Bull defendeu ultimamente na Sorbonne tese de doutoramento, que desconhecemos, sobre Fausto Duarte).

Com efeito, da Guiné-Bissau, durante a dominação portuguesa, não veio um poeta ou um romancista de mérito. Ali foram edificadas durante esse período as condições suficientes ao entrave do desenvolvimento criativo.

Com um índice altíssimo de analfabetismo, até há cerca de duas décadas sem ensino secundário, e só nos últimos anos abrangendo o sétimo ano dos liceus, o seu primeiro jornal (Pró-Guiné) surgido apenas em 1924, as suas infra-estruturas não possibilitaram o aparecimento de gerações letradas de onde poderiam ter saído vocações capazes de se responsabilizarem pelo surto de uma literatura guineense de expressão portuguesa num país de cerca de meio milhão de habitantes.

Nas duas últimas décadas do domínio colonial apenas uma actividade cultural oficial se fez sentir, orientada, porém, para os sectores da investigação histórica e etnográfica (Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1946-1973), e sempre marcada, é evidente, pelo espírito oficial. Em nada ou pouco alteram este quadro empobrecido.

O livro de Carlos Semedo (Poemas, 1963) também não modifica os dados desta análise, até porque se trata de obra de modesta qualidade estética. Amilcar Cabral, o fundador da nacionalidade, autor de alguns poemas mas de substância cabo-verdiana, optámos por incluí-lo na parte dedicada a Cabo Verde [119].

Ainda em plena guerra colonial tinha surgido, no ano de 1973, em português, o folheto de poesia Poilão, iniciativa do Grupo Desportivo e Cultural do Banco Nacional Ultramarino. Alguns dos poetas incluídos são guineenses. As suas vozes, necessariamente resguardadas, ou desviadas, ficam insignificativas. Embora durante a guerra colonial, nas áreas libertadas pelo P. A. I. G. C, se tivesse procedido a uma profunda alfabetização, compreende-se que a sua juventude, essencialmente empenhada na luta da libertação nacional, ou então retraída que vivia na capital (Poi/ão, em certa medida, pode ser um exemplo), só agora encontre os meios necessários para se revelar no plano da criação e construir a autêntica literatura do seu país.

O primeiro sinal é dado em Janeiro de 1977, com Mantenhas para quem luta! — a nova poesia da Guiné-Bissau. Iivrinho de cento e três páginas, que reúne catorze jovens poetas, onde o mais novo tem dezanove anos e o mais velho trinta. Acompanha-o um breve prefácio onde se diz: «Hoje, somos jovens trabalhadores no campo da poesia: esta não se define para nós, em termos puramente estéticos. A forma, destinando-se a garantir a eficácia da obra, a fazê-la atingir os objectivos visados, impõe-se como elemento manifestamente importante, mas o que lhe determina a qualidade é a função, pelo valor social que possa representar». A seguir uma questão que tem a ver com o espaço linguístico da Guiné-Bissau, povoado pelas línguas-mãe, pelo crioulo e ainda pela língua oficial, o português: «Se é verdade que esta poesia se escreve actualmente em crioulo e em português, cabe-nos a tarefa da sua fixação nas línguas nacionais, enquanto depositárias dos verdadeiros valores africanos».

Agnelo Augusto Regalia desenvolve um tema comum a outros poetas africanos, como, por exemplo, Costa Andrade e Henrique Guerra: o tema do assimilado. «Fui levado/A   conhecer   a   nona   Sinfonia/Beethoven   e Mozart/Na música/Dante, Petrarca e Bocácio/Na literatura,/Fui levado a conhecer/A sua cultura…» para depois colocar a interrogação:

Mas ti, Mãe África?
Que conheço eu de ti?
Que conheço eu de ti?
A não ser o que me impingiram?
E a fome e a miséria
Como complementos…[120]

António Cabral (Mores Djassy), o tema de constância revolucionária:

Somos crianças do tempo da Revolução
Frutos das sementes de séculos de angústias
Somos crianças da luta
Restos da soma do napalm
Restos da soma do napalm e fósforo [121]

Hélder Proença, o da identidade poeta-povo:

Poema que será a arma dos oprimidos! Poema que confunde com os anseios do povo O MEU POEMA SERÁ A VOZ DO POVO [122]

E deste modo se definem algumas das linhas essenciais que nesta jovem poesia guineense se contêm. Por um lado, os poetas reencontram-se como cidadãos verdadeiramente africanos, por outro a Revolução está em marcha e a poesia (a arte), «arma dos oprimidos!», «voz do povo» vai assumir-se como parte integrante da Revolução.

Daí a denúncia, a determinada acusação: «Para onde vão/Estes troncos de íizmzo/estendidos em caixotes/Como se fossem cargas de porão» (António Sérgio Maria Davyes = Tony Davyes) [123].

«Pelo colonialista/Fui chamado Terrorista…/Como Digno Defensor da minha existência» mas «Pela história/o colonialista é o terrorista/Eis a crua verdade e realidade» (Jorge Ampla Cumelerbo = Jorge António da Costa) [124].

«Não sei quando começaste a bater-me/Em que idade/Em que eternidade/Em que revolução astral/Talvez no ventre da minha mãe» (Kôte = Norberto Tavares de Carvalho) [125].

Ou em Tomás Paquete: «A fome torcia-se, como as velas/dos barcos,/Onde os pais, por um punhado de peixe,/Deixavam viúvas/As jovens mães solteiras…/Onde os irmãos, por uma sorte de ilusão,/deixavam orfãos/os sobrinhos…» [126].

Acusação que tem como alvo imediato o colonialismo, a longa era da escravidão, feita «de dor e lágrimas», como diz António Lopes Jr.: «Prisões! Sacrifícios!/O peso da fome…/Da subalimentação/O peso da História/História de dor e lágrimas/Imposta pela violência repressiva».[127]

Ao contrário do que acontece, não só com a poesia de Cabo Verde, de S. Tomé e Príncipe como também com a de Angola e Moçambique, esta poesia da Guiné-Bissau toda ela nasce em pleno período da luta armada ou então já no período pós-libertação nacional. E natural, portanto, que alguns destes poetas se reencontrem na exaltação da «ÁFRICA MÁRTIR», dos chefes revolucionários e, sobretudo, de Amilcar Cabral. E daí também um profundo sentido gregário, uma real consciência colectiva, como em José Pedro Sequeira:

Encontramo-nos em toda a parte, / Em toda a parte irmãos: / Nos arrozais e no dendém / Nas savanas e nas hortas / Na tabanca e nos pântanos [128]

Ou ainda um largo sentido ecuménico, universal, na voz de Nagib Said:

«Quando o som do tam-tam/Levar o grito d’África/Ao cume mais alto das consciências/E os    processos    mentais    superiores    se conjugarem/Traduzidos      no      código      puro      da fraternidade» então O eco da revolução propagar-se-á Através das mil montanhas do Mundo [129]

Ou em Carlos Almada:

«Porque o sol que hoje arde/Brilha p’ra todos nós/E p’ra toda a África» [130].

Numa luta de libertação fatalmente há os que hesitam ou se destróem, mas a história o registará. Será isso mesmo que o verbo repousado, mas liricamente impressivo de José Carlos significa: «E vi na tabanca queimada devastada/As mesmas botas calcar o sangue, o corpo a morte inocente/De crianças da tua cor, do teu credo perdido/E soube que na terra em pranto pela tua afronta/Tu terias uma morte desenraizada» [131].

«[…] Contribuição militante a todo um processo de desenvolvimento cultural que decorre no nosso País», como se afirma no Prefácio, ela não podia deixar de ser também a expressão da libertação, da esperança, de uma colagem ao futuro, e aqui vem a propósito citar dois nomes, Armando Salvaterra: «Qu’importa que eu não venha/A saborear os frutos da própria árvore?/Que é isso/Ao pé da inabalável certeza desse dia admirável?!…[132]

E Justino Nunes Monteiro (fusten):

Libertar a África, / Libertar o Homem / Libertar o tam-tam e o Korá / Libertar o canto das crianças e o grito sufocado da esperança. / Uma esperança vermelho-sangue / Temperada na luta e na morte / Abrindo um caminho novo [133]

Em resumo,

«arma de combate, ferramenta de construção, ela [a poesia] forja-se no quotidiano árduo mas exaltante da Nação emergente, contribuição modesta no património da Humanidade, por uma Revolução Cultural», são ainda palavras do citado Prefácio.

2.    A EXPRESSÃO EM CRIOULO

Entre as várias etnias circula o dialecto crioulo (semelhante ao de Cabo Verde: criado na Guiné ou levado para lá?) [133] e parece cada vez mais, a esse nível, tender a funcionar como língua de contacto, sobrepondo-se às línguas de várias etnias, até porque progressivamente aumenta o seu número de utentes. Só recentemente as tentativas poéticas em dialecto crioulo começam a ganhar o espaço textual. Não só nas canções, nos cantos revolucionários, gravados em disco, como também na lírica que desponta. Curiosamente, no entanto, em Mantenhas para quem luta! há apenas duas poesias em crioulo, e subscreve-as José Carlos.
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Notas:

119 Amílcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau, filho de pais cabo-verdianos. Viveu em Cabo Verde desde criança e ali concluiu o curso dos liceus. Isto explica a natureza da sua poesia.

120 Agnelo Augusto Regalia, «Poema de um assimilado» in Conselho Nacional de Cultura (Guiné-Bissau), Mantenhas para ai, 1977, p. 15.

121    António Cabral, «Somos crianças», idem, p. 22.

122    Hélder Proença, «Escreverei mais um poema», idem, p.51.

123    Tony Davyes, «Desespero», idem, p. 26.

124    Jorge Ampla Cumelerbo, «O julgar pertence à história», idem, p. 55.

125    Kôte, «Soba Quinty», idem, p. 86.

126    Tomás Paquete, «Ao acaso… no mar …», idem, p. 93.

127    António Simões Lopes Jr. «Abusivamente», idem, pp. 29-30.

128    José Pedro Sequeira, «A vida real dos homens nossos irmãos, idem, p. 67.

129    Nagib Said «A agonia dos impérios», idem, p. 80.

130    Carlos Almada, «Geba», idem, p. 46.

131    José Carlos, «Morte desenraizada», idem, p. 61.

132    Armando Salvaterra, «Depois de mim», idem, p. 39.

133    Justen, «Poema», idem, p. 73.

134 Foi sempre considerável a comunidade cabo-verdiana na Guiné-Bissau. Tenhamos presente que esta ex-colónia portuguesa esteve administrativamente vinculada a Cabo Verde até 1879.

FIM

BIBLIOGRAFIA PASSIVA
(selectiva)

Nota:
Dada a impossibilidade de irmos além de uma bibliografia selectiva, aceitamos correr o risco de qualquer omissão discutível ou involuntária.

Aconselhamos, porém, aos que estiverem interessados, a consulta com destaque para Alfredo Margarido, Mário Pinto de Andrade, Jaime de Figueiredo, António Aurélio Gonçalves, Mário António, Pires Laranjeira, Serafim Ferreira e Manuel Ferreira. Útil poderá ser também a leitura de prefácios a algumas das obras mencionadas, como as de Agostinho Neto, Costa Andrade, Manuel Rui, Bobella-Mota.

Por certo que a Bibliografia africana de expressão portuguesa de Gerald Moser e de Manuel Ferreira, no prelo, será um guia indispensável.

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Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (S. Tomé e Príncipe – 2. Narrativa, 3. A Expressão em Crioulo)

2.    NARRATIVA

Modestíssima, quantitativa e qualitativamente, é a narrativa de S. Tomé e Príncipe. As esporádicas experiências de Viana de Almeida (Maiá Pòçon, contos, 1937) e de Mário Domingues. (O menino entre gigantes, 1960) não chegam a ser uma contribuição relevante. O primeiro, nesse tempo, prejudicado ainda por um ponto de vista subsidiário de uma época colonial; o segundo (também natural de S. Tomé e Príncipe, mas tornado escritor português pela obra e pela radicação) talvez pela carência da dramatização da personagem principal, o mulato Zezinho, nado e criado em Lisboa. De acaso teria sido o conto «Os sapatos da irmã», sem qualquer relação com S. Tomé, que Francisco José Tenreiro, em 1962, publicou na colectânea Modernos Autores Portugueses (Lisboa). Acidentais ainda, mas já com uma visão ajustada a um real africano, foram também as experiências de Alves Preto, limitada, cremos, a dois contos: «Um homem igual a tantos» e «Aconteceu no morro» [118]. E ainda o caso de Sum Marky (i. e. José Ferreira Marques), branco nascido em S. Tomé, autor de vários romances, de importância discutível, alguns no entanto parcialmente com interesse, valendo citar Vila Flogá, 1963, como testemunho acusatório da exploração colonialista.

3.      A EXPRESSÃO EM CRIOULO

Não obstante ser bilingue, visto que a população utiliza, além da língua portuguesa, o crioulo de S. Tomé, a criação literária é reduzida em dialecto, domínio que a tradição oral vem monopolizando com substancial interesse. Praticamente conheciam-se as composições poéticas de Francisco Stockler e uma experiência de Tomaz Medeiros. No entanto, após a independência nacional, parece haver sintomas de uma revitalização no uso literário do crioulo, ao nível popular, pelo menos a partir de agrupamentos musicais. Exemplo são os casos dos caderninhos de Sangazuza e o caderno do Agrupamento da Ilha, 1976, compostos de músicas revolucionárias e, de um modo geral, vertidos em nimbas, sambas, marchas, valsas, boleros e sòcòpés.
––––––––-
Nota
[118] Alves Preto, «Um homem igual a tantos» in Mensagem. Lisboa, Casa dos Estudantes de Lisboa, ano II, n.° 2, fevereiro de 1959, pp. 21-23. «Aconteceu no morro», idem, ano II, n.°s 5-6,1960, pp. 2-6.

Continua…Guiné-Bissau

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (S. Tomé e Príncipe – 1. Lírica)

1.    LÍRICA

Em capítulo anterior assinalámos que Caetano da Costa Alegre, poeta oitocentista são-tomense, fora o primeiro, em todo o espaço africano de língua portuguesa, a dar ao tópico da cor um tratamento poético, embora numa visão marcadamente alienatória, constituindo-se como produtor de uma expressão de negrismo.

Curiosamente é também são-tomense o poeta que primeiro, em língua portuguesa, chamou a si a expressão da negritude. Trata-se de Francisco José Tenreiro (1921-1966), que irá assumir uma posição inversa à de Costa Alegre. Desalienado, liberto dos mitos da inferioridade social, identifica-se com a dor do homem negro e repõe-no no quadro que lhe cabe da sabedoria universal:

Mãos, mãos negras que em vós estou sentido!
Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a
[rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbila
[que é o mesmo dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em
[coração [103].

A sua voz é a voz real do homem africano, uma voz que vem das origens e ressoa no tempo: «cantando: nós não nascemos num dia sem sol!», e aí vamos com essa raça humilhada percorrendo a «estrada da escravatura», mas entretanto iluminada por «um rio» que «vem correndo e cantando/desde St. Louis e Mississipi.» (Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 100).

Poeta bivalente («Nasci do negro e do branco/e quem olhar para mim/é como que se olhasse/para um tabuleiro de xadrez») [104] na sua vocação para exprimir o mulato, que ele era, e o negro, que ele era, fundindo-se assim no poeta africano que ele foi, guinda-se à categoria de poeta da negritude de expressão portuguesa, e tão lucidamente que o surto da literatura angolana e moçambicana, que se impôs a partir de cinquenta, e muito lhe deve, o não teria ultrapassado na pertinência e na genuinidade dos temas.

Interessante notar que a estrutura externa da poesia de F. J. Tenreiro adquire características diferentes, consoante a substância manipulada: poemas longos de longos versos para a negritude, poemas curtos de curtos versos enquanto poeta mestiço:

Dona Jóia dona dona de lindo nome; tem um piano alemão desafinando de calor [105].

Ou então:

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas
[de Guillén de coração em África com a impetuosidade viril de I too
[am American
de coração em África contigo amigo Joaquim [106] quando
[em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do [Congo de coração em África [107]

Há uma distância solar, como se vê, entre a humilhação da Costa Alegre e a glorificação dos valores culturais africanos por parte de Francisco Tenreiro que obviamente corresponde à amplitude consciencializadora que vai do século XIX ao século XX.

O discurso de Alda do Espírito Santo descreve-se entre o relato quotidiano da ilha, impregnado de alusões simbólicas de esperança, ou do registo de anseios de transparência política: «uma história bela para os homens de todas as terras/ciciando em coro, canções melodiosas/numa toada universal» 108 até ao clamor da revolta de um povo oprimido como em «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura»:

Que fizeste do meu povo?…
Que respondeis?…
Onde está o meu povo?…
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça…
Um a um, todos em fila…
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome [109].

O mesmo clamor da revolta percorre o discurso de Maria Manuela Margarido:

A noite sangra no mato,
ferida por uma lança de cólera [110].

A cólera. A revolta. Duas constantes que, associadas ao movimento dialéctico da vida que tudo destrói e reconstrói, trazem a esperança: «Na beira do mar, nas águas,/estão acesas a esperança/o movimento/a revolta/do homem social, do homem integral», e é ainda o verbo de Maria Manuela Margarido. Daí a certeza inscrita no devir histórico:

No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.

Em meio da denúncia (do «cheiro da morte»), da acusação («eu te pergunto, Europa, eu te pergunto: AGORA?») [112] perpassa a certeza. Ou a esperança. Não mera esperança idealista. A esperança concretizada na dialéctica do real. Tomaz Medeiros:

Amanhã,
Quando as chuvas caírem, As folhas gritarem d’esperança Nos braços das árvores,
Irei
Desafiar os mais trágicos destinos,
à campa de Nhana, ressuscitar o meu amor.
Irei [113].

Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, mais do que a fala de cada poeta ela se consubstancia na voz colectiva do homem são-tomense. Mas não só poesia de signos, de símbolos, de imagística protestatária, aliás de descodificação facilitada. Não só poesia de anunciação e assunção. Não só. Poesia tocada pelo afago lírico das coisas da «Ilha Verde, rubra de sangue». As «palmeiras e cacoeiros», «o aroma dos mamoeiros», o «cajueiro»; as «modinhas da terra», os «murmúrios doces dos silêncios», «as canoas balouçando no mar», o «sòcòpé», os deuses e os mitos, «orações dos ocas», os «cazumbis».

