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Literatura Brasileira (Parte 15 = A Produção Contemporânea)

Produção contemporânea deve ser entendida como as obras e movimentos literários surgidos nas décadas de 60 e 70 e que refletiram um momento histórico caracterizado inicialmente pelo autoritarismo, por uma rígida censura e enraizada autocensura. Seu período mais crítico ocorreu entre os anos de 1968 e 1978, durante a vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Tanto que, logo após a extinção do ato, verificou-se uma progressiva normalização no país.

As adversidades políticas, no entanto, não mergulharam o país numa calmaria cultural. Ao contrário, as décadas de 60 e 70 assistiram a uma produção cultural bastante intensa em todos os setores.

Na poesia, percebe-se a preocupação em manter uma temática social, um texto participante, com a permanência de nomes consagrados como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar, ao lado de outros poetas que ainda aparavam as arestas em suas produções.

Visual – O início da década de 60 apresentou alguns grupos em luta contra o que chamaram “esquemas analítico-discursivos da sintaxe tradicional”. Ao mesmo tempo, esses grupos buscavam soluções no aproveitamento visual da página em branco, na sonoridade das palavras e nos recursos gráficos. O sintoma mais importante desse movimento foi o surgimento da Poesia Concreta e da Poesia Práxis. Paralelamente, surgia a poesia “marginal”, que se desenvolve fora dos grandes esquemas industriais e comerciais de produção de livros.

No romance, ao lado da última produção de Jorge Amado e Érico Veríssimo, e das obras “lacriminosas” de José Mauro de Vasconcelos (“Meu pé de Laranja-Lima”, “Barro Blanco”), de muito sucesso junto ao grande público, tem se mantido o regionalismo de Mário Palmério, Bernardo Élis, Antônio Callado, Josué Montello e José Cândido de Carvalho. Entre os intimistas, destacam-se Osman Lins, Autran Dourado e Lygia Fagundes Telles,

Na prosa, as duas décadas citadas assistiram à consagração das narrativas curtas (crônica e conto). O desenvolvimento da crônica está intimamente ligado ao espaço aberto a esse gênero na grande imprensa. Hoje, por exemplo, não há um grande jornal que não inclua em suas páginas crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Paulo Mendes Campos, Luís Fernando Veríssimo e Lourenço Diaféria, entre outros. Deve-se fazer uma menção especial a Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), que, com suas bem humoradas e cortantes sátiras político-sociais, escritas na década de 60, tem servido de mestre a muitos cronistas.

O conto, por outro lado, analisado no conjunto das produções contemporâneas, situa-se em posição privilegiada tanto em qualidade quanto em quantidade. Entre os contistas mais significativos, destacam-se Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Samuel Rawet, Rubem Fonseca, Domingos Pellegrini Jr. e João Antônio.
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Parte 1 – Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte 2 – Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte 3 – Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte 4 – Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte 5 – Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html
Parte 6 – Realismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-6-realismo.html
Parte 7 – Naturalismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-7.html
Parte 8 – Paranasianismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-8-o.html
Parte 9 – Simbolismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-9-o.html
Parte 10 – Pré-Modernismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-10-pre.html
Parte 11 – Semana de Arte Moderna – http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-11-semana.html
Parte 12 – Modernismo – primeira fase = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-12.html
Parte 13 – Modernismo – segunda fase = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-13-o.html
Parte 14 – Pós-Modernismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-14-pos.html
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Literatura Brasileira (Parte 14 = Pós-Modernismo)

O Pós-Modernismo se insere no contexto dos extraordinários fenômenos sociais e políticos de 1945. Foi o ano que assistiu o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Era Atômica com as explosões de Hiroshima e Nagasaki. O mundo passa a acreditar numa paz duradoura. Cria-se a Organização das Nações Unidas (ONU) e, em seguida, publica-se a Declaração dos Direitos do Homem. Mas, logo depois, inicia-se a Guerra Fria.

Paralelamente a tudo isso, o Brasil vive o fim da ditadura de Getúlio Vargas. O país inicia um processo de redemocratização. Convoca-se uma eleição geral e os partidos são legalizados. Apesar disso, abre-se um novo tempo de perseguições políticas, ilegalidades e exílios.

A literatura brasileira também passa por profundas alterações, com algumas manifestações representando muitos passos adiante; outras, um retrocesso. O jornal “O Tempo”, excelente crítico literário, encarrega-se de fazer a seleção.

Intimismo – A prosa, tanto nos romances como nos contos, aprofunda a tendência já trilhada por alguns autores da década de 30 em busca de uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva, com destaque para Clarice Lispector.

Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire uma nova dimensão com a produção fantástica de João Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil Central.

Na poesia, ganha corpo, a partir de 1945, uma geração de poetas que se opõe às conquistas e inovações dos modernistas de 1922. A nova proposta foi defendida, inicialmente, pela revista “Orfeu”, cujo primeiro número é lançado na “Primavera de 1947” e que afirma, entre outras coisas, que “uma geração só começa a existir no dia em que não acredita nos que a precederam, e só existe realmente no dia em que deixam de acreditar nela.”

Essa geração de escritores negou a liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras “brincadeiras” modernistas. Os poetas de 45 partem para uma poesia mais equilibrada e séria, distante do que eles chamavam de “primarismo desabonador” de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A preocupação primordial era quanto ao restabelecimento da forma artística e bela; os modelos voltam a ser os mestres do Parnasianismo e do Simbolismo.

Esse grupo, chamado de Geração de 45, era formado, entre outros poetas, por Lêdo Ivo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos e Darcy Damasceno. O final dos anos 40, no entanto, revelou um dos mais importantes poetas da nossa literatura, não filiado esteticamente a qualquer grupo e aprofundador das experiências modernistas anteriores: ninguém menos que João Cabral de Melo Neto. Contemporâneos a ele, e com alguns pontos de contato com sua obra, destacam-se Ferreira Gullar e Mauro Mota.
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Parte 12 – Modernismo – primeira fase = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-12.html
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Literatura Brasileira (Parte 13 = O Modernismo – segunda fase)

O período de 1930 a 1945 registrou a estréia de alguns dos nomes mais significativos do romance brasileiro. Refletindo o mesmo momento histórico (Queda da Bolsa de Nova York, colapso no sistema financeiro internacional, a Grande Depressão – paralisação de fábricas, ruptura nas relações comerciais, falências bancárias, altíssimo índice de desemprego, fome e miséria generalizadas – gerando a intervenção do Estado na organização econômica, com agravamento das questões sociais.) e apresentando as mesmas preocupações dos poetas da década de 30 (Murilo Mendes, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes), a segunda fase do Modernismo apresenta autores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Érico Veríssimo, que produzem uma literatura de caráter mais construtivo, de maturidade, aproveitando as conquistas da geração de 1922 e sua prosa inovadora.

Efeitos da crise – Na década de 30, o país passava por grandes transformações, fortemente marcadas pela revolução de 30 e pelo questionamento das oligarquias tradicionais. Não havia como não sentir os efeitos da crise econômica mundial, os choques ideológicos que levavam a posições mais definidas e engajadas. Tudo isso, formou um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social, verdadeiro documento da realidade brasileira, atingindo um elevado grau de tensão nas relações do indivíduo com o mundo.

Nessa busca do homem brasileiro “espalhado nos mais distantes recantos de nossa terra”, no dizer de José Lins do Rego, o regionalismo ganha uma importância até então não alcançada na literatura brasileira, levando ao extremo as relações do personagem com o meio natural e social. Destaque especial merecem os escritores nordestinos que vivenciam a passagem de um Nordeste medieval para uma nova realidade capitalista e imperialista. E nesse aspecto, o baiano Jorge Amado é um dos melhores representantes do romance brasileiro, quando retrata o drama da economia cacaueira, desde a conquista e uso da terra até a passagem de seus produtos para as mãos dos exportadores. Mas também não se pode esquecer de José Lins do Rego, com as suas regiões de cana, os bangüês e os engenhos sendo devorados pelas modernas usinas.

O primeiro romance representativo do regionalismo nordestino, que teve seu ponto de partida no Manifesto Regionalista de 1926 (este manifesto, elaborado pelo Centro Regionalista do Nordeste, procura desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste dentro dos novos valores modernistas. Propõe trabalhar em prol dos interesses da região nos seus aspectos diversos – sociais, econômicos e Culturais) foi “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, publicado em 1928. Verdadeiro marco na história literária do Brasil, sua importância deve-se mais à temática (a seca, os retirantes, o engenho), e ao caráter social do romance, do que aos valores estéticos.
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Parte 3 – Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte 4 – Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
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Literatura Brasileira (Parte 12 = Modernismo – Primeira Fase)

O período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernista, justamente em conseqüência da necessidade de definições e do rompimento de todas as estruturas do passado. Daí o caráter anárquico desta primeira fase modernista e seu forte sentido destruidor.

Ao mesmo tempo em que se procura o moderno, o original e o polêmico, o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens, à pesquisa das fontes quinhentistas, à procura de uma língua brasileira (a língua falada pelo povo nas ruas), às paródias, numa tentativa de repensar a história e a literatura brasileiras, e à valorização do índio verdadeiramente brasileiro. É o tempo dos manifestos nacionalistas do “Pau-Brasil” (o Manifesto do Pau-Brasil, escrito por Oswald de Andrade em 1924, propõe uma literatura extremamente vinculada à realidade brasileira) e da “Antropofagia” (“Revista de Antropofagia”, publicação semanal que reunia o grupo mais nacionalista da primeira fase do Modernismo. Teve 26 números, publicados entre maio de 1928 e agosto de 1929.) dentro da linha comandada por Oswald de Andrade. Mas havia também os manifestos do Verde-Amarelismo e o do Grupo da Anta, que trazem a semente do nacionalismo fascista comandado por Plínio Salgado.

\No final da década de 20, a postura nacionalista apresenta duas vertentes distintas: de um lado, um nacionalismo crítico, consciente, de denúncia da realidade brasileira e identificado politicamente com as esquerdas; de outro, o nacionalismo ufanista, utópico, exagerado, identificado com as correntes políticas de extrema direita.

Entre os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo, que continuariam a produzir nas décadas seguintes, destacam-se Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, além de Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida e Plínio Salgado.
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Parte 1 – Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
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Parte 3 – Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte 4 – Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte 5 – Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html
Parte 6 – Realismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-6-realismo.html
Parte 7 – Naturalismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-7.html
Parte 8 – Paranasianismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-8-o.html
Parte 9 – Simbolismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-9-o.html
Parte 10 – Pré-Modernismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-10-pre.html
Parte 11 – Semana de Arte Moderna –
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Literatura Brasileira (Parte 11 = A Semana de Arte Moderna)

O Modernismo, como tendência literária, ou estilo de época, teve seu prenúncio com a realização da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Idealizada por um grupo de artistas, a Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo tempo em que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira.

O Movimento não deve ser visto apenas do ponto de vista artístico, como recomendam os historiadores e críticos especializados em história da literatura brasileira, mas também como um movimento político e social. O país estava dividido entre o rural e o urbano. Mas o bloco urbano não era homogêneo. As principais cidades brasileiras, em particular São Paulo, conheciam uma rápida transformação como conseqüência do processo industrial. A primeira Guerra Mundial foi a responsável pelo primeiro surto de industrialização e conseqüente urbanização. O Brasil contava com 3.358 indústrias em 1907. Em 1920, esse número pulou para 13.336. Isso significou o surgimento de uma burguesia industrial cada dia mais forte, mas marginalizada pela política econômica do governo federal, voltada para a produção e exportação do café.

Imigrantes – Ao lado disso, o número de imigrantes europeus crescia consideravelmente, especialmente os italianos, distribuindo-se entre as zonas produtoras de café e as zonas urbanas, onde estavam as indústrias. De 1903 a 1914, o Brasil recebeu nada menos que 1,5 milhão de imigrantes. Nos centros urbanos criou-se uma faixa considerável de população espremida pelos barões do café e pela alta burguesia, de um lado, e pelo operariado, de outro. Surge a pequena burguesia, formada por funcionários públicos, comerciantes, profissionais liberais e militares, entre outros, criando uma massa politicamente “barulhenta” e reivindicatória.

A falta de homogeneidade no bloco urbano tem origem em alguns aspectos do comportamento do operariado. Os imigrantes de origem européia trazem suas experiências de luta de classes. Em geral esses trabalhadores eram anarquistas e suas ações resultavam, quase sempre, em greves e tensões sociais de toda sorte, entre 1905 e 1917. Um ano depois, quando ocorreu a Revolução Russa, os artigos na imprensa a esse respeito tornaram-se cada vez mais comuns. O Partido Comunista seria fundado em 1922. Desde então, ocorreria o declínio da influência anarquista no movimento operário.

Desta forma, circulavam pela cidade de São Paulo, numa mesma calçada, um barão do café, um operário anarquista, um padre, um burguês, um nordestino, um professor, um negro, um comerciante, um advogado, um militar, etc., formando, de fato, uma “paulicéia desvairada” (título de célebre obra de Mário de Andrade). Esse desfile inusitado e variado de tipos humanos serviu de palco ideal para a realização de um evento que mostrasse uma arte inovadora a romper com as velhas estruturas literárias vigentes no país.
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Parte 2 – Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte 3 – Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte 4 – Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte 5 – Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html
Parte 6 – Realismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-6-realismo.html
Parte 7 – Naturalismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-7.html
Parte 8 – Paranasianismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-8-o.html
Parte 9 – Simbolismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-9-o.html
Parte 10 – Pré-Modernismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/07/literatura-brasileira-parte-10-pre.html

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Literatura Brasileira (Parte 10 = Pré-Modernismo)

O que se convencionou chamar de pré-Modernismo no Brasil não constitui uma escola literária. Pré-Modernismo é, na verdade, um termo genérico que designa toda uma vasta produção literária, que caracteriza os primeiros vinte anos deste século. Nele é que se encontram as mais variadas tendências e estilos literários – desde os poetas parnasianos e simbolistas, que continuavam a produzir, até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo, alguns preocupados com uma literatura política, e outros com propostas realmente inovadoras. É grande a lista dos autores que pertenceram ao pré-Modernismo, mas, indiscutivelmente, merecem destaque: Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos.

Assim, pode-se dizer que essa escola começou em 1902, com a publicação de dois livros: “Os sertões”, de Euclides da Cunha, e “Canaã”, de Graça Aranha, e se estende até o ano de 1922, com a realização da Semana de Arte Moderna.

Apesar de o pré-Modernismo não constituir uma escola literária, apresentando individualidades muito fortes, com estilos às vezes antagônicos – como é o caso, por exemplo, de Euclides da Cunha e Lima Barreto – percebe-se alguns pontos comuns entre as principais obras pré-modernistas:

a) eram obras inovadoras, que apresentavam ruptura com o passado, com o academicismo;

b) primavam pela denúncia da realidade brasileira, negando o Brasil literário, herdado do Romantismo e do Parnasianismo. O grande tema do pré-Modernismo é o Brasil não-oficial do sertão nordestino, dos caboclos interioranos, dos subúrbios;

c) acentuavam o regionalismo, com o qual os autores acabam montando um vasto painel brasileiro: o Norte e o Nordeste nas obras de Euclides da Cunha, o Vale do Rio Paraíba e o interior paulista nos textos de Monteiro Lobato, o Espírito Santo, retratado por Graça Aranha, ou o subúrbio carioca, temática quase que invariável na obra de Lima Barreto;

d) difundiram os tipos humanos marginalizados, que tiveram ampliado o seu perfil, até então desconhecido, ou desprezado, quando conhecido – o sertanejo nordestino, o caipira, os funcionários públicos, o mu-lato;

e) traçaram uma ligação entre os fatos políticos, econômicos e sociais contemporâneos, aproximando a ficção da realidade.

Esses escritores acabaram produzindo uma redescoberta do Brasil, mais próxi-ma da realidade, e pavimentaram o caminho para o período literário seguinte, o Modernismo, iniciado em 1922, que acentuou de vez a ruptura com o que até então se conhecia como literatura brasileira.
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Literatura Brasileira (Parte 9 = O Simbolismo)

É comum, entre críticos e historiadores, afirmar-se que o Brasil não teve momento típico para o Simbolismo, sendo essa escola literária a mais européia, dentre as que contaram com seguidores nacionais, no confronto com as demais. Por isso, foi chamada de “produto de importação”. O Simbolismo no Brasil começa em 1893 com a publicação de dois livros: “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia), ambos do poeta catarinense Cruz e Sousa, e estende-se até 1922, quando se realizou a Semana de Arte Moderna.

O início do Simbolismo não pode ser entendido como o fim da escola anterior, o Realismo, pois no final do século XIX e início do século XX tem-se três tendências que caminham paralelas: Realismo, Simbolismo e pré-Modernismo, com o aparecimento de alguns autores preocupados em denunciar a realidade brasileira, entre eles Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato. Foi a Semana de Arte Moderna que pôs fim a todas as estéticas anteriores e traçou, de forma definitiva, novos rumos para a literatura do Brasil.

Transição – O Simbolismo, em termos genéricos, reflete um momento histórico extremamente complexo, que marcaria a transição para o século XX e a definição de um novo mundo, consolidado a partir da segunda década deste século. As últimas manifestações simbolistas e as primeiras produções modernistas são contemporâneas da primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Neste contexto de conflitos e insatisfações mundiais (que motivou o surgimento do Simbolismo), era natural que se imaginasse a falta de motivos para o Brasil desenvolver uma escola de época como essa. Mas é interessante notar que as origens do Simbolismo brasileiro se deram em uma região marginalizada pela elite cultural e política: o Sul – a que mais sofreu com a oposição à recém-nascida República, ainda impregnada de conceitos, teorias e práticas militares. A República de então não era a que se desejava. E o Rio Grande do Sul, onde a insatisfação foi mais intensa, transformou-se em palco de lutas sangrentas iniciadas em 1893, o mesmo ano do início do Simbolismo.

A Revolução Federalista (1893 a 1895), que começou como uma disputa regional, ganhou dimensão nacional ao se opor ao governo de Floriano Peixoto, gerando cenas de extrema violência e crueldade no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além disso, surgiu a Revolta da Armada, movimento rebelde que exigiu a renúncia de Floriano, combatendo, sobretudo, a Marinha brasileira. Ao conseguir esmagar os revoltosos, o presidente consegue consolidar a República.

Esse ambiente provavelmente representou a origem do Simbolismo, marcado por frustrações, angústias, falta de perspectivas, rejeitando o fato e privilegiando o sujeito. E isto é relevante pois a principal característica desse estilo de época foi justa-mente a negação do Realismo e suas manifestações. A nova estética nega o cientificismo, o materialismo e o racionalismo. E valoriza as manifestações metafísicas e espirituais, ou seja, o extremo oposto do Naturalismo e do Parnasianismo.

“Dante Negro” – Impossível referir-se ao Simbolismo sem reverenciar seus dois grandes expoentes: Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães. Aliás, não seria exagero afirmar que ambos foram o próprio Simbolismo. Especialmente o primeiro, chamado, então, de “cisne negro” ou “Dante negro”. Figura mais importante do Simbolismo brasileiro, sem ele, dizem os especialistas, não haveria essa estética no Brasil. Como poeta, teve apenas um volume publicado em vida: “Broquéis” (os dois outros volumes de poesia são póstumos). Teve uma carreira muito rápida, apesar de ser considerado um dos maiores nomes do Simbolismo universal. Sua obra apresenta uma evolução importante: na medida em que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais, avança para posições mais universalizastes – sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro (observações pessoais, pois era filho de escravos), mas evolui para o sofrimento e a angústia do ser humano.

Já Alphonsus de Guimarães preferiu manter-se fiel a um “triângulo” que caracterizou toda a sua obra: misticismo, amor e morte. A crítica o considera o mais místico poeta de nossa literatura. O amor pela noiva, morta às vésperas do casamento, e sua profunda religiosidade e devoção por Nossa Senhora geraram, e não poderia ser diferente, um misticismo que beirava o exagero. Um exemplo é o “Setenário das dores de Nossa Senhora”, em que ele atesta sua devoção pela Virgem. A morte aparece em sua obra como um único meio de atingir a sublimação e se aproximar de Constança – a noiva morta – e da Virgem. Daí o amor aparecer sempre espiritualizado. A própria decisão de se isolar na cidade mineira de Mariana, que ele próprio considerou sua “torre de marfim”, é uma postura simbolista.

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Literatura Brasileira (Parte 8 = O Parnasianismo)

A poesia parnasiana preocupa-se com a forma e a objetividade, com seus sonetos alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a trindade parnasiana O Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo, dizem alguns estudiosos da literatura brasileira, embora ideologicamente não mantenha todos os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas. Seus poetas estavam à margem das grandes transformações do final do século XIX e início do século XX.

Culto à forma – A nova estética se manifesta a partir do final da década de 1870, prolongando-se até a Semana de Arte Moderna. Em alguns casos chegou a ultrapassar o ano de 1922 (não considerando, é claro, o neoparnasianismo). Objetividade temática e culto da forma: eis a receita. A forma fixa representada pelos sonetos; a métrica dos versos alexandrinos perfeitos; a rima rica, rara e perfeita. Isto tudo como negação da poesia romântica dos versos livres e brancos. Em suma, é o endeusamento da forma.
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Parte I – Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte II – Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte III – Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV – Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte V – Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html
Parte VI – Realismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-6-realismo.html
Parte VII – Naturalismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-7.html

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Literatura Brasileira (Parte 7 = Naturalismo)

O romance naturalista, por sua vez, foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro. Aqui, Raul Pompéia também pode ser incluído, mas seu caso é muito particular, pois seu romance “O Ateneu” ora apresenta características naturalistas, ora realistas, ora impressionistas. A narrativa naturalista é marcada pela forte análise social, a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo. Os títulos das obras naturalistas apresentam quase sempre a mesma preocupação: “O mulato”, “O cortiço”, “Casa de pensão”, “O Ateneu”.

O Naturalismo apresenta romances experimentais. A influência de Charles Darwin se faz sentir na máxima segundo a qual o homem é um animal; portanto antes de usar a razão deixa-se levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas, como o sexo, pela moral da classe dominante. A constante repressão leva às taras patológicas, tão ao gosto do Naturalismo. Em conseqüência, esses romances são mais ousados e erroneamente tachados por alguns de pornográficos, apresentando descrições minuciosas de atos sexuais, tocando, inclusive, em temas então proibidos como o homossexualismo – tanto o masculino (“O Ateneu”), quanto o feminino (“O cortiço”).
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Literatura Brasileira (Parte 6 = Realismo)

O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento – o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houve de mau na nossa sociedade.” Ao cunhar este conceito, Eça de Queiroz sintetizou a visão de vida que os autores da escola realista tinham do homem durante e logo após o declínio do Romantismo.

Este estilo de época teve uma prévia: os românticos Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto, embora fizessem uma poesia romântica na forma e na expressão, utilizavam temas voltados para a realidade político-social da época (final da década de 1860). Da mesma forma, algumas produções do romance romântico já apontavam para um novo estilo na literatura brasileira, como algumas obras de Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora e Visconde de Taunay. Começava-se o abandono do Romantismo enquanto surgiam os primeiros sinais do Realismo.

Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Silvio Romero e outros, aproximando-se das idéias européias ligadas ao positivismo, ao evolucionismo e, principalmente, à filosofia. São os ideais do Realismo que encontravam ressonância no conturbado momento histórico vivido pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da Monarquia.

No Brasil, considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romances fundamentais, que modificaram o curso de nossas letras: Aluízio Azevedo publica “O mulato”, considerado o primeiro romance naturalista do Brasil; Machado de Assis publica “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o primeiro romance realista de nossa literatura.

Na divisão tradicional da história da literatura brasileira, o ano considerado data final do Realismo é 1893, com a publicação de “Missal” e “Broquéis”, ambos de Cruz e Sousa, obras inaugurais do Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa – com os romances realistas e naturalistas – e na poesia, com o Parnasianismo.

“Príncipe dos poetas” – Da mesma forma, o início do Simbolismo, em 1893, não representou o fim do Realismo, porque obras realistas foram publicadas posteriormente a essa data, como “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, em 1900, e “Esaú e Jacó”, do mesmo autor, em 1904. Olavo Bilac, chamado “príncipe dos poetas”, obteve esta distinção em 1907. A Academia Brasileira de Letras, templo do Realismo, também foi inaugurada posteriormente à data-marco do fim do Realismo: 1897. Na realidade, nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros do século XX, três estéticas se desenvolvem paralelamente: o Realismo e suas manifestações, o Simbolismo e o Pré-Modernismo, que só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Semana de Arte Moderna.

O Realismo reflete as profundas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais da segunda metade do século XIX. A Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, entra numa nova fase, caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade; ao mesmo tempo, o avanço científico leva a novas descobertas nos campos da física e da química. O capitalismo se estrutura em moldes modernos, com o surgimento de grandes complexos industriais, aumentando a massa operária urbana, e formando uma população marginalizada, que não partilha dos benefícios do progresso industrial, mas, pelo contrário, é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho.

O Brasil também passa por mudanças radicais tanto no campo econômico quanto no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais, se comparadas às da Europa. A campanha abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864/1870) tem como consequencia o pensamento republicano (o Partido Republicano foi fundado no ano em que essa guerra terminou); a Monarquia vive uma vertiginosa decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas criou uma nova realidade: o fim da mão-de-obra escrava e sua substituição pela mão-de-obra assalariada, então representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, o que originou uma nova economia voltada para o mercado externo, mas agora sem a estrutura colonialista.
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Raul Pompéia, Machado de Assis e Aluízio Azevedo transformaram-se nos principais representantes da escola realista no Brasil. Ideologicamente, os autores desse período são antimonárquicos, assumindo uma defesa clara do ideal republicano, como nos romances “O mulato”, “O cortiço” e “O Ateneu”. Eles negam a burguesia a partir da família. A expressão Realismo é uma denominação genérica da escola literária, que abriga três tendências distintas: “romance realista”, “romance naturalista” e “poesia parnasiana”.

O romance realista foi exaustivamente cultivado no Brasil por Machado de Asses. Trata-se de uma narrativa mais preocupada com a análise psicológica, fazendo a crítica à sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. Para se ter uma idéia, os cinco romances da fase realista de Machado de Assis apresentam nomes próprios em seus títulos (“Brás Cubas”; “Quincas Borba”; “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó”; e “Aires”). Isto revela uma clara preocupação com o indivíduo. O romance realista analisa a sociedade por cima. Em outras palavras: seus personagens são capitalistas, pertencem à classe dominante. O romance realista é documental, retrato de uma época.
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Parte I – Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte II – O Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte III – O Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV – O Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte V – O Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html

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Literatura Brasileira (Parte 5 = O Romantismo)

O Romantismo se inicia no Brasil em 1836, quando Gonçalves de Magalhães publica na França a “Niterói – Revista Brasiliense”, e, no mesmo ano, lança um livro de poesias românticas intitulado “Suspiros poéticos e saudades”.

Em 1822, Dom Pedro I concretiza um movimento que se fazia sentir, de forma mais imediata, desde 1808: a independência do Brasil. A partir desse momento, o novo país necessita inserir-se no modelo moderno, acompanhando as nações independentes da Europa e América. A imagem do português conquistador deveria ser varrida. Há a necessidade de auto-afirmação da pátria que se formava. O ciclo da mineração havia dado condições para que as famílias mais abastadas mandassem seus filhos à Europa, em particular França e Inglaterra, onde buscam soluções para os problemas brasileiros. O Brasil de então nem chegava perto da formação social dos países industrializados da Europa (burguesia/proletariado). A estrutura social do passado próximo (aristocracia/escravo) ainda prevalecia. Nesse Brasil, segundo o historiador José de Nicola, “o ser burguês ainda não era uma posição econômica e social, mas mero estado de espírito, norma de comportamento”.

Marco final – Nesse período, Gonçalves de Magalhães viajava pela Europa. Em 1836, ele funda a revista Niterói, da qual circularam apenas dois números, em Paris. Nela, ele publica o “Ensaio sobre a história da literatura brasileira”, considerado o nosso primeiro manifesto romântico. Essa escola literária só teve seu marco final no ano de 1881, quando foram lançados os primeiros romances de tendência naturalista e realista, como “O mulato”, de Aluízio Azevedo, e “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Manifestações do movimento realista, aliás, já vinham ocorrendo bem antes do início da decadência do Romantismo, como, por exemplo, o liderado por Tobias Barreto desde 1870, na Escola de Recife.

O Romantismo, como se sabe, define-se como modismo nas letras universais a partir dos últimos 25 anos do século XVIII. A segunda metade daquele século, com a industrialização modificando as antigas relações econômicas, leva a Europa a uma nova composição do quadro político e social, que tanto influenciaria os tempos modernos. Daí a importância que os modernistas deram à Revolução Francesa, tão exaltada por Gonçalves de Magalhães. Em seu “Discurso sobre a história da literatura do Brasil”, ele diz: “…Eis aqui como o Brasil deixou de ser colônia e foi depois elevado à categoria de Reino Unido. Sem a Revolução Francesa, que tanto esclareceu os povos, esse passo tão cedo se não daria…”.

A classe social delineia-se em duas classes distintas e antagônicas, embora atuassem paralelas durante a Revolução Francesa: a classe dominante, agora representada pela burguesia capitalista industrial, e a classe dominada, representada pelo proletariado. O Romantismo foi uma escola burguesa de caráter ideológico, a favor da classe dominante. Daí porque o nacionalismo, o sentimentalismo, o subjetivismo e o irracionalismo – características marcantes do Romantismo inicial – não podem ser analisados isoladamente, sem se fazer menção à sua carga ideológica.

Novas influências – No Brasil, o momento histórico em que ocorre o Romantismo tem que ser visto a partir das últimas produções árcades, caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e Silva Alvarenga. Com a chegada da Corte, o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização, tornando-se um campo propício à divulgação das novas influências européias. A colônia caminhava no rumo da independência.

Após 1822, cresce no Brasil independente o sentimento de nacionalismo, busca-se o passado histórico, exalta-se a natureza pátria. Na realidade, características já cultivadas na Europa, e que se encaixaram perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais, financeiras e econômicas.

De 1823 a 1831, o Brasil viveu um período conturbado, como reflexo do autoritarismo de D. Pedro I: a dissolução da Assembléia Constituinte; a Constituição outorgada; a Confederação do Equador; a luta pelo trono português contra seu irmão D. Miguel; a acusação de ter mandado assassinar Líbero Badaró e, finalmente, a abolição da escravatura. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. É neste ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro, carregado de lusofobia e, principalmente, de nacionalismo.

No final do Romantismo brasileiro, a partir de 1860, as transformações econômicas, políticas e sociais levam a uma literatura mais próxima da realidade; a poesia reflete as grandes agitações, como a luta abolicionista, a Guerra do Paraguai, o ideal de República. É a decadência do regime monárquico e o aparecimento da poesia social de Castro Alves. No fundo, uma transição para o Realismo.

O Romantismo apresenta uma característica inusitada: revela nitidamente uma evolução no comportamento dos autores românticos. A comparação entre os primeiros e os últimos representantes dessa escola mostra traços peculiares a cada fase, mas discrepantes entre si. No caso brasileiro, por exemplo, há uma distância considerável entre a poesia de Gonçalves Dias e a de Castro Alves. Daí a necessidade de se dividir o Romantismo em fases ou gerações. No romantismo brasileiro podemos reconhecer três gerações: geração nacionalista ou indianista; geração do “mal do século” e a “geração condoreira”.

A primeira (nacionalista ou indianista) é marcada pela exaltação da natureza, volta ao passado histórico, medievalismo, criação do herói nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação “geração indianista”. O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presentes. Entre os principais autores, destacam-se Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e Araújo Porto.

Egocentrismo – A segunda (do “mal do século”, também chamada de geração byroniana, de Lord Byron) é impregnada de egocentrismo, negativismo boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e tédio constante. Seu tema preferido é a fuga da realidade, que se manifesta na idealização da infância, nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.

A geração condoreira, caracterizada pela poesia social e libertária, reflete as lutas internas da segunda metade do reinado de D. Pedro II. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social, daí ser conhecida como geração hugoana. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor, águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. Seu principal representante foi Castro Alves, seguido por Tobias Barreto e Sousândrade.

Duas outras variações literárias do Romantismo merecem destaque: a prosa e o teatro romântico. José de Nicola demonstrou quais as explicações para o aparecimento e desenvolvimento do romance no Brasil: “A importação ou simples tradução de romances europeus; a urbanização do Rio de Janeiro, transformado, então, em Corte, criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural, profissionais liberais, jovens estudantes, todos em busca de entretenimento; o espírito nacionalista em conseqüência da independência política a exigir uma “cor local” para os enredos; o jornalismo vivendo o seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins; o avanço do teatro nacional”.

Os romances respondiam às exigências daquele público leitor; giravam em torno da descrição dos costumes urbanos, ou de amenidades das zonas rurais, ou de imponentes selvagens, apresentando personagens idealizados pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identificava, vivendo uma realidade que lhe convinha. Algumas poucas obras, porém, fugiram desse esquema, como “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, e até “Inocência”, do Visconde de Taunay.

Ao se considerar a mera cronologia, o primeiro romance brasileiro foi “O filho do pescador”, publicado em 1843, de autoria de Teixeira de Souza (1812-1881). Mas se tratava de um romance sentimentalóide, de trama confusa e que não serve para definir as linhas que o romance romântico seguiria na literatura brasileira.

Por esta razão, sobretudo pela aceitação obtida junto ao público leitor, justa-mente por ter moldado o gosto deste público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, como o primeiro romance brasileiro.

Dentro das características básicas da prosa romântica, destacam-se, além de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar. Almeida, por sinal, com as “Memórias de um Sargento de Milícias” realizou uma obra total-mente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário. As peripécias de um sargento descritas por ele podem ser consideradas como o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana, para retratar o povo com toda a sua simplicidade.