Por derradeiro, Marcelo Veiga. Numa ordem cronológica Marcelo Veiga (1892-1976) deveria ter sido considerado logo após Costa Alegre. Marcelo Veiga, pequeno proprietário da ilha do Príncipe, estudou no liceu em Lisboa, aqui viveu por períodos intermitentes, foi amigo de Almada-Negreiros, Mário Eloy, Mário Domingues, José Monteiro de Castro, Hernâni Cidade. Passou despercebido até ao momento em que Alfredo Margarido o incluiu na antologia por ele organizada e publicada, da Casa dos Estudantes do Império, Poetas de S. Tomé e Prínrípe (1963). Ultimamente obtivemos alguns poemas seus, inéditos, datados a partir de 1920, cedidos pelo poeta, pouco antes de falecer na sua ilha. Ele dá, assim, antes de F. J. Tenreiro, o sinal do «regresso do homem negro», o sinal da negritude não só em S. Tomé e Príncipe como em toda a área africana da língua portuguesa: «África não é terra de ninguém,/De qualquer que sabe de onde vem, […] A África é nossa!/É nossa! é nossa!» [114].

Eis, nítida e insofismável, a consciência da revolta:

Filhos! a pé! a pé! que éjá manhã!
Esta África em que quem quer dá co’o pé,
Esta negra África escarumba, olé!
Não a q’remos mais sob jugo de alguém,
Ela é nossa mãe! [115]

Irónico,   mordaz,   a   língua   destravada   e   rebelde, associada ao veneno lúcido da desafronta:

«Sou preto — o que ninguém escuta;
O que não tem socorro;
O — olá, tu rapaz!
O — ó meu merda! O cachorro!
O — ó seu filho da puta!
E outros mimos mais…[116]

Ou

O preto é bola, É pim-pam-pum! Vem um:
Zás! na cachola…
Outro — um chut — bum! [117]

A terminar, diríamos que a poesia de S. Tomé e Príncipe constitui uma expressão africana mais uniforme do que a de Moçambique ou mesmo de Angola, ainda considerando a franja de mestiçagem que a percorre. Construída apenas por negros ou mestiços, este punhado de poetas baliza a área temática no centro do universo da(s) sua(s) ilha(s) e organiza um signo cuja polissemia é de uma África violentada, inchada de cólera, a esperança feita revolta.
–––––––––
Notas

103    Francisco José Tenreiro,  Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 90.

104    Idem, idem, p. 48.

105    Idem, idem, p. 120.

106    Trata-se  de Joaquim  Namorado.  Autor  do  poema «África», publicado n’0 Diabo, n.° 309, 24 de agosto de 1940, a primeira expressão literária duma visão dialéctica de África, enquanto   continente  explorado,  por  parte  de  um  poeta português que nunca viveu no continente africano.

107    Francisco José Tenreiro,  Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 11.

108    Alda do Espírito Santo, «Em torno da minha baía» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 64. Tem como referência o massacre de Batepá ocorrido em S. Tomé, em fevereiro   de   1953,   sendo   governador   o   tenente-coronel Gorgulho.

109    Idem, «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura», idem, pp. 65-66.

110    Maria Manuela Margarido, «Roça» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 81.

111    Idem, «Paisagem», idem, p. 81.

112    Tomaz Medeiros, «Meu canto Europa» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963, p. 76.

113    Idem, «Caminhos» in «Cultura» (II), n.°s 9-10. Luanda, dezembro de 1959.

114    Marcelo Veiga, «África é nossa» in M. Ferreira No reino de Caliban, 2.° vol., 1976, pp. 466-467.

115    Idem, idem, p. 466.

116    Idem, «Regresso do homem negro» in A. Margarido, Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1964, p. 87.

117    Idem, «A João Santa Rosa», idem, p. 89.

Continua…

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Cabo Verde – 3. Drama, 4. Biunguismo Cabo-Verdiano)

3.    DRAMA

Uma das formas menos expressivas desta literatura é a área do teatro. O que não deixa de encontrar um correspondente histórico na formação da literatura portuguesa e também brasileira. Isto, de uma maneira geral, aplica-se a todas as ex-colónias portuguesas. Pode dizer-se que, em Cabo Verde, no domínio da arte teatral, há apenas «Terra de sôdade — argumento para bailado folclórico», de Jaime de Figueiredo, publicado na revista Atlântico, em 1946, [98] até hoje à espera de merecer as atenções de uma encenação.

4.    BIUNGUISMO CABO-VERDIANO

É bilingue o povo cabo-verdiano, já anteriormente o dissemos.   Além   da   língua   portuguesa   exprime-se também através do seu dialecto ou da língua crioula que, no plano das relações quotidianas, possui uma total implantação que falece à língua portuguesa.

E se foi longo o tempo necessário para o escritor cabo-verdiano alcançar uma consciência regional enquanto autor de língua portuguesa, cedo porém ele a revelou intuitivamente enquanto autor dialectal, facto que o distingue dos outros povos dos novos países africanos. Vem de tempos recuados e desenvolve-se no século XIX, paralelamente às criações em língua portuguesa, a produção popular em dialecto crioulo, sobretudo veiculada através da morna (mais de dois séculos de existência?) — a grande expressão artística do homem crioulo — das canções populares, das finançons (canções de batuque), do curcutiçans (canções de desafio — ilha do Fogo), de que se podem encontrar alguns exemplos na revista Claridade. Há, assim, um importante substracto dialectal popular que estimularia a produção literária, hoje também enriquecida com a recente exploração da coladeira.

Um dos pioneiros, o cónego António Manuel Teixeira, do Seminário-Liceu da ilha de S. Nicolau, responsável pelo Almanache Luso-Africano, (2 volumes: 1894 e 1899) neste fez publicar algumas tentativas literárias dialectais. Em 1910 José Bernardo Alfama publica Canções crioulas. Saliente-se, no entanto, um Eugênio Tavares (Momos — cantigas crioulas, 1932) [99], um Pedro Cardoso (poeta bilingue), Folcolore cabo-verdeano (1933), de facto dos primeiros a elegerem o crioulo à dignidade de língua literária. Mais perto do nosso tempo, apontam-se Sérgio Frusoni (1901-1975), um caso interessante de aculturação, já que é filho de italianos; Mário Macedo Barbosa, Jorge Pedro, Ovídio Martins (Caminhada, 1962: parte em dialecto crioulo), Luís Romano (Ljçimparim-Negrume, 1973), Gabriel Mariano, Kaoberdiano Dambará (Notí, s/d, [1968?]), Artur Vieira, Sukre D’sal, Tacalhe, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Arménio Vieira, etc.

Instrumento essencialmente afeiçoado à recriação de manifestações de índole lírica, o caso de Beleza, um dos mais populares troveiros do Arquipélago, nestes últimos anos é notório o esforço para a sua utilização cada vez mais ampla. No fundo, a produção literária em crioulo, do ponto de vista ideológico, descreve sensivelmente uma curva evolutiva próxima da língua portuguesa; a uma fase lírica e, por vezes, de conotação social sucede uma fase marcadamente ideológica: protesto e intervenção política. «Ca tem nada na es bida/Más grande que amor» ” diz Eugênio Tavares. Ou Pedro Cardoso na apropriação de raiz popular, com intencionalidade social: «Coitado quem dixâ sê terra,/Sêl dixâ nél sê coraçam» 10°. Sérgio Frusoni, uma voz apaixonada do quotidiano ínfimo, adensado por recursos de subtil ironia: «Exe spancadura que bo titã uvi,/ca ê roncadura de pomba, nem vôo de pardal.» (in Claridade, n.° 9, 1960, p. 77).

Com Ovídio Martins o corte ideológico é de vez: «Hora titã tchgá/nhas gente», que Kaoberdiano Dambará persegue em Noii, num deliberado apelo à revolução, e vamos encontrar ainda em Kwame Kondá (Kordá Kaobardi, 1974). Veiculando quase exclusivamente a poesia, cabe a Luís Romano, um dos que de modo apaixonado reclamam a integral cidadania do dialecto, ensaiar com pertinácia a primeira experiência de tomo: L^mparim-Negrume (1973), já citado, que reúne não só poesias como vários contos em crioulo de Santo Antão, acompanhados da tradução livre em português.

Acrescentaríamos ainda que, apesar de tudo quanto dissemos sobre o que aproxima ou afasta Claridade e Certeza, enquanto a primeira logo no seu primeiro número abre a primeira página com uma canção de Beleza, numa evidente preocupação de consagrar o dialecto crioulo, e em números posteriores essa preocupação ganha volume, Certeza desconhece o dialecto crioulo. Travado e combatido pelas entidades coloniais, nem por isso esta raiz vivaz feneceu. Acreditamos estar-lhe reservado, no futuro, papel de relevo na representação de muitos aspectos do homem cabo-verdiano. E mais: estamos, de consciência, convictos de que a longa e radiosa caminhada do dialecto crioulo, com ou sem escolaridade, irá provocar uma correcção, nos domínios da sociolinguística e da psicolinguística que parecem admitir ou predizer o desaparecimento de uma língua quando ela, não sendo ensinada, tem de suportar a concorrência falada de outra ou outras que o são [101].

Se o dialecto crioulo é, como se sabe, a língua-mãe do cabo-verdiano e a língua portuguesa, em muitos casos, a língua aprendida supletivamente, seria de admitir que, ao nível da competência, o escritor cabo-verdiano se sentisse mais seguro na expressão literária dialectal. Porém, isso só acontece, em termos gerais, e com algumas excepções (Eugênio Tavares e Sérgio Frusoni podem ser dois exemplos), no plano da poesia popular. Tal paradoxo (aparente? ou provisório?) provém não só da carência de organização estrutural teórica da língua cabo-verdiana, como também de uma prolongada e fecunda tradição literária escrita sem a qual uma língua não alcança a maleabilidade e a ductilidade que a autêntica criação literária exige [102].

RAÍZES (nota final)

Por fim, uma palavra para a revista Raízes, 1977 *. E porque se trata de um acontecimento na vida cultural do Cabo Verde libertado se transcreve a nota de abertura: «De um encontro de intelectuais cabo-verdianos, irmanados pelo ideal da libertação, da independência e do progresso da sua Pátria, e vivificados pela seiva haurida de raízes comuns aprofundadas no seu chão, nasceu a ideia da publicação que hoje se apresenta, limitada pelo condicionalismo do meio mas aberta pelo espírito generoso dos seus colaboradores, vindos das tendências mais díspares mas unidos pelo ideal comum que da revista é signo: — uma condição cabo-verdiana, africana e de cidadania do Mundo; uma autenticidade nascida da liberdade dessa condição; uma independência assente nas comuns RAÍZES».

A novidade está em que o ideário de Raízes se cumpre na isotopia de uma longa jornada já nossa conhecida: Claridade, Certeza, Suplemento Cultural, «Sèló». Os cabo-verdianos que neste número se inscrevem, com excepção para Tacalhe e Jorge Carlos da Fonseca, foram colaboradores de uma ou de outra daquelas publicações. Neste espaço breve diremos, em jeito de síntese que, tudo quanto enunciámos, de um modo geral se confirma em relação aos autores agora presentes em Raízes (e de novo chamamos a atenção para Arménio Vieira e Mário Fonseca).

Que a Revolução, obviamente, é enunciado de muitos textos. Que Ovídio Martins, atento à mudança da «situação de discurso», transfere a prática poética, que se centrava no contexto violentado e repressivo, para a reconstrução nacional («Devagar a reconstrução nacional avança. Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a amor») na opção de uma prática pedagógica (Guillén do após a revolução cubana é o nome que nos ocorre). Que Osvaldo Alcântara nos parece ter agora a seu lado um companheiro de jornada (estética): Jorge Carlos da Fonseca, pelo menos um certo Osvaldo Alcântara e um certo J. Carlos da Fonseca. Que um novo poeta se anuncia: Pedro Duarte, e um novo narrador se vai confirmando: Osvaldo Osório. Que o drama continua à espera de dramaturgos. Que dos vinte e três poemas publicados, apenas um é em crioulo. Que Raízes, sendo um acto de qualidade e inteligência é, também, uma decisão revolucionária.

* Chega-nos às mãos em cima da revisão das provas deste trabalho. Editada na cidade da Praia, ilha de Santiago, dirigida por Arnaldo França, tem como colaboradores: ensaio — Mário de Andrade e Arnaldo França, Jaime de Figueiredo; ficção — António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Oswaldo Alcântara, Ovídio Martins, Corsino Fortes, Mário Fonseca, Tacalhe, Arménio Vieira, Jorge Carlos da Fonseca, Pedro Duarte e Jorge Miranda Alfama. Ilustração de Manuel Figueira e Osvaldo Azevedo. Capa de Pedro Gregório.
––––––––––-
Notas:
98 Jaime de Figueiredo, Terra de sôdade — argumento para bailado folclórico em quatro quadros, in Atlântico, nova série, n.° 3. Lisboa, 1946, pp. 24-42.

99    Eugênio Tavares, Mornas — cantigas crioulas, 1932, p. 27.

100    Pedro Cardoso, Folclore caboverdiano, 1933, p. 71.

101    Os principais trabalhos de autores cabo-verdianos sobre o dialecto  crioulo  são:  Baltasar Lopes:  «Uma experiência românica nos trópicos», I e II in Claridade, n.° 4, 1947, pp. 15-22, e n.° 5, 1947, pp. 1-10; O dialecto crioulo de Cabo Verde, 1957; Maria Dulce de Oliveira Almada; Cabo Verde — Contribuição
para o estudo do dialecto falado no seu Arquipélago, 1961.

102    Após a independência, nos dois actuais jornais cabo-verdianos: Voz di Vovô (Santiago) e Nossa Terra (Fogo), para além de inúmeros versos em dialecto, vêm sendo publicados vários   textos   em   prosa,   deixando-nos   a   impressão   de subscritos, uns e outros, na generalidade, por quem pela primeira vez experimenta a mão. De qualquer modo, o facto surpreende    e    exige    ser    acompanhado    com    atenção. Surpreende, mas relativamente, claro. Deverá ter-se em conta a circunstância de anteriormente à independência, o mensário Repique do Sino (ilha da Brava) ter sido durante muito tempo repositório de textos dialectais, sobretudo em verso.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Cabo Verde – 2. Narrativa)

2.     NARRATIVA

Embora o primeiro texto ficcional da moderna literatura cabo-verdiana se deva a Manuel Lopes («Um galo que cantou na baía» in Claridade, n.° 2, excerto do conto mais tarde inserido no livro, sensivelmente com o mesmo título (1959), é com o romance Chiquinho (1947) de Baltazar Lopes que se abre a série da ficção cabo-verdiana. Narrativa a todos os títulos importante como expressão do mundo insular e ainda pela reinvenção da escrita   que   se   organiza,   em   parte,   a   partir   da incorporação na linguagem de signos, expressões ou formas sintácticas dialectais. Longe, é certo, da ruptura abissal que o brasileiro Guimarães Rosa ou o angolano Luandino Vieira mais tarde levariam às últimas consequências.

É legítimo, no entanto, considerá-lo pioneiro na busca de processos para a construção de novas línguas no espaço africano de expressão portuguesa; e, para melhor se poder avaliar deste mérito, há que ter em conta que a sua experiência data de 1938, altura em que aquele romance foi acabado. Isto se pode aplicar enquanto contista disperso por revistas, incluindo Claridade. E se é legítimo adiantar-se que a ruptura iniciada por este narrador é ponto corrente em quase toda a narrativa cabo-verdiana, não menos legítimo é dizer que nenhum outro autor logrou ir tão longe nem tão conseguida pesquisa foi obtida em qualquer outro como em Baltazar Lopes. Alguns, mesmo, preferiram a utilização do português fundamental, com o recurso normal a signos dialectais, embora os diálogos das personagens de extracção social popular (são a maioria) se construam de harmonia com a sua fala e, neste caso, as interferências do dialecto crioulo sejam notáveis e constantes.

Não nos esqueçamos de que se trata de um espaço bilingue e que o dialecto crioulo pode ser considerado uma língua novi-latina (a língua cabo-verdiana) de léxico na sua quase totalidade (noventa e sete por cento) oriundo da língua portuguesa, e naturalmente a reapropriação (com tudo quanto a palavra implica: reelaboração fonética, morfológica, sintáctica e semântica) continuada de palavras (sintagmas) portuguesas por parte do dialecto crioulo que são depois devolvidas, já modificadas, à escrita em português. Eis assim um português cabo-verdianizado onde, inclusive, por vezes, o eixo sintagmático é alterado. Quer a narrativa quer a lírica se enriquecem pelos mais variados processos de reconstrução linguística: convivência, hibridismo, neologismo s e daí a novidade, a invenção permanentemente revelada do insupeitado lastro de uma linguagem de recursos inesgotáveis.

Com obra ficcional publicada, além dos autores assinalados, são António Aurélio Gonçalves, Teixeira de Sousa, Teobaldo Virgínio, Luís Romano, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Onésimo Silveira, Nuno Miranda, João Rodrigues (Montes Verde-Cabo, 1974), Artur Carvalho (Um natal em S. Miguel, 1975), Orlanda Amarilis. Isto sem a exclusão de outros nomes, como Virgílio Pires, estreado em 1958 (n.° 8 de Claridade) e tido como revelação incontestável; Maria Margarida Mascarenhas, que participou em «Sèló» e com larga colaboração no Cabo-Verde e Presença crioula (Lisboa), evidenciando qualidades de mérito real; Pedro Duarte, Francisco Lopes, Manuel Serra, Leitão Graça, Aydeia Avelino Pires, mas estes últimos quase episodicamente, através do Cabo Verde, sem terem dado a medida exacta do seu talento; e também a recente amostra de Oswaldo Osório (vide excertos de romance in Voz di Povo, 1976), demasiado exígua para que possamos formular um juízo consciente.

Já há largos anos, Oscar Lopes, a propósito da Antologia de ficção cabo-verdiana contemporânea (1960) [94] e de outras obras da ficção cabo-verdiana, pronunciava-se nestes termos: «Eu agradeço à literatura de autoria ou temática cabo-verdianas umas horas de leitura vivamente interessada: o prazer de tantas pequenas ou grandes obras (refiro-me a dimensões gráficas) surpreendentemente bem consumadas» [95].

Com efeito, os narradores cabo-verdianos a partir de Claridade souberam centrar-se no mundo específico insular e procederam a uma denúncia muito viva da sociedade a que pertenciam. Nesta primeira fase era natural que estivessem todos eles sensíveis aos dramáticos problemas do Arquipélago: a seca, a fome, a emigração. (Pode mesmo dizer-se que a fome, é a grande personagem da narrativa cabo-verdiana). São elas algumas das grandes linhas temáticas da ficção cabo-verdiana. Mas na certeza de que a partir dessas motivações se desencadearia e, por vezes, de modo seguramente logrado, o tratamento de muitos dados e aspectos da vida social, económica, cultural. Níveis de vida, níveis de língua, níveis de cultura, personagens várias, populares ou não, de miséria ou grandeza, ali se fixaram, mercê da capacidade de análise social e psicológica, capacidade criadora, diríamos invulgar. Se a uma literatura do terceiro mundo buscarmos a expressão da sua própria mundividência, a expressão do seu universo específico, a resposta cabo-verdiana é positiva.

Baltazar Lopes abriu o caminho e como que muitas das propostas dos escritores que vieram depois por ele tinham já sido postuladas. Mas os segmentos sociais foram-se alargando, desenvolvendo, enriquecendo. Ao mundo da fome, da tragédia, de germinação da consciência política e da miséria social — à emigração, por exemplo, e ao mundo mítico que a envolve, com incidência na ilha de São Nicolau da parte de Baltazar Lopes — sucede o mundo epopaico de Manuel Lopes (Chuva brava, 1956; os contos O galo que cantou na baía, 1959; Os flagelados do vento leste, 1960) na ilha de Santo Antão, atravessado também pela fome, mas colocando o grande dilema de ter necessidade de partir, querendo ficar, terminando por ficar, o que contraria a tese da radicalização do evasionismo atribuído a Claridade.

Pretendeu-se, infundadamente, acusar de «paisagística» (e de muitas outras coisas más) a ficção cabo-verdiana subscrita pelos «claridosos», não sabemos se, em grande parte, com o pensamento em Manuel Lopes. Acusação estranha e injusta, chegando a dar a impressão de que Onésimo Silveira, autor de Consciencialização na literatura cabo-verdiana (1963), onde o fenómeno foi desencadeado, teria falado daquilo que não conhecia ou conhecia mal, pelo menos naquela altura. Os romances de Manuel Lopes constituem uma inserção vigorosa no real cabo-verdiano, profundamente desagregado em tempo de fome provocada pela estiagem. Podemos lamentar que aos seus romances faleça uma perspectiva aberta ao futuro. O drama cabo-verdiano surge, por assim dizer, como uma fatalidade e por isso limitado na visão estática do autor-narrador. Mas, de um ou de outro modo, é inegável a sua significação literária e a importância capital que preenche na ficção cabo-verdiana.

Luís Romano (Famintos, 1962) vem situar a acção também na ilha de Santo Antão, juntando ao mundo destruído pela fome o mundo da repressão administrativa e laborai. Pensamos, no entanto, que um certo verbalismo, na fala das personagens funciona como interferências longas do narrador que prejudica o equilíbrio da estrutura romanesca. Documento generoso e libelo acusatório, virtude é, certeza, o largo recurso do léxico dialectal, inesgotável em Luís Romano. Onésimo Silveira da sua permanência em S. Tomé trouxe a experiência do homem cabo-verdiano em tempo de fome emigrado para as roças daquele Arquipélago, de que e testemunho o conto longo Toda a gente fala: sim senhor (1960).

Teobaldo Virgínio, irmão de Luís Romano, situando o desenvolvimento das suas narrativas no espaço social da mesma ilha de Santo Antão, primeiro em Distância (1963) e Beira do Cais (1963), inclui naquele uma expressão telúrica, sensual, em que os elementos líricos e romantizados se fundem na coexistência de um humor irreverente, ao mesmo tempo que uma aderência ao drama real do homem cabo-verdiano se desenvolve no dom da invenção de uma linguagem de carácter poético, muito viva. Em Vida crioula (1967), escrito em Luanda, transita para uma visão de apelo teórico e sentimental às raízes da crioulidade e para a adesão universal, um tanto como aconteceu com a sua última poesia. Ovídio Martins (Tcòucòinòa, 1962) procede à abordagem da amorabilidade e do sentimento profundo do envolvimento lírico e social da terra, abandonando, depois, pelos vistos, a narrativa.

Gabriel Mariano (O rapaz doente, 1963) acaba, porém, de reunir em volume (Vida e morte de João Cabafume, 1977) a quase totalidade dos seus contos dispersos por várias publicações, com relevo para o Cabo Verde. Agora sujeitos a cuidada revisão, dão-nos a medida inteira de um contador de histórias grudado ao real significativo do homem cabo-verdiano. Narrador, personagens, ambientes se identificam através de uma linguagem cabo-verdianizada, sabiamente estruturada para a expressão da epopeia quotidiana feita de sofrimentos, anseios, frustrações, desencontros e grandezas, e onde também o drama da subalimentação crónica tem a sua fala expressiva. Avança por vezes na exploração de comportamentos sociais diversificados, incluindo a pequena burguesia cabo-verdiana residindo em Iisboa. O picaresco se introduz neste espaço textual não como intenção gratuita, mas relevando de um campo semântico autêntico. Além do mais, o drama da emigração para S. Tomé, a tradução oral colada à intimidade social cabo-verdiana, figuras moduladas na corajosa dignidade de afrontar os abusos e as prepotências. Com este Vida e morte de João Cabafume (um título e raiz) de Gabriel Mariano a narrativa cabo-verdiana continua a revelar-se na sua inegável originalidade.

Em Nuno Miranda (Gente da ilha, 1961; Caminho longe, romance, s/d [1975]), de há muito radicado em Iisboa, a escrita verte uma certa nostalgia da terra de origem e do passado. Mas ele é um exemplo acabado de como um autor, à partida dotado, não alcança ultrapassar o jogo de contradições que ele em si próprio criou e assumiu. Isto se aplica sobretudo em relação a alguns contos e se insinua em muitas páginas do romance que reflectem a angústia do desencontro numa identificação do narrador com o autor. No romance, de estrutura um tanto ou quanto desequilibrada, há momentos de real interesse que são aqueles em que o narrador se concilia numa linguagem adequada. Mas certos diálogos por demais artificiosos, sobretudo quando se pontua filosoficamente, empobrecem o texto caracterizado por um estilo pretensioso e visivelmente untuoso que torna a leitura penosa. É nossa convicção que o autor pode, se quiser, no futuro, vencer as debilidades através de uma severa auto-crítica (de autor e de narrador). Ao cabo, «o que é preciso é coragem!» como diz o narrador no fechamento do romance.

Teixeira de Sousa, nos anos quarenta ligado aos neo-realistas portugueses e, deste modo, um dos pioneiros da ficção cabo-verdiana, só recentemente reuniu os seus contos em Contra mar e vento (1972). Histórias centradas no quadro da ilha do Fogo, lá onde se tornaram resistentes conflitos e tensões decorrentes de uma estrutura social sedimentada sob o signo do latifúndio. A infância, certos aspectos da confrontação social de classes, a desesperada luta pela sobrevivência, o heroísmo quotidiano, a honradez, ressonâncias da labuta aventurosa do cabo-verdiano pela América, são alguns dos segmentos incisivos que estruturaram esta obra. Picaras, dramáticas, poéticas, ou impregnadas de um certo humor ou de uma certa ironia, ou ainda às vezes de uma fina melancolia, mas sempre profundamente significativas, num estilo caracterizado pela limpidez, incisivo, com este discurso, Teixeira de Sousa dá-nos um dos enunciados mais equilibrados e autênticos da narrativa cabo-verdiana, revelando um fôlego de narrador excepcional.

Em meio deste panorama, encontramos o nome de António Aurélio Gonçalves. Uma espécie de outsider. De um tempo anterior aos homens de Claridade, uma larga permanência em Iisboa, onde conviveu com alguns intelectuais africanos (Castro Soromenho, Viana de Almeida) e portugueses (Castelo Branco Chaves e Álvaro Salema que tem dedicado, através do seu longo exercício da crítica, entusiastas e excelentes palavras à literatura cabo-verdiana) regressa à ilha de S. Vicente e aí partilha da aventura do grupo de Claridade na qual se estrearia como novelista. Alguns dos seus textos, que faz e refaz, e sempre arrancados das suas mãos à força, aparecem no Cabo Verde e, entretanto, espaçadamente, são-lhe editadas quatro noveletas (a designação é sua): Pródiga (1956); O enterro de nha Candinha Sena (1957); Noite de vento (197 0);Vitgens loucas (1971).

O tempo histórico é o dos nossos dias; o espaço, exclusivamente o da ilha de S. Vicente. Dotado de uma capacidade notável para a análise subjectiva e elaboração dos diálogos, organiza o seu espaço literário numa relação muito íntima entre o aprofundamento psicológico e o meio social em que as personagens estão concretamente inseridas. Com um conhecimento firme e atento do micro-universo da cidade do Mindelo, revela um raro dom de manipulação de ingredientes, aparentemente ínfimos, para uma significação larga desse real, não raro num trajecto mítico. No gosto da exploração de parábolas bíblicas (filho pródigo: Pródiga; virgens imprudentes: Virgens loucas) «sóbrio e sucinto, o texto toca o lírico, o dramático e o trágico, apresentando uma galeria de tipos caboverdianos que nos chegaram cheios de vida e de verdade», nas palavras de Maria Lúcia Lepecki [97]. Textos abertos que surpreendem e fazem o leitor participar e continuar o desenvolvimento do seu processo inventivo.

A última revelação vem com o livro de contos Caes-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarilis, que esteve ligada ao grupo de Certeza. Orlanda Amarilis sagra-se como a primeira narradora cabo-verdiana com livro publicado. Histórias tecidas de uma experiência cabo-verdiana e ecuménica, o espaço literário repartido entre a ilha de S. Vicente e a cidade de Lisboa, é assim um pouco também sobre a diáspora cabo-verdiana. De um lado, um certo «desencanto» (título de um dos contos), ou a mal contida amargura, ou a nostalgia no exílio em terra onde aos protagonistas fazem sentir que são estranhos; por outra, a inserção no mundo de carências da terra natal ou o reencontro possível com as raízes e uma penetração no fantástico adequado a certos níveis mentais do arquipélago. Texto de excelentes recursos estilísticos, uma reapropriação do lastro dialectal de inegável rigor e sugestivo efeito, eis-nos na fruição (barthiana) de uma linguagem cabo-verdianizada, das mais bem conseguidas da ficção crioula. Sensibilidade marcadamente feminina, cativa dos gestos, das falas, das apetências quotidianas, o seu discurso alarga o tecido de análise social e psicológica e aprofunda a perspectiva do drama na narrativa cabo-verdiana.
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Notas

94 Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea, selecção e notas de Baltasar Lopes, introdução de Manuel Ferreira e comentário de António Aurélio Gonçalves. Praia, Cabo Verde, 1960.

95    Oscar Lopes, Lm- e depois. Porto, Editorial Inova, 1969. Recolha de críticas publicadas no suplemento «Cultura e Arte» de O Coméráo do Porto.

96    Um dos tópicos da literatura cabo-verdiana é a «partida». Teria cabido a Eugênio Tavares glosar pela primeira vez o drama da emigração no poema «Hora di bai»: hora da partida, hora   da   despedida,   «hora   di   dor».   Partida   que   é   uma consequência da seca, da fome: emigração. Paralelamente, há uma outra atitude que se insinua e depois se define: o desejo de partir pela necessidade de ver outras terras, outras gentes. Necessidade    de    compensar,    em   meios    de    acentuado desenvolvimento social e intelectual, a vida estreita das ilhas. Estado de espírito este de natureza cultural e sentimental. E às vezes mais «literário» do que real. A isto se chamou, depois, evasiomsmo.   Querendo-se  significar a fuga,  o  abandono,  a desresponsabilização. O nosso esquema seria este:
emigração:      origem      económica      — motivação real
Terralongismo — evasionismo:      origem      intelectual      — motivação real ou não Onésimo da Silveira, no ensaio citado, desencadeou um ataque directo à literatura cabo-verdiana subscrita pelos homens da Claridade e de alguns outros que vieram depois, acusando-a de vários males e um deles seria o de «evasionismo». Isto levar-nos-ia longe. Mas desejaríamos aqui deixar consignado o seguinte:
a) — Nos anos 30-40, de um modo geral, os escritores sentiam a necessidade de alargar os seus horizontes e isso não pressupunha de modo nenhum um desenraizamento;
b) — No discurso da «evasão» não estava explícito o abandono e sim implícito o regresso;
c) — Se virtude possui a literatura cabo-verdiana dessa época é exactamente a do elevado grau de responsabilização que os autores demonstraram no empenhamento de se inserirem no centro do universo crioulo, rompendo, de vez, com um passado de alienação literária.

97   Maria  Lúcia  Lepecki  —   crítica   a   Virgens  loucas  in COLÓQUIO /Letras, n.° 11. Lisboa, janeiro de 1975, p. 77.

Continua…3. Drama

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 5: Cabo Verde – 1. Lírica, final)

Outro companheiro de jornada é Oswaldo Osório (Caboverdeamadamente construção meu amor, 1975). «(…) Porque desmontámos os mitos e no regresso à pureza original/possuídos nos achamos de amor e construção», são dois versos do poema «Batuque» [79]. E neles se contém um projecto que se adequa à fala de Oswaldo Osório. Desmontados são por ele os mitos da linguagem esgotada, possuído (ou achado) está o poeta no amor da construção de uma linguagem descartada, através de rupturas morfológicas, neologismos, justaposições, de que o próprio título pode dar uma ideia: Caboverdeamadamente construção meu amor. Por amor se constroe uma vida nova e essa vida nova só poderá ser expressa poeticamente através de uma escrita nova:

cantalutando caboverdeamamos caboverdeamadamente construímos a nossa terra cantalutando caboverdeano os nossos sonhos descem às mãos
a esse acto caboverdeamor
cantaluta cantaluta cantaluta caboverdeamadamente [80]

Poetas de recursos estilísticos diferentes, mas todos apostados num corte definitivo (se é possível), cônscios de que a primeira condição para a poesia exercer a sua função social, terá que começar por sê-lo. Procedem a uma destruição da língua para reconstruir outras, e cada um com a sua gramática própria, integrando-se assim num processo de re-actualização, de pesquisa e invenção, desbloqueando a poesia de Cabo-Verde de um certo percurso repetitivo. Deixa de ser íntima, exclamativa, interrogativa, torna-se irónica, mordaz, epopeia. À saga quotidiana sucede a saga histórica. A este respeito, o do enriquecimento estilístico, não se pode dizer que os mais jovens poetas, como Armando lima Júnior, Tacalhe ou mesmo Dante Mariano, todos sem livro publicado, ou Sukre D’Sal (Horizonte aberto, 1976); Amdjers, 1977 ou Kwame Kondé (Kordá Kaoberdi, 1974) tivessem trazido qualquer novidade. A poesia deste grupo, de um modo geral, surge sob o signo da «véspera de amanhã», na inscrição de Dante Mariano de quem tarda o livro prometido:

«A notícia que trará o povo inteiro/para as ruas em avalanche/Esta, sim/HÁ MUITO   QUE  CHEGOU»  [81].  

Ou nas  palavras  de Kwame Kondé, por largos anos exilado:

«De mãos vazias te deixei, terra amada./O coração de dor sangrando» [82] para quem a Revolução «se alastra, viva, majestosa» e «rebelde como o desejo», «dominando o gesto, o olhar e a vida» [83].

O ponto de encontro é na «África! África independente» na «terra rica que herdámos», «mãe do futuro/irradiando felicidade» M (Sukre D’Sal).[84] O espaço cabo-verdiano de Tacalhe, o «Lar» por ele concebido é também, e só, na luta armada:

«É aqui meu amor/É aqui que fica/O lar do nosso sonho/Na boca vermelha desta espingarda….» [85]. O tempo nos dirá do futuro de cada um deles. Tacalhe, no entanto, persistentemente vem colaborando na página «Cultura» da Voz di Povo, diversificando a sua poesia com a consciência de que «as palavras «são loucas na busca do sentido!»[86].

Seja como for, de Arménio Vieira, Mário Fonseca, impublicados em livro, deles se aguarda (e há notícia concreta) uma palavra, já que, justamente com Oswaldo Osório, Corsino Fortes e Timóteo Tio Tiofe, são dos que possuem o fôlego necessário para dar à actual poesia cabo-verdiana uma solidez indiscutível. E alguns dos mais novos que neles atentem. E agora — e isto não significa nenhum juízo de valor, é uma arrumação, sempre tão difícil, diríamos uma «leitura histórica» como outras que admitimos — chamamos a atenção para um certo grupo de poetas: os poetas da diáspora cabo-verdiana.

Suponhamos António Mendes Cardoso, Jorge Pedro, Virgílio Pires, sem livro publicado, e de escassíssima produção poética, dando mesmo a impressão de a terem abandonado. Luís Romano, {Clima, 1963), revelando-se no Brasil e aí tornado autor bilingue, defendendo nos últimos anos, com persistência, uma literatura de língua nacional (o dialecto) há nele um olhar enternecido lançado sobre o homem crioulo, um gesto de solidariedade com o homem negro e um apelo ao «Irmão branco»:

«Branco:/escuta-me um momento/ainda é tempo/porque te falo de irmão para irmão/No mistério daquilo que nos formou/— considera-me —/Só isso nos basta/Só isso/e estende-me tua mão.» [87]

 Teobaldo Virgínio (Poemas cabo-verdianas, 1960; Viagem para além da fronteira, 1973), estreando-se em Cabo Verde, mas desde há muito vivendo em Angola, repensa-se num lirismo algo cristão e num impulso alado na solidariedade cabo-verdiana, numa visão universalista. «Sejam ferramentas solitárias/cada boca fale seu grito/reprimido/cada braço corte/seu caminho livre» e cada olhar reflicta seu caminho claro Um fulgor de esperança em cada humilde [88]

Daniel Filipe, consagrado autor repartido entre duas poéticas: inicialmente a cabo-verdiana e depois a portuguesa, o seu nome retém-se aqui como um acto de justiça. Cabo-verdiano de origem, de nascimento e etnicamente, apesar da sua radicação em Portugal desde criança, três livros, pelo menos, são de motivação cabo-verdiana: Missiva (1946), Marinheiro em terra (1949) e A. ilha e a solidão (1957). Se quisermos encontrar-lhe um ponto de encontro, devemos buscá-lo ao grupo de Claridade: a insularidade da terra pequena metida nas grades   das   suas   contradições,  avara  ao   futuro  dos homens e úbere aos sonhos e anseios:

Ah, esta ânsia de partir, de ser
Um barco mais na imensidão do mar…
De ir sempre além, sem saber
A rota certa para regressar… [89]

Com excepção de Virgílio Pires e Jorge Pedro, todos os outros se revelaram poetas fora da sua terra ou então ausentes dela foi que se confirmaram como tal.