“Casamento” – José de Alencar, por sua vez, aparece na literatura brasileira como o consolida dor do romance, um ficcionista que cai no gosto popular. Sua obra é um retrato fiel de suas posições políticas e sociais. Ele defendia o “casamento” entre o nativo e o europeu colonizador, numa troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, um solo esplêndido; outros a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente. “O guarani” é o melhor exemplo, ao se observar a relação do principal personagem da obra, o índio Peri, com a família de D. Antônio de Mariz.

Este jogo de interesses entre o índio e o europeu, proposto por Alencar, aparece também em “Iracema” (um anagrama da palavra América), na relação da índia com o português Martim. Moacir, filho de Iracema e Martim, é o primeiro brasileiro fruto desse casamento.

José de Alencar diversificou tanto sua obra que tornou possível uma classificação por modalidades: romances urbanos ou de costumes (retratando a sociedade carioca de sua época – o Rio do II Reinado); romances históricos (dois, na verdade, voltados para o período colonial brasileiro – “As minas de prata” e “A guerra dos mascastes”); romances regionais (“O sertanejo” e “O gaúcho” são as duas obras regionais de Alencar); romances rurais (como “Til” e “O tronco do ipê”; e romances indianistas, que trouxeram maior popularidade para o escritor, como “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”).
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Parte I – Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte II – O Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte III – O Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV – O Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html

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Literatura Brasileira (Parte 4 = O Arcadismo)

O Arcadismo no Brasil começa no ano de 1768, com dois fatos marcantes: a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação de “Obras”, de Cláudio Manuel da Costa. A escola setecentista, por sinal, desenvolve-se até 1808, com a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, que, com suas medidas político-administrativas, permite a introdução do pensamento pré-romântico no Brasil.

No início do século XVIII dá-se a decadência do pensamento barroco, para a qual vários fatores colaboraram, entre eles o cansaço do público com o exagero da ex-pressão barroca e da chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde a Renascença e atinge em meados do século um estágio estacionário (e até decadente), perdendo terreno para o subjetivismo burguês; o problema da ascensão burguesa superou o problema religioso; surgem as primeiras arcádias, que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas; os burgueses, como forma de combate ao poder monárquico, começam a cultuar o “bom selvagem”, em oposição ao homem corrompido pela sociedade.

Gosto burguês – Assim, a burguesia atinge uma posição de domínio no campo econômico e passa a lutar pelo poder político, então em mãos da monarquia. Isso se reflete claramente no campo social e das artes: a antiga arte cerimonial das cortes cede lugar ao poder do gosto burguês.

Pode-se dizer que a falta de substitutos para o Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos, mortos nos últimos cinco anos do século XVII, foi também um aspecto motivador do surgimento do Arcadismo no Brasil. De qualquer forma, suas características no país seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do Renascimento; a simplicidade; a poesia bucólica, pastoril; o fingimento poético e o uso de pseudônimos. Quanto ao aspecto formal, a escola é marcada pelo soneto, os versos decassílabos, a rima optativa e a tradição da poesia épica. O Arcadismo tem como principais nomes: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, José de Santa Rita Durão e Basílio da Gama.

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Literatura Brasileira (Parte 3 = O Barroco)

O Barroco no Brasil tem seu marco inicial em 1601, com a publicação do poema épico “Prosopopéia”, de Bento Teixeira, que introduz definitivamente o modelo da poesia camoniana em nossa literatura. Estende-se por todo o século XVII e início do XVIII.

Embora o Barroco brasileiro seja datado de 1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação do livro “Obras”, de Cláudio Manuel da Costa, o movimento academicista ganha corpo a partir de 1724, com a fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos. Este fato assinala a decadência dos valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. O termo barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos de 1600 e início dos anos de 1700. Além da literatura, estende-se à música, pintura, escultura e arquitetura da época.

Antes do texto de Bento Teixeira, os sinais mais evidentes da influência da poesia barroca no Brasil surgiram a partir de 1580 e começaram a crescer nos anos seguintes ao domínio espanhol na Península Ibérica, já que é a Espanha a responsável pela unificação dos reinos da região, o principal foco irradiador do novo estilo poético.

O quadro brasileiro se completa no século XVII, com a presença cada vez mais forte dos comerciantes, com as transformações ocorridas no Nordeste em consequência das invasões holandesas e, finalmente, com o apogeu e a decadência da cana-de-açúcar.

Uma das principais referências do barroco brasileiro é Gregório de Matos Guerra, poeta baiano que cultivou com a mesma beleza tanto o estilo cultista quanto o conceptista (o cultismo é marcado pela linguagem rebuscada, extravagante, enquanto o conceptismo caracteriza-se pelo jogo de idéias, de conceitos. O primeiro valoriza o pormenor, enquanto o segundo segue um raciocínio lógico, racionalista).

Na poesia lírica e religiosa, Gregório de Matos deixa claro certo idealismo renascentista, colocado ao lado do conflito (como de hábito na época) entre o pecado e o perdão, buscando a pureza da fé, mas tendo ao mesmo tempo necessidade de viver a vida mundana. Contradição que o situava com perfeição na escola barroca do Brasil.

Antônio Vieira – Se por um lado, Gregório de Matos mexeu com as estruturas morais e a tolerância de muita gente – como o administrador português, o próprio rei, o clero e os costumes da própria sociedade baiana do século XVII – por outro, ninguém angariou tantas críticas e inimizades quanto o “impiedoso” Padre Antônio Vieira, detentor de um invejável volume de obras literárias, inquietantes para os padrões da época.

Politicamente, Vieira tinha contra si a pequena burguesia cristã (por defender o capitalismo judaico e os cristão-novos); os pequenos comerciantes (por defender o monopólio comercial); e os administradores e colonos (por defender os índios). Essas posições, principalmente a defesa dos cristão-novos, custaram a Vieira uma condenação da Inquisição, ficando preso de 1665 a 1667.

A obra do Padre Antônio Vieira pode ser dividida em três tipos de trabalhos: Profecias, Cartas e Sermões.

As Profecias constam de três obras: “História do futuro”, “Esperanças de Portugal” e “Clavis Prophetarum”. Nelas se notam o sebastianismo e as esperanças de que Portugal se tornaria o “quinto império do Mundo”. Segundo ele, tal fato estaria escrito na Bíblia. Aqui ele demonstra bem seu estilo alegórico de interpretação bíblica (uma característica quase que constante de religiosos brasileiros íntimos da literatura barroca). Além, é claro, de revelar um nacionalismo megalomaníaco e servidão incomum.

O grosso da produção literária do Padre Antônio Vieira está nas cerca de 500 cartas. Elas versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda, sobre a Inquisição e os cristãos novos e sobre a situação da colônia, transformando-se em importantes documentos históricos.

O melhor de sua obra, no entanto, está nos 200 sermões. De estilo barroco conceptista, totalmente oposto ao Gongorismo, o pregador português joga com as idéias e os conceitos, segundo os ensinamentos de retórica dos jesuítas. Um dos seus principais trabalhos é o “Sermão da Sexagésima”, pregado na capela Real de Lisboa, em 1655. A obra também ficou conhecida como “A palavra de Deus”. Polêmico, este sermão resume a arte de pregar. Com ele, Vieira procurou atingir seus adversários católicos, os gongóricos dominicanos, analisando no sermão “Por que não frutificava a Palavra de Deus na terra”, atribuindo-lhes culpa.

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Literatura Brasileira (Parte 2 = O Quinhentismo)


Esta expressão é a denominação genérica de todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil durante o século XVI, correspondendo à introdução da cultura européia em terras brasileiras. Não se pode falar em uma literatura “do” Brasil, como característica do país naquele período, mas sim em literatura “no” Brasil – uma literatura ligada ao Brasil, mas que denota as ambições e as intenções do homem europeu.

No Quinhentismo, o que se demonstrava era o momento histórico vivido pela Península Ibérica, que abrangia uma literatura informativa e uma literatura dos jesuítas, como principais manifestações literárias no século XVI. Quem produzia literatura naquele período estava com os olhos voltados para as riquezas materiais (ouro, prata, ferro, madeira, etc.), enquanto a literatura dos jesuítas se preocupava com o trabalho de catequese.

Com exceção da carta de Pero Vaz de Caminha, considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, as principais crônicas da literatura informativa datam da segunda metade do século XVI, fato compreensível, já que a colonização só pode ser contada a partir de 1530. A literatura jesuítica, por seu lado, também caracteriza o final do Quinhentismo, tendo esses religiosos pisado o solo brasileiro somente em 1549.

A literatura informativa, também chamada de literatura dos viajantes ou dos cronistas, reflexo das grandes navegações, empenha-se em fazer um levantamento da terra nova, de sua flora, fauna, de sua gente. É, portanto, uma literatura meramente descritiva e, como tal, sem grande valor literário.

A principal característica dessa manifestação é a exaltação da terra, resultante do assombro do europeu que vinha de um mundo temperado e se defrontava com o exotismo e a exuberância de um mundo tropical. Com relação à linguagem, o louvor à terra aparece no uso exagerado de adjetivos, quase sempre empregados no superlativo (belo é belíssimo, lindo é lindíssimo etc.).

O melhor exemplo da escola quinhentista brasileira é Pero Vaz de Caminha. Sua “Carta ao El Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil”, além do inestimável valor histórico, é um trabalho de bom nível literário. O texto da carta mostra claramente o duplo objetivo que, segundo Caminha, impulsionava os portugueses para as aventuras marítimas, isto é, a conquista dos bens materiais e a dilatação da fé cristã.

Literatura jesuíta – Conseqüência da contra-reforma, a principal preocupação dos jesuítas era o trabalho de catequese, objetivo que determinou toda a sua produção literária, tanto na poesia quanto no teatro. Mesmo assim, do ponto de vista estético, foi a melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Além da poesia de devoção, os jesuítas cultivaram o teatro de caráter pedagógico, baseado em trechos bíblicos, e as cartas que informavam aos superiores na Europa sobre o andamento dos trabalhos na colônia.

Não se pode comentar, no entanto, a literatura dos jesuítas sem referências ao que o padre José de Anchieta representa para o Quinhentismo brasileiro. Chamado pelos índios de “Grande Piahy” (supremo pajé branco), Anchieta veio para o Brasil em 1553 e, no ano seguinte, fundou um colégio no planalto paulista, a partir do qual surgiu a cidade de São Paulo.

Ao realizar um exaustivo trabalho de catequese, José de Anchieta deixou uma fabulosa herança literária: a primeira gramática do tupi-guarani, insuperável cartilha para o ensino da língua dos nativos; várias poesias no estilo do verso medieval; e diversos autos, segundo o modelo deixado pelo poeta português Gil Vicente, que agrega à moral religiosa católica os costumes dos indígenas, sempre com a preocupação de caracterizar os extremos, como o bem e o mal, o anjo e o diabo.

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br

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Literatura Brasileira (Parte 1 = Origens)

A pedidos, inicio um apanhado sobre a Literatura Brasileira, em várias partes.
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O estudo sobre as origens da literatura brasileira deve ser feito levando-se em conta duas vertentes: a histórica e a estética. O ponto de vista histórico orienta no sentido de que a literatura brasileira é uma expressão de cultura gerada no seio da literatura portuguesa. Como até bem pouco tempo eram muito pequenas as diferenças entre a literatura dos dois países, os historiadores acabaram enaltecendo o processo da formação literária brasileira, a partir de uma multiplicidade de coincidências formais e temáticas.

A outra vertente (aquela que salienta a estética como pressuposto para a análise literária brasileira) ressalta as divergências que desde o primeiro instante se acumularam no comportamento (como nativo e colonizado) do homem americano, influindo na composição da obra literária. Em outras palavras, considerando que a situação do colono tinha de resultar numa nova concepção da vida e das relações humanas, com uma visão própria da realidade, a corrente estética valoriza o esforço pelo desenvolvimento das formas literárias no Brasil, em busca de uma expressão própria, tanto quanto possível original.

Em resumo: estabelecer a autonomia literária é descobrir os momentos em que as formas e artifícios literários se prestam a fixar a nova visão estética da nova realidade. Assim, a literatura, ao invés de períodos cronológicos, deverá ser dividida, desde o seu nascedouro, de acordo com os estilos correspondentes às suas diversas fases, do Quinhentismo ao Modernismo, até a fase da contemporaneidade.

Duas eras – A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras, que acompanham a evolução política e econômica do país: a Era Colonial e a Era Nacional, separadas por um período de transição, que corresponde à emancipação política do Brasil. As eras apresentam subdivisões chamadas escolas literárias ou estilos de época.

A Era Colonial abrange o Quinhentismo (de 1500, ano do descobrimento, a 1601), o Seiscentismo ou Barroco (de 1601 a 1768), o Setecentismo (de 1768 a 1808) e o período de Transição (de 1808 a 1836). A Era Nacional, por sua vez, envolve o Romantismo (de 1836 a 1881), o Realismo (de 1881 a 1893), o Simbolismo (de 1893 a 1922) e o Modernismo (de 1922 a 1945). A partir daí, o que está em estudo é a contemporaneidade da literatura brasileira.

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br/

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Nilto Maciel (Panorama do Conto Cearense – Parte VII)

Fran Martins, nascido Francisco Martins, é natural de Iguatu (13 de junho de 1913) e faleceu em Fortaleza (1996). Filho de Antônio Martins de Jesus e Antônia Leite Martins. Uma das principais figuras do grupo e da revista Clã, cujo número inaugural saiu sob a sua direção. Formou-se em Direito, lecionou na Faculdade de Direito e na de Ciências Econômicas da UFC e escreveu inúmeras obras jurídicas. Colaborou em jornais e revistas de diversos Estados. Redator de A Esquerda e O Estado. Sua obra literária é vasta. No gênero conto estreou com Manipueira (1934), seguindo-se Noite Feliz (1946), Mar Oceano (1948), O Amigo de Infância (1960) e Análise (1989). Escreveu alguns romances: Ponta de Rua (1937), Poço dos Paus (1938), Mundo Perdido (1940), Estrela do Pastor (1942), O Cruzeiro Tem Cinco Estrelas ((1950) e A Rua e o Mundo (1962). É autor também da novela Dois de Ouros (1966), considerada sua melhor obra.

Na opinião de Montenegro, “o atributo dominante da obra de Fran Martins é a lógica.” Mais adiante acrescenta: “A sua atitude literária é sempre infensa à tendência moderna de erguer e sublimar os fenômenos artísticos a um plano essencialmente teórico ou intelectual, o que muita vez implica na efetiva negação da veracidade de certas leis da vida, mas, ao mesmo tempo, eleva o pensamento criador a evidente plenitude de domínio e eficácia. O mundo em que o escritor coloca a ação de seus romances e de seus contos é um mundo de observação, mais que de concepção; de imagem, mais que de símbolo; de percepção, mais que de intuição”. Em outro parágrafo, o crítico faz a seguinte análise: “Se nos contos de Manipueira (1934), seu livro de estréia, encontramo-lo preocupado com assuntos regionais, com os aspectos anedóticos do fanatismo e do cangaço, vemo-lo agora atento aos temas poéticos, palpitantes de vida e humanidade (…)”

No ensaio “Diálogo Intratextual: A Ruptura da Normativa”, (AAA, págs. 159/164), F. S. Nascimento assim se refere a Fran: “Possuindo boa leitura da moderna prosa de ficção em língua inglesa, conhecendo no original Sherwood Anderson, John dos Passos, Ernest Hemingway e outros, presume-se que Fran Martins tenha se inspirado nas lições dos mestres estrangeiros para realizar a experiência que seu novo livro de contos encerra.” Mais adiante comenta”: “Ao escrever “Cão Vadio” (Noite Feliz, 1946), Fran Martins já demonstrava seguro domínio dos elementos fundamentais da moderna ficção, tais como o fluxo da consciência, a voz ou reflexão solitária, o flash-back etc.” O crítico apresenta mais argumentos a favor do conceito de modernidade na obra de Fran Martins: “O que se admite por mais ousado no diálogo de alguns dos novos contos de Fran Martins está, de fato, na ruptura extrema da normativa, sendo rejeitada até a aspa simples”.

Analisando-se as narrativas curtas de Fran Martins, percebe-se o quanto a utilização de determinada técnica de narração pode fazer com que uma obra literária seja desviada do caminho da vulgaridade ou da mediocridade e chegar ao leitor envolta numa aura muitas das vezes de sublimidade. Assim, veja-se “O Amigo de Infância”, primeiro do livro de título homônimo. Dois homens (Chico e Gustavo) se encontram numa rua, relembram a infância, dirigem-se a um café, continuam falando do passado e, finalmente, se despedem. Apenas isto. Seria uma história insossa, menor, não tivesse Fran dado à forma de narrar um tratamento refinado. Até o desenlace seria trivial, com a última fala, a do garçom, de feitio anedótico. Mesmo sendo o desfecho da história, o arremate moral, a dar à narrativa um tom realista, próximo do naturalismo – o retrato do caráter de um dos personagens.

Em “Ventania” muda novamente o contista o rumo de sua arte de narrar. Aqui o protagonista é o narrador, sem nenhuma dúvida. E por que o nome do cavalo como título? O cavalo seria o elo de ligação de dois mundos: o do narrador e o das outras duas personagens (o pai e a mãe). Ventania seria também a causa do alvoroço do narrador, um vento forte a lhe varrer a inocência.

O conflito vai sendo apresentado de forma sutil, na visão do narrador, um menino. E tudo é presente, isto é, não há passado anterior. O drama é narrado linearmente, embora na voz pretérita, porém sem flashback. Tudo se passa em poucos dias, de forma acelerada, como numa corrida. Apesar disso, a narração é lenta, comedida, sem atropelos, correrias. Nas obras anteriormente citadas, as personagens se deslocavam pela rua, pela escola, pelas margens de um rio, pela cidade. Nesta, o narrador vai ao quintal, volta ao quarto, gira ao redor de si mesmo, até quando vai à escola. Faz voltas ao redor de sua dor, embora seu pai saia a cavalo, em busca de outra mulher, e sua mãe chore pela casa.

Caio Porfírio Carneiro escreveu: “Fica a impressão – mais que isto: a certeza – de que a força narrativa do romancista sempre lhe deu sinais, como uma pilha que se não apaga, de que o conto sempre o chamou de volta, e para ele sempre voltou. Não com o ímpeto do romancista, mas com o carinho do cinzelador. Eis porque deixou páginas preciosas de ficção curta”.
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(Manuel) Eduardo (Pinheiro) Campos nasceu em 1923, em Guaiúba, então distrito de Pacatuba. Estreou em 1943, com a coleção Águas Mortas. Seguiram-se, neste gênero, em 1946 Face Iluminada, em 1949 A Viagem Definitiva, em 1965 Os Grandes Espantos, em 1967 As Danações, em 1968 O Abutre e Outras Estórias (constituído por uma seleção dos presumíveis melhores contos), em 1970 O Tropel das Coisas, em 1980 Dia da Caça, em 1993 O Escrivão das Malfeitorias, em 1998 A Borboleta Acorrentada e em 1999 O Pranto Insólito. Tem também peças de teatro, livros de folclore, romances, ensaios, biografias, memórias, além de grande número de produções especiais para o rádio e televisão. Seus principais romances são O Chão dos Mortos e A Véspera do Dilúvio. Durante dez anos dirigiu a Academia Cearense de Letras; foi Secretário de Cultura do Estado, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, e é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará. Figura em antologias nacionais e internacionais de contos. É bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Iniciou-se nas letras escrevendo, dirigindo e representando peças de teatro. Sua peça O Morro do Ouro foi representada 350 vezes; A Rosa do Lagamar, mais de 500. Sua obra teatral foi reunida em dois volumes, contendo O Demônio e a Rosa, O Anjo, Os Deserdados, A Máscara e a Face, Nós, as Testemunhas, no primeiro, A Donzela Desprezada, O Julgamento dos Animais, O Andarilho, além das já mencionadas. Tem pequenas histórias incluídas em dez antologias, das quais duas no Uruguai e uma na Alemanha.

Embora não tenha alcançado notoriedade no resto do Brasil, no restrito espaço da crítica literária, Eduardo Campos tem seu nome gravado em alguns importantes compêndios de História da Literatura. Assim, está presente em A Literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho, pelo menos no ensaio de Herman Lima: (…) “folclorista de altos méritos, tem, naqueles livros (refere-se aos três primeiros da bibliografia do contista), alguns contos regionais e psicológicos da melhor marca, a exemplo de “Os Abutres” e “O casamento”, o último, principalmente, na sua força bem da terra cearense, dos mais belos da atualidade brasileira”.

Eduardo Campos é um mestre do conto psicológico. Em “O Afogado”, do livro As Danações, o drama parece ir se deslocando não de lugar, mas de personagem, sob a óptica do narrador onisciente. O protagonista seria o afogado? Ou seria a podridão moral dos homens? No final, com o surgimento do cadáver, o narrador arremata a narrativa com uma frase moralista: “Foi quando os homens, amesquinhados, começaram a pensar que não era o afogado que malcheirava, mas eles, que haviam apodrecido em vida”.

No livro Três Momentos da Ficção Menor, F. S. Nascimento analisa “O Abutre”, no “Momento III”, e defende a tese de que “já em 1946 esta concepção de “new short story” era praticada no Ceará, efetivando-se na criação de “O Abutre”, de Eduardo Campos.” A seu ver, “O Abutre” se impõe como um modelo da “new short story”, sendo tão atual quanto “Cão Vadio” de Fran Martins, “Os Sete Sonhos” de Samuel Rawet, “A Coisa” de Garcia de Paiva” e qualquer uma das unidades narrativas de O Casarão, de Caio Porfírio Carneiro.”

Eduardo Campos, no entanto, não se repete nas formas de narrar. Assim, em “A Viúva Enganada”, do mesmo livro As Danações, o desenlace se esboça não no começo, mas no título, o que não deixa de ser curioso, se não for original.

Na peça que dá título ao livro o contista também não muda o ponto de vista, e a narração vem recheada de falas curtas e diálogos breves, acrescentado o discurso indireto livre, embora ainda sem muita ousadia.

Na opinião de Braga Montenegro, em “Eduardo Campos, Contista”, apresentação de O Abutre e Outras Estórias (1968), “é no conto onde melhor se manifestam suas qualidades de talento”. E acrescenta que se manifesta, “com maior freqüência, em Eduardo Campos o feitio de um escritor regionalista, no que não lhe vai qualquer restrição”.

Em O Abutre e Outras Estórias, possivelmente escrito logo após As Danações, Eduardo Campos utiliza outros focos narrativos. Assim, em “O Casamento” se vale do ponto de vista do escritor onisciente, que dá voz às personagens em breves diálogos diretos e também em um monólogo interior.

Em “O Ficcionista Eduardo Campos” (Exercícios de Literatura, págs. 135/138), Francisco Carvalho analisa o volume Dia da Caça assim: “São contos de estrutura relativamente simples, em que se evidencia a familiaridade do Autor na abordagem de certas manifestações do lirismo popular, ao lado de uma particular sensibilidade pelos termos ligados à terra e ao homem”.

Passando dos primeiros livros para os mais recentes, como A Borboleta Acorrentada, observa-se que a linguagem do contista em nada mudou, consciente de que os modismos passam e o mais valioso na obra literária não está na aparente transgressão de normas.

Apesar desse apego à narração, o contista não esqueceu as outras linguagens, como o discurso indireto livre. Percebe-se também a presença, embora não muito freqüente, do monólogo interior indireto. E nada de explicações, volteios circenses, excesso de figurantes e cenários.

Na opinião de Herman Lima, “`O Abutre`, de Eduardo Campos, e ‘Lama e Folhas’, de Moreira Campos, por exemplo, são dos mais belos e originais, que já se escreveram entre nós, em qualquer tempo”.

Braga Montenegro (1907-1979), mais conhecido como “crítico de primeira plana, ensaísta agudo e sensível”, no dizer de Herman Lima, o contista e novelista estreou com Uma Chama ao Vento (contos, 1946), reeditado em 1980 pelas Edições UFC, seguindo-se, em 1976, As Viagens e Outras Ficções, (novelas e contos), mais uma seleção dos Contos Derradeiros, até então inéditos em livro. Em Uma Antologia do Conto Cearense esteve presente com “Os Demônios”, editado pela primeira vez em 1959, na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras. Sânzio de Azevedo analisa as histórias do autor de Correio Retardado em “Braga Montenegro, Crítica e Ficção” (Aspectos da Literatura Cearense, págs. 265/276).

Francisco Carvalho estuda a obra de Braga em “A Inquieta Modernidade de Braga Montenegro”, incluído na 2a. edição de Uma Chama ao Vento e em Exercícios de Literatura. E elucida: “um dos aspectos a destacar em Braga Montenegro é o permanente sentido de universalidade que caracteriza os seus trabalhos de ficção. Universalidade nascida da convicção de que o homem é tudo o que importa. Não o têm seduzido, por isso mesmo, os regionalismos tipificadores, com o seu conhecido cortejo de deformações. Muito embora as raízes espirituais do ficcionista mergulhem fundo nas fontes da literatura européia, importa assinalar que isso em nada lhe compromete a originalidade, nem lhe desfigura as matrizes do impulso criador. Não menos digna de nota é a verticalidade com que o ficcionista engendra situações no contexto das suas narrativas e com que tece a teia do acaso em que se envolvem os seus personagens. Em nenhuma das novelas e contos do presente volume a atmosfera ficcional vem a ser comprometida pelo simples devaneio formal ou pelo discurso literário inconseqüente”. Ao se referir às histórias curtas, o crítico vê nelas “peças de extraordinária expressividade e de considerável beleza literária. A austera poesia dessas páginas como que nos fere a sensibilidade com a sua pungência avassaladora. ‘Os Demônios’, ‘O Hóspede’, ‘O Potrinho Pampa’, ‘Agonia’ e ‘Ansiedade’ são, inquestionavelmente, documentos que se impõem pela autenticidade e grande beleza literária com que foram realizados”. Destaca também “O Tesouro”.

Segundo Pedro Paulo Montenegro, na análise crítica de trecho de uma obra de Braga, constante da Antologia Terra da Luz – Prosadores, de 1998, o autor de Uma Chama ao Vento é “cultor de um estilo elegante, culto, que se poderia dizer clássico, na linhagem machadiana”.
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Entretanto, de todos os nomes aqui citados, desde Juvenal Galeno e José de Alencar, passando por outros expoentes da literatura cearense, até hoje (2004), somente um pode ser chamado de contista por excelência ou por natureza – Moreira Campos. Os outros foram mais poetas ou mais romancistas. E isto não é apenas uma opinião, é uma constatação. Vejam-se os estudos, as teses, as monografias, as histórias, as enciclopédias – em todos eles, quando o assunto é conto, o primeiro nome cearense é o de Moreira Campos. São também citados com freqüência os nomes de Caio Porfírio Carneiro e Juarez Barroso. No entanto, ainda há uma imensa lacuna nessas publicações, uma grande omissão, porque estes e outros contistas cearenses têm tanta importância quanto muitos contistas de outros Estados que aparecem em livros de pesquisa e análise editados principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Alfredo Bosi, ao se referir ao Ceará, menciona poucos nomes, omitindo pelo menos três dos mais importantes: Gustavo Barroso, Herman Lima (lembrado apenas como ensaísta) e Moreira Campos. Está escrito na página 482 de sua História Concisa: “O Ceará conta com prosadores que honram a tradição do romance naturalista que lá conheceu o alto exemplo de Oliveira Paiva e Domingos Olímpio, sem falar nos pais da literatura regional brasileira, Alencar e Franklin Távora”. Afirma que depois de Raquel de Queiroz lembra apenas Fran Martins, Braga Montenegro e João Clímaco Bezerra, dos quais cita alguns livros.

Antonio Hohlfeldt, em Conto Brasileiro Contemporâneo, não olvidou o nome de Moreira Campos e fez breves referências a outros contistas cearenses, como Holdemar Menezes, que se radicou no Sul do Brasil e lá escreveu livros, Juarez Barroso, Mario Pontes, Paulo Véras, que nasceu no Piauí mas viveu e escreveu no Ceará, e Socorro Trindad. O crítico gaúcho se dedicou a pesquisas mais amplas e, sem má vontade, escreveu duas páginas a respeito de Moreira Campos, no capítulo V, intitulado “O Conto Rural”, no qual são analisadas também as obras de Guimarães Rosa, Bernardo Élis, Jorge Medauar, Caio Porfírio Carneiro, Guido Wilmar Sassi e José J. Veiga. Para comentar as composições de Moreira Campos, faz constantes transcrições de estudos assinados por Antônio Houaiss, Temístocles Linhares, Hélio Pólvora e Francisco Carvalho.

Temístocles Linhares, em 22 Diálogos Sobre o Conto Brasileiro Atual, trata apenas de Moreira Campos, no capítulo 11, onde também estuda o baiano Cyro de Mattos e Bárbara de Araújo, e Juarez Barroso, no capítulo 19.

Assis Brasil, em A Nova Literatura – O Conto, comete um enorme erro, ao deixar de lado Moreira Campos. Ou para o crítico piauiense o escritor cearense estaria entre os “velhos contistas”? Ora, a estréia do autor de As Vozes do Morto se deu em 1949, enquanto a de Murilo Rubião é de 1947. Portanto, ignorância ou má vontade. Em outra oportunidade, no entanto, o crítico se redimiu. Pois no Dicionário Prático de Literatura Brasileira não olvidou o nome de Moreira Campos. Incluiu-o no rol dos modernistas, isto é, daqueles que escreveram entre 1922 e 1955.

Hélio Pólvora dedicou um capítulo, “A Espingarda na Parede”, de Itinerário do Conto, a Moreira Campos. Como em outros livros, o único contista cearense estudado no ensaio, se considerarmos Holdemar Menezes um contista catarinense.
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Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.

Sua obra está estudada em importantes livros, como o de José Lemos Monteiro, intitulado O Discurso Literário de Moreira Campos, o de Batista de Lima, Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e outros mais abrangentes, como Situações da Ficção Brasileira, de Fausto Cunha; 22 Diálogos Sobre o Conto Brasileiro Atual, de Temístocles Linhares; e A Força da Ficção, de Hélio Pólvora. Em jornais e revistas se estamparam quase uma centena de artigos e ensaios sobre os seus livros.

Temístocles Linhares classifica o contista de Portas Fechadas de “um de nossos maiores contistas atuais”. E comenta: “Lê-lo, para mim, é reviver, em certos aspectos, transpostos para o ambiente de seu Ceará, os velhos mestres do naturalismo. Como eles, o autor também desconfia das grandes palavras e dos grandes gestos, preferindo tentar substituir os julgamentos de valor pelos julgamentos de existência”.

Assis Brasil escreveu: “Moreira Campos faz, no Ceará, a ligação entre o conto de história, ainda vigente nos primeiros anos do Modernismo, e o conto de flagrante, sugestivo, que as novas gerações, a partir de 1956, desenvolveriam em muitos aspectos criativos”.

Hélio Pólvora opina: Moreira Campos, “embora não sendo um tchekhoviano perfeito, dele (Tchekhov) se aproxima quando livra o conto de uma sobrecarga excessiva e procura atingir logo o alvo, localizar logo o nervo exposto”. E acrescenta: “Moreira Campos seleciona e filtra fatos que às vezes se resumem a instantes, e nesse processo informa ou sugere o conflito vivido pela personagem, mostrando, afinal, o que ela faz para resolver o conflito ou sucumbir”.

Segundo Herman Lima, no ensaio citado na primeira parte, Moreira Campos: (…) “é um mestre do conto moderno, desde o aparecimento do seu primeiro livro, Vidas Marginais (1949), no qual há pelo menos uma obra-prima do conto universal desta hora, “Lama e Folhas”. Diz mais: “As pequenas ou grandes tragédias, as comédias ocultas do cotidiano burguês, fixadas por ele, ganham, em sua mão experiente, uma especificidade que o aproxima dos maiores nomes do conto psicológico de todos os tempos, de Machado de Assis para cá, inclusive e principalmente Tchecov, de sua íntima e fiel convivência, ou, mais perto de nós, de um Joyce dos Dubliners ou um Sherwood Anderson, de Winesburg Ohio”.

Montenegro argumenta: “Moreira Campos será talvez não apenas o contista de maior projeção nas letras cearenses contemporâneas, porém, ainda, juntamente com Osman Lins, Dalton Trevisan e poucos outros, terá ele realizado o que de mais significativo existe no conto moderno brasileiro”.

Sânzio de Azevedo, principalmente no ensaio “Moreira Campos e a Arte do Conto” (Novos Ensaios de Literatura Cearense) faz algumas observações: “Na linhagem de Machado de Assis e por conseguinte na de Tchecov é que se entronca a obra ficcional de Moreira Campos” (…). Segunda: “apesar de haver optado pela narrativa sintética, extremamente despojada, com que tem enriquecido a nossa literatura através de não poucas obras-primas, não renegou os longos contos de seu primeiro livro” (…). Terceira observação: “Em Moreira Campos o que mais importa são os dramas da alma humana, e não a presença da terra, ostensivamente retratada nas páginas de Afonso Arinos e Gustavo Barroso”.

Batista de Lima, no ensaio mencionado linhas atrás, fala da corrosão física dos personagens, dos agentes dessa corrosão, dos defeitos congênitos, da decrepitude, da doença e da morte. A seguir analisa o oposto disso, ou seja, a ordem: “A nova ordem começa a ser instaurada no momento em que o narrador doma a morte, colocando-a no convívio familiar dos personagens.” E, passando da ordem narrada para a ordem vocabular, constata a constante evolução da arte do contista.

Em “As Características da Escritura de Moreira Campos” (O Fio e a Meada: Ensaios de Literatura Cearense, págs. 155/158), Batista é de opinião que o contista “transita com mestria entre momentos impressionistas, neo-realistas e neonaturalistas, sempre conservando uma estrutura linear para suas narrativas, com princípio, meio e fim bem delineados.” Especifica: “As principais características da narrativa de Moreira Campos são: uma tendência para o uso de elementos descritivos em paralelo aos narrativos; os vazios deixados para serem preenchidos pelo leitor; a eliminação de comentários e interpretações paralelas; a quase ausência de diálogos; a atuação do tempo como elemento corrosivo sobre os personagens; o uso das repetições como forma de superação das dificuldades de relacionamento entre as diferentes classes de pessoas; a ironia; a luta pela concisão.”