Em 1961, organizada e prefaciada com inteligência por Jaime de Figueiredo, é publicada em Cabo Verde a antologia Modernos poetas cabo-verdianos e, com ela, nesse tempo, se dá o panorama essencial da moderna poesia de Cabo Verde. Por motivos metodológicos (ou outros) ficaram de fora apenas António Pedro e Daniel Filipe, ambos, e de longe, profundamente radicados em Portugal e o seu nome ligado à literatura portuguesa. No entanto, afigura-se-nos — e atrás quisemos justificá-lo — que Daniel Filipe exige a sua recuperação cabo-verdiana. Estes dois poetas terminaram, depois, por ser incluídos, bem como outros, juntamente com os seleccionados por Jaime de Figueiredo, no primeiro volume de No reino de Caliban — antologia panorâmica da poesia africana de expressão portuguesa (1975), que o autor destas linhas organizou, anotou e prefaciou.

A rematar citamos o nome de Amílcar Cabral, fundador do P. A. I. G. C. e um dos ideólogos mais prestigiosos da revolução africana. Dos poemas que dele agora conhecemos, dois aspectos da sua personalidade se podem enunciar: o de uma comunhão telúrica e, simultaneamente, o de uma adesão colectiva ao destino trágico  do  seu povo — mas  o  afago  da esperança germinando, como no poema «Regresso…»:

«Venha Comigo, Mamãe Velha, venha,/recobre a força e chegue-se só ao portão./A chuva amiga já falou mantenha/e bate dentro do meu coração» [90]; ou como em «Ilha»: «Rochas escarpadas tapando os horizontes,/ mar aos quatro cantos prendendo as nossas ânsias!» (in Ilha, ano VII Ponta Delgada, 22-6-1946; republicado noutros, inclusive Seara Nova, dezembro 1974);

A outra atitude, o outro ponto de vista, é o da representação duma consciência dialéctica da vida, como em «Segue o teu rumo Irmão:» «Que amanhã na planície conquistada/da terra redimida/libertada/os Homens irmanados colherão/o saboroso Pão» [91]. Ou em «Quem é que não se lembra»: «Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra/atravessou os mares e os/oceanos» [92].

Tudo leva a crer que não haverá razão para se optar pela existência de duas fases, correspondendo a escrita dos poemas a um mesmo período e, assim, uns e outros se completam dando a globalidade poética de Amílcar Cabral [93].
––––––––
Notas:
79    Osvaldo Osório, Caboverdeamadamente construção meu amor, 1975, p. 43.

80    Idem, idem, 1975, p. 46.

81    Dante Mariano, «Comunicado n.° 1» in M. Ferreira, No nino de Caliban, 1.° vol., 1975, p. 252.

82    Kwame Kondé, Kordá kaoberdi, 1974, p. 59.

83    Idem, idem, p. 83.

84    Sukre D’Sal, Horizonte aberto, 1976, p. 29.

85    Tacalhe «Lar», in M. Ferreira, No reino de Caliban, 1.° vol., 1975, p. 258.

86    Idem, «Poema para depois» in «Cultura» de Voz di Povo, Praia, Cabo Verde, 29-11-1977, p. 8.

87    Luís Romano, Clima, 1963, p. 236.

88    Teobaldo, Virgínio, Viagem para além da fronteira, 1973, P.39.

89    Daniel Filipe, Missiva, 1946, p. 43.

90    Amílcar Cabral, «Ilha«, in Cabo Verde, ano I, n.° 2, 1949, p.ll.

91    Idem, «Segue o teu rumo irmão» in Vozes, n.° 1, 1974, p.19.

92    Idem, «Quem é que não se lembra», idem, p. 19.

93    Amílcar Cabral na sua juventude, pelo menos, mesmo antes de assumir as responsabilidades políticas que veio a assumir, andou pelas lides literárias. Escreveu um ou outro ensaio («Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana» — in Cabo Verde ano n.° 28, 1952) e publicou escassos poemas. Ouvimo-lo, inclusive, ler um conto em 1943 ou 1944, em S. Vicente de Cabo Verde, apresentado ao grupo da Academia Cultivar, de onde saiu o projecto da Certeza. Acentue-se que, até há bem pouco tempo, sabíamos da existência de uns três poemas: «Ilha», publicado no jornal Ilha, ano VII, Ponta Delgada — Açores, 22-VI-1946; «Regresso», no Cabo Verde, ano I, n.° 2, Praia, Cabo Verde, 1949; e posteriormente «Para ti, mãe Iva», publicado no seu livro de curso, republicado, depois do seu assassinato, no jornal Expresso (Lisboa). Após a independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Luís Romano junta sete poemas ao seu artigo «Amílcar Cabral. Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana», (in Vozes, n.° 1, Brasil, 1976, pp. 15-21). Mais recentemente Mário Pinto de Andrade reúne três poemas ao artigo «Amílcar Cabral e a reafricanização dos espíritos», publicado em Nâ Pintcha, Bissau, 12-IX-76, aquando das comemorações do XX aniversário do P. A. I. G. C. Entretanto Mário de Andrade e Arnaldo França transcrevem um novo poema (sem título) no ensaio «A cultura na problemática da libertação nacional e do desenvolvimento, à luz do pensamento de Amílcar Cabral» in ‘Raízes, ano I, n.° 1. Praia, Cabo Verde, 1977, p. 4. Alguns destes poemas repetem-se nas publicações que referimos e, assim, do nosso conhecimento, são ao todo dez poemas. Os três poemas publicados por M. Andrade vêm acompanhados da indicação da fonte: «Mensagem. Boletim da Casa dos Estudantes do Império, ano II, maio a dezembro, n.° 11», desconhecendo-se o ano e se é a fonte apenas do último poema se dos três.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 5: Cabo Verde – 1. Lírica, continuação)

A década de cinquenta abre com Unha do horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, quando já se encontrava em Portugal e havia publicado alguns poemas soltos. Poesia marcada, em muitos lances, pela angústia da «secura calada na garganta», e daí o avanço para a denúncia do drama cabo-verdiano, entendido não só no presente como que ainda diacronicamente, enquanto grava, com insistência, o seu «grito», um grito imperfeito, «porque não sai/do poço desta angústia amordaçada». A novidade de Aguinaldo Fonseca está em ter sido ele o primeiro a utilizar a «África» como substância poética cabo-verdiana, facto inédito se dermos à expressão de Pedro Cardoso — «África minha, das Esfinges berço/Já foste grande, poderosa e livre» [61] — uma conotação sentimental e não necessariamente política. No texto de A. Fonseca há, pelo menos, duas alusões a África. Uma delas, em «Magia negra»:

Das estrelas e dos grilos, Arrasta-se o vão lamento Da África dos meus Avós, Do coração desta noite, Ferido, sangrando ainda Entre suores e chicotes [62].

Do «(…) vão lamento/Da África de meus avós» instalado no «coração ferido» que ainda sangra «entre suores e chicotes» se procede a um enunciado de sofrimento inculpado a uma situação colonial.

É um tanto nesta linha que vai prosseguir, com todas as variantes possíveis, a produção poética daqueles que, tal corno A. Fonseca se associaram ao Suplemento Cultural (1958): Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Terêncio Anahory, Yolanda Morazzo. Todos, ou quase todos, bem como os elementos do grupo da Certeza, terminaram por colaborar na Claridade.

O projecto da geração da Claridade descola-se pela transgressão, pelo deslocamento da visão europeia para uma visão cabo-verdiana. Daí o rompimento com os modelos temáticos europeus e uma radical consciência regional. O ideário de Certeza enriquece a tomada de posição de Claridade pela introdução de uma visão dialéctica dada pelo marxismo. Este grupo do Suplemento Cultural, mercê da participação de alguns dos seus membros, enceta a substituição do conceito regional pelo conceito nacional. É assim que uma nova perspectiva em relação à situação colonial surge já próxima da década de sessenta, e nesta se vai prolongar e aprofundar.

Acentue-se: menos nuns que noutros; ou antes: evidente nuns e não em todos. Mas, no que à maioria é comum será o travo amargo da dominação. Vejamos em Gabriel Mariano (12 poemas de círcunstâncía, 1965).

Não, Amigos, já vos disse não!
Mais uma vez minha resposta é
Não!
Não insistam mais!
Que me importa o doce
que só a mim me dais?
Nada me separa dos meus companheiros!… [63]

Onésimo Silveira (Hora grande, 1962), um dos que primeiro ensaiaram o «convívio linguístico»: «Caba vapor — caba carvom… /Restam praias vazias e botes agonizantes» […] «Caba vapor — caba carvom…/Nos campos dantescos de S. Vicente» M no propósito da eficaz expressão de uma sofrida realidade cabo-verdiana, demarca-se também dos poetas da Claridade pelo carácter de intervenção poética, ao jeito vocativo-imperativo.

Atrás dos ferros da prisão
É preciso levantar os braços algemados
Contra a prepotência! [65]

Ou na forma interrogativa, mas ainda subjacentemente a recusa:

Para quê chorar Se as suas mãos são limpas A sua culpa inocente E a nudez das suas vozes Bandeiras desfraldadas? [66]

E o mais determinado dos poetas cabo-verdianos, aquele que, desde cedo, envolveu o seu verbo de signos directamente combatidos, Ovídio Martins (Caminhada, 1962; Gritarei berrarei matarei/Não vou para Pasárgada (1973), partidário, consciente e obstinado, de uma poesia de confrontação, empenha-se na contestação do chamado evasionismo («Não vou para Pasárgada») e ironiza:

Mordaças
A um Poeta?
Não me façam rir!…
Experimentem primeiro Deixar de respirar Ou rimar… mordaças Com Liberdade [67] dando-se numa entrega cerrada, ao «tempo cabo-verdiano», tempo «de se entupir/de raiva/de explodir em raiva».

Ainda quando da sua linguagem se verte um lirismo amorável (e isto aplica-se à quase totalidade dos poetas não só cabo-verdianos como angolanos ou moçambicanos) o poema se organiza numa intencionalidade desmistificadora. Bem iríamos sublinhando: aqui, o signo poemático é o «grito quotidiano» de quem se assume, ao nível da escrita, como militante:

No meu grito quotidiano
canto
a madrugada
a mim mesmo
renovado na terra renovada
pela nossa luta [68]

Diríamos então que à poesia declamatória, veemente, de Ovídio Martins ou de um Onésimo Silveira, responde Gabriel Mariano com um exercício de linguagem repousada, mas com um amplo efeito sugestivo, às vezes no lanço da insinuação:

Depois ninguém me acuse
de ter sido misterioso…
Apenas guardei comigo
a calma verde da terra
e a certa repetição
das madrugadas sem sono… [69]

Mesmo quando o seu discurso penetra no espaço declamativo, aí ainda o retórico se disciplina. Como no «Capitão Ambrósio», longo poema épico, em que, por transferência dis simuladora, o «Ambrósio», herói popular em tempo de fome, personifica o libertador que há-de ser festejado: «em mãos seguras erguidas/Em trilhos verdeluzindo/Luzindo a negra bandeira/Clara bandeira na frente/Na frente segue o Ambrósio!/Meu pai: manda o povo cantar/Manda o povo cantar na madrugada limpa./Manda o povo cantar com tambores e búzios/Quando Ambrósio chegar.» [70].

A presença feminina na moderna poesia cabo-verdiana é preenchida por Yolanda Morazzo que aparece integrada no grupo do Suplemento Cultural. A sua lírica de então tende a enraizar-se numa poética caracterizadamente cabo-verdiana. Mas a uma estadia em Iisboa sucede-se uma longa permanência, diríamos mesmo uma radicação em Angola. E o seu discurso tende a diversificar-se em jeito de «velas soltas» (título de um livro inédito), «velas brancas» soltas no «vento a galope» numa ansiosa determinação que alias já estava inscrita em poemas seus dos anos cinquenta: «Amanhã será uma nova Aurora» [71]. Mas é agora em Cântico de ferro (1976), que reúne alguns dos seus versos que vão desde 1956 a 1975, onde o espaço angolano é a semântica por excelência:

«Um dia se escreverá nas tuas veias/uma história de sangue triste triste/história de ódio dos algozes/cadastro rasgando o útero fértil/do café do algodão e do sisal/tentáculos de manhas e de garras/unhas envenenadas unhas verdes»[72].

Ficou-se pelo caminho, parece, um destes poetas, Terêncio Anahory (Caminho longe, 1962), na época dramática do trânsito glorioso do seu povo, ele que em 1962 se havia associado ao junta-mom: « no meio da baía um galo canta a sua canção de aurora» [73].

O discurso da revolta prolonga-se e generaliza-se com o grupo dos poetas do suplemento «Sèló» (1962), do Notícias de Cabo Verde, nascidos entre 1937 a 1941: Arménio Vieira, Jorge Miranda Alfama, Mário Fonseca, Osvaldo Osório, Rolando Vera-Cruz Martins, todos ainda sem livro publicado, com excepção para Oswaldo Osório, como adiante se regista. O universo da poesia destes poetas continua a ser o espaço cabo-verdiano. Mas à medida que o tempo avança a tendência é para a interpretação dialéctica da situação social marcada pelo colonialismo e a transparência de uma sistemática recusa.

Fala-se de «Ilhas renascidas/nuvens libertas…/Talvez um continente/À medida dos nossos desejos» (Arménio Vieira) [74].

Fala-se de «Quando a vida nascer…» e então «Rasgarei as grades/Rasgarei os açaimes/Enterrarei a dor, /Gritarei bem alto/A minha sede de viver…» (Mário Fonseca in Cabo Verde, n.° 126,1960). Parte deste grupo, durante anos silencioso (ou silenciado), ressurge mais tarde com poemas construídos no recato enganoso e publicados na revista Vértice (Coimbra).

O caso de Arménio Vieira que aí inicia, em cruel ironia, o ciclo da «animalização»:
Pensamos:

lá fora…
Isto é que fazem de nós quando nos inquirem:
— estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
— dormimos. ISTO É QUE FAZEM DE NÓS!
(in Vértice, n.° 334-345,1971, p. 845)

Estamos em 1971, em África o derradeiro império apodrece. Os homens no reino da clandestinidade, a vida cresce e está prestes a romper na «manhã inflor», ao sopro de uma «coragem renovada de todos nós», na «veemente ressurreição!» (Osvaldo Osório). Os poetas sentem o halo próximo da «aurora de vitórias» e um deles, Rolando Vera-Cruz, pode num «gesto» colectivo, afirmar: «Ah! Que reflorir de sorrisos ocultos no tempo!/Um outro gesto/cálido como vontade de criança,/um outro querer/veemente de ressurreição!». Ou Jorge Miranda Alfama: «… Eu me semeei na argila/com sangue e tempo para florir». («Sèló», n.°l, 1962). [75]

É na verdade, o tempo da «ressurreição!» E com a ressurreição, que é a da liberdade, a da libertação, se organiza um novo espaço: o de uma nova escrita, o de uma nova língua, várias gramáticas. Os primeiros indícios vêm de Claridade, avolumam-se na poética das gerações seguintes, com Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Onésimo Silveira — mas ainda aqui a presença de Jorge Barbosa, a influência do grupo da Claridade é soberana. O primeiro sinal dessa libertação definitiva vem com Timóteo Tio Tiofe (heterónimo de João Manuel Varela, a ajuntar ao de João Vário) [76] com fragmentos de poemas que faria publicar no jornal Letras e Artes (1963 e 1964) e Nós Vida (Roterdão, 1972) depois incorporados em O primeiro livro de Notcha (1975) no qual Timóteo recorta o destino histórico do arquipélago:

«O nosso destino, o destino político do arquipélago é inconcebível fora do contexto africano» (palavras da sua introdução).

Longo poema, de oitenta e nove páginas, seccionado em três «partes», as partes em «discursos», recorrendo à intertextualidade, à convivência linguística, aos dados da história, da botânica, da economia, da geografia, evocando os vultos da literatura cabo-verdiana, os heróis populares, os heróis nacionais africanos, afrontando a enumeração estatística, inserindo dezenas e dezenas de palavras do espaço cabo-verdiano até então ignoradas pela poética cabo-verdiana, caldeando grandezas e misérias, mitos, revoltas, fomes, esperanças, ao modo de evocação e narração bíblica. Timóteo Tio Tiofe abala as estruturas poéticas tradicionais do Arquipélago, e organiza um discurso sereno, veemente, ao ritmo caudaloso, e assim reconstroe a gesta cabo-verdiana, a narrativa poética da epopeia histórica do ser cabo-verdiano, desde as origens até aos nossos dias:

Mas que não venham mais fomes sobre nós,
sobre nossas casas, nossos estábulos e apriscos
sobre nossas escolas e asilos.
Que não venham corvos, gafanhotos,
lestados, nordeste, harmatão ou tempestades, marés bravas,
[chuvas que danifiquem estes cereais, estas oleaginosas,
[estas árvores de fruta.
Que não venha fogo sobre nossos leitos de madeira, nossos colchões de palha, nossos lençóis de linho, sobre nossos campos de cultivo e nossas alfaias agrícolas. Nem varíola ou cólera ou epidemias de outro teor sobre nossos pais, nossas mulheres, nossas crianças. E estes canavais, estas aves de criação, estes porcos de ceva, oh  que  tenhamos   o  gozo   deles   ou  a  alegria  da   sua
[multiplicação [77].

Corsino Fortes, após a estreia no Boletim dos Alunos do Uceu Gil Eanes (1959), a seguir participa na Claridade, e no Cabo Verde, mas ainda aqui a estrutura da sua poesia é símile da dos «claridosos». O salto qualitativo (e significativo) vem com Pão <ò” fonema (1975) que objectiva a ruptura total com a tradição jorge-barbosiana. São próximas no tempo, embora de características diferentes, as experiências de um e de outro: de Corsino e Timóteo. «Encontro» natural no tempo histórico e cultural? Influências de um no outro, ou recíprocas, já que ambos, parece, teriam vivido, em comum, anseios novos? Do ponto de vista da poesia cabo-verdiana isso não será importante. Importante é fazer o registo destas duas perspectivas inéditas e, ao cabo, marcadas por características poéticas próprias, até porque no domínio da «gramática» tão afastados estão um do outro. A um certo discursivismo, a um certo barroquismo se contrapõe uma contenção visivelmente trabalhada de Corsino. Neste, numa elaboração, verso a verso, cingida ao tropo, também à convivência linguística, estrutura da linguagem ao nível mítico, metabolizada no recurso metonímico estrofe a estrofe —, a sua proposta é a de uma grande parábola: a terra do sofrimento engravidou e a sua dor agora é a dor da parturiente: a vida nova vai surgir. Ritmo repousado, na feição de lenga-lenga popular intelectualizada, a espessura de poema ganha um brilho inusitado:

Ouve-me! primogénito da ilha
Ontem
fui lenha e lastro para navio Hoje
sol semente para sementeira
Devolvo às ondas
A evocação de ser viagem E fico pão à porta das padarias
Onde
o bolor da terra
é sangue e trigo E o milho que amamos
É nosso irmão uterino
Onde
os corvos sangram do alto bibliotecas de tantas sílabas
Onde
o osso é cada vez mais espiga
a espiga cada vez mais osso Aqui Ergo a minha aliança
De pão & fonema Enquanto o vento bebe E o vento bebe meu sangue a barlavento [78]

NOTAS:
61    Pedro Cardoso, Jardim das Hespérides, 1926, p. 11.