José Alcides Pinto, em “Um Mundo de Coisas Miúdas” (Política da Arte–II, págs. 51/52), observa: “Moreira Campos, obstinado em sua procura do novo, do mundo brilhante das coisas obscuras, melhor direi de “vidas marginais”, reapanha, com O Puxador de Terço, o início de sua carreira literária, que ele torna cíclica num processo, quase mágico de depuração estilística”. Em “Moreira Campos e a Nova Ficção Brasileira” (PA-I), ao comentar Os Doze Parafusos, afirma: (…) “abrem um novo caminho na ficção de Moreira Campos, já esboçada sob o ponto de vista erótico em outras obras, mas sem a liberdade de como os assuntos são agora tratados, vistos de frente, com um realismo mágico e epidérmico, que se inscreve, com muita propriedade, no fescenino, num clima de autonomia individual e sem o prejuízo de uma linguagem estética – função inequívoca a toda obra de arte”.

Francisco Carvalho, em “A Transparência Formal na Ficção de Moreira Campos” (EL, págs. 124/127), vê nas peças ficcionais de A Grande Mosca no Copo de Leite que “em todas elas a excelência do artesanato literário destaca-se por uma rigorosa economia de palavras e por uma extraordinária transparência formal”. E mais adiante: “A prosa enxuta, a frase carregada de sentido, a noção de ritmo e de musicalidade, o poder de síntese, o rigor no emprego da palavra, a densidade psicológica e a expressividade – são esses alguns dos aspectos que se articulam no contexto ficcional do novo livro de Moreira Campos”. Em “Contos Escolhidos” (Textos e Contextos), analisa a evolução do contista: “Os contos da primeira fase, elaborados sem qualquer preocupação de fidelidade aos paradigmas da chamada “história curta”, já se apresentam numa evidente perspectiva de modernidade”. E mais adiante: “Já nos contos da segunda fase, Moreira Campos persegue obstinadamente os horizontes da síntese, da pura essencialidade”.
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Além dos quatro grandes nomes do conto cearense surgidos com o Grupo Clã, outros escritores se destacaram no cultivo da narrativa curta após 1960. Os mais importantes são Caio Porfírio Carneiro, talvez o escritor mais vocacionado para a composição ficcional curta no Ceará, depois de Moreira Campos; José Alcides Pinto, embora mais dedicado ao romance e ao poema; e Juarez Barroso, falecido muito cedo, mas que deixou dois volumes de contos e um romance.

Caio Porfírio (de Castro) Carneiro é natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem cultivado a prosa de ficção curta com regularidade. Sua estréia no gênero se deu em 1961, com o elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva – Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) e Maiores e Menores (2003). Seus romances são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A Oportunidade, estas em 1988. É autor também de ensaios, como Do Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: esperança, Quando o Sertão Virou Mar…, Da Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de Bar, Perfis de Memoráveis). Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1975.

Chuva (Os Dez Cavaleiros) é quase um romance, se é possível isto. A chave para esta observação se encontra na última narrativa, quando o décimo cavaleiro, dirigindo-se ao seu interlocutor, fala: “Olhe aqui, homem: de toda a multidão que conheci, correndo a planície, a serra do Catolé e todos os lugares que cercam a Lagoa Grande, nove ficaram na minha cabeça. Nove. Todos cavaleiros como eu”. Como se dissesse ter conhecido as outras nove histórias do livro. Nas dez peças há sempre um cavaleiro vestido de capote e coberto de chapéu, e outra personagem, ambos sem nome. A paisagem é composta de chuva, um ambiente de campo, com um casebre ou choupana, com chão de barro batido, às vezes uma vila, com uma pracinha, uma igreja abandonada e gente desvalida, sofrida, com medo. De comum também o espaço apenas referido da serra do Catolé e da Lagoa Grande, sempre muito distantes. Quase uma miragem. Para completar a narrativa, um drama e um desenlace enigmático, de parábola. Os desfechos muitas vezes estão nos títulos das histórias. O fantástico se desenha em quase todas as obras, quer no desenrolar da trama, quer no epílogo. Seria, porém, um fantástico mais próximo da parábola, do simbólico, do enigmático. Outras vezes é apenas uma sugestão. Em todos os contos a narração se dá na terceira pessoa, mais para observador do que para narrador onisciente. Talvez apenas em um trecho de uma das histórias o narrador se faz onisciente. A narração é quebrada, aqui e ali, por breves e ásperos diálogos, em linguagem culta ou literária. Caio manipula a linguagem com sabedoria, valendo-se de muita imaginação e do conhecimento das melhores ferramentas da arte de narrar.

No comentário ao mesmo livro, o escritor Marcos Rey assim se expressou: “Com os mesmos instrumentos de trabalho, a simplicidade aludida, o trato quase bíblico dos personagens, ação e diálogos, a natureza como presença obrigatória, Caio Porfírio Carneiro excede à realidade cotidiana, realizando uma obra de síntese literária envolta em poesia, sobriedade e enigmas”.

Em Os Dedos e os Dados, o contista parte por caminhos menos espinhosos, lamacentos, embora retrate também graves conflitos humanos. E se serve de formas variadas para compor as histórias. “A Promessa” é quase todo um só diálogo, de frases curtas. “A Confissão”, como o título sugere, é um diálogo. Em “A Missão” não ocorre uma só fala e a narração é composta de um longo parágrafo e uma frase curta: “A outro qualquer caberia terminar a tarefa”. É a busca da crucificação, novo Cristo sem algozes. Alguns contos tratam do relacionamento amoroso e podem ser tidos como eróticos.

Caio é um especialista da história curta, breve. No entanto, é capaz de se alongar, como em “Um Segundo”. E aí mora o mistério. Em um segundo ele consegue ser mais expansivo do que em histórias que duram horas.

F. S. Nascimento inicia assim o ensaio “Caio Porfírio Carneiro: O Novo Degrau da Ficção” (AAA, págs. 187/189): “Ao firmar posição entre os melhores contistas brasileiros deste último mear de século, Caio Porfírio Carneiro não se rendeu ao empolgamento dessa conquista, intensificando as suas experiências formais e sutilizando os processos de reconstituição de momentos culminantes ou memoráveis da existência. Essa fase de metafiguração laboratorial se inaugurava com o lançamento de O Casarão (1975), estendendo-se ascencionalmente a Os Dedos e os Dados (SP, Pontes Editores, 1989)”. Em outro parágrafo, o crítico esclarece esse argumento: “O jogo sutil dos enunciados implícitos, que Braga Montenegro admitia como refinamento do estilo na prosa de ficção, é o recurso de que mais se utiliza Caio Porfírio Carneiro para gerar o imponderável em cada fração de vida flagrada pela sua ultra-sensível máquina processadora de imagens e emoções”. Ao se voltar para o modo como o contista apresenta os diálogos, o crítico assinala: “Sucintíssimo no diálogo ou na exteriorização solitária, num ou noutro caso as unidades de sentido assim construídas se reduzem a fragmentos de mínima duração acústica, tornando mais prolongado o silêncio das personagens enquadradas pela objetiva do narrador”.

A Partida e a Chegada é outro livro de construção inusitada, a lembrar uma casa composta de fachada rococó, paredes barrocas, colunatas romanas. Como Chuva, deve ser lido como um todo, conto a conto. Leiam-se os diálogos de abertura do volume, como se fosse um prólogo ou, em termos de arquitetura, o átrio de uma casa romana ou o alpendre de antigas casas sertanejas. Duas personagens, sem nome, conversam, como se resumissem os contos que virão a seguir. A descrição do ambiente é mínima: a lua, as nuvens, as estrelas, o céu. São como cenário singelo de um palco pequeno, onde dois personagens encenassem cinco brevíssimas peças. Tudo muito contido.

Ao contrário de Chuva, todo ambientado no campo, as narrativas deste são, na maioria, de inspiração urbana. No primeiro, “A Carícia”, é narrado assalto a um banco. O contista utiliza alguns procedimentos formais mais ousados, embora não mais de vanguarda (hoje), como o cruzamento de narrações na terceira e na primeira pessoa, além do diálogo indireto e da linguagem oral. “Saparanga” e “Zecapinto” ocorrem num lapso de tempo bem mais longo do que na maioria das histórias de Caio. A contrastar com a tensão da primeira, nestas perpassa um humor circense. Os protagonistas são um tanto picarescos. Há, no entanto, uma variedade de enfoques no livro. Assim, “O Crime” é quase a reconstituição de um fato histórico, em Caucaia, Ceará.
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José Alcides Pinto, nascido em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú (1923), tem sido muito mais poeta e romancista do que contista. Apesar disso, é também nome fundamental do conto cearense. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”. Seus poemas estão nos livros Noções de poesia & arte (1952), Pequeno caderno de palavras (1953), Cantos de Lúcifer (1954), As pontes (1955), Concreto: estrutura-visual-gráfica (1956), Ilha dos patrupachas (1960), Ciclo único (1964), Os catadores de siri (1966), As águas novas (1975), Os amantes (1979), O Acaraú – biografia do rio (1979), Ordem e desordem (1982), 20 sonetos do amor romântico e outros poemas (1982), Relicário pornô (1982), Guerreiros da fome (1984), Fúria (1986), Águas premonitórias (1986), Nascimento de Brasília – a saga do planalto (1987), O sol nasce no Acre (Chico Mendes) (1992), Poeta fui (Ora direis) (1993), Os cantos tristes da morte (1994), Silêncio branco (1998) e As tágides (2001). Tem dez romances, uma novela, uma peça teatral e três livros de artigos e ensaios.

A obra literária de Alcides Pinto está estudada em dois importantes livros: O Universo Mí(s)tico de José Alcides Pinto, de José Lemos Monteiro, e O Espaço Alucinante de José Alcides Pinto, de Paulo de Tarso (Pardal).

Editor de Insônia é dividido em “livro primeiro” e “livro segundo”. A presença de Edgar Allan Poe é visível em alguns contos: a maldade, a obsessão pelo mau, a impiedade de algumas personagens. E também o mistério, o terror. O “livro segundo” é constituído de contos e peças literárias de gêneros variados ou indefinidos. Daí a impropriedade do título geral do livro, assim como do próprio “livro segundo”.

No geral, as histórias curtas de José Alcides Pinto se afastam das principais características do conto tradicional ou clássico. Assim, ao lado de peças sem nenhum diálogo, apresenta até dois contos em forma de teatro – “Caducos” e “Granjeiros”. Em “Domingão” há apenas dois diálogos. Porém não se libertou das formas tradicionais nos diálogos: “disse”, “exclamou”, “comentou”, “gritou” etc.

José Alcides Pinto é um escritor singular na Literatura Brasileira. Não pode ser visto como um adepto do realismo fantástico ou posto ao lado de contistas como Murilo Rubião e José J. Veiga. Seus contos também não são regionalistas, assim como não o são os de Moreira Campos. Há mistérios nos contos de ambos, embora entre eles não se possa vislumbrar nenhuma semelhança. Mesmo quando os conflitos são do tipo policial, como em “O Fogo das Paixões”, não se trata de conto policial ou realista, como os de Rubem Fonseca.

Como escreveu Francisco Carvalho, na ficção de José Alcides Pinto “não há lugar para os devaneios da retórica nem para as quimeras do lirismo cordial.”
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Juarez (Távora) Barroso (de Albuquerque Ferreira) nasceu em Pernambuquinho, Serra de Baturité, no dia 19 de outubro de 1934. Filho de José Carlos Ferreira e Clélia Albuquerque Ferreira. Apesar de se ter formado em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou no radialismo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou jornalismo e publicidade. Por diversas vezes voltou a residir em Fortaleza, porém em 1966 se radicou na velha capital da República, onde faleceu em agosto de 1976. Premiado num concurso permanente do antigo Boletim Bibliográfico Brasileiro, em 1958, foi incluído no Panorama do Novo Conto Brasileiro (Editora Júpiter, 1964), organizado por Esdras do Nascimento, e em Uma Antologia do Conto Cearense (Imprensa Universitária do Ceará, 1965). Anunciou um estudo intitulado Estácio – Os Professores do Samba, “pretensiosa pesquisa músico-sociológica sobre o samba nos anos de 20”, segundo o próprio Juarez.

Deixou as narrativas de Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal (1969), ganhador do Prêmio José Lins do Rêgo, do ano anterior, e Joaquinho Gato (1976). Tem também um romance, Doutora Isa (Editora Civilização Brasileira, 1978), publicação póstuma. Na “Nota Prévia” do livro, Mario Pontes esclareceu: “Na véspera de viajar, em minha companhia, à capital paulista para lá autografar seu livro (Joaquinho Gato), Juarez adoeceu e foi hospitalizado. Uma semana depois estava morto. Recebi, então, das pessoas mais íntimas do escritor, a incumbência de pôr em ordem os seus papéis. Com algumas interrupções, ocupei-me deles de setembro de 1976 até agora. A história de Margô, felizmente, pôde ser reconstituída”. A Nota é de 5 de fevereiro de 1977.

Uma das primeiras críticas à ainda principiante obra de Juarez é de Braga Montenegro, no estudo diversas vezes aqui mencionado. Comparando-o a José Maia, escreveu o crítico: “é mais espontâneo, telúrico, dono de um estilo original, mas nem sempre correto de forma. Suas estórias, engendradas à maneira tradicional de narração, expressam, entretanto, uma dimensão nova, que as isenta à contingência da realidade elementar e as transfigura em arte. É ele, antes de tudo, um impressionista poderoso, mas com um jeito todo próprio de comunicar suas impressões. Ou, antes: seu impressionismo, por assim dizer, nada tem de visual, e se define em motivos quando não imaginados pelo menos recolhidos de uma realidade subjacente que sugere símbolo”.

Com Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal, Juarez Barroso ganhou o Prêmio José Lins do Rego, em 1968. A primeira edição deste livro traz nas dobras da capa um texto de avaliação, sem assinatura. Na primeira parte, intitulada “Sagrada Família”, os contos são ambientados na Serra de Baturité e estão voltados para o “erotismo patriarcal”, “o orgulho idem” e “o culto à macheza”. Na segunda, intitulada “Os Hereges”, os personagens são os descendentes dos primeiros e o ambiente é Fortaleza.

João Antônio, em “A Geografia do Homem”, estampado nas dobras do segundo livro, faz o seguinte comentário: “Joaquinho Gato, cujos contos situam-se geograficamente numa área específica do Ceará, sem o clima trágico do Sul do Estado, é um livro marcado pela violência, reflete um estado de humor pesado, carregado de tensões, vida, angústia de um povo vivendo entre a repressão, a rudeza e as necessidades primárias”. Acrescenta: “Dificilmente se poderá destacar, neste seu novo livro, um conto como ponto mais alto. Todos os trabalhos têm força e garra dignos de representar o flagrante de um momento de previsões negras dentro de nossas realidades. Cururu, para dar um exemplo, é página inesquecível, de fôlego e pulso, só encontrável na grande literatura de Graciliano Ramos”.

Continua… Na próxima parte, Anos 70

Fonte:
Nilto Maciel. Panorama do Conto Cearense. Disponível em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=986

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Nilto Maciel (Panorama do Conto Cearense – Parte VI)

ANOS 1970

Seguindo informações de alguns historiadores ou cronistas da Literatura Brasileira, 1975 é o marco de uma nova era. No Ceará, entretanto, e em outros Estados talvez, esse marco não é bem nítido, eis que bem antes daquele ano se publicaram importantes livros de contos de escritores cearenses, como Mundinha Panchico, de Juarez Barroso, em 1969; A Morte Trágica de Alain Delon, de Francisco Sobreira, em 1972; Os Olhos do Lixo, de Socorro Trindad, no mesmo ano, com prefácio de Câmara Cascudo; Pluralia Tantum, de Gilmar de Carvalho, em 1973. Sem falar nos romances e conjuntos de poemas.

No Ceará alguns observadores já vinham apontando a existência de uma espécie de paralisia na literatura. Eusélio Oliveira, ao escrever sobre o primeiro livro de Francisco Sobreira, dizia: “A Morte Trágica de Alain Delon, antes de ser mais um livro de contos, é uma prova inequívoca de desafio contra o relaxamento improdutivo do movimento literário cearense”. João Antônio, nas dobras do livro Joaquinho Gato, de Juarez Barroso, afirma: “a publicação de alguns novos autores” (…) “motivou a palavra boom como designativo de um movimento literário vindo de publicações levadas a público a partir de 1975”.

A revista O Saco começou a nascer em 1975 e foi em volta dela que, no Ceará, os novos contistas se tornaram mais ou menos conhecidos no resto do Brasil, iniciando-se um período de edição de seus livros no Rio de Janeiro e em São Paulo e de contos esparsos em jornais e revistas de todo o país. Alexandre Barbalho escreveu o mais importante estudo daquele período, no Ceará, dando ênfase àquela publicação, no livro Cultura e Imprensa Alternativa. Um dos capítulos (pág. 35) assim se inicia: “Para perceber o boom da imprensa alternativa dos anos 70 é necessário saber que a eclosão editorial e a proliferação de publicações, nas mais variadas formas, ocorreram por todo o país”. Entretanto, bem antes de O Saco alguns escritores novos já divulgavam suas narrativas em jornais, revistas e antologias. Outros publicaram seus primeiros livros de histórias curtas, como se observou no início deste capítulo. Sendo assim, aquela revista significou a conseqüência de uma agitação iniciada individualmente e não ainda como grupo.

Em 1976 Glauco Mattoso e Nilto Maciel organizaram uma antologia de contos dos novos escritores brasileiros, intitulada Queda de Braço – Uma Antologia do Conto Marginal, publicada no ano seguinte. Do Ceará participaram A. Rosemberg (que em seguida adotou o nome Rosemberg Cariry), Airton Monte, Carlos Emílio Corrêa Lima, Edvar Costa, Francisco Sobreira, Jackson Sampaio, João Bosco Sobreira Bezerra, Nilto Maciel, Paulo Véras e Victor Cintra, quase todos inéditos em livro naquele ano.

A seguir viria o Grupo Siriará de Literatura, que continuaria, de certa forma, o trabalho desenvolvido pelo pessoal de O Saco, aglutinando os escritores cearenses em torno de um programa e de uma revista. Consoante a opinião de Dimas Macedo, em “Literatura e Escritores Cearenses” (CI, págs. 145/158), o Siriará, “que eclodiu no final da década de setenta, além de um manifesto e de uma revista que morreu com o primeiro número, não deixou a meu juízo uma contribuição significativa, enquanto movimento de renovação estética e literária”. E mais adiante: “Mas é indiscutível também que do Siriará provêm alguns dos melhores escritores cearenses da década de 1980, com raízes num período bem anterior, que remonta à criação da revista O Saco”.

Noticia F. S. Nascimento, no livro Augusto dos Anjos: “Com o advento da revista cultural O Saco em abril de 1976, reconhecidamente o mais audacioso projeto editorial da época no Ceará, a jovem intelectualidade da terra ganhava o espaço gráfico reclamado para o exercício de sua criatividade, fazendo literatura e desenvolvendo suas aptidões artísticas. Comandado por Manoel Raposo, Jackson Sampaio, Carlos Emílio Corrêa Lima e Nilto Maciel, o empreendimento tornou-se responsável pela afirmação de poetas, ficcionistas e ensaístas hoje com acesso aos suplementos literários e demais publicações de âmbito nacional, o que autoriza dizer que O Saco fez em sua meteórica existência o que outros órgãos do gênero não têm conseguido realizar em dezenas de anos”.

Adriano Spínola, em “A Nova Ficção Cearense”, afirma: “Numa terra tradicionalmente de poetas – talvez por ser o modo mais fácil de se destacar culturalmente, num meio de poucas oportunidades, ou porque o Ceará seja mesmo um manancial de talentos poéticos, quem sabe – a ficção narrativa tem merecido pouca atenção/dedicação por quantos militam na literatura. Da velha geração, há o exemplo raro de fidelidade ao conto, acompanhado de um constante aprimoramento, por parte do Sr. Moreira Campos, mestre inconteste no gênero, reconhecido nacionalmente; o Sr. Fran Martins, novelista de primeira, ao que parece contentou-se com o seu Dois de Ouro, um trabalho notável, nada nos dando, porém, posteriormente, que se lhe igualasse em peso; o Sr. Jáder de Carvalho, há muito preferiu ser poeta lírico, com qualidades; e há o Sr. Eduardo Campos, que, tendo-se realizado mais plenamente na área dramática, com algu­mas peças de merecido sucesso nacional, abandonou, ao que tudo indica, a novelística; Juarez Barroso, não fora a morte prematura, bem que nos poderia ter dado uma ficção que se ligasse à força de uma D.Guidinha do Poço, por exemplo. Vivência não lhe faltava, nem talento. Mas não o fez”.

No mesmo artigo Adriano anotou: “Na nova geração, o interesse pela narrativa literária ganha poucos adeptos. Tomando como base o Grupo Siriará, formado em 79, dos seus 24 membros, apenas 4 a 5 se empenharam na criação de personagens e enredos. O resto, tome poesia! Era, na verdade, muito mais um grupo de poetas, todos ansiosos em revelarem suas produções nascentes e serem os primeiros bardos anunciadores de um novo tempo, que se avizinhava, ao cair do obscurantismo político-cultural, que sentíamos ainda grudado nos dedos”.

Para concluir, Spínola observou: “Se poucos foram os que se ligaram à prosa ficcional, em compensação o fizeram com uma garra e uma categoria superlativa. Como é o caso de Airton Monte, Nilto Maciel, Paulo Véras e Carlos Emílio”.

Durante os anos 1970 diversos foram os livros de contos de novos escritores cearenses editados em Fortaleza, bem como em outras capitais. O primeiro deles, em 1972, foi A Morte Trágica de Alain Delon, de Francisco Sobreira. No mesmo ano se publicaram mais três coleções: Exercício Para o Salto, de Cláudio Aguiar; Os Olhos do Lixo, de Socorro Trindad; e A Coleira de Peggy, de Holdemar Menezes, com uma peculiaridade: o primeiro e o terceiro fora do Ceará e o segundo no Ceará, porém de escritora nascida em outro Estado. Em 1973 apareceu um dos mais importantes e singulares livros de ficção curta do Ceará: Pluralia Tantum, de Gilmar de Carvalho. Em 1974 Nilto Maciel estreou com Itinerário. Em São Paulo no ano de 1975 veio a lume O Casarão, de Caio Porfírio Carneiro, que havia estreado ainda em 1961 e, portanto, não se enquadra no rol dos novos contistas. O mesmo se pode dizer de Juarez Barroso, com seu Joaquinho Gato, de 1976. Desse ano é O Menino D’água, de Fernanda Teixeira Gurgel do Amaral. No ano seguinte saíram Depoimento de um Sábio, de Cláudio Aguiar, Milagre na Salina (catalogado como romance), de Mario Pontes, e Coisas & Bichos, de José Hélder de Souza, todos então radicados fora do Ceará. No mesmo ano se publicou Tocaia, de Yehudi Bezerra. Os mais velhos continuaram editando narrativas curtas, como Moreira Campos, que em 1978 apresentou ao público Os Doze Parafusos. Naquele ano estrearam duas contistas: Socorro Trindad, com Cada Cabeça uma Sentença, e Glória Martins, com Reencontro. 1979 pode ser visto como um ano fértil em livros de contos no Ceará. Francisco Sobreira editou seu segundo volume, A Noite Mágica, e aconteceu a estréia de quatro contistas: Gerardo Mello Mourão, com Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas; Geraldo Markan, com O Mundo Refletido nas Armas Brilhantes do Guerreiro; Airton Monte, com O Grande Pânico; e Paulo Véras, com O Cabeça-de-Cuia.

Alguns contistas surgidos naquele período só viriam a publicar livro de contos muito depois, como é o caso de Carlos Emílio Corrêa Lima, Joyce Cavalcante, Audifax Rios, Batista de Lima, Barros Pinho, Rosemberg Cariry e Marly Vasconcelos. Dois faleceram ainda jovens: Paulo Véras e Yehudi Bezerra. Outros desapareceram do cenário das letras impressas. Poucos se mantiveram ativos no gênero conto.

Os contistas surgidos por volta de 1970 podem ser agrupados em três segmentos: o dos que viviam fora do Ceará, o dos que viviam no Ceará e publicaram seus primeiros livros de histórias curtas a partir de 1970 e o dos que só viriam a editar coleções de narrativas após 1980, embora já as escrevessem e até as publicassem em jornais, revistas e antologias. Do primeiro segmento fazem parte Francisco Sobreira, Cláudio Aguiar, Holdemar Menezes, Mario Pontes, José Hélder de Souza, Gerardo Mello Mourão e Moacir C. Lopes. Integram o segundo grupo Socorro Trindad, Gilmar de Carvalho, Nilto Maciel, Fernanda Teixeira Gurgel do Amaral, Yehudi Bezerra, Glória Martins, Geraldo Markan, Airton Monte e Paulo Véras. O último segmento é composto de Nilze Costa e Silva, Fernando Câncio, Carlos Emílio Corrêa Lima, Rosemberg Cariry, Joyce Cavalcante, Audifax Rios, Barros Pinho e Batista de Lima.

Um dos que se dedicaram quase que exclusivamente à peça ficional curta é Francisco Sobreira. Sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos. Já publicou oito livros de peças curtas. Nas dobras do primeiro volume, Eusélio Oliveira anotou: “Francisco Sobreira consegue dominar com segurança logística o código de intercâmbio vivencial latente em cada constelação ficcional de seus contos”. Ao publicar A Morte Trágica de Alain Delon, Francisco Sobreira não chegou a ultrapassar as limitadas fronteiras da província cearense, permanecendo, por assim dizer, no ineditismo. Seu segundo livro, A Noite Mágica, nada tem de revolucionário, de vanguardista, de inovador. Muito pelo contrário, é tecnicamente conservador, tal como a obra de José Lins do Rego que, por esta mesma razão, adquiriu renome dentro do romance regionalista brasileiro.

Francisco Sobreira não faz nenhuma alquimia de estilo, não cria nenhuma nova linguagem. No entanto, esta aparente acomodação do contista não indica seja ele um simples contador de histórias.

Sendo conservador na forma, o livro de Sobreira segue a trilha da prosa de ficção de pós-1964. Perpassa por quase todos os contos um vento forte de paranóia, caudaloso na literatura urbana brasileira dos últimos anos do século XX. Histórias de medo, terror, alucinação. Medo de ser preso, de perder o emprego, de morrer de fome, medo disso e daquilo. As pessoas se sentem caçadas como bichos, ameaçadas, perseguidas. Os amigos e os parentes são delatores ou espiões a serviço do Poder. A própria sombra de cada ser humano é um dedo-duro em potencial. Esse horror kafkiano é notório em “O Caçado”, “Enquanto o Diabo Esfrega o Olho”, “O Falso Álibi”, “O Caçador de Nostálgicos”, percebido até nos títulos. O narrador, sempre perseguido, sempre paranóico, torna-se perseguidor, delator, comparsa da polícia (representação do direito de perseguir), como em “A Voz do Vizinho”.

O absurdo é, assim, o ingrediente principal da iguaria narrada. Às vezes um absurdo que, de tão cotidiano, perde o sabor de coisa literária. Em “A Lâmina”, por exemplo. Porque ninguém é mais dono de nada. Outras vezes, o absurdo apresenta-se como se o personagem fosse apenas um deficiente mental, incapaz de perceber a vida e a morte ao seu redor, manejado por tentáculos tão torturantes quanto os fantasmas dos pesadelos. A realidade narrada aproxima-se, então, do sonho. Os protagonistas e os espectadores são meros joguetes nas malhas de seres todo-poderosos que inventam a vida ou o fato. Por isto, em alguns contos a presença do elemento onírico é perfeitamente perceptível ou mesmo preponderante. Os atos e as imagens se sucedem de forma incoerente, deixando o personagem simplesmente perplexo, espantado diante da estranha realidade de que tenta desesperadamente fugir. Assim, reduz à condição de ficção, de brincadeira de mau gosto, de encenação, quando muito de logro, a peça que lhe pregam. Não acredita ser possível tão absurda realidade. Por fim se convence e tenta fugir. Porém já é tarde demais. “A Pedra” é belíssima obra e tem dimensão diferente dos demais. No entanto, o mesmo clima de perseguição, de repressão, na pessoa de um pobre sertanejo virado pagador de promessas.

No artigo “Fitas”, estampado no Jornal do Brasil, Antônio M. Nunes se refere ao uso e abuso do “insólito dos acontecimentos para instaurar uma outra realidade que, devido a sua linguagem e estrutura, aproxima-se do thriller cinematográfico”.

Ao comentar Um Dia… Os Mesmos Dias, Jorge de Sá, em “Como Se Fosse Uma Objetiva”, enuncia: “o contista se afasta do “fantástico” e se aproxima de uma realidade própria dos documentários”.

Na apresentação de O Tempo Está Dentro de Nós, Jaime Hipólito Dantas chama a atenção do leitor para a “prosa trabalhada, aqui e ali um pouco dramática, é certo, mas sempre sem qualquer obscuridade ou afetação”.

Wilson Martins se manifestou assim: “Os contos reunidos em Clarita são de qualidade desigual, muitos deles (a começar pelo que dá título ao livro, e é o melhor) tomando a invenção arbitrária, ou seja, inverossímil, por imaginação criadora”.

Em “Sobreira: aderindo à vigorosidade da vida” (Jornal O Norte, João Pessoa, PB, 3/8/97), ao comentar Grandes Amizades, Hildeberto Barbosa Filho observa que os personagens e as situações, “mesmo as mais cotidianas, adquirem certa nuance enigmática que, a seu turno, termina por envolver os seus contos numa atmosfera de suspense e de estranhamento”.

Nas dobras de Crônica do Amor e do Ódio, Nelson Patriota comenta: “Com personagens despojados de grandes projetos existenciais, uma vez que estes aconteceram, e se mostraram falhos, no passado, Sobreira vai construindo uma obra fiel ao seu tempo”.

A obra literária de Cláudio Aguiar está exaustivamente analisada por diversos críticos, brasileiros e estrangeiros, em artigos e ensaios reunidos no livro Viento del Nordeste, com o subtítulo Homenaje Internacional al Escritor Brasileño Cláudio Aguiar, em espanhol, da Universidad Pontificia de Salamanca, 1995. Num dos ensaios, “El Descubrimiento en Caldeirão”, César Real Ramos, Professor de Literatura Espanhola da referida Universidade, faz a gênese do Caldeirão e vê no primeiro livro de histórias curtas de Cláudio os primeiros pingos d’água que iriam gerar o grande rio do romance: “En Exercício, además, a través de continuos cambios de focalizacion y de voz narrativa, poco a poco nos vamos adentrando en el interior de los personajes, en las almas, en las conciencias”.

Holdemar Menezes não deixou vasta obra no gênero conto. No dizer de Assis Brasil, “podemos sentir a mão do ficcionista, numa linguagem forte, contundente, participante, onde já se abrigavam Dalton Trevisan e Rubem Fonseca”. Em “Repressão, Revolta e Engajamento”, capítulo do livro Itinerário do Conto, Hélio Pólvora o filia “à linha ficcional de Albert Camus e pensadores assemelhados”. E sintetiza: “Na ficção brasileira deste último meio século, Holdemar Menezes é o narrador consciente dos pequenos dramas provocados pela tragédia essencial do ser e pela tragédia da repressão político-social que o violenta, emudece e constrange”.

Embora venha escrevendo desde muito antes de 1970, Mario Pontes tem publicado pouco. Em 1999 deu a lume Andante com Morte, composto de quatro histórias longas. Ivo Barroso, nas dobras, relembra o primeiro livro, Milagre na Salina, como “Uma série de narrativas que se interpenetram, que se recosem para formar um painel picasseano de linhas simples e dramáticas, onde não falta igualmente o colorido vivo da ironia e do humor”. Ao se referir ao segundo livro, o chama de reunião de quatro novelas. E sintetiza: “Uma delas, ‘A Morte Infinita’, anteriormente batizada com o mesmo título do livro Andante com Morte, impressionou tanto a Didier Lamaison, o tradutor francês de Carlos Drummond de Andrade, que logo se propôs a transladá-la para sua língua, numa permanente reescrita, com a mesma meticulosidade com que o autor trabalhara seu texto. É uma novela de andamento cinematográfico em que a ação se prolonga num ralenti quase insuportável, longo como a aridez do areal em que ela se desenrola, para, de repente, adquirir uma dinâmica de duelo faroéstico, violentas imagens em zoom e primeiros planos cortantes e minuciosos como o grande close da boca de um revólver no momento do disparo”. De 2003 é Um Homem Chamado Noel, cuja estrutura narrativa é semelhante à de Milagre na Salina (1977). Ambos podem ser lidos como coletâneas de contos ou como novelas.

Outro que vive fora do Ceará há tempos é José Hélder de Souza. Seu primeiro livro, Coisas & Bichos (1977), mereceu estudo de Clovis Sena, na introdução intitulada “Caçadas Humanas & Bala de Prata”, onde argumenta: “Aqui o principal não está propriamente na linguagem elaborada, opção literária bonita, sem ser bem o caso. Neste conjunto de contos de José Hélder a beleza se acha na narrativa mesma”. No terceiro parágrafo, observa Sena: “Com um poder narrativo ora lírico, ora dramático, por vezes humorado, o Autor nos coloca em face da situação da caçada: perseguido-perseguidor”.

Em “Um Contador de Causos” (CI, págs. 26/28), Dimas Macedo destaca “a sua fidelidade à linguagem popular, ao lado do seu estilo e do seu jeito de dizer muito peculiar, porque individualíssima a sua escritura literária. Histórias, enredos bem arquitetados ao gosto do leitor, fala e linguajar matutos que penetram bem fundo o coração, sentando tendas na alma, cravejando punhais de beleza nos olhos, invadindo a imaginação do leitor até a sedução total do espírito”.