62    Aguinaldo Fonseca, Unha do horizonte, 1951, p. 61.

63    Gabriel Mariano, «Nada nos separa» in Cabo Verde, n.°109 p. 19.

64    Onésimo Silveira, «Saga» in Claridade, n.° 8,1958, p. 70.

65    Idem, Hora grande, 1962, p. 41.

66    Idem, p. 26.

67    Ovídio Martins, Caminhada, 1962, p. 12.

68    Idem, Gritarei berrarei matarei/Não vou para Pasárgada, s/d, 1973, p. 76.

69    Gabriel Mariano, «Cantiga da minha ilha» in Mário Pinto de Andrade, Antologia da poesia africana de expressão portuguesa, 1968, p. 6.

70    Idem, «Capitão Ambrósio», 1975, p. 13.

71    Yolanda Morazzo, Cântico de ferro, 1977, p. 63

72    Idem, idem, p. 11.

73    Terêncio Anahory, Caminho longe, 1962, p. 19.

74    Arménio Vieira, «Poema» in Mákua 1,1962, p. 22.

75    Rolando Vera-Cruz, «Poema sem tempo» in Vértice, n.°s 334-335,1971, p. 849.

76    João Vário é autor de quatro livros, o primeiro dos quais Horas sem carne, 1958, retirado da sua bibliografia pelo próprio. Os outros são: Exemplo geral,  1966; Exemplo relativo, 1968; Exemplo   dúbio,   1975.  João   Vário   participou   também  na iniciativa coimbrã Êxodo (1961).

77    Timóteo Tio Tiofe, O primeiro livro de Notcha, 1975, pp. 88-89.

78    Corsino Fortes, Pão & fonema, 1974, p. 60.

Continua…

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 5: Cabo Verde – 1. Lírica)

Interessa, desde já, reter bem este facto: a partir do início da década de trinta, e mercê de circunstâncias de natureza política, social, histórica e literária, algo ocorreu nas ilhas cabo-verdianas, a que não é alheia a influência da literatura brasileira. «Ora aconteceu que por aquelas alturas, nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais pro domo nostra». É Baltasar Lopes quem isto afirma, citando autores como José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Marques Rebelo. E diz que «em poesia foi um ‘alumbramento’ a Evocação do Recife, de Manuel Bandeira». Revelação foi ainda «um magnífico livro — a Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, ao lado dos volumes, densos de investigação e interpretação, do malogrado Artur Ramos» (in Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, 1956). Ou pode até admitir-se, também, a influência da Presença no que nela se propunha de libertação da linguagem. Uma tomada de consciência   regional   muito   nítida   se   instala   nos escritores de Cabo Verde, que decidem romper com os arquétipos europeus e orientar a sua actividade criadora para as motivações de raiz cabo-verdiana. Não é ainda uma posição anti-colonial. Não é ainda, nem nada que se pareça, algo que tenha a ver com a ideia de independência política ou nacional. Porventura o problema não se poria também nestes termos, assim precisos, logo de início, ao menos generalizadamente, aos escritores do movimento parisiense da negritude.

Mas era, em Cabo Verde, em dados de literatura, uma viragem de cento e oitenta graus: as costas voltadas aos modelos temáticos europeus e os olhos, pela primeira vez, vigilantes e deslumbrados no chão crioulo. De tal facto podem ser pontuações inequívocas não só a citada revista Claridade, como a que se lhe seguiu, em 1944, Certeza, esta sob a directa influência no neo-realismo português, o Suplemento Cultural (1958) [37] e ainda o suplemento «Sèló»; ou inclusive, o boletim Cabo Verde (1949 — 1965), órgão oficial, mas no que ele possui de mais autêntico e digno, e no campo da literatura bastante é, dado que nele colaboraram quase todos os escritores cabo-verdianos.

Aliás, em 1935, um ano antes da publicação de Claridade, Jorge Barbosa, um dos responsáveis por aquela revista, abre a estrada larga do realismo cabo-verdiano:

—    Ai o drama da chuva,
ai o desalento,
o tormento da estiagem!
—    Ai a voragem
da fome
levando vidas!
(… a tristeza das sementeiras perdidas…)
Ai o drama da chuva! [38]

Os sinais da mudança são vários. O abandono dos temas obrigatoriamente europeus, como vinha acontecendo até aí, a renúncia das estruturas poéticas tradicionais (rima, métrica e outras) e a penetração definitiva no contexto humano do Arquipélago: «o drama», «desalento», «tormento», «fome», «tristeza». Nos seus dois primeiros livros: Arquipélago (1935) e Ambiente (1941) e ainda em Caderno de um ilhéu (1956), Jorge Barbosa procede a uma radiografia do drama social do homem cabo-verdiano: a seca, a fome, a emigração, o isolamento, a insularidade, e o mar como estrada mítica da «aventura da pesca da baleia/nessas viagens para a América/de onde às vezes os navios não voltam mais». [39] Assim:

O teu destino… O teu destino Sei lá!
Viver sempre vergado sobre a terra, a nossa terra pobre ingrata querida!
Ou outro fim qualquer humilde
anónimo…
Ó cabo-verdiano
anónimo
— meu irmão! [40]

Via de regra, cada verso uma palavra, ou cada verso um sintagma, uma cadência ritmada, sincopadamente, para que a dor e o sofrimento se grave e avive dentro de nós. E mais: o processo, porventura invulgar para a época, da imanência de um «tu» logo associado a um «nós» no envolvimento da comunhão intensa de um discurso dramático. De resto, Jorge Barbosa é a voz plural que amiúde recorre a expressões como esta: «voz da nossa gente», a transformar o seu discurso na voz colectiva. A enumeração repetitiva, no caso presente adjectivada, mas noutros substantivada, aliada à evocação ou ao apelo afectivo, num recurso continuado à função expressiva, confere à poesia de Jorge Barbosa características dramáticas novas, trazidas pela intimidade, a denúncia, a epopeia do homem ilhado vivendo no drama de «querer partir e ter que ficar!». Enfim, no dizer de Jorge de Sena, um «poeta que, nos seus grandes momentos, é uma das melhores vozes da poesia contemporânea» [41]. E se ele foi o primeiro a romper a tradição de uma poesia que vinha marcando o espaço cabo-verdiano, foi também ainda o primeiro poeta das áreas africanas da língua portuguesa a lançar os fundamentos de uma nova poesia tecida numa situação colonial. A poesia de Jorge Barbosa vai dominar o panorama poético cabo-verdiano por várias décadas, de uma ou de outra maneira e com tal intensidade que só recentemente alguns poetas modernos libertaram de vez a poesia cabo-verdiana do peso estrutural barbosiano, como adiante se verá.

Jorge Barbosa teve uma ajuda, pelo menos. Nada nasce do nada. Essa ajuda, tudo leva a crer, veio dos poetas brasileiros, como assinalámos. Mas o desencadeamento catártico deu-se com a presença de António Pedro (1909-1965), um cabo-verdiano de nascimento que, em 1928, aos vinte anos de idade, visitou Cabo-Verde e ali publicou o livro de poemas Diário (1929). Era então um jovem poeta virado para o modernismo português. Sensibilizado para um certo vanguardismo, a sua poesia «cabo-verdiana» é um abanão nas estruturas tradicionais poéticas do Arquipélago. Por exemplo, sobre a Morna:

Reminiscência dum fado
que, dançado
num maxixe,
tem a tristeza postiça,
dum cansaço.

Um semicivilizado
lasso
balanço
embalado
sobre o ventre dum fetiche [42].

Era a primeira vez que alguém glosava, em nova linguagem, o tema da morna (e outros). Manuel Bandeira, Jorge de lima, Ribeiro Couto, de um lado; António Pedro, de outro, os dados estavam lançados. Nítida a semelhança da estrutura externa das estrofes de Jorge Barbosa e António Pedro. Coteje-se o excerto de António Pedro com este de Jorge Barbosa sobre o poema «A Morna»:

Canto que evoca coisas distantes que só existem
além
do pensamento, e deixam vagos instantes
de nostalgia, num impreciso tormento
dentro das nossa almas…
Morna desassossego,
voz
da nossa gente reflexo subconsciente
[43]

Mas se os pontos de contacto no espaço externo dos poemas de António Pedro e Jorge Barbosa são evidentes, já o mesmo não se dá na estrutura profunda da poesia de um e de outro. Em António Pedro é um pretexto, a voz distanciada («tristeza postiça, dum cansaço»); em Jorge Barbosa, um percurso interiorizado, para uma enunciação colectiva: «dentro/das nossas almas…» o «desassossego», a «voz/da nossa gente». Os demais poetas da primeira fase da Claridade (1935-1937) são Manuel Lopes, Osvaldo Alcântara [i. e Baltasar Lopes] e Pedro Corsino Azevedo. Destes, será Manuel Lopes o vizinho mais próximo de Jorge. Não que se fale de influências. O sinal de Manuel Lopes vem simultaneamente com o de Jorge Barbosa. Mas um dos pontos em que a poesia de Manuel Lopes se afasta da de J.   Barbosa  será  no   tom  filosofante,  no  por vezes solilóquio interrogativo:

Que importa o caminho da garrafa que atirei ao mar? Que importa o gesto que a colheu? Que importa a mão que a tocou
— se foi a criança
ou o ladrão
ou filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si ou para os outros?

O verso é mais longo, a linguagem mais discursiva, a interpretação do mundo real cabo-verdiano mais individualizado. O «tu» em Manuel Lopes tende a ser personalizado: «Mochinho,/teu destino é seres espantalho de corvos,/tocar lata e mandar funda/de desamparinho a desamparinho/na mèrada de milho a arder» 45; e o diálogo, mais do que admirativo é interrogativo ainda quando a sua proposta poética se situa ao nível da indagação colectiva:

Que disse a Esfinge
aos homens mestiços de cara chupada?
Esta encruzilhada
de caminhos e de raças
onde vai ter?
Por que virgens paragens se prolonga?
Que significa para eles o amanhecer? **

Em Pedro Corsino Azevedo, sem livro publicado, e de escassa produção poética, pelo menos a conhecida até agora (refere-se um original perdido: «Era de ouro») é legítimo falarmos em dois mundos. Um, diríamos existencial, equacionando os sonhos e os desenganos, superando o sentido trágico da vida («Sou o atleta vencido/Renascido») [47]. Outro, o da radicação de motivações populares, como no poema muito difundido «Terra-Longe»: «Terra-longe! terra-longe!… — Oh mãe que me embalaste!/Oh meu querer bipartido!» – ou em «Galinha branca»:

Galinha branca O espectro da morte A sorte De todos.
Olha p’ra mim! Assim:
Canivetinho
Canivetão


França
A única esperança…[49]

Com este poema ele ganha o direito a ser considerado o primeiro poeta da modernidade cabo-verdiana, uma vez que nos parece ter sido escrito por volta de 1930 [50].

Osvaldo Alcântara (i. e Baltasar Lopes) é de todos os poetas de Claridade aquele que vem produzindo uma poesia mais intelectualizada. Mas nem por isso Osvaldo Alcântara deixa de ser um poeta par e passo preocupado e identificado com o seu mundo colectivo, como em «Recordai do desterro no dia de S. Silvestre de 1957»:

«O inefável invade docemente a minha tristeza./Sei que a tua espada há-de fulgurar nas batalhas necessárias/e Nicolau nunca mais voltará a ser moeda/das riquezas de Caim» [51]. E nos seus recursos imagéticos, no seu discurso não raro metafórico ou metonímico, Osvaldo Alcântara marca a sua linguagem de uma exigência estética nem sempre alcançada por outros. Poesia habitada por uma consciência dialéctica, num permanente apelo às forças da reprodução mutativa. Recobre um espaço entretecido do cósmico, do social, da tradição popular, das forças criadoras da vida e da acção, de tal modo interiorizado e fundido no impulso poético, mas redimido pela racionalização: «Quem me dera ser estereoscópio para disciplinar as minhas sensações». Um dos seus últimos poemas, publicado em 1973, sagra-se pelo registo da esperança ao ritmo de uma pulsação radiosa, e nele, e com ele, Osvaldo Alcântara firma-se no chão real do espaço e do tempo cabo-verdianos:

Onde há o Tântalo de todas as recusas
e tudo gerou nada
e o tempo desembocou no presente
e no chão podre de húmus malditos
o presente só tem para ti uma colheita clandestina
esperança esperança esperança [52].

A Claridade sucede a geração de a Certeza (1944). Nem sempre o conceito de geração corresponde a uma demarcação estética ou ideológica. Mas neste caso corresponde. O grupo de Certeza todo ele perfilha o ponto de vista neo-realista. São, portanto, marxistas. Quando os componentes do grupo tomaram conhecimento de Claridade, e logo a seguir da proposta dos neo-realistas portugueses, abandonaram os possíveis liames com um passado e assumem, na ilha, o drama colectivo que feria grande parte da humanidade: a Segunda Grande Guerra Mundial. E é já no entendimento do que ela significa que Guilherme Rocheteau diz:
«Ao longe/na distância da manhã por vir,/a indecisão das camuflagens/e do rumor da guerra,/há agonias esbatidas no negro-fumo/da pólvora/dos homens que se batem./Aquem, é a luta na rectaguarda!» [53].

Mas esta visão dialéctica exprime-a também Tomaz Martins, aliás autor de uns escassos três poemas, tal como aquele seu companheiro de jornada:
«Eu quero verte/compreendendo o fogo do camarada irmão/nesta luta incerta que é a sua certeza» [54].

Nuno Miranda (Cais dever partir, 1960; Cancioneiro da ilha, 1964) foi nessa altura uma esperança. Então ele, na ufania de si próprio, revelava-se com o pseudónimo de Manuel Alvarez:
«Numa noite qualquer […] tombaram um por um, os falsos deuses!…» [55] — para, entretanto, vinte anos depois, se carpir no mundo confuso em que se deixou mergulhar, e com a consciência da crise que o destruía: «a nave» «tomba de leve no arquejo/das cousas caladas da noute»[56].

Arnaldo França, um dos mais dotados poetas da Certeza, teima em continuar ignorado escrevendo pouco (julgamos) e publicando nada, depois do seu breve e útil ensaio Notas sobre poesia e ficção cabo-verdianas (Sep. Cabo Verde (nova fase), n.° 157. Praia, Cabo Verde 1962). Mas o rastro por ele deixado é o de um lírico com a consciência do peso real das palavras, e ciente dos caminhos difíceis da aprendizagem poética. Há «muros altamente inacessíveis» no trânsito para «a conquista da poesia»:

Era um castelo erguido na montanha
da paisagem deserta submarina
tinha muros altamente inacessíveis
ao salto imaginário do meu pensamentos [57]

Poeta lírico mas que preenche a sua mensagem de conotações ideológicas precisas, evidentes até em títulos de poemas como «Paz» (é preciso lembrar o contexto: 1960) e exigir a paz era (é) combater a opressão, era efectuar o registo do «testamento para o dia claro». O seu discurso semeado de «sonhos», «encantamentos», «vigília», «silêncio», «distância», «pétalas dispersas», ou a «alma que se desprende em luz» ganha um relevo a um tempo tranquilo («Meus sonhos quem os fez nascer tranquilos/serenos?») e inquieto, que lhe sobe da «voz desperta». Há nele uma sabedoria que pré-anuncia um futuro na «esperança nova» porque a felicidade «só na comum seara se renova».

Mas no horizonte lívido do dia Recuam quando passa a nuvem fria Os pássaros metálicos da noite.
E na amplidão da luz que resplandece É de ti que surgiu a mão que tece A esperança nova à humana sortes [58].

Colocaríamos agora o nome de António Nunes (Devaneios, 1938; Poemas de longe, 1945) que, em 1944, mandava de Iisboa, para o n.° 2 de Certeza o «Poema de amanhã». Poema de intencionalidade unívoca, com ele António Nunes se impunha como o primeiro poeta neo-realista  cabo-verdiano   a  estabelecer  a   oposição colonizado/colonizador. Com efeito, nesse poema o «tu» é «Mamãe», a terra cabo-verdiana, mas subjacente está um «ele», o outro que dispõe dos homens, o colonizador:

— Mamãe! sonho que, um dia, estas leiras de terra que se estendem, quer seja Mato Engenho, Dàcabalaio ou Santana, filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor, serão nossas.
E, então, O barulho das máquinas cortando, águas correndo por levadas enormes, plantas a apontar, trapiches pilando, cheiro de melaço estonteando, quente, revigorando os sonhos e remoçando as ânsias novas seivas brotaram da terra dura e seca!… [59]

Aqui, António Nunes aparta-se de Jorge Barbosa, e de várias maneiras: na estrutura externa e no ponto de vista. Mais tarde, em «Ritmo de pilão», dava-nos a complementaridade desta proposta e mais se distanciava de Jorge Barbosa que, em vincado acento dorido, falava do «nosso drama» e até «da nossa revolta». Mas que revolta? — «da nossa silenciosa revolta melancólica». E António Nunes? Este, em 1958, abria a sua área temática, em «Ritmo de pilão»: «Bate, pilão, bate/que o teu som é o mesmo/desde o tempo antigo/dos navios negreiros…» 60. Ao sonho de que as terras «serão nossas» se junta agora o incitamento a uma luta continuada. O sentido da sua mensagem encerra a visão dialéctica da mudança e a necessidade de acção.
–––––
Notas:

47    Pedro Corsino Azevedo, «Renascença» in Claridade, n.° 5, 1947, p. 16; também in M. Ferreira, No reino de Caliban, 1.° vol., 1975, p. 121.