No prefácio ao terceiro livro de Hélder, Pequenas Histórias Matutas, observou Dimas Macedo: “Sendo poeta de fino amanho com o convívio das musas, sabe ser também o imenso ficcionista que é: um contista consciente do valor do universo que pretende explorar, que quer denunciar para melhor se fazer compreender, pelo gosto mesmo de esculpir a expressão, a matéria-prima de sua bela escritura artesanal”. Em outro parágrafo anotou: “Sem desmerecimento para nenhum dos seus livros, penso que em Rio dos Ventos (1992) reside o valimento maior da sua trajetória de escritor, especialmente a sua trajetória de contista” (…).

Embora nascido em 1917 (Moreira Campos é de 1914), Gerardo Mello Mourão se inclui neste capítulo em razão do ano da publicação de seu primeiro livro de contos, 1979. É tido como um dos nomes fundamentais da poesia brasileira e reside há vários anos no Rio de Janeiro. Nas orelhas de Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas o editor escreveu: “O autor nos deixa aqui, às vezes, diante da parábola pura, diante do conto, a história inventada e contada, em que as coisas, as pessoas e os lugares saltam vivos da inventada fantasia. Nesses contos, de resto, escritos quase todos em dias de exílio ou de peregrinação por outros países da América, há muitos nomes de pessoas reais. Talvez os fatos em que elas se envolvem nem sempre sejam mera coincidência. O próprio autor, porém, faz questão de deixar claro que ele mesmo não sabe se Abigail Gonçalves se suicidou ou se Miguel Eyquem continua a carregar Helena Vial na garupa de sua motocicleta. Mas tanto no relato épico do Coronel paraguaio, como na aventura lawrenciana de Rosa Maria Bandera, é difícil distinguir entre a fantasia e a realidade, até porque a fantasia e a realidade são uma única e mesma coisa”.

Moacir C. Lopes não costuma ser mencionado em livros de história e crítica literária cearenses. Também de geração muito anterior à daqueles que estrearam nos anos 1970, organizou e editou a Antologia de Contistas Novos em 1971. Apesar disso, seu primeiro livro é O Navio Morto e Outras Tentações do Mar, de 1995. As nove composições reunidas no volume se centram em temas do mar. Nas abas do volume anotou o editor: “Histórias em que, além de jogos de estilo originais, o autor exercita um animismo muito particular – erotizado – da natureza, que se torna algo maligno, cruel, obsceno, em “Do Corpo de Marisa Brotarão Orquídeas”, ou selvagem e exótico, poético e surpreendente em “O Mar Devolverá o Corpo de Clarissa”, principalmente quando os humanos são tomados pelos espíritos marinhos”.
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Estrearam com livro de contos nos anos 1970 Socorro Trindad, Gilmar de Carvalho, Nilto Maciel, Fernanda Teixeira Gurgel do Amaral, Yehudi Bezerra, Glória Martins, Geraldo Markan, Airton Monte e Paulo Véras.

Salvo engano, Socorro Trindad publicou somente duas coleções. Após o livro de estréia, editou Cada Cabeça uma Sentença, em 1978, com prefácio de Aguinaldo Silva, intitulado “A Árdua Batalha Contra os Papangoos”. São dele estas palavras: “Enquanto invenção, este livro, a nosso ver, situa-se solitariamente dentro do que se convencionou chamar de “o novo conto brasileiro”. Esta solidão é pelo fato de que a autora não se prende à linha que começa com Dalton Trevisan e que vai até a assimilação da influência dos modernos latino-americanos”.

“O Massacre no Mangue” é uma crônica atualíssima de sabor página policial, até mesmo estilisticamente, e também à maneira do romance gótico. Socorro Trindad tem duas virtudes essenciais: o poder de misturar o joio e o trigo e uma esplêndida cultura literária. Leia-se “Bodas de Ouro”, história de trancoso tão extraordinária como as do arco-da-velha.

Entre os que acreditaram ter concluído sua obra de contista está Gilmar de Carvalho. No entanto, pela singularidade de suas narrativas, não pode ser comparado a nenhum prosador de ficção do Ceará. Não somente porque seus contos são fundados na erudição, seja no latim, no inglês, na História, na Filosofia, na mitologia, na Bíblia etc. Também porque ora escreve como poeta, ora como salmista, ora como ninguém. Juarez Barroso, nas dobras de Pluralia Tantum, diz que a literatura de Gilmar é “uma afirmação de liberdade. Mas ele não fica junto à turma do sereno, ao bloco da contracultura. Formalmente, rejeita o marginalismo artístico, os vanguardismos escandalizantes. Seu estilo é clássico, sua narração, fabular, levemente borgiana. A partir daí ele constrói, ou destrói, ri dos deuses, mais perto de Lúcifer que do Arcanjo São Miguel (afinal de contas, uma figura do establishment), simpatizante dos exus, louvador da pomba-gira, Vênus mestiça e mais sensual, naturalmente”. A seguir se nega chamar de contos os textos de Gilmar. Na verdade, não são contos tradicionais. Em comum com estes apenas o terem títulos, alguns personagens, alguma narração. O resto é bem diferente. Afirma Juarez: “Gilmar não escreve contos. O conto, por mais de vanguarda que seja, tem a sua disciplina, sua forma de discurso. Gilmar é um compositor de cantos em prosa, discípulo remoto do Rei Salomão, que tanto trabalho deu ao Senhor com sua rebeldia e sua mania de amor. Amante da vestal romana, consagrada em virgindade ao deus maior, Gilmar, libertário e libertador sofre agora o mesmo castigo de Prometeu. Zeus acorrentou-o ao relógio da Praça do Ferreira, à Coluna da Hora. Que, aliás, não existe mais”.

Na apresentação do citado livro, em forma de carta, Mario Pontes confessa: “Na minha humilde fantasia, seu texto me dá a impressão de ter sido escrito por uma criatura semelhante àquela divindade indiana de muitas mãos. Como cada mão escreve algo diferente da outra, o meu comodismo quer me obrigar a ver no produto final apenas uma colagem arbitrária, um trabalho habilidoso de justaposições meramente formais. Mas mesmo um preguiçoso como eu acabo por suspeitar que, de fato, a “simples” colagem mascara um sem número de relações particulares e ricas. E entregando-me à suspeita, chego até ao espanto diante dessa prodigalidade de teses e antíteses, desse jogo calidoscópico de coincidências e contrastes, dessa facilidade de supressão de distâncias que me arrastam ao centro de um redemoinho de significados inacessíveis à minha miopia crítica”.

Ensina Dimas Macedo, em “A Ficção de Gilmar de Carvalho” (Leitura e Conjuntura, págs. 54/56): “sua concepção borgeana e, portanto, inusitada do apreender a concretude do universo ficcional, aliada a uma refinada capacidade de resgatar o insólito através de recursos estilísticos alegorizantes, tudo isso tem concorrido para emprestar à produção literária de Gilmar de Carvalho uma situação privilegiada entre o inventário dos seus contemporâneos de geração”.

Outro que, como Francisco Sobreira, tem se dedicado à elaboração de histórias curtas é Nilto Maciel, com sete volumes editados. Em “Os Contos de Nilto Maciel” (Novos Ensaios, págs. 106/110), Sânzio de Azevedo observou: (…) “de nada adiantaria ao escritor engendrar estórias bem urdidas, fundamentá-las com os alicerces dos mitos, se não pudesse dispor de um instrumento lingüístico adequado”.

F. S. Nascimento reuniu num só estudo, “A Ficção de Nilto Maciel”, (AAA, págs. 177/186), três ensaios estampados em jornais. Constata: “O avanço do contista ficou bem evidenciado, tanto na manipulação da linguagem, como no tratamento ficcional dado aos episódios reproduzidos”. José Alcides Pinto (PA-II, págs. 76/78) considera Tempos de Mula Preta “um dos livros de conto mais ousados que foram editados nesses últimos dez anos, não só em termos do Ceará, mas em todo o País, ao lado de outro grande livro, este de autor consagrado pela crítica e de nome firme na literatura — Os Doze Parafusos, do mestre Moreira Campos”.

Em “A Nova Ficção Cearense”, Adriano Spínola escreveu: “Inscreve-se ele no que de melhor temos no momento em matéria de contos no Brasil. Percebe-se no autor um tal domínio do ficcional, uma capacidade inventiva e transfigurante da linguagem, aliada a uma não menos capacidade de alteridade, versátil e verossímil, com relação aos personagens, que o colocam entre os mais avançados e promissores contistas da atualidade”.

No prefácio de Punhalzinho Cravado de Ódio, Dimas Macedo viu no contista um “mestre na arte de contar estórias inesperadamente fabulosas”. Tanussi Cardoso, em “A Impressão da Realidade em As Insolentes Patas do Cão, de Nilto Maciel”, observou: o contista “lima as gorduras do texto e, vigorosamente, trabalha com a palavra certa, no lugar certo e na hora certa”. E o inclui no “rol dos grandes escritores deste país”.

Em “As Insolentes Patas do Cão” (TC, págs. 21/24), Francisco Carvalho escreveu: “Nilto Maciel é atualmente, sem nenhum favor, um dos nomes mais representativos da moderna literatura brasileira”. E mais: “O leitor razoavelmente familiarizado com a disciplina literária não terá dificuldade em concluir que entre essas narrativas, todas elas de excelente extração, existem algumas obras-primas da moderna ficção brasileira”. Para ele, o contista “é um narrador admirável. Possui todas aquelas virtudes (talento, imaginação, invenção, técnica de narrar e de expor) que de modo algum podem faltar a um bom contador de histórias”.

Diz Carlos Augusto Viana, em “Nilto Maciel Reconstrói o Mundo a Partir da Linguagem” (DN, 1/3/1995): “Lançando o seu olhar agudo sobre o cotidiano, filtrando as ações humanas a partir do humor e da ironia, flagra o insólito, o inesperado, os momentos abissais da condição humana”.

Anotou Caio Porfírio Carneiro, em “A Unidade de Babel”: “Senhor de todos os segredos da arte de contar, caminhando, com segurança, pelo regional, o fantástico, o alegórico, o mágico, indo do fotográfico ao sombrio” (…). Astrid Cabral, em “Babel Contemporânea” (Literatura n.º 14), escreveu: “Aberto a múltiplas tendências, NM ora reverencia a tradição literária consagrada, ora se lança na experimentação lingüística e estrutural”.

Yehudi Bezerra não teve tempo de escrever mais. Deixou publicado apenas o livro Tocaia. Em carta-prefácio, Airton Monte escreveu: “Você, seu judeu safado, de rosto cheio de esquinas de ângulos, possui a rebeldia dos que viveram o que escrevem, não a piedade inútil, humilhante dos que sabem por ouvir dizer, dos que chegam no sertão e ficam olhando tudo, como se fosse tudo uma pintura imóvel no tempo e no espaço, com o olhar mais bobo que o de quem está num jardim zoológico espiando a bicharada fazer o que eles gostam de ver, não o que na verdade é”. E depois: “Tocaia surge de repente no universo das letras cearenses como um pé-de-vento, para arrebentar o mofo de uma literatura mumificada, quebradiça e facilmente digestiva. No seu livro as coisas são ditas com seus verdadeiros nomes, há a despreocupação das sofisticações temáticas, das frescuras estéticas que tanto deliciam o senso estético duvidoso das patotas divinas”.

Na categoria dos que escreveram ou publicaram pouco está Glória Martins. Teve o livro Reencontro prefaciado por Pedro Paulo Montenegro, para quem “a nota dominante (no livro) é a espontaneidade, espontaneidade tão grande que pode mesmo a alguns parecer, em determinados momentos, descuidos formais.” E conclui: “Duas grandes notas podemos detectar numa leitura de Reencontro: imaginação e capacidade de observação da parte da autora e, como mensagem mais profunda, aquela ânsia de libertação”. Composto de nove narrativas, o livro apresenta narração linear, ora na primeira, ora na terceira pessoa. A contista pouco se vale do diálogo, mais presente em “Se Eu Passo no Botequim Eu Fico”. Um ou outro monólogo interior, como em “Sim, Doutor”, história urbana, como a maioria, com uma pitada de humor. “Tia Bela” oscila entre o romantismo e o realismo, em ambiente de fazenda.

Embora Geraldo Markan tenha nascido em 1929, estreou no gênero conto somente em 1979, com O Mundo Refletido nas Armas Brilhantes do Guerreiro. Dias da Silva, no artigo de título igual ao do livro, integrante do volume III do livro Da Pena ao Vento (2001), enuncia: “De começo, devo dizer que não é tão simples determinar-se o gênero da obra. Livro de contos? Livro de crônicas? Momentos de puros devaneios da imaginação sensível? Textos fantásticos? De gênero maravilhoso? De gênero estranho?

Raras vezes, um diálogo menos artificial ou uma narração de fatos. Até porque o outro está sempre indo embora, fugindo, escorregadio ou inacessível. E o narrador termina só, ruminando seu desespero. Isso se reflete no próprio corpo das narrativas. No final, Geraldo Markan faz poesia ou crônica leve, apesar de se dizer o nunca-poeta. Termina fazendo markanices, ele também personagem.

O Mundo Refletido nas Armas Brilhantes do Guerreiro é título poético e metafórico, porque, na verdade, o mundo refletido naquilo que simboliza o poder: à época de Alexandre e companhia, as armas brilhantes do guerreiro; hoje, o ouro, a moeda, o carro, a piscina – adereços e o próprio ser, a um só tempo. O mundo refletido no ouro do burguês.

Passeiam, pelas páginas quase sempre de uma delicadeza e uma pureza clássicas, personagens de voz amena, alguns falando inglês ou citando Baudelaire, Fernando Pessoa e o lírico Camões. Remoendo seus vazios, tateando os muros escuros de seus labirintos pegajosos. Vez por outra, um deslize imperdoável ante a poesia a minar de cada palavra. E surge quase uma historinha de fotonovela: “Ecidujerp, ou seja, Otiecnocerp”. Apesar disso, um ranço bom de naturalismo ainda inexplorado – a nostalgia do domínio holandês no Nordeste.

Embora a crítica esperasse uma avalanche de livros de Airton Monte, tal não se deu. No entanto, poderá ter as gavetas empanturradas de contos. Seja como for, é ele um dos mais importantes contistas cearenses surgidos depois de 1970. Os críticos lhe concederam os melhores louvores. Em “O Grande Pânico, de Airton Monte” (FM, págs. 197/200), Batista de Lima assim resume seu livro inaugural: “São 102 páginas contendo 15 histórias breves, densas e crispadas, retiradas dos pontos mais sombrios e marginais da sociedade. Transcrição de um mundo transeunte de suas retinas de vampiro da quase grande noturna Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, do Farol do Mucuripe, dos hospícios e dos campos de futebol. A marginalização. A tragédia de uma sociedade obcecada pela vontade de viver. O medo, a loucura e a fome. Reinvenção dos mitos que essa gente cultiva”.

Seus personagens são seres humanos desesperados no amor impossível. Farrapos humanos que teimam em viver ou perdem toda e qualquer esperança. Cegos, mendigos, prostitutas decaídas, cornos, devoradores de moscas, tarados, velhos, solitários, assassinos arrependidos e idiotizados, loucos, todos loucos, pois a loucura não é senão sentir-se sem rumo, sem esperança, sem saída.

A linguagem de Homem Não Chora é poética, ritmada, ondulante, viva, apaixonada. Como em “Velho ao Telescópio”, talvez um dos mais poéticos e inventivos contos da literatura brasileira.

Incrédulo diante do homem, o contista vasculha as vísceras de uma sociedade embrutecida e revela criaturas que os mais crédulos pensavam existirem apenas no reino da fantasia.

As peças ficcionais de Airton Monte são voltadas para o drama do homem suburbano, do marginal, da “gente chinfrim, ralé miúda”. Na mesma categoria estão os loucos, os alcoólatras, as prostitutas pobres, os pivetes, os fracassados de todo o gênero.

Para Dimas Macedo, em “Os Contos de Airton Monte” (LC, págs. 79/81), “seus contos revelam um engajamento humano quase que sem precedentes na nova safra de contistas seus contemporâneos, são textos graves que dissecam o cotidiano de marginalidade e penetram nos recônditos do desespero e da tragédia dos perseguidos pelos fantasmas de uma sociedade opressora. Relatos pungentes da odisséia dos drogados da vida, dos enlouquecidos e abandonados, dos embriagados pelo absurdo existencial, os seus contos refletem igualmente, por assim dizer, o sórdido e o patético do estrangulado universo social que paulatinamente nos vem resgatando”.

Em “Homem Não Chora (Mas… Ama)” (PA-II, págs. 71/72), José Alcides Pinto comenta: “A plasticidade da linguagem, a comovente reação dos personagens (ele trabalha com poucos), os recursos criativos, a consciência de um mundo caótico, conflitante, o desamor, tudo isso vem juntar-se à denúncia social, ao grito e à dor humana para completar o painel de agonia e sofrimento em que se esbate a humanidade de hoje.”

Como Yehudi Bezerra, falecido precocemente, Paulo Véras deixou poucos contos, reunidos em O Cabeça-de-Cuia (Editora Moderna, São Paulo, 1979). Lígia Morrone Averbuck, na contracapa do livro, anotou: “O que mais impressiona no ficcionista Paulo Véras é a sua prodigiosa inventividade, a riqueza de sua criação de personagens, plenas de força e atuantes numa ampla gama de situações. Movendo-se num universo de fantasia e realidade, essas personagens pertencem a um tempo mítico, são recuperadas do passado pela memória, projetando-se num clima difuso e indefinido, sem perderem sua força de verdade”.

Paulo Véras enveredou também pela análise psicológica das personagens. Suas obras são quase todas tecidas a partir do fio da memória, razão por que os personagens situam-se entre a infância e a adolescência.

As composições de O Cabeça-de-Cuia são todas curtas, quase sintéticas, quase à maneira de Dalton Trevisan. Períodos incisivos, sem rodeios, sem malabarismos de linguagem. Espécie de roteiro para elaboração de narrativas mais extensas.

Os vinte e seis contos de O Cabeça-de-Cuia carregam esta mesma maneira de escrever, porém não há homogeneidade temática. Uns são mais voltados para o interior das personagens, outros para o binômio homem-ambiente. E são estes últimos, quase todos circunscritos ao espaço rural, os que apresentam melhor feição. Gravitam em torno de personagens situados entre a infância e a adolescência. Neles o contista melhor se revela.

Em “Os Contos de Paulo Véras” (FM, págs. 224/225), Batista de Lima afirma: “Usando de uma linguagem que muito bem se casa com o clima da trama. Usando de um estilo flexível. Às vezes períodos curtíssimos, às vezes longos e em uma oportunidade, “O Cochicho dos Cavalos” (história de um suicida), todo um conto sem um ponto sequer”.

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continua…
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Nilto Maciel (Panorama do Conto Cearense – Parte V)

Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.

Sua obra está estudada em importantes livros, como o de José Lemos Monteiro, intitulado O Discurso Literário de Moreira Campos, o de Batista de Lima, Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e outros mais abrangentes, como Situações da Ficção Brasileira, de Fausto Cunha; 22 Diálogos Sobre o Conto Brasileiro Atual, de Temístocles Linhares; e A Força da Ficção, de Hélio Pólvora. Em jornais e revistas se estamparam quase uma centena de artigos e ensaios sobre os seus livros.

Temístocles Linhares classifica o contista de Portas Fechadas de “um de nossos maiores contistas atuais”. E comenta: “Lê-lo, para mim, é reviver, em certos aspectos, transpostos para o ambiente de seu Ceará, os velhos mestres do naturalismo. Como eles, o autor também desconfia das grandes palavras e dos grandes gestos, preferindo tentar substituir os julgamentos de valor pelos julgamentos de existência”.

Assis Brasil escreveu: “Moreira Campos faz, no Ceará, a ligação entre o conto de história, ainda vigente nos primeiros anos do Modernismo, e o conto de flagrante, sugestivo, que as novas gerações, a partir de 1956, desenvolveriam em muitos aspectos criativos”.

Hélio Pólvora opina: Moreira Campos, “embora não sendo um tchekhoviano perfeito, dele (Tchekhov) se aproxima quando livra o conto de uma sobrecarga excessiva e procura atingir logo o alvo, localizar logo o nervo exposto”. E acrescenta: “Moreira Campos seleciona e filtra fatos que às vezes se resumem a instantes, e nesse processo informa ou sugere o conflito vivido pela personagem, mostrando, afinal, o que ela faz para resolver o conflito ou sucumbir”.

Segundo Herman Lima, no ensaio citado na primeira parte, Moreira Campos: (…) “é um mestre do conto moderno, desde o aparecimento do seu primeiro livro, Vidas Marginais (1949), no qual há pelo menos uma obra-prima do conto universal desta hora, “Lama e Folhas”. Diz mais: “As pequenas ou grandes tragédias, as comédias ocultas do cotidiano burguês, fixadas por ele, ganham, em sua mão experiente, uma especificidade que o aproxima dos maiores nomes do conto psicológico de todos os tempos, de Machado de Assis para cá, inclusive e principalmente Tchecov, de sua íntima e fiel convivência, ou, mais perto de nós, de um Joyce dos Dubliners ou um Sherwood Anderson, de Winesburg Ohio”.

Montenegro argumenta: “Moreira Campos será talvez não apenas o contista de maior projeção nas letras cearenses contemporâneas, porém, ainda, juntamente com Osman Lins, Dalton Trevisan e poucos outros, terá ele realizado o que de mais significativo existe no conto moderno brasileiro”.

Sânzio de Azevedo, principalmente no ensaio “Moreira Campos e a Arte do Conto” (Novos Ensaios de Literatura Cearense) faz algumas observações: “Na linhagem de Machado de Assis e, por conseguinte, na de Tchecov é que se entronca a obra ficcional de Moreira Campos” (…). Segunda: “apesar de haver optado pela narrativa sintética, extremamente despojada, com que tem enriquecido a nossa literatura através de não poucas obras-primas, não renegou os longos contos de seu primeiro livro” (…). Terceira observação: “Em Moreira Campos o que mais importa são os dramas da alma humana, e não a presença da terra, ostensivamente retratada nas páginas de Afonso Arinos e Gustavo Barroso”.

Batista de Lima, no ensaio mencionado linhas atrás, fala da corrosão física dos personagens, dos agentes dessa corrosão, dos defeitos congênitos, da decrepitude, da doença e da morte. A seguir analisa o oposto disso, ou seja, a ordem: “A nova ordem começa a ser instaurada no momento em que o narrador doma a morte, colocando-a no convívio familiar dos personagens.” E, passando da ordem narrada para a ordem vocabular, constata a constante evolução da arte do contista.

Em “As Características da Escritura de Moreira Campos” (O Fio e a Meada: Ensaios de Literatura Cearense, págs. 155/158), Batista é de opinião que o contista “transita com mestria entre momentos impressionistas, neo-realistas e neonaturalistas, sempre conservando uma estrutura linear para suas narrativas, com princípio, meio e fim bem delineados.” Especifica: “As principais características da narrativa de Moreira Campos são: uma tendência para o uso de elementos descritivos em paralelo aos narrativos; os vazios deixados para serem preenchidos pelo leitor; a eliminação de comentários e interpretações paralelas; a quase ausência de diálogos; a atuação do tempo como elemento corrosivo sobre os personagens; o uso das repetições como forma de superação das dificuldades de relacionamento entre as diferentes classes de pessoas; a ironia; a luta pela concisão”.

José Alcides Pinto, em “Um Mundo de Coisas Miúdas” (Política da Arte–II, págs. 51/52), observa: “Moreira Campos, obstinado em sua procura do novo, do mundo brilhante das coisas obscuras, melhor direi de “vidas marginais”, reapanha, com O Puxador de Terço, o início de sua carreira literária, que ele torna cíclica num processo, quase mágico de depuração estilística”. Em “Moreira Campos e a Nova Ficção Brasileira” (PA-I), ao comentar Os Doze Parafusos, afirma: (…) “abrem um novo caminho na ficção de Moreira Campos, já esboçada sob o ponto de vista erótico em outras obras, mas sem a liberdade de como os assuntos são agora tratados, vistos de frente, com um realismo mágico e epidérmico, que se inscreve, com muita propriedade, no fescenino, num clima de autonomia individual e sem o prejuízo de uma linguagem estética – função inequívoca a toda obra de arte”.

Francisco Carvalho, em “A Transparência Formal na Ficção de Moreira Campos” (EL, págs. 124/127), vê nas peças ficcionais de A Grande Mosca no Copo de Leite que “em todas elas a excelência do artesanato literário destaca-se por uma rigorosa economia de palavras e por uma extraordinária transparência formal”. E mais adiante: “A prosa enxuta, a frase carregada de sentido, a noção de ritmo e de musicalidade, o poder de síntese, o rigor no emprego da palavra, a densidade psicológica e a expressividade – são esses alguns dos aspectos que se articulam no contexto ficcional do novo livro de Moreira Campos”. Em “Contos Escolhidos” (Textos e Contextos), analisa a evolução do contista: “Os contos da primeira fase, elaborados sem qualquer preocupação de fidelidade aos paradigmas da chamada “história curta”, já se apresentam numa evidente perspectiva de modernidade”. E mais adiante: “Já nos contos da segunda fase, Moreira Campos persegue obstinadamente os horizontes da síntese, da pura essencialidade”.

***
Além dos quatro grandes nomes do conto cearense surgidos com o Grupo Clã, outros escritores se destacaram no cultivo da narrativa curta após 1960. Os mais importantes são Caio Porfírio Carneiro, talvez o escritor mais vocacionado para a composição ficcional curta no Ceará, depois de Moreira Campos; José Alcides Pinto, embora mais dedicado ao romance e ao poema; e Juarez Barroso, falecido muito cedo, mas que deixou dois volumes de contos e um romance.

Caio Porfírio (de Castro) Carneiro é natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem cultivado a prosa de ficção curta com regularidade. Sua estréia no gênero se deu em 1961, com o elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva – Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) e Maiores e Menores (2003). Seus romances são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A Oportunidade, estas em 1988. É autor também de ensaios, como Do Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: esperança, Quando o Sertão Virou Mar…, Da Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de Bar, Perfis de Memoráveis). Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1975.

Chuva (Os Dez Cavaleiros) é quase um romance, se é possível isto. A chave para esta observação se encontra na última narrativa, quando o décimo cavaleiro, dirigindo-se ao seu interlocutor, fala: “Olhe aqui, homem: de toda a multidão que conheci, correndo a planície, a serra do Catolé e todos os lugares que cercam a Lagoa Grande, nove ficaram na minha cabeça. Nove. Todos cavaleiros como eu”. Como se dissesse ter conhecido as outras nove histórias do livro. Nas dez peças há sempre um cavaleiro vestido de capote e coberto de chapéu, e outra personagem, ambos sem nome. A paisagem é composta de chuva, um ambiente de campo, com um casebre ou choupana, com chão de barro batido, às vezes uma vila, com uma pracinha, uma igreja abandonada e gente desvalida, sofrida, com medo. De comum também o espaço apenas referido da serra do Catolé e da Lagoa Grande, sempre muito distantes. Quase uma miragem. Para completar a narrativa, um drama e um desenlace enigmático, de parábola. Os desfechos muitas vezes estão nos títulos das histórias. O fantástico se desenha em quase todas as obras, quer no desenrolar da trama, quer no epílogo. Seria, porém, um fantástico mais próximo da parábola, do simbólico, do enigmático. Outras vezes é apenas uma sugestão. Em todos os contos a narração se dá na terceira pessoa, mais para observador do que para narrador onisciente. Talvez apenas em um trecho de uma das histórias o narrador se faz onisciente. A narração é quebrada, aqui e ali, por breves e ásperos diálogos, em linguagem culta ou literária. Caio manipula a linguagem com sabedoria, valendo-se de muita imaginação e do conhecimento das melhores ferramentas da arte de narrar.

No comentário ao mesmo livro, o escritor Marcos Rey assim se expressou: “Com os mesmos instrumentos de trabalho, a simplicidade aludida, o trato quase bíblico dos personagens, ação e diálogos, a natureza como presença obrigatória, Caio Porfírio Carneiro excede à realidade cotidiana, realizando uma obra de síntese literária envolta em poesia, sobriedade e enigmas”.

Em Os Dedos e os Dados, o contista parte por caminhos menos espinhosos, lamacentos, embora retrate também graves conflitos humanos. E se serve de formas variadas para compor as histórias. “A Promessa” é quase todo um só diálogo, de frases curtas. “A Confissão”, como o título sugere, é um diálogo. Em “A Missão” não ocorre uma só fala e a narração é composta de um longo parágrafo e uma frase curta: “A outro qualquer caberia terminar a tarefa”. É a busca da crucificação, novo Cristo sem algozes. Alguns contos tratam do relacionamento amoroso e podem ser tidos como eróticos.

Caio é um especialista da história curta, breve. No entanto, é capaz de se alongar, como em “Um Segundo”. E aí mora o mistério. Em um segundo ele consegue ser mais expansivo do que em histórias que duram horas.

F. S. Nascimento inicia assim o ensaio “Caio Porfírio Carneiro: O Novo Degrau da Ficção” (AAA, págs. 187/189): “Ao firmar posição entre os melhores contistas brasileiros deste último mear de século, Caio Porfírio Carneiro não se rendeu ao empolgamento dessa conquista, intensificando as suas experiências formais e sutilizando os processos de reconstituição de momentos culminantes ou memoráveis da existência. Essa fase de metafiguração laboratorial se inaugurava com o lançamento de O Casarão (1975), estendendo-se ascencionalmente a Os Dedos e os Dados (SP, Pontes Editores, 1989)”. Em outro parágrafo, o crítico esclarece esse argumento: “O jogo sutil dos enunciados implícitos, que Braga Montenegro admitia como refinamento do estilo na prosa de ficção, é o recurso de que mais se utiliza Caio Porfírio Carneiro para gerar o imponderável em cada fração de vida flagrada pela sua ultra-sensível máquina processadora de imagens e emoções”. Ao se voltar para o modo como o contista apresenta os diálogos, o crítico assinala: “Sucintíssimo no diálogo ou na exteriorização solitária, num ou noutro caso as unidades de sentido assim construídas se reduzem a fragmentos de mínima duração acústica, tornando mais prolongado o silêncio das personagens enquadradas pela objetiva do narrador”.

A Partida e a Chegada é outro livro de construção inusitada, a lembrar uma casa composta de fachada rococó, paredes barrocas, colunatas romanas. Como Chuva, deve ser lido como um todo, conto a conto. Leiam-se os diálogos de abertura do volume, como se fosse um prólogo ou, em termos de arquitetura, o átrio de uma casa romana ou o alpendre de antigas casas sertanejas. Duas personagens, sem nome, conversam, como se resumissem os contos que virão a seguir. A descrição do ambiente é mínima: a lua, as nuvens, as estrelas, o céu. São como cenário singelo de um palco pequeno, onde dois personagens encenassem cinco brevíssimas peças. Tudo muito contido.

Ao contrário de Chuva, todo ambientado no campo, as narrativas deste são, na maioria, de inspiração urbana. No primeiro, “A Carícia”, é narrado assalto a um banco. O contista utiliza alguns procedimentos formais mais ousados, embora não mais de vanguarda (hoje), como o cruzamento de narrações na terceira e na primeira pessoa, além do diálogo indireto e da linguagem oral. “Saparanga” e “Zecapinto” ocorrem num lapso de tempo bem mais longo do que na maioria das histórias de Caio. A contrastar com a tensão da primeira, nestas perpassa um humor circense. Os protagonistas são um tanto picarescos. Há, no entanto, uma variedade de enfoques no livro. Assim, “O Crime” é quase a reconstituição de um fato histórico, em Caucaia, Ceará.

***
José Alcides Pinto, nascido em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú (1923), tem sido muito mais poeta e romancista do que contista. Apesar disso, é também nome fundamental do conto cearense. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”. Seus poemas estão nos livros Noções de poesia & arte (1952), Pequeno caderno de palavras (1953), Cantos de Lúcifer (1954), As pontes (1955), Concreto: estrutura-visual-gráfica (1956), Ilha dos patrupachas (1960), Ciclo único (1964), Os catadores de siri (1966), As águas novas (1975), Os amantes (1979), O Acaraú – biografia do rio (1979), Ordem e desordem (1982), 20 sonetos do amor romântico e outros poemas (1982), Relicário pornô (1982), Guerreiros da fome (1984), Fúria (1986), Águas premonitórias (1986), Nascimento de Brasília – a saga do planalto (1987), O sol nasce no Acre (Chico Mendes) (1992), Poeta fui (Ora direis) (1993), Os cantos tristes da morte (1994), Silêncio branco (1998) e As tágides (2001). Tem dez romances, uma novela, uma peça teatral e três livros de artigos e ensaios.

A obra literária de Alcides Pinto está estudada em dois importantes livros: O Universo Mí(s)tico de José Alcides Pinto, de José Lemos Monteiro, e O Espaço Alucinante de José Alcides Pinto, de Paulo de Tarso (Pardal).

Editor de Insônia é dividido em “livro primeiro” e “livro segundo”. A presença de Edgar Allan Poe é visível em alguns contos: a maldade, a obsessão pelo mau, a impiedade de algumas personagens. E também o mistério, o terror. O “livro segundo” é constituído de contos e peças literárias de gêneros variados ou indefinidos. Daí a impropriedade do título geral do livro, assim como do próprio “livro segundo”.

No geral, as histórias curtas de José Alcides Pinto se afastam das principais características do conto tradicional ou clássico. Assim, ao lado de peças sem nenhum diálogo, apresenta até dois contos em forma de teatro – “Caducos” e “Granjeiros”. Em “Domingão” há apenas dois diálogos. Porém não se libertou das formas tradicionais nos diálogos: “disse”, “exclamou”, “comentou”, “gritou” etc.

José Alcides Pinto é um escritor singular na Literatura Brasileira. Não pode ser visto como um adepto do realismo fantástico ou posto ao lado de contistas como Murilo Rubião e José J. Veiga. Seus contos também não são regionalistas, assim como não o são os de Moreira Campos. Há mistérios nos contos de ambos, embora entre eles não se possa vislumbrar nenhuma semelhança. Mesmo quando os conflitos são do tipo policial, como em “O Fogo das Paixões”, não se trata de conto policial ou realista, como os de Rubem Fonseca.

Como escreveu Francisco Carvalho, na ficção de José Alcides Pinto “não há lugar para os devaneios da retórica nem para as quimeras do lirismo cordial.”

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Juarez (Távora) Barroso (de Albuquerque Ferreira) nasceu em Pernambuquinho, Serra de Baturité, no dia 19 de outubro de 1934. Filho de José Carlos Ferreira e Clélia Albuquerque Ferreira. Apesar de se ter formado em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou no radialismo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou jornalismo e publicidade. Por diversas vezes voltou a residir em Fortaleza, porém em 1966 se radicou na velha capital da República, onde faleceu em agosto de 1976. Premiado num concurso permanente do antigo Boletim Bibliográfico Brasileiro, em 1958, foi incluído no Panorama do Novo Conto Brasileiro (Editora Júpiter, 1964), organizado por Esdras do Nascimento, e em Uma Antologia do Conto Cearense (Imprensa Universitária do Ceará, 1965). Anunciou um estudo intitulado Estácio – Os Professores do Samba, “pretensiosa pesquisa músico-sociológica sobre o samba nos anos de 20”, segundo o próprio Juarez.

Deixou as narrativas de Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal (1969), ganhador do Prêmio José Lins do Rêgo, do ano anterior, e Joaquinho Gato (1976). Tem também um romance, Doutora Isa (Editora Civilização Brasileira, 1978), publicação póstuma. Na “Nota Prévia” do livro, Mario Pontes esclareceu: “Na véspera de viajar, em minha companhia, à capital paulista para lá autografar seu livro (Joaquinho Gato), Juarez adoeceu e foi hospitalizado. Uma semana depois estava morto. Recebi, então, das pessoas mais íntimas do escritor, a incumbência de pôr em ordem os seus papéis. Com algumas interrupções, ocupei-me deles de setembro de 1976 até agora. A história de Margô, felizmente, pôde ser reconstituída”. A Nota é de 5 de fevereiro de 1977.

Uma das primeiras críticas à ainda principiante obra de Juarez é de Braga Montenegro, no estudo diversas vezes aqui mencionado. Comparando-o a José Maia, escreveu o crítico: “é mais espontâneo, telúrico, dono de um estilo original, mas nem sempre correto de forma. Suas estórias, engendradas à maneira tradicional de narração, expressam, entretanto, uma dimensão nova, que as isenta à contingência da realidade elementar e as transfigura em arte. É ele, antes de tudo, um impressionista poderoso, mas com um jeito todo próprio de comunicar suas impressões. Ou, antes: seu impressionismo, por assim dizer, nada tem de visual, e se define em motivos quando não imaginados pelo menos recolhidos de uma realidade subjacente que sugere símbolo”.

Com Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal, Juarez Barroso ganhou o Prêmio José Lins do Rego, em 1968. A primeira edição deste livro traz nas dobras da capa um texto de avaliação, sem assinatura. Na primeira parte, intitulada “Sagrada Família”, os contos são ambientados na Serra de Baturité e estão voltados para o “erotismo patriarcal”, “o orgulho idem” e “o culto à macheza”. Na segunda, intitulada “Os Hereges”, os personagens são os descendentes dos primeiros e o ambiente é Fortaleza.

João Antônio, em “A Geografia do Homem”, estampado nas dobras do segundo livro, faz o seguinte comentário: “Joaquinho Gato, cujos contos situam-se geograficamente numa área específica do Ceará, sem o clima trágico do Sul do Estado, é um livro marcado pela violência, reflete um estado de humor pesado, carregado de tensões, vida, angústia de um povo vivendo entre a repressão, a rudeza e as necessidades primárias”. Acrescenta: “Dificilmente se poderá destacar, neste seu novo livro, um conto como ponto mais alto. Todos os trabalhos têm força e garra dignos de representar o flagrante de um momento de previsões negras dentro de nossas realidades. Cururu, para dar um exemplo, é página inesquecível, de fôlego e pulso, só encontrável na grande literatura de Graciliano Ramos”.

continua…

Fonte:
http://www.cronopios.com.br/

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Coelho Neto (1864 – 1934)

Henrique Maximiano Coelho Neto, professor, político, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934. É o fundador da Cadeira n. 2 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Álvares de Azevedo.

Foram seus pais Antônio da Fonseca Coelho, português, e Ana Silvestre Coelho, índia. Tinha ele seis anos quando seus pais se transferiram para o Rio. Estudou os preparatórios no Externato do Colégio Pedro II. Depois tentou os estudos de Medicina, mas logo desistiu do curso. Em 1883 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Seu espírito revoltado encontrou ali ótimo ambiente para destemidas expansões, e ele se viu envolvido num movimento dos estudantes contra um professor. Prevendo represálias, transferiu-se para Recife, onde fez o 1o ano de Direito, tendo Tobias Barreto como o principal mestre.

]Regressando a São Paulo, entregou-se ardentemente às idéias abolicionistas e republicanas, numa atitude que o incompatibilizou com certos mestres conservadores. Deu por concluídos os estudos jurídicos, em 1885, e transferiu-se para o Rio. Fez parte do grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney. A história dessa geração apareceria depois no seu romance A Conquista (1899). Tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, na campanha abolicionista. Ingressou na Gazeta da Tarde, passando depois para a Cidade do Rio, onde chegou a exercer o cargo de secretário. Por essa época começou a publicar seus trabalhos literários.

Em 1890, casou-se com Maria Gabriela Brandão, filha do educador Alberto Olympio Brandão. Do seu casamento teve 14 filhos. Foi nomeado para o cargo de secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, Diretor dos Negócios do Estado. Em 1892, foi nomeado professor de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes e, mais tarde, professor de Literatura do Ginásio Pedro II. Em 1910, foi nomeado professor de História do Teatro e Literatura Dramática da Escola de Arte Dramática, sendo logo depois diretor do estabelecimento.

Eleito deputado federal pelo Maranhão, em 1909, e reeleito em 1917. Foi também secretário geral da Liga de Defesa Nacional e membro do Conselho Consultivo do Teatro Municipal.

Além de exercer os cargos para os quais era chamado, Coelho Neto multiplicava a sua atividade em revistas e jornais de todos os feitios, no Rio e em outras cidades. Além de assinar trabalhos com seu próprio nome, escrevia sob inúmeros pseudônimos, entre outros: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.

Cultivou praticamente todos os gêneros literários e foi, por muitos anos, o escritor mais lido do Brasil. Apesar dos ataques que sofreu por parte de gerações mais recentes, sua presença na literatura brasileira ficou devidamente marcada. Em 1928, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, num concurso realizado pelo Malho. João Neves da Fontoura, no discurso de posse, traçou-lhe o justo perfil:

“As duas grandes forças da obra de Coelho Neto residem na imaginação e no poder verbal. … Havia no seu cérebro, como nos teatros modernos, palcos móveis para as mutações da mágica. É o exemplo único de repentista da prosa. … Dotado de um dinamismo muito raro, Neto foi um idólatra da forma.”

Principais obras:
Rapsódias, contos (1891);
A capital federal, romance (1893);
Baladilhas, contos (1894);
Fruto proibido, contos (1895);
Miragem, romance (1895);
O rei fantasma, romance (1895);
Inverno em flor, romance (1897),
Álbum de Caliban, contos (1897);
O morto, romance (1898);
A descoberta da Índia, narrativa histórica (1898);
O rajá do Pendjab, romance (1898);
A Conquista, romance (1899);
A tormenta, romance (1901);
Turbilhão, romance (1906);
Vida mundana, contos (1909);
Banzo, contos (1913);
Rei negro, romance (1914);
Mano, Livro da Saudade (1924);
O polvo, romance (1924):
Imortalidade, romance (1926);
Contos da vida e da morte, contos (1927);
A cidade maravilhosa, contos (1928);
Fogo fátuo, romance (1929).

Publicou, ainda, peças de teatro (vários livros), crônicas, críticas, obras didáticas, discursos e conferências.

Fonte: http://www.biblio.com.br/

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Fernando Gabeira (O Que é Isso, Companheiro? = o livro e o filme, discrepâncias)

No livro “O que é isso, Companheiro?” Fernando Gabeira, narra sua história, e de outras pessoas, que durante o Regime Militar no Brasil estiveram envolvidas em movimentos contra a ditadura.

Por se tratar de um livro de memória, “O que é isso, Companheiro?”, pode apresentar falhas, ocultando e exaltando fatos ocorridos. O texto é escrito em primeira pessoa, e é uma fala solitária, mas ao mesmo tempo, é para o leitor coletiva, pois ele relata fatos ocorridos na sociedade brasileira na década de 60.

No livro, Fernando Gabeira, está sempre questionando sua ação dentro do movimento, ele faz críticas e mostra uma clareza ao questionar o que estava errado no movimento de esquerda brasileira. Isso não ocorre porque ele apresenta superioridade em relação aos outros e sim porque o livro foi escrito dez anos depois dos acontecimentos narrados. Nos anos de chumbo, Gabeira pensava igual aos outros companheiros, que desejavam fazer a sonhada “Revolução”.

Com base neste livro Bruno Barreto dirige o filme “O que é isso, Companheiro?” que apresenta contradições com relação ao livro, é portanto, falsa a idéia de um filme verídico, mas apresenta acontecimentos, datas e nomes reais.

Não é a primeira vez , que a realidade se transforma em ficção, na minissérie da TV Globo “Anos Rebeldes”, exibida em 1992, também apresentou fatos reais, com o extremo ar de romance. Mas existem outras produções sobre o período que não são obras de ficção é o caso do filme “Lamarca”, de 1994, que conta a história de um capital do exército que deixou a farda pela Revolução.

O contexto histórico dos fatos discutidos nesse trabalho, é o ano de 1969, que inicia-se em 13.12.68 com o AI-5, que foi o “golpe dentro do golpe”. O Brasil que já estava vivendo num período autoritário, e agora passa para um sistema rígido, violento e opressor. O seqüestro do embaixador é realizado neste contexto, de prisões, torturas e exílios. A esquerda, em sua maioria, havia entrado na luta armada, e estavam fazendo treinamento em Cuba. E foram realizadas ações contra a ditadura.

O momento era propício para a realização do seqüestro. O país estava sendo governado por uma Junta Militar, pois Costa e Silva afastou-se da presidência por motivos de saúde. “…Divididos sobre a aceitação das exigências do grupo, os militares tinham agora a possibilidade de um ataque direto. A Junta que ocupava a presidência a acompanhava as operações em tempo real, passo a passo: recém-empossada sob contestação de todos os lados, sabia não ter controle total sobre a tropa.” O seqüestro do embaixador foi planejado para a Semana da Pátria, para desmoralizar o e prejudicar a ação do exército.

Seqüestro que foi realizado pelo MR8, nome adotada para confrontar com a repressão que havia divulgado uma nota que o grupo terrorista MR8 estava eliminado, mas Movimento Revolucionário 8 de Outubro era apenas o nome do jornal. Então a Dissidência da Ganabara, resolveu adotar o nome, e por ser um grupo com pouca experiência na luta armada, pede ajuda a ALN de Carlos Marighella para realizar o seqüestro.

O filme O que é isso, Companheiro?, é uma ficção a partir de fatos reais do seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Elbrick. “ Como disse a atriz Fernanda Torres ao jornal O Estado de S. Paulo (01/05/97,p.D-7): ‘Precisamos atingir os jovens, eu não aprendi nada disso na escola, o cinema tem que ajudar o brasileiro a descobrir a complexidade da história recente do país.”

Em duas entrevistas Bruno Barreto se contradiz, pois em uma ele fala que fez um filme para os jovens que não viveram a época e necessitam conhecer uma história recente do país, e em outra entrevista fala que fez o filme pensando em mostrar aos norte-americanos o seqüestro do embaixador deles no Brasil na década de 60. Na realidade ele estava interessado em ganhar um Oscar de melhor filme estrangeiro, mas não poderia utilizar cenas reconstituídas no mesmo padrão de imagem da época, ou seja, ele inicia o filme em preto e branco, e ainda coloca uma legenda falando que se trata de uma história verídica, produzido como se fosse um filme norte-americano.

O filme é destinado ao entretenimento da massa e esquece o seu objetivo de relatar a verdade dos acontecimentos, o cinema apresenta aos seus espectadores uma história e uma cultura, fictícia ou real, tendo coerência em separar um do outro, no caso do O que é isso, Companheiro? A ficção se mistura com a realidade, contrariando a história de vida de pessoas que se vêem retratadas no filme. É um filme de alta produção, como esse, deixou muito a desejar, ele se preocupou com a forma e esqueceu o conteúdo. Bruno Barreto tem liberdade de criação em seus filmes, mas não se utilizar de fatos e imagens de pessoas, para ter bilheteria, pois é um filme produzido nos moldes da indústria cultural.

No filme “O que é isso, Companheiro”, Fernando Gabeira se destaca em relação aos outros personagens , ele é o mais sensato e inteligente dos militantes que participavam do seqüestro do embaixador. Tanto no livro como no filme a idéia do seqüestro é Fernando Gabeira, mas na realidade foi de um outro companheiro, Franklin Martins. E eu pergunto a Gabeira: “O que é isso, Companheiro?” O plágio não era crime em 69? Mas não ficou por aí, ele também assumiu a autoria do manifesto divulgado nos meios de comunicação, que o Franklin escreveu.

Em uma entrevista dada a Folha de S. Paulo, Bruno Barreto justifica-se dizendo “…Eu tomei certas liberdades com o personagem do Gabeira só para ele ter alguma qualidade. Ele não sabia dirigir, não sabia atirar, se não soubesse escrever, o que estaria fazendo ali …”, fico abismada que nem escrever ele não sabia! Fernando Gabeira só ficou sabendo da ação no dia do seqüestro, pois o embaixador ficaria na casa que ele alugou para sede do jornal do grupo. Então por que assumir uma coisa que nem ia participar? Um outro ponto, que não mencionei, é que no filme começa com uma passeata, onde Fernando Gabeira estava participando, mas no livro ele conta que estava observando da janela do Jornal do Brasil, onde trabalhava.

Existem outros detalhes no filme, o assalto a banco é mostrado somente com o objetivo de juntar dinheiro para a realização do seqüestro, mas na realidade os assaltos eram feitos para garantir sobrevivência da clandestinidade e também como uma forma de protesto contra o sistema autoritário e o imperialismo. No livro Gabeira conta que ele seguiu os militares que estavam vigiando a casa em Santa Tereza, mas no filme fica ridículo esta encenação. Um outro ponto que chama a atenção foi a compra dos frangos, numa época de recessão e também repressão, que boa parte da população estava auxiliando os militares em perseguir os “subversivos”, como uma pessoa compraria doze frangos e mostrando muito dinheiro no bolso não levantaria suspeita? No Brasil atualmente nem todas as casas tem telefone, e na época só os mais privilegiados possuíam, então porque colocar telefones em todas as casas como nos Estados Unidos?

O plágio não é o único problema, a própria personalidade dos personagens está distorcida, Bruno Barreto utiliza nomes, codinomes e descrições dos verdadeiros participantes do seqüestro, só que de forma diferente, o mais prejudicado é o personagem Jonas, (Vírgilio Gomes da Silva), um operário, militante da ALN, que trouxe sua experiência na luta armada para a realização dessa ação em conjunto. O filme mostra um homem violento, calculista que mataria um companheiro caso esse enfraquecesse, e deu ordem ao Paulo personagem de Fernando Gabeira, de matar o embaixador caso as exigências não fossem aceitas. Jonas não tem nada a ver com o personagem primitivo do filme, segundo seus parentes Jonas era um homem calmo.

Bruno Barreto é extremamente preconceituoso, pois coloca a imagem distorcida de um pessoa devido sua classe social, um operário e coloca um intelectual no alto.

Bruno Barreto faz isso também com o personagem feminino da história, Vera Sílvia Magalhães, “… Foi ela que, então com 21 anos, fez o levantamento da ação, tendo também participado diretamente do seqüestro, na cobertura logística. Vera, porém, não permaneceu dentro da casa em Santa Tereza – nenhuma mulher ficou -, mas acompanhou os acontecimentos passo a passo, por intermédio de alguns companheiros que entravam e saíam. No filme, ela seria a fonte de inspiração das personagens de Cláudia Abreu(que faz o levantamento da ação) e de Fernanda Torres, que, como Vera, deixa o país com as pernas paralisadas – quando de sua libertação em troca de embaixador alemão Ehrenfried von Holleben (seqüestrado em 1970), junto com mais 39 prisioneiros políticos -, em conseqüência das violentas torturas que sofreu na cadeia.”

A relação de preconceito neste fato, reduz a utilização do corpo feminino para obtenção de favores, Vera utilizou de encantos femininos para obter as informações sobre a rotina do embaixador, mas nunca teve nenhuma relação com o segurança, como mostra no filme.

Um outro ponto importante, é que Bruno Barreto mostra no filme um conflito entre um torturador e sua esposa, este militar fala a um outro amigo militar se ele consegue dormir depois do trabalho, e ele fala que sim. Ele tenta demonstrar que o torturador também tinha uma história, uma família, e ficava com a crise de consciência, e por sinal o torturador que se sentia bem no trabalho que fazia, que era torturar os “subversivos”, era negro, outro fato de preconceito.

Com relação a tortura em si, o filme ficou devendo, pois, no livro Gabeira conta alguns detalhes sobre os porões do Dops, fala do tiro que levou quando foi preso, como ele fazia para enganar os torturadores para não contar detalhes do seqüestro, fala das suas transferências, conta a história de um militante que resistiu até a morte e antes de morrer conseguiu atingir um torturador, ferindo-o muito, todos dentro da cadeia ficou sabendo desse fato, e esse preso era justamente Vírgilio Gomes da Silva, o companheiro Jonas, e no filme Bruno Barreto mostra um lado tão simplório da tortura, ele faz questão de mostrar que os torturadores eram bonzinhos, que a tortura não eram tão violenta como na realidade foi. Em comparação com o filme Lamarca, que mostra bem como era feita a tortura, quando ele coloca um pau-de-arara um homem nú o expondo a humilhação, ele sofre violentos choques elétricos no seu órgão genital, e quando este vem a falecer depois de tanto sofrimento, o comandante da ação fala que a causa da morte, “atropelado quando resistia a prisão”.

A frieza dos militares é bem retratada nesse filme, o esquema do exército, suas influências e sua violência. E Bruno Barreto deixa de lado essa questão, com relação ao exército ele só mostra dois comandantes, que fazem tudo desde as ordens, a prisões e a tortura. Segundo Renato Tapajós, “ A tortura pode ser uma decisão racional para os altos escalões de comando, que decidem permiti-la ou aceitá-la como método e são capazes, inclusive, de mandar trazer assessores internacionais para divulgar técnicas ‘modernas de tortura entre seus comandados. No entanto, no escalão do torturador, daquele sujeito que põe a mão na massa, a tortura significa infligir for, humilhação e talvez a morte a outro ser humano. Ela acontece em meio a gritos, sangue, cheiro de sangue e de suor, o fedor insuportável do medo, freqüentemente urina e fezes – porque o medo e a dor soltam bexiga e intestinos…a tortura é a negação do humano – e essa é a chave da sua eficácia…”

Bruno Barreto compreende as razões do torturador, de um certo modo defendendo-o, quando na realidade eles não passem de criminosos, no Brasil e não existe punição para esses crimes, todos sem exceção deveria ir para a justiça, tanto os torturadores, o alto escalão do exército e os políticos que apoiavam a ditadura.

“ Frente a todos os perigos, frente a todas as ameaças, as agressões, aos bloqueios, às sabotagens; frente a todas os divisionistas, frente a todos os poderes que tratam de nos enfrenta, temos que demonstrar, uma vez mais, a capacidade do povo para construir a sua história.”
Ernesto Che Guevara

A capacidade da classe dominante apagar a memória e a esperança do povo pela luta de seus direitos, é incrível. Com uma simples distorção da história, ela pode mudar a capacidade de raciocínio da maior parte das pessoas.

Fonte:
Adriana De Oliveira Costa. Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”
Faculdade De Ciências E Letras. Departamento De Sociologia. Araraquara, 1997.

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Origenes Lessa (1903 – 1986)

Orígenes Lessa nasceu em Lençóis Paulista, a 12 de julho de 1903.
– Colaborou e trabalhou em diversos veículos de comunicação, tendo feito sua estréia nos jornaizinhos escolares, com 12 ou 13 anos.
– Tentou, sem continuidade, diversos cursos superiores. Ingressou como tradutor no Departamento de Propaganda da General Motors, que teria grande influência na sua vida profissional: tornar-se-ia um dos publicitários de maior renome do País.
– Tomou parte ativa na Revolução Constitucionalista em 1932.
– Em 42, fixou-se em Nova York trabalhando no Coordinator of Inter-American Affairs, tendo sido redator da NBC em programas irradiados para o Brasil.
– Regressou ao Rio de Janeiro em meados de 43. Escritor, com uma obra bastante extensa, publicou, entre outros: Rua do Sal (Prêmio Carmen Dolores Barbosa — romance); O Escritor proibido (contos); Garçon, Garçonette, Garçonnière (menção honrosa da Academia Brasileira de Letras); O Feijão e o Sonho (romance — Prêmio António de Alcântara Machado, 15 edições com mais de 200.000 exemplares vendidos); 9 Mulheres (contos — Prêmio Fernando Chinaglia); O Evangelho de Lázaro (romance — Prêmio Luíza Cláudia de Souza do Pen Club do Brasil, 1972); e Beco da Fome.
– Incursionou pela literatura infanto-juvenil com muito sucesso, publicando oito ou dez volumes, um dos quais, Memórias de um Cabo de Vassoura, bateu a vendagem de O Feijão e o Sonho. Seus contos têm sido traduzidos para o inglês, espanhol, romeno, tcheco, alemão, árabe, hebraico, e várias vezes radiofonizados, não só no Brasil, mas também na Polônia.
– Foi eleito em 9 de julho de 1981 para a Cadeira n. 10 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Osvaldo Orico. Casado com Elsie Lessa, jornalista, é pai do escritor Ivan Lessa.
– Faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de julho de 1986.

Fonte:
http://www.releituras.com/olessa_calu.asp

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Cláudio Willer (1940)

Poeta, ensaísta e tradutor. Sua formação acadêmica é como sociólogo e psicólogo. Depois de ocupar outros cargos e funções em administração cultural, foi assessor na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, responsável por cursos, oficinas literárias, ciclos de palestras e debates, leituras de poesia, de 1994 a 2001. Dezenas de participações em congressos, seminários, ciclos de palestras, apresentações públicas de autores etc., no Brasil e no exterior.

Presidente da União Brasileira de Escritores, UBE, eleito em março de 2000 para o cargo que já exerceu em dois mandatos anteriores, entre 1988 e 92; reeleito em março de 2002; além disto, também secretário geral da UBE em outros dois mandatos (1982-86), e presidente do Conselho da entidade (1994-2000).

Livros publicados

  1. Anotações para um Apocalipse, Massao Ohno Editor, 1964, poesia e manifesto.
  2. Dias Circulares, Massao Ohno Editor, 1976, poesia e manifesto.
  3. Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, 1ª edição Editora Vertente, 1970, 2ª edição Max Limonad, 1986, tradução e prefácio.
  4. Jardins da Provocação, Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1981, poesia e ensaio.
  5. Escritos de Antonin Artaud, L&PM Editores, 1983 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas.
  6. Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg, L&PM Editores, 1984 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas; nova edição, revista e ampliada, em 1999; edição de bolso, reduzida, em 2.000.
  7. Crônicas da Comuna, coletânea sobre a Comuna de Paris, textos de Victor Hugo, Flaubert, Jules Vallés, Verlaine, Zola e outros, Editora Ensaio, 1992, tradução.
  8. Volta, narrativa em prosa, Iluminuras, 1996.
  9. Lautréamont – Obra Completa – Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas, edição prefaciada e comentada, Iluminuras, 1997.
  10. Estranhas experiências (poesia). Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.
  11. Poemas para leer en voz alta (antología poética). San José, Costa Rica: Ediciones Andrómeda, 2007. [traducción de Eva Schnell]

Como crítico e ensaísta, colaborou em suplementos e publicações culturais:

  • Jornal da Tarde,
  • Jornal do Brasil,
  • revista Isto É,
  • jornal Leia,
  • Folha de São Paulo,
  • revista Cult,
  • Correio Braziliense,
  • Xilo etc,

    Projetos da imprensa alternativa como Versus e revista Singular e Plural.

    Filmografia e videografia, com destaque para Uma outra cidade, documentário de Ugo Giorgetti com os poetas Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, Roberto Piva, Jorge Mautner, Claudio Willer, exibido na TV Cultura, São Paulo e na Rede Pública de TV, disponível em vídeo, produção SP Filmes e TV Cultura de São Paulo.

Textos seus foram incluídos em antologias e publicações coletivas, como por exemplo:

  • Folhetim – Poemas Traduzidos, org. Nelson Ascher e Matinas Suzuki, ed. Folha de S. Paulo, 1987, com uma tradução de Octavio Paz;
  • Artes e Ofícios da Poesia, org. Augusto Massi, ed. Artes e Ofícios – Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1991;
  • Sincretismo – A Poesia da Geração 60, org. Pedro Lyra, Topbooks, 1995;
  • Antologia Poética da Geração 60, org. Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, Editorial Nankin, 2.000;
  • 100 anos de poesia brasileira – Um panorama da poesia brasileira no século XX, Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, organizadores, O Verso Edições, Rio de Janeiro, 2001;
  • Paixão por São Paulo – Antologia poética paulistana (comemorativa dos 450 anos de fundação da cidade), Luiz Roberto Guedes, organizador, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2004.
  • Narradores y Poetas de Brasil, coletânea de Floriano Martins, revista Blanco Móvil, primavera de 1998, México, DF;
  • Un nuevo continente – Antologia del Surrealismo en la Poesía de Nuestra América, antologia de poesia surrealista latino-americana, organização de Floriano Martins, vários tradutores, Ediciones Andrómeda, San José, Costa Rica, 2004.
    entre outros.
  • Bibliografia crítica formada por ensaios, resenhas, reportagens e citação em obras de consulta por Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi, José Paulo Paes, Luciana Stegagno-Picchio, entre outros.

    Fonte:
    Revista de Cultura Agulha – 2000 – 2008 Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm

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Vânia Moreira Diniz

Vânia Moreira Diniz é natural do Rio de Janeiro (RJ) – 21/10.
Residente e domiciliada na cidade de Brasília-DF Escritora, Humanista e Pesquisadora, Fundou o Centro de Treinamento de Línguas em Brasília e dirigiu-o durante 10 anos. Formada em Letras com pós graduação em Educação. Palestrante nas áreas de educação, humanas e literária Colaboradora da Revista “Mirante” em Santos e “Estalo” em Belo-Horizonte

Orientadora de teses e monografias. Autora de diversas obras,

Co-autora do livro Manual da Saúde Física e Mental do Servidor Público com o tema DROGAS: Pesquisa e Contextualização.
Autora dos e-books pela e-B Maytê.
Participante de 9 antologias.
Participante da Equipe Fixa de Blocos online e colaboradora em mais de 10 sites.
Co editora da Revista virtual Poética Social.
Promotora de sites de literatura.
Co-fundadora e Co-editora do jornal/ecos- http://www.jornalecos.net.
Co-fundadora e Co-editora da Revista Honoris Causa.

Fonte:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

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Yoko Oshima Franco

Yoko tem 48 anos
Possui graduação em Farmácia pela Universidade de São Paulo (1982), mestrado e doutorado em Farmacologia pela Universidade Estadual de Campinas (1997 e 2001, respectivamente). Atualmente é professor horista da Universidade Metodista de Piracicaba e professor titular da Universidade de Sorocaba (40 horas semanais). Faz parte do corpo docente permanente do Mestrado Stricto sensu em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba. Tem experiência na área de Farmacologia, linha de pesquisa em neurofarmacologia, com ênfase em Toxinologia (venenos ofídicos) e plantas medicinais.
Colunista do site Sorocult.com, de Sorocaba e Região.
É casada também com um farmacêutico e docente. É mãe de três filhos.

Fontes:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Currículo Lattes.

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III Feira Nacional do Livro e 2o. Festival Literário de Poços de Caldas

Após percorrer pouco mais de 240 mil quilômetros de estradas por este Brasil afora, e doar em torno de 145 toneladas de mais de 80.000 livros de histórias infantis, o Projeto Idéia Fixa por um Sertão 100 Fome, volta a ser destaque. E desta vez durante um dos eventos de sucesso realizado pela GSC Eventos Especiais, a 3ª Feira Nacional do Livro que acontecerá na cidade de Poços de Caldas (MG), entre os dias 02 e 06 de abril.

A III Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, acontecerá de 02 a 06 de abril de 2008.Mais informações acesse: http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/“> ou pelo fone: 35 3713 9901

Grandes nomes da Literatura Brasileira já confirmaram a participação na Feira do Livro e no Festival Literário. A patronesse, uma das maiores especialistas em lingüística textual do Brasil, Ingedore Villaça Koch, será homenageada e, oficialmente, abrirá o 2º Festival Literário Nacional da cidade a palestra “O Texto e seus Segredos”.

Entre os dias 02 e 06 de abril, nas dependências do Palace, os visitantes poderão contar com a presença de outros escritores renomados, como Telma Guimarães (02/04, manhã/tarde); MV Bill, autor do livro Falcão – Meninos do Tráfico (02/04, às 19h50); Jonas Ribeiro (02 e 03/04, manhã/tarde); Elias José (03/04, manhã/tarde); André Ribeiro com a oficina: Reportagem Biográfica (03/04 – às 14h); Julio Emilio (04/04, manhã e tarde); Gabriel O Pensador (03/04, às 19h50); Márcia Nehemy Bittar e Beth Nanni – autoras do livro “Os Deuses e o Amor” (04/04, às 17h); o antropólogo Roberto DaMatta (04/04, às 19h50); Lino de Albergaria (05/04, manhã e tarde); Walter Alvarenga, escritor do livro “Cinco Crianças” (05/04, às 16h); e o poeta Fabrício Carpinejar (05/04, às 19h50). Todos já têm a presença confirmada.

Peças teatrais escolares e profissionais, murais de poesias, concursos de redação, contadores de histórias, exposições de escritores mirins, tardes de autógrafos, e recreação com os monitores do SESC/MG e o Cinearte Sarau Petrobras Brasil Adentro são outras atividades que enriquecerão a programação desse grande evento literário.

As escolas já podem agendar a visita entrando em contato pelo telefone (35) 3713-9901. Esse evento é uma realização da GSC Eventos com a parceria da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, Secretaria de Educação e Cultura, Secretaria de Turismo, com o patrocínio oficial da Petrobras, patrocinadores Alcoa GBS e CBA, e apoio da Cia. Bella de Artes, Renovias, Câmara Brasileira do Livro, Hotel Minas Garden, Unimed, SESC e SENAC.

Fontes:
Colaboração de Douglas Lara, em Acontece em Sorocaba – Últimas Notícias
http://www.sorocaba.com.br/acontece
http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/

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Gabriel, o Pensador na 2o. Festival Literário Nacional

Está confirmada a presença do cantor de rap e escritor, Gabriel – O Pensador para o dia 03 de abril, às 19h50, no 2º Festival Literário Nacional de Poços de Caldas, que acontecerá no Palace Casino.

Gabriel O Pensador, é autor dos livros “Diário Noturno” e do livro que lhe concedeu o prêmio Jabuti de melhor livro infantil, “Um Garoto Chamado Rorbeto”.

Além de escritor, é um dos maiores nomes do rap brasileiro, diferenciou-se de boa parte de seus pares (e chegou a ser por eles criticado) por ser garoto branco de classe média alta. Mas desde o começo fez das letras de crítica social o seu “cavalo de batalha”, como convém ao melhor rap.

Filho da jornalista Belisa Ribeiro, ele apareceu no fim de 1992, quando ainda era estudante de comunicação na PUC do Rio, com a música “Tô Feliz, Matei o Presidente”. O personagem da letra era Fernando Collor de Mello, que tinha acabado de renunciar ao cargo frente a um processo de impeachment (e de quem Belisa tinha sido assessora).

Contratado pela Sony Music por causa do sucesso da música, Gabriel lançou em 1993 seu primeiro e homônimo disco, que ganhou as rádios com as ácidas, mas bem-humoradas “Lôraburra” e “Retrato de um Playboy”.

Em 1995, ele saiu com o feroz “Ainda É Só o Começo”, que provocou polêmica com as músicas “Estudo Errado” e “FDP ao Cubo”, mas não repetiu o sucesso do primeiro álbum. Dois anos depois, Gabriel voltou à carga com a irreverente e pop “2345meia78”, que seria a primeira faixa de trabalho do disco “Quebra-Cabeça”. “Cachimbo da Paz” e “Festa da Música” estouraram depois, levando o CD a ultrapassar a marca do um milhão de cópias vendidas.

Sucesso em Portugal, atração escolhida pela banda irlandesa U2 para fazer a abertura de seus shows brasileiros em 1998, Gabriel deu prosseguimento aos seus trabalhos com o disco “Nádegas a Declarar”, lançado no fim de 1999.

Em 2003, Gabriel lança seu registro acústico “MTV ao Vivo” com os seus maiores sucessos, como “Lôraburra”, “Festa da Música” e “Cachimbo da Paz”, e destaca as participações especiais de Lulu Santos (Astronauta), Aninha Lima (FDP³) e Titãs (na faixa inédita, “Cara Feia”).

Cavaleiro Andante é o sétimo disco de Gabriel O Pensador, lançado em 2005. No novo trabalho, o rapper recria “Pais e Filhos”, sucesso da Legião Urbana, em “Palavras Repetidas”, apresentando ainda mais dez composições marcadas por suas letras fortes e elaboradas. “Tudo na Mente”, “Sem Neurose” e “Tempestade” são outros destaques do CD.