48    Idem, «Terra-Longe» in Claridade, n.° 4,1947, p. 12.

49    Idem, «Galinha branca» in M. Ferreira, No reino de Caliban, 1.° vol., Lisboa, 1975, pp. 124-125.

50    Deve-se a Pedro da Silveira a publicação deste poema, acompanhado de uma nota, em Mensagem, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, ano XVI, n.° 1, julho de 1964, pp. 10-11-12.
Fala-se  de  um  original perdido  de  Pedro  Corsino  de Azevedo, «Era de Ouro».

51    Baltasar Lopes, «Recordai do desterrado no dia de S. Silvestre de 1957» in Claridade, n.° 8,1958, p. 39.

52    Idem, «Menino de outro gongon» COLÓQUIO/Letras, n.°14,1973, p. 58.

53    Guilherme Rocheteau, «Panorama» in Certeza, n.° 1,1944.

54    Tomaz Martins, «Poema para tu decorares» in Claridade, n.°4,1947, p. 37.

55    Nuno Miranda, «Revelação» in Certeza, n.° 1, 1944.

56    Idem, Cancioneiro da ilha, 1964, p. 42.

57    Arnaldo França, «A conquista da poesia» in Claridade, n.° 5,1947, p. 33.

58    Idem, «Paz-3» in Claridade, n.° 8, 1958, pp. 27-28.

59    António Nunes, Poemas de longe, 1945, p. 32.
 

Continua…Cabo Verde 1 – Lírica

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 4: S. Tomé e Príncipe)

A evolução social de São Tomé e Príncipe teria sido paralela, em muitos aspectos, à de Cabo Verde [31]. Mas, em meados do século XH, implantando-se o sistema de monocultura, a burguesia negra e mestiça vai ser violentamente substituída pelos monopólios portugueses, o processo social do Arquipélago alterado e travada a miscigenação étnica e cultural. Mesmo assim, não podem deixar de ser considerados os efeitos do contacto de culturas. A sua poesia, de um modo geral, exprime exactamente isso; mas, na essência, é genuinamente africana.

A primeira obra literária de que se tem conhecimento relacionada com S. Tomé e Príncipe é o modesto livrinho de poemas Equatoriaes (1896) do português António Almada Negreiros (1868 — 1939), que ali viveu muitos anos e terminou por falecer em França. A última é a de um moderno poeta português, crítico, e professor universitário em Cardiff, Alexandre Pinheiro Torres, cujo título, A Terra de meu pai (1972), nos fornece uma pista: memorialismo bebido na ilha, por artes superiores de criação literária metamorfoseada na ilha «que todos éramos neste país solitário». Sem uma revista literária, sem uma actividade cultural própria, sem uma imprensa significativa, apesar do seu primeiro periódico, O Hquador, ter sido fundado em 1869, com uma escolaridade mais do que carencial os reduzidos quadros literários do Arquipélago naturalmente só em Portugal encontraram o ambiente propício à revelação das suas potencialidades criadoras. O primeiro caso acontece logo nos fins do século XIX com Caetano da Costa Alegre (1864 — 1890), {Versos, 1916) cuja obra foi deixada inédita desde o século passado. Cabe aqui, todavia, uma referência particular ao teatro a que poderemos chamar «popular», pelas características e relevância que assume no arquipélago de S. Tomé e Príncipe. Trata-se, em especial, de duas peças: O tchiloli ou A tragédia do Marquês de Mântua e de Carloto Magno e do Auto de Floripes, mas com preferência para a primeira. A segunda oriunda da tradição popular portuguesa; e O tchiloli supõe-se ser o auto do dramaturgo português do século XVI, de origem madeirense, Baltasar Dias, levado, tudo leva a crer, pelos colonos medeirenses na época da ocupação e povoamento. Reapropriados pela população de S. Tomé (e do Príncipe) estão profundamente institucionalizados no Arquipélago, principalmente O tchiloli mercê da actuação de vários grupos teatrais populares que, continuadamente, se dão à sua representação, enriquecida por uma readaptação do texto e encenação, cenografia e ilustração musical notáveis.

Parece ter sido um homem infeliz, em Lisboa, o autor de Versos, Costa Alegre: Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora, Tu és dia, eu sou a noite espessa [32] «Aurora» aqui é um ente humano e não um fenómeno cósmico. A ambiguidade resolve-se na leitura completa do poema. Caetano da Costa Alegre utiliza este signo polissémico com a intenção, ao cabo, de ele traduzir a cor branca: És a luz, eu a sombra pavorosa, Eu sou a tua antítese frisante [33]

A poesia de Caetano da Costa Alegre, na quase totalidade, funciona espartilhada num mecanismo antitético. Exprime a situação desencantada do homem negro numa cidade europeia, neste caso Lisboa. Versos é, porventura, a mais acabada confissão que se conhece, quiçá mesmo nas outras literaturas africanas de expressão europeia, do negro alienado. Costa Alegre, não se dando conta (impossível, diríamos, no século XIX e no tempo cultural e político da área lusófona) das contradições que o bloqueavam, faz-se cativo da sua condição de humilhado:
A minha côr é negra, Indica luto e pena; És luz, que nos alegra, A tua côr morena. É negra a minha raça, A tua raça é branca,
Todo eu sou um defeito [34]

Como tenta Costa Alegre desbloquear-se desta situação? Porque «negra» é a sua «raça», «todo» ele é um «defeito». Como pode ele reencontrar o seu equilíbrio psíquico? Alienado, /«-consciencializado, batido no deserto social em que se movimenta, então cura libertar-se através de uma compensação. Revoltando-se? Clamando contra a injustiça que o atinge? Não. Contrapondo atributos morais.

«Ah! pálida mulher, se tu és bela, […] Ama o belo também nesta aparência!» [35]. Amiúde as relacionações antinómicas vai buscá-las ao Cosmo:

«Só explendor por fora,
Só trevas é no centro!
O Sol, és meu inverso:
Negro por fora, eu tenho amor cá dentro» [36]

Com efeito, a sua poesia é a de um homem infelicitado. Amiúde recorrendo à comparação e à antítese, as figuras mais pertinentes são as que significam ou simbolizam as cores «negro» e «branco». Da erosão da sua alma transita para a obsessão infeliz, lutando por restabelecer a sua dignidade no refúgio do apelo à evidência moralizante, por norma em poemas lírico-sentimentais ou de amor. Versos fica como o primeiro e único texto onde o problema da cor da pele actua como motivo — e de uma forma obsessivamente dramática. Consideramo-lo o caso mais evidente de negrismo da literatura africana de expressão portuguesa. Alguns autores angolanos coevos de Costa Alegre deram também uma contribuição para este fenómeno, mas percorrendo um espaço menos significativo.

Perspectiva Geral

Temos deste jeito, e em resumo, o seguinte: cedo se esboça uma linha africana, irrompendo de um sentimento regional e em certos casos de um sentimento racial fundo, mas postulado ainda em formas incipientes que, tenazmente, abre um sulco profundo por entre a literatura colonial. De sentimento regional se transita para sentimento nacional, que vai dar lugar, entretanto, a uma literatura alimentada já por uma verdadeira consciência nacional e daí uma literatura africana, caracterizada pelos pressupostos de intervenção.

Ora, os fundamentos irrecusáveis de uma literatura africana de expressão portuguesa vão definir-se, com precisão, deste modo: a) — em Cabo Verde a partir do revista Claridade (1936 — 1960); b) — em S. Tomé e Príncipe com o livro de poemas Ilha de nome Santo (1943), de Francisco José Tenreiro; c) — em Angola com a revista Mensagem (1951—1952); d) — em Moçambique com a revista Msaho (1952); e) — na Guiné-Bissau com a antologia Mantenhas para quem luta! 1977.
————-

Notas

31    Francisco José Tenreiro, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe: Esquema de uma evolução conjunta. Sep. do Cabo Verde, ano III, n.° 76. Praia, Cabo Verde, 1956, pp. 12-17.

32    Caetano da Costa Alegre, Versos, 1916, p. 26.

33    Idem, p. 26.

34    Idem, p. 47.

35    Idem, p. 61.

36    Idem, p. 100. 

Continua… Cabo Verde – 1. Lírica

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 3: Moçambique e Guiné-Bissau)

3.    MOÇAMBIQUE
Em Moçambique, com um índice menor de europeus do que em Angola, com uma fixação de população branca mais instável, não deveriam ter sido criadas as condições culturais suficientes para o desenvolvimento de uma actividade literária cujo eco chegasse até aos nossos dias [30]. Nem se dá pela presença do notável poeta português Tomás António Gonzaga (1744 — 1810), degredado do Brasil para a ilha de Moçambique cerca de 1792, onde faleceria. Não obstante, a imprensa da época faz-se eco de críticas ao poder e à administração; e a literatura, através de poemas publicados de quando em quando, ensaia os primeiros passos da sua existência. Destacam-se os semanários O Africano (1877), O vigilante (1882?), Clamor Africano (1892?) que não usavam desencadear denúncias e ataques à corrupção e ao desumano tratamento dado às populações africanas, embora por vezes revelando uma perspectiva contraditória na análise global dos problemas («Contributo para a história da Imprensa em Moçambique».       Vide       Bibliografia).       Jornalistas prestigiados a partir da primeira década do século XX são os irmãos, mestiços, José e João Abasini que fundam O Africano (1908-1920) e vão continuar a sua acção política e pedagógica em O Brado Africano (1918). A estes dois nomes se junta o do seu compatriota Estácio Dias. Todavia, não há, até agora, conhecimento de haver sido publicado em Moçambique qualquer romance ou livro de poemas, antes do Uvro da dor, 1925 (contos) de João Albasini, o que não significa, de maneira nenhuma, a hipótese, ainda que remota, da existência de qualquer obra que não tenha sido ainda detectada.
Como quer que seja, para a formulação de uma correcta ideia dos valores que povoam a última parte do século XIX e a primeira do século XX, em relação a qualquer destes países, é necessário ter em conta a colaboração dada aos almanaques, com especial atenção ao Almanach de Lembranças (1851 — 1932), publicado em Iisboa, mas para onde convergiam muitos poetas africanos da língua portuguesa.
4.   GUINE-BISSAU
Conforme adiante procuraremos desenvolver, não foram criadas na Guiné-Bissau condições sócio-culturais propícias à revelação de valores literários. Basta termos presente que o primeiro jornal dessa ex-colónia, o Pró-Guiné, foi fundado em 1924. Há, no entanto, que destacar uma figura de relevo, a solicitar as atenções da investigação, o cónego Marcelino Marques de Barros (1843 — 1929) que no campo da etnografia (Literatura dos   Negros,    1900)    desenvolveu    grande    aplicação, sintonizando-se em qualidade com os especialistas portugueses coevos que, frize-se, eram de nível europeu. Para além da obra citada deixou colaboração dispersa, inclusivamente no Ahnanach LusoAjricano para 1899 (Cabo Verde), na Revista Lusitana, A Tribuna, Boletim da Sociedade de Geografia de Usboa, Anais das Missões Ultramarinas; Voz da Pátria, na qual publicou canções e contos, dois dos quais republicados por J. Leite de Vasconcelos em Contos populares e lendas, vol. 1, 1964. Finalmente parece ter deixado um manuscrito: «Contos e cantares africanos», por certo da Guiné-Bissau.
–––––-
Nota:
[30] Aqui nos cumpre esclarecer, se para tanto houver necessidade. Quando ao longo das nossas intervenções nos referimos a uma maior ou menor presença europeia ou a um maior ou menor índice de mestiçagem como fundamento de uma maior ou menor actividade cultural ou literária, é evidente que não pretendemos emprestar a estas afirmações um carácter racial, mas sim cultural e político. Os alicerces de uma literatura neo-africana do período colonial construíram-se a partir de uma burguesia europeia, europeizada ou africana. O povo, o homem africano, esse continuando analfabeto, longe das influências culturais de raiz europeia, manteve-se alheio ao processo literário. Os jornalistas, os poetas, os ficcionistas teriam forçosamente de ser recrutados nos estratos sociais de onde emergiam, normalmente, aqueles que teriam acesso à escola, à instrução, à cultura.
Continua… S. Tomé e Príncipe
Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (Parte 2: Cabo Verde)

(foi mantida a grafia original)

2. CABO VERDE

De qualquer modo, será de admitir ter sido menos resistente e organizada a vida cultural em Moçambique do que em Angola e Cabo Verde [15]. É certo que de uma maneira geral os intelectuais cabo-verdianos de origem europeia terminaram por emigrar para Portugal, na maioria dos casos por motivos familiares, e foi em Lisboa que muitos se fizeram escritores, naturalmente desenraizados dos problemas da Terra-Mãe, alguns deles acabando por alcançar lugar de prestígio nos meios literários lisboetas, deixando obras de mérito, como Antónia Gertrudes Pusich (1805 — 1883) e Henrique de Vasconcelos (1875 — 1924), autor de uma vasta obra [16]. No entanto, criado e accionado pelo cónego António Manuel Teixeira, o Almanach Luso — Africano (2 vols., 1894 e 1899) regista colaboração de natureza literária.

Porventura período ainda mal estudado, afirmações definitivas podem induzir-nos em erro. No entanto, cada vez mais se nos enraiza esta convição: não houve em Cabo Verde uma verdadeira literatura colonial por muito insólita que possa parecer esta afirmação. O período colonial não implica forçosamente a existência de uma literatura colonial nos termos em que para trás a designámos. A colonização, a partir da segunda metade do século XIX, havia já adquirido no Arquipélago uma feição própria. Pelo visto, a posse da terra e postos da Administração, a pouco e pouco transitavam para as mãos de uma burguesia cabo-verdiana, mestiça, branca ou negra. Isto, que não condiciona a exploração, pode condicionar as relações da exploração e alterar assim a natureza da oposição: em vez de colonizado/colonizador, flectiria, em grande parte, para explorado/explorador, tal como sucede nas sociedades de tipo capitalista, salvaguardando, claro, e sempre, os aspectos de uma situação especificamente colonial, notadamente nas relações entre o poder político e as populações.

Um exemplo elucidativo do que acabamos de afirmar, entre outros, é a narrativa de José Evaristo de Almeida, por nós há alguns anos referenciado, O escravo, cuja acção decorre na primeira metade do século XIX e se situa na ilha de Santiago com incidências, através de jlashbacks, na ilha de Santo Antão, e referências a Iisboa e a Bissau [17].

Marcado, como é óbvio, pelas características da literatura do período romântico, nos segmentos da intriga ganham realce a exacerbação dos sentimentos de amor ou de fraternidade, o amor platónico, a trama dramática das relações familiares no jogo do imprevisto, chegando a esboçar-se o incesto e, de sequência em sequência, na acumulação dos acontecimentos, a tragédia desencadeia-se, alarga-se, intensifica-se. Uma das virtudes deste texto está em que a quase totalidade das personagens manipuladas são africanas (negros, mestiços, mulatos). E o espaço é o da escravidão, abrindo-se-nos à compreensão de um mundo longínquo no tempo, permitindo uma perspectiva diacrónica de largo alcance. Assim, e em termos de escrita, ficamos a saber, ao vivo, que senhores de escravos havia que eram africanos: pelo menos, mulatos.

Romance libertador, procurando redimir a humilhação escrava e compreender e valorizar o homem africano em geral; organização romanesca equilibrada, a linguagem d’0 escravo suporta o confronto com autores mais do que minimamente dotados, com ressalva para os diálogos, demasiadamente retóricos, desajustados à capacidade expressiva dos protagonistas — mas esse é também um senão que se pode endossar a muitos escritores de valimento da época romântica (e não apenas).

Ora este texto de José Evaristo d’Almeida, na verdade, vem ao encontro daquilo que nos andava, até há pouco, no domínio da suspeição: o não ter havido em Cabo Verde uma literatura colonial.

O escravo é um exemplo acabado ao qual podemos juntar, também por localização recente, outros textos, e estes agora de autores cabo-verdianos. António de Arteaga: «Amores de uma creoula», 1911 [18] e «Vinte anos depois», 1911 [19]; Guilherme A. da Cunha Dantas (século XIX — 1888): «Bosquejos d’um passeio ao interior da ilha de S. Thiago», 1912 [20], «Contos singelos — Nhô José Pedro ou Scenas da ilha Brava», 1913 [21], e «Memória de um rapaz pobre», romance, 1913 [22] Eugênio Tavares (1867 — 1936): «Vida creoula na América», 1912 – 1913 [23], «A virgem e o menino mortos de fome», 1913 [24], «Dramas da pesca da baleia», 1913 [25]. E com este registo, que ora se faz, ao que julgamos pela primeira vez, se começa a preencher a grande lacuna que vinha envolvendo o quadro histórico da literatura cabo-verdiana no século XIX e começos do século XX.

De um modo geral, estes autores procedem às suas abordagens colocando-se dentro do universo cabo-verdiano e o seu registo é dominado pelo concurso de algumas das contradições do sistema social, donde uma mensagem criticamente positiva e esclarecedora.

Cedo em Cabo Verde se teria criado e desenvolvido o ensino primário particular, e depois o secundário. Há notícia (assinalamo-lo em nota), da criação de bibliotecas, como a da Praia, de associações culturais, entre outras.

O padre António Vieira, numa das suas derrotas para o Brasil, de passagem pela que é hoje cidade da Praia, capital de Cabo Verde, dá-nos uma ajuda para visionarmos um tanto melhor esse grau de desenvolvimento e saber, havido já no recuado século XVII: «São todos pretos, mas somente neste accidente se distinguem dos europeus. Tem grande juizo e habilidade, e toda a politica que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que ensina a natureza». Adiantava ainda que havia ali «clérigos e cónegos tão negros como azeviche; mas tão compostos, tão auctorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer invejas aos que lá vemos nas nossas cathedraes» [26].

Por outro lado, ali se vai reestruturando uma cultura caldeada nos valores africanos e europeus, tendendo para uma univalência cultural e construindo uma harmonia racial que contrasta, por exemplo, com o caso antilhano — e isto para referirmos um fenómeno de aculturação também de natureza insular. O sentimento da cor da pele tão diluído é que a literatura cabo-verdiana não chega a denunciar a cor das personagens. E, se tal acontece, a distinção vem envolvida de uma carga afectiva [27].

Tudo quanto vem de dizer-se pressupõe não só a existência de condições propícias ao aparecimento de produtores de textos como também à formação de uma literatura de características especiais no seio do próprio século XIX. A maioria sem livro publicado, é certo. Aos nomes já referidos ajuntamos mais os de poetas como Luiz Theodoro de Freitas e Costa, (1908 — Séc. XX), José Maria de Sousa Monteiro Júnior (1846 — 1909) e Custódio José Duarte, (1841 — 1893), este último possivelmente sem livro publicado. E a estes há que agrupar figuras esquecidas por jornais, revistas e almanaques, como Manuel Alves de Figueiredo de Barros, (1895 — séc. XX), António Corsino Lopes da Silva (1893 — séc. XX), João Mariano, (1891 — séc. XX), já citado, Gertrudes Ferreira lima (séc. XIX — séc. XX), todos poetas. Como poetas são Joaquim Maria Augusto Barreto (1850 — séc. XK), Luis Medina Vasconcelos (séc. XIX — séc. XX), Rodrigo Aleixo ou, com obra publicada, João José Nunes, (1885 — c. 1965/6), Mário Duarte Pinto, (1887 — 1958) [28]. A partir da década de vinte o nome que se impõe à consideração pública é o de José Lopes (1872 — 1962), de par com o de Eugênio Tavares (1867 — 1930) (este, essencialmente de expressão dialectal) e o do poeta bilingue Pedro Cardoso (c. 1890 — 1942), também autor do estudo Folclore caboverdiano (1933; finalmente, Januário Leite (1865 — 1930).

Foi todo este percurso de quase um século que funcionou como fermento da original explosão trazida pela Claridade, como um «longo processus subterrâneo de consciencialização cultural» (Jaime de Figueiredo in Introdução à antologia Poetas modernos cabo-verdianos, 1961, p. XVI).

Mas, pergunta-se: José Lopes ou Pedro Cardoso (este enquanto poeta de língua portuguesa) ou Januário Leite trouxeram ou não uma contribuição válida para a moderna poesia? Considera-se a autêntica literatura cabo-verdiana aquela que exprime a cabo-verdianidade, ou seja o conjunto de textos cujo enunciado reflecte o real cabo-verdiano. Com frequência, e alguma veemência, a partir de década de trinta, a questão ficou devidamente clarificada e demarcada, embora nem sempre isenta de excessos, como quase sempre acontece em momentos de ruptura (e a parte de responsabilidade que nisso nos cabe não a queremos enjeitar) [29].

Mas importa averiguar por que razão estes escritores, com especial relevo para José Lopes, sofreram o ataque e depois a marginalização das gerações que lhes sucederam. Os intelectuais e escritores, a partir da Claridade, como adiante teremos ocasião de verificar, projectaram o seu esforço criador nos grandes segmentos que representavam ou simbolizavam a parte viva da sua pátria, ou seja, aquela que não adoptava os critérios e os padrões que serviam o colonialismo; e assim, aberta ou implicitamente, condenavam tudo quanto vivesse fora deste projecto nacional.

Simplesmente, acontece que o arquipélago de Cabo Verde é hoje uma República independente. A sua realidade política é, por essência, outra bem diferente. A sua realidade histórica, outra é. Com isto se conjuga também uma nova realidade cultural. A este período, logicamente corresponderá uma nova literatura ou uma nova fase da sua literatura. Subjacente ou emergente a tudo isto está uma consciência nacional. Está a formação de um profundo sentimento nacional que há-de alimentar-se nas raízes da longa história do processo social e político de Cabo Verde, não a partir da data em que a luta foi desencadeada pelo P. A. I. G. C, não a partir da data das teses de Amilcar Cabral (embora por via de tudo isto mesmo), mas a partir da remota origem cabo-verdiana.

E esta começa quando os portugueses fizeram desembarcar nas ilhas os primeiros colonos e os primeiros escravos. Este será o caminho para a busca de uma totalidade histórica, política, social, económica e cultural. Concomitantemente, o mesmo sucederá para a sua literatura. Com isto queremos dizer que estamos convencidos (só aos cabo-verdianos competirá fazer o que julgarem por bem) que os futuros historiadores da literatura, os futuros estudiosos do processo cultural cabo-verdiano terminarão por considerar a globalidade da actividade literária levada a cabo ao longo das décadas ou de séculos pelo homem cabo-verdiano. E, deste modo, todos aqueles que foram considerados antecessores, ou precursores, terão o seu lugar próprio na história da literatura cabo-verdiana. Se este critério vier a ser considerado correcto, naturalmente ele se há-de aplicar a Angola, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. As futuras histórias da literatura e da cultura dos novos países africanos terminarão por recuperar aqueles autores naquilo que na sua obra houver de significação nacional. Não foi outra coisa o que aconteceu no Brasil e difícil se nos afigura que possa ser de outro modo nos casos vertentes. É evidente que, ao referirmos o Brasil, estamos a considerar sobretudo o período colonial encerrado com a independência do Brasil em 1822. Isto não invalida que, para além das eventuais ou possíveis subdivisões, não venha a considerar-se a literatura cabo-verdiana em duas grandes fases: antes e depois da Claridade.
––––––––
Notas:
15 Segundo Gabriel Mariano, de 1853 a 1892 fundaram-se na cidade da Praia (Cabo Verde) treze associações recreativas e culturais como, por exemplo, a Dramática Associação Igualdade, Sociedade Gabinete de Leitura, Associação Literária Grémio Cabo-Verdiano (Entrevista ao Diário Popular (suplemento literário), 23 de maio de 1963.

16 Henrique de Vasconcelos, cabo-verdiano de nascimento, cremos que desde cedo radicado em Portugal, enquanto vivo desfrutou de prestígio literário em Portugal. É autor, pelo menos, das seguintes obras: Flores cinzentas (p), Coimbra, 1893; Os esotéricos (p), Lisboa, 1894; A harpa do Vanadio (p), Coimbra,
1895; Amor perfeito (p), Lisboa, 1895; A mentira vital (c), Coimbra, 1897; Contos novos (c), Lisboa, 1903; Flirts (p), Lisboa, 1905; Circe (p), Coimbra, 1908; O sangue das rosas (p), Lisboa, 1912.
De temática europeia, qual das histórias da literatura o irá recuperar? A portuguesa ou a cabo-verdiana?

17 Não existe nenhum exemplar na Biblioteca Nacional de Lisboa do romance O escravo (1856) de José Evaristo d’Almeida. O único exemplar conhecido encontra-se na posse dos descendentes do autor, residentes em Cabo Verde. Foi por informação de um deles, Amiro Faria, que o registámos em A aventura crioula, 2. edição, 1973. Possuímos uma fotocópia. No entanto, foi republicado in A Voz de Cabo Verde desde o n.° 244, 22 de maio de 1916 ao n° 294, de maio de 1917,

18 António de Arteaga, «Amores de uma creoula» in A de Cabo Verde, Praia, Cabo Verde, ano I, n.° 1, março de 1951 até ao n.° 17,10 de maio de 1911.

19 Idem, «Vinte anos depois», idem n.° 19, 25 de dezembro de 1911.

20 Guilherme A. Cunha Dantas, «Bosquejos d’um passeio ao interior da ilha de S. Thiago», idem, n.° 22,15 de janeiro de 1912 ao n.° 63, 28 de setembro de 1912.

21 Idem, «Contos singelos. Nhô José Pedro ou scenas da ilha Brava», idem, n.° 78, 10 de Dezembro de 1913 ao n.° 96, 16 de junho de 1913.

22 Idem, «Memória de um rapaz pobre», idem, n.° 106, 25 de agosto de 1913.

23 Eugênio Tavares, «Vida creoula na América», idem, n.°68, 12 de dezembro de 1912, e n.° 70, 10 de dezembro de 1913. O autor, Eugênio Tavares, faleceu em 1888. Logo, a publicação desta novela é póstuma. E das duas uma: ou se aproveitou um inédito depositado nas mãos de familiares ou amigos ou então terá de se admitir a utilização de um exemplar de cuja existência não se sabe o paradeiro. O mesmo se aplica às suas novelas registadas.

24 Idem, «A virgem e o menino mortos de fome», idem, n.° 73, 6 de janeiro de 1913 ao n.° 77, 3 de fevereiro de 1913.

25 Idem, «Drama da pesca da baleia», idem, n.° 101, 21 de julho de 1913 ao n.° 104,11 de agosto de 1913.

26 «Carta do Padre António Vieira escripta de Cabo Verde ao padre confessor de sua alteza indo arribado aquelle Estado» [Datada de 25 de dezembro de 1652] in Cabo Verde. Praia, Cabo Verde, ano II, n.° 23, pp. 11-12.

27 Vide Baltasar Lopes — Cabo Verde visto por Gilberto Freyre. Sep. boletim Cabo Verde, n.° 84-86. Praia, Cabo Verde, 1956; Gabriel Mariano — «Do funco ao sobrado ou o mundo que o mulato criou» in Colóquios cabo-verdianos, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1959; Manuel Ferreira — A aventura crioula, 2. ed. Lisboa, Plátano Editora, 1973; António Carreira — Cabo Verde — formação e extinção de uma sociedade escravocrata — 1460-1878. Porto, 1972.

28 A este respeito José Lopes fornece elementos de interesse em «Os esquecidos» in Cabo Verde, ano III, n.° 35, Praia, Cabo Verde, agosto de 1952, pp. 29-32; «Ainda os nossos poetas», idem n.° 36, pp. 9-10; e sobretudo em «Vida
colonial» in Vida Contemporânea, ano II, n.° 15. Lisboa, Julho de 1935, pp. 196-204; idem, n.° 18, outubro de 1935, pp. 725-731, e n.° 20, dezembro de 1935, pp. 876-882. Vide também Nuno Catarino Cardoso: Poetisas portuguesas. Lisboa, 1917; Sonetistas portugueses e luso-brasileiros. Lisboa, 1918; Canáoneiro da saudade e da morte. Lisboa, 1920.

29 José Lopes, apesar de uma ou outra alusão aos seus «Irmãos hespertanos!» ou aos seus «bons irmãos de Dakar» (entenda-se cabo-verdianos lá residentes) ou ao seu «Lameirão», «a nossa antiga horta?…», de São Nicolau; ou de chorar a sua desolação quando, por lapso de um ano, se viu obrigado a emigrar para Angola: «Longe de Cabo Verde, em terra estranha/[…] chorarei minha mágoa confidente,/[…] No desolado exílio deste mato…», apesar de tudo isso, o momento em que o poeta partilha do destino do seu próprio povo é na poesia «A catástrofe da Praia», escrita em 1949, quando um grupo numeroso de esfomeados, que recebia assistência na capital, ficou soterrado num barracão que desabou por força de um temporal: «Não bastavam as fomes? A Miséria/Prolongada, de tantos anos,/tantos,/Sem uma luz na escuridão ciméria?/Tantas angústias tanta Dor e prantos?» Mas nem esta longa poesia de quarenta e quatro quadras enformadas de referências mitológicas e conceitos mítico–religiosos pode autorizar-nos a incluir o nome de José Lopes no capítulo da moderna poesia cabo-verdiana.

Por sua vez, a poesia de Januário Leite (1865-1930) é a viva conotação do drama individual de um desadaptado morbidamente incompreendido e infeliz: «As minhas horas sombrias,/São horas do meu prazer;/Quem nunca teve alegrias,/Afeiçoa-se ao sofrer…»

Pedro Cardoso (c. 1890-1942), autor de «Crioula» («Crioula divina/e moça e menina!/(…) É lírio, ébano e coral!»); de «Morna» («Flor de duas raças tristes/Vindas da Selva e do Mar,/Que a nós se acharam um dia/Na mesma praia ao luar»); de «Cabo Verde», («Cabo Verde, que ironia bruta e negra perdida/Toda aberta em ígneo algar/por sobre a verde campinha/Das ondas verdes do mar!»); e de outros poemas, tendo como ponto de partida o vulcão do Fogo, sua ilha natal: «Vesúvio cabo-verdiano!», «Padrão imenso sobre o mar erguido», «simbolizando» «o futuro talvez de um grande povo!», assim poesia de ambiência regional, com relevo para a «VI» do livro Hespérides, sobre as estiagens, citando inclusive a «fome crónica e dura»; apesar de toda esta preocupação humana, que lhe dá o natural direito de ter alcançado maior grau de autenticidade regional do que o próprio José Lopes — mesmo assim, por muito respeitável que tenha sido a actividade poética destes autores, eles ficarão como antecessores, e não como precursores. Eles serão o primeiro termo de uma relação. Eles antecedem, mas não anunciam, não predizem. Justificam, mas dificilmente deixam adivinhar ou perceber a natureza do termo consequente.

 Continua… Moçambique e Guiné-Bissau

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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John Maxwell Coetzee (1940 – )

Nascido na Cidade do Cabo a 9 de Fevereiro de 1940, Prêmio Nobel da Literatura (2003) por retratar em sua obra, sob inumeráveis maneiras, o envolvimento surpreendente do estranho. O mais velho das duas crianças de uma professora de escola primária e de um advogado, e recebeu a educação primária em Cape Town e na cidade próxima de Worcester. Concluiu sua educação secundária no Marist Brothers, uma escola católica de Cape Town (1956). Entrou na Universidade de Cape Town (1957), e formou-se sucessivamente em inglês (1960) e matemática (1961).

Coetzee estudou na sua cidade natal até completar dois bacharelatos, um em língua inglesa e outro em matemática. Os anos 1962 – 65 foram passados na Inglaterra, trabalhando como programador de computadores, ao mesmo tempo que preparava uma tese sobre o novelista inglês Ford Madox Ford.

Em 1968 Coetzee completou o seu doutoramento em linguística das línguas germânicas na Universidade do Texas, em Austin, com uma tese sobre os primeiros trabalhos de Samuel Beckett. Entre 1968 e 1971, Coetzee foi professor de inglês na Universidade do Estado de Nova Iorque em Buffalo mas, depois de lhe ser negado o direito de residência permanente nos EUA, regressou à África do Sul onde ensinou na Universidade da Cidade do Cabo, até 2000. Em 2002, ele emigrou para a Austrália e ensina na universidade de Adelaide.

Quando pesquisava para uma tese sobre a novelista inglesa Ford Madox Ford, casou-se (1963) com Philippa Jubber (1939-1991) e com quem teria um filho, Nicolas (1966-1989), e uma filha, Gisela (1968-). Entrou como diplomado na University of Texas, em Austin (1965), onde obteve um Ph.D. em inglês, lingüística, e idiomas germânicos (1968). Nos três anos (1968-1871) foi professor assistente de inglês na State University of New York, em Búfalo, quando também começou a escrever ficção. Depois que seu visto de residência permanente nos United States, foi negado, voltou à África do Sul e exerceu uma séries de funções na University of Cape Town (1972-2000), o último deles como Distinguished Professor of Literature.

Durante este período e no subseqüente, ensinou também freqüentemente nos United States, especialmente nas universidades State of New York, Johns Hopkins, de Harvard, Stanford e de Chicago, onde durante seis anos ele foi membro do Committee on Social Thought. Seu primeiro livro, Dusklands, foi publicado na África do Sul (1974). Depois veio Heart of the Country (1977) com o qual ganhou o CNA Prize, então o principal prêmio literário da África do Sul, e que também foi publicado na Inglaterra e nos EEUU Mas foi com Waiting for the Barbarians (1980) que ganhou reputação internacional. Com Life & Times de Michael K (1983) ganhou o Booker Prize, na Inglaterra.

Outras importantes publicações de sua autoria foram Foe (1986), Age of Iron (1990), The Master of Petersburg (1994) e Disgrace (1999), que lhe deu um novo Booker Prize. No campo dos não ficcionais foram destaque Doubling the Point (1992), Boyhood (1997), Stranger Shores (2001), Youth (2002), Elizabeth Costello (2003). Também foi ativo como tradutor de holandês e literatura de holandês sul-africano e emigrou para a Austrália (2002) onde passou a viver com a família em Adelaide, e onde ocupa um cargo honorário na University of Adelaide.

Seu mais recente romance, intitulado Diary of a Bad Year, ainda não foi traduzido para o português.

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Caminhos da Ficção da África Portuguesa (Rita Chaves e Tânia Macedo)

Nomes como Mia Couto, José Luandino Vieira e Pepetela despontam na literatura dos países colonizados pelos portugueses. No uso da língua, os escritores reafirmam a diversidade. Nas tramas dos livros, combinam história recente e mitos do passado mais antigo. Em muitos casos, prevalece o olhar irônico por Rita Chaves e Tânia Macedo

Que lugar pode ocupar a literatura num continente devastado pela miséria, pelo analfabetismo, pelos conflitos armados, pela precariedade da vida? Se nos deixamos levar pela lógica das estatísticas, temos de assinalar que, de fato, a atividade literária na África não supera a marca do traço. Porém, segundo Mia Couto, um de seus mais prestigiados escritores, essa duríssima realidade não pode ser vista como um impedimento para o lugar do sonho que a literatura também pode abrigar. Aos escritores, cabe, portanto, encarar como um desafio o ato de escrever num quadro atravessado por tão duras contradições.

Em se tratando dos países colonizados por Portugal, a situação é verdadeiramente complicada. A inconsistência do projeto de colonização, o próprio atraso da metrópole e o prolongamento da empresa colonial estão na origem das difíceis condições de vida em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Nos anos 70, quando o colonialismo lusitano foi interrompido pela vitória das lutas de libertação, encontravam-se as populações africanas mais distantes dos padrões ocidentais no que refere ao domínio da ciência e da tecnologia do que quando ele ali se instalou. As elevadíssimas taxas de analfabetismo eram apenas um dos reflexos do completo fiasco da “missão civilizadora”. Com exceção de Cabo Verde, que apresentava um quadro educacional menos constrangedor, os territórios ocupados caracterizavam-se por baixíssimos índices de escolaridade. A pluralidade lingüística, que poderia ser vista como sintoma da riqueza cultural, tornava mais complexa a situação dos países.

Moçambique, por exemplo, contava mais de duas dezenas de línguas. Reconhecendo a incomunicabilidade entre os vários segmentos que passaram a ser parte de um território comum como um dos mais cruéis legados do sistema colonial, os escritores enxergaram no exercício literário a possibilidade de reforçar um patrimônio comum que a história, mesmo à revelia, havia criado. O reforço dessa convergência seria uma estratégia importante para a libertação. A atividade literária converteu-se desde muito cedo em ato de resistência e um problema que logo se colocou foi o da escolha da língua em que se realizaria o projeto de integração que a literatura chamava para si.

Não acreditando noutras hipóteses, os escritores, sem ignorar a dimensão do problema, assumiram o português como um instrumento a ser utilizado a seu favor. A nacionalização da língua trazida com a invasão seria uma estratégia para a conquista maior. Esse movimento de nacionalização traduziu-se num esforço para conferir ao idioma conotado com a metrópole marcas que o tornassem também um espaço de identidade cultural de cada um dos territórios.