Para participar do bate-papo literário com Gabriel O Pensador . Será necessário trocar um livro, em bom estado, por um ingresso. As trocas serão realizadas na GSC Eventos Especiais (Rua Prefeito Chagas, 305 – Sala 308 – 3º andar – informação: (035) 3713-9901) e na Livraria Libertas (informação: (035) 3721-0908) e/ou na Secretaria do Evento, durante o período da Feira. A quantidade de ingresso é limitada.

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Fonte:

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Patativa do Assaré (1909 – 2002)

As penas plúmbeas, as asas e cauda pretas da patativa, pássaro de canto enternecedor que habita as caatingas e matas do Nordeste brasileiro, batizaram poeta Antônio Gonçalves da Silva, conhecido em todo o Brasil como Patativa do Assaré, referência ao município que nasceu. Analfabeto “sem saber as letra onde mora “, como diz num de seus poemas, sua projeção em todo o Brasil se iniciou na década de 50, a partir da regravação de “Triste Partida”, toada de retirante gravada por Luiz Gonzaga.

Filho do agricultor Pedro Gonçalves da Silva e de Maria Pereira da Silva, Patativa do Assaré veio ao mundo no dia 9 de março de 1909. Criado num ambiente de roça, pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, seu pai morrera quando tinha apenas oito anos legando aos seus filhos Antônio, José, Pedro, Joaquim, e Maria o ofício da enxada, “arrastar cobra pros pés” , como se diz no sertão. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada.

Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos.
A sua vocação de poeta, cantador da existência e cronista das mazelas do mundo despertou cedo, aos cinco anos já exercitava seu versejar. A mesma infância que lhe testemunhou os primeiros versos presenciaria a perda da visão direita, em decorrência de uma doença, segundo ele, chamada “mal d’olhos”.

Sua verve poética serviu vassala a denunciar injustiças sociais, propagando sempre a consciência e a perseverança do povo nordestino que sobrevive e dá sinais de bravura ao resistir ao condições climáticas e políticas desfavoráveis. A esse fato se refere a estrofe da música Cabra da Peste:

“Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrê
Não nego meu sangue, não nego meu nome.
Olho para a fome , pergunto: que há ?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.”

Embora tivesse facilidade para fazer versos desde menino, a Patativa do município de Assaré, no Vale do Cariri, nunca quis ganhar a vida em cima do seu dom de poeta. Mesmo tendo feito shows pelo Sul do país, quando foi mostrado ao grande público por Fagner em finais da década de 70, até hoje se considera o mesmo camponês humilde e mora no mesmo torrão natal onde nasceu, no seu pedaço de terra na Serra de Santana.

Do Vale do Cariri, que compreende o Sul do Ceará e parte Oeste da Paraíba, muitas famílias migraram para outras regiões do Brasil. A própria família Gonçalves , da qual faz parte o poeta, se largou do Crato , de Assaré e circunvizinhanças para o Sul da Bahia, em busca do dinheiro fácil do cacau, nas décadas de 20 e 30.

Seus livros foram publicados ocasionalmente por pesquisadores e músicos amigos e, parceria com pequenos selos tipográficos e hoje são relíquias para os colecionadores da literatura nordestina.

Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados

A estréia do vate cearense em vinil se deu no ano de 1979, quando gravou o LP “Poemas e Canções”, lançado pela CBS . As gravações foram realizadas em recital no Teatro José de Alencar, em Fortaleza. Cantando para seu povo brincou poeticamente com o fato de estar sendo gravado em disco na abertura A dor Gravada:

“Gravador que está gravando
Aqui no nosso ambiente
Tu gravas a minha voz,
O meu verso e o meu repente
Mas gravador tu não gravas
A dor que meu peito sente”.

O recital fez parte de uma revisão cultural que a nova classe intelectual ligada á musica e ao cinema faz sobre o obra dos grandes poetas populares cearenses como Cego Oliveira, Ascenso Ferreira e o próprio Patativa. Artistas como Fagner , o cineasta Rosemberg Cariri e outros, se encarregaram de produzir em vídeo e película documentários com finalidade de registrar ar um pouco da cultura em seu molde mais genuíno.

Do mesmo disco é a destemida Senhor Doutor, que em pleno governo do general Ernesto Geisel falava em baixos salários numa posição de afronta em relação à situação da elite, representada pela figura do doutor. Assim vocifera o bardo do Assaré, com seu ressonante gogó:

Sinhô Dotô não se enfade
Vá guardando essa verdade
E pode crê, sou aquele operário
Que ganha um pobre salário
Que não dá para comer.”

Após a gravação do primeiro LP o recitador , fez uma série de shows com seu discípulo Fagner . Em 81 a apresentação da dupla no Festival de Verão do Guarujá ganha ampla repercussão na imprensa. Nesta mesma ocasião gravou seu segundo LP “A Terra é Naturá”, também pela CBS. Patativa sempre cantou as saudades da sua terra, embora não tenha deixado o seu Cariri no último pau-de-arara, como diz a letra. Seu lamento arrastado e monocórdico acalanta os que se retiraram e serve de ombro aos que ficam.
.
A toada-aboio “Vaca Estrela e Boi Fubá” que narra a saudade da terra natal e do gado foi o sucesso do disco em versão gravada por Fagner no LP “Raimundo Fagner”, de 1980.

Eu sou filho do Nordeste, não nego o meu naturá
Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinnho, num é bom nem imaginar
Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá.
Quando era de tardezinha eu começava a aboiar
“.

Outro ponto alto do disco “A Terra é Naturá” que foi lançado em CD pela 97 é a poesia Antônio Conselheiro que narra a saga do messiânico desde os dias iniciais em Quixeramobim, no Ceará até o combate final no Arraial de Belo Monte, na Fazenda Canudos, em 1897. Patativa, como muitos dos cantadores, registram na memória as histórias que boiam no leito da tradição oral, contadas aqui e ali, reproduzidas pelos violeiros e pelos cordéis.

“A Terra é Naturá” foi produzido por Fagner , tendo o cineasta Rosemberg Cariri entrado como assistente de produção artística. O acompanhamento é feito por Manassés, músico especialista em violas que se revelou juntamente com o Pessoal do Ceará, e pelo violonista Nonato Luiz, violonista de mão cheia. A presença do rabequeiro Cego Oliveira, fazendo o introdutório das músicas ajuda a consolidar a reputação de indispensável ao LP.

O lirismo dos versos de Mãe Preta, poema dedicado à sua mãe de criação cuja morte é narrada em versos contundentes e simplórios ao mesmo tempo, apresenta uma densidade poética que só os que cantam com pureza d’alma atingem.

Mamãe, com muito carinho, chorando um beijo me deu
E me disse : meu filhinho, sua Mãe Preta morreu.
E outras coisa me dizendo, senti meu corpo tremendo,
Me considerei um réu. Perdi da vida o prazer,
Com vontade de morrer pra ver Mãe Preta no céu”

Depois deste disco Patativa voltou para o seu roçado na Serra de Santana, em Assaré.

De lá saia esporadicamente para alguns recitais mas é no seu pé-de-serra, que recebe a inspiração poética.

Em 9 de março de 1994 o poeta completou 85 verões e foi homenageado com o LP “Patativa do Assaré – 85 Anos de Poesia”, sendo este seu mais recente lançamento, com participação das duplas de repentistas Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio e Otacílio Batista e Oliveira de Panelas. Como narrador do progresso nos meios de comunicação expôs em Presente Disagradável suas convicções autênticas, sobre o aparelho de televisão:

“Toda vez que eu ligo ele
No chafurdo das novela
Vejo logo os papo é feio
Vejo o maior tumaré
Com a briga das mulhé
Querendo os marido alheio
Do que adianta ter fama?
Ter curso de Faculdade?
Mode apresentar programa
Com tanta imoralidade !”

Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor “honoris causa” por universidades locais. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que “para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento“.

O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.

Discografia
Patativa do Assaré – (CBS – 79)
A Terra é naturá – (CBS – 81)
85 Anos de Poesia
(Som Zoom – 95)

Fontes:
Cláudio Carvalho Moreira e Zezão Castro. Patativa do Assaré e seus 90 verões de gorjeio poético. Disponível em http://www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/patati.htm

http://www.releituras.com/patativa_poetclassicos.asp

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Osman Lins (1924 – 1978)

  • – Osman Lins nasceu a 5 de julho de 1924, em Vitória de Santo Antão (PE).
  • – Publicou seu primeiro romance, O visitante, em 1955 e, em 1957, Os gestos.
    – Em 1960, concluiu o curso de dramaturgia na Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife.
    – Estreou peça de sua autoria, Lisbela e o prisioneiro, no Rio de Janeiro, em 1961. No mesmo ano, editou o romance O Fiel e a Pedra. Em seguida viajou para a Europa como bolsista da Alliance Française.
    – Em 1962, transferiu-se para São Paulo.
    – Publicou, em 1966, Nove, novena, narrativas e Um mundo estagnado, ensaios sobre livros didáticos de português e a peça Guerra do “Cansa-Cavalo” .
    – Em 1970, ingressou no ensino superior como professor de Literatura Brasileira.
    – Em 1973, publica Avalovara, romance, traduzido posteriormente para o espanhol, francês e alemão.
    – Obtém o grau de Doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia e Letras de Marília (1973), com a tese “Lima Barreto e o espaço romanesco”, publicada em 1975.
    – Foi professor titular de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília (SP) até 1976, quando deixa o ensino universitário dedicando-se exclusivamente à atividade de escritor.

    Obras do autor:
    O visitante (1955) romance,
    Os gestos (1957) contos,
    O fiel e a pedra (1961) romance,
    Marinheiro de primeira viagem (1963) notas de viagem,
    Lisbela e o prisioneiro (1964) teatro,
    Nove, Novena (1966) narrativas,
    Um mundo estagnado (1966) ensaio,
    “Capa Verde” e o Natal (1967) teatro infantil,
    Guerra do “Cansa Cavalo” (1967) teatro,
    Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social (1969) ensaio,
    Avalovara (1973) romance,
    Santa, automóvel e soldado (1975) teatro,
    Lima Barreto e o espaço romanesco (1976) ensaio
    A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), romance.

    Seu conto “A ilha no espaço” foi adaptado e apresentada no programa Caso Especial da TV Globo.

    A partir de 1976, começa a colaborar ativamente na imprensa e a escrever para televisão, além de redigir ensaios em colaboração com Julieta de Godoy Ladeira: Do Ideal e da Glória e Problemas Inculturais Brasileiros.
    Prêmios literários:
    “Fábio Prado” (SP),1955,
    “Monteiro Lobato” (SP),
    “Coelho Neto”, da Academia Brasileira de Letras (1955),
    “Vânia Souto Carvalho” (Recife), 1957,
    “Nacional de Comédia”,
    “Mário Sette” (Recife), 1962
    “José de Anchieta” (SP), 1965.

  • Faleceu em São Paulo a 8 de julho de 1978.

    Fonte:
    http://www.releituras.com/osmanlins_menu.asp

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Lygia Fagundes Telles (Venha ver o Pôr do Sol)

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.

– Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

– Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima

Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.

– Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância…Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

– Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa.
Tirou um cigarro. – Hem?!

– Ah, Raquel… – e ele tomou-a pelo braço rindo.

– Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado…Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?

– Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. – Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.

– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

– Ver o pôr do sol!…Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso!…Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério…

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura…

– E você acha que eu iria?

– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento -Você fez bem em vir.

– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

– Mas eu pago.

– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

– Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.

– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…

O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.

– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde!

Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

– Ele é tão rico assim?

– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

– Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã…Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.

– É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?

– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – A minha querida esposa, eternas saudades – leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim.

Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas…Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. – Chega Ricardo, quero ir embora.

– Mais alguns passos…

– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para trás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

– A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: – Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

– Sua prima também?

– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

– Vocês se amaram?

– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o

– Eu gostei de você, Ricardo.

– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

– Esfriou, não? Vamos embora.

– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

– Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira.

Sorriu melancólico.

– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?

– Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

– E lá embaixo?

– Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

– Todas estas gavetas estão cheias?

– Cheias?…- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

– Vamos, Ricardo, vamos.

– Você está com medo?

– Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:

– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?…- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

– Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

– Pegue, dá para ver muito bem…- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.

– Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça…- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida…- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. – Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

– Boa noite, Raquel.

– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.

– Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

– Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

– Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

– NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.
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Biografia de Lygia postada em 21 de fevereiro de 2008
Conto O Moço do Saxofone postado em 2 de janeiro de 2008
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Fonte:
TELLES, Lygia Fagundes Telles. Antes do Baile Verde. Editora Livraria José Olympio. Disponível em
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http://www.beatrix.pro.br/literatura/pordosol.html>

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Ariano Suassuna: O criativo e polêmico mestre das Letras no Nordeste

Eu vi a Morte, a moça Caetana,/ com o manto negro, rubro e amarelo./ Vi o inocente olhar, puro e perverso,/ e os dentes de Coral da desumana// Eu vi o Estrago , o bote, o ardor cruel(…) Ela virá, a Mulher aflando as asas,/ com os dentes de cristal , feitos de brasas (…) só assim verei a coroa da Chama e Deus, meu Rei, / assentado em seu trono do Sertão”.
Ariano Suassuna (Sonetos: “A Moça Caetana” e “A Morte”)

Uma análise da obra teatral de Ariano Suassuna nos faz mergulhar nas nossas origens culturais. Num recuo positivo em direção às sucessivas fontes que nos fizeram quem somos hoje: misto de regional e universal.

Os primeiros colonizadores trouxeram para cá a cultura européia, transmitida oralmente. Assimilada pelos nordestinos, desenvolveram-se as influências ibéricas e mediterrâneas.

Uma das influências que Ariano sofreu foi a dos escritores Gil Vicente, português, e do espanhol Calderón, ambos homens de teatro na época das grandes descobertas. Suassuna pratica o entrecruzamento de textos, adaptando várias obras populares (do cordel ao teatro europeu) ao seu modo. Conserva a língua popular, mas, com grafia e correção gramatical eruditas. Prepara o espectador para uma moral conforme o cristianismo. É muito comum em suas peças a cena de um “juízo final”(juiz-acusador-defensor-réu).

Além de usar textos alheios, recriando-os, Ariano pratica a intertextualidade , refazendo cenas de suas peças(exemplo: “O auto da Compadecida”) e enxertando-os em outras (em “A pena e a lei”).

Suas fontes vão de Shakespeare até a Bíblia. A intertextualidade ( “comunicação entre textos”) era prática comum desde a Idade Média. Ariano a mantém, utilizando o cordel, o bumba-meu-boi, o mamulengo e também mistura o popular ao erudito(Cervantes, Moliére), fazendo tudo às claras, muito bem explicado em prefácios , palestras e aulas.

PEÇAS PRINCIPAIS:

O AUTO DA COMPADECIDA(1955): Como sabemos, um “AUTO” é o teatro medieval de alegorias(pecado, virtude, etc.) . Personagens como santos, demônios. É um teatro de construção simples ,ingenuidade na linguagem, caracterização exacerbada e intenção moralizante, podendo conter o cômico. Para escrever esta peça, Suassuna baseou-se em folhetos populares – primeiro e segundo atos baseiam-se em, respectivamente, ” O Enterro do Cachorro” e “A História do Cavalo que defecava dinheiro “, textos de Leandro Gomes. O terceiro ato é uma mistura de “O castigo da sabedoria”, de Anselmo Vieira e “A peleja da alma”, de Silvino Pirauá Lima. A invocação de João Grilo à Maria e o nome “Compadecida” também são inspirados em textos populares. João Grilo é o herói picaresco, passou fome e mente para ganhar o que quer, seu amigo Chicó também é mentiroso. A infidelidade da mulher do padeiro, a mesquinhez deste, o anticlericalismo e o cangaço são analisados por Suassuna num julgamento presidido por Maria, Jesus (negro) e atiçado por uma figura diabólica. No final, João Grilo volta à vida depois de morto.

A FARSA DA BOA PREGUIÇA(1955): Escrita em versos livres, tem trechos cantados. Cita a Bíblia e Camões, poeta da Renascença portuguesa. Cada ato tem uma certa independência um do outro (“O peru do cão coxo”, “A cabra do cão caolho” e “O rico avarento”). A inspiração de Suassuna desta vez recai sobre a arte do mamulengo, teatro de bonecos do Nordeste, com suas pancadarias e mestres, sua trama simples , como por exemplo, o patrão sempre é culpado. A história do diabo que quer levar uma mulher e um homem para o inferno. A exploração do homem pelo homem. A falta de caridade , a preguiça, a prova imposta à mulher, a vitória, seres celestiais disfarçados de pedintes e seres infernais oferecendo o pecado são temas que mais uma vez nos remetem à referida simplicidade medieval que apontamos no início deste estudo.

O CASAMENTO SUSPEITOSO(1957) : É uma comédia de costumes. Trata do tema casamento por dinheiro. A ação se passa na casa da matriarca de uma família, dona Guida. Travestimentos, cenas de pancadaria e sátira aos membros da igreja e da justiça compõem esta peça. Cancão (figura tomada emprestada do bumba-meu-boi) é o empregado esperto e também faz lembrar alguns personagens das comédias de Molière (autor de comédias, francês).

O SANTO E A PORCA(1957), o casamento da filha de um avarento. O “santo ” em questão é Santo Antônio e a “porca” é um cofrinho, símbolo do acúmulo de dinheiro (tão protetor quanto o santo).

A PENA E A LEI(1959) : Aqui Suassuna reaproveitou cenas de seus textos “Torturas de um Coração” e da “Compadecida”, numa encenação que vai do boneco irresponsável ao ser humano pleno diante de Deus (Benedito, Mateus, Cheiroso e Cheirosa intensificam o cômico). A peça diverte mas também analisa as questões sociais: trabalho na usina, reivindicações dos trabalhadores, companhias estrangeiras, fome, prostituição em cenas curtas e de muita movimentação. A preocupação com a moral está sempre presente e o trágico é diluído pelo cômico . São personagens estereotipados . Suassuna também se utiliza das cantorias nordestinas.

RESUMINDO: a comédia da antigüidade, o teatro religioso, a arte popular do Nordeste e seus folguedos são as salutares influências deste mestre das letras que é o paraibano Ariano Suassuna, Ex-aluno do Colégio Americano Batista do Recife (dos 10 aos 15 anos, uma fase de sua vida que sempre recorda com saudade), professor de Filosofia, foi secretário de cultura do governo Arraes e que também é autor de três romances: “Fernando e Isaura” (sobre um amor impossível”, ) , “Romance d´A pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e Volta” .(Ed. José Olympio. RJ. 1970), sobre um poeta que na década de 30 sonha em escrever um épico nordestino e acaba preso como comunista e “História d´O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: Ao sol da onça Caetana”, suas lembranças de infância e do pai, mescladas num sertão mítico.

Ariano é fundador do MOVIMENTO ARMORIAL , reafirmando no nordeste a influência ibérica, africana e indígena.

A musicalidade dos textos de Ariano é agreste. Sua poesia rebrilha à luz ardente do Nordeste.

“Não faço distinção entre a cultura popular e a erudita. A cultura brasileira, a cultura popular brasileira, não está ameaçada . Ela é resistente. Estão tentando matá-la, mas não conseguirão” , diz Ariano e nos convida ao deleite com pérolas do cancioneiro ibérico, a arquitetura africana, as cores da África, textos de José de Alencar, de Aluízio Azevedo. E é no Romanceiro popular que Ariano mais se inspira. Nas novelas de cavalaria, nos amores incríveis, nos heróis picarescos (zombeteiros) que permeiam as histórias que o povo conhece. Ele chega a usar um mesmo texto várias vezes como base para sua recriação. “A novela da Renascença é picaresca. O personagem principal é a Fome”. Emigra para o Brasil o herói pícaro ibérico, o astucioso que difere do opressor que é o lado ruim . Ao comentar o Brasil antes de Cabral, Ariano reafirma nossa cultura milenar : “Existia teatro indígena antes da chegada dos jesuítas . É absurdo centralizar a origem do teatro. O teatro japonês não nasceu na Grécia. Tem outra origem. O teatro indígena é um teatro de máscaras e excelentes figurinos e enredos fascinantes que envolvem sua religiosidade. Eu queria que um cineasta brasileiro fizesse com este tipo de teatro brasileiro o que o cineasta japonês Kurosawa fez com o antigo teatro japonês, o teatro Nô e com o Kabuki . Injustiça social não é base para a arte popular. Ela também não é primitiva. Os violeiros vêem televisão, os artistas populares transformam as informações universais em linguagem com temática local. Temos que fortalecer nossa cultura”. Para isso, Ariano usa seus conhecimentos de Filosofia, História e Literatura, trabalhando o belo de forma dialética, unindo-o ao cômico misturando o espírito intelectual com a esperança no homem, fundindo nossa herança barroca com um espírito neoclássico .

Análise do “Romance d´A Pedra do Reino” (1970) : Ariano recheia seu livro “Romance d´ A Pedra do Reino” com humor malicioso e exibe sua perícia na selva das palavras. Mistura nobres e pobres num processo criativo ímpar. Os colonizadores do Brasil aparecem como bravos que tiveram coragem de matar para estabelecer novos rumos. Ariano traz para a narrativa suas experiências com o teatro e a poesia, brinca com a metalinguagem, expõe os “mistérios” da criação. O tema central do romance são as artimanhas de Quaderna e a trágica história dos seus antepassados na cidade de São José do Belmonte, interior de Pernambuco. Ariano, através da narração em primeira pessoa (Quaderna), descreve paisagens e situações alucinantes, reinventa a cronologia, adapta fatos históricos à sua ficção ( a magia das grandes navegações, as cruzadas, os romances de cavalaria, as revoluções. Se Alencar foi exuberante mas não ousou exibir um herói picaresco, Ariano, com seu Regionalismo natural, busca as interseções entre o popular e o erudito, misturando a poética aristotélica com Romantismo e buscando o êxtase criativo num realismo que alguns intelectuais rotulam de mágico, fantástico. O encatatório, o mítico, o exótico vão delineando o espaço criativo que traça o painel do sonho de uma monarquia de esquerda , sonho que Ariano alimentou durante algum tempo. Obcecado em criar uma epopéia nordestina, o narrador torna- se cômico e o recurso Deus ex machina (sobrenatural) surge para resolver as inquietações da alma que perturbam a raça humana. Outro mito recorrente é o sebastianismo.

Podemos até arriscar em julgar o discurso de Ariano como um discurso maniqueísta que recusa a polifonia. Mestre na arte literária, ele criou um herói bufão numa espécie de circo fantasioso e hedonista em busca de um sentido , de dignidade, num emaranhado de “causos” alinhados por uma escrita competente que se utiliza do pictórico (xilogravuras) para reforçar seu discurso que, no fundo, transforma o interior de Pernambuco numa espécie de Camelot da caatinga, onde humor e malícia unem-se ao ingênuo, à lenda do cavaleiro que enfrenta as instituições (representadas no texto pelo Corregedor) e o imaginário supera o racional na reinvenção do passado histórico, através da alquimia verbal típica de Suassuna que rompe a linearidade, enxertando a todo instante várias tramas secundárias à narrativa central, numa colagem que redimensiona a obra em pequenos contos. O julgamento de Quaderna é a espinha dorsal do texto que vai buscar nos poetas populares (cordel e emboladores ) suas referências. Depois de trair seus amigos covardes, Quaderna busca a imortalidade através da Literatura , quer ser fidalgo. Quer louvar sua estirpe. Tenta reiventar Homero , a sua Odisséia é através do Atlântico nordestino e sua Ilíada tem como palco o sertão, ali está a Onça Caetana( a morte, a vida , o amor, a nacionalidade). Seres fantásticos pululam ao lado de personagens estilizados numa narrativa explosiva recheada de situações absurdas .
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Fonte:
Moisés Neto
Professor com pós-graduação em Literatura, escritor, membro da diretoria do SATED
http://www.moisesneto.com.br/estudo05.html

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Leon Eliachar ( 1922 – 1987)

Leon Eliachar nasceu na cidade do Cairo, no Egito, no dia 12 de outubro de 1922. Veio muito pequeno para o Brasil e se tornou um dos melhores jornalistas de humor da imprensa falada e escrita, após ter atingido a idade
da razão — ou do disparate, como costumava dizer. Era tão brasileiro como qualquer brasileiro, embora conste que nunca tenha se naturalizado.

Jornalista desde os 19 anos de idade, trabalhou em diversos jornais e revistas, fixando-se, por último, na “Ultima Hora”, onde, seguindo o exemplo de Aporelly (o Barão de Itararé) nos tempos de “A Manhã” com “A Manha”, mantinha uma página, às vezes reduzida a meia, com o título de “Penúltima Hora”. Justificava o nome da página com a legenda “Um jornal feito na véspera”.

Colaborador (arrependido, segundo o autor) dos argumentos de dois filmes carnavalescos, foi autor de programas de rádio e secretário da revista “Manchete”.
Em 1956 foi laureado com o primeiro prêmio (“Palma de Ouro) na IX Exposição Internacional de Humorismo realizada na Europa — Bordighera, Itália, por sua definição de humor acima citada, e uma historieta, “O Judeu” (leia em “Contos”, no Releituras), sobre o qual afirmou ter podido escrever sem parecer anti-semita, pois ele próprio era judeu.

Há pouquíssimo material sobre o biografado. A maior parte são artigos escritos por ele e por amigos, todos muito bem humorados, cheios de nonsense, o que bem demonstra o espírito do biografado.

Leon Eliachar foi assassinado na cidade do Rio de Janeiro, em 29 de maio de 1987. Segundo o noticiário da época, a mando de um rico fazendeiro paranaense com cuja esposa o autor vinha mantendo um romance.

POR ALTO, BIOGRAFIA

Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, “cairoca”. Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga.

Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos 10 meses de idade), mas oficialmente, há uns dois anos; passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na Política: comecei a fazer gracinhas — fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento duplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma conta no banco, uma praia particular e um “short”. Por enquanto já tenho o “short”.

Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato isso não deixaria de ser um grande golpe.
O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres – e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena.

Não sou supersticioso, mas por via das dúvidas, evito o “s” depois do “r” nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho 20 horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas — inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse — isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.

Leon Eliachar, no livro “O Homem ao Quadrado”, Livraria Francisco Alves/Editora Paulo de Azevedo Ltda., Rio de Janeiro, 1960 (orelhas da capa e contracapa.)

AUTOBIOGRAFIA DE UM FÔLEGO SÓ

Meu nome é esse mesmo, Leon Eliachar, tenho 44 anos, mas me orgulho de já ter tido 43, 42, 41, 40, 39, idades que muitas mulheres de 50 jamais atingiram, sou humorista profissional peso-leve, pois detesto as piadas pesadas, consegui atingir o chamado “preço teto” da imprensa brasileira, quer dizer, cheguei a ganhar um salário com o qual nunca pude adquirir um teto, sou a favor do casamento, sou a favor do divórcio, sou a favor do desquite e sou a favor dos que são contra tudo isso que eles devem ter lá os seus motivos, fui fichado com dificuldade no Instituto Félix Pacheco não pelo atestado de bons antecedentes, mas pelas dificuldades com que se tira um atestado, já fiz de tudo nessa vida, varri escritório, fiz entrega de embrulho, crítica de cinema, crônica de rádio, comentário de televisão, secretário de redação, colunismo social, reportagem policial, assistente de direção, peça de teatro, show de boate, relações públicas, corretagem de anúncios, script de cinema, entrevista política, suplemento feminino, até chegar ao humorismo, ainda não sei se o humorismo foi o princípio ou o fim da minha carreira, acho que ninguém faz nada por necessidade mas por vocação, isto é, por vocação da necessidade, tenho experiência bastante pra saber que não sou experiente, minha capacidade de compreensão chega exatamente no ponto em que ninguém mais me pode compreender, as mulheres tiveram forte influência na minha vida desde a minha mãe até à minha mulher, com escalas naturalmente, tive duas grandes emoções na vida, a primeira quando minha mulher disse “sim” e a segunda quando seus pais disseram “não”, sou a favor das camas separadas, principalmente pra quem se casou com separação de bens, não guardo rancor por absoluta falta de espaço, uma das coisas que mais aprecio é Nova York coberta de neve – quando estou em Copacabana tomando sol, o melhor programa do mundo é ir ao dentista – pelo menos para o dentista, não vou a casamento de inimigo, muito menos de amigo, desde criança faço força pra ser original e o máximo que consigo é ser uma cópia de mim mesmo, meu grande complexo é não saber tocar piano, mas muito maior deve ser o complexo de outros homens que também não sabem tocar e são pianistas, meus autores favoritos são os que me caem nas mãos, escrevo à máquina com vinte dedos porque minha secretária passa a limpo, gosto de televisão às vezes quando ligo às vezes quando desligo, num enterro fico triste por não saber fingir que estou triste, aprecio as quatro estações, mas prefiro o verão no inverno e o inverno no verão, passei fome várias vezes e agora estou de dieta, acho a rosa uma mensagem definitiva porque custa menos que um telegrama e diz muito mais, sou a favor da pílula anticoncepcional porque ela resolve o problema da metade da população do mundo, acho que deviam inventar a pílula concepcional pra resolver o problema da outra metade, cobrador na minha casa não bate na porta perguntando se pode entrar, eu é que bato perguntando se posso sair, sou um homem pobre porque toda vez que batem à minha porta mando dizer que estou, meu cartão de visitas não tem nome nem telefone, assim ninguém sabe quem sou nem onde posso ser encontrado, prefiro o regime da ditadura porque não tenho trabalho de ensinar meu filho a falar, posso dizer com orgulho que sou um humilde, sou o único sujeito do mundo que dá o salto mortal autêntico, mas nunca dei, leio quatro jornais por dia e a única esperança que encontro são os horóscopos cercados de desgraças por todos os lados, acredito mais nos inimigos do que nos amigos porque os inimigos estão sempre de olho, minha maior alegria foi quando venci num concurso internacional de humorismo, em Bordighera, Itália, obtendo o primeiro e o segundo prêmios entre os participantes de 16 nações concorrentes, fiquei sabendo que havia humoristas piores do que eu, procuro manter sempre o mesmo nível de humor, mas a culpa não é minha: tem dias que o leitor está mais fraco.

LEON ELIACHAR, em “O Homem ao Zero”. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1968.

RETRATOS 3 x 4 DE AMIGOS 6 x 9

Por mais que procure ser excêntrico, Leon é concêntrico. Pois em matéria de conclusões consigo próprio ele confia apenas em consigo mesmo. Carioca cairoca (nasceu no Cairo, capital de Tel-aviv), tem uma idade indefinível, entre os 25 e os 250 anos. Uns dizem que ele nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, outros afirmam que foi no momento em que ele nasceu que a briga começou. Promotor nato, veio ao mundo por uma gentileza especial do Todo-poderoso e só pretende sair com a Bomba, isto é, numa queima geral de todo o estoque. Dizem que ele não só sugeriu ao Criador a idéia dos dois sexos (a idéia do terceiro sexo foi do Sérgio Porto) como insistiu ainda para que o sexo masculino fosse feito em gás néon, coisa que o Senhor achou de um exibicionismo excessivo (Que pena!).

Aos três anos de idade Leon queria ser Presidente da República. De lá pra cá sua ambição não parou. Jogador de pôquer, para combater o típico pocker-face, ele inventou a própria cara, tão enigmática que ficou conhecida como Leonfauce. A verdade é que nele a natureza colocou o primeiro olho com zoom. Aliás, muitos consideram sua cara a sua maior piada; mas parece que a piada saiu sem querer numa noite em que papai e mamãe Eliachar estavam de bom humor. É o único escritor brasileiro que conseguiu ter um livro anunciado no Maracanã, junto com a irradiação da renda. Com isso a renda do livro ultrapassou a do estádio. Sua famosa campanha “Ponha um Leon na sua estante” deixou o tigre da Esso com a pulga entre as pernas e o Leon da Metro com o rabo atrás da orelha. Este ano Leon fez um programa pro Chico Anísio que acabou fazendo parte do programa. Ator de cinema, teatro e televisão, acredita que a água do mar é salgada e só não vende mais que a água potável por falta de promoção. Acha que todo mundo deve se promover até atingir a própria importância. Aliás, gosta tanto de gente importante que só lê Enciclopédia, porque ali gentinha não entra. Organizadíssimo, fez até seguro contra milicianos transviados e, seguríssimo, só vai a médico quando este está realmente em estado grave. Sua conversa ao telefone é tão interessante, que determinadas autoridades já gravaram várias. É o primeiro a rir das próprias piadas; antes que algum infeliz o faça. Os inimigos o consideram o maior humorista do Oriente Médio, mas a verdade é que sem o seu humorismo nenhum gabinete dentário pode se considerar completo. Os admiradores acham que, quando ele morrer, deixará uma lacuna impreenchível. Conhecendo Leon como conheço, garanto que não vai deixar lacuna alguma — leva a lacuna com ele.

Millôr Fernandes, que tem, dentre outras qualidades, a de ser o melhor profissional de humor brasileiro, escreveu uma série de artigos denominados “Retratos 3×4 de alguns amigos 6×9”. Publicado originalmente na Revista Veja, em 1969, o texto acima foi extraído de seu livro “Trinta anos de mim mesmo”, Editora Nórdica – Rio de Janeiro, 1972, pág.181.

APRESENTAÇÃO

Leon Eliachar de Aljubarrota nasceu na quinta do Alverde, casa 5, lado esquerdo. Cresceu em meio às benesses da primavera. Aos 14 anos de idade, sofreu um acidente de velocipídico, machucando o dedão do pé esquerdo. Mais tarde, escreveria uma ode a esse respeito.

Leon Eliachar de Aljubarrota custou muito a encontrar a rota. Mas acabou encontrando, isto aos quarenta e sete anos (mais ou menos), no quilômetro 46 da estrada Rio—São Paulo. Encontrou e não devolveu. Sendo assim, publicou os seguintes livros: O Homem ao Quadrado (1927), O Homem ao Cubo (416 a.C.), Por que me ufano do meu país (1870, com a colaboração do Conde de Afonso Celso), O Homem ao Zero (1939, infelizmente destruído pelas hordas paraguaias que nessa data fatídica invadiram o Uruguai); Quarup, by Antônio Callado; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Listas Telefônicas Brasileiras, de vários autores e assinantes; Brás, Bexiga e Barra Funda, de Vinícius de Moraes; A Nova Constituição Brasileira, 1964, autor desconhecido; Leon Eliachar par lui même, by Leon Eliachar; Os Olhos Dourados de Ódio, edição conjunta (digo bilíngüe) com Rubem Braga; O Homem Nu, variação de O Homem ao Cubo; e assim por diante. Maiores detalhes, biblioteca do Museu da Imagem e do Som, Rua Bartolomeu Mitre, 16, sobreloja.