Passados mais de 30 anos desde a independência, o pragmatismo que está na base da escolha da língua oficial, embora tenha resolvido a questão principal, não afastou completamente aspectos que cercam a literatura. Vez por outra, o debate ressurge, sugerindo que essa é uma espécie de área minada, pois a preocupação com o problema permanece no imaginário de fecundos escritores. Em inúmeras vezes, José Luandino Vieira, um dos maiores ficcionistas angolanos, defendeu a idéia de que a língua portuguesa é uma espécie de despojo de guerra, portanto o seu uso é um direito dos africanos e não um sinal de alienação. O fato é que dos dilemas que a relação guarda têm nascido páginas belíssimas dessa literatura.

Entre os ficcionistas, há pelo menos três que se têm destacado pelo trabalho de reinvenção da língua que operam em seus textos: o próprio José Luandino Vieira e seu conterrâneo Boaventura Cardoso e o moçambicano Mia Couto. Dividindo-se entre o conto e o romance, esses autores trabalham a língua portuguesa buscando enfatizar a sua diversidade. Em seus textos, recorrem ao uso de neologismos, desobedecem à norma culta, empregam palavras das línguas de seus países, tornando-as, portanto, mais próximas das realidades apanhadas pelo texto literário. Diante de seus textos, o leitor percebe logo que o autor não é um português.

Ao leitor brasileiro, essa produção vai lembrar o nome de Guimarães Rosa, uma vez que, tal como o brasileiro que fez do sertão um espaço privilegiado, esses escritores, além de transformarem a língua com a interferência de construções um tanto insólitas, procuram trazer para a literatura certa dinâmica da oralidade. Não se trata simplesmente de recontar as lendas, os mitos e as fábulas que compõem as suas tradições, mas de revitalizar a escrita através do questionamento dos modelos ocidentais. Dessa forma, eles exprimem o impasse criado entre a recusa de uma tradição imposta pelo sistema colonial e a impossibilidade de retomar integralmente a tradição que fora submetida ao amordaçamento pelo mesmo sistema. A necessidade de resgatá-la em novas bases vai orientar a procura de novas falas que a literatura precisa abrigar.

Em Angola, onde a ficção se consolidou mais cedo, essa urgência de romper com a convenção que se tentou impor também condicionou logo a invenção de novos espaços e a predominância de personagens que durante a dominação foram desconsiderados pela chamada literatura colonial. Os pobres, os negros, os excluídos ganham a cena na prosa de ficção, alçados ao estatuto de protagonistas do que se pode chamar de uma outra história. Nos anos que antecederam a independência e no período imediatamente posterior, as obras publicadas empenhavam-se em oferecer versões da história que se contrapusessem às imagens disseminadas pelo discurso colonial. Os silenciados exercitavam o direito à voz, conquistado com a libertação. Romances como Mayombe, de Pepetela, e os contos de Sim, camarada, de Manuel Rui, vão revelar novos heróis, em textos que celebram a resistência.

Curiosamente, esses mesmos autores, ainda nos tempos de euforia revolucionária, publicam dois textos de forte conteúdo crítico. O cão e os caluandas, do primeiro, e Quem me dera ser onda, do segundo, com uma perspectiva muito irônica, que contamina a própria linguagem, fazem do humor um modo de abordar o tempo das carências materiais e da desorganização cultural que predomina nos primeiros anos da revolução. O processo de desagregação do projeto utópico começa a ser tratado pela literatura que anunciara a transformação.

A consciência crítica da realidade que sucedia ao sonho convive, todavia, com uma aposta na literatura como marca de identidade. Vamos encontrar assim o romance histórico como uma tendência significativa no itinerário do gênero. Do próprio Pepetela, podemos referir Lueji e A gloriosa família – o tempo dos flamengos. De Arnaldo Santos, temos A casa velha das margens, que, como A conjura, de José Eduardo Agualusa, remonta ao século XIX para oferecer elementos que permitam interpretar o presente. É interessante assinalar que esse tipo de narrativa, que teve seu modelo forjado no Ocidente, no contexto das literaturas africanas traz uma característica especial: para além das fontes documentais, os autores lançam mão da memória oral, confirmando a energia dessas matrizes no patrimônio cultural africano.

Tão forte em Angola, o romance histórico não tem o mesmo peso nos outros países. Ali, percebe-se o desejo de resgatar mitos que a história colonial havia desconsiderado, recuperando para muitos um papel edificante, compatível com a construção do nacionalismo orgulhoso, como é o caso de Nzinga Mbandi, de Manuel Pedro Pacavira. Até o presente, em Moçambique destacam-se apenas dois casos de romances que excursionam pelas páginas da história. O primeiro deles é Ualálapi, de Ungulani ba ka Khosa, publicado em 1987. E, muito curiosamente, a narrativa, em lugar de enaltecer o mito de Ngungunhane – o imperador de Gaza que resistiu bravamente aos portugueses –, oferece uma imagem em tudo contrária à dimensão heróica que o novo Estado procurava assegurar ao personagem. Mais recentemente, Mia Couto, em O outro pé da sereia, faz uma incursão pela história e vai ao século XVI colher material para uma reflexão sobre aspectos contemporâneos da realidade africana. Mais uma vez, a ironia está presente na estrutura da obra.

Muito embora seja reconhecido o peso do passado colonial na situação a ser enfrentada hoje, há uma inegável tendência de trazer a discussão para outros termos, responsabilizando as elites que tomaram conta do poder e contribuíram para o quadro de desagregação mais evidente num ou noutro país. Já em 1994, com O desejo de Kianda, Pepetela denunciava uma Luanda (cidade que foi fundamental na literatura que espelhava o desejo de mudança) vivendo a experiência da ruína. Esse processo de apodrecimento da cidade, que foi tão importante na geografia literária dos anos 60, quando ganhavam corpo os desejos da transformação, será intensificado pelo mesmo autor em obras como Predadores e Jaime Bunda, o agente secreto. Com Jaime Bunda e a morte do americano, este último integra uma série que, parodiando o romance policial, oferece-nos um registro mordaz da degradação das relações sociais e humanas numa sociedade que vive um intenso desregramento.

A ironia será também a marca da ficção em Cabo Verde. Uma boa dose de mordacidade marca o humor que emerge em romances como O testamento do senhor Nepomuceno e A família Trago, de Germano de Almeida. Em todos eles, o foco recai sobre a sociedade caboverdiana numa atualidade em que se refletem os traços de um passado não muito distante e em que se confirma o caráter mestiço da cultura das ilhas. Germano brinca com os estereótipos com que os ilhéus são muitas vezes pintados, mas consegue tratar algumas de suas peculiaridades de maneira corrosiva, sugerindo características que compõem a sua identidade ostensivamente mesclada.
Apesar de estar ainda numa fase incipiente, a prosa de ficção na Guiné-Bissau é marcada por um olhar ácido, incapaz de ver saída. Romances como Eterna paixão e Mistida, de Abdulai Sila, e Kikia Matcho, de Filinto de Barros, tematizam a desilusão diante daqueles que deveriam ser os novos tempos. O pós-independência é visto amargamente nessas duas últimas narrativas, nas quais o recurso àquilo a que se convencionou chamar de fantástico é utilizado para expressar a deterioração de valores que se quer apontar. Já em A última tragédia, de Sila, temos um recuo ao período anterior à independência, e figuras como o professor negro e um velho régulo traduzem uma ponta de esperança em meio ao drama colonial.

A tensão entre um presente difícil e a necessidade de encontrar alguma saída marca essa prosa de ficção. As diversas situações de instabilidade, o acirramento das contradições sociais e a convivência com a morte caracterizam essas realidades onde a guerra tem sido uma marca muito freqüente, o que explica que ela apareça em tantos textos. Melhor seria falar em guerras, pois elas, na verdade, são várias e de maneiras diferentes serão abordadas no interior das obras.

José Luandino Vieira faz da guerra o pano de fundo de duas de suas excelentes narrativas. Em Nós, os do Makulusu, escrita em 1967, ela é a expressão do dilaceramento de um mundo condenado. A sociedade colonial começa a experimentar a consciência de seu fim, e a morte de Maninho, alferes do exército colonial, vítima de uma emboscada, é uma espécie de metáfora do inconciliável para quatro personagens que na infância vivenciaram a comunhão. No livro com que se relança no mercado editorial, rompendo um prolongadíssimo silêncio, Luandino retomará o período e, dessa vez, mergulhará na ambiência da guerrilha no admirável Livro dos rios, com que abre a trilogia De rios velhos e guerrilheiros. Tal como no texto dos anos 60, Luandino recusa aqui qualquer atitude maniqueísta, fazendo, contudo, com que a participação na guerrilha seja uma espécie de travessia que integra a construção da identidade, em que também interfere a relação do homem com a natureza, metonimizada pelos rios que formam a terra angolana.

Em Mayombe, romance destacado na obra de Pepetela, a luta de libertação é palco de glorificação de heróis nacionais, fenômeno que será relativizado em A geração da utopia, quando o mesmo autor procura fazer um balanço do período que vai do começo dos anos 60 até o tempo indicado como “a partir de julho de 1991”. Em A parábola do cágado velho, Pepetela denuncia o absurdo dos combates que se prolongam para além da lógica de seus motivos iniciais e arrasam o país.

Dois autores angolanos, em tudo diversos, também terão na guerra um ponto de aproximação. Em Bom dia, camarada, o jovem Ondjaki surpreende oferecendo a memória de um tempo que, mesmo marcado pelas dificuldades e pela atmosfera algo sombria de um cotidiano povoado pela morte, abre espaço a uma experiência de infância em tudo avessa à desesperança que o cenário externo poderia levar. O narrador menino empresta seu olhar e o leitor pode recuperar alguns fios da vida que permitem encontrar luz onde o nosso senso de realidade teria dificuldade de localizar.

Outro livro fundamental sobre a guerra será Actas da Maianga dizer das guerras em Angola, de Ruy Duarte de Carvalho. Num texto de difícil definição temos uma análise dos conflitos proposta num panorama mais amplo, que tem como objetivo a discussão dos caminhos que se abrem à sociedade angolana logo após o acordo de paz assinado em abril de 2002.

No caso moçambicano, a guerra focalizada não é a luta anticolonial, mas aquela que derivou de conflitos de baixa intensidade alimentados por forças externas e se converteu numa terrível guerra civil. É essa a guerra abordada por Mia Couto em vários romances, como o belíssimo Terra sonâmbula, A varanda do frangipani e O último vôo do flamingo, além de ser uma referência muito significativa no volume de contos Estórias abensonhadas. Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de 2003, Mia vai se debruçar sobre os efeitos da guerra naquilo que se pode chamar de processo de desagregação de valores, fenômeno também trabalhado em A varanda do frangipani. Terminada a guerra, para além dos rastros de destruição material, os moçambicanos confrontam-se com outros níveis de degradação. Em O último vôo do flamingo, um narrador irônico dirige seu olhar às forças estrangeiras que desembarcam no país para monitorar a paz.

É dessa mesma guerra civil que trata Paulina Chiziane em Os ventos do apocalipse. Também é a guerra que aparece em As duas sombras do rio, romance de João Paulo Borges Coelho, e no volume de contos Setentrião, do mesmo autor. São os sinais de uma devastação profunda que mobilizam a atenção dos escritores empenhados em avaliar o fenômeno que dominou a vida do país por tantos anos. Historiador de formação, João Paulo publicou esse que foi o seu primeiro romance em 2002. Daí para cá, mais dois romances e duas coletâneas de contos foram lançados, uma produção que tem confirmado a qualidade de sua escrita desde a estréia.

Essa convergência temática conduzida pela presença da guerra, no entanto, não determina a existência de uma uniformidade em relação aos elementos estruturais na prosa contemporânea. Não podemos sequer falar em predominância de um gênero, pois a variedade de propostas constitui um dado interessante dessa produção africana em língua portuguesa. Uma diversidade que podemos encontrar no interior da obra de um mesmo autor. Já consagrado como romancista, Mia Couto, que na ficção começou como contista, volta ao gênero que o consagrou. O fio das missangas, de 2004, surge na seqüência de vários romances.

O trânsito entre as diferentes modalidades literárias pode mesmo ser visto como uma característica dessa literatura nos vários países. Os autores migram de um gênero a outro, optando, a cada momento, por aquele que consideram mais adequado ao que têm a dizer. É esse o caso de João Melo, de Angola, que, conhecido inicialmente como poeta, tem se notabilizado como contista. Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir, Os filhos da pátria e O serial killer são três dos títulos de coletâneas que têm em comum a focalização de cenas da realidade urbana do país. Também em Manuel Rui observamos essa capacidade de transitar entre os vários gêneros: o romancista de Rioseco regressa ao conto em Da palma da mão, no qual exercita a contenção de forma magistral. E vamos ainda encontrar o cronista em Maninha, para ficarmos apenas com três de seus títulos editados de 1997 para cá. Os exemplos se multiplicam se nos voltamos para Moçambique: é o caso de Nelson Saúte, que reúne em sua produção romance, contos e poemas. É o caso, também, do já citado João Paulo, que vai do conto ao romance.

Outro fenômeno muito interessante na prosa africana de língua portuguesa é a diluição das fronteiras entre os gêneros narrativos. Tanda, um livro recém-lançado pelo angolano Adriano Mixinge, mistura poesia, crítica literária e de artes plásticas, cartas e outras formas de discurso.

Cruzando o imaginário cultural com a história remota e recente do seu país, ele monta um painel da complexa realidade atual de Angola.

Essa tentativa de mesclar os gêneros vem sendo radicalizada por Ruy Duarte de Carvalho, como apontamos em Actas da Maianga. Em outras obras, o leitor pode se surpreender com esse escritor que faz da sua formação e experiência de antropólogo uma bagagem fundamental no domínio da atividade literária. Em Desmedida – Luanda – São Paulo – São Francisco e volta – crônicas do Brasil, de 2006, deparamo-nos com a mesma ousadia criativa que já havia sido demonstrada em Vou lá visitar pastores. São escritas orientadas pelo sentido da viagem, mas que ultrapassam em muito os limites de um diário. Muito diversas entre si, as duas narrativas têm em comum a combinação entre o compromisso com o conhecimento e a fidelidade à invenção. Essa mesma associação é trabalhada em obras que apresentam uma estrutura menos polêmica como Os papéis do inglês e As paisagens propícias. Em todas elas, o perfil multifacetado do autor (poeta, antropólogo, cineasta e artista plástico) está, de alguma maneira, presente.

São poucos os nomes de mulheres ficcionistas nas literaturas africanas de língua portuguesa, e as causas da ausência de uma sólida escrita feminina são variadas, mas não podemos deixar de considerar que, apesar das conquistas trazidas pela independência, elas ainda enfrentam as dificuldades geradas pela sua posição de subalternidade, socialmente falando. E aqui se desenha uma contradição, na medida em que a voz feminina é ouvida no círculo mais íntimo das relações familiares, no qual o contar histórias e o consolidar laços acabam sendo suas tarefas. Ocorre, no entanto, que as suas adivinhas e contos estão no domínio da oratura, e, infelizmente, entre o contar e o escrever há um hiato que impede o aproveitamento mais amplo dos seus saberes.

Nos poucos textos escritos hoje por mulheres nos países africanos de língua portuguesa, o leitor vai poder encontrar os problemas, os sentimentos e a intimidade femininos, abordando desde a marginalização e as tentativas de rebeldia em um mundo de carência, como no instigante A louca do Serrano, da caboverdiana Dina Salústio, até a experiência da solidão e do exílio nos contos da também cabo-verdiana Orlanda Amarílis, passando por mulheres que, submetidas a uma tradição que talvez já não corresponda ao seu papel na história, revoltam-se e denunciam a opressão, como se vê em Niketche, uma história de poligamia, da moçambicana Paulina Chiziane.

São textos que apresentam a singularidade da visão feminina da sociedade, dos seus dramas e da submissão a que larga parcela das mulheres continua condenada, mas que também constroem situações capazes de indicar a possibilidade de superação de suas limitações sociais. É o que o leitor encontra, por exemplo, e muito bem tratado pela angolana Ana Paula Tavares em seus dois livros de crônicas: O sangue da buganvília e A cabeça de Salomé. Mais uma vez, a literatura é vista como um espaço de discussão de problemas concretos e como um lugar em que se podem projetar saídas quando as circunstâncias convidam ao desânimo.

A notícia correu muito depressa, como aquele vento maluco que desde a ponta da Ilha sobre até a Lixeira, varre todo o musseque até o fundo da Calemba e da Maianga, pra ir morrer lá longe nos confins da Samba.
Foi assim mesmo, com um vento assanhado que trazia atrapalhação nas nuvens carregadas de chuva, que o caso começou naquele dia tão triste como esquina da Mutamba sem gente. Porque a raiva desse vento é que foi sacudir as vigas de ferro, fez voar os luandos e os zincos e, com um barulho muito grande, deixou cair a antiga kitanda de Xá-Mavu.
As kitandeiras ficaram sem o negócio, sem o dinheiro, muitas mesmo sem a vida. Naquele dia, rios de sangue correram no meio do peixe, dos kiabos, da takula, do jipepe e jisobongo, os gritos não calaram na boca dos feridos.”
Trecho de Estórias do Musseque, de Jofre Rocha.

O culpado que você procura, caro Izidine, não é uma pessoa. É a guerra. Todas as culpas são da guerra. Foi ela que matou Vasto. Foi ela que rasgou o mundo onde a gente idosa tinha brilho e cabimento. Estes velhos que aqui apodrecem, antes do conflito eram amados. Havia um mundo que os recebia, as famílias se arrumavam para os idosos. Depois, a violência trouxe outras razões. E os velhos foram expulsos do mundo, expulsos de nós mesmos.
Você há-de perguntar que motivo me prende aqui, nesta solidão. Sempre pensei que sabia responder. Agora, tenho dúvida. A violência é a razão maior deste meu retiro. A guerra cria outro ciclo no tempo. Já não são os anos, as estações que marcam as nossas vidas. Já não são as colheitas, as fomes, as inundações. A guerra instala o ciclo do sangue.”

Trecho de A varanda de frangipani, de Mia Couto

Costumo pensar que nossa geração se devia chamar a geração da utopia. Tu, eu, o Laurindo, o Vítor antes, para só falar dos que conheceste. Mas tantos outros, vindos antes ou depois, todos nós a um momento dado éramos puros e queríamos fazer uma coisa diferente. Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos, em suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois…tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder.
Cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefação. Dela só resta um discurso vazio.
”Trecho do livro A geração da utopia, de Pepetela

Fonte:
Rita Chaves e Tânia Macedo. Caminhos da Ficção da África Portuguesa
http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/caminhos_da_ficcao_da_africa_portuguesa.html

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