José Carlos Oliveira fez esta apresentação (um exemplo de nonsense) do biografado no livro “10 em Humor”, Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1968, pág. 24.

NECROLÓGICO

O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. Nada de “coitadinho era um bom rapaz” nem que “era tão moço”, porque há muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de eu morrer – a não ser a vaidade de estar morto. Fui mau filho, mas isso não quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu se fosse eu o pai. Não fui mau marido e acredito que seja porque não tivesse chance de ser, vontade não me faltou. Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. Fui egoísta toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: é possível que agora riam de mim. Fui valente e fui covarde, só tive medo de mim mesmo o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. Tive milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do complexo de morrer: esse morre comigo. Nunca dei nem tomei nada de ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que não tenho para os que têm menos do que eu. Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. Jamais entendi perfeitamente o que era o “bem” e o “mal”, embora a maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. Defendi a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam com a gente. Jamais tive um segredo, passei todos adiante Conquistei muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o braço. Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido oitenta anos em apenas quarenta: finalmente me livrei dessa maldita insônia.
Leon Eliachar em “O Homem ao Cubo”, José Álvaro Editor – Rio de Janeiro, 1964, (orelhas da capa e da contracapa.)

No dia 21/06/2007, Leon Eliachar foi homenageado pela Casa de Rui Barbosa, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde estão os arquivos do humorista. Participaram do evento o cirurgião plástico Ivo Pitanguy e o cartunista Jaguar, amigos de Leon, e Sérgio Eliachar, filho do escritor.

BIBLIOGRAFIA:
– O Homem ao Quadrado (1960) – capa e desenhos de Cyro del Nero.
– O Homem ao Cubo (1963) – capa e paginação de Fortuna.
– A Mulher em Flagrante (1965) – capa executada por Juarez Machado; desenhos e paginação de Fortuna.
– O Homem ao Zero (1967) – capa de Gian.
– 10 em Humor (1968) – em conjunto com Millôr Fernandes, Stanislaw P. Preta, Fortuna, Ziraldo, Jaguar, Claudius, Zélio, Henfil e Vagn.

Fonte:
http://www.releituras.com/leoneliachar_bio.asp

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Leon Eliachar (O Homem ao Quadrado)

Definição de Humorismo:

– Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico de se fazer.

Dicionário de bolso:

– ADIAR – é essa atitude que estamos sempre tomando daqui a pouco.

– BUZINA – é esse ruído que irrita o motorista da frente quando o de trás já está irritado.

– CABOTINO – é esse sujeito que consegue transformar qualquer assunto numa auto-biografia.

– TÉCNICO – sujeito que se especializa em não entender nada de apenas uma matéria.

– ZAROLHO – sujeito que tira uma pequena para dançar e saem as duas.

– Datilógrapha conservadora é a que não se conphorma com a ortographia moderna.

– Dalitófraga estrábica é a que passa o dia inreito trocadno as lestra e as síbalas.

– Datilgfa pregç n/ precis nem compl as plavras.

– Datilógrafa de kolunixta çossial tem de comtar mezmu é com a revizãu.

Cartas:
— Sou branca, meu marido é branco e tivemos um filho preto. Como o senhor explica isso?
(Jandira – Ceará)

— Lamento muito, mas quem tem de se explicar é a senhora. Vocês que são brancos que se entendam.

Acidente:
Leocádia era dessas que tinha verdadeira alucinação por “lingerie”. Pra ela, o mais importante na linha da elegância era a roupa de baixo. Todos os dias, chegava em casa, abria os embrulhos na frente do marido, exibia calcinhas com bordadinhos e rendinhas de todas as cores e de todas as qualidades de tecidos. O marido não entendia:

— De que adianta tudo isso, se ninguém vê?

Ela sorria orgulhosa:

— É o que você pensa. Pode dar um ventinho na rua, sabe lá?

Um dia ele estava no escritório, quando o chamaram ao telefone. Era do Hospital dos Acidentados, pra lhe comunicar que a sua mulher havia sofrido um desastre. Correu pra lá e assim que fez a descrição da mulher, um enfermeiro disse pro outro:

— Ei, você aí. Leve este senhor naquele quarto. Está procurando aquela senhora sem calça.

Teve um troço, foi medicado ali mesmo. Duas semanas depois de Leocádia ter alta, ele continuou no Hospital, em convalescença.

Fonte:
O Homem ao Quadrado
http://www.releituras.com/leoneliachar_homem.asp

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Leon Eliachar (Conheça-se a si mesmo)

VOCÊ É NERVOSO?

1 – Você buzina uma fração de segundo após abrir o sinal, porque acha que o carro da frente não quer andar?

2 – Você acha que o sujeito de trás é um imbecil, quando se dá o inverso: isto é, quando você está na frente e ele buzina atrás?

3 – Você tem vontade de sair do carro e massacrar o motorista de cada táxi que lhe dá uma “fechada”?

4 – Você acha realmente que todo pedestre que atravessa na frente de seu carro é um idiota?

5 – Você tem vontade de abandonar o carro pro resto da vida, quando fura um pneu no meio da estrada?

CONCLUSÃO: Se respondeu “sim” a todas as perguntas, você não é, absolutamente, um nervoso, mas simplesmente um motorista. Se respondeu “não” a qualquer das perguntas, siga este conselho: por que não compra um carro?

VOCÊ É MEDROSO?

1 – Quando alguém fica batendo com o pé na sua poltrona, num cinema você evita reclamar por que aí mesmo é que o sujeito pode insistir?

2 – Quando o elevador enguiça entre dois andares e a campainha de emergência não funciona, você grita por socorro ou senta calmamente e espera que o porteiro descubra que o elevador enguiçou?

3 – Quando o dono da casa abre a porta pra você entrar, você vai logo perguntando se tem cachorro?

4 – Quando você está acompanhado de uma moça, evita passar no meio de um grupo de rapazes, com receio que dêem piadinhas para ela e você tenha de tomar uma atitude?

5 – Quando você vai à praia e vê, no posto, uma bandeirinha vermelha, deixa de cair n’água?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “sim” a todas estas perguntas, desculpe, mas é muito chato. Se respondeu “não” é mais chato ainda, parque demonstrou que não teve nem coragem pra responder “sim”.

VOCÊ TEM COMPLEXO DE INFERIORIDADE?

1 – Quando você vê na praia um atleta, pensa intimamente que, amanhã vai começar a fazer ginástica?

2 – Quando sua calça rasga-se na rua, fica constrangido por que podem pensar que você já saiu com ela assim de casa?

3 – Quando você vê uma mulher muito bonita, pensa logo na sua – que não é tanto – mas fica satisfeito mesmo com a que tem, por que acha que não pode ter melhor?

4 – Quando você se olha no espelho, de manhã, procura se justificar de que a que vale mesmo é a simpatia?

5 – Se você é casado, deixa de confessar isso, num grupo de solteiros, com vergonha que pensem que você é otário, ou se é solteiro, também esconde, com receio que pensem que você não conseguiu casar?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “não” a todas estas perguntas, não se preocupe, você não tem complexo de inferioridade; se respondeu “sim”, pode começar a se preocupar, porque se você não tinha complexos vai começar a ter, agora.

VOCÊ TEM BOA MEMÓRIA?

1 – Você se lembra em que dia da semana conheceu sua mulher?

2 – Você se lembra do número do telefone da sua primeira namorada?

3 – Você se lembra do número de páginas que tinha o primeiro livro que você leu?

4 – Você se lembra com quantos dias de atraso recebeu o seu primeiro ordenado?

5 – Você se lembra de que cor era o vestido de sua tia mais velha, no dia em que você caiu da bicicleta pela primeira vez?

CONCLUSÃO: Respondeu-se “sim” a todas as perguntas, esteja certo: você é um fenômeno. Mas se você argumentar que não pôde responder por que nunca leu um livro, sempre recebeu em dia e nunca levou tombo de bicicleta, então esteja mais certo ainda: Você é um fenômeno muito maior.

VOCÊ É DISTRAÍDO?

1 – Você costuma reparar quando sua mulher, noiva ou namorada põe um vestido novo?

3 – Você costuma se lembrar, exatamente, em que pedaço do filme chegou ou tem que ver mais um pedacinho?

5 – Você costuma, todo ano, cair no dia primeira de abril?

2 – Você tem o hábito de atravessar a rua sem olhar para os dois lados?

4 – Você costuma conversar com uma pessoa durante horas, sem prestar atenção, tentando descobrir de onde é mesmo que você a conhece?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “sim” ou “não” a qualquer destas perguntas, isso não tem a menor importância; mas se você não reparou que a numeração deste último teste está completamente alterada, então, meu caro, você não é um distraído, é mais que isso: é um ceguinho. E daí, vai bater?

Fonte:
Conheça-se a Si Mesmo
http://www.releituras.com/leoneliachar_conheca.asp

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Nicodema Alves (1900 – 1967)

A poetisa NICODEMA ALVES vem de estrear nas letras nacionais com seu livro de versos: OCASO. Não se há negar que a beletrista caetiteense, sujo talento honra a Bahia, revela, através da sua poesia, um lirismo espontâneo, terno e evocativo, plasticidade de idéias, um desencatado pessimismo em face da vida, não isento de ironia e ceticismo, que não desapontam, contudo, os leitores, pois tudo que escreve e descreve é emoldurado na brilhante e colorida paisagem de nossa natureza tropical.”
João Guimarães Filho

Biografia e Obra

Nicodema (Anísia de Souza) Alves nasceu em 15 de setembro de 1900 na cidade de Caetité, filha de Vicente Custodio de Souza e de Maria Anísia de Souza. Em Caetité passou toda a sua infância e adolescência no sítio da família.

Com a morte de sua mãe, ainda muito jovem ficou responsável pela educação de seus dois irmãos mais novos. Mais tarde, aos 21 anos casou-se com Avelino Domingues Alves, comerciante conceituado da região, com quem teve sete filhos.

Até então, suas viagens para Salvador se davam pela necessidade de tratamento médico, pois a escritora sofria de uma séria bronquite asmática, seqüela adquirida na juventude quando esteve refugiada por vários dias com os moradores locais em um acampamento improvisado, enquanto o cangaceiro Lampião e seu grupo ocupavam e saqueavam a região. Mais tarde a doença se agravou, e na idade madura transformou-se em enfisema pulmonar.

Desde jovem teve diversas atuações na sua cidade, foi professora primária da escola da Paróquia, atuou politicamente a favor de seu município, tornando-se líder política do Partido Liberal e intervindo junto às autoridades locais para melhorias, bem como, também, foi responsável pela formação da Filarmônica que tomou o nome de “Iracema”. Dessa maneira, Nicodema Alves foi uma pessoa muito conhecida e admirada em Caiteté.

Preocupada com a instrução dos filhos mudou-se, definitivamente, para a cidade de Salvador, onde realizou um curso de alta costura em um ateliê de estilo francês, dirigido por Madame Lamartine, vindo mais tarde a montar o seu próprio ateliê.

A escritora sempre se dedicou à leitura, atividade que realizava, quando pequena, às escondidas. A sua vasta leitura foi iniciada a partir do contato com a sua professora primária, Jovina Trindade, que a influenciou bastante na leitura de diversos autores ao abrir sua biblioteca particular à jovem.

Ainda adolescente, Nicodema Alves iniciou escrevendo versos e experimentou outros gêneros. Segundo depoimento de sua família, tem-se notícia que a poetisa colaborou em alguns jornais de Caetité, material que ainda se encontra disperso ou perdido, por falta de exemplares nos acervos das bibliotecas.

Nicodema Alves só veio a publicar um livro de versos, intitulado Ocaso (1966), já no fim da vida, porém, não teve a alegria de ver o seu lançamento que ocorreu um ano após a sua morte que se deu em 1967. Neste livro de poemas, ela reúne composições selecionadas por ela e por seus amigos poetas.

Além de Ocaso, a escritora, conforme depoimento de sua filha, Avany Alves, deixou uma grande quantidade de poemas e textos de outros gêneros que ainda se encontram inéditos

Nicodema Alves faleceu em Salvador em 26 de maio de 1967.

Lançado em 1966, em Salvador, pela Fundação Gonçalo Muniz, “OCASO” reúne os poemas da escritora caetiteense. Transcrevemos aqui alguns dos comentários prefaciadores desta obra, dentre os quais o do saudoso professor da Faculdade de Direito da UFBA, Sylvio Santos Faria:

Poente no Céu… Ocaso na vida…
Na quadra em que nos abeiramos das realidades que a visão anterior nos empolgou em tempos idos, em quadras pretéritas, foi que a poetisa NICODEMA ALVES veio dar-nos à visão deslumbrada, rendida à inteligência, o seu livro de versos – OCASO.

Ela veio comprovar que o talento não envelhece, que o veio, a catra do cérebro traz, ao de sempre, aos garimpeiros do ideal, riquezas fabulosas que abateia do sonho recolhe dos garimpos fecundos.

Bem haja quem, já nessa quadra da vida, faz vibrar as centelhas da inteligência, para a revelação dos sonhos já sonhados que amealhou e, somente agora, os exibe em páginas reveladoras de emotividade e beleza.”

“”Ocaso”, livro de versos, da autoria da poetiza Nicodema Alves, a bem dizer, não é um livro de estréia. De há muito a sua poesia conheceu o calor e a luz do sol através do privilégio dos que integram o seu vasto círculo de relações e podem se deliciar com a leitura de seus versos. Nessa condição, sem qualquer outra autoridade, venho testemunhar, a par da excelência da forma e do conteúdo, a madureza dos motivos.

Embora variando de temas, uns de inspiração naturalística, outros de profunda abstração, em todos os versos encontra-se presente a projeção de uma sensibilidade artística, que o sofrimento somente fez exasperar.

A Autora, por entre a moldura de seu quarto, divisa, por força essa sensibilidade fora do comum, uma paisagem humana, que passa despercebida a quase todos nós. A tônica da poesia, que analisamos, é o sofrimento, mesmo quando ele se manifesta pelo contraste entre o esplendor naturalístico do ambiente, que inspira o verso, e a condição humana da sua criadora.

Há em “Ocaso” um conteúdo lírico, que toca profundamente as almas bem formadas, provocando a emoção nos que dedicam à Autora sincera amizade.”
Salvador, agosto de 1966 – Sylvio Santos Faria

Fontes:
Nicodema Alves por Margarete de Carvalho (graduada em Letras pela UFBA) e Ívia Alves
http://br.geocities.com/acadcaetiteenseletras/index2.html

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Nicodema Alves (Poesias: Ser Bom – Caetité)

SER BOM

Alguns anos presa ao leito do sofrimento.

Como pode ser bom quem chora na prisão,
Quem mendiga um carinho, um pouco de afeição?
Como pode um cativo exercer a caridade?
Não pode demonstrar, mesmo o intente, a bondade!

Mesmo que fosse um Justo, um paladino, um santo,
Como a chaga curar? Como secar o pranto?
Como sorrir à infância, ao cego dar a mão,
Dar pão para o mendigo, amparo ao ancião?

Sim, é fácil ser bom, mas não no cativeiro!
Preso à cela a chorar, sorrir ao carcereiro?
Dizer palavras que se envolvam de ternura?
Oh! Como falas bem! Não vês essa amargura…

Como o amor demonstrar, a bondade expandir,
Espalhando o sorriso, a vida colorir,
Quem vive ao desamparo, a definhar, sozinho?
Impossível ser flor, só pode ser espinho!

CAETITÉ

Já se finda a madrugada!
Pela insônia torturada,
“Vou cantar a minha terra
E as riquezas que ela encerra!”
Caetité tradicional,
És tu meu berço natal!
Tens passado glorioso,
Que fez teu nome famoso,
Foste princesa adorada,
pela fama bafejada,
Porém, cidade querida,
Vives tão longe, escondida…
Tu guardas nos teus rincões
O ouro todo dos sertões!
Daria pra libertar
Todo o Brasil secular!
Nas areias dos teus rios,
Como a lançar desafios
A quem o queira ir buscar,
Na bateia o peneirar!
Na raiz das tuas gramas
Quais fios de filigranas,
Se o sertanejo as capina,
Ele descobre uma mina!
E os veios grossos que encerras
No seio das tuas serrras?
Minérios em profusão,
Tens debaixo do teu chão!
Tu vives, princesa amada,
Entre as serras debruçada,
Ouvindo o vento cantar,
Entre as palmas estalar,
Na profusão dos coqueiros
Que se contam aos milheiros!
Minha cidade bonita,
Mesmo antiga, és tão catita!
No pensamento a rever,
A saudade faz doer!
Recordo as manhãs brumosas,
Onde neves vaporosas
Levantam de tuas fontes,
Cobrem o cimo dos montes!
Tu foste o berço natal
De César Zama imortal!
Plínio de Lima e João Gumes
Foram chispas dos teus lumes!
Aquele grande poeta
Teve lirismo de esteta!
Anísio, Rodrigues Lima
Nomes que a fama sublima,
E muitos nomes famosos
De filhos teus, valorosos!
No teu seio, sepultados
Estão meus pais muito amados,
Meus irmãos muito queridos,
Jamais serão esquecidos!
Adeus, cidade bonita,
Ó terra minha, bendita!
Com teu passado de glória,
Estás na minha memória
Embora eu viva distante,
Jamais te esqueço um instante,
Tudo o que é teu rememoro,
Ó mater que eu tanto adoro!

Fontes:
Nicodema Alves por Margarete de Carvalho (graduada em Letras pela UFBA) e Ívia Alves
http://br.geocities.com/acadcaetiteenseletras/index2.html

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Plínio de Lima (1847 – 1873)

Plínio de Lima: O Primeiro Poeta de Caetité

O poeta Plínio Augusto Xavier de Lima nasceu em Caetité, aos 17-10-1847, numa casa onde hoje está a residência episcopal, filho do Ten. Cel. Antonio Joaquim de Lima e D. Francelina de Albuquerque Lima. Estudou Direito no Recife, onde travou amizade com Castro Alves, junto a quem fundou uma associação abolicionista, sendo em vida mais popular e conhecido que o confrade. Em trajetória inversa ao colega Ruy Barbosa, migrou da Faculdade do Largo de S. Francisco, em S. Paulo, para Pernambuco, onde formou-se retornando para a terra natal onde adoece, falecendo aos 17 de abril de 1873. Parte de seus poemas, ínfima, foi recuperada por João Gumes e publicada em 1928 pela “Seção de Obras d’O Estado de São Paulo”, sob o título de “Pérolas Renascidas”.

Quase perdida, com o concurso do Sr. Sylvio Gumes Fernandes, Acadêmico Emérito da ACL, foi reeditada eletronicamente pelo Município, em 2002.

Dr. Plínio Augusto Xavier de Lima, filho legítimo do Tenente Coronel Antonio Joaquim de Lima e de D. Francelina de Albuquerque Lima, nasceu na Cidade de Caetité, no Estado da Bahia, a 17 de Outubro de 1847.

Fez curso primário na terra natal, e iniciou o secundário com o professor Theotonio Soares Barbalho que regia a cadeira pública de latim naquela cidade.

Seguindo para a Capital do Estado, continuou o estudo de preparatórios no Gymnasio Bahiano, do saudoso diretor Dr. Abílio César Borges, Barão de Macaúbas, estudos que foi terminar em S. Paulo e Pernambuco, centros de intensa cultura para o jovem Plínio que assim ilustrara o seu tirocínio colegial e acadêmico.

Em 1867, matriculou-se na Faculdade de Direito de Pernambuco onde, por seu amor ao estudo e peregrinas virtudes, conquistou, por entre a estima geral de mestres e colegas, com aprovações plenas e distintas, o grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais, em 29 de Novembro de 1871.

As suas tendências literárias, que se manifestaram desde os bancos escolares, fizeram-no poeta sagrado pelas musas.

Espírito superior, pertenceu a uma geração acadêmica distintíssima e tornou-se, graças às fulgurações do seu belo talento, fortalecido pelo estudo, um cultor primoroso do verso.

Assegura um dos seus contemporâneos – o jovem Plínio de Lima “era uma figura original de sertanejo: de cabeleira aloirada e olhos verdes, apresentando-se sempre com requintes de elegância de um parisiense, e primando por um espírito cintilante, por vezes finamente mordaz, só saindo de seu aspecto expansivo e risonho na hora da luta, em que se transformava num valoroso guerreiro.
Uma compleição de ateniense que fazia lembrar Alcebíades
.”

Homem de ciência, poeta e escritor, gozou sempre do alto apreço que dão as prendas do estudo e da inteligência.

Nas teses cientificas e literárias que se apresentavam, nas discussões eruditas que se travaram, a sua palavra eloqüente soava sempre com prestígio singular.

Múltiplas e superiores foram as manifestações de seu estro nesse último período de sua jornada acadêmica: nos comícios escolares, nas manifestações patrióticas dessa época de guerra, nas solenidades em que se iniciava, pujante, a cruzada emancipadora, a sua voz, de uma sonoridade empolgante, era sempre ouvida com encanto.”

Espírito liberal, não foi como já vimos o jovem acadêmico estranho à causa do abolicionismo, em Pernambuco, pois, fundou, em 1867, com Castro Alves, Ruy Barbosa e João Baptista Regueira Costa, uma sociedade abolicionista que tinha a missão generosa de combater a escravidão, numa época em que era um crime não a ação, mas a simples palavra em favor da raça negra no Brasil, sendo seu presidente o glorioso Cantor dos escravos.

Estudioso, inteligente e sempre festejado pela mocidade do seu tempo, publicou Plínio de Lima, no Correio de Pernambuco, versos, sátiras e folhetins, cheios de humor, sobre fatos da vida social ou acontecimentos públicos da época, sob o pseudônimo de Lucio Luz.

Aos 19 anos de idade, prefaciando Lésbia, livro de versos do poeta baiano Antonio Alves de Carvalhal, foi Plínio de Lima, “definitivamente consagrado um dos primeiros literatos em uma legião de 500 acadêmicos“.

Quando, em 1871, os doutorandos ofereceram ao Dr. Aprígio Justiniano da Silva Guimarães o seu retrato, foi Plínio aclamado o seu intérprete, missão que desempenhou em um discurso de peregrina eloqüência, publicado na imprensa pernambucana com elogiosas referências.

Não cabe, nos estreitos limites destas linhas singelas, de homenagem à sua memória, o estudo de sua obra literária, na qual figuram versos primorosos suficientes para lhe dar reputação de poeta.

O verso lírico foi a constante preocupação do poeta, cuja morte prematura tanto deploram as letras pátrias.

Faleceu o Dr. Plínio Lima na Cidade de Caetité, a 17 de Abril de 1873, contando apenas 26 anos de idade.

O seu enterro, escreve um contemporâneo, foi uma apoteose porque o Dr. Plínio era muito querido, por seu trato cativante, talento de escol e pelo muito que trabalhara pelo progresso de sua terra natal, a começar pela construção de um bom teatro, para o qual deixou o dinheiro que adquirira em subscrição.

Deixou muitas produções inéditas, entretanto não deixou livro publicado.

Entre suas poesias uma logrou grande popularidade, graças ao sentimento artístico de Xisto Bahia, que a pôs em música. Era a modinha preferida da mocidade e fez época na capital da Bahia.

Com o seu título – Ainda e sempre – é a seguinte:

Quis debalde varrer-te da memória
E o teu nome arrancar do coração!
Amo-te sempre! Que martírio infindo!
Tem a força da morte esta paixão!…

Eu sentia-me atado aos teus prestígios
Por grilhões poderosos e fatais;
Nem me vias sequer, – te amava ainda!…
Motejavas de mim, – te amava mais!…

Tu me vias sorrir. Os prantos d’alma
Só confiam-se a Deus e à solidão!…
Tu me vias passar calmo e tranqüilo,
Tinha a morte a gelar-me o coração!…

Quantas vezes lutei co’o sentimento!
Quantas vezes corei da minha dor!…
Quis até odiar-te… amava sempre
Sempre e sempre a esmagar-me o meu amor!

Em diversos cadernos, deixou o Dr. Plínio de Lima, colecionadas as suas poesias, ainda em grande parte inéditas, em poder de pessoas de sua família, mas devido à bela iniciativa do Dr. Affonso Fraga, ilustre filho de Caetité e conceituado advogado na capital de S. Paulo, foram elas, em parte, editadas à sua custa, no bonito livro, ora publicado que é o justo valor dos méritos do genial poeta Plínio de Lima.

Colaborou nesse generoso empenho, a pedido do Dr. Affonso Fraga, o ilustre professor João Gumes, distinto homem de letras e conhecido jornalista que se desempenhou com louvores da sua honrosa incumbência. O livro em apreço, impresso em papel superior, com capa alegórica, nas oficinas do Estado de S. Paulo, em 1928, recebeu, em falta de um nome dado pelo poeta, o título expressivo Pérolas Renascidas.

Da edição feita, apenas reservou o editor alguns exemplares que distribuiu pela imprensa e escritores de renome, remetendo para a cidade de Caetité os restantes para serem oferecidos, em partes iguais, à Caixa Escolar e à Sociedade das Senhoras de Caridade.

É mais um duplo e valioso serviço prestado pelo benemérito caetiteense à assistência social e às letras pátrias, fazendo ressurgir do olvido a que foi relegado, o nome do laureado poeta, para torná-lo redivivo no Panteão da nossa literatura.

Para julgar a importância da justa homenagem, prestada à memória de um poeta que muito honrou as letras e especialmente a terra do seu nascimento, transcrevemos abaixo o judicioso artigo do Diário Popular, de S. Paulo:

… Plínio de Lima, cujos trabalhos só agora saem a lume devido ao entusiasmo generoso de um admirador póstumo, faz parte daquela plêiade de talentosos rapazes que de 67 a 75 fizeram as delícias da mocidade baiana e pernambucana, irmanada sob as torres de Recife.

Condoreiros ricos de hipérboles, fascinantes de tropos, enchiam, com os seus lundus, com a poesia popular, as ruas de Olinda, as Academias de Recife.

Plínio de Lima, como Castro Alves, fizeram a alegria das raparigas do norte, depois de deixarem um sulco nostálgico na sua terra natal, a Bahia.

Num e noutros, sente-se não a influência da época, a influência do meio, o prestígio de Tobias Barreto que arrebatava as multidões.

Mais feliz, Castro Alves teve como cenário o palco do Santa Isabel com toda a munificência perdulária da cultura e inteligência baiana, de então.

Mais modesto, Plínio de Lima não alcançou o apanágio da glória e nem os prestígios sobre o coração feminino, quanto Castro Alves.

Ambos perlustraram o mesmo caminho: as Faculdades de Recife e de S. Paulo.

Ambos amaram, um em segredo, outro retumbantemente, pelos camarins das estrelas da época.

Mas, nenhum deles morreu de todo.

De Castro Alves a apoteose foi rápida: fê-la Ruy Barbosa, numa festa decenária na capital da Bahia; a apoteose de Plínio de Lima vem de a fazer o Snr. Affonso Fraga.

O entusiasmo do seu patrono é sincero e ainda vem a tempo.

A sua melhor recomendação fizeram-na o fulgor do seu talento, a beleza e o encanto dos seus versos, a delicadeza extrema com que canta os sonhos de moço e traduz os sentimentos dominantes na mocidade da sua época, em suma, tudo quanto a sua imaginação e organização poética produziram de belo e sensível em linguagem rítmica.

Affonso Fraga, que lhe patrocina a entrada nos umbrais gloriosos da popularidade, salvou do olvido um dos 5 cadernos legados pelo poeta, 4 dos quais soçobraram no oceano do tempo.

Daí denominar os preciosos remanescentes – Pérolas Renascidas.

E fê-lo com a sinceridade elegante de quem sabe afirmar:
No que toca à dedução da harmonia, à propriedade das imagens, à precisão das figuras, à exação da rima, à justa observância dos preceitos da arte poética, enfim, ao merecimento intrínseco dos versos, nada diremos: somos profanos na matéria.”

É uma afirmação errônea, porque, emocionado pelo talento de Plínio de Lima, fez-se não só seu divulgador, através do tempo, mas crítico sincero.

Esse pequeno volume que, por sua iniciativa, saiu das oficinas do Estado de S. Paulo, é a consagração do vate baiano.

Poderá a rima antiquada e o lirismo de antanho desagradar aos iconoclastas de hoje, mas a beleza de expressão talhada nos mármores de Paros, com a beleza também helênica da forma, ainda não foram vencidas, mesmo pela violência dos gênios da grandiosidade de um Miguel Ângelo.

Eis uma amostra magnífica:

Eu choro ao recordar estes instantes
de suprema ventura que me davas
Carinhosa e divina…
Eu contava-te a história de meus sonhos,
Tu me contavas – inocente e alegre –
Teus sonhos de Menina
.

Mas a glória é falaz.

Para Castro Alves foi bondosa e rápida; para Plínio de Lima, tardia, posto que igualmente bondosa.

Sua obra não se perdeu de todo; houve um pescador de pérolas que a soube salvar.

Fontes:
Plínio de Lima por Pedro Celestino da Silva (in Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – n.58 “Notícias Históricas e Geográficas do Município de Caetité – IGHB, Salvador, 1932)
http://br.geocities.com/acadcaetiteenseletras/index2.html

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Deusdédti Ramos (Conta de Cabeça – O Sorteio)

CONTA DE CABEÇA
.
Sujeito vaidoso sobrevoando a fazenda, em companhia de um amigo, se gabava mostrando a propriedade. Ora uma enorme plantação de café, ora de laranja, ora de outra cultura. Estava de peito estufado e o amigo simplesmente incabulado com as dimensões do patrimônio do amigo, não tecia o menor comentário.

Quando sobrevoaram uma enorme invernada onde uma quuantidade incalculável de gado pastava, o amigo pediu para o piloto fazer um vôo razante sobre os bichos. Ao terminar o vôo razante, que durou uns dez minutos,o amigo exclama exausto: – Puxa! Quinze mil, trezentas e quarenta e oito cabeças?

O outro intrigado, pergunta: – Como é que voce sabe que é este o numero de cabeças?

– Foi fácil. Foi só somar as patas e dividir por quatro.
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O SORTEIO

Durante uma assembléia onde participavam pessoas de ambos os sexos com idade de 10 a 95 anos.

Em um dado momento, para descontrair, um dos organizadores, tomando a palavra, propôs aos participantes um sorteio:
– Atenção, pessoal, quem quiser participar de um sorteio, por favor levante a mão.

No mesmo instante, praticamente 90% dos quase duzentos presentes levantou a mão, mesmo não sabendo o quê seria sorteado.

Uma explicação se seguiu:
– Nós vamos sortear uma barra de chocolate, permaneça com a mão levantada quem quiser ganhar uma barra de chocolate.

Os 90% foi reduzido a mais ou mais de 40%.

Então o interlocutor, para esclarecer disse:
– Pessoal, a barra de chocolate é esta aqui – aí mostrou uma barrinha de Bis.

Houve um breve silêncio e o número de mãos levantadas caiu para pouco mais de trinta.
– Muito bem! Vocês concordam que escolhamos dentre as pessoas de mãos levantadas, a pessoa mais jovem?

Todos concordaram e o prêmio foi entregue a uma garota aparentando ser a mais nova.
– Agora vamos sortear esta caixa com cocô de cavalo. Levante a mão quem deseja ganhar este prêmio.

Houve um tremendo zum-zum-zum e algumas gargalhadas. Quando tudo se acalmou, notou-se um garoto de uns doze anos com a mão levantada. O organizador chamou a atenção de todos para o fato e todos os olhares se convergiram para o ponto, no canto, onde estava o garoto, sério e decidido.

O silêncio foi quebrado com esta pergunta do organizador:
– Meu bom garoto, você entendeu bem o que contém esta caixa? Para que é que você quer este com cocô de cavalo?

A resposta foi breve e inteligente e direta.
– É que gosto de cultivar algumas plantinhas e com certeza isto servirá como esterco. Nada tenho a perder. É um prêmio, não é? Meu avô já dizia: “ Cavalo dado não se olha os dentes”

O organizador para não cometer injustiça, sentindo como se o garoto estivesse adivinhando, resolve perguntar mais uma vez:
– Ninguém mais quer concorrer a este prêmio?

Silêncio geral.

– Bom, meu garoto, então você acaba de ganhar: uma caixa com a bosta do cavalo e o próprio animal que a eliminou. Trata-se de um cavalo da raça Puro Sangue Inglês de dois anos e meio, inteiro, e que vale perto de R$280.000,00, doado por um proprietário de um Haras, aqui da redondeza. Meus parabéns! Aqui está a caixa com seu conteúdo e uma carta/autorização para retirada do magnífico animal, quando você achar melhor.

Fonte:
Sítio do Caipira. Causos. http://eptv.globo.com/

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Artur da Távola (Espirro é quase gripe)

Nessa época de verão, dengue e outras gripes, lembro de algo que deve infectar (silenciosamente) muito mais que o famoso mosquito que azucrina o verão de países tropicais.

Você já viajou em ônibus, carro ou avião com um cara a tossir ou espirrar? Há uns muquiranas sentados atrás que chegam a molhar a nuca de quem está no banco da frente com os perdigotos. Há outros que explodem tosses expectorantes e tenebrosas! E a gente ao lado. Ou na frente. Falta de educação? É pouco. Esses pelintras são inimigos públicos, pestes ambulantes. No avião, porém, é mais grave.

As companhias de aviação insistem no hábito de não advertir os passageiros para não espirrar ou tossir fora do lenço. E como se espirra em avião fechado! Ônibus também. Arre!

Vi há anos um filme educativo canadense que mostrava a nuvem de germes e perdigotos, de metro e meio de diâmetro, lançada no ar a cada espirro. Em menor tamanho porém bem mais contaminada é a nuvem de perdigotos e germes espargidos pela tosse.

O avião, quando em vôo, é um sistema fechado. Iguala o espirro no elevador: o que ali se ejeta, ali circula, infecta ao léu. Idem ônibus, carro, sala. Espirrar fora do lenço prova falta de civilidade, higiene e educação. É ruim, hein!…

O espirro é uma cusparada. Só que em fragmentos. Tem a mesma malignidade e idêntico (ou talvez pior) teor de contágio porque se espalha.

Quando eu era criança havia escarradeiras. Era o medo da tuberculose. Que voltou!… Ainda recordo a instrução: “Pise no pedal”. As piadas gozavam um político da época, muito ignorante, de quem diziam que para simular cultura, lia a frase como se fosse em inglês, assim: “paise nou pidal”….

Soar, assoar, assolar, espirrar (palavra que em castelhano é ainda mais expressiva: “estornudar”), tossir, perdoem o mau gosto, leitores e leitoras mas quem vai no ônibus ou avião, com um cretino ao lado ou atrás a espirrar e espirrar sem o fazer de modo educado no lenço, expondo-nos a contágios, leva o cronista a esta crônica algo escatológica mas de alerta às companhias de avião que assim como proíbem fumar na subida, na descida e nos banheiros, deveriam também compelir os passageiros a tossir e espirrar no lenço. Em pouco tempo o contaminador teria vergonha de espirrar na nuca dos demais!

Espirro faz tanto estrago quanto dengue.

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Biografia do Autor e Entrevista podem ser encontradas na postagem de 01 de janeiro de 2008
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Fonte:
http://www.arturdatavola.com/

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Roberto Protti (1923)

Roberto Protti, nasceu na cidade de São Paulo, em agosto de 1923. Nos seus oitenta anos, guarda muitas recordações preciosas: da infância no bairro tumultuado e alegre, dos tempos de Grupo escolar e Ginásio e de sua atividade como executivo de vendas, que o ajudou a aguçar seu senso de observação. As reflexões que o acompanharam nessa longa caminhada e o hábito de ler bons livros despertaram seu interesse em escrever. Por duas vezes, participou do Concurso “Talentos da Maturidade”, promovido pelo Banco Real. Foi convidado a participar de todas as edições seguintes do concurso, mas declinou do convite por estar empenhado na composição da presente obra. O embrulho inédito é seu primeiro livro. “Inédito”, portanto, na autoria e não só no conteúdo.
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Sobre o Livro
Embrulho Inédito, O. Editora Novo Século. 2004.

O Embrulho Inédito é um livro diferente da grande maioria dos bons títulos em circulação, por se tratar de assuntos diversos reunidos num só livro. Apresentado em quatro partes distintas, pode agradar o leitor. Na primeira parte, “Contos e humor”. Os contos prendem sua atenção e o humor diverte o leitor. Na segunda parte, “Curiosidades, onde o relógio tem algo em comum com muitas pessoas e outras curiosidades, frases e conselhos interessantes. Na terceira parte, “Filosofia mística” ? um assunto sério, porque se tenta provar a existência de Deus e quanto Ele é importante para nós e todo o Universo. A quarta parte, “Ficção Científica” é uma idéia fantasiosa do futuro, mas muito bem colocada para uma vida feliz da humanidade. Em resumo, esta são as razões do título O Embrulho Inédito, um livro original e excêntrico. O Embrulho Inédito é um livro diferente da grande maioria dos bons títulos em circulação, por se tratar de assuntos diversos reunidos num só livro. Apresentado em quatro partes distintas, pode agradar o leitor. Na primeira parte, “Contos e humor”. Os contos prendem sua atenção e o humor diverte o leitor. Na segunda parte, “Curiosidades, onde o relógio tem algo em comum com muitas pessoas e outras curiosidades, frases e conselhos interessantes. Na terceira parte, “Filosofia mística” ? um assunto sério, porque se tenta provar a existência de Deus e quanto Ele é importante para nós e todo o Universo. A quarta parte, “Ficção Científica” é uma idéia fantasiosa do futuro, mas muito bem colocada para uma vida feliz da humanidade. Em resumo, esta são as razões do título O Embrulho Inédito, um livro original e excêntrico.

Fontes:
PROTTI, Roberto. O embrulho inédito. Osasco, SP: Novo Século, 2004. ps.239

http://www.planetanews.com/produto/L/53577/embrulho-inedito–o-roberto-protti.html

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Roberto Protti (O Enterro do Juventino)

O Juventino morreu. Não se perdeu grande coisa. Passou pela vida só arrumando encrenca. Não fez amigos. Inimigos, ganhou diversos. De gênio difícil, não concordava com nada. Mulheres nunca aturou, e por isso era ferrenho celibatário, e sempre morou sozinho. A bebida e outros excessos complicaram o seu gordo corpo, que o levou para outra melhor, nem tão velho nem tão moço.

Agora a providência era depositar sua carcaça na tumba do cemitério.

O enterro não estava fácil, pois ninguém queria gastar na derradeira viajem do rejeitado morto. Mas foi descoberta no seu quarto, bem enfurnada numa gaveta, uma boa importância – resultado da profissão de sapateiro que exercia – e que daria para o enterro. Com alguma sobra, ainda, para a Igreja ajudar a sua alma no outro lado da vida.

Foi arrumado o velório, com caixão de primeira e todos os paramentos. Na sala, os presentes faziam a guarda do corpo e vez por outra se ouvia alguém dizer:

– O Juventino tinha lá os seus defeitos, mas era um bom homem!

– Não há dúvida! – concordava outro.

Em velório, o defunto sempre vira santo.

E lá se iam comentários transformando Juventino em homem de bem. Quanta falsidade! Havia até aqueles que forçavam o choro, inclusive aquele velha, que nunca se deu com o Juventino e agora se debulhava em lágrimas, como uma carpideira. Até o padre, que veio para encomendar a alma do morto, usava palavras com elogios inexistentes, talvez pelo óbolo recebido.

O tempo ia passando e as cenas aconteciam. Uma vela do paramento tombou e a roupa do morto começou a queimar. Houve corre-corre para apagar as chamas, mas o estrago já estava feito.

Alguém segredou:
– Até depois de morto o Juventino apronta!

Em seguida, uma velha deu um grito, pensaram que era piedade do finado. Antes fosse, pisaram seu calo arruinado.

Chegou a hora do enterro, e o carro fúnebre não aparecia. Eram dois quilômetros até o cemitério. Quando já se passavam trinta minutos da hora combinada, com todo mundo impaciente para se livrar da empreitada, eis que chega a notícia de que o carro estava enguiçado. E agora? O enterro tinha de ser feito no muque.

Candidatos para a proeza não apareciam, e o enterro não saía. Depois de marchas e contramarchas, com muita discussão, foi resolvida a questão. O time do carrega-caixão seria substituído a cada quarteirão. E assim seguiu o cortejo, pela Avenida da Saudade, para a última morada de Juventino. O caixão, com o passageiro, estava pesado. Todos que o carregavam, não viam a hora de seu quarteirão terminar. Até que, em dado momento, um mais fracote não agüentou, e largou a alça que empunhava. O caixão se deslocou, os outros não suportaram e a carga caiu no chão. Com o impacto, o fundo se desprendeu e o Juventino sobrou espalhado na rua.

Situação desperadora: com o fundo quebrado, como o defunto seria levado? Achou-se a solução. O caixão foi virado e a tampa passou a ser o fundo. O Juventino foi ajeitado, com o seu travesseiro na tampa e a cara pro outro lado. Como a nova tampa não parava, passaram em volta do caixão vários cintos amarrados dos homens do cortejo, que tiveram de segurar as calças.

Chegando ao cemitério, outra vez confusão. A campa designada estava lotada e os coveiros não estavam de plantam.

Êta Juventino complicado! Arranjando encrenca até depois de morto.

Ninguém mais aguentava estar em companhia do finado. Apareceram, então, pás e enxadas, fizeram um buraco e meteram o caixão. Cobriram rapidamente e mais que depressa foram embora.

Agora o encrenqueiro do Juventino jazia em paz e deixava os outros também.

Fonte:
PROTTI, Roberto. O embrulho inédito. Osasco, SP: Novo Século, 2004. p.106-107.

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Roberto Protti (O Nome)

A cena se passou numa fila do INSS para recebimento do auxílio-doença, igual a muitas que se vêem por este Brasil afora.

– Nome?
– Colosflónio Único da Silva.
– Cavalheiro, não estou aqui para brincadeira! O nome certo? – falou, já meio bravo, o atendente do outro lado do guichê.
– Colosflónio Único da Silva.

E o gajo já foi metendo quase nas fuças do funcionário sua carteira de identidade, para comprovar o seu nome verdadeiro.

– Mas, isso é nome que alguém tenha?
– Mas eu tenho, infelizmente!
– E como é que você se arranja com um nome desses?
– E o que é que eu posso fazer? Matar o meu pai? Ele já está morto há muito tempo! Foi ele quem botou esse nome em mim, e eu, recém-nascido não podia protestar! Meu pai quis que seu filho tivesse um nome inédito no Brasil! E me arranjou esse que só me dá encrenca. Já fui até parar na delegacia por ter esbofeteado uma moça que fez chacota do meu nome. Já apanhei e bati por causa do nome. Não passa um só dia em que não tenha de explicar essa maldita herança que meu pai me deixou. Mas também é tanta praga que eu rogo para ele, que até o seu esqueleto deve dançar no caixão!

Logo atrás do infortunado, um homem “gordo às pampas” ria e falava:

– Isso não é nada! Podia ser pior!

Mas foi logo fulminado com o olhar de “poucos amigos” do proprietário do nome e até a “autoridade” do guichê se pronunciou:

– Cavalheiro, o assunto não lhe diz respeito. Cale-se!

Depois do atendimento ao único dono de tal nome no Brasil, que por sinal tinha de voltar, pois, como sempre, faltava um documento para satisfazer o Instituto, lá se foi ele embora todo chateado.

Murmurou entredentes o funcionário: “Cada nome que me aparece neste guichê!”

– O próximo. Nome?
– Paquiderme Junqueira.

Fonte:
PROTTI, Roberto. O embrulho inédito. Osasco, SP: Novo Século, 2004. ps.75

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Eliane Potiguara

Eliane é escritora indígena, professora, mãe, avó, 54 anos, remanescente Potiguara. É Conselheira do Inbrapi, (Instituto Indígena de Propriedade Intelectual) e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet e o Grumin/Rede de Comunicação Indígena.

Eliane foi indicada para o Projeto internacional Mil Mulheres Para o Prêmio Nobel da Paz. É uma das 52 brasileiras indicadas.

Formada em Letras (Português-Literatura), licenciada em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, participou de vários seminários sobre Direitos Indígenas na Onu, organizações governamentais e Ongs nacionais e internacionais.

Eliane Potiguara foi nomeada uma das “Dez Mulheres do Ano de 1988”, pelo Conselho das Mulheres do Brasil, por ter criado a primeira organização de mulheres indígenas no país: Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena), e por ter trabalhado pela Educação e integração da mulher indígena no processo social, político e econômico no país e por ter trabalhado na elaboração da Constituição Brasileira. Com a bolsa que conquistou da ASHOKA em 1989 (Empreendedores Sociais) mais seu salário de professora e o apoio de Betinho/IBASE e os recursos do Programa de Combate ao Racismo, (o mesmo que apoiava Nelson Mandela ), ela pôde prosseguir sua luta, além de sustentar e cuidar de seus três filhos, hoje adultos.

Em 1990, foi a primeira mulher indígena a conseguir uma PETIÇÃO no 47º. Congresso dos Índios Norte-Americanos, no Novo México, para ser apresentada às Nações Unidas. Neste Congresso, havia mais de 1500 índios. Por isso, participou durante anos, da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos Indígenas”, na ONU, Genebra, por essa razão recebeu em 96 , o título “Cidadania Internacional”, concedido pela filosofia Iraniana “Baha´i”, que trabalha pela implantação da Paz Mundial.

Defensora dos Direitos Humanos, além de vários Encontros, e criadora do primeiro Jornal Indígena e Boletins conscientizadores e cartilha de alfabetização indígena no método Paulo Freire com apoio da Unesco, organizou em Nova Iguaçu/RJ, em 91 outro Encontro inédito e histórico, onde participaram mais de 200 mulheres indígenas de várias regiões, tendo como convidados especiais a cantora Baby Consuelo e vários líderes indígenas internacionais. Organizou vários cursos referentes à Saúde e Diretos reprodutivos das mulheres indígenas e foi consultora de outros encontros sobre o tema.

Em 92 foi Co-Fundadora/Pensadora do Comitê Inter-Tribal 500 Anos (kari-oka), por ocasião da Conferência Mundial da ONU sobre Meio-Ambiente, junto com Marcos Terena, Idjarruri Karajá e muitos outros líderes do país, além de ter participado de dezenas de Assembléias indígenas em todo o país.

Discutiu a questão dos Direitos Indígenas em vários fóruns nacionais, e internacionais, governamentais e não governamentais, diversas diretrizes, estratégias de ordem político-econômica, inclusive no fórum sobre o Plano Piloto para a Amazônia, em Luxemburgo/1999.

No final de 92, por seu espírito de luta, traduzido em seu livro “A Terra é a Mãe do Índio”, foi premiada pelo PEN CLUB da Inglaterra, no mesmo momento em que Caco Barcelos (“Rota 66”) e ela estavam sendo citados na lista dos “Marcados para Morrer”, anunciados no Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, para todo o Brasil, por terem denunciado esquemas duvidosos e violação dos direitos humanos e indígenas.

Em 95, na China, no Tribunal das Histórias não contadas e Direitos Humanos das Mulheres/Conferência da ONU, Eliane Potiguara narrou a história de sua família que emigrou das terras paraibanas nos anos 20 por ação violenta dos neo-colonizadores e as conseqüências físicas e morais desta violência à dignidade histórica de seu bisavô, avós e descendentes. Contou também o terror físico, moral e psicológico pelo qual passou ao buscar a verdade, além de sofrer abuso sexual, violência psicológica e humilhação por ser levada pela polícia federal, por estar defendendo os povos indígenas, seus parentes, do racismo e exploração. Seu nome foi jogado na lama nos jornais do Estado da Paraíba. Tudo isso à frente de suas três crianças na época.

Eliane no último governo foi Conselheira da Fundação Palmares/Minc, é FELLOW da organização internacional ASHOKA, dirigente do Grumin e membro do Women´s Writes World. Eliane participou de 56 fóruns internacionais e para mais de 100 nacionais culminando na Conferência Mundial contra o Racismo na África do Sul, em 2001 e outro fórum sobre Povos Indígenas em Paris, 2004.

Eliane é do Comitê Consultivo do Projeto Mulher_ 500 anos atrás dos panos que culminou no Dicionário Mulheres do Brasil.

É autora de seu mais recente livro ‘Metade cara, metade máscara, Global, pela GLOBAL EDITORA que aborda a questão indígena no Brasil.

Fonte:
http://www.elianepotiguara.org.br/aautora.html

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Eliane Potiguara (Oração pela Libertação dos Povos Indígenas)

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz.
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós – rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontra-la.
Rogai por nós, meu pai-Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós – terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças,
Evitai, Ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé.
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave-dos-céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco ou Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela.
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda manhã.
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus,
Vinde em nosso encontro
Meu Deus, NHENDIRU !
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia de esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres – essa ricas crianças.

*Nhéndiru: Deus
*Mintã: criança
*Boto: um mamífero que mostra o caminho

Fonte:
http://www.elianepotiguara.org.br/canticos.html

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Eliane Potiguara (Cunhataí, a menina sagrada contra o suicídio)

Quando Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata, ela via a mãe das águas. Os sonhos eram o seu direcionamento. Sua clarividência era ancestral. Cunhataí tinha o poder da cura. Onde colocava as mãos, o bem se fazia. Sua mãe, insatisfeita com as invasões dos estrangeiros, tomou erva má, para que a semente que ouvia o espírito da mata, morresse. A erva fez muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um pedaço dela… A mãe desesperançada com sua aldeia, não queria mais as coisas do espírito, negava a terra e a raiz. Ela queria o suicídio. Mas a avó da menina era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda. Tempos depois a mãe renasceu da mudez e da cegueira por uma prova divina e se tornou pajé, sacerdotisa das águas. E a triste avó, cansada das dores, do peso do tempo e do sacrifício, morreu. Mas sua essência permaneceu.

O homem branco, naquela época ria e incutia maus valores em alguns membros do povo… A semente ferida e mutilada nasceu triste e com uma estrela no olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito que quase morreu. Só ficou roxo como uma marca, um sinal e… Sobreviveu para ouvir os espíritos, os antepassados e as velhas mulheres enrugadas pelos séculos. Sobreviveu para compreender o significado das três velhas, cujas seis mãos se transformam em cobras. O velho espírito disse a Cunhataí: Vai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue, um dia, quem sabe, seremos livres! Ela foi pra longe sofrer.

Por isso quando ela retornou à sua aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos do povo a reconheceram, porque ela já era esperada por decisão dos ancestrais, há muitos séculos. O seu olho direito roxo_ o espiritual_ foi identificado pelos líderes conectados com a ancestralidade e pelo pitiguary, o pássaro que ANUNCIA. Os que não reconheceram estão muito além, mas muito além de qualquer tipo de compreensão do que seja essência, transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam seus próprios conterrâneos e incentivavam a discórdia, a inveja, a mentira, a intriga, a luta pelo poder e desconheciam o verdadeiro sentimento de paz, solidariedade, amor ao próximo, companheirismo e cooperação, por isso muitas meninas sofriam. Foram contaminados pelo poder dos neocolonizadores. Só vislumbravam o materialismo, por isso não podiam perceber os sinais dos deuses, dos ancestrais, do Grande Espírito_ a Poderosa Força Cósmica_ existente dentro de todas as boas almas.

Mas Cunhataí, em toda a sua vida seguiu o boto e as ordenações de seus sagrados ancestrais. Muitas mulheres indígenas que ouviram a história de Cunhataí, desenvolveram um útero sadio, porque entendiam que a cosmovisão indígena estava sagradamente vinculada a Mãe-Terra. E começaram a trabalhar e a lutar para melhorar as condições de vida do povo. Ninguém mais se suicidou, porque o amor e o respeito prevaleciam nas famílias, entre o homem e a mulher. A palavra fome nunca mais se ouviu naquele povo, quando também os homens perceberam o mal que haviam adquirido.

Cunhataí deixou a mensagem para que todos os homens e todas mulheres prestassem bem a atenção nos seus sonhos e deles fizessem seus caminhos a partir do respeito pelos velhos e velhas e pelos ancestrais e pelas boas relações de igualdade e respeito entre homens e mulheres!

Fonte:
http://www.elianepotiguara.org.br/

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Eliane Potiguara (Em Memória ao ìndio Chico Sólon)

O texto é o testemunho das lágrimas de uma indígena vendedora de bananas, sua avó a refugiada Maria de Lourdes de Souza, filha do índio Chico Sólon, desaparecido das terras indígenas paraibanas por volta de 1920, quando se instalava ali, a neocolonização da agricultura algodoeira causando a fuga de famílias indígenas, oprimidas pela escravidão moderna.

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma , sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh!!! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas a células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.
Nós somos o primeiro mundo!
Aí queremos viver pra lutar
E encontro força em ti , amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel…
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares
Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.

Fonte:
Eliane Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA” Global editora
http://www.elianepotiguara.org.br/

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Eliane Potiguara (Literatura Indígena: Instrumento de Conscientização)

Avanços na luta do movimento indígena brasileiro têm se dado de forma concreta. Apesar de algumas dificuldades, e apesar de alguns pontos isolados como falta de apoio das políticas públicas ainda, a Educação Indígena _ hoje_ no Brasil já é uma realidade. É uma Educação diferenciada, onde a cosmologia indígena está ali inserida no seu sentido mais amplo. Dentro deste aspecto, há de se situar a Literatura Indígena como um instrumento de conscientização, força e libertação.

Essa Literatura deve ser incentivada através da Educação Indígena, no dia a dia das escolas, para que os próprios indígenas sejam realmente os interlocutores de suas culturas, tradições e visões de vida. No entanto, outro aspecto de fundamental importância há de se considerar. É a tradicionalidade do discurso oral pelos componentes mais idosos, idosas e pajés da comunidade que não pode, de forma alguma, ser ignorado. Na realidade, esse discurso é a base sólida, é a conceituação, são os princípios primordiais étnicos que fundamentam essa tradição e que fundamentarão a escrita, a partir de valores lingüísticos próprios de cada povo indígena.

Diante do mundo moderno e de alguns aspectos maléficos da neocolonização e globalização, se reforça que é necessário o registro escrito, realizado pelos próprios indígenas como uma medida de precaução e cuidado para que o “contar” e historiografia indígenas, não caiam no domínio público, ou que terceiros ou instituições sejam beneficiados nos aspectos financeiro, histórico e moral pelos direitos autorais.

Povos indígenas do mundo inteiro lutam, através dos fóruns nacionais e internacionais pela conservação da cosmologia, contra predadores naturais ou impostos, no caso de filosofias burguesas, religiosas, filosofias de cunho “pátreo-pseudo-moral”, filosofias coloniais ou imperialistas. O empobrecimento social das etnias também é um fator que causa a perda dos valores culturais, espirituais, éticos. Ali as mulheres, as crianças e os velhos e as velhas acabam sendo muito mais sobrecarregados pelo peso da discriminação social e racial, como é o caso da situação de fome e suicídio no Mato-Grosso do Sul/Brasil. O empobrecimento e a destruição das terras indígenas também são fatores de alto risco. Centenas de exemplos se têm dessa situação.

A literatura indígena cumpre o papel de resgate, preservação cultural, fortalecimento das cosmovisões étnicas.O futuro escritor indígena deve ser já incentivado, na aprendizagem da Educação bilíngüe e Educação em geral, desde pequeno. O escritor indígena é o futuro antropólogo, aquele que vê, enxerga e registra. Povos indígenas devem caminhar com seus próprios pés.

Núcleos de pensadores e escritores devem ser também incentivados e capacitados dentro das Organizações indígenas, assim como muitas vezes, falou-se em discutir a questão de gênero, de raça e etnia nas Assembléias. Os problemas identificados devem ser imediatamente direcionados para estudos objetivando estratégias, mecanismos que busquem a solução das dificuldades, dos conflitos e das diferenças.

Quando a rosa desabrocha, as abelhas vêm espontaneamente sugar-lhe o mel. Deixemos que a rosa de nosso coração, de nossa alma e caráter desabroche completamente na sociedade brasileira, a partir de um testemunho de nossa capacidade, auto-gestão, diálogo e ética, para que essa sociedade desconstrua, rapidamente, o discurso e prática atuais que causam a exclusão de povos indígenas. Os resultados e o respeito aparecerão.
Pensadores e escritores indígenas: Contem e criem então!

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Fonte:

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E-Book indígena divulga trabalho de 11 escritores em defesa de suas tradições

Esse e-book é como um cartão de visita para os autores indígenas, já que divulgam seus trabalhos aos órgãos governamentais, à universidade local, entre outros locais”. A afirmação de Eliane Potiguara, escritora indígena da comunidade Potiguara e coordenadora da Rede de Escritores Indígenas da Inbrape (Instituto Indígena de Propriedade Intelectual) e o Grupo Mulher-Educação Indígena (Grumin), ressalta a importância do primeiro e-book com textos indígenas.

O Núcleo de Escritores Indígenas (NEI) do Inbrapi, o Grumin/Rede de Comunicação Indígena e Vanderli Medeiros Produções Digitais prepararam o e-book. O livro pretende promover autores indígenas, incentivar estes povos à escrita, divulgar o pensamento indígena, usufruir a ferramenta da internet para divulgar o trabalho dos autores a um baixo custo e disponibilizar este material em diversos sites.

Segundo Eliane, foram enviados cerca de 20 textos, sendo 11 contos publicados. “Recebemos muito material, mas o dinheiro foi o problema já que o projeto não recebeu apoio de nenhum órgão da educação, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Contamos apenas com a ajuda e um artista plástico e a produtora Vanderli Medeiros, responsável pela parte física do livro“, esclarece a organizadora do e-book.

O livro apresenta contos de várias comunidades indígenas, como guarani, potiguara, entre outros. Yaguarê Yamá, Olívio Jecupé, Daniel Mundukuru, Eliane Potiguara, Lúcio Flores, Kerexu Mirim, Manuel Moura Tukano, Florêncio Vaz, Juvenal Payáyá, Adelmário Ribeiro e Gabriel Gentil foram os autores deste primeiro e-book. “A gente quer jogar este livro na mídia, porque é importante as pessoas indígenas divulgarem seus trabalhos com escritores conhecidos e mostrar sua experiência nas editoras. As portas até agora foram fechadas para eles. É como se o povo indígena não tivesse capacidade para nada. Aquela mentalidade do código civil brasileiro em que dizia que os índios eram menores de idades ainda existe. A gente ainda sente um olhar diferente sobre o indígena“, ressalta Eliane.

Formada em Letras, a organizadora do primeiro e-book é conhecida pela sua atuação na defesa dos direitos indígenas e foi indicada para o Projeto Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz entre 52 brasileiras indicadas. Além disso, foi nomeada uma das “Dez Mulheres do Ano de 1998”, pelo Conselho das Mulheres do Brasil e por ter criado a primeira organização de mulheres indígenas no país, o Grumin. É ainda empreendedora social da ASHOKA, membro do Women´s Writes World e autora do livro “Metade cara, metade máscara”, que aborda a questão indígena no Brasil.

Com objetivo de levar mais informações para as comunidades indígenas, o Grumin, segundo Eliane, é uma rede de comunicação indígena que trabalha para levantamento de projetos de financiamento na área indígena. Ou seja, luta pela democratização da informação. No seu primeiro jornal, costumava denunciar a invasão dos garimpeiros e madeireiros nas terras indígenas. “Colocávamos a opinião do indígena no jornal e levávamos o debate no campo internacional¸ para a Organização das Nações Unidas (ONU). Fizemos até um relatório e recebemos comissão da ONU. Recebemos ainda uma Comissão de Combate ao Racismo, em 1996. Como sofri ameaça de morte no final de 1992, paramos de publicar este material cerca de dois anos e decidi retomar meu trabalho por meio da literatura para chegar sem muito alarde“, explica Eliane.

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O e-book pode ser baixado no site http://www.elianepotiguara.org.br/home.html
Fonte:
Aragarças-Goiás/Brasil. 23 setembro 2005. por Susana Sarmiento.
http://www.jlocal.com.br/geral.php?pesquisa=1544

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Antonio Augusto de Assis (Trovas)

Amai-vos, e as derradeiras
muralhas hão de cair.
– Havendo amor, as barreiras
não têm razão de existir!

Sonhador desde criança,
não sonho entretanto em vão.
No sonho eu nutro a esperança,
que nutre o meu coração!

Querida, eu comparo a gente
às asas de um passarinho:
um sem outro, certamente,
não se equilibra sozinho!

Há honestos que não são bons;
há bons que honestos não são.
– É a soma desses dois dons
que faz o bom cidadão.

Afinal, que te aproveita
o labor que te consome,
se não doas, da colheita,
uma parte a quem tem fome?…

Vinde, amigos, vinde e vede
o quanto pode o perdão:
derruba qualquer parede
que nos separe do irmão!

Vaidade, doença triste
que nos condena a estar sós…
Não nos deixa ver que existe
ninguém mais além de nós.

A vida jamais se encerra,
e é bom sermos imortais:
– Amar você só na Terra
seria pouco demais!

Ismo, ismo, ismo, ismo…
e o medo está sempre em alta…
Experimentem lirismo,
que talvez seja o que falta!

O mundo esqueceu que existe
o ponto de exclamação…
De tão seco, amargo e triste,
perdeu de vez a emoção!

A natureza protesta
sempre que alguém a maltrata.
Se matas uma floresta,
vem o deserto e te mata!

Ontem, hoje e sempre o Amor
vem o belo construindo,
desde quando o Criador
fez do caos um mundo lindo.

Ah, que profunda saudade
invade uma Academia
a cada vez que um confrade
deixa a cadeira vazia!

Os milênios passarão,
mas o que é bom permanece:
O Sol que aqueceu Adão
é o mesmo que nos aquece.

Se o mundo é espaço pequeno
para dois, quando se peitam,
num minúsculo terreno,
sendo irmãos, dois mil se ajeitam.

São de cristal ou de barro
nossas vaidades… tão só.
Um baque, um tombo, um esbarro,
e tudo reduz-se a pó!

O que ocorre às águas claras,
na alma pura se repete:
dá-se às vezes, e não raras,
que um sujinho as compromete.

No pico da quarta idade,
o quadro se faz assim:
ou se crê na eternidade,
ou se põe na tela: “Fim”…

A palavra acalma e instiga;
a palavra adoça e inflama.
Com ela é que a gente briga;
com ela é que a gente ama!

Olhe os poetas e as aves…
Veja que, embora não plantem,
Deus lhes retira os entraves
e apenas pede-lhes: – Cantem!

O sol engravida a chuva,
e a terra se faz seu ninho;
no ninho se faz a uva,
e a uva desfaz-se em vinho!

Vestem-se as águas de prata,
saltam no espaço vazio.
Findo o show da catarata,
sereno refaz-se o rio…

Certeza só têm os rios
sobre aonde vão chegar…
Por mais que sofram desvios,
seu destino é sempre o mar.

Astronauta, não destrua
meu direito de sonhar…
Deite e role sobre a Lua,
porém me deixe o luar!

Tem muito mais graça a vida
quando a gente tem com quem
repartir bem repartida
a graça que a vida tem!

********************
Sobre o Autor
Nasceu em São Fidélis – Estado do Rio de Janeiro, no dia 07 de abril de 1933. Filho de Pedro Gomes de Assis e Maria Ângela Guimarães de Assis. Casado com a professora Lucilla Maria Simas de Assis, tem duas filhas e cinco netos.
Residente em Maringá-PR desde janeiro de 1955. Hoje aposentado, foi jornalista e também professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá.
Integrante da Academia de Letras de Maringá (Cadeira no. 27 – Patrono: Manuel Bandeira), da UBT – União Brasileira de Trovadores (seção de Maringá) e da Academia Virtual de Letras Luso-Brasileira. Editor da revista eletrônica Trovia (da UBT-Maringá) e co-editor da revista eletrônica Trovamar (da UBT-Balneário Camboriú).
Autor de Robson, Itinerário, Bate-papo, Trovas de paz e amor, Os quebra-molas do casamento, Lufa-lufa, Chiquinho, Felicidade sem camisa, Da arte de ser pai, Desafio do amor, Carta aos moços, Xangrilá, O português nosso de cada dia, Poêmica, Caderno de Trovas e A missa em trovas.

Fontes:
http://www.afacci.com.br/2007/j3.htm
http://www.avllb.org/academicos/007/biografia.html

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Jeanette Monteiro de Cnop (2 Poesias e 1 Trova)

Dualidades

Não sei se te quero homem velho:
cheio de histórias e segredos
e formalidades…
ou se te quero menino-moleque
entre ansiedades
e fantasias,
pedindo meu colo…
Não sei se te quero entre trabalhos:
máquinas modernas,
empenhos e responsabilidades…
ou se te quero criatividade,
fazendo brotar, ludicamente,
mil programações…
Não sei se te quero razão:
maduramente se posicionando
acerca de problemas, carências e dores…
ou se te quero sonhando acordado,
cheio de emoções,
a curtir sua música predileta…

Tens um lado de brilho que me encanta,
e um lado de sombras que me assusta…

Enquanto isso,
sou festa e arrebatamento
– adolescente-poeta abrindo o coração –
e sou receios,
sem saber como lidar
com o sentimento novo
que me invade…

Ambigüidades à parte,
só sei – por inteiro –
que sonho acordada
te ver chegando
(sorriso-chamego),
nas asas da ternura,
numa tarde de sol,
pro meu aconchego…

Duas crianças

Em alguma folha
do livro competente,
no cartório da vida,
arquive-se o acordo,
como segue.

Prometo :
a menina curiosa,
arteira e sensível
que aflora, irrompe, desabrocha
e explode em mim
acolhe você,
moleque travesso, irreverente,
deliciosamente sedutor
(ainda que envolto em dualidades e mistérios)
para juntos caminharem
sonhadoramente,
em meio a castelos de nuvens
branquinhas, gordas de fantasias
e desejos compartilhados,
em direção
à porta do céu.

Trova

Nem sempre a felicidade
vem da vitória ou da fama:
pode estar numa saudade
ou nos sonhos de quem ama!
Jeanette Monteiro De Cnop

************************
Sobre a Autora
Pertence à Academia de Letras de Maringá, Cadeira nº. 01 – Patrono: Adelmar Tavares
Professora universitária, doutora em Letras. Nasceu em Itaperuna – RJ, no dia 14 de novembro de 1944. Autora dos textos acadêmicos Discursos de professores aposentados: perspectivas de vida e Produção de textos em cooperação por pessoas da Terceira Idade, e do livro: Tecelã de textos – vivências de uma professora de Língua Portuguesa. Tem participado de várias coletâneas.

Fontes:
http://www.afacci.com.br/2007/j3.htm
60 Trovas de Saudade. (A.A. de Assis – Org.) – 2005 . Disponível em http://www.arturdatavola.com/60_Trovas_de_Saudade.html

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Literatura em Luto (Falecimento de Antonio Facci)

E-mail enviado pelo Acadêmico Trovador A. A. de Assis

Lamentamos informar que nesta data, 10 de março de 2008, vítima de infarto, faleceu o escritor ANTÔNIO FACCI, presidente da Academia de Letras de Maringá e integrante da UBT Maringá.

Uma perda irreparável para esta cidade e uma saudade que ficará eterna no coração de todos nós que que tivemos o privilégio de com ele conviver.
A. A. de Assis

Foi decretado luto oficial de três dias.

O corpo será velado hoje (10) na Câmara Municipal de Maringá.

